{"id":19279,"date":"2023-05-22T12:11:39","date_gmt":"2023-05-22T15:11:39","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=19279"},"modified":"2023-05-14T18:13:23","modified_gmt":"2023-05-14T21:13:23","slug":"a-atualidade-do-pensamento-de-karl-marx","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/05\/22\/a-atualidade-do-pensamento-de-karl-marx\/","title":{"rendered":"A atualidade do pensamento de Karl Marx"},"content":{"rendered":"<p><strong>JOS\u00c9 RAIMUNDO TRINDADE<\/strong> &#8211; O pensador alem\u00e3o nos faz vislumbrar a urg\u00eancia da ruptura hist\u00f3rica com o capitalismo e sua ess\u00eancia degradante das for\u00e7as da natureza e do trabalho.<\/p>\n<p>O artigo que segue faz parte ainda das comemora\u00e7\u00f5es decorrentes dos 205 anos de nascimento do autor\u00a0<em>O capital<\/em>\u00a0(1867). A quest\u00e3o que nos orienta, neste breve texto, \u00e9 a indaga\u00e7\u00e3o quanto a atualidade de Marx para compreens\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o desse capitalismo desenfreado e sem nenhuma guia de controle desta segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI. Para tratarmos desta contemporaneidade do maior pensador anticapitalista da hist\u00f3ria moderna, faremos uma exposi\u00e7\u00e3o em quatro se\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Primeiramente apresentaremos nossa percep\u00e7\u00e3o do significado hist\u00f3rico da principal obra de maturidade de Marx:\u00a0<em>O capital<\/em>, considerando dois eixos de exposi\u00e7\u00e3o: seu papel na compreens\u00e3o da modernidade, estabelecida a partir da din\u00e2mica capitalista e sua historicidade; e sua significa\u00e7\u00e3o enquanto obra de estabelecimento de padr\u00e3o de cientificidade para as ci\u00eancias sociais, \u201castronomia social\u201d, nos termos de Desai (2003) ou estabelecimento do \u201cContinente-Hist\u00f3ria\u201d, nos termos de Althusser (2013).<\/p>\n<p>No segundo momento, buscamos apresentar elementos da totalidade da din\u00e2mica de acumula\u00e7\u00e3o expostas em\u00a0<em>O capital<\/em>, considerando as categorias desenvolvidas e o seu papel nas ci\u00eancias sociais e especificamente na economia pol\u00edtica. Na terceira se\u00e7\u00e3o tratamos do desenvolvimento hist\u00f3rico do capitalismo e como o marxismo nos deu pistas para entendimento do seu devir. Por fim, na \u00faltima se\u00e7\u00e3o, busca-se tratar, muito sinteticamente, os limites cr\u00edticos desse sistema: sua din\u00e2mica c\u00edclica de crises; seus limites sociais e ambientais.<\/p>\n<p><strong><em>O capital<\/em><\/strong><strong>\u00a0enquanto obra cl\u00e1ssica<\/strong><\/p>\n<p>Italo Calvino (2004), literato \u00edtalo-cubano e leitor atento da literatura universal, estabeleceu quatorze caracteriza\u00e7\u00f5es ou defini\u00e7\u00f5es explicativas enquanto eixos motivadores para se ler as obras cl\u00e1ssicas. Para Calvino um autor ou obra cl\u00e1ssica \u00e9, antes de tudo, aquela obra que excita permanente releitura, sendo que a cada nova leitura se redescobre o autor e se lan\u00e7a nova luz sobre quest\u00f5es at\u00e9 ent\u00e3o obscuras e, mas do que isso, sempre propicia novas descobertas.