{"id":19162,"date":"2023-04-19T12:18:41","date_gmt":"2023-04-19T15:18:41","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=19162"},"modified":"2023-04-16T18:23:29","modified_gmt":"2023-04-16T21:23:29","slug":"construir-o-inimigo-um-ensaio-de-umberto-eco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/04\/19\/construir-o-inimigo-um-ensaio-de-umberto-eco\/","title":{"rendered":"\u201cConstruir o inimigo\u201d &#8211; um ensaio de Umberto Eco"},"content":{"rendered":"<p><strong>\u200bUmberto Eco<\/strong> &#8211; Confira o ensaio de Umberto Eco \u201cConstruir o inimigo\u201d, que d\u00e1 t\u00edtulo \u00e0 colet\u00e2nea de textos do autor italiano publicada pela Editora Record\u200b\u200b no Brasil.<\/p>\n<p><strong>Construir o inimigo\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Alguns anos atr\u00e1s, em Nova York, topei com um taxista cujo nome era dif\u00edcil de decifrar e ele me explicou que era paquistan\u00eas. Perguntou de onde eu vinha e lhe respondi que era da It\u00e1lia. Perguntou quantos somos e ficou muito espantado ao saber que \u00e9ramos t\u00e3o poucos e que a nossa l\u00edngua n\u00e3o era o ingl\u00eas. Por fim, perguntou quem eram os nossos inimigos. Diante do meu \u201ccomo?\u201d, esclareceu pacientemente que queria saber com que povos est\u00e1vamos em guerra havia s\u00e9culos por reivindica\u00e7\u00f5es territoriais, \u00f3dios \u00e9tnicos, viola\u00e7\u00f5es cont\u00ednuas de fronteiras e assim por diante. Disse que n\u00e3o est\u00e1vamos em guerra com ningu\u00e9m. Pacientemente, explicou-me que queria saber quem eram os nossos advers\u00e1rios hist\u00f3ricos, aqueles que matam a gente e que a gente mata. Repeti que n\u00e3o t\u00ednhamos, que nossa \u00faltima guerra havia acontecido mais de meio s\u00e9culo atr\u00e1s e que, al\u00e9m do mais, come\u00e7amos com um inimigo e terminamos com um outro. N\u00e3o ficou satisfeito. Como \u00e9 poss\u00edvel que exista um povo que n\u00e3o tem inimigos? Saltei do t\u00e1xi, deixando um d\u00f3lar de gorjeta \u00e0 guisa de compensa\u00e7\u00e3o por nosso indolente pacifismo, e s\u00f3 depois me veio \u00e0 mente o que deveria ter respondido: que n\u00e3o \u00e9 verdade que os italianos n\u00e3o tenham inimigos. N\u00e3o t\u00eam inimigos externos e, de todo modo, n\u00e3o conseguiriam chegar a um acordo para apontar quem s\u00e3o eles, porque est\u00e3o sempre em guerra entre si: Pisa contra Lucca, guelfos contra gibelinos, nortistas contra sulistas, fascistas contra partigiani, m\u00e1fia contra Estado, governo contra magistratura \u2014 pena que na \u00e9poca ainda n\u00e3o tinha ocorrido a queda dos dois governos Prodi, pois poderia ter lhe explicado melhor o que significa perder uma guerra por culpa do fogo amigo. No entanto, refletindo melhor sobre o epis\u00f3dio, convenci-me de que uma das desgra\u00e7as do nosso pa\u00eds nos \u00faltimos sessenta anos \u00e9 justamente o fato de n\u00e3o ter inimigos. A unidade da It\u00e1lia fez-se gra\u00e7as \u00e0 presen\u00e7a do austr\u00edaco ou, como queria Berchet, do h\u00edspido, irritante alem\u00e3o; Mussolini p\u00f4de desfrutar do consenso popular incitando-nos \u00e0 vingan\u00e7a pela vit\u00f3ria mutilada, pelas humilha\u00e7\u00f5es sofridas em Dogali e em \u00c1dua e pelas demoplutocracias judaicas que nos infligiam tais in\u00edquas san\u00e7\u00f5es. Vejam o que aconteceu nos Estados Unidos quando o Imp\u00e9rio do Mal desapareceu e o grande inimigo sovi\u00e9tico dissolveu-se. Corriam o risco de ver desmoronar a sua identidade at\u00e9 que Bin Laden, reconhecido