{"id":19170,"date":"2023-04-21T12:33:16","date_gmt":"2023-04-21T15:33:16","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=19170"},"modified":"2023-04-17T19:38:46","modified_gmt":"2023-04-17T22:38:46","slug":"o-dia-em-que-a-tropa-ficou-em-casa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/04\/21\/o-dia-em-que-a-tropa-ficou-em-casa\/","title":{"rendered":"O dia em que a tropa ficou em casa"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ana Clara Costa<\/strong> &#8211; Os problemas em s\u00e9rie na cadeia de comando da Pol\u00edcia Militar do DF no dia 8 de janeiro.<\/p>\n<p>N<\/span>a noite de 7 de janeiro, o coronel Klepter Rosa Gon\u00e7alves, ent\u00e3o subcomandante da Pol\u00edcia Militar do Distrito Federal, enviou uma mensagem a um grupo de WhatsApp do qual participavam outros oficiais da PM com a seguinte ordem, reproduzida tal como foi escrita: \u201cBoa noite. Considerando a possibilidade de emprego massivo de nossa tropa na Manifesta\u00e7\u00e3o prevista para amanh\u00e3 (domingo, 08Jan23), DETERMINEM aos respectivos efetivos de toda estrutura dos senhores que permane\u00e7am de SOBREAVISO, APD (\u00e0 partir de) 07h.\u201d O estado de sobreaviso significava que a tropa deveria estar em casa, em condi\u00e7\u00f5es de ser acionada caso fosse necess\u00e1rio. Quando chamados, os policiais vestiriam a farda, encaixariam suas armas no coldre e se dirigiriam ao quartel, para s\u00f3 ent\u00e3o embarcarem nas viaturas. Esse processo costuma demorar em raz\u00e3o da necessidade de deslocamento dos policiais. Para maior agilidade de a\u00e7\u00e3o, o usual \u00e9 colocar parte da tropa em estado de prontid\u00e3o, ou seja, de plant\u00e3o e fardada dentro da Academia de Pol\u00edcia.<\/p>\n<p>Segunda maior autoridade da PM do DF depois do coronel F\u00e1bio Augusto Vieira, que era o comandante-geral, o coronel Klepter decidiu pelo sobreaviso, segundo apurou a\u00a0<b>piau\u00ed<\/b>, por avaliar que seus homens j\u00e1 haviam ficado de prontid\u00e3o na posse presidencial, poucos dias antes, e mereciam um regime de plant\u00e3o mais brando. Assim, naquele fim de semana, julgou ser conveniente que a maioria ficasse em casa. O policial tinha autonomia para tal des\u00edgnio porque, segundo o estatuto da PM, ficava sob sua responsabilidade o emprego da tropa, a organiza\u00e7\u00e3o do quartel e o comando de seu bra\u00e7o mais poderoso, o Departamento Operacional (DOP) da Pol\u00edcia Militar, que gere todos os batalh\u00f5es do Distrito Federal.<\/p>\n<p>O deputado distrital Chico Vigilante (PT-DF), presidente da CPI dos Atos Antidemocr\u00e1ticos, aberta na C\u00e2mara Legislativa do DF para investigar responsabilidades sobre o 8 de janeiro, afirmou, durante a comiss\u00e3o, que justamente na demora de deslocamento da tropa \u201cest\u00e1 a explica\u00e7\u00e3o de por que quebraram tudo\u201d. O deputado Hermeto (MDB-DF), relator da CPI, descreveu com ironia como funciona o \u201csobreaviso\u201d. Ele sabe o que fala porque serviu por quase trinta anos na PM antes de entrar na pol\u00edtica. \u201cSobreaviso? Estou em casa, vendo minha Netflix. \u2018Meu amor, olha a\u00ed! Est\u00e3o ligando do quartel. N\u00e3o atende agora, n\u00e3o. Deve ser trabalho.\u2019 Isso \u00e9 ficar em casa\u201d, relatou o parlamentar durante uma das oitivas da comiss\u00e3o, emulando um di\u00e1logo hipot\u00e9tico entre um policial e sua esposa no momento em que o quartel faz a inconveniente convoca\u00e7\u00e3o. Hermeto prossegue, colocando em termos objetivos como a tropa de sobreaviso recebe a ordem de trabalho aos fins de semana. \u201cEle ainda coloca a mulher para atender. Ele n\u00e3o atende. Vai deixar a Netflix em um domingo? Vai deixar em casa o futebol e vai para a Esplanada?\u201d, indagou o parlamentar.