<\/p>\n<p>Consideramos que podemos aplicar as quatorze motiva\u00e7\u00f5es estabelecidas por Calvino a principal obra madura de Marx. Vejamos algumas das adu\u00e7\u00f5es de Calvino: \u201cOs cl\u00e1ssicos s\u00e3o aqueles autores dos quais, em geral, se ouve dizer: \u201cEstou relendo\u2026e nunca Estou lendo\u2026\u201d. Boa parte daqueles que j\u00e1 se aventuraram na leitura de\u00a0<em>O capital<\/em>\u00a0quase obrigatoriamente se v\u00eam na necessidade de rel\u00ea-lo, sendo que a cada leitura se descobre novidades, diga-se que esta continua redescoberta de novidades constitui outra defini\u00e7\u00e3o de Italo Calvino sobre o que seria uma obra cl\u00e1ssica (quinta defini\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p><em>O capital<\/em>\u00a0nos aparece como uma obra que \u201cnunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer\u201d (sexta defini\u00e7\u00e3o). Diga-se que em fins do s\u00e9culo XX, Eric Hobsbawm (2011) foi procurado por quem menos se esperava: um editor de uma revista de neg\u00f3cios, cujos principais leitores s\u00e3o capitalistas financeiros do Wall Street, para falar-lhes sobre a obra de Marx, \u00f3bvio que o velho historiador ingl\u00eas ficou bem espantado. As diferentes leituras que podemos fazer de<em>\u00a0O capital<\/em>\u00a0abrange desde uma percep\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do desenvolvimento do capitalismo, das nuan\u00e7as das formas l\u00f3gicas e dial\u00e9ticas do trabalho e da estrutura complexa da forma mercadoria, at\u00e9 a percep\u00e7\u00e3o ensa\u00edstica da literatura universal.<a id=\"_ednref1\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-atualidade-do-pensamento-de-karl-marx%2F#_edn1\">[i]<\/a><\/p>\n<p>Italo Calvino, ainda nos fala, que \u201cum cl\u00e1ssico \u00e9 uma obra que provoca incessantemente uma nuvem de discursos cr\u00edticos, mas continuamente as repele para longe\u201d e que uma obra cl\u00e1ssica \u201cse configura como equivalente do universo\u201d, ou seja, apreende a totalidade.\u00a0<em>O capital<\/em>, ao longo dos \u00faltimos dois s\u00e9culos estabeleceu um universo pr\u00f3prio de interpreta\u00e7\u00f5es, seja de cr\u00edticos n\u00e3o marxistas ou antimarxistas, seja de alentados int\u00e9rpretes e comentadores. Como nos lembra novamente Eric Hobsbawm (2011) em pesquisa no Google, Marx comparece ao lado de Einstein e Darwin como as \u201cgrandes presen\u00e7as intelectuais\u201d da modernidade.<\/p>\n<p>A modernidade enquanto l\u00f3gica hist\u00f3rica definida pela ascens\u00e3o e desenvolvimento do capitalismo, j\u00e1 tinha sido tratada de forma contundente por Marx e Engels no\u00a0<em>Manifesto do Partido Comunista<\/em>\u00a0(1848), sendo famosa a express\u00e3o: \u201cTudo que \u00e9 s\u00f3lido se desmancha no ar\u201d, para tratar a condi\u00e7\u00e3o transformadora, criadora e destruidora da for\u00e7a social expressa pelo capital, enquanto rela\u00e7\u00e3o social. Entretanto, o que se observa no tratamento anal\u00edtico desenvolvido em sua principal obra, \u00e9 que a modernidade capitalista se constitui e uma for\u00e7a destrutiva que aliena n\u00e3o somente parcela da humanidade, mas imp\u00f5e uma crescente expansividade que a\u00e7ambarcar\u00e1 e destruir\u00e1 o pr\u00f3prio metabolismo da natureza.