{"id":19181,"date":"2023-04-23T12:37:16","date_gmt":"2023-04-23T15:37:16","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=19181"},"modified":"2023-04-21T09:53:30","modified_gmt":"2023-04-21T12:53:30","slug":"mundo-em-transe-notas-sobre-a-crise-e-o-futuro-da-ordem-internacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/04\/23\/mundo-em-transe-notas-sobre-a-crise-e-o-futuro-da-ordem-internacional\/","title":{"rendered":"Mundo em transe. Notas sobre a crise e o futuro da ordem internacional"},"content":{"rendered":"<p><strong>Sebasti\u00e3o Velasco e Cruz &#8211;\u00a0<\/strong>Presente prolongado de uma ordem que ainda vir\u00e1.<\/p>\n<p><strong>1. Introdu\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>Quem poderia imaginar! Mal debelada a pandemia \u2013 ao menos para os pa\u00edses mais fortemente afetados em suas primeiras ondas, o Brasil inclu\u00eddo \u2013 quando a ideia de retorno \u00e0 normalidade, ou a algo assemelhado, come\u00e7ava a se desenhar no horizonte sobreveio a crise. Os acontecimentos est\u00e3o ainda frescos na mem\u00f3ria de todos. Concentra\u00e7\u00e3o de tropas, tentativas natimortas de negocia\u00e7\u00e3o, comunicados alarmistas, trocas de acusa\u00e7\u00f5es\u2026 at\u00e9 que, em 24 de fevereiro de 2022, os tanques russos atravessaram as fronteiras da Ucr\u00e2nia. A rea\u00e7\u00e3o n\u00e3o se fez esperar. Denunciando o ataque como viola\u00e7\u00e3o flagrante dos princ\u00edpios basilares do direito internacional, os Estados Unidos e seus aliados europeus garantiram ao governo ucraniano a assist\u00eancia militar necess\u00e1ria para repelir o ataque, e adotaram san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas sem precedentes com o fim proclamado de sufocar a R\u00fassia e de derrubar seu regime pol\u00edtico.\u00a0<em>Pari passu<\/em>, lan\u00e7aram contra esta uma campanha global de propaganda, cuja agressividade evocava os momentos mais tensos da Guerra Fria.<\/p>\n<p>Um ano depois, o que parecia ser uma guerra de movimento \u2013 com participa\u00e7\u00e3o indireta e limitada de terceiros \u2013 destinada a terminar mais cedo do que tarde em uma mesa de negocia\u00e7\u00e3o, est\u00e1 convertida em uma guerra de atrito, ao que tudo indica prolongada, que arrasta, cada vez mais, em seu v\u00f3rtice os Estados Unidos e seus aliados da OTAN. Em algum momento haver\u00e1 negocia\u00e7\u00f5es de paz, ningu\u00e9m discute. Mas esse momento parece muito distante, e as condi\u00e7\u00f5es em que se dar\u00e1 s\u00e3o uma inc\u00f3gnita \u2013 pois constituem exatamente, o objeto em disputa! Enquanto isso, prevalece a l\u00f3gica da ascens\u00e3o aos extremos, cujo limite \u00e9 a generaliza\u00e7\u00e3o do conflito e a cat\u00e1strofe nuclear.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3. Entrementes, o risco de guerra entre grandes pot\u00eancias elevou-se perigosamente em outra parte do mundo. O estopim da crise foi a decis\u00e3o de Nancy Pelosi, ent\u00e3o presidente da C\u00e2mara dos Representantes dos Estados Unidos, de viajar em car\u00e1ter oficial a Taiwan, nos primeiros dias de agosto, para refor\u00e7ar simbolicamente o apoio \u00e0s suas pretens\u00f5es independentistas. Grande espet\u00e1culo coreogr\u00e1fico, as imagens permanecem gravadas em nossa lembran\u00e7a. Em resposta ao que denunciou como interfer\u00eancia inaceit\u00e1vel nos assuntos internos chineses, desafio \u00e0 sua integridade territorial e sua soberania, a China promoveu um cerco naval in\u00e9dito, acompanhado por voos n\u00e3o autorizados de avi\u00f5es de combate no espa\u00e7o a\u00e9reo taiwan\u00eas e exerc\u00edcios militares que inclu\u00edram disparos com fogo real no entorno da ilha.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/commons\/1\/14\/Nancy_Pelosi_at_Presidential_Office_Building_01.jpg\" alt=\"File:Nancy Pelosi at Presidential Office Building 01.jpg - Wikimedia Commons\" \/><\/p>\n<p><em>Delega\u00e7\u00e3o americana, liderada pela presidente da C\u00e2mara de Representantes, Nancy Pelosi (de faixa), ao lado da presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen (\u00e0 dir.), em Taipei, em 3 ago. 2022<\/em><\/p>\n<p>Seis meses mais tarde, memorando assinado pelo general de quatro estrelas Michael A. Minihan, chefe do Comando de Mobilidade A\u00e9rea, que supervisiona a enorme frota de aeronaves de transporte e reabastecimento da For\u00e7a A\u00e9rea dos EUA, instava seus subordinados a se preparar para a eventualidade de uma guerra contra a China j\u00e1 em 2025. Tendo causado esc\u00e2ndalo por sua ret\u00f3rica necrof\u00edlica \u2013 \u201c<em>A letalidade \u00e9 o que mais importa\u201d; \u201cQuando voc\u00ea pode matar seu inimigo, cada parte de sua vida \u00e9 melhor. Sua comida tem um gosto melhor. Seu casamento \u00e9 mais forte<\/em>\u201d \u2013 o documento foi contraditado por fontes autorizadas, que se apressaram em descartar o progn\u00f3stico sombrio<sup>[1]<\/sup>. Mas o certo \u00e9 que o general boquirroto n\u00e3o estava sozinho. Os planejadores estrat\u00e9gicos americanos trabalham com o cen\u00e1rio de guerra no Estreito de Taiwan a m\u00e9dio prazo e discorrem sobre ele, por vezes, em entrevistas ao p\u00fablico.<\/p>\n<p>Ucr\u00e2nia\u2026 Taiwan\u2026 situa\u00e7\u00f5es cr\u00edticas diversas, cada uma delas com seus determinantes e sua din\u00e2mica pr\u00f3pria, mas que se entrela\u00e7am como aspectos de um conflito global considerados por muitos observadores acreditados como uma guerra mundial de novo tipo.<\/p>\n<p>Reconhecidamente trivial, esta constata\u00e7\u00e3o suscita as perguntas: como definir a situa\u00e7\u00e3o internacional presente? O que nos levou a ela? O que esperar do futuro?<\/p>\n<p>Perguntas grandes, que demandariam muita pesquisa e o esfor\u00e7o combinado de estudiosos de v\u00e1rias disciplinas. Neste curto ensaio, vou formular algumas respostas tentativas, tomando como ponto de partida uma reflex\u00e3o sobre o mundo que se desenhava no final do s\u00e9culo passado, com o t\u00e9rmino da Guerra Fria.<\/p>\n<p><strong>2. A ordem emergente no p\u00f3s-Guerra Fria e suas falhas<\/strong>.<\/p>\n<blockquote><p>\u201c<em>What is at stake is more than one small country, it is a big idea\u2014a new world order, where diverse nations are drawn together in common cause to achieve the universal aspirations of mankind: peace and security, freedom, and the rule of law. Such is a world worthy of our struggle, and worthy of our children\u2019s future<\/em>.\u201d<sup>[2]<\/sup><\/p><\/blockquote>\n<p>Uma nova ordem mundial. Para al\u00e9m da ret\u00f3rica altissonante, caracter\u00edstica nesse tipo de documento, mas acentuada em tempos de guerra (o pequeno pa\u00eds em quest\u00e3o era o Kuwait e a guerra feita em seu nome se estenderia ainda por um m\u00eas \u2013 2\/11\/1990-28\/02\/1991), era esse o horizonte que se descortinava no limiar da \u00faltima d\u00e9cada do s\u00e9culo passado \u2013 impress\u00e3o refor\u00e7ada alguns meses depois (19\/08\/1991) pela tentativa frustrada de golpe que selou o fim da Uni\u00e3o das Rep\u00fablicas Socialistas Sovi\u00e9ticas.<\/p>\n<p>Combinando elementos com genealogias distintas, a face mais conhecida da ordem emergente evocada na fala do Presidente dos Estados Unidos \u00e9 a globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal: remo\u00e7\u00e3o de barreiras ao com\u00e9rcio de bens e servi\u00e7os; livre movimenta\u00e7\u00e3o dos capitais; mercantiliza\u00e7\u00e3o sem peias da vida social e predom\u00ednio da l\u00f3gica financeira em todos seus dom\u00ednios; redu\u00e7\u00e3o do papel do Estado como provedor de bens p\u00fablicos e planejador estrat\u00e9gico; privatiza\u00e7\u00e3o, amplia\u00e7\u00e3o e refor\u00e7o dos direitos de propriedade; desregulamenta\u00e7\u00e3o; precariza\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o laboral \u2013 na linguagem ins\u00edpida de seus cultores, flexibiliza\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho.<\/p>\n<p>Conformada em resposta \u00e0 crise do capitalismo administrado do p\u00f3s-guerra que atingiu o auge na segunda metade da d\u00e9cada de 1970, a globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal n\u00e3o denota um estado de coisas realmente existente, mas um discurso dist\u00f3pico, que passa a impregnar a realidade, ao se materializar em leis e regulamentos e ao se converter em programa institucionalizado de governos e organiza\u00e7\u00f5es internacionais. Duas delas \u2013 o FMI e o Banco Mundial \u2013 tinham longa hist\u00f3ria e desempenhavam papel de relevo no enquadramento dos pa\u00edses da periferia na ordem econ\u00f4mica em constru\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s das condicionalidades embutidas nos programas de estabiliza\u00e7\u00e3o fornecida por um, e dos programas de ajuste estrutural vendidos pelo outro.<sup>[3]<\/sup>\u00a0No instante em que Bush celebrava a vit\u00f3ria antecipada sobre o Iraque, a organiza\u00e7\u00e3o mais cabalmente simb\u00f3lica da globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal ainda n\u00e3o sa\u00edra do laborat\u00f3rio \u2013 o longo processo de negocia\u00e7\u00e3o aberto em 1986, na Confer\u00eancia de Punta del Este (Uruguai), do GATT, cujo resultado mais vistoso, anunciado quase oito anos depois em Marrakesh, foi a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio, mais conhecida pela sigla OMC.<sup>[4]<\/sup><\/p>\n<h5><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.wto.org\/images\/slideshow\/wto_building\/gallery\/album\/desktop\/image1.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/h5>\n<p><em>Sede da OMC, em Genebra\u00a0<\/em><\/p>\n<p>A mat\u00e9ria da nova ordem emergente era, portanto, a globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica tal como definida. Mas sua caracteriza\u00e7\u00e3o ficaria incompleta se n\u00e3o contivesse uma palavra sobre o seu complemento espiritual, seu concomitante valorativo: a consagra\u00e7\u00e3o do tema dos direitos humanos como mat\u00e9ria de legisla\u00e7\u00e3o internacional, e a transforma\u00e7\u00e3o da democracia em requisito \u00e0 aceita\u00e7\u00e3o de qualquer pa\u00eds como membro pleno da comunidade internacional reconstitu\u00edda.