<\/p>\n<p>Apesar de condenarem a ordem de sobreaviso, os membros da CPI n\u00e3o convocaram Klepter a dar explica\u00e7\u00f5es. Um requerimento do deputado F\u00e1bio F\u00e9lix (Psol) chegou a ser aprovado para que ele fosse ouvido, mas o deputado Hermeto dissuadiu a comiss\u00e3o de cham\u00e1-lo alegando falta de \u201celementos\u201d para tanto. Nas oitivas, tampouco mencionaram seu nome como autor da ordem de sobreaviso, embora essa informa\u00e7\u00e3o tenha sido apresentada \u00e0 comiss\u00e3o, por meio de um documento enviado pela pr\u00f3pria pol\u00edcia. Ele tamb\u00e9m n\u00e3o foi chamado para depor na Corregedoria da PM nem na Pol\u00edcia Federal, \u00f3rg\u00e3os que abriram inqu\u00e9ritos para investigar os atos do dia 8. Em vez disso, o coronel foi promovido a comandante-geral da PM do DF depois do afastamento de F\u00e1bio Augusto, que terminou preso por quase um m\u00eas por suspeita de omiss\u00e3o e coniv\u00eancia com os atos. A promo\u00e7\u00e3o de Klepter foi a pedido do interventor federal, Ricardo Cappelli. F\u00e1bio Augusto foi solto no in\u00edcio de fevereiro por determina\u00e7\u00e3o do ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, respons\u00e1vel pelo caso. No intervalo em que ficou preso, nomes poderosos sa\u00edram em sua defesa, como o de Jorge Oliveira, ministro do Tribunal de Contas da Uni\u00e3o (TCU), que visitou Moraes para ponderar sobre a honradez do amigo, que conhecia desde os tempos da Academia de Pol\u00edcia. Indicado ao TCU por Jair Bolsonaro, Oliveira tamb\u00e9m foi PM.<\/p>\n<p>Ao conceder a liberdade provis\u00f3ria, Moraes disse que F\u00e1bio Augusto \u201cn\u00e3o teria sido diretamente respons\u00e1vel pela falha das a\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a\u201d. Os depoimentos e documentos colhidos at\u00e9 agora pela PF e pela Corregedoria corroboram a avalia\u00e7\u00e3o do ministro, e v\u00e3o al\u00e9m, dando pistas sobre alguns respons\u00e1veis diretos. O Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF) tamb\u00e9m tem apurado responsabilidades. Uma das linhas de investiga\u00e7\u00e3o dos procuradores \u00e9 a de que o coronel Klepter anuiu que a cadeia de comando da PM ficasse inoperante quando j\u00e1 circulavam informa\u00e7\u00f5es de intelig\u00eancia atentando para um acirramento dos \u00e2nimos antes do dia 8.<\/p>\n<p>D<\/span>eixar a tropa de sobreaviso n\u00e3o era usual em caso de manifesta\u00e7\u00f5es na Esplanada. O normal era que grupos ficassem de prontid\u00e3o. Os deputados ouviram essa explica\u00e7\u00e3o do coronel Jorge Eduardo Naime Barreto, que at\u00e9 janeiro era um dos principais nomes do comando da PM do DF e chefiava o DOP. \u201cO padr\u00e3o normal, e que foi sempre o que eu recebi de ordem do Coronel F\u00e1bio Augusto, \u00e9 botar a tropa de prontid\u00e3o\u201d, contou Naime, durante seu depoimento \u00e0 CPI. O policial ainda relatou que o coronel F\u00e1bio Augusto costumava se irritar com o fato de n\u00e3o haver espa\u00e7o na Academia da PM para abrigar todo o efetivo de prontid\u00e3o. \u201cPor conta de falta de banheiro, por conta de falta de instala\u00e7\u00f5es em que os policiais conseguissem ficar num grande contingente ali, numa condi\u00e7\u00e3o minimamente salubre\u201d, disse. E depois reiterou: \u201cO coronel F\u00e1bio Augusto sempre exigiu a tropa em prontid\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Naime foi preso em fevereiro, por suspeita de ter retardado intencionalmente a atua\u00e7\u00e3o da tropa de choque na Esplanada para permitir a fuga de manifestantes. Uma cr\u00edtica \u00e0 sua atua\u00e7\u00e3o naquele dia consta do relat\u00f3rio feito pelo interventor. Tamb\u00e9m agravou a situa\u00e7\u00e3o de Naime um boletim de ocorr\u00eancia feito por