pelos benef\u00edcios recebidos em forma de ajuda contra a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, estendeu aos Estados Unidos a sua m\u00e3o misericordiosa e deu a Bush a oportunidade de criar novos inimigos, reconsolidando o sentimento de identidade nacional e, de quebra, o seu pr\u00f3prio poder. Ter um inimigo \u00e9 importante n\u00e3o somente para definir a nossa identidade, mas tamb\u00e9m para encontrar o obst\u00e1culo em rela\u00e7\u00e3o ao qual medir nosso sistema de valores e mostrar, no confronto, o nosso pr\u00f3prio valor. Portanto, quando o inimigo n\u00e3o existe, \u00e9 preciso constru\u00ed-lo. Vejam a generosa flexibilidade com que os\u00a0<em>skinheads<\/em>\u00a0de Verona escolhiam qualquer um que n\u00e3o pertencesse ao grupo como inimigo, tudo para garantir seu autorreconhecimento como grupo. E aqui, nesta ocasi\u00e3o, mais do que o fen\u00f4meno quase natural de identifica\u00e7\u00e3o de um inimigo que nos amea\u00e7a, o que nos interessa \u00e9 o processo de produ\u00e7\u00e3o e demoniza\u00e7\u00e3o do inimigo. Nas Catilin\u00e1rias (II, 1-10), C\u00edcero n\u00e3o teria necessidade de delinear uma imagem do inimigo, pois tinha provas do compl\u00f4 de Catilina. Mas ainda assim o constr\u00f3i quando, na segunda ora\u00e7\u00e3o, pinta para os senadores o retrato dos amigos de Catilina, reverberando sobre o principal acusado o seu halo de perversidade moral:<\/p>\n<p><em>Indiv\u00edduos que tresnoitam nos banquetes, abra\u00e7ados a mulheres impudicas, enlanguescidos de vinho, fartos de comida, engrinaldados de flores, besuntados de unguentos, debilitados pela c\u00f3pula, que vomitam incita\u00e7\u00f5es \u00e0 morte dos cidad\u00e3os honrados e ao inc\u00eandio da cidade. (&#8230;) Est\u00e3o bem debaixo de vossos olhos: sem um fio de cabelo fora do lugar, imberbes ou com a barba bem talhada, com t\u00fanicas de mangas longas que chegam aos tornozelos, envoltos em v\u00e9us e n\u00e3o nas togas. (&#8230;) Estes \u201cinfantes\u201d t\u00e3o l\u00e9pidos e delicados aprenderam n\u00e3o s\u00f3 a amar e ser amados, a dan\u00e7ar e a cantar, mas tamb\u00e9m a brandir punhais e a ministrar venenos.<\/em><\/p>\n<p>O moralismo de C\u00edcero ser\u00e1, mais tarde, o mesmo de Agostinho, que vilipendiar\u00e1 os pag\u00e3os porque, ao contr\u00e1rio dos crist\u00e3os, frequentam circos, teatros, anfiteatros e celebram festas orgi\u00e1sticas. Os inimigos s\u00e3o diferentes de n\u00f3s e se comportam segundo costumes que n\u00e3o s\u00e3o os nossos. E um diferente por natureza \u00e9 o estrangeiro. J\u00e1 nos baixos-relevos romanos, os b\u00e1rbaros aparecem barbudos e com nariz chato, e o pr\u00f3prio apelativo \u201cb\u00e1rbaro\u201d, como se sabe, faz alus\u00e3o a um defeito de linguagem, logo de pensamento. Contudo, desde o in\u00edcio, s\u00e3o constru\u00eddos como inimigos nem tanto os diferentes que nos amea\u00e7am diretamente (como seria o caso dos b\u00e1rbaros), mas aqueles que algu\u00e9m tem interesse em representar como amea\u00e7ador, ainda que n\u00e3o ameacem diretamente, de modo que n\u00e3o temos o seu potencial de amea\u00e7a ressaltando sua diversidade, mas antes a sua diversidade tornando-se sinal de amea\u00e7a. Vejamos o que T\u00e1cito disse dos judeus: \u201cProfano \u00e9 para eles tudo o que \u00e9 sagrado para n\u00f3s e tudo que para n\u00f3s \u00e9 impuro \u00e9 para eles l\u00edcito\u201d (e vem \u00e0 mente a rejei\u00e7\u00e3o anglo-sax\u00f4nica contra os comedores de r\u00e3s franceses ou a alem\u00e3 contra os italianos que abusam do alho). Os judeus