<\/p>\n<p>Mas esta afirma\u00e7\u00e3o precisa ser qualificada. Direitos humanos e democracia s\u00e3o conceitos pol\u00edticos e, como tais, essencialmente contest\u00e1veis. A Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos, da ONU, evidencia este fato ao alinhar \u2013 sem se ater \u00e0s tens\u00f5es entre eles \u2013 direitos individuais (liberdades negativas) e direitos sociais, de car\u00e1ter substantivo (direitos a), que demandam a\u00e7\u00e3o da autoridade garantidora dos mesmos, assim convertida em ag\u00eancia incumbida de prov\u00ea-los. No quarto de s\u00e9culo que se seguiu ao fim da Segunda Guerra Mundial essas duas modalidades de direitos humanos coexistiram, embora nem sempre muito harmoniosamente. N\u00e3o mais assim na nova ordem neoliberal. Nesta, os direitos individuais s\u00e3o tidos como sagrados, enquanto o acesso a bens e a oportunidades de vida passa a ser visto como recompensa pelo esfor\u00e7o de cada um, fundada no livre funcionamento do mercado, cabendo ao poder p\u00fablico o papel residual de garantir o m\u00ednimo necess\u00e1rio \u00e0 vida em sociedade, aos carentes de condi\u00e7\u00f5es para obt\u00ea-lo por conta pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Esclarecimento an\u00e1logo caberia fazer em rela\u00e7\u00e3o ao outro componente do par. A democracia entronizada na nova ordem emergente pouco tem a ver com as no\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas de \u201cbem comum\u201d e \u201cvontade do povo\u201d, mantidas em seu vocabul\u00e1rio corrente como rel\u00edquias que contemplamos com rever\u00eancia, mas n\u00e3o t\u00eam mais nenhuma serventia. A democracia em causa est\u00e1 reduzida ao acesso a postos de governo por meio da competi\u00e7\u00e3o pelo voto, em elei\u00e7\u00f5es livres e honestas, entendido este regime como o mais adequado para assegurar o respeito aos direitos individuais, fundamento da ordem em sua dupla natureza, econ\u00f4mica e pol\u00edtica.<\/p>\n<p>A advert\u00eancia \u00e9 indispens\u00e1vel, pois da uni\u00e3o entre o universalismo dos conceitos e o particularismo do conte\u00fado neles infundido resulta um tra\u00e7o perturbador da nova ordem: a exig\u00eancia de dar efetividade aos dois imperativos em causa e o sil\u00eancio a respeito do sujeito desta obriga\u00e7\u00e3o, sobre as condi\u00e7\u00f5es de sua entrada em a\u00e7\u00e3o e sobre os meios empregados.<\/p>\n<p>A tens\u00e3o entre este discurso normativo e os princ\u00edpios b\u00e1sicos do direito internacional \u2013 fundado no conceito de igualdade soberana dos Estados, com seu corol\u00e1rio, a n\u00e3o interven\u00e7\u00e3o e a n\u00e3o inger\u00eancia nos assuntos internos de outros Estados \u2013 \u00e9 patente. O debate em torno dela ocupar\u00e1 amplo espa\u00e7o no trabalho da ONU e na agenda de movimentos sociais e de grupos intelectuais e pol\u00edticos em todo o mundo.<sup>[5]<\/sup>\u00a0E ganharia intensidade vari\u00e1vel de acordo com a dramaticidade das opera\u00e7\u00f5es militares \u201credentoras\u201d que se tornaram corriqueiras no per\u00edodo.<\/p>\n<p>Opera\u00e7\u00f5es salvadoras \u2013 sob distintas formas. Cumpre salientar a observa\u00e7\u00e3o porque ela nos remete aos dois pilares em que a ordem emergente em quest\u00e3o repousa: a superioridade econ\u00f4mica das pot\u00eancias ocidentais, e a supremacia militar incontrast\u00e1vel dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Sobre o primeiro deles farei apenas um r\u00e1pido registro a fim de deixar fixadas algumas balizas para o argumento que ser\u00e1 tra\u00e7ado a seguir. Entre as pot\u00eancias ocidentais acima referidas sobressaem-se claramente os Estados Unidos \u2013 pelo tamanho de sua economia; a extens\u00e3o e profundidade de seu sistema financeiro; o lugar ocupado por sua moeda \u2013 divisa-chave na economia global \u2013, mas tamb\u00e9m pelo papel de vanguarda desempenhado na reconfigura\u00e7\u00e3o produtiva conhecida como \u201cterceira revolu\u00e7\u00e3o industrial\u201d. Esses atributos, aliados \u00e0 sua posi\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica, garantiam aos Estados Unidos a condi\u00e7\u00e3o de sede do modelo exemplar de capitalismo.<\/p>\n<p>Menos conhecido do grande p\u00fablico, o segundo pilar demanda um coment\u00e1rio um pouco mais largo. Praticamente, todas as inova\u00e7\u00f5es que redundariam na terceira revolu\u00e7\u00e3o industrial, bem como nos desenvolvimentos que nos levam agora \u00e0 assim chamada ind\u00fastria 4.0, tiveram origem em investimentos militares feitos pelo Estado americano no contexto da Guerra Fria.<sup>[6]<\/sup>\u00a0O resultado desse esfor\u00e7o prolongado \u2013 programas bilion\u00e1rios, custeados a fundo perdido durante d\u00e9cadas \u2013 tornou-se espetacularmente vis\u00edvel aos olhos do comum dos mortais na Guerra do Golfo \u2013 esp\u00e9cie de feira para exibi\u00e7\u00e3o de sistemas de armas que pareciam ter sa\u00eddo de um filme de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<\/p>\n<p>E, como observa um estudioso, na base de todos eles a tecnologia de informa\u00e7\u00e3o. Em suas palavras:<\/p>\n<blockquote><p>\u201c<em>It is information technology, in the shape of precision guidance, that permits aircraft to strike targets with great accuracy. It is information technology, in the form of situational awareness systems \u2026 that permits ground formations to coordinate their operations more effectively. It is information technology, in the form of networked communications, that allows carrier battle groups to operate dispersed and yet mass their firepower<\/em>.\u201d<sup>[7]<\/sup><\/p><\/blockquote>\n<p>A no\u00e7\u00e3o de que o mundo estava nos umbrais de uma revolu\u00e7\u00e3o na tecnologia militar foi formulada inicialmente por analistas sovi\u00e9ticos e, segundo muitos observadores, teve papel importante nas mudan\u00e7as timidamente introduzidas por Andropov, depois amplificadas no duplo programa de reformas (Glasnost e Perestroika) de Gorbachev. A Guerra do Golfo universalizou esta percep\u00e7\u00e3o. Os Estados Unidos saem do epis\u00f3dio consagrados como poder militar inigual\u00e1vel, de novo tipo.<\/p>\n<p>O paralelismo \u00e9 not\u00e1vel. As tecnologias de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o, que transformam a economia e pavimentam o caminho da globaliza\u00e7\u00e3o s\u00e3o ao mesmo tempo fator multiplicador do poder militar dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>A nova ordem emergente parecia assentada, portanto, em s\u00f3lidos alicerces, e assim foi percebida durante anos. Mas a dupla face das tecnologias de informa\u00e7\u00e3o nos adverte para a exist\u00eancia nesta ordem de falhas, rachaduras, que se tornariam pouco a pouco cada vez mais evidentes.<\/p>\n<p>A primeira a se manifestar e a mais \u00f3bvia foi sua propens\u00e3o a viver crises financeiras recorrentes. Gestada na crise do capitalismo regulado, a liberaliza\u00e7\u00e3o dos mercados de capitais, cerne da globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal, tinha como consequ\u00eancia \u2013 previs\u00edvel, mas desconsiderada \u2013 a propaga\u00e7\u00e3o na economia real da volatilidade caracter\u00edstica destes. Tr\u00eas grandes crises financeiras internacionais (o colapso da serpente monet\u00e1ria europeia, em 1992; o colapso do peso mexicano, em 1994, e a crise asi\u00e1tica de 1997-98 \u2013 com suas sequelas: a crise da d\u00edvida russa e a crise cambial brasileira, no final de 1998, que levaria no in\u00edcio de 1999 \u00e0 desvaloriza\u00e7\u00e3o do Real, atingindo mortalmente regime de convertibilidade argentino, fato que lan\u00e7ou o pa\u00eds, dois anos depois, numa crise econ\u00f4mica e pol\u00edtica catastr\u00f3fica), al\u00e9m de um sem-n\u00famero de epis\u00f3dios localizados em diferentes pontos da periferia. A localiza\u00e7\u00e3o dessas ocorr\u00eancias na organiza\u00e7\u00e3o espacial da economia capitalista levou alguns analistas a lhes atribuir um papel funcional: esta seria a forma pela qual o capitalismo neoliberal se reproduziria ampliadamente. Havia um fundo de verdade no argumento, mas ele minimizava a possibilidade de que, em algum momento, a fragilidade financeira fosse se traduzir em crise econ\u00f4mica grave na capital do sistema. Pois foi o que se deu com o colapso do mercado hipotec\u00e1rio nos Estados Unidos, em 2008.<\/p>\n<p>O impacto social desta crise \u2013 que cedo se estenderia \u00e0 Europa \u2013 \u00e9 conhecido. Aqui, importa observar que ela exacerbaria os tra\u00e7os mais perversos do capitalismo neoliberal \u2013 aumento das desigualdades e da pobreza; degrada\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho e de vida \u2013 alimentando um mal-estar continuado, que est\u00e1 na origem do Brexit, do trumpismo, e da expans\u00e3o da extrema-direita por todo o mundo.<\/p>\n<p>Em outro plano, o pilar econ\u00f4mico da ordem emergente era minado pelo dinamismo pujante de novos polos de acumula\u00e7\u00e3o na \u00c1sia, que se integram gostosamente nos mercados globais, mas praticam um tipo de capitalismo pr\u00f3prio, marcado por forte interven\u00e7\u00e3o estatal na economia. \u00c0 medida que se expandem e ganham maior confian\u00e7a em si mesmos, esses centros \u2013 penso sobretudo na China, mas tamb\u00e9m na \u00cdndia \u2013 passam a disputar espa\u00e7os com as pot\u00eancias ocidentais nas organiza\u00e7\u00f5es internacionais e o poder de definir regras para a economia.<\/p>\n<p>Contudo, era o alicerce militar que apresentava falhas mais graves e mais prementes. Uma delas surgia como contraface n\u00e3o antecipada dos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos que haviam conferido supremacia incontest\u00e1vel nesta esfera aos Estados Unidos. Vimos como as tecnologias de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o eram de uso dual e estavam revolucionando tamb\u00e9m a economia. Cabe indicar agora que o tr\u00e2nsito entre as duas vias podia se fazer iterativamente.<\/p>\n<p>\u00c9 o que os estudos sobre a difus\u00e3o do poder militar nos ensinam. Se o sistema de posicionamento global e a internet, em suas sucessivas gera\u00e7\u00f5es, desempenharam papel decisivo na dianteira militar alcan\u00e7ada pelos Estados Unidos sobre seus hom\u00f3logos, ao se difundir na economia e na vida social criaram um ambiente prop\u00edcio para a a\u00e7\u00e3o de inimigos heterog\u00eaneos.<\/p>\n<blockquote><p>\u201c<em>The Internet is an accelerator for non-state actors. Non-state actors can leverage advances in information technology at almost no cost. NSAGs use information technology across many activities, such as propaganda, recruitment, tactical communications, weapons procurement, research, and organizational communication. All this can be done, and done almost always better, online.<\/em>\u201d<sup>[8]<\/sup><\/p><\/blockquote>\n<p>A internet, por\u00e9m, \u00e9 apenas um exemplo consp\u00edcuo da convers\u00e3o do uso civil ao militar. Casos mais banais, mas nem por isso menos importantes, s\u00e3o representados pelos dispositivos explosivos improvisados (IED, na sigla em ingl\u00eas), fabricados com ingredientes de uso dom\u00e9stico corrente e detonados por meio de r\u00e1dios, ou celulares. Embora n\u00e3o compar\u00e1veis, os n\u00fameros a seguir nos d\u00e3o uma ideia a respeito da efetividade deste tipo de armamento. De acordo com os dados do Departamento de Defesa, no curso da opera\u00e7\u00e3o Liberdade do Iraque, iniciada em 2003 e conclu\u00edda formalmente em 2010, descontadas as perdas por suic\u00eddio e acidentes, as for\u00e7as americanas sofreram 35.429 baixas, entre mortos (3.482) e feridos (31.947).