<\/p>\n<p>As rela\u00e7\u00f5es entre os homens no capitalismo aparecem mediadas pelas mercadorias, sendo que \u201cas rela\u00e7\u00f5es entre os produtores, nas quais se efetivam aquelas determina\u00e7\u00f5es sociais de seu trabalho, assumem a forma de uma rela\u00e7\u00e3o social entre os produtos do trabalho\u201d. As rela\u00e7\u00f5es sociais apresentam, deste modo, a forma de rela\u00e7\u00f5es entre coisas, de tal maneira que a intera\u00e7\u00e3o que se estabelece entre os indiv\u00edduos acaba por ser sancionada pelo poder de compra de cada um e, no atual regime neoliberal, pela perda quase que completa de mecanismos de regula\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>David Harvey (1993), enquanto interlocutor contempor\u00e2neo de Marx, observa que o contingenciamento humano frente \u00e0s mercadorias imp\u00f5e que as \u201ccondi\u00e7\u00f5es de trabalho e de vida, a alegria, a raiva ou frustra\u00e7\u00e3o que est\u00e3o por tr\u00e1s da produ\u00e7\u00e3o de mercadorias, os estados de \u00e2nimo dos produtores, tudo isso est\u00e1 oculto de n\u00f3s ao trocarmos um objeto (o dinheiro) por outro (a mercadoria)\u201d, de outro modo se estabelece no atual momento da sociedade capitalista mundial uma mercantiliza\u00e7\u00e3o totalit\u00e1ria.<\/p>\n<p>No cerne da modernidade, como trata Marx, est\u00e1 a generaliza\u00e7\u00e3o da forma de produ\u00e7\u00e3o de mercadorias, sendo que a partir desta \u00e9poca hist\u00f3rica, observa-se a coisifica\u00e7\u00e3o do trabalho, estabelecida historicamente a mercadoria for\u00e7a de trabalho, cujo processo de compra e venda da mesma e a explora\u00e7\u00e3o do trabalhador se tornam o centro da din\u00e2mica social inaugurada com as amplas transforma\u00e7\u00f5es sociais, geogr\u00e1ficas e tecnol\u00f3gicas desde o s\u00e9culo XVI.<\/p>\n<p>A descoberta feita por Marx, a partir da leitura atenciosa da economia-pol\u00edtica cl\u00e1ssica e da aplica\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo dial\u00e9tico a realidade concreta do capitalismo ingl\u00eas, respondeu \u00e0 pergunta chave: como se origina o lucro? Do mesmo modo respondeu indaga\u00e7\u00f5es fundamentais sobre a acumula\u00e7\u00e3o de capital e da forma como a riqueza social \u00e9 distribu\u00edda.<\/p>\n<p>A mercadoria for\u00e7a de trabalho apresenta a peculiar particularidade de produzir mais valor, de tal forma que o trabalhador ao trocar sua capacidade de trabalho por uma quantidade de dinheiro na forma sal\u00e1rio, vende uma quantidade de tempo de trabalho superior \u00e0quela necess\u00e1ria a sua pr\u00f3pria reprodu\u00e7\u00e3o f\u00edsica e social. Assim, o lucro refere-se a parte do tempo de trabalho que excede aquela magnitude necess\u00e1ria a reprodu\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio trabalhador, da\u00ed sal\u00e1rio e lucro serem irm\u00e3os siameses ambos os filhos do esfor\u00e7o laboral, uma condi\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca do outro, um esfor\u00e7o reprodutivo normal, outra condi\u00e7\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o e perman\u00eancia do capitalismo.<\/p>\n<p>O modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista evoluiu pelo revolucionar das t\u00e9cnicas e da organiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, seu desiderato imp\u00f5e a permanente transforma\u00e7\u00e3o do processo de trabalho e altera\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica.<a id=\"_ednref2\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-atualidade-do-pensamento-de-karl-marx%2F#_edn2\">[ii]<\/a>\u00a0A divis\u00e3o social e t\u00e9cnica do trabalho altamente organizada no capitalismo, congemina e alavanca um processo de crescimento econ\u00f4mico, acumula\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o ampliada do capital, cuja integridade sist\u00eamica fundamenta-se na exist\u00eancia do trabalho assalariado, inserido na din\u00e2mica do processo mercantil.