sua ex-mulher, em janeiro, alegando que ele iria viajar com os filhos \u00e0s pressas ap\u00f3s o ocorrido na Esplanada. A defesa de Naime nega que ele tenha agido intencionalmente e diz que a velocidade de atua\u00e7\u00e3o do choque estava condizente com a situa\u00e7\u00e3o, sendo praticamente imposs\u00edvel, segundo a defesa, conter manifestantes e efetuar pris\u00f5es ao mesmo tempo, em raz\u00e3o da falta de uma viatura auxiliar para conduzir os presos. A defesa tamb\u00e9m diz que a viagem com os filhos estava programada, em raz\u00e3o das f\u00e9rias tiradas pelo coronel no in\u00edcio de janeiro. Ele foi chamado \u00e0s pressas para comandar o choque na Esplanada no dia 8, quando j\u00e1 estava em folga.<\/p>\n<p>A ordem de sobreaviso n\u00e3o s\u00f3 destoava da pr\u00e1tica comum do quartel, como tamb\u00e9m inviabilizava que fosse cumprido o que havia sido acordado entre a PM e a Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica (SSP) do DF na reuni\u00e3o que houve dois dias antes, em 6 de janeiro, para discutir o tema. Segundo o protocolo elaborado pela pasta para nortear a estrat\u00e9gia de seguran\u00e7a para o dia 8, era atribui\u00e7\u00e3o da PM planejar o n\u00famero de efetivo suficiente e \u201cficar em condi\u00e7\u00f5es de empregar a tropa especializada\u201d em caso de convuls\u00e3o. Com a equipe de sobreaviso, o emprego da tropa foi prejudicado. A depreda\u00e7\u00e3o das sedes dos Tr\u00eas Poderes come\u00e7ou antes das 15 horas e a retomada dos pr\u00e9dios p\u00fablicos pela pol\u00edcia s\u00f3 aconteceu mais de duas horas depois (\u00e0s 17h30 foi retomado o STF, \u00e0s 17h50, o Pal\u00e1cio do Planalto, e \u00e0s 18 horas, o Congresso Nacional).<\/p>\n<p>A coronel Cintia Queiroz de Castro, encarregada de elaborar o protocolo na SSP, disse \u00e0 Corregedoria da PM ter notado o estranhamento do coronel F\u00e1bio Augusto ao ser informado, j\u00e1 na manh\u00e3 do dia 8, de que, por ordem de Klepter, a tropa designada para o evento estava de sobreaviso e n\u00e3o de prontid\u00e3o. A constata\u00e7\u00e3o irritou F\u00e1bio Augusto porque ele havia dado ordens espec\u00edficas sobre o assunto no dia anterior \u2014 e elas eram diferentes.<\/p>\n<p>Na noite do dia 7, F\u00e1bio Augusto recebeu uma liga\u00e7\u00e3o do secret\u00e1rio da Casa Civil do DF, Gustavo Rocha, pedindo foco total da PM nas manifesta\u00e7\u00f5es do dia seguinte, pois havia informa\u00e7\u00f5es sobre a chegada de v\u00e1rios \u00f4nibus a Bras\u00edlia. O ministro da Justi\u00e7a, Fl\u00e1vio Dino, e o diretor-geral da PF, Andrei Passos Rodrigues, expressaram preocupa\u00e7\u00e3o para o governador do DF, Ibaneis Rocha, o que aumentou a press\u00e3o sobre F\u00e1bio Augusto.<\/p>\n<p>O coronel contou \u00e0 Corregedoria que, naquela noite, depois da liga\u00e7\u00e3o de Rocha, procurou imediatamente o chefe em exerc\u00edcio do DOP na aus\u00eancia de Naime, o coronel Paulo Jos\u00e9 de Sousa Bezerra. F\u00e1bio Augusto pediu refor\u00e7o de policiamento e o emprego total dos grupos especializados (que incluem o choque e a cavalaria). Tamb\u00e9m disse, em seu relato, que a resposta de Paulo Jos\u00e9 \u201cn\u00e3o foi satisfat\u00f3ria\u201d. Por isso, ordenou ent\u00e3o que ele dobrasse o efetivo de quinhentos homens que haviam supostamente sido escalados para o dia seguinte. F\u00e1bio Augusto tamb\u00e9m relatou que procurou em seguida o major Fl\u00e1vio Alencar, que comandaria toda a opera\u00e7\u00e3o em campo, reiterando que ele dobrasse o efetivo previsto. O coronel pediu ainda ao major que lhe repassasse um formul\u00e1rio detalhando quantos policiais estariam presentes em cada linha de a\u00e7\u00e3o, segundo seu depoimento \u00e0 Corregedoria. Mas suas ordens foram ignoradas por Alencar. E os eventos que transcorreram nas horas seguintes demonstraram que, apesar de o coronel ser a figura de comando da corpora\u00e7\u00e3o, suas ordens foram descartadas por toda a cadeia hier\u00e1rquica que se reportava a ele.