{"id":19202,"date":"2023-04-29T12:12:40","date_gmt":"2023-04-29T15:12:40","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=19202"},"modified":"2023-04-23T18:23:09","modified_gmt":"2023-04-23T21:23:09","slug":"empresas-de-armas-e-seguranca-miram-governo-e-policias-para-lucrar-com-guerra-urbana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/04\/29\/empresas-de-armas-e-seguranca-miram-governo-e-policias-para-lucrar-com-guerra-urbana\/","title":{"rendered":"Empresas de armas e seguran\u00e7a miram governo e pol\u00edcias para lucrar com \u201cguerra urbana\u201d"},"content":{"rendered":"<p><strong>Matheus Moura<\/strong> &#8211; <span style=\"font-size: 16px;\">P\u00fablica acompanhou primeira edi\u00e7\u00e3o da LAAD p\u00f3s governo Bolsonaro, a maior feira de armamento e defesa da Am\u00e9rica Latina.<\/span><\/p>\n<p>Uma telinha de televis\u00e3o mostra palestinos num bairro pobre e de ch\u00e3o batido correndo atr\u00e1s de um ve\u00edculo militar contra o qual jogam pedras e coquet\u00e9is-molotovs. Frente \u00e0s pedras, a m\u00e1quina de quatro rodas segue inc\u00f3lume pela estrada. \u201cL\u00e1 \u00e9 tenso mesmo\u201d, comentam dois agentes de seguran\u00e7a p\u00fablica que assistem ao v\u00eddeo com imagens do conflito de Gaza. Ao lado deles, o mesmo ve\u00edculo est\u00e1 exposto no estande da empresa brasileira Quartzo Defense, durante a LAAD 2023, a maior feira de armamento e defesa da Am\u00e9rica Latina, que ocorreu entre os dias 11 e 14 de abril, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro. A cerim\u00f4nia de abertura do evento teve discurso do ministro da Defesa, Jos\u00e9 M\u00facio Monteiro Filho. O governador do Rio, Cl\u00e1udio Castro, tamb\u00e9m participou da abertura.<\/p>\n<p>\u201cEstamos trazendo pro Brasil o mesmo carro usado pelas for\u00e7as israelenses\u201d, explica orgulhoso Andr\u00e9 Pereira Meire, 55 anos, diretor de tecnologia da empresa. A imagem, garante ele, ilustra perfeitamente a qualidade do David HX-8, \u201cmaterial mais do que testado em conflito urbano\u201d, afirma. O objetivo deles \u00e9 fornecer novos carros para as pol\u00edcias e as For\u00e7as Armadas (FAs) realizarem opera\u00e7\u00f5es em favelas com \u201cmais seguran\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Um oficial do Ex\u00e9rcito que observava o ve\u00edculo explicou \u00e0\u00a0<strong>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/strong>\u00a0que, numa opera\u00e7\u00e3o em favelas, esse \u00e9 o tipo de carro que entra logo ap\u00f3s o \u201ccaveir\u00e3o abrir as ruas\u201d. Interessado na qualidade do David HX-8, ele ponderou que talvez o Rio de Janeiro venha a substituir os atuais Iveco Linces pelo concorrente israelense.<\/p>\n<p>Novas muni\u00e7\u00f5es letais e n\u00e3o letais, ve\u00edculos blindados para invas\u00e3o de favelas, tecnologias de reconhecimento facial para as pol\u00edcias. Tal como a Quartzo Defense de Andr\u00e9 Meire, muitas das empresas que estavam no evento buscavam conquistar for\u00e7as de seguran\u00e7a p\u00fablica com produtos focados no mesmo objetivo: conflito ou guerra urbana, como chamam.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-124583 c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Foto1_Empresas-de-armas-e-seguranca-miram-governo-e-policias-para-lucrar-com-guerra-urbana.jpg?resize=800%2C533&amp;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Foto1_Empresas-de-armas-e-seguranca-miram-governo-e-policias-para-lucrar-com-guerra-urbana.jpg?w=800&amp;ssl=1 800w, https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Foto1_Empresas-de-armas-e-seguranca-miram-governo-e-policias-para-lucrar-com-guerra-urbana.jpg?resize=150%2C100&amp;ssl=1 150w, \" alt=\"Ministro Jos\u00e9 M\u00facio em discurso na abertura da LAAD, maior evento de armas da Am\u00e9rica Latina\" \/><\/p>\n<p><em>O ministro da Defesa, Jos\u00e9 M\u00facio Monteiro Filho, discursou na abertura da LAAD. Est\u00e1 \u00e9 a primeira edi\u00e7\u00e3o da feira ap\u00f3s governo de Jair Bolsonaro<\/em><\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>A empresa de blindagens que fez lucro \u2014\u00a0 e conex\u00f5es \u2014 no governo Bolsonaro<\/strong><\/p>\n<p>Num dos pavilh\u00f5es do Riocentro, a Combat Armor Defense do Brasil apresentava um ve\u00edculo blindado para concorrer no mercado brasileiro: o V-Raptor. Com produ\u00e7\u00e3o 100% brasileira e espa\u00e7o para seis ocupantes, o prot\u00f3tipo busca se diferenciar por pesar 4,5 toneladas, enquanto os concorrentes ficam na casa dos dois d\u00edgitos.