s\u00e3o \u201cestranhos\u201d, pois n\u00e3o comem carne de porco, n\u00e3o botam levedura no p\u00e3o, repousam no s\u00e9timo dia, s\u00f3 se casam entre si, praticam a circuncis\u00e3o (imaginem) n\u00e3o porque \u00e9 uma norma higi\u00eanica ou religiosa, mas \u201cpara marcar sua diversidade\u201d, sepultam os mortos e n\u00e3o veneram nossos C\u00e9sares. Uma vez demonstrado como alguns costumes reais (circuncis\u00e3o, repouso aos s\u00e1bados) s\u00e3o diferentes, pode-se sublinhar esta diversidade inserindo no retrato alguns costumes lend\u00e1rios (consagram a ef\u00edgie de um asno, desprezam os pais, filhos e irm\u00e3os, a p\u00e1tria e os deuses). Pl\u00ednio n\u00e3o encontra elementos de acusa\u00e7\u00e3o significativos contra os crist\u00e3os, visto que tem de admitir que n\u00e3o se dedicam a cometer delitos, mas antes a praticar a\u00e7\u00f5es virtuosas. Mesmo assim, decide conden\u00e1-los \u00e0 morte porque n\u00e3o sacrificam ao imperador, e esta obstina\u00e7\u00e3o em recusar uma coisa t\u00e3o \u00f3bvia e natural estabelece sua diversidade. Com o desenvolvimento dos contatos entre os povos, surge uma nova forma de inimigo, que n\u00e3o \u00e9 mais apenas aquele que est\u00e1 fora e que exibe sua estranheza a dist\u00e2ncia, mas aquele que est\u00e1 dentro, entre n\u00f3s \u2014 hoje dir\u00edamos o imigrante extracomunit\u00e1rio \u2014, que se comporta de modo diverso ou fala mal a nossa l\u00edngua e que, na s\u00e1tira de Juvenal, \u00e9 o grego esperto e trapaceiro, descarado, libidinoso, capaz de levar para a cama a av\u00f3 de um amigo. Estrangeiro entre todos, e pela cor diversa, \u00e9 o negro. No verbete \u201cNegro\u201d da Enciclop\u00e9dia Brit\u00e2nica, primeira edi\u00e7\u00e3o americana, 1798, lia-se:<\/p>\n<p><em>Na carna\u00e7\u00e3o dos negros encontramos diversas grada\u00e7\u00f5es, mas todos se diferenciam igualmente dos outros homens, em todas as fei\u00e7\u00f5es de seus rostos. Faces redondas, zigomas altos, uma fronte levemente elevada, nariz curto, largo e achatado, l\u00e1bios espessos, orelhas pequenas, feiura e irregularidade de forma caracterizam seu aspecto exterior. As mulheres negras t\u00eam lombos muito cadentes e gl\u00fateos muito grandes, que lhes d\u00e3o a forma de uma sela. Os v\u00edcios mais conhecidos parecem ser o destino desta ra\u00e7a infeliz: costuma-se dizer que \u00f3cio, trai\u00e7\u00e3o, vingan\u00e7a, crueldade, impud\u00eancia, furto, mentira, turpil\u00f3quio, dissolu\u00e7\u00e3o, mesquinhez e intemperan\u00e7a extinguiram os princ\u00edpios da lei natural e calaram as censuras da consci\u00eancia. S\u00e3o estranhos a qualquer sentimento de compaix\u00e3o e constituem um terr\u00edvel exemplo da corrup\u00e7\u00e3o do homem quando deixado \u00e0 pr\u00f3pria sorte.<\/em><\/p>\n<p>O negro \u00e9 feio. O inimigo deve ser feio, pois o belo \u00e9 identificado com o bom (<em>kalokagathia<\/em>), e uma das caracter\u00edsticas fundamentais da beleza sempre foi aquilo que a Idade M\u00e9dia chamara de\u00a0<em>integritas<\/em>\u00a0(isto \u00e9, ter tudo o que \u00e9 exigido para ser um representante m\u00e9dio daquela esp\u00e9cie; portanto, para os humanos, ser\u00e3o feios aqueles a quem falta um membro, um olho, ou que t\u00eam uma estatura inferior \u00e0 m\u00e9dia ou uma cor \u201cdesumana\u201d). E eis que, do gigante mon\u00f3culo Polifemo ao an\u00e3o Mime, temos imediatamente o modelo de identifica\u00e7\u00e3o do inimigo. No s\u00e9culo V d.C., Prisco de P\u00e2nio descreve \u00c1tila como baixo de estatura, com t\u00f3rax largo