<\/p>\n<p>N<\/span>o 8 de janeiro, o major Fl\u00e1vio Alencar comandou as tropas no lugar de Naime, que seria o titular natural da opera\u00e7\u00e3o por ser reconhecido como um policial experiente no trabalho em campo e no comando da linha de choque. Ao depor, o major n\u00e3o explicou por que ignorou as ordens do comandante F\u00e1bio Augusto. Mas relatou uma s\u00e9rie de ordens incomuns ocorridas naqueles dias, e que ele cumpriu.<\/p>\n<p>No dia 7, quem o convocou para a miss\u00e3o\u00a0do dia seguinte\u00a0foi seu superior direto, o coronel Marcelo Casimiro Vasconcelos Rodrigues, ent\u00e3o comandante do Primeiro Comando de Policiamento Regional (1\u00ba CPR), principal \u00f3rg\u00e3o de policiamento do DF, que chefia as tropas que servem a \u00e1rea da Esplanada. Coronel Casimiro \u00e9 outro personagem central dos eventos que se seguiram no dia 8, pois partiram dele as ordens que, de fato, foram cumpridas pela cadeia de comando.<\/p>\n<p>Como a convoca\u00e7\u00e3o feita por Casimiro foi verbal, n\u00e3o escrita, n\u00e3o foi expedida uma ordem de servi\u00e7o para nortear o trabalho do major Fl\u00e1vio Alencar no dia seguinte, o que era at\u00edpico. Nesse documento meramente burocr\u00e1tico estaria listada a quantidade de efetivo e a escala de entrada de cada um. Sem esse papel, o major estava no escuro. N\u00e3o conseguia controlar as aus\u00eancias nem tinha autoriza\u00e7\u00e3o para pedir refor\u00e7o, caso fosse necess\u00e1rio. Por essa raz\u00e3o, n\u00e3o se sabe at\u00e9 hoje quantos policiais estavam, de fato, em campo antes dos ataques. Embora a Pol\u00edcia Militar alegue que eles eram quase seiscentos, n\u00e3o se tinha o controle das chegadas e as imagens mostram poucos focos de policiamento. Segundo o presidente da CPI dos Atos Antidemocr\u00e1ticos, Chico Vigilante, citando um documento recebido pela comiss\u00e3o, havia apenas duzentos alunos da escola de forma\u00e7\u00e3o da PM em campo, enquanto todo o restante estava de sobreaviso em casa. A PM, no entanto, n\u00e3o confirma esse dado.<\/p>\n<p>O major Fl\u00e1vio Alencar contou tamb\u00e9m em seu depoimento \u00e0 Pol\u00edcia Federal que achou \u201cmuito estranho ter sido convocado\u201d para gerenciar a tropa porque sua patente era incompat\u00edvel com a responsabilidade e nunca fizera nada parecido. O major ainda disse que apenas atuava como \u201cexecutor das ordens do coronel Casimiro\u201d. Uma dessas ordens era para que o Grupamento de Pronto Emprego, um time de dezesseis policiais especializados em emerg\u00eancias envolvendo patrim\u00f4nio p\u00fablico, chegasse s\u00f3 a partir das 15 horas, que era quando, nas palavras de Casimiro, usualmente \u201cos manifestantes estariam mais exaltados\u201d. O major havia inicialmente escalado o grupo para entrar bem mais cedo, \u00e0s 7 horas da manh\u00e3. Mas cancelou essa escala mediante a ordem de seu superior. \u00c0s 15 horas, a Esplanada j\u00e1 estava tomada.<\/p>\n<p>Em outra demonstra\u00e7\u00e3o da pouca autoridade do ent\u00e3o comandante F\u00e1bio Augusto sobre a tropa, ele pedira em diversas ocasi\u00f5es durante a manh\u00e3 do dia 8 que o major Fl\u00e1vio Alencar convocasse o Grupamento de Pronto Emprego para descer para a Esplanada. Esses pedidos foram presenciados pela coronel Cintia Queiroz, da SSP, que relatou o fato em seu depoimento. Mas o major seguia ignorando as ordens de F\u00e1bio Augusto, enquanto acatava as de Casimiro.