<\/p>\n<p>O acelerado desenvolvimento tecnol\u00f3gico emerge como resultante da ess\u00eancia concorrencial capitalista, cuja nuan\u00e7a hist\u00f3rica mais percept\u00edvel \u00e9 a cont\u00ednua e perene cria\u00e7\u00e3o e elis\u00e3o de investimentos e habilidades de trabalho. A este n\u00edvel observa-se a capacidade destrutiva-criadora como uma verdadeira for\u00e7a, cuja autonomia relativa frente aos micros e macro arranjos institucionais, leva o capitalismo a peri\u00f3dicos paroxismos de crises.<\/p>\n<p>As transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas ao longo dos \u00faltimos dois s\u00e9culos desencadearam um movimento de aumento acelerado na produtividade do trabalho, \u201cjunto com uma s\u00e9rie de acontecimentos que ampliaram o campo do investimento e o mercado de bens de consumo, em grau sem precedente\u201d (Dobb, 1985). Marx (2013) antecipou parte desses movimentos, sendo que em particular sua an\u00e1lise do desenvolvimento da \u201cGrande Ind\u00fastria\u201d estabeleceu uma fonte fundamental de entendimento para as altera\u00e7\u00f5es recentes dos processos produtivos, pois de uma maneira geral os fatores de concentra\u00e7\u00e3o e centraliza\u00e7\u00e3o do capital foram as principais for\u00e7as expansivas e que a partir das empresas multinacionais definiram o palco global como sendo a arena de disputa das for\u00e7as capitalistas.<\/p>\n<p><strong>As categorias de\u00a0<em>O capital<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o do pensamento marxiano se deu desde uma perspectiva que denominar\u00edamos na atualidade de multidisciplinar. Como corretamente tratou Jacob Gorender (2013),\u00a0<em>O capital<\/em>, \u00e9 essencialmente uma \u201cobra de unifica\u00e7\u00e3o interdisciplinar das ci\u00eancias humanas\u201d. Numa \u00e9poca como a nossa em que a fragmenta\u00e7\u00e3o disciplinar cobra elevado pre\u00e7o, seja pela mesquinhez na compreens\u00e3o da complexa realidade do capitalismo, seja por tornar os pesquisadores das ci\u00eancias sociais meros analistas de dados, esta dimens\u00e3o assume forte relev\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Assim, o pensamento de Marx e sua capacidade de integrar a economia, a hist\u00f3ria, a geografia, a filosofia, a sociologia, a demografia e a antropologia num todo interativo, tem que ser revisitado e estabelecido enquanto robusto instrumental de an\u00e1lise da sociedade capitalista e de ferramenta de a\u00e7\u00e3o transformadora sobre a mesma. Eric Hobsbawm (2011) destacava que o pensamento de Marx ia al\u00e9m \u201cde um pensamento \u2018interdisciplinar\u2019 no sentido convencional, mas integrava todas as disciplinas\u201d em uma \u201cabrang\u00eancia universal\u201d.<\/p>\n<p>Da mesma forma Louis Althusser (2013) ilustrava o significado de<em>\u00a0O capital<\/em>\u00a0a partir de uma percep\u00e7\u00e3o abrangente, a ideia de um \u201ccontinente-hist\u00f3ria\u201d, ou seja, um \u201csistema de conceitos (portanto, da teoria cient\u00edfica)\u201d que estabeleceu as condi\u00e7\u00f5es de desenvolvimento das ci\u00eancias sociais. O referido \u201ccontinente-hist\u00f3ria\u201d supunha um elevado grau de complexidade no desenvolvimento de suas categorias, n\u00e3o havendo linearidade nem tampouco movimento causais simples na caracteriza\u00e7\u00e3o da sociedade ou na compreens\u00e3o da sua din\u00e2mica.