<sup>[9]<\/sup>\u00a0Outro banco de dados indica que, dos 5.413 soldados americanos mortos em a\u00e7\u00e3o, com causa conhecida, no Iraque e no Afeganist\u00e3o entre 2011 e 2020, cerca de 2.640 deles foram v\u00edtimas de IEDs (52% para o Iraque; 48,2% para o Afeganist\u00e3o)<sup>[10]<\/sup>\u00a0E estudo cl\u00ednico realizado com amostra de 1.566 combatentes feridos em a\u00e7\u00e3o no Iraque constata que 38% deles foram atingidos por dispositivos explosivos improvisados.<sup>[11]<\/sup><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/commons\/a\/a5\/IED_Baghdad_from_munitions.jpg\" alt=\"Improvised explosive device - Wikipedia\" \/><\/p>\n<p><em>IEDs encontrados pela pol\u00edcia iraquiana em Bagd\u00e1, em 7 nov. 2005<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 comum na literatura de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais o erro derivado do que denomino concep\u00e7\u00e3o atuarial das rela\u00e7\u00f5es militares de for\u00e7a. Compara-se gastos em defesa, ou em casos menos toscos \u201ccapacidades materiais\u201d, e conclui-se da\u00ed que tal Estado tem poder militar maior do que outro. Por essa m\u00e9trica os Estados Unidos \u2013 com um disp\u00eandio superior ao gasto somado dos nove ou dez pa\u00edses que lhes seguem na lista dos maiores or\u00e7amentos em defesa, e com a ind\u00fastria b\u00e9lica tida como a mais avan\u00e7ada do mundo \u2013 seria imbat\u00edvel. Deixa-se de considerar as vari\u00e1veis organizacionais e as condi\u00e7\u00f5es sociopol\u00edticas envolvidas em seu exerc\u00edcio e as diferentes hip\u00f3teses de emprego da for\u00e7a. Nesta \u00f3tica, as sucessivas derrotas sofridas pelos Estados Unidos diante de inimigos muito mais fracos parecem surpreendentes.<\/p>\n<p>Quando levamos em conta a complexidade envolvida na convers\u00e3o entre recursos materiais e poder militar, podemos aquilatar adequadamente a relev\u00e2ncia da proposi\u00e7\u00e3o que se segue,<\/p>\n<blockquote><p>\u201c<em>\u2026 it was also the evolution of technology that enabled the weak to resort to asymmetric means. For it increasingly produces comparatively cheap and less sophisticated weapons systems which provide capabilities to strike back even against the most sophisticated forces. Consequently, the asymmetric advantages of the strong even among states do not necessarily translate into domination over an opponent any longer<\/em>.\u201d<sup>[12]<\/sup><\/p><\/blockquote>\n<p>Foi uma li\u00e7\u00e3o dura, que os planejadores estrat\u00e9gicos americanos custaram muito \u2013 e pagaram um pre\u00e7o enorme \u2013 para aprender. N\u00e3o aconteceu o mesmo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 outra falha no alicerce militar da ordem emergente. Esta foi imediatamente identificada como uma falha cong\u00eanita, e desde o primeiro momento esse reconhecimento se constituiu em um dos fatores determinantes da conduta internacional dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Muito simples. Guerra Fria foi a denomina\u00e7\u00e3o cunhada para designar o que Thomas Schelling caracterizou como \u201cjogo de motivos mistos\u201d. N\u00e3o estranha o fato de que o seu resultado tenha assumido a forma de uma situa\u00e7\u00e3o igualmente mista: vit\u00f3ria parcial em uma \u201cguerra\u201d da qual a pot\u00eancia derrotada sa\u00eda rota, humilhada, ofendida, mas n\u00e3o submetida. A Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica foi politicamente esmagada, fragmentou-se e, como tal, deixou de existir. Mas n\u00e3o foi militarmente vencida, o seu territ\u00f3rio n\u00e3o foi ocupado, e sua sucessora \u2013 a R\u00fassia \u2013 preservou o aparato militar da pot\u00eancia ca\u00edda, com o arsenal nuclear respectivo.<\/p>\n<p>Ironicamente, mantiveram-no com a ajuda dos Estados Unidos. Em seus derradeiros momentos, a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica contava com um arsenal dotado de cerca de 30-40.000 armas nucleares, estrat\u00e9gicas e t\u00e1ticas, estacionadas em 14 das 15 Rep\u00fablicas. Nessas condi\u00e7\u00f5es, o colapso da URSS gerava o tr\u00edplice problema de garantir a integridade e consolidar o arsenal de armas t\u00e1ticas; evitar a emerg\u00eancia de novos Estados nucleares, abastecidos de m\u00edsseis bal\u00edsticos intercontinentais, e impedir o vazamento de material f\u00edssil para Estados falidos, organiza\u00e7\u00f5es criminosas, ou grupos terroristas.<\/p>\n<p>Graham Allison e colegas estudaram minuciosamente como os Estados Unidos lidaram com esses tr\u00eas desafios, salientando o que ainda restava a fazer no que concernia ao \u00faltimo. Para o argumento esbo\u00e7ado aqui, no entanto, o fundamental est\u00e1 contido na informa\u00e7\u00e3o que aparece no in\u00edcio de seu livro.<\/p>\n<blockquote><p>\u201c<em>The Bush administration and the Congress wasted no time in deciding that the United States could accept only one nuclear successor state to the Soviet Union \u2013 Russia; this was a view shared by most other states on the planet\u2026 In practice, however, the process of denuding Belarus, Kazakhstan, and Ukraine of the strategic nuclear weapons they had inherited proved to be no simple matter, particularly in the case of Ukraine<\/em>.\u201d<sup>[13]<\/sup><\/p><\/blockquote>\n<p>Na ocasi\u00e3o, a R\u00fassia estava mergulhada em crise econ\u00f4mica catastr\u00f3fica, que lhe cobrou, em cinco anos, metade do PIB. Desde ent\u00e3o, a vida pol\u00edtica russa passou por v\u00e1rias fases, e o mesmo se deu com sua postura diante do mundo. Da cordura ocidentalista dos primeiros tempos, \u00e0 assertividade do pen\u00faltimo Putin, diversas abordagens com vistas \u00e0 integra\u00e7\u00e3o na ordem emergente foram tentadas \u2013 inutilmente, como sabemos. A postura da R\u00fassia varia num espectro amplo, o que permanece fixo, sempre igual a si mesmo \u00e9 o pressuposto da pol\u00edtica norte-americana, logo \u201cOcidental\u201d: a R\u00fassia n\u00e3o \u00e9 confi\u00e1vel; pode ser bem tratada, receber afagos mais ou menos generosos, mas decis\u00f5es fundamentais n\u00e3o podem ser com ela divididas.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o se deve \u00e0 m\u00e1 vontade dos dirigentes ocidentais, seus esquemas de percep\u00e7\u00e3o, suas ideias, sua \u201cimagem do outro\u201d\u2026 A dificuldade b\u00e1sica est\u00e1 ancorada neste dado duro da realidade. A ordem p\u00f3s-Guerra Fria assentava-se no pressuposto do monop\u00f3lio normativo (poder de gerar, interpretar e reinterpretar normas) e coercitivo do condom\u00ednio ocidental, sob o comando dos Estados Unidos. Pois bem, por seu potencial destrutivo a bomba at\u00f4mica foi definida certa vez como a arma absoluta.<sup>[14]<\/sup>\u00a0Independente de suas inten\u00e7\u00f5es reais ou proclamadas, a persist\u00eancia de um Estado dotado de arsenal nuclear capaz de devastar os Estados Unidos, ainda que se condenasse nessa hip\u00f3tese ao mesmo destino, lan\u00e7ava uma sombra sobre a ordem projetada.<\/p>\n<p><strong>3. A crise da ordem internacional do p\u00f3s-Guerra Fria e a estrat\u00e9gia restauradora de Biden.<\/strong><\/p>\n<p>Falhas, ou se preferir contradi\u00e7\u00f5es, da ordem internacional emergente no p\u00f3s-Guerra Fria. Seus efeitos n\u00e3o tardaram a se manifestar.<\/p>\n<p>Os deslocamentos sociais produzidos pela reorganiza\u00e7\u00e3o neoliberal do capitalismo \u2013 no centro e na periferia \u2013 engrossaram os movimentos migrat\u00f3rios e alimentaram um mal-estar difuso que cedo ganhou voz na nebulosa dos movimentos sociais antiglobaliza\u00e7\u00e3o os quais se projetaram na arena internacional durante a confer\u00eancia da OMC, em Seattle, em novembro de 1999. Fortemente coreografados, os protestos encenados pelos ativistas na pacata cidade do noroeste americano n\u00e3o foram os respons\u00e1veis principais pelo fracasso do conclave, mas chegaram como um sinal precursor de problemas vindouros. A globaliza\u00e7\u00e3o e seus descontentes. Como se ver\u00e1 a seguir, eles reaparecer\u00e3o mais tarde com outras m\u00e1scaras e uma contund\u00eancia incomparavelmente maior.<\/p>\n<p>A reforma intelectual-moral e pol\u00edtica prometida na nova ordem logo passou a enfrentar s\u00e9rios percal\u00e7os, tamb\u00e9m, especialmente nas duas zonas principais de conflito na pol\u00edtica internacional: o Oriente M\u00e9dio e os B\u00e1lc\u00e3s. Quanto aos primeiros, basta referir o fracasso do processo de paz israelo-palestino, depois do assassinato de Iitzak Rabin, em novembro de 1995, da elei\u00e7\u00e3o do ultradireitista Benjamin Netanyahu, em 1996, e das provoca\u00e7\u00f5es de Sharon, que se elegeria a seguir ao cargo de Primeiro-Ministro no clima de tens\u00e3o aguda adrede criado. A resultante final desse processo foi a montagem de um sistema de controle brutal que infirmava o discurso humanit\u00e1rio invocado pelos Estados Unidos em suas interven\u00e7\u00f5es militares em outras partes do mundo. Como o fazia, embora mais silenciosamente, o regime de san\u00e7\u00f5es imposto ao Iraque depois da Guerra do Golfo, que n\u00e3o provocou a queda de Saddam Hussein, objetivo pretendido, mas levou \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de milhares de vidas humanas (500 mil menores de 5 anos, entre 1991-1998, segundo relat\u00f3rio do Fundo de Crian\u00e7as das Na\u00e7\u00f5es Unidas).<sup>[15]<\/sup>\u00a0Combinados, os dois desenvolvimentos davam cau\u00e7\u00e3o ao discurso que articulava, em suas v\u00e1rias vertentes, o islamismo pol\u00edtico radical \u2013 a primeira e at\u00e9 ent\u00e3o mais s\u00e9ria contesta\u00e7\u00e3o levantada contra a ordem internacional emergente.<\/p>\n<p>O outro teste enfrentado por esta em suas pretens\u00f5es normativas ocorria nos B\u00e1lc\u00e3s. Mais particularmente na antiga Iugosl\u00e1via. Tida at\u00e9 o fim da Guerra Fria como modelo de caminho benigno (menos centralizado e menos repressivo) ao socialismo, a Iugosl\u00e1via desintegrou-se na esteira de guerras m\u00faltiplas. Eslov\u00eania, Cro\u00e1cia, B\u00f3snia\u2026 Nesta \u00faltima, os embates foram mais prolongados e envolveram atrocidades tanto mais chocantes porquanto perpetradas em solo europeu. A guerra civil na B\u00f3snia motivou a interven\u00e7\u00e3o da OTAN e conduziu a um acordo intermediado pelos Estados Unidos que se revelou infrut\u00edfero. Em 3 de junho de 1999, a OTAN, sob comando americano, inicia a opera\u00e7\u00e3o militar contra a S\u00e9rvia. Foram 79 dias de bombardeios incessantes, que levariam \u00e0 queda e \u00e0 pris\u00e3o do presidente da S\u00e9rvia, Slodoban Milosevic, posteriormente condenado em Tribunal Penal Internacional\u00a0<em>ad hoc<\/em>\u00a0criado por decis\u00e3o do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU, em 1993, para julgar crimes contra a humanidade cometidos naquele conflito.