<\/p>\n<p>Em mais uma situa\u00e7\u00e3o in\u00e9dita, o major Fl\u00e1vio Alencar n\u00e3o recebeu de Casimiro um documento fundamental para organizar o trabalho em campo: o planejamento operacional. Trata-se de um protocolo de praxe distribu\u00eddo para os chefes das tropas em servi\u00e7o. Nele, cada um \u00e9 informado do posicionamento e da quantidade de policiais de toda a opera\u00e7\u00e3o, incluindo os grupos especializados, como o pelot\u00e3o de choque. O major n\u00e3o questionou Casimiro sobre a falta desse documento. Mas depois disse, em seu depoimento, nunca ter participado do comando de uma opera\u00e7\u00e3o, por menor que fosse, sem receber o planejamento operacional. A cavalaria, por exemplo, n\u00e3o havia sido sequer acionada quando a invas\u00e3o do Congresso come\u00e7ou \u2014 esse \u00e9 um grupo especial corriqueiramente escalado para manifesta\u00e7\u00f5es na Esplanada. O major n\u00e3o sabia o porqu\u00ea dessa aus\u00eancia. E disse que, em condi\u00e7\u00f5es normais, ao comandar tropas em campo, seria cobrado por seus superiores hier\u00e1rquicos sobre a falta da cavalaria. Mas, no dia 8, nenhum deles \u2014 nem mesmo Casimiro \u2014 o questionou.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-429973\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/1704-INTERNA-1.png?resize=640%2C344&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/1704-INTERNA-1.png 1000w, https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/1704-INTERNA-1-300x161.png 300w, https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/1704-INTERNA-1-768x413.png 768w, https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/1704-INTERNA-1-700x377.png 700w, https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/1704-INTERNA-1-360x194.png 360w, https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/1704-INTERNA-1-150x81.png 150w, \" alt=\"\" width=\"640\" height=\"344\" \/><\/p>\n<p><em>Infografia: Marco Vergotti\u00a0<\/em><\/p>\n<p>A<\/span>\u00a0exce\u00e7\u00e3o foi o coronel F\u00e1bio Augusto, que desde a manh\u00e3 vinha cobrando seus subordinados sobre v\u00e1rios pontos, mas n\u00e3o era atendido. Na manh\u00e3 do dia 8, al\u00e9m de cobrar o Grupamento de Pronto Emprego do major Fl\u00e1vio, reclamou da falta generalizada de efetivo, da aus\u00eancia de equipamentos adequados e de alimenta\u00e7\u00e3o para os policiais em campo. Todas essas cobran\u00e7as, segundo o depoimento da coronel Cintia, eram feitas ao coronel Paulo Jos\u00e9, que \u201csempre afirmava que estavam chegando\u201d, relatou ela. O tenente-coronel Rosivan Correia de Souza, tamb\u00e9m da Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica, ouviu F\u00e1bio Augusto reclamando da log\u00edstica e determinando que fossem colocadas barreiras de concreto na Esplanada para mitigar o problema do baixo efetivo. A falta de equipamento prejudicou de forma incontorn\u00e1vel a neutraliza\u00e7\u00e3o dos manifestantes pela tropa que estava em campo, j\u00e1 que n\u00e3o havia muni\u00e7\u00e3o qu\u00edmica suficiente para ser usada pelos policiais. Por isso, muitos deles pararam de disparar contra os v\u00e2ndalos por volta das 15h30, no aguardo de viaturas que pudessem reabastec\u00ea-los.<\/p>\n<p>F\u00e1bio Augusto tamb\u00e9m questionou seus subordinados sobre por que n\u00e3o havia na Esplanada o \u201cchoque montado\u201d \u2014 homens do pelot\u00e3o de choque montados a cavalo. A coronel Cintia Queiroz, da SSP, relatou em seu depoimento que presenciou o coronel F\u00e1bio Augusto cobrar o coronel Paulo Jos\u00e9, do DOP, sobre a chegada dessa equipe. A resposta sempre era de que \u201cestava para chegar\u201d, segundo ela. Mas eles nunca chegavam. O DOP era o \u00f3rg\u00e3o respons\u00e1vel pelo planejamento das opera\u00e7\u00f5es e respondia diretamente para o coronel Klepter. Estava sob a responsabilidade do DOP, por exemplo, o comando