<\/p>\n<p>Por exemplo, a interpreta\u00e7\u00e3o marxiana de mercadoria se apresenta como um inv\u00f3lucro de uma ess\u00eancia interior, o valor, sendo que somente na modernidade, no atual modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, \u00e9 que todo trabalho dispendido socialmente tem como \u00fanico objetivo produzir valor, cuja express\u00e3o exterior chama-se valor de troca. Conv\u00e9m observar que o marxismo n\u00e3o reivindica a abrang\u00eancia ou forma cient\u00edfica un\u00e2nime para as ci\u00eancias sociais, muito ao inv\u00e9s, a astronomia social proposta se enreda do conjunto de contribui\u00e7\u00f5es de outras epistemologias, buscando dialogar e se enriquecer com categorias que sejam radicais na interpreta\u00e7\u00e3o da contemporaneidade.<\/p>\n<p><strong>A constru\u00e7\u00e3o das categorias e a din\u00e2mica de acumula\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>No capitalismo, a rela\u00e7\u00e3o capital \u00e9 a de apropria\u00e7\u00e3o da mais-valia fundada em rela\u00e7\u00f5es contratuais entre o capitalista (comprador da mercadoria for\u00e7a de trabalho) e o trabalhador (vendedor da mercadoria for\u00e7a de trabalho). Entre eles trava-se uma troca de equivalentes no processo de circula\u00e7\u00e3o de mercadorias: a for\u00e7a de trabalho, mercadoria que \u00e9 a \u00fanica propriedade do trabalhador, \u00e9 comprada pelo capitalista, que oferece em troca a forma monet\u00e1ria sal\u00e1rio, o pre\u00e7o da mercadoria for\u00e7a de trabalho. Essa aparente igualdade na forma do trato jur\u00eddico torna a rela\u00e7\u00e3o salarial condi\u00e7\u00e3o central tanto da reprodu\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do sistema, quanto da sua configura\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O valor monet\u00e1rio da for\u00e7a de trabalho (sal\u00e1rio) equivale ao valor do capital vari\u00e1vel (meios de reprodu\u00e7\u00e3o do trabalhador). Desta troca de equivalentes se estabelece o princ\u00edpio da igualdade jur\u00eddica burguesa. A apar\u00eancia reside na oculta\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de mais-valor que se d\u00e1 no processo produtivo, portanto fora da esfera da circula\u00e7\u00e3o. A esfera da circula\u00e7\u00e3o, tomada como fonte de evid\u00eancia, seja para o direito burgu\u00eas, seja para a economia-pol\u00edtica burguesa, \u00e9, segundo Marx (198), \u201co para\u00edso dos direitos inatos do homem, onde s\u00f3 reinam liberdade, igualdade, propriedade e Bentham\u201d<em>.<\/em><\/p>\n<p>Ao vender a mercadoria for\u00e7a de trabalho, o trabalhador aliena n\u00e3o a propriedade \u2013 o que configuraria escravid\u00e3o \u2013 mas a posse provis\u00f3ria sobre seu funcionamento ou uso no processo de trabalho. Deste modo, o capitalista passa a dispor funcionalmente da for\u00e7a de trabalho, utilizando-a sob condi\u00e7\u00f5es m\u00e9dias, normais e regulamentares. Ao funcionar no processo produtivo, a for\u00e7a de trabalho desenvolve um triplo movimento: (i) conserva valor, garantindo a reprodu\u00e7\u00e3o do capital constante; (ii) expande valor, possibilitando a reprodu\u00e7\u00e3o do trabalhador, ou seja, reproduz o valor adiantado na forma de capital vari\u00e1vel; e (iii) expande valor, produzindo um excedente n\u00e3o pago pelo capitalista ao trabalhador. A mais-valia, ao ser apropriada pelo capitalista, n\u00e3o conforma nenhuma quebra nas regras de troca de equivalentes, ou seja, n\u00e3o \u00e9 extors\u00e3o, na medida em que \u00e9 um momento do uso da mercadoria for\u00e7a de trabalho e n\u00e3o um \u201cmomento\u201d do processo de troca. Uma importante caracter\u00edstica da domina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica burguesa \u00e9 que mediante o uso das formas positivas do direito de propriedade ela oculta a explora\u00e7\u00e3o e aliena\u00e7\u00e3o da mais-valia.