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/pbs.twimg.com\/media\/FimRl21X0AkOAEN?format=jpg&amp;name=large\" alt=\"teleSUR TV on Twitter: &quot;#HILO&#x1f9f5;| En Kosovo le agradecen tanto a #EstadosUnidos &#x1f1fa;&#x1f1f8; por su participaci\u00f3n en la guerra que en su capital, Pristina, hay una estatua de Bill Clinton. Hoy en\" \/><\/p>\n<p><em>Cidade de Novi Sad, na S\u00e9rvia, ap\u00f3s bombardeios da Otan, em 1999<\/em><\/p>\n<p>A quest\u00e3o do Kosovo representa um teste cr\u00edtico para a ordem internacional emergente porque a decis\u00e3o de atacar a S\u00e9rvia n\u00e3o foi tomada pela ONU, mas pela OTAN, com base em raz\u00f5es humanit\u00e1rias estranhas aos fundamentos conceituais do direito internacional. Al\u00e9m disso, tendo feito aflorar diverg\u00eancias n\u00e3o t\u00e3o sutis no condom\u00ednio ocidental \u2013 e na opini\u00e3o p\u00fablica dos pa\u00edses integrantes \u2013, ela levou as rela\u00e7\u00f5es dos Estados Unidos com a R\u00fassia a um ponto m\u00e1ximo de tens\u00e3o, que em determinado momento chegou pr\u00f3ximo ao enfrentamento f\u00edsico entre tropas dos dois pa\u00edses.<sup>[16]<\/sup><\/p>\n<p>M\u00faltiplos testes, de variada natureza. Mas n\u00e3o se pode dizer que a ordem em constru\u00e7\u00e3o tenha sido reprovada neles. Apesar do desgaste, ainda que n\u00e3o t\u00e3o lustrosa, ela encerrava a d\u00e9cada confiante e \u00edntegra. Os grandes desafios estavam reservados para o novo mil\u00eanio.<\/p>\n<p>O primeiro a mencionar, em respeito \u00e0 ordem da exposi\u00e7\u00e3o, tem nome definido e inscri\u00e7\u00e3o temporal supostamente clara: a crise financeira global. Prenunciada j\u00e1 em meados 2007, quando se tornou evidente a situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria do mercado norte-americano de d\u00edvidas hipotec\u00e1rias, a crise manifestou-se abertamente em mar\u00e7o, com a quebra do Bearn Stearns, quinto maior banco de investimento dos Estados Unidos, que fora antecedida de perto pela nacionaliza\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria do Northen Rock pelo Banco da Inglaterra. O susto, por\u00e9m, n\u00e3o durou muito, e pouco depois a estranha impress\u00e3o que se tinha era de um r\u00e1pido retorno \u00e0 normalidade. A cat\u00e1strofe ocorreu em 15 de setembro de 2008, quando o Tesouro americano decidiu deixar \u00e0 sua pr\u00f3pria sorte o Lehman Brothers, o quarto maior bancos de investimento, cuja fal\u00eancia, espalhou o p\u00e2nico por todos os cantos do mundo, quebrando traumaticamente os la\u00e7os de confian\u00e7a que sustentam a cadeia do cr\u00e9dito. A convers\u00e3o do choque financeiro em crise econ\u00f4mica foi quase imediata. Apesar da resist\u00eancia surpreendente exibida pela China e pela \u00cdndia, e da r\u00e1pida e vigorosa recupera\u00e7\u00e3o brasileira, a crise econ\u00f4mica continuava uma realidade sombria no come\u00e7o da d\u00e9cada seguinte \u2013 os pa\u00edses b\u00e1lticos mergulhados em profunda recess\u00e3o e a moeda europeia amea\u00e7ada em sua integridade pela situa\u00e7\u00e3o calamitosa das contas p\u00fablicas em v\u00e1rios pa\u00edses da zona do euro, a come\u00e7ar pela Gr\u00e9cia.<\/p>\n<p>Poderia ter sido muito pior, n\u00e3o fossem as medidas adotadas pelo governo dos Estados Unidos para conter a propaga\u00e7\u00e3o da crise e debelar-lhe os efeitos: opera\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria de salvamento de bancos organizadas pelo Secret\u00e1rio do Tesouro de turno, Hank Paulson; resgate bilion\u00e1rio, com fundos p\u00fablicos, da General Motors; linha de cr\u00e9dito aberta \u00e0 autoridade monet\u00e1ria europeia pelo FED, que passava a atuar assim como banco de \u00faltima inst\u00e2ncia global. N\u00e3o posso me deter no tema. Relevante para os prop\u00f3sitos deste artigo \u00e9 destacar o impacto social da crise: a recess\u00e3o; o desemprego renitente; as perdas financeiras dram\u00e1ticas das fam\u00edlias de classe m\u00e9dia; o espet\u00e1culo chocante de \u201csem tetos\u201d, aos milhares, acampados em espa\u00e7os vazios em meio \u00e0 opul\u00eancia das grandes cidades. E apontar os seus reflexos pol\u00edticos: a alavancagem de um movimento de extrema-direita que aliava a indigna\u00e7\u00e3o com a presteza do governo em gastar o dinheiro do distinto p\u00fablico a favor dos bancos e a rejei\u00e7\u00e3o profunda ao primeiro presidente negro na hist\u00f3ria dos Estados Unidos. O\u00a0<em>Tea Party<\/em>\u00a0manteve-se no centro da pol\u00edtica americana durante o primeiro mandato de Obama, perdendo for\u00e7a a seguir. Mas os seus ativistas tiveram papel decisivo na elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump, em 2016, e se mantiveram como um ingrediente fundamental do trumpismo.<sup>[17]<\/sup><\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de um fen\u00f4meno de pol\u00edtica dom\u00e9stica. Com o duplo slogan que sintetizava sua plataforma eleitoral \u2013\u00a0<em>America First<\/em>, e\u00a0<em>Make America Great Again<\/em>\u00a0\u2013, Trump operou um giro na pol\u00edtica externa da superpot\u00eancia, que rompia frontalmente com o consenso bipartid\u00e1rio que a informou desde o final da Guerra Fria e, nesse sentido, presidiu a constru\u00e7\u00e3o da ordem internacional criada sob sua batuta.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, Trump converteu-se em catalizador de movimentos de extrema-direita por todo mundo, os quais em suas variadas modalidades contestavam (e contestam!) as cren\u00e7as embutidas no discurso e nas pr\u00e1ticas da nova ordem internacional, denunciadas como express\u00f5es do liberal-globalismo.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a grande crise financeira de 2008 est\u00e1 significativamente conectada a processos que minavam a ordem internacional em gesta\u00e7\u00e3o em dois planos, pelos efeitos corrosivos sobre suas bases de sustenta\u00e7\u00e3o interna e pelo espa\u00e7o que abriam para a contesta\u00e7\u00e3o direta de suas pretens\u00f5es normativas.<\/p>\n<p>Antes disso, por\u00e9m, a ordem internacional j\u00e1 havia sofrido o choque do atentado de 11 de setembro, com seus desdobramentos, a guerra no Afeganist\u00e3o e no Iraque. A rigor, foi uma s\u00e9rie de choques: o estupor causado pela descoberta repentina da vulnerabilidade \u2013 os ataques em Nova York e em Washington foram os primeiros sofridos pelos Estados Unidos em seu territ\u00f3rio desde a guerra contra os ingleses em 1812; a divis\u00e3o na Alian\u00e7a Atl\u00e2ntica no debate sobre as supostas armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa no Iraque; a decis\u00e3o de invadir este pa\u00eds, mesmo sem o aval da ONU, cujo Conselho de Seguran\u00e7a havia rejeitado pouco antes a resolu\u00e7\u00e3o apresentada com este fim pelos Estados Unidos \u2013 com o voto da Fran\u00e7a, da Alemanha\u2026 e da R\u00fassia. A \u201cguerra ao terror\u201d parecia justificar os atos mais extremados, mas seu impacto negativo sobre a legitimidade das institui\u00e7\u00f5es da ordem internacional vigente era facilmente percept\u00edvel.<\/p>\n<p>Mais importante do que o custo pol\u00edtico foi a surpresa reservada aos Estados Unidos e aliados no campo de batalha. Deslanchada em 19 de mar\u00e7o de 2003, a Opera\u00e7\u00e3o Liberdade do Iraque n\u00e3o encontrou grande resist\u00eancia e, tr\u00eas semanas depois, os tanques norte-americanos adentravam Bagd\u00e1. As imagens das est\u00e1tuas derrubadas simbolizando a queda do regime do Baath circularam o mundo, que viu pouco depois, capturado em um esconderijo subterr\u00e2neo, a figura arrogante de seu l\u00edder agora reduzido a um trapo. Nenhuma reserva no tratamento dado ao inimigo, nenhuma tentativa de cooptar parte das elites do regime deposto na tarefa de construir uma nova ordem pol\u00edtica. A resposta veio meses depois, sob a forma da insurg\u00eancia.<\/p>\n<p>O Iraque se somava, assim, ao Afeganist\u00e3o, ocupado por tropas da OTAN h\u00e1 mais de dois anos, desta feita com autoriza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas. Nos dois casos, a For\u00e7as aliadas se viram envolvidas em longo e desgastante conflito com for\u00e7as irregulares, que se valiam dos expedientes milenares da guerra assim\u00e9trica para infligir custos (objetivos e pol\u00edticos) crescentes \u00e0s for\u00e7as de ocupa\u00e7\u00e3o. Em ambos, os Estados Unidos e seus aliados fizeram o poss\u00edvel para cont\u00ea-los, mediante o uso generalizado de companhias privadas de servi\u00e7os militares e do aliciamento de for\u00e7as locais \u2013 estrat\u00e9gia usual na pol\u00edtica de imp\u00e9rios passados. Nada disso bastou para garantir o sucesso das empreitadas: os Estados Unidos foram obrigados a se retirar oficialmente do Iraque, que passou a girar na \u00f3rbita do Ir\u00e3, seu principal rival estrat\u00e9gico na regi\u00e3o, transformando-se mais tarde em territ\u00f3rio disputado pelo ISIS (acr\u00f4nimo ingl\u00eas de Estado Isl\u00e2mico do Iraque), organiza\u00e7\u00e3o jihadista criada na guerra contra o invasor ocidental; e acabou por abandonar o Afeganist\u00e3o, assistindo impotente ao avan\u00e7o das tropas do Taliban, j\u00e1 no come\u00e7o de administra\u00e7\u00e3o Biden.<\/p>\n<p>O terceiro evento de implica\u00e7\u00f5es sist\u00eamicas a assinalar foi a inflex\u00e3o observada na R\u00fassia com a ascens\u00e3o de Vladmir Putin, depois das experi\u00eancias amargas da guerra interna na Chech\u00eania e da humilha\u00e7\u00e3o face \u00e0s for\u00e7as da OTAN no Kosovo. A mudan\u00e7a no in\u00edcio n\u00e3o foi not\u00e1vel, em vista da prioridade dada \u00e0 supera\u00e7\u00e3o dos problemas internos e \u00e0 solidariedade aos Estados Unidos logo ap\u00f3s os atentados de 11 de setembro. Mas ela ficou patente em 2008, quando a R\u00fassia reagiu militarmente, de forma fulminante, \u00e0 tentativa do governo georgiano de assumir pela for\u00e7a o controle da prov\u00edncia separatista da Oss\u00e9tia do Sul. Esse movimento, que consternou os planejadores estrat\u00e9gicos nos Estados Unidos e alhures, se deu no contexto da expans\u00e3o da OTAN at\u00e9 \u00e0 fronteira da R\u00fassia, e da instala\u00e7\u00e3o de um sistema antim\u00edsseis na Pol\u00f4nia, o qual ao afetar seriamente seu poder dissuasivo expunha a R\u00fassia a uma situa\u00e7\u00e3o de grande vulnerabilidade.<\/p>\n<p>A ordem internacional emergente depois da Guerra do Golfo assentava-se no pressuposto de que os Estados Unidos e aliados podiam ser fustigados por atores n\u00e3o-estatais e precisavam se preparar para derrot\u00e1-los, mas n\u00e3o sofriam amea\u00e7as mais s\u00e9rias por parte de outras pot\u00eancias. Os acontecimentos da Ge\u00f3rgia mostraram ao mundo que tal avalia\u00e7\u00e3o era equivocada. A partir da\u00ed o liberalismo internacionalista, guiado pela ideia reguladora da Cosm\u00f3polis, encontrava um desafiante de peso. O qual logo depois se lan\u00e7ava em amplo programa de reforma militar para se dotar dos meios correspondentes \u00e0 sua pol\u00edtica soberana.