do coronel Casimiro. F\u00e1bio Augusto n\u00e3o via o \u201cchoque montado\u201d na Esplanada simplesmente porque Paulo Jos\u00e9 n\u00e3o havia nem sequer convocado a cavalaria para a miss\u00e3o. Em seu depoimento \u00e0 Pol\u00edcia Federal, ele responsabilizou por essa falha o \u00f3rg\u00e3o hierarquicamente inferior: o comando do coronel Casimiro. Paulo Jos\u00e9 alegou que Casimiro n\u00e3o pedira que a cavalaria integrasse a tropa naquele dia. Assim, embora houvesse a cobran\u00e7a de F\u00e1bio Augusto, o coronel Paulo Jos\u00e9 parecia obedecer aos comandos de seu subordinado, Casimiro.<\/p>\n<p>Em determinado momento, quando os \u00e2nimos come\u00e7avam a se tensionar na Esplanada, e F\u00e1bio Augusto se exasperava ao ver que n\u00e3o estava sendo atendido pelos subordinados, decidiu ligar diretamente para Casimiro para pedir refor\u00e7o. Casimiro, no entanto, se esquivou da responsabilidade: disse que pediria ao major Fl\u00e1vio Alencar que cuidasse da demanda. F\u00e1bio Augusto passou ent\u00e3o a ligar para cada chefe dos pelot\u00f5es especializados, como o choque, mas antes que conseguisse contato, a primeira linha de revista policial foi rompida pelos manifestantes, que entraram na Esplanada sem o controle dos PMs.<\/p>\n<p>Em seu depoimento \u00e0 Corregedoria, Paulo Jos\u00e9 relatou que acionou somente \u00e0s 14h10 o \u201cchoque montado\u201d que o comandante F\u00e1bio Augusto pedira. Isso ocorreu apenas vinte minutos antes do rompimento da primeira linha de revista. Como o batalh\u00e3o estava de sobreaviso e demoraria pelo menos uma hora e meia para chegar, j\u00e1 era tarde demais. Depois de algum tempo de enfrentamento entre a pol\u00edcia e os manifestantes, quando a muni\u00e7\u00e3o qu\u00edmica j\u00e1 havia acabado, a coronel Cintia relatou \u00e0 Corregedoria ter visto o coronel Paulo Jos\u00e9 ligar para o coronel Naime, de f\u00e9rias, pedindo ajuda para acionar todo o efetivo, pois ele, que comandava naquele momento o departamento mais importante da PM, n\u00e3o tinha os contatos para executar essa tarefa. Naime foi ent\u00e3o para a Esplanada para ajudar e disse ter chegado ao local e encontrado o coronel Paulo Jos\u00e9 \u201cbastante abalado e nervoso\u201d, segundo seu depoimento.<\/p>\n<p>E<\/span>mbora o coronel Casimiro tenha sido descrito como o comandante de fato da opera\u00e7\u00e3o do dia 8 de janeiro por F\u00e1bio Augusto, Paulo Jos\u00e9, Fl\u00e1vio Alencar, Cintia, e Gustavo Cunha de Souza, chefe do pelot\u00e3o de choque, o policial negou essa informa\u00e7\u00e3o quando chegou sua vez de depor. Casimiro disse \u00e0 PF que o major Fl\u00e1vio Alencar comandava naquele dia. Ele tamb\u00e9m afirmou que o planejamento operacional do evento era atribui\u00e7\u00e3o do DOP, e que esse \u00f3rg\u00e3o deveria convocar o efetivo, n\u00e3o ele, contradizendo o depoimento de Paulo Jos\u00e9. Casimiro disse ainda que nem chegou a ler o protocolo elaborado pela Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica para nortear as a\u00e7\u00f5es daquele fim de semana, embora estivesse presente na reuni\u00e3o que definiu as diretrizes desse documento.<\/p>\n<p>A ata dessa reuni\u00e3o, ocorrida no dia 6, mostra ainda que Casimiro estava ciente das inten\u00e7\u00f5es golpistas que circulavam nas redes sociais. Ele foi o \u00fanico presente que atentou para esse risco. Segundo a ata, o coronel menciona que circulam \u201c\u00e1udios em redes sociais de possibilidades de invas\u00e3o de pr\u00e9dios p\u00fablicos\u201d, que \u201cn\u00e3o se pode descartar, que \u00e9 preciso ficar bem atentos aos eventos\u201d, \u201cque haver\u00e1 refor\u00e7os de viaturas\u201d e que fosse \u201crealizado refor\u00e7o das portarias e da seguran\u00e7a dos pr\u00e9dios federais\u201d. Ainda segundo Casimiro, seria \u201cnecess\u00e1rio providenciar um outro esquema de seguran\u00e7a se confirmados os atos\u201d.