e cabe\u00e7a grande, olhos pequenos, barba rala e crespa, nariz achatado e (tra\u00e7o fundamental) carna\u00e7\u00e3o escura. Mas \u00e9 curioso como o rosto de \u00c1tila \u00e9 semelhante \u00e0 fisionomia do diabo, tal como \u00e9 visto, mais de cinco s\u00e9culos depois, por Rodolfo Glabro: de modesta estatura, pesco\u00e7o delgado, rosto emaciado, olhos nig\u00e9rrimos, testa encrespada de rugas, nariz achatado, boca protuberante, l\u00e1bios espessos, queixo estreito e afilado, barba caprina, orelhas hirsutas e em ponta, cabelos duros e arrepiados, dentadura canina, cr\u00e2nio alongado, peito protuberante, dorso em corcunda (Cr\u00f4nicas, V, 2). No encontro com uma civiliza\u00e7\u00e3o ainda desconhecida, tamb\u00e9m s\u00e3o desprovidos de integritas os bizantinos vistos por Liutprando de Cremona, enviado em 968 ao encontro do imperador Otto I, em Biz\u00e2ncio (<em>Relat\u00f3rio da miss\u00e3o diplom\u00e1tica em Constantinopla<\/em>):<\/p>\n<p><em>Estive diante de Nic\u00e9foro, um ser monstruoso, um pigmeu de cabe\u00e7a enorme, que parece uma toupeira pela pequenez dos olhos, \u00e9 enfeado por uma barba curta, larga, espessa e crespa, cujo pesco\u00e7o tem um dedo de comprimento (&#8230;) um et\u00edope na cor, \u201ccom quem n\u00e3o gostar\u00edeis de topar no cora\u00e7\u00e3o da noite\u201d, de ventre obeso, seco de n\u00e1degas, coxas longas demais para sua pequena estatura, pernas curtas, p\u00e9s chatos e uma roupa de campon\u00eas gasta demais, f\u00e9tida e desbotada \u00e0 for\u00e7a do uso.<\/em><\/p>\n<p>F\u00e9tido. O inimigo sempre fede e um certo Berillon escrevia, no in\u00edcio da Primeira Guerra Mundial (1915), um volume,\u00a0<em>La polych\u00e9sie de la race allemande<\/em>, onde demonstrava que o alem\u00e3o m\u00e9dio produz mais mat\u00e9ria fecal do que um franc\u00eas, e de odor mais desagrad\u00e1vel. Se fedia o bizantino, fedia o sarraceno no\u00a0<em>Evagatorium in Terrae sanctae, Arabiae et Egypti peregrinationem<\/em>, de Felix Fabri (s\u00e9culo XV):<\/p>\n<p><em>Os sarracenos emitem uma horr\u00edvel fedentina e por isso dedicam-se a cont\u00ednuas ablu\u00e7\u00f5es de diversos tipos; e, como n\u00f3s n\u00e3o fedemos, n\u00e3o se importam que tomemos banho junto com eles. Mas n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o indulgentes com os judeus, que fedem ainda mais. (&#8230;) Assim, os malcheirosos sarracenos ficam contentes por estar em companhia de quem, como n\u00f3s, n\u00e3o cheira mal.<\/em><\/p>\n<p>Fediam os austr\u00edacos de Giusti (recordam \u201cVossa Excel\u00eancia que me olha mals\u00e3o \/ Por uma ou outra simpl\u00f3ria gracinha\u201d?):<\/p>\n<p><em>Entro e a vejo apinhada de soldados, daqueles soldados setentrionais, bo\u00eamios e croatas trasladados, postos ali a vigiar, n\u00e3o mais. (&#8230;) Fiquei atr\u00e1s, que ali naquele meio; naquele magote, digo e n\u00e3o nego, sentiria um ponta de receio do qual s\u00f3 lhe salva o seu emprego. Sentia um bafo e um fartum de permeio: Excel\u00eancia, pareciam de sebo, naquela bela casa do Senhor, at\u00e9 as velas do altar-mor.