<\/p>\n<p>O desenvolvimento das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o capitalistas colocou em quest\u00e3o um aspecto inusitado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s formas econ\u00f4micas e sociais anteriores a mesma: a completa aliena\u00e7\u00e3o da natureza e do trabalho humano. As for\u00e7as de cria\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o desenvolvidas sob o capitalismo colocaram a possibilidade de toda a natureza se tornar em potencial objeto de trabalho humano, mesmo que conjunturalmente somente uma parcela desta torne-se de fato mat\u00e9ria-prima e mat\u00e9ria auxiliar do processo produtivo.<\/p>\n<p>Toda riqueza social no capitalismo decomp\u00f5e-se em tr\u00eas componentes: (i) capital constante, que abrange as magnitudes monet\u00e1rias dos meios de produ\u00e7\u00e3o, capital imobilizado em m\u00e1quinas e equipamentos, imobilizado em infraestrutura, mat\u00e9ria-prima e insumos energ\u00e9ticos e outros em geral; (ii) capital vari\u00e1vel, referente ao somat\u00f3rio de sal\u00e1rios pagos na economia e; (iii) o valor liquido criado a cada novo ciclo reprodutivo do capital e que ao realizar-se no mercado perfaz as formas de renda (lucro do empres\u00e1rio, juros dos banqueiros e capitalistas financeiros, renda fundi\u00e1ria e tributos do Estado) e de novo capital a ser reinvestido na reprodu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A natureza especulativa e expansiva intr\u00ednseca do capital o impinge a acelerar permanentemente a velocidade rotacional dos seus ciclos de produ\u00e7\u00e3o, tornando os tempos de produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o cada vez menores. Para os capitalistas em geral \u00e9 central que o seu valor-capital se fixe o menor tempo poss\u00edvel em cada ciclo reprodutivo, por mais que isso seja inevit\u00e1vel. Assim, mediante diversos expedientes, como o sistema de cr\u00e9dito, inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, a\u00e7\u00f5es reguladoras do Estado, com\u00e9rcio exterior e etc., observa-se a acelera\u00e7\u00e3o rotacional do capital, diminuindo os tempos de produ\u00e7\u00e3o e de circula\u00e7\u00e3o, garantindo uma crescente expans\u00e3o de valor e uma arte que \u201cn\u00e3o \u00e9 um meio para um fim, mas um fim em si mesma\u201d, algo que o filosofo grego Arist\u00f3teles denominou de \u201ccremat\u00edstica\u201d, uma forma autonomizante que se expande e devora seus pr\u00f3prios substratos, ou seja, a natureza e o trabalho humano.<\/p>\n<p><strong>Os limites do capitalismo<\/strong><\/p>\n<p>A economia capitalista n\u00e3o se desenvolve enquanto um ciclo regular de ascens\u00e3o gradual e constante, como lhe atribui \u00e0s an\u00e1lises econ\u00f4micas convencionais. Os movimentos de ascens\u00e3o, recess\u00e3o, estagna\u00e7\u00e3o, estabilidade etc., n\u00e3o s\u00e3o lineares, tendo padr\u00f5es mais ca\u00f3ticos que propriamente regulares. Vale apontar para a condicionalidade entre reprodu\u00e7\u00e3o e crise do sistema, de tal forma que o termo crise deve ser entendido como \u201cum conjunto de falhas nas rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e pol\u00edticas da reprodu\u00e7\u00e3o capitalista\u201d (SHAIKH, 2006).