<\/p>\n<p>Dois dias antes da reuni\u00e3o, Casimiro comentara sobre esse risco com o major Fl\u00e1vio Alencar. Segundo o depoimento do major, em 4 de janeiro, Casimiro encaminhara para ele, via WhatsApp, um folder que convocava para a \u201cTomada de Poder pelo Povo\u201d. Contudo, tal convoca\u00e7\u00e3o n\u00e3o ensejara qualquer sobressalto no trabalho do coronel, que informou ao major que a intelig\u00eancia da PM ficaria monitorando as redes sociais em busca de algo mais concreto.<\/p>\n<p>A intelig\u00eancia da PM, cujo comandante Reginaldo de Souza Leit\u00e3o estava de f\u00e9rias, n\u00e3o viu nada de mais nas convoca\u00e7\u00f5es. O departamento de intelig\u00eancia da SSP detectou tardiamente os riscos e elaborou um relat\u00f3rio baseado em postagens de internet, enviado fisicamente ao gabinete do secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a P\u00fablica, Fernando de Sousa Oliveira, no final da tarde de sexta-feira 6, quando ele j\u00e1 n\u00e3o estava mais no escrit\u00f3rio. Em nenhum momento Oliveira recebeu qualquer aviso de urg\u00eancia sobre o documento que fora despachado para sua sala. Assim, s\u00f3 o viu na segunda-feira dia 9, depois das invas\u00f5es. A autora do relat\u00f3rio, a delegada da PF Mar\u00edlia Ferreira de Alencar, trabalhava na \u00e1rea de intelig\u00eancia do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a sob o comando de Anderson Torres, e foi levada por ele para a Secretaria. Mar\u00edlia deveria ter difundido o documento para a \u00e1rea de intelig\u00eancia da PM por meio de um sistema eletr\u00f4nico pr\u00f3prio para isso, chamado Cronos, mas n\u00e3o o fez alegando problemas em acess\u00e1-lo. Pessoas de seu time compartilharam algumas dessas mensagens de convoca\u00e7\u00e3o para \u201ctomada de poder\u201d em grupos de WhatsApp contendo chefias da PM e da SSP. Mas como n\u00e3o se tratava do foro correto para a divulga\u00e7\u00e3o oficial de informa\u00e7\u00f5es de intelig\u00eancia, ningu\u00e9m deu import\u00e2ncia \u00e0s postagens. Mar\u00edlia estava no cargo havia uma semana.<\/p>\n<p>O<\/span>\u00a0gabinete da interven\u00e7\u00e3o federal instaurado depois do 8 de janeiro logo intuiu que as invas\u00f5es eram produto de sabotagem. O mesmo foi conclu\u00eddo pelo governador Ibaneis Rocha. O relat\u00f3rio da interven\u00e7\u00e3o, publicado no final de janeiro, n\u00e3o conseguiu comprovar o car\u00e1ter conspirat\u00f3rio dos eventos, mas lan\u00e7a luz sobre o fato de o ent\u00e3o secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a P\u00fablica, Anderson Torres, estar plenamente ciente das inten\u00e7\u00f5es golpistas dos manifestantes e nada ter feito contra isso. Torres est\u00e1 preso desde 14 de janeiro.<\/p>\n<p>Sejam os fatos transcorridos em 8 de janeiro produtos de conspira\u00e7\u00e3o ou incompet\u00eancia, os documentos e mensagens detidos pelos investigadores revelam tr\u00eas pontos pac\u00edficos. A decis\u00e3o de Klepter Rosa de colocar a tropa em sobreaviso resultou no baixo efetivo em campo; a desorganiza\u00e7\u00e3o e a omiss\u00e3o de Casimiro em rela\u00e7\u00e3o ao \u00edmpeto da manifesta\u00e7\u00e3o culminaram no apag\u00e3o operacional que impediu a conten\u00e7\u00e3o dos v\u00e2ndalos antes que depredassem os pr\u00e9dios p\u00fablicos; a inaptid\u00e3o de Paulo Jos\u00e9 para a chefia do DOP prejudicou o planejamento da a\u00e7\u00e3o policial e tamb\u00e9m da rea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A falta de lideran\u00e7a do ent\u00e3o comandante, F\u00e1bio Augusto, \u00e9 observada em todas as situa\u00e7\u00f5es durante aquele fim de semana de janeiro. Esse detalhe foi crucial para os investigadores da Pol\u00edcia Federal e do MPF trabalharem com a hip\u00f3tese de que alguns chefes da corpora\u00e7\u00e3o foram omissos de prop\u00f3sito, no intuito de criar uma situa\u00e7\u00e3o p\u00fablica que colocasse a lideran\u00e7a de F\u00e1bio Augusto em xeque, para derrub\u00e1-lo do cargo. Tal hip\u00f3tese carece de comprova\u00e7\u00e3o. Mas, segundo pelo menos quatro fontes da PM ouvidas pela reportagem, o cargo de F\u00e1bio era cobi\u00e7ado por pelo menos dois coron\u00e9is: Naime, considerado policial tecnicamente mais preparado da corpora\u00e7\u00e3o, que saiu de f\u00e9rias na v\u00e9spera, e Klepter, o subcomandante que terminou promovido \u2014 este \u00faltimo fora indicado para o subcomando no ano passado justamente pelo deputado Hermeto (MDB), o relator da CPI que investiga os Atos Antidemocr\u00e1ticos. Eles s\u00e3o amigos.<\/p>\n<p>O deputado Chico Vigilante, presidente da CPI, n\u00e3o descarta a hip\u00f3tese da guerra de poder, mas afirma que os elementos que a comiss\u00e3o recebeu at\u00e9 agora permitem ir al\u00e9m. \u201cHoje estou convicto de que integrantes da Pol\u00edcia Militar estavam organizando e participando diretamente do golpe, juntamente com integrantes do Ex\u00e9rcito\u201d, diz. O parlamentar afirma que, embora Naime quisesse ascender ao comando da PM, n\u00e3o h\u00e1 provas que o coloquem como articulador do 8 de janeiro. Mas, segundo ele, h\u00e1 outros policiais da ativa que estariam envolvidos. O petista n\u00e3o quis citar nomes.<\/p>\n<p>Naime est\u00e1 preso h\u00e1 cerca de dois meses por determina\u00e7\u00e3o de Alexandre de Moraes. \u00c9 o \u00fanico PM da ativa atualmente detido em consequ\u00eancia dos atos na Esplanada. Klepter foi promovido a comandante-geral menos de 24 horas ap\u00f3s a depreda\u00e7\u00e3o na Pra\u00e7a dos Tr\u00eas Poderes. Casimiro foi indiciado por neglig\u00eancia, assim como Paulo Jos\u00e9, Naime e Cintia Queiroz, a coronel da SSP. Primeira mulher a ascender a um cargo de comando na seguran\u00e7a p\u00fablica do DF, a policial elaborou o protocolo de a\u00e7\u00e3o que n\u00e3o foi seguido pela PM \u2014 em especial pelos coron\u00e9is Paulo Jos\u00e9 e Casimiro. Mas foi indiciada pela pr\u00f3pria corpora\u00e7\u00e3o pelo mesmo crime que eles. Casimiro e Paulo Jos\u00e9 foram afastados dos cargos que ocupavam. C\u00edntia permanece na Secretaria, embora a PM tenha requerido o seu afastamento.<\/p>\n<p>Naime foi inquirido na CPI. Cintia e o ex-comandante F\u00e1bio Augusto s\u00e3o os pr\u00f3ximos da fila. Klepter, Casimiro e Paulo Jos\u00e9 tiveram seus nomes propostos pela comiss\u00e3o, mas n\u00e3o h\u00e1 qualquer previs\u00e3o de que sejam convocados.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma semana a\u00a0<b>piau\u00ed<\/b>\u00a0procurou a PM do DF para entender a raz\u00e3o do sobreaviso ordenado por Klepter e das decis\u00f5es tomadas por Casimiro e Paulo Jos\u00e9. Pediu informa\u00e7\u00f5es sobre os fatos do 8 de janeiro e mandou perguntas referentes \u00e0 a\u00e7\u00e3o dos tr\u00eas oficiais. A\u00a0corpora\u00e7\u00e3o respondeu que n\u00e3o comenta processos e investiga\u00e7\u00f5es em andamento.\u00a0Os oficiais Cintia Queiroz, F\u00e1bio Augusto e Naime tamb\u00e9m foram procurados diretamente ou por meio de seus advogados, mas n\u00e3o quiseram se pronunciar.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: O dia em que a tropa ficou em casa &#8211; https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/o-dia-em-que-tropa-ficou-em-casa\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Clara Costa &#8211; Os problemas em s\u00e9rie na cadeia de comando da Pol\u00edcia Militar do DF no dia 8 de janeiro. 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