<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o pode deixar de feder o cigano, visto que se alimenta de carni\u00e7a, como ensina Lombroso (O homem delinquente, 1876, 1, II) e fede a inimiga de James Bond, em Moscou contra 007, Rosa Klebb, n\u00e3o apenas russa e sovi\u00e9tica, mas ainda por cima l\u00e9sbica:<\/p>\n<p><em>Tatiana abriu a porta e ainda de p\u00e9, enquanto seus olhos encaravam aquela mulher sentada atr\u00e1s de uma mesa redonda sob a luz de uma l\u00e2mpada central, lembrou de repente onde tinha sentido aquele cheiro. Era o cheiro do metr\u00f4 de Moscou numa noite quente, perfume barato dissimulando os efl\u00favios animalescos. Na R\u00fassia, as pessoas se ensopam literalmente de perfume, tenham ou n\u00e3o tomado banho, mas sobretudo quando n\u00e3o tomaram (&#8230;). A porta do quarto de dormir abriu e \u201caquela Klebb\u201d apareceu na soleira (&#8230;) usava uma camisola transparente de crepe da China laranja (&#8230;) de um corte na saia despontava um joelho enrugado, que lembrava um coco seco e amarelado, levemente adiantado na pose cl\u00e1ssica das modelos (&#8230;). Rosa Klebb tinha tirado os \u00f3culos e seu rosto estava empastado de ruge e batom (&#8230;). Em seguida, deu um tapinha no sof\u00e1 a seu lado. \u201cDesligue a luz central, minha querida. O interruptor fica ao lado da porta. Depois sente aqui, a meu lado. Precisamos nos conhecer melhor.\u201d\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Monstruoso e malcheiroso, pelo menos nas origens do cristianismo, \u00e9 o judeu, visto que seu modelo \u00e9 o Anticristo, o arqui-inimigo, o inimigo que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 nosso, mas de Deus:<\/p>\n<p><em>Estes s\u00e3o os seus tra\u00e7os: a cabe\u00e7a \u00e9 como uma chama ardente, o olho direito injetado de sangue, o esquerdo, de um verde felino, tem duas pupilas, suas p\u00e1lpebras s\u00e3o brancas, o l\u00e1bio inferior \u00e9 grande, o f\u00eamur direito \u00e9 fraco, os p\u00e9s grandes, o polegar achatado e alongado. (Testamento sir\u00edaco de Nosso Senhor Jesus Cristo, I, 4, s\u00e9c. V)\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>O Anticristo nascer\u00e1 do povo dos judeus (&#8230;) da uni\u00e3o de um pai e uma m\u00e3e como todos os homens e n\u00e3o, como se diz, de uma virgem. (&#8230;) No in\u00edcio de sua concep\u00e7\u00e3o, o diabo penetrar\u00e1 no \u00fatero materno, por virtude do diabo ele ser\u00e1 nutrido no ventre da m\u00e3e, e a pot\u00eancia do diabo estar\u00e1 sempre com ele.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>(Adso de Montier-en-Der,\u00a0Sobre o nascimento e os tempos do anticristo, s\u00e9c. X)\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Ter\u00e1 dois olhos de fogo, orelhas como as de um asno, o nariz e a boca de um le\u00e3o, pois enviar\u00e1 aos homens atos de loucura dos fogos mais criminosos e as vozes mais vergonhosas da contradi\u00e7\u00e3o, fazendo-os renegar Deus, espalhando em seus sentidos o fedor mais horripilante, dilacerando as institui\u00e7\u00f5es da igreja com a mais feroz das concupisc\u00eancias; rindo num esgar enorme, mostrando horr\u00edveis dentes de ferro. (Hildegarda de Bingen,\u00a0Liber scivias, III, 1, 14, s\u00e9c. XII)<\/em><\/p>\n<p>Se o Anticristo vem do povo judaico, seu modelo n\u00e3o poder\u00e1 deixar de reverberar sobre a imagem do judeu, seja no antissemitismo popular, seja no antissemitismo teol\u00f3gico ou no antissemitismo burgu\u00eas oito-novecentista. Comecemos com o rosto:<\/p>\n<p><em>T\u00eam, em geral, o rosto l\u00edvido, o nariz adunco, os olhos encovados, o queixo proeminente e os m\u00fasculos constritores da boca fortemente pronunciados. (&#8230;) Os judeus s\u00e3o, ademais, sujeitos a doen\u00e7as que indicam corrup\u00e7\u00e3o do sangue, como outrora a lepra e hoje o escorbuto, que lhe \u00e9 afim, escr\u00f3fulas, afluxos de sangue (&#8230;), Dizem que os judeus exalam sempre um mau cheiro (&#8230;) Outros atribuem estes efeitos ao uso frequente de ervas de odor penetrante, como a cebola e o alho. (&#8230;) Outros ainda dizem que \u00e9 a carne de ganso, que eles apreciam muito,<\/em><em>que os torna l\u00edvidos e atrabiliosos, dado que \u00e9 um alimento abundante em a\u00e7\u00facares grosseiros e viscosos.