<\/p>\n<p>Por mais que Marx n\u00e3o tenha desenvolvimento uma compreens\u00e3o geral da crise enquanto fen\u00f4meno anal\u00edtico, por\u00e9m observa-se nos seus textos de maturidade que o capitalismo enquanto fen\u00f4meno espacial e hist\u00f3rico estaria sujeito a \u201ccrises parciais\u201d e \u201ccrises gerais\u201d. As crises parciais s\u00e3o caracteristicamente c\u00edclicas, irrompendo em espa\u00e7os localizados ou rompendo as rela\u00e7\u00f5es regulares de acumula\u00e7\u00e3o de capital setorialmente, logo, \u201cconstituem um tra\u00e7o regular da hist\u00f3ria do capitalismo\u201d (SHAIKH, 2006). As crises gerais s\u00e3o menos epis\u00f3dicas e refletem um \u201ccolapso generalizado\u201d nas rela\u00e7\u00f5es de reprodu\u00e7\u00e3o capitalistas, s\u00e3o, portanto, fen\u00f4menos cr\u00edticos, podendo evoluir desde crises parciais, somente localizadas, a depress\u00f5es econ\u00f4micas de grande impacto social e pol\u00edtico.<\/p>\n<p>O esgotamento da natureza constitui o n\u00f3 cr\u00edtico da l\u00f3gica do modelo capitalista de desenvolvimento. Marx (2013) ponderava que nunca se deveria considerar o valor-de-uso o objetivo imediato capitalista e, tampouco, a obten\u00e7\u00e3o de lucro isoladamente. O objetivo capitalista \u00e9 o incessante processo de obten\u00e7\u00e3o de lucro, \u201cn\u00e3o h\u00e1 qualquer limite a seu objetivo \u00faltimo, que \u00e9 o enriquecimento absoluto\u201d. Como tratado acima, a acumula\u00e7\u00e3o capitalista \u00e9, portanto, uma arte cremat\u00edstica.<\/p>\n<p>Sendo um fim em si mesmo, seu limite parece ser o completo dom\u00ednio das for\u00e7as naturais, absorvendo e tornando valor ou riqueza alienada a totalidade da natureza. No limite a completa exaust\u00e3o da natureza e do pr\u00f3prio planeta parece ser o fim \u00faltimo da arte cremat\u00edstica que \u00e9 o capitalismo.<\/p>\n<p>A atualidade de Marx nos possibilita vislumbrar o quanto a ruptura hist\u00f3rica com o capitalismo e sua ess\u00eancia degradante das for\u00e7as da natureza e do trabalho est\u00e1 colocada enquanto necessidade premente civilizacional humana.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>ATTALI, Jacques.\u00a0<em>Karl Marx ou o esp\u00edrito do mundo<\/em>. S\u00e3o Paulo: Record, 2007.<\/p>\n<p>ALTHUSSER, L. Advert\u00eancia aos leitores do Livro I d\u2019O capital. In: MARX, Karl.\u00a0<em>O Capital<\/em>, Livro I. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2013.<\/p>\n<p>BERMAN, Marshall.\u00a0<em>Tudo que \u00e9 s\u00f3lido desmancha no ar<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1986.<\/p>\n<p>CALVINO, Italo.\u00a0<em>Por que ler os cl\u00e1ssicos<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2004.<\/p>\n<p>DESAI, Meghnad.\u00a0<em>A vingan\u00e7a de Marx<\/em>. S\u00e3o Paulo: C\u00f3dex, 2003.<\/p>\n<p>DOBB, M. A\u00a0<em>Evolu\u00e7\u00e3o do capitalismo<\/em>. S\u00e3o Paulo: Nova Cultural, 1988.<\/p>\n<p>GORENDER, J. Apresenta\u00e7\u00e3o [a O capital]. In: MARX, Karl.\u00a0<em>O Capital<\/em>, Livro I. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2013.<\/p>\n<p>HARVEY, David.\u00a0<em>Os limites do capital.