<\/p>\n<p>A empresa, fundada h\u00e1 apenas quatro anos, teve um crescimento exponencial \u2014 e controverso \u2014 durante o governo de Jair Bolsonaro.\u00a0<a href=\"https:\/\/apublica.org\/2021\/05\/empresa-brasileira-de-blindagem-ligada-a-militante-de-trump-multiplica-capital-em-13-vezes-e-acumula-dividas\/\" rel=\"noreferrer noopener\">Reportagens da\u00a0<strong>P\u00fablica\u00a0<\/strong>revelaram\u00a0<\/a>que o capital social da Combat saltou de R$ 1 milh\u00e3o para mais de R$ 13 milh\u00f5es em menos de dois anos, crescimento impulsionado por acordos milion\u00e1rios com o poder p\u00fablico, incluindo R$ 36,5 milh\u00f5es em contratos com a Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria Federal (PRF). Ap\u00f3s fechar os contratos, a\u00a0<a href=\"https:\/\/apublica.org\/2023\/04\/ex-chefe-da-prf-de-bolsonaro-pediu-emprego-em-empresa-que-recebeu-milhoes-em-sua-gestao\/\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>P\u00fablica<\/strong>\u00a0mostrou<\/a> que Silvinei Vasques, ent\u00e3o superintendente da PRF do Rio de Janeiro, teria pedido emprego na Combat acompanhado do ex-secret\u00e1rio executivo do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a Antonio Lorenzo \u2014 o n\u00famero 2 de Anderson Torres durante o governo de Jair Bolsonaro.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-124584\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Foto2_Empresas-de-armas-e-seguranca-miram-governo-e-policias-para-lucrar-com-guerra-urbana.jpg?resize=1200%2C644&amp;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Foto2_Empresas-de-armas-e-seguranca-miram-governo-e-policias-para-lucrar-com-guerra-urbana.jpg?w=1200&amp;ssl=1 1200w, https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Foto2_Empresas-de-armas-e-seguranca-miram-governo-e-policias-para-lucrar-com-guerra-urbana.jpg?resize=800%2C429&amp;ssl=1 800w, https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Foto2_Empresas-de-armas-e-seguranca-miram-governo-e-policias-para-lucrar-com-guerra-urbana.jpg?resize=150%2C81&amp;ssl=1 150w, \" alt=\"Stand da Combat Armor no LAAD\" \/><\/p>\n<p><em>A Combat Armor \u00e9 uma empresa de blindagens que lucrou vendendo para a Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria Federal no governo Bolsonaro<\/em><\/p>\n<p>Marcelo Silva, diretor comercial da empresa, afirma que o carro foi feito depois de estudos e tem por objetivo ajudar n\u00e3o somente as pol\u00edcias do Brasil, mas de toda a Am\u00e9rica Latina, no \u201ccombate ao crime organizado\u201d. Tal como outros colegas expositores da feira b\u00e9lica, Marcelo acredita que, nos \u00faltimos quatro anos, o crime s\u00f3 aumentou no Brasil, \u201cvoc\u00eas [a m\u00eddia] mostram muito isso\u201d.<\/p>\n<p>A ideia de que o Brasil segue mais violento, contudo, n\u00e3o conflui com as an\u00e1lises de pesquisadores da \u00e1rea. Coordenador do Grupo de Estudos de Novos Ilegalismos, na Universidade Federal Fluminense (UFF), o soci\u00f3logo Daniel Hirata explica que viol\u00eancia urbana \u00e9 um conceito difuso e de quase imposs\u00edvel medi\u00e7\u00e3o por si s\u00f3. Podem-se observar, contudo, indicadores sociais de viol\u00eancia, e estes v\u00eam diminuindo. No caso dos homic\u00eddios, por exemplo, a taxa brasileira caiu de 31,6 por 100 mil habitantes em 2017 para 22,3 em 2021, segundo dados dispon\u00edveis do F\u00f3rum de Seguran\u00e7a P\u00fablica.