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>(Baptiste-Henri Gr\u00e9goire,\u00a0Essai sur la r\u00e9g\u00e9n\u00e9ration physique, morale e politique des Juifs, 1788)<\/em><\/p>\n<p>Mais tarde, Wagner complicar\u00e1 o retrato com aspectos fon\u00e9ticos e m\u00edmicos:<\/p>\n<p><em>No aspecto externo do judeu encontra-se algo de estranho que, mais do que qualquer outra coisa, repugna a esta nacionalidade; com um homem que tem um aspecto como aquele, ningu\u00e9m quer ter nada em comum (&#8230;). \u00c9 imposs\u00edvel para n\u00f3s imaginar que um personagem da antiguidade ou dos tempos modernos, her\u00f3i ou amoroso, seja representado por um judeu, sem que nos sintamos involuntariamente chocados com tudo o que h\u00e1 de inconveniente, ou melhor, de rid\u00edculo numa representa\u00e7\u00e3o do g\u00eanero (&#8230;). Mas a coisa que mais nos repugna \u00e9 o sotaque particular que caracteriza a fala dos judeus (&#8230;). Nossos ouvidos s\u00e3o particularmente agredidos pelos sons agudos, sibilantes, estridentes deste idioma. Os judeus usam as palavras e a constru\u00e7\u00e3o da frase de maneira oposta ao esp\u00edrito de nossa l\u00edngua nacional (&#8230;). Ouvindo-os, mesmo sem o desejar, prestamos mais aten\u00e7\u00e3o a seu modo de falar do que \u00e0quilo que dizem. Este ponto \u00e9 da maior import\u00e2ncia para explicar sobretudo a impress\u00e3o produzida pelas obras musicais dos judeus. Ouvindo o judeu que fala, sentimo-nos involuntariamente incomodados ao deparar-nos com um discurso desprovido de qualquer express\u00e3o verdadeiramente humana (&#8230;). \u00c9 natural que, no canto \u2014 a mais vivaz e aut\u00eantica manifesta\u00e7\u00e3o do sentimento individual \u2014, a \u00edndole judaica nos seja especialmente detest\u00e1vel. Poder\u00edamos reconhecer ao judeu uma aptid\u00e3o art\u00edstica, mas para qualquer arte que n\u00e3o seja a do canto, que parece ter-lhe sido negada pela pr\u00f3pria natureza.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Hitler procede com mais gra\u00e7a, quase nos limites da inveja:<\/p>\n<p><em>Nos jovens, a roupa deve ser colocada a servi\u00e7o da educa\u00e7\u00e3o. (&#8230;) Se hoje em dia a perfei\u00e7\u00e3o corp\u00f3rea n\u00e3o tivesse sido relegada ao segundo plano por nossa moda descuidada, centenas de milhares de mo\u00e7as certamente n\u00e3o teriam sido seduzidas por asquerosos bastardos judeus de pernas tortas.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Do rosto aos costumes, eis o inimigo judeu que mata criancinhas e bebe seu sangue. Ele aparece bem cedo, por exemplo, nos Contos de Canterbury de Chaucer, que narram a hist\u00f3ria de um menino muito parecido com S\u00e3o Sim\u00e3o de Trento que, ao passar pelo bairro judaico entoando o Alma Redemptoris Mater, \u00e9 raptado, degolado e jogado dentro de um po\u00e7o. O judeu que mata criancinhas e bebe seu sangue tem uma genealogia muito complexa, pois o mesmo modelo j\u00e1 existia na constru\u00e7\u00e3o do inimigo interno do cristianismo: o herege. Um \u00fanico texto \u00e9 suficiente:<\/p>\n<p><em>\u00c0 noite, quando se acendem os lumes e entre n\u00f3s se celebra a paix\u00e3o, conduzem a uma certa casa as donzelas que iniciaram em seus ritos secretos, apagam os lampi\u00f5es, pois n\u00e3o querem que a luz seja testemunha das ignom\u00ednias