<sup>[18]<\/sup>\u00a0A disposi\u00e7\u00e3o russa de empreg\u00e1-los manifestou-se com assertividade not\u00e1vel na crise ucraniana, em 2014, que culminou na anexa\u00e7\u00e3o da Crimeia, e numa crise prolongada no relacionamento entre a alian\u00e7a Ocidental e a R\u00fassia<sup>[19]<\/sup>. Desde ent\u00e3o, esse conflito vem se constituindo em uma das determina\u00e7\u00f5es gerais mais importantes da configura\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica do mundo em que vivemos, fato patenteado pela eclos\u00e3o da guerra ora em curso na Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>O quarto desenvolvimento transformador em escala global foi a continuidade do avan\u00e7o econ\u00f4mico da China, no per\u00edodo aberto pela crise financeira de 2008, sua r\u00e1pida ascens\u00e3o nos setores de tecnologia de ponta \u2013 de uso dual (civil e militar) \u2013 e a crescente assertividade de sua pol\u00edtica exterior a partir de 2013, sob o comando de Xi Jinping. N\u00e3o obstante o elevado grau de integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica entre China e Estados Unidos \u2013 e o fato de a inser\u00e7\u00e3o da primeira na economia capitalista internacional ter se dado \u201ca convite\u201d da superpot\u00eancia \u2013, o crescimento acelerado da China, com as propriedades estruturais que caracterizam a sua economia (coexist\u00eancia entre um setor privado fortemente internacionalizado e amplo setor banc\u00e1rio e produtivo estatal), cedo despertou inquieta\u00e7\u00f5es nos c\u00edrculos dirigentes dos Estados Unidos. Inicialmente focadas em aspectos pontuais de pol\u00edtica econ\u00f4mica (manipula\u00e7\u00e3o cambial) e em pr\u00e1ticas comerciais (viola\u00e7\u00f5es de direitos de propriedade intelectual, por exemplo), depois da crise de 2008 elas adquirem clara conota\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica. \u00c9 sob esse prisma que deve ser entendido o piv\u00f4 asi\u00e1tico anunciado pela ent\u00e3o Secret\u00e1ria de Estado Hillary Clinton, em 2010.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/live.staticflickr.com\/5024\/5703802561_494f5176e8_b.jpg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"Secretary Clinton Delivers Remarks at Opening Session of U\u2026 | Flickr\" \/><\/p>\n<p><em>A ent\u00e3o secret\u00e1ria de Estado americana, Hillary Clinton, discursa na Sess\u00e3o de Abertura do Di\u00e1logo Estrat\u00e9gico EUA-China, em Washington, D.C., em 9 de maio de 2011<\/em><\/p>\n<p>Assentada na amplia\u00e7\u00e3o e estreitamento de la\u00e7os com Estados refrat\u00e1rios \u00e0 influ\u00eancia chinesa na regi\u00e3o, o cora\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia americana era o projeto da Parceria Transpac\u00edfica<em>\u00a0\u2013\u00a0<\/em>TPP, no acr\u00f4nimo em ingl\u00eas. Tratava-se, claramente, de estabelecer um processo seletivo de gera\u00e7\u00e3o de normas internacionais mais restritivas do que as convencionadas em negocia\u00e7\u00f5es multilaterais no \u00e2mbito da OMC, a serem generalizadas posteriormente via ades\u00e3o for\u00e7ada ao conjunto do pacote. A China (mas tamb\u00e9m a \u00cdndia) foi mantida a dist\u00e2ncia desse processo, que culminou na assinatura do acordo, em outubro de 2015.<\/p>\n<p>Como se sabe, o Congresso dos Estados Unidos n\u00e3o ratificou o acordo, que nem sequer foi submetido \u00e0 sua aprecia\u00e7\u00e3o. O governo Trump abandonou a estrat\u00e9gia de conten\u00e7\u00e3o indireta da China em prol de uma abordagem agressiva, aplicada via negocia\u00e7\u00f5es bilaterais.<\/p>\n<p>A reorienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, por\u00e9m, n\u00e3o obscurece o forte elemento de continuidade no plano estrat\u00e9gico: ligando os dois per\u00edodos h\u00e1 uma mudan\u00e7a dr\u00e1stica nos Estados Unidos quanto ao papel da China no mundo, que passa a ser encarada como rival estrat\u00e9gico dos Estados Unidos, num consenso bipartid\u00e1rio com ampla aceita\u00e7\u00e3o na opini\u00e3o p\u00fablica americana. Consenso que se apoiava no reconhecimento tardio de que a China avan\u00e7ava celeremente na conquista de setores de tecnologia de ponta o que a qualificava para ocupar a curto ou m\u00e9dio prazo, no plano militar igualmente, a posi\u00e7\u00e3o de grande pot\u00eancia.<sup>[20]<\/sup><\/p>\n<p>A inflex\u00e3o verificada na postura chinesa com Xi Jinping radicaliza uma corre\u00e7\u00e3o de rumo incipiente que j\u00e1 se ensaiava h\u00e1 anos, a partir das li\u00e7\u00f5es extra\u00eddas pela elite chinesa da guerra movida pela OTAN na Iugosl\u00e1via. Ela se contrap\u00f5e \u00e0 tentativa de conten\u00e7\u00e3o (ou socializa\u00e7\u00e3o coercitiva, para usar a sugestiva express\u00e3o cunhada por Andrew Hurrell para interpretar a mudan\u00e7a no paradigma da pol\u00edtica externa brasileira nos anos 1990<sup>[21]<\/sup>), em dois planos interligados. No campo da diplomacia econ\u00f4mica, com o megaprojeto do\u00a0<em>One Belt One Road<\/em>, que oferece a seus parceiros (na \u00c1sia, no Oriente M\u00e9dio e na Europa) a oportunidade de se conectarem com o mercado chin\u00eas atrav\u00e9s de gigantescos planos de investimento em infraestrutura, generosamente financiados pelo Banco Asi\u00e1tico de Desenvolvimento, e outras institui\u00e7\u00f5es financeiras chinesas). No plano militar, com um significativo incremento no or\u00e7amento de defesa, cujas express\u00f5es materiais mais vis\u00edveis s\u00e3o a amplia\u00e7\u00e3o da frota de naves de m\u00e9dio porte da Marinha de Guerra, e a cria\u00e7\u00e3o de uma frota de porta-avi\u00f5es (o terceiro dos quais, lan\u00e7ado ao mar em junho de 2022, projetado e constru\u00eddo na pr\u00f3pria China)<sup>[22]<\/sup>\u00a0e a expans\u00e3o impactante de seu arsenal nuclear<sup>[23]<\/sup>. Particularmente preocupante na grande estrat\u00e9gia chinesa para os Estados Unidos era a \u00eanfase posta na fus\u00e3o da tecnologia civil e militar. Objetivo claramente enunciado em documentos oficiais de car\u00e1ter p\u00fablico, esta diretiva refletia o aprendizado dos planejadores chineses no estudo atento da experi\u00eancia americana.<sup>[24]<\/sup><\/p>\n<p>Compreende-se, assim, a prioridade conferida ao desenvolvimento cient\u00edfico-tecnol\u00f3gico na estrat\u00e9gia do governo Biden e o seu esfor\u00e7o met\u00f3dico por bloquear o acesso de empresas chinesas a bens requeridos para a fabrica\u00e7\u00e3o de produtos de alta tecnologia \u2013 em particular, componentes de microprocessadores e equipamentos avan\u00e7ados para sua produ\u00e7\u00e3o. Definindo a China como competidor estrat\u00e9gico com<em>\u00a0\u201cinten\u00e7\u00e3o e, cada vez mais a capacidade de remodelar a ordem internacional\u00a0<\/em>(a seu favor)\u201d<em>,<\/em>\u00a0o governo Biden empenha-se em recompor alian\u00e7a atl\u00e2ntica, esgar\u00e7ada pela pol\u00edtica de seu antecessor, e inclui entre os objetivos centrais de sua Estrat\u00e9gia de Seguran\u00e7a Nacional a implementa\u00e7\u00e3o de programas ambiciosos de pol\u00edtica industrial, com \u00eanfase na cadeia produtiva de semicondutores e nos setores de computa\u00e7\u00e3o avan\u00e7ada, comunica\u00e7\u00e3o, tecnologias de energia limpa e biotecnologia. Inclui tamb\u00e9m entre os seus objetivos centrais o fortalecimento da democracia, que implica o reconhecimento dos resultados das elei\u00e7\u00f5es, admitindo que \u201c<em>We have not always lived up to our ideals and in recent years our democracy has been challenged from within<\/em>.\u201d<sup>[25]<\/sup><\/p>\n<p>A securitiza\u00e7\u00e3o de temas de pol\u00edtica industrial \u2013 at\u00e9 bem pouco tempo atr\u00e1s, an\u00e1tema para os neoliberais \u2013 e de quest\u00f5es controversas de pol\u00edtica dom\u00e9stica, como a legitimidade dos resultados e os procedimentos eleitorais \u2013 s\u00e3o indica\u00e7\u00f5es eloquentes da situa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica vivida pelos Estados Unidos, pelo menos aos olhos de sua elite \u2013 ou da fra\u00e7\u00e3o dela que ora empolga o poder.<sup>[26]<\/sup><\/p>\n<p><strong>4. Mundo em Tr\u00e2nsito. Presente prolongado \u2026 al\u00e9m do horizonte<\/strong><\/p>\n<p>Pesquisa prospectiva realizada com especialistas em rela\u00e7\u00f5es internacionais brasileiros quase vinte anos atr\u00e1s apontou, como cen\u00e1rio mais prov\u00e1vel em 2022, a \u201c<em>desconcentra\u00e7\u00e3o conflituosa<\/em>\u201d do poder mundial \u2013 os outros foram batizados assim: \u201c<em>multipolaridade benigna<\/em>\u201d; \u201c<em>unipolar consolidado<\/em>\u201d e \u201c<em>ordem liberal cosmopolita<\/em>\u201d. No cen\u00e1rio mais prov\u00e1vel, a primazia dos Estados Unidos na economia e na pol\u00edtica mundiais estaria reduzida pela ocorr\u00eancia de um desses eventos, ou de sua combina\u00e7\u00e3o: fortalecimento econ\u00f4mico e militar da China; aprofundamento da Uni\u00e3o Europeia. A pesquisa identificava ainda a ascens\u00e3o da \u00cdndia e a integra\u00e7\u00e3o da R\u00fassia \u00e0 UE como fatores que refor\u00e7ariam aquele resultado. N\u00e3o vem ao caso examinar aqui as hip\u00f3teses causais que levaram a tal conclus\u00e3o. Mas creio ser interessante rever como o cen\u00e1rio tido como prov\u00e1vel era caracterizado.<\/p>\n<blockquote><p>\u201c<em>A transi\u00e7\u00e3o para um sistema dotado de v\u00e1rios polos de poder \u00e9 o elemento central neste cen\u00e1rio. Mas o elemento que o distingue \u00e9 a maneira como ela se processa. Neste cen\u00e1rio, a desconcentra\u00e7\u00e3o se opera de forma conflituosa, pela emerg\u00eancia de competidores com meios e disposi\u00e7\u00e3o para contestar o papel de lideran\u00e7a da superpot\u00eancia na condu\u00e7\u00e3o dos assuntos internacionais<\/em>.\u201d<sup>[27]<\/sup><\/p><\/blockquote>\n<p>A refer\u00eancia se justifica, a meu ver, porque o futuro antecipado em 2004 \u00e9 agora o nosso presente, o que nos permite cotejar as proje\u00e7\u00f5es feitas no passado com os desenvolvimentos reais que se desenrolam \u00e0 nossa vista.<\/p>\n<p>O artigo que expunha os resultados da pesquisa completava o desenho do cen\u00e1rio mais prov\u00e1vel em 2022 apontando cinco tend\u00eancias que se manifestariam com for\u00e7a, caso ele se materializasse.<\/p>\n<p>1) \u201caumentam \u201cas tens\u00f5es entre os principais atores da pol\u00edtica internacional, que se lan\u00e7am em jogos de alian\u00e7a envolvendo tamb\u00e9m pot\u00eancias pequenas e m\u00e9dias.\u201d<\/p>\n<p>2) \u201cconflitos \u00e9tnicos e religiosos geram situa\u00e7\u00f5es cr\u00edticas, mas as discrep\u00e2ncias entre as grandes pot\u00eancias inibem as interven\u00e7\u00f5es internacionais para san\u00e1-las.\u201d<\/p>\n<p>3) as tens\u00f5es no Oriente M\u00e9dio continuam elevadas, (mas) \u201cos Estados Unidos reduzem sua presen\u00e7a militar na regi\u00e3o, pela dificuldade de arcar com os (seus) custos econ\u00f4micos e pol\u00edticos.\u201d<\/p>\n<p>4) \u201cem outras regi\u00f5es \u2026 conflitos \u00e9tnicos e religiosos criam condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis para organiza\u00e7\u00f5es terroristas, que intensificam sua atividade.\u201d<\/p>\n<p>5) \u201cNo plano das rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, as diverg\u00eancias entre os principais atores levam \u00e0 multiplica\u00e7\u00e3o de acordos minilateralistas, em detrimento do sistema multilateral.\u201d<\/p>\n<p>6) \u201cEm todos os n\u00edveis, decresce a import\u00e2ncia e a participa\u00e7\u00e3o das ONGs em organismos multilaterais, que passam a enfrentar s\u00e9rias dificuldades.\u201d<\/p>\n<p>Por economia de espa\u00e7o, deixo ao leitor a prerrogativa de conferir se \u2013 e em que medida \u2013 as tend\u00eancias descritas se verificaram. Ao inv\u00e9s disso, chamo a aten\u00e7\u00e3o para a grande lacuna contida no desenho daquele cen\u00e1rio. Com efeito, ele previa a multiplica\u00e7\u00e3o de conflitos e o apelo recorrente \u00e0 viol\u00eancia nas rela\u00e7\u00f5es internacionais. Mas n\u00e3o contemplava a realidade mais perturbadora do nosso presente: a hip\u00f3tese do enfrentamento direto entre as grandes pot\u00eancias, com o seu corol\u00e1rio, a possibilidade objetiva da hecatombe nuclear.<\/p>\n<p>No momento em que escrevo n\u00e3o se trata mais de uma hip\u00f3tese, mas de um fato. A guerra na Ucr\u00e2nia n\u00e3o contrap\u00f5e uma grande pot\u00eancia militar (a R\u00fassia) e o pa\u00eds vizinho que luta desesperadamente para preservar sua independ\u00eancia. Desde o in\u00edcio, a Ucr\u00e2nia tem sido o teatro de opera\u00e7\u00f5es militares de uma guerra que op\u00f5e a R\u00fassia e o bloco Ocidental comandado pelos Estados Unidos. Foi o que Annalena Baerbock, Ministra das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores da Alemanha, reconheceu em reuni\u00e3o plen\u00e1ria do Parlamento Europeu ao rebater as cr\u00edticas a seu pa\u00eds pela relut\u00e2ncia em fornecer tanques Leopard \u00e0 Ucr\u00e2nia com a frase desastrada: \u201c\u2026\u00a0<em>n\u00e3o fazemos o jogo da culpa na Europa, porque estamos lutando uma guerra contra a R\u00fassia, e n\u00e3o uns contra os outros.\u201d<\/em><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/live.staticflickr.com\/65535\/51832629785_928110815c_b.jpg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"Secretary Blinken Holds a Joint Press Availability With Ge\u2026 | Flickr\" \/><br \/>\n<em>Ministra alem\u00e3 das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, Annalena Baerbock, e o secret\u00e1rio de Estado americano, Antony Blinken, em entrevista coletiva conjunta em Berlim, em 20 jan. 2022<\/em><\/p>\n<p>Em guerra contra a R\u00fassia, a Europa parece estar tamb\u00e9m em rota de colis\u00e3o com a China. Testemunham o fato a propaganda agressiva difundida pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o, a atmosfera de suspeita que passa a cercar o interc\u00e2mbio cultural com este pa\u00eds e as medidas restritivas de rigidez crescente adotadas contra suas empresas no Velho Continente. R\u00fassia e China. Unindo as duas rejei\u00e7\u00f5es o discurso fortemente ideologizado, que faz apelo aos ideais dos direitos humanos e da democracia, e os pesados custos econ\u00f4micos e sociais da ruptura (ou enfraquecimento, no caso chin\u00eas) dos la\u00e7os com dois parceiros fundamentais em qualquer estrat\u00e9gia de afirma\u00e7\u00e3o auton\u00f4mica. Com eles, a Europa se lan\u00e7a em um conflito cicl\u00f3pico em que tem tudo a perder, como caudat\u00e1ria d\u00f3cil dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Este o principal desacordo entre o real e o previsto. Em 2004, um ano depois de ter sediado forte rea\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica americana para o Iraque, as veleidades europeias de uma pol\u00edtica externa e de defesa comuns ainda pareciam cr\u00edveis. Tendo esbarrado sempre na resist\u00eancia dos Estados Unidos, tais pretens\u00f5es reduzem-se hoje a lembran\u00e7as nost\u00e1lgicas, alimentadas ocasionalmente por discursos edificantes entoados na l\u00edngua de Moli\u00e8re.<\/p>\n<p>O conglomerado Ocidental (que inclui ainda a Austr\u00e1lia e o Jap\u00e3o) X R\u00fassia e China. Uma Nova Guerra Fria? N\u00e3o exatamente. A semelhan\u00e7a entre o mundo de hoje e o que prevaleceu na segunda metade do s\u00e9culo passado \u00e9 superficial. N\u00e3o mais dois blocos separados ideol\u00f3gica e economicamente. N\u00e3o mais a certeza do absurdo da guerra entre as duas superpot\u00eancias.<\/p>\n<p>Mas a diferen\u00e7a principal est\u00e1 nas rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a no campo internacional. Os Estados Unidos continuam como maior economia do mundo (embora n\u00e3o mais, se considerado o PIB em paridade de poder de compra) e seu poder militar \u2013 que inclui tamb\u00e9m o seu sistema de alian\u00e7as e a rede sem igual de bases espalhadas por todos os quadrantes do mundo) \u2013 continua formid\u00e1vel, ainda que n\u00e3o lhe garanta vit\u00f3rias certas em todas e quaisquer hip\u00f3teses de guerra, e esteja ficando para tr\u00e1s em alguns itens importantes, como sistemas de misseis hipers\u00f4nicos, por exemplo, nos quais a vantagem da R\u00fassia e da China \u00e9 indiscut\u00edvel. Mesmo assim, em perspectiva de longo prazo, seu peso relativo encolheu muito. N\u00e3o apenas na compara\u00e7\u00e3o com a China \u2013 rival estrat\u00e9gico cujo avan\u00e7o faz e far\u00e1 todo o poss\u00edvel por conter, como prioridade n\u00famero um de sua grande estrat\u00e9gia \u2013 mas em rela\u00e7\u00e3o ao resto do mundo.<\/p>\n<p>O qual percebe claramente que a superpot\u00eancia est\u00e1 lan\u00e7ada em uma guerra defensiva, na tentativa algo desesperada de inverter tend\u00eancias estruturais profundas para manter indefinidamente a supremacia que hoje lhe foge aos p\u00e9s. Por isso, a maioria dos pa\u00edses na \u00c1sia, na \u00c1frica, no Oriente M\u00e9dio e na Am\u00e9rica Latina n\u00e3o se sensibiliza facilmente pela ret\u00f3rica que divide ontologicamente o mundo entre democracias e autocracias e refugam a cobran\u00e7a para envolver-se em conflitos que n\u00e3o lhes dizem respeito diretamente, cientes de que o significado dos valores invocados para esse efeito n\u00e3o \u00e9 un\u00edvoco e est\u00e1 em disputa na casa de seus promotores autoproclamados.<\/p>\n<p>Presente prolongado. Nada indica que a situa\u00e7\u00e3o de alta conflitualidade atual esteja pr\u00f3xima do fim. Nesse sentido, o futuro que podemos antever \u00e9 de um tr\u00e2nsito turbulento em que conhecemos o estado inicial mas n\u00e3o temos ideia sobre o estado de coisas que haver\u00e1 depois da travessia.<\/p>\n<p>Mas para agir neste presente t\u00e3o perigoso, precisamos visar al\u00e9m do horizonte. Nesse movimento, pessimismo e otimismo se fundem e a utopia se converte em condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria do realismo.<\/p>\n<p>[1] Lamothe, Dan, \u201cU.S. General warns troops that war with China is possible in two years\u201d,\u00a0<em>The Washington Post<\/em>, 27\/01\/2023.<\/p>\n<p>[2] Bush, George,\u00a0<em>Address Before a Joint Session of the Congress on the State of the Union,\u00a0<\/em><em>January 29, 1991<\/em>.<\/p>\n<p>[3] O papel desempenhado por esses organismos foi salientado no livro que dediquei \u00e0 an\u00e1lise do processo de reestrutura\u00e7\u00e3o capitalista em curso no \u00faltimo quartel do s\u00e9culo passado, em perspectiva comparativa. Cf, Velasco e Cruz, S.\u00a0<em>Trajet\u00f3rias. Capitalismo Neoliberal e Reformas Econ\u00f4micas nos Pa\u00edses da Periferia<\/em>. S\u00e3o Paulo, Editora da UNESP, 2007.<\/p>\n<p>[4] Para uma an\u00e1lise do processo que leva \u00e0 cria\u00e7\u00e3o da OMC e aos impasses que ela vive nos dias atuais, Cf. Velasco e Cruz, S.\u00a0<em>Estados e Mercados. Os Estados Unidos e o sistema multilateral de com\u00e9rcio<\/em>. S\u00e3o Paulo, Editora da UNESP, 2017.<\/p>\n<p>[5] Discuti diferentes aspectos deste tema em dois textos. Cf. \u201cDemocracia e Ordem Internacional. Reflex\u00f5es a partir de um pa\u00eds grande semiperif\u00e9rico\u201d, in Velasco e Cruz, S.\u00a0<em>Globaliza\u00e7\u00e3o, Democracia e Ordem Internacional. Ensaios de teoria e hist\u00f3ria<\/em>. Campinas e S\u00e3o Paulo, Editora da UNICAMP\/Editora da UNESP, 2004, pp. 195-245, e \u201cNotas sobre o paradoxo dos direitos humanos e as rela\u00e7\u00f5es hemisf\u00e9ricas\u201d, in Velasco e Cruz, S.\u00a0<em>Contracorrente. Ensaios de teoria, an\u00e1lise e cr\u00edtica pol\u00edtica<\/em>. S\u00e3o Paulo, Editora da UNESP, 2019, pp. 25-44.<\/p>\n<p>[6] Ruttan, Vernon W.\u00a0<em>Is War Necessary to Economic Growth? Military Procurement and Technology Development<\/em>, Oxford\/New York, Oxford University Press, 2006.<\/p>\n<p>[7] Mahnken, Thomas G.\u00a0<em>Technology and the American Way of War Since 1945<\/em>. New York, Columbia University Press, 2008, p. 222.<\/p>\n<p>[8] Knoll, David Louis.\u00a0<em>Twenty-first Century Diffusion Patterns: How Military Innovation Spreads Among Non-State Armed Groups<\/em>. PhD Thesis, The Fletcher School of Law and Diplomacy, 2015, p. 2.<\/p>\n<p>[9] Goldberg, Matthew S. Updated Death and Injury Rates of U.S. Military Personnel During the Conflicts in Iraq and Afghanistan, Working Paper Series, Congressional Budget Office, 2014.<\/p>\n<p>[10] Overton, Iain. A decade of global IED harm reviewed\u00a0<em>AOV- Action on Armed Violence<\/em>, 15\/10\/2020.<\/p>\n<p>[11] Owens, Brett D. et alli. \u201cCombat Wounds in Operation Iraqi Freedom and Operation Enduring Freedom\u201d,\u00a0<em>The Journal of Trauma_Injury, Infection, and Critical Care<\/em>, Vol. 64, N. 2, 2008, pp. 295-299.<\/p>\n<p>[12] Sieg, Hans Martin. How the Transformation of Military Power Leads to Increasing Asymmetries in Warfare? From the Battle of Omdurman to the Iraq Insurgency\u201d,\u00a0<em>Armed Forces &amp; Society<\/em>, Vol. 40(2), 2-13, pp 332-356 (p. 340).<\/p>\n<p>[13] Allison, Graham T. et alli.\u00a0<em>Avoiding Nuclear Anarchy<\/em>. Containing the Threat of Loose Russian Nuclear Weapons and Fissile Material. Cambridge, Mass., The MIT Press, 1996, p. 3.<\/p>\n<p>[14] A express\u00e3o intitula o texto seminal de Brodie, precursor do debate sobre a estrat\u00e9gia da dissuas\u00e3o nuclear nos Estados Unidos. Cf. Brodie, Bernard (Ed.).\u00a0<em>The Absolute Weapon. Atomic Power and World Order<\/em>, Harcourt, Brace and Company, 1946. Para uma apresenta\u00e7\u00e3o brilhante da diferen\u00e7a entre a l\u00f3gica da guerra convencional e da guerra nuclear, Cf. Waltz, Kenneth, \u201cNuclear Myths and Political Realities\u201d,\u00a0<em>The American Political Science Review<\/em>, Vol. 84, No. 3 (Sep., 1990), pp. 731-745.<\/p>\n<p>[15] Cf. Murden, Simon W.\u00a0<em>The Problem of Force<\/em>. Grappling with the Global Battlefield, Boulder, Col., Lyme Rienner Publishers, 2009, p. 67. Para an\u00e1lise detida do tema, Cf. Mueller, John &amp; Mueller, Karl \u201cSanctions of Mass Destruction\u201d,\u00a0<em>Foreign Affairs<\/em>, Vol. 78, No. 3, 1999, pp. 43-53.