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 uma tend\u00eancia nacional, por exemplo, no caso dos homic\u00eddios que v\u00eam caindo desde 2017. Outros tipos de crimes contra o patrim\u00f4nio, como por exemplo roubo de carga, tamb\u00e9m t\u00eam diminu\u00eddo. Por outro lado, o que percebemos \u2014 e que \u00e9 preocupante \u2014 \u00e9 que a letalidade policial tem aumentado j\u00e1 desde 2014. Nos \u00faltimos tr\u00eas anos, tem alcan\u00e7ado patamares, para a regi\u00e3o metropolitana do Rio de Janeiro, de 35% do total dos homic\u00eddios. Ent\u00e3o, \u00e9 importante que isso seja destacado para que a gente n\u00e3o encare de forma natural o uso de equipamento b\u00e9lico cada vez mais letal imaginando que isso possa ter alguma efic\u00e1cia no enfrentamento da criminalidade\u201d, adverte Hirata.<\/p>\n<p id=\"Favelas\" class=\"wp-block-heading\"><strong>Balas que podem matar mais em favelas<\/strong><\/p>\n<p>Pr\u00f3ximo aos carros que disputam o futuro das pol\u00edcias, o estande da brasileira CBC, uma das maiores empresas mundiais em fabrica\u00e7\u00e3o de muni\u00e7\u00f5es de m\u00e9dio e baixo calibre, expunha duas novas formas de muni\u00e7\u00e3o pensadas para conflitos em locais apertados, ou, como reiterou depois o expositor Vitor Hugo: para conflitos em favelas.<\/p>\n<p>A 7,62 mm expansiva, desenvolvida, segundo o expositor, para diminuir os \u201cefeitos colaterais em conflitos urbanos\u201d, funciona da seguinte forma: a bala sai do fuzil e, ao encontrar o corpo, para nele mesmo, sem atravessar e atingir ningu\u00e9m que esteja atr\u00e1s. Todavia, isso vem a um custo. Como o nome indica, a bala se expande dentro do corpo, causando mais danos internos. Isso pode levar a uma morte mais r\u00e1pida, com menos chances de sobreviv\u00eancia ao atingido.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-124585\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Foto3_Empresas-de-armas-e-seguranca-miram-governo-e-policias-para-lucrar-com-guerra-urbana.jpg?resize=800%2C533&amp;ssl=1\" alt=\"Stand da fabricante de muni\u00e7\u00f5es para armas CBC, durante a feira LAAD\" \/><\/p>\n<p><em>A fabricante brasileira de muni\u00e7\u00e3o CBC, uma das maiores do mundo, exp\u00f4s uma muni\u00e7\u00e3o feita para ser usado em conflitos em locais apertados. Ou como disse o expositor: \u201cem favelas\u201d<\/em><\/p>\n<p>Uma pesquisa recente realizada por m\u00faltiplos departamentos de pesquisa da Ucr\u00e2nia\u00a0avaliou os ferimentos de balas expansivas em soldados ucranianos e chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que ela tende a gerar ferimentos em m\u00faltiplos \u00f3rg\u00e3os. Esse tipo de muni\u00e7\u00e3o, segundo a\u00a0Enciclop\u00e9dia de Leis de Armas, j\u00e1 chegou a ser proibida por leis europeias e, hoje em dia, seu uso por institui\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a p\u00fablica em a\u00e7\u00f5es contra civis \u00e9 mal visto pela comunidade internacional. A empresa de muni\u00e7\u00f5es refor\u00e7ou tamb\u00e9m o lan\u00e7amento do ano passado, a linha Proshock, que tem por objetivo atravessar paredes e\/ou alvos sem perder a rota original.<\/p>\n<p>A reportagem questionou a assessoria da CBC sobre o efeito mais letal das balas, que n\u00e3o respondeu at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o da reportagem.<\/p>\n<p>Vale destacar que esse desenvolvimento tecnol\u00f3gico veio ap\u00f3s intensa expans\u00e3o de lucros da empresa. A CBC, junto de sua irm\u00e3 Taurus, foi uma das maiores benefici\u00e1rias dos anos Bolsonaro. A empresa saiu de um faturamento de R$ 814 milh\u00f5es em 2018 para R$ 1,4 bilh\u00e3o em 2021,\u00a0segundo levantamento do Statista.<\/p>\n<p>E as conflu\u00eancias entre governo e ind\u00fastria nem sequer s\u00e3o discretas.\u00a0Em um release da Taurus\/CBC\u00a0dispon\u00edvel em sites especializados no mercado b\u00e9lico, as empresas comemoram as consequ\u00eancias das ent\u00e3o novas pol\u00edticas de aquisi\u00e7\u00e3o de armas: \u201cDe 2019 a 2021, o registro de armas de fogo pela Pol\u00edcia Federal mais do que triplicou em rela\u00e7\u00e3o aos tr\u00eas anos anteriores (2016 a 2018). No per\u00edodo foi registrada uma m\u00e9dia anual de 153 mil armas novas, aumento de 225% em rela\u00e7\u00e3o ao tri\u00eanio anterior, quando a m\u00e9dia anual foi de 47.141. Como os n\u00fameros de dezembro ainda n\u00e3o foram divulgados, o percentual de crescimento poder\u00e1 ser ainda mais elevado. Apenas em 2021, entre janeiro e novembro, foram 188 mil registros de armas novas\u201d, descrevem.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>Armamento \u201csmart\u201d e drones para manifesta\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>No campo das armas menos letais, ou, como \u00e9 chamado no Brasil, as \u201cn\u00e3o letais\u201d, a Condor apresentou novos produtos que dever\u00e3o servir para repress\u00e3o a manifesta\u00e7\u00f5es. Gigante nacional e uma das maiores do mundo nesse mercado, a empresa,\u00a0<a href=\"https:\/\/apublica.org\/2013\/06\/gas-lacrimogeneo-brasileiro-utilizado-pela-policia-na-turquia\/\" rel=\"noreferrer noopener\">que j\u00e1 foi exposta<\/a>\u00a0por vender produtos para governos ditatoriais e denunciada por mortes que teriam sido causadas por g\u00e1s lacrimog\u00eaneo, n\u00e3o revela seus n\u00fameros em faturamento e nem mesmo em aplica\u00e7\u00f5es diretas com pesquisas e desenvolvimento de produtos.<\/p>\n<p>Todavia, na LAAD 2023 a novidade que trouxeram \u00e0 mesa custou quase cinco anos de desenvolvimento: trata-se do Condor Drop, um drone criado exclusivamente para jogar granadas de dispers\u00e3o em situa\u00e7\u00f5es em que a pol\u00edcia queira maior controle de massas. Com espa\u00e7o para 24 pastilhas explosivas, o drone, que tem 25 kg, dura 20 minutos no ar e teria surgido ap\u00f3s in\u00fameras institui\u00e7\u00f5es pedirem diretamente \u00e0 empresa que entrasse no ramo dessas miniaeronaves. Rec\u00e9m-implementado em Angola, a papelada para a venda do Condor Drop no Brasil acaba de ser finalizada, e a expectativa \u00e9 que seja usado em manifesta\u00e7\u00f5es em at\u00e9 um ano.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o expositor Lucas Carci orgulhosamente anunciou as primeiras granadas biodegrad\u00e1veis do mercado, com tecnologia Smart: \u201cSeguimos os protocolos mais modernos de ind\u00fastria sustent\u00e1vel\u201d, disse. Assim como para outros lan\u00e7amentos, a Condor justifica os novos produtos para salvar mais vidas e proteger melhor os policiais \u201cem situa\u00e7\u00f5es estressantes\u201d.<\/p>\n<p>As solu\u00e7\u00f5es mirabolantes de tecnologias apresentadas em feiras como a LAAD 2023 tendem a decepcionar mesmo para os objetivos propostos de defesa da integridade dos agentes de seguran\u00e7a p\u00fablica, afirma Bruno Cardoso, soci\u00f3logo e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). \u201cA tecnologia aparece sempre nos discursos como algo que viria trazer uma solu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida para problemas ou desafios que marcam estruturalmente a seguran\u00e7a p\u00fablica no Brasil, e na verdade a maior parte \u00e9 incapaz de realizar o que promete. Al\u00e9m disso, quase sempre as armas t\u00eam tr\u00eas destinos poss\u00edveis: a) serem subutilizadas por falta de capacita\u00e7\u00e3o dos operadores; b) serem boicotadas, quando d\u00e3o muito trabalho ou controlam muito os agentes de seguran\u00e7a; ou c) serem subvertidas, quando s\u00e3o utilizadas de modo imprevisto, e muitas vezes ilegal, gerando efeitos opostos ou pelo menos bem diferentes do que na proposta inicial. Nesse caso, normalmente acabam favorecendo a corrup\u00e7\u00e3o e a viol\u00eancia policial\u201d, afirma.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-124593\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Foto4_Empresas-de-armas-e-seguranca-miram-governo-e-policias-para-lucrar-com-guerra-urbana.jpg?resize=800%2C425&amp;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Foto4_Empresas-de-armas-e-seguranca-miram-governo-e-policias-para-lucrar-com-guerra-urbana.jpg?w=800&amp;ssl=1 800w, https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Foto4_Empresas-de-armas-e-seguranca-miram-governo-e-policias-para-lucrar-com-guerra-urbana.jpg?resize=150%2C80&amp;ssl=1 150w, \" alt=\"\" \/><\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><figcaption class=\"wp-element-caption c007\"><em>Al\u00e9m de tentar vender para pol\u00edcias, empresas miram as For\u00e7as Armadas devido \u00e0s opera\u00e7\u00f5es em comunidades<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>Mercado de reconhecimento facial \u00e9 dominado por estrangeiros<\/strong><\/p>\n<p>Na corrida pelos contratos com os \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a, outro destaque s\u00e3o as empresas de tecnologia de reconhecimento facial e monitoramento. No Brasil, a nacional Hexagon busca espa\u00e7o num mercado ainda dominado por estrangeiras, tendo aplicado suas c\u00e2meras com reconhecimento apenas em Salvador, segundo informa\u00e7\u00f5es da pr\u00f3pria empresa.<\/p>\n<p>Mas as gigantes nessa \u00e1rea v\u00eam de fora, como \u00e9 o caso da Motorola Solutions, que, segundo eles, al\u00e9m de vender sua tecnologia para as pol\u00edcias de\u00a0<a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/sao-paulo\/noticia\/2014\/11\/alckmin-pede-para-secretaria-apurar-viagem-de-policiais-paga-por-empresa.html\" rel=\"noreferrer noopener\">S\u00e3o Paulo<\/a>,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.birdsolucoes.com.br\/noticias\/motorola-solutions-implementa-solucao-de-radiocomunicacao-na-pm\" rel=\"noreferrer noopener\">Minas Gerais<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/www.motorolasolutions.com\/newsroom\/press-releases\/motorola-solutions-enhances-border-protection-for-a-safer-parana\/pt.html\" rel=\"noreferrer noopener\">Paran\u00e1<\/a>\u00a0e empresas de transporte como o Metr\u00f4-Rio, oferta bodycams policiais que v\u00eam com uma tecnologia de adapta\u00e7\u00e3o da imagem original, em alta qualidade, para uma mais pr\u00f3xima ao olho humano. Ao fim do dia, caso seja requisitada an\u00e1lise, a c\u00e2mera oferece as duas imagens para avalia\u00e7\u00e3o pericial. A ideia \u00e9 \u201cn\u00e3o cometer injusti\u00e7as com policiais\u201d, uma vez que, segundo o expositor, n\u00e3o seria justo comparar a vis\u00e3o que o oficial teria tido em uma situa\u00e7\u00e3o problem\u00e1tica e com baixa luminosidade com a imagem gerada por um equipamento de alt\u00edssima qualidade.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o discreta ou sigilosa entre uma empresa contratada pelo Estado e ele pr\u00f3prio parece caminhar para uma no\u00e7\u00e3o mais t\u00eanue entre o privado e o p\u00fablico, como adverte o soci\u00f3logo Bruno Cardoso: \u201cAs empresas n\u00e3o apenas fazem neg\u00f3cio com o Estado, mas se fundem cada vez mais com ele, j\u00e1 que desenvolvem, fazem lobby e operam tecnologias que s\u00e3o mecanismos fundamentais de atua\u00e7\u00e3o dos agentes estatais de seguran\u00e7a, ou sistemas que fazem funcionar institui\u00e7\u00f5es inteiras. Com isso, o mercado das tecnologias de seguran\u00e7a vai ditando as pol\u00edticas de seguran\u00e7a nos mais diversos contextos locais, quase sempre dando solu\u00e7\u00f5es gen\u00e9ricas para problemas sempre complexos e espec\u00edficos, criando oportunidades de neg\u00f3cios em megaeventos, dist\u00farbios pol\u00edticos ou mesmo ap\u00f3s ataques contra escolas\u201d, avalia.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Empresas de armas miram governo e pol\u00edcias para \u201cguerra urbana\u201d &#8211; https:\/\/apublica.org\/2023\/04\/empresas-de-armas-e-seguranca-miram-governo-e-policias-para-lucrar-com-guerra-urbana\/?utm_source=sendinblue&amp;utm_campaign=235%20-%20Sem%20dias%20de%20paz&amp;utm_medium=email<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Matheus Moura &#8211; P\u00fablica acompanhou primeira edi\u00e7\u00e3o da LAAD p\u00f3s governo Bolsonaro, a maior feira de armamento e defesa da Am\u00e9rica Latina. 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