que ter\u00e3o lugar, e desafogam a pr\u00f3pria dissolu\u00e7\u00e3o sobre quem for, mesmo que seja irm\u00e3 ou filha. Na verdade, ao violar as leis divinas que vetam o con\u00fabio com quem tem o mesmo sangue, acreditam que est\u00e3o fazendo uma coisa grata aos dem\u00f4nios. Encerrado o ritual, voltam para casa e esperam que se passem nove meses: quando chega a hora em que deviam nascer os \u00edmpios filhos de um \u00edmpio s\u00eamen, congregam-se de novo no mesmo lugar. Tr\u00eas dias depois do parto, arrancam os m\u00edseros filhos de suas m\u00e3es, fazem cortes em seus tenros membros com uma l\u00e2mina afiada, recolhem em copas o sangue que jorra, queimam os rec\u00e9m-nascidos enquanto ainda respiram, jogando-os numa fogueira. Em seguida, misturam as cinzas ao sangue nas copas, obtendo uma horr\u00edvel mix\u00f3rdia com a qual sujam alimentos e bebidas, escondidos como quem joga veneno no hidromel. Esta \u00e9 a sua comunh\u00e3o.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>\u00c0s vezes o inimigo \u00e9 percebido como diverso e feio porque \u00e9 de classe inferior. Na Il\u00edada, Tersites (\u201cvesgo, manco de um p\u00e9, ombros curvos em arco,\/ esqu\u00e1lido, cabe\u00e7a pontiaguda, calva\/ \u00e0 mostra, odioso para Aquiles e Odisseu\u201d, II, 212) \u00e9 socialmente inferior a Agamemnon ou Aquiles e, portanto, invejoso deles. Entre Tersites e o Frantis de De Amicis a diferen\u00e7a \u00e9 pouca, ambos feios: Ulisses golpeia o primeiro a sangue e a sociedade enviar\u00e1 Franti \u00e0 pris\u00e3o perp\u00e9tua (E. De Amicis, Cuore, 25 de outubro):<\/p>\n<p><em>E a seu lado, a cara dura e triste de um que se chama Franti, que j\u00e1 foi expulso de outra se\u00e7\u00e3o (&#8230;). S\u00f3 uma pessoa poderia rir enquanto Derossi falava dos funerais do Rei, e Franti riu. Detesto Franti. \u00c9 mau. Quando um pai vem \u00e0 escola para passar uma descompostura no filho, ele se diverte; quando algu\u00e9m chora, ele ri. Treme diante de Garrone e bate no filho do pedreiro porque \u00e9 pequeno; atormenta Crossi por causa do bra\u00e7o morto; debocha de Precossi, que todos respeitam; zomba at\u00e9 de Robetti, da segunda, que anda de muletas por ter salvado uma crian\u00e7a. Provoca quem \u00e9 mais fraco que ele e, quando parte para a briga, fica furioso e quer mesmo machucar. Tem alguma coisa que d\u00e1 medo naquela testa baixa, naqueles olhos turvos, quase escondidos sob a aba do bon\u00e9 de lona encerada. N\u00e3o tem medo de nada, ri na cara do professor, rouba sempre que pode, nega na maior cara de pau, est\u00e1 sempre brigando com algu\u00e9m, leva alfinetes para a escola para espetar os colegas, arranca os bot\u00f5es da jaqueta, da sua e da dos outros, e joga fora; tudo dele, a pasta, os cadernos, os livros, \u00e9 amassado, rasgado, sujo, a r\u00e9gua cheia de dentes, a caneta comida, as unhas ro\u00eddas, as roupas cheias de manchas e rasg\u00f5es feitos nas brigas (&#8230;). \u00c0s vezes, o professor at\u00e9 finge que n\u00e3o est\u00e1 vendo suas estripulias, estripulias, e ele faz pior ainda. Tentou convenc\u00ea-lo com boas palavras, mas ele riu, debochado. Tentou adverti-lo com palavras terr\u00edveis, ele cobriu o rosto com as m\u00e3os como se estivesse chorando, e riu de novo.