<\/em>\u00a0S\u00e3o Paulo: Boitempo: 2013.<\/p>\n<p>HOBSBAWM, Eric.\u00a0<em>Como mudar o mundo<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2011.<\/p>\n<p>L\u00d6WY, Michael. AS AVENTURAS DE KARL MARX CONTRA O BAR\u00c3O DE M\u00dcNCHHAUSEN: Marxismo e Positivismo na Sociologia do Conhecimento, S\u00e3o Paulo: Editora Cortez, 1994.<\/p>\n<p>MARX, Karl.\u00a0<em>O Capital<\/em>, Livro I. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2013.<\/p>\n<p>SHAIKH, Anwar.\u00a0<em>Ensayos de economia pol\u00edtica<\/em>. Buenos Aires: RyR, 2006.<\/p>\n<p>TRINDADE, J. R. B. Energia e meio-ambiente: os limites da acumula\u00e7\u00e3o de capital. In:\u00a0<em>Conex\u00f5es<\/em>\u00a0(Revista do ICSA), v. 1, n.1, 2008.<\/p>\n<p>WHEEN, Francis.\u00a0<em>Karl Marx: Biografia<\/em>. S\u00e3o Paulo: Record, 2001.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p><a id=\"_edn1\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-atualidade-do-pensamento-de-karl-marx%2F#_ednref1\">[i]<\/a>\u00a0Marx se utiliza intensamente de obras cl\u00e1ssicas da literatura universal, o que faz da leitura de\u00a0<em>O Capital<\/em>\u00a0um \u201cpasseio\u201d fant\u00e1stico pelo que de melhor se produziu na literatura, por\u00e9m o uso dos grandes romancistas universais constitui uma ferramenta expositiva e dinamizadora da trama desenvolvida em o pr\u00f3prio O Capital, assim a modernidade \u00e9 vista como um enredo hist\u00f3rico no qual os personagens chaves s\u00e3o dialeticamente descortinados. Vale denotar as cita\u00e7\u00f5es de Shakespeare quanto a natureza humana; as refer\u00eancias a Goethe e o esp\u00edrito da modernidade inscrito no \u201cFausto\u201d, as alegorias de Alighieri e o destro\u00e7amento da exist\u00eancia humana, al\u00e9m do fant\u00e1stico uso de Cervantes e das lutas infernais do Quixote. Conferir para uma aprecia\u00e7\u00e3o art\u00edstica de Marx e da interlocu\u00e7\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o expositiva de\u00a0<em>O Capital<\/em>\u00a0e sua rela\u00e7\u00e3o com a literatura: Berman (1994); When (2005); Atalli (2007).<\/p>\n<p><a id=\"_edn2\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-atualidade-do-pensamento-de-karl-marx%2F#_ednref2\">[ii]<\/a>\u00a0Marx (198) define o trabalho como um \u201cprocesso de que participam o homem e a natureza, processo em que o ser humano com sua pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o, impulsiona, regula e controla seu interc\u00e2mbio material com a natureza\u201d. Os elementos componentes do processo de trabalho s\u00e3o: (i) a atividade adequada a um fim, isto \u00e9 o pr\u00f3prio trabalho; (ii) a mat\u00e9ria sobre a qual se aplica o trabalho, o objeto de trabalho; e, (iii) os meios de trabalho, o instrumental de trabalho.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: A atualidade do pensamento de Karl Marx &#8211; A TERRA \u00c9 REDONDA &#8211; https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-atualidade-do-pensamento-de-karl-marx\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>JOS\u00c9 RAIMUNDO TRINDADE &#8211; O pensador alem\u00e3o nos faz vislumbrar a urg\u00eancia da ruptura hist\u00f3rica com o capitalismo e sua ess\u00eancia degradante das for\u00e7as da natureza e do trabalho. O artigo que segue faz parte ainda das comemora\u00e7\u00f5es decorrentes dos 205 anos de nascimento do autor\u00a0O capital\u00a0(1867). 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