<\/p>\n<p>[16] Cf. Primakov, Yevgeny,\u00a0<em>Russian Crossroads. Toward the New Millenium<\/em>, New Haven &amp; London, Yale University Press, 2004, pp. 266 e segs. e Talbott, Strobe, \u201cPutinism: The Backstory\u201d The Sixt Annual Ernst May Memorial Lecture, in Burns, Nicholas and Johnathon Price (eds.),\u00a0<em>The Crisis With Russia<\/em>, The Aspen Institute, 2014.<\/p>\n<p>[17] Nem sempre reconhecida, esta conex\u00e3o \u00e9 explorada em trabalhos que discuti em Velasco e Cruz, Sebasti\u00e3o, \u201cUma casa dividida. Donald Trump e a transforma\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica americana\u201d, in ____ &amp; Bojikian, Neusa M. P. (orgs.)\u00a0<em>Trump: Primeiro Tempo. Partidos, pol\u00edticas, elei\u00e7\u00f5es e perspectivas<\/em>. S\u00e3o Paulo, Editora da UNESP, 2019, pp. 11-43.<\/p>\n<p>[18] Cf. Almeida Neto, Get\u00falio Alves de.\u00a0<em>O Poder pela For\u00e7a: uma an\u00e1lise da reforma militar russa e sua rela\u00e7\u00e3o com o posicionamento internacional do pa\u00eds<\/em>. Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado, Programa San Tiago Dantas de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais (UNESP\/ UNICAMP\/ PUC-SP), 2021.<\/p>\n<p>[19] Tratei da internacionaliza\u00e7\u00e3o da crise ucraniana de 2014 no artigo, \u201cSer ou n\u00e3o Ser? Ucr\u00e2nia, R\u00fassia e os Dilemas da Pol\u00edtica Externa Alem\u00e3\u201d,<em>\u00a0Carta Internacional<\/em>\u00a0(ABRI: Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais), Vol. 8, No. 2, 2013, pp. 58-80.<\/p>\n<p>[20] Cf. Graham Allison et alli. The Great Tech Rivalry: China vs the U.S., Avoiding Great Power War Project Belfer Center for Science and International Affairs Harvard Kennedy School, 2021; Cordesman, Anthony H., China: The Civil-Military Challenge, Volume One of a Graphic Net Assessment, Washington, DC, Center for Strategic and International Studies-CSIS, 2021; Cordesman, Anthony H.,\u00a0<em>Major Powers and Strategic Partners. A graphic net assessment<\/em>, Washington, DC, Center for Strategic and International Studies-CSIS, 2022.<\/p>\n<p>[21] Hurrell, Andrew. Progressive Enmeshment, Hegemonic Imposition or Coercive Socialization? Understanding Policy Change in Brazil. Working Paper, 1995.<\/p>\n<p>[22] Cf. Hille, Kathrin, \u201cChina\u2019s focus on giant aircraft carriers makes it vulnerable to missile threat\u201d,\u00a0<em>Financial Times<\/em>, 11\/08\/2021. \u201cLan\u00e7ado ao mar o Fujian, terceiro porta-avi\u00f5es da Marinha Chinesa\u201d,\u00a0<em>Revista For\u00e7a A\u00e9rea<\/em>, 17\/06\/2022.<\/p>\n<p>[23] Brands, Hall, \u201cChina\u2019s Nuclear Buildup Changes Balance of Power\u201d, Bloomberg Opinion, 7\/09\/2020. Brown, Gerald C., \u201cUnderstanding the Risks and Realities of China\u2019s Nuclear Forces\u201d, Arms Control Today, 06\/2021; \u201cChina\u2019s Nuclear Forces Swell: a Tri Polar World?\u201d Cheng, Dean, The Heritage Foundation, 4\/08\/2021.<\/p>\n<p>[24] Cf. Manoj Joshi, \u201cChina\u2019s Military-Civil Fusion Strategy, the US Response, and Implications for India, ORF Occasional Paper No. 345, 2022, Observer Research Foundation. Resultado atualizado do monitoramento americano dessa pol\u00edtica pode ser encontrado em\u00a0<em>Military and Security Developments Involving People\u2019s Republic of China<\/em>. A Report to Congress. Department of Defense, 2022.<\/p>\n<p>[25] The White House,\u00a0<em>National Security Strategy<\/em>, October 12, 2022, p. 16.<\/p>\n<p>[26] Sobre a elei\u00e7\u00e3o presidencial americana de 2020 como elei\u00e7\u00e3o contestada e o impacto da polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que assim se manifestava na pol\u00edtica internacional do Estados Unidos, Cf. Velasco e Cruz, Sebasti\u00e3o C., \u201cEstados Unidos 2020: uma elei\u00e7\u00e3o n\u00e3o como as outras. Implica\u00e7\u00f5es internacionais.\u201d, in ____ &amp; Bojikian, Neusa Maria P. (Orgs.),\u00a0<em>De Trump a Biden. Partidos, pol\u00edticas, elei\u00e7\u00f5es e perspectivas<\/em>, S\u00e3o Paulo, Editora da UNESP, 2019, p. 279-289.<\/p>\n<p>[27] Velasco e Cruz, S. &amp; Sennes, R., \u201cO Brasil no Mundo. Conjecturas e Cen\u00e1rios\u201d,\u00a0<em>Estudos Avan\u00e7ados<\/em>, V. 20, n. 56, 2006, p. 29-42, republicado em Velasco e Cruz, S.\u00a0<em>O Brasil no Mundo: ensaios de an\u00e1lise pol\u00edtica e prospectiva<\/em>. S\u00e3o Paulo, Editora da UNESP, 2010, p. 133-146 (p.138).<\/p>\n<p>*\u00a0<a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/0930029261355652\" rel=\"noopener\">Sebasti\u00e3o Velasco e Cruz<\/a>\u00a0\u00e9 coordenador do INCT-INEU e do OPEU, Professor Titular da Universidade Estadual de Campinas (<a href=\"https:\/\/www.ifch.unicamp.br\/ifch\/pos\/cienciapolitica\/doutorado\" rel=\"noopener\">Unicamp<\/a>) e Professor do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais San Tiago Dantas (<a href=\"https:\/\/www.santiagodantas-ppgri.org\/\" rel=\"noopener\">UNESP\/UNICAMP\/PUC-SP<\/a>).<\/p>\n<p>** Recebido em 25 fev. 2023. Este\u00a0<strong>Estudos e An\u00e1lises<\/strong>\u00a0n\u00e3o reflete, necessariamente, a opini\u00e3o do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.opeu.org.br\/\" rel=\"noopener\">OPEU<\/a>, ou do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ineu.org.br\/\" rel=\"noopener\">INCT-INEU<\/a>.<\/p>\n<p>*** Sobre o OPEU, ou para contribuir com artigos, entrar em contato com a editora\u00a0<a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/9976432688826486\" rel=\"noopener\">Tatiana Teixeira<\/a>, no\u00a0<em>e-mail<\/em>:\u00a0<u>tatianat19@hotmail.com<\/u>. Sobre as nossas\u00a0<em>Newsletters<\/em>, para atendimento \u00e0 imprensa, ou outros assuntos, entrar em contato com\u00a0<strong>Tatiana Carlotti<\/strong>, no\u00a0<em>e-mail<\/em>:\u00a0<u>tcarlotti@gmail.com<\/u>.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Mundo em transe. Notas sobre a crise e o futuro da ordem internacional &#8211; OPEU &#8211; https:\/\/www.opeu.org.br\/2023\/03\/03\/mundo-em-transe-notas-sobre-a-crise-e-o-futuro-da-ordem-internacional\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sebasti\u00e3o Velasco e Cruz &#8211;\u00a0Presente prolongado de uma ordem que ainda vir\u00e1. 1. Introdu\u00e7\u00e3o. Quem poderia imaginar! Mal debelada a pandemia \u2013 ao menos para os pa\u00edses mais fortemente afetados em suas primeiras ondas, o Brasil inclu\u00eddo \u2013 quando a ideia de retorno \u00e0 normalidade, ou a algo assemelhado, come\u00e7ava a se desenhar no horizonte [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":7784,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[71],"class_list":["post-19181","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geografia","tag-geopolitica"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Mundo em transe. Notas sobre a crise e o futuro da ordem internacional - Controversia<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/04\/23\/mundo-em-transe-notas-sobre-a-crise-e-o-futuro-da-ordem-internacional\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_PT\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Mundo em transe. Notas sobre a crise e o futuro da ordem internacional - Controversia\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Sebasti\u00e3o Velasco e Cruz &#8211;\u00a0Presente prolongado de uma ordem que ainda vir\u00e1. 1. Introdu\u00e7\u00e3o. Quem poderia imaginar! Mal debelada a pandemia \u2013 ao menos para os pa\u00edses mais fortemente afetados em suas primeiras ondas, o Brasil inclu\u00eddo \u2013 quando a ideia de retorno \u00e0 normalidade, ou a algo assemelhado, come\u00e7ava a se desenhar no horizonte [&hellip;]\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/04\/23\/mundo-em-transe-notas-sobre-a-crise-e-o-futuro-da-ordem-internacional\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Controversia\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Controversiascontemporaneas\/\" \/>\n<meta property=\"article:author\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Controversiascontemporaneas\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2023-04-23T15:37:16+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/globo-nova-ordem-geopolitica.jpg\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"1000\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"541\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/jpeg\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Ricardo Alvarez\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:creator\" content=\"@https:\/\/twitter.com\/contro_versia\" \/>\n<meta name=\"twitter:site\" content=\"@contro_versia\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Ricardo Alvarez\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Tempo estimado de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"50 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2023\\\/04\\\/23\\\/mundo-em-transe-notas-sobre-a-crise-e-o-futuro-da-ordem-internacional\\\/#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2023\\\/04\\\/23\\\/mundo-em-transe-notas-sobre-a-crise-e-o-futuro-da-ordem-internacional\\\/\"},\"author\":{\"name\":\"Ricardo Alvarez\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2\"},\"headline\":\"Mundo em transe. Notas sobre a crise e o futuro da ordem internacional\",\"datePublished\":\"2023-04-23T15:37:16+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2023\\\/04\\\/23\\\/mundo-em-transe-notas-sobre-a-crise-e-o-futuro-da-ordem-internacional\\\/\"},\"wordCount\":9668,\"commentCount\":0,\"publisher\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2\"},\"image\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2023\\\/04\\\/23\\\/mundo-em-transe-notas-sobre-a-crise-e-o-futuro-da-ordem-internacional\\\/#primaryimage\"},\"thumbnailUrl\":\"https:\\\/\\\/i0.wp.com\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2018\\\/04\\\/globo-nova-ordem-geopolitica.jpg?fit=1000%2C541&ssl=1\",\"keywords\":[\"Geopol\u00edtica\"],\"articleSection\":[\"Geografia\"],\"inLanguage\":\"pt-PT\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"CommentAction\",\"name\":\"Comment\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2023\\\/04\\\/23\\\/mundo-em-transe-notas-sobre-a-crise-e-o-futuro-da-ordem-internacional\\\/#respond\"]}]},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2023\\\/04\\\/23\\\/mundo-em-transe-notas-sobre-a-crise-e-o-futuro-da-ordem-internacional\\\/\",\"url\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2023\\\/04\\\/23\\\/mundo-em-transe-notas-sobre-a-crise-e-o-futuro-da-ordem-internacional\\\/\",\"name\":\"Mundo em transe. Notas sobre a crise e o futuro da ordem internacional - Controversia\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/#website\"},\"primaryImageOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2023\\\/04\\\/23\\\/mundo-em-transe-notas-sobre-a-crise-e-o-futuro-da-ordem-internacional\\\/#primaryimage\"},\"image\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2023\\\/04\\\/23\\\/mundo-em-transe-notas-sobre-a-crise-e-o-futuro-da-ordem-internacional\\\/#primaryimage\"},\"thumbnailUrl\":\"https:\\\/\\\/i0.wp.com\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2018\\\/04\\\/globo-nova-ordem-geopolitica.jpg?fit=1000%2C541&ssl=1\",\"datePublished\":\"2023-04-23T15:37:16+00:00\",\"breadcrumb\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2023\\\/04\\\/23\\\/mundo-em-transe-notas-sobre-a-crise-e-o-futuro-da-ordem-internacional\\\/#breadcrumb\"},\"inLanguage\":\"pt-PT\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2023\\\/04\\\/23\\\/mundo-em-transe-notas-sobre-a-crise-e-o-futuro-da-ordem-internacional\\\/\"]}]},{\"@type\":\"ImageObject\",\"inLanguage\":\"pt-PT\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2023\\\/04\\\/23\\\/mundo-em-transe-notas-sobre-a-crise-e-o-futuro-da-ordem-internacional\\\/#primaryimage\",\"url\":\"https:\\\/\\\/i0.wp.com\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2018\\\/04\\\/globo-nova-ordem-geopolitica.jpg?fit=1000%2C541&ssl=1\",\"contentUrl\":\"https:\\\/\\\/i0.wp.com\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2018\\\/04\\\/globo-nova-ordem-geopolitica.jpg?fit=1000%2C541&ssl=1\",\"width\":1000,\"height\":541},{\"@type\":\"BreadcrumbList\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/2023\\\/04\\\/23\\\/mundo-em-transe-notas-sobre-a-crise-e-o-futuro-da-ordem-internacional\\\/#breadcrumb\",\"itemListElement\":[{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":1,\"name\":\"In\u00edcio\",\"item\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":2,\"name\":\"Mundo em transe. Notas sobre a crise e o futuro da ordem internacional\"}]},{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/#website\",\"url\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/\",\"name\":\"Controversia\",\"description\":\"Um site de leitura e debate\",\"publisher\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2\"},\"potentialAction\":[{\"@type\":\"SearchAction\",\"target\":{\"@type\":\"EntryPoint\",\"urlTemplate\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/?s={search_term_string}\"},\"query-input\":{\"@type\":\"PropertyValueSpecification\",\"valueRequired\":true,\"valueName\":\"search_term_string\"}}],\"inLanguage\":\"pt-PT\"},{\"@type\":[\"Person\",\"Organization\"],\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2\",\"name\":\"Ricardo Alvarez\",\"image\":{\"@type\":\"ImageObject\",\"inLanguage\":\"pt-PT\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2020\\\/05\\\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png\",\"url\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2020\\\/05\\\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png\",\"contentUrl\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2020\\\/05\\\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png\",\"width\":1015,\"height\":1024,\"caption\":\"Ricardo Alvarez\"},\"logo\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/controversia.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2020\\\/05\\\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png\"},\"description\":\"Professor, mestre em geografia urbana pela USP e criador do site Controv\u00e9rsia e escreve semanalmente.\",\"sameAs\":[\"http:\\\/\\\/controversia.com.br\",\"https:\\\/\\\/www.facebook.com\\\/Controversiascontemporaneas\\\/\",\"https:\\\/\\\/www.linkedin.com\\\/in\\\/controversia\\\/\",\"https:\\\/\\\/x.com\\\/https:\\\/\\\/twitter.com\\\/contro_versia\"]}]}<\/script>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","yoast_head_json":{"title":"Mundo em transe. Notas sobre a crise e o futuro da ordem internacional - Controversia","robots":{"index":"index","follow":"follow","max-snippet":"max-snippet:-1","max-image-preview":"max-image-preview:large","max-video-preview":"max-video-preview:-1"},"canonical":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/04\/23\/mundo-em-transe-notas-sobre-a-crise-e-o-futuro-da-ordem-internacional\/","og_locale":"pt_PT","og_type":"article","og_title":"Mundo em transe. Notas sobre a crise e o futuro da ordem internacional - Controversia","og_description":"Sebasti\u00e3o Velasco e Cruz &#8211;\u00a0Presente prolongado de uma ordem que ainda vir\u00e1. 1. Introdu\u00e7\u00e3o. Quem poderia imaginar! Mal debelada a pandemia \u2013 ao menos para os pa\u00edses mais fortemente afetados em suas primeiras ondas, o Brasil inclu\u00eddo \u2013 quando a ideia de retorno \u00e0 normalidade, ou a algo assemelhado, come\u00e7ava a se desenhar no horizonte [&hellip;]","og_url":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/04\/23\/mundo-em-transe-notas-sobre-a-crise-e-o-futuro-da-ordem-internacional\/","og_site_name":"Controversia","article_publisher":"https:\/\/www.facebook.com\/Controversiascontemporaneas\/","article_author":"https:\/\/www.facebook.com\/Controversiascontemporaneas\/","article_published_time":"2023-04-23T15:37:16+00:00","og_image":[{"width":1000,"height":541,"url":"https:\/\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/globo-nova-ordem-geopolitica.jpg","type":"image\/jpeg"}],"author":"Ricardo Alvarez","twitter_card":"summary_large_image","twitter_creator":"@https:\/\/twitter.com\/contro_versia","twitter_site":"@contro_versia","twitter_misc":{"Escrito por":"Ricardo Alvarez","Tempo estimado de leitura":"50 minutos"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2023\/04\/23\/mundo-em-transe-notas-sobre-a-crise-e-o-futuro-da-ordem-internacional\/#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2023\/04\/23\/mundo-em-transe-notas-sobre-a-crise-e-o-futuro-da-ordem-internacional\/"},"author":{"name":"Ricardo Alvarez","@id":"https:\/\/controversia.com.br\/#\/schema\/person\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2"},"headline":"Mundo em transe. Notas sobre a crise e o futuro da ordem internacional","datePublished":"2023-04-23T15:37:16+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2023\/04\/23\/mundo-em-transe-notas-sobre-a-crise-e-o-futuro-da-ordem-internacional\/"},"wordCount":9668,"commentCount":0,"publisher":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/#\/schema\/person\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2"},"image":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2023\/04\/23\/mundo-em-transe-notas-sobre-a-crise-e-o-futuro-da-ordem-internacional\/#primaryimage"},"thumbnailUrl":"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/globo-nova-ordem-geopolitica.jpg?fit=1000%2C541&ssl=1","keywords":["Geopol\u00edtica"],"articleSection":["Geografia"],"inLanguage":"pt-PT","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/controversia.com.br\/2023\/04\/23\/mundo-em-transe-notas-sobre-a-crise-e-o-futuro-da-ordem-internacional\/#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2023\/04\/23\/mundo-em-transe-notas-sobre-a-crise-e-o-futuro-da-ordem-internacional\/","url":"https:\/\/controversia.com.br\/2023\/04\/23\/mundo-em-transe-notas-sobre-a-crise-e-o-futuro-da-ordem-internacional\/","name":"Mundo em transe. Notas sobre a crise e o futuro da ordem internacional - Controversia","isPartOf":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/#website"},"primaryImageOfPage":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2023\/04\/23\/mundo-em-transe-notas-sobre-a-crise-e-o-futuro-da-ordem-internacional\/#primaryimage"},"image":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2023\/04\/23\/mundo-em-transe-notas-sobre-a-crise-e-o-futuro-da-ordem-internacional\/#primaryimage"},"thumbnailUrl":"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/globo-nova-ordem-geopolitica.jpg?fit=1000%2C541&ssl=1","datePublished":"2023-04-23T15:37:16+00:00","breadcrumb":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2023\/04\/23\/mundo-em-transe-notas-sobre-a-crise-e-o-futuro-da-ordem-internacional\/#breadcrumb"},"inLanguage":"pt-PT","potentialAction":[{"@type":"ReadAction","target":["https:\/\/controversia.com.br\/2023\/04\/23\/mundo-em-transe-notas-sobre-a-crise-e-o-futuro-da-ordem-internacional\/"]}]},{"@type":"ImageObject","inLanguage":"pt-PT","@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2023\/04\/23\/mundo-em-transe-notas-sobre-a-crise-e-o-futuro-da-ordem-internacional\/#primaryimage","url":"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/globo-nova-ordem-geopolitica.jpg?fit=1000%2C541&ssl=1","contentUrl":"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/globo-nova-ordem-geopolitica.jpg?fit=1000%2C541&ssl=1","width":1000,"height":541},{"@type":"BreadcrumbList","@id":"https:\/\/controversia.com.br\/2023\/04\/23\/mundo-em-transe-notas-sobre-a-crise-e-o-futuro-da-ordem-internacional\/#breadcrumb","itemListElement":[{"@type":"ListItem","position":1,"name":"In\u00edcio","item":"https:\/\/controversia.com.br\/"},{"@type":"ListItem","position":2,"name":"Mundo em transe. Notas sobre a crise e o futuro da ordem internacional"}]},{"@type":"WebSite","@id":"https:\/\/controversia.com.br\/#website","url":"https:\/\/controversia.com.br\/","name":"Controversia","description":"Um site de leitura e debate","publisher":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/#\/schema\/person\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2"},"potentialAction":[{"@type":"SearchAction","target":{"@type":"EntryPoint","urlTemplate":"https:\/\/controversia.com.br\/?s={search_term_string}"},"query-input":{"@type":"PropertyValueSpecification","valueRequired":true,"valueName":"search_term_string"}}],"inLanguage":"pt-PT"},{"@type":["Person","Organization"],"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/#\/schema\/person\/890416adf48f0d52618900e97e15edf2","name":"Ricardo Alvarez","image":{"@type":"ImageObject","inLanguage":"pt-PT","@id":"https:\/\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png","url":"https:\/\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png","contentUrl":"https:\/\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png","width":1015,"height":1024,"caption":"Ricardo Alvarez"},"logo":{"@id":"https:\/\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Plano-de-Fundo-1015x1024.png"},"description":"Professor, mestre em geografia urbana pela USP e criador do site Controv\u00e9rsia e escreve semanalmente.","sameAs":["http:\/\/controversia.com.br","https:\/\/www.facebook.com\/Controversiascontemporaneas\/","https:\/\/www.linkedin.com\/in\/controversia\/","https:\/\/x.com\/https:\/\/twitter.com\/contro_versia"]}]}},"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/globo-nova-ordem-geopolitica.jpg?fit=1000%2C541&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19181","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19181"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19181\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19187,"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19181\/revisions\/19187"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7784"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19181"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19181"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19181"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}