<\/em><\/p>\n<p>Entre os portadores de feiura devida \u00e0 posi\u00e7\u00e3o social est\u00e3o obviamente o delinquente nato e a prostituta. Mas com a prostituta j\u00e1 entramos num outro universo, o da inimizade ou do racismo sexual. Para o macho que governa e escreve, ou que escrevendo governa, desde o in\u00edcio a mulher foi apresentada como inimiga. N\u00e3o nos deixemos enganar pelas mulheres angelicais, ao contr\u00e1rio: justamente porque a literatura maior \u00e9 dominada por criaturas doces e belas, o mundo da s\u00e1tira \u2014 que \u00e9, ali\u00e1s, o do imagin\u00e1rio popular \u2014 demoniza a mulher constantemente, desde a antiguidade, por toda a Idade M\u00e9dia e at\u00e9 os tempos modernos. Para a antiguidade, limito-me a Marcial (Epigramas, 94):<\/p>\n<p><em>Viveste sob trezentos c\u00f4nsules, Vetustila; restam-te tr\u00eas cabelos e quatro dentes, tens o peito de uma cigarra, as pernas e a cor de uma formiga. Passeias por a\u00ed uma testa que tem mais pregas que tua estola e seios semelhantes a teias de aranha (&#8230;). Tua vis\u00e3o \u00e9 como a das corujas de manh\u00e3 e fedes como um bode; teu traseiro \u00e9 igual ao de uma pata ressequida (&#8230;). Nesta tua vagina s\u00f3 o que pode penetrar ainda \u00e9 a tocha f\u00fanebre.<\/em><\/p>\n<p>E quem seria, afinal, o autor do seguinte trecho?<\/p>\n<p><em>A mulher \u00e9 animal imperfeito, arrebatado por mil paix\u00f5es desagrad\u00e1veis (&#8230;). Nenhum outro animal \u00e9 menos limpo que ela: nem mesmo o porco, que \u00e0s vezes chafurda no lodo, pode venc\u00ea-las em feiura; e se algu\u00e9m tivesse a ideia de neg\u00e1-lo, bastaria olhar suas partes ou procurar os locais secretos onde elas, envergonhadas, escondem os horr\u00edveis instrumentos que usam para extrair de si os humores sup\u00e9rfluos.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Se assim pensava Giovanni Boccaccio (no\u00a0<em>Corbaccio<\/em>), laico e libertino, imaginem o que devia pensar e escrever um moralista medieval para reiterar o princ\u00edpio paulino de que, se fosse poss\u00edvel faz\u00ea-lo sem queimar de ardores, melhor seria nunca conhecer os prazeres da carne.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Parece que \u00e9 imposs\u00edvel prescindir do inimigo. A figura do inimigo n\u00e3o pode ser abolida dos processos de civiliza\u00e7\u00e3o. A necessidade \u00e9 inata tamb\u00e9m nos homens mais af\u00e1veis e amigos da paz. Nestes casos, a imagem do inimigo \u00e9 simplesmente deslocada para uma for\u00e7a natural ou social que nos ameace de alguma forma e que precisa ser vencida, seja ela a explora\u00e7\u00e3o capitalista, a polui\u00e7\u00e3o ambiental ou a fome no Terceiro Mundo. Mas ainda que estes sejam casos \u201cvirtuosos\u201d, como recorda Brecht, tamb\u00e9m o \u00f3dio contra a baixeza endurece a voz. Ent\u00e3o a \u00e9tica seria impotente diante da necessidade ancestral de ter inimigos? Posso dizer que a inst\u00e2ncia \u00e9tica n\u00e3o surge quando se finge que n\u00e3o existem inimigos, mas quando se tenta entend\u00ea-los, colocar-se em seu lugar. Em \u00c9squilo n\u00e3o h\u00e1 avers\u00e3o contra os persas, cuja trag\u00e9dia este vive entre eles e do ponto de vista deles. C\u00e9sar trata os gauleses com muito respeito, no m\u00e1ximo diz que s\u00e3o um pouco chor\u00f5es quando se rendem. T\u00e1cito admira os germanos, considerando que t\u00eam mesmo umabela complei\u00e7\u00e3o e limitando-se a lamentar sua falta de higiene e sua relut\u00e2ncia nos trabalhos mais \u00e1rduos, pois n\u00e3o suportam calor e sede. Tentar entender o outro significa destruir os clich\u00eas a seu respeito, sem negar ou apagar sua alteridade. Mas sejamos realistas. Estas formas de compreens\u00e3o do inimigo s\u00e3o pr\u00f3prias dos poetas, dos santos e dos traidores. Nossas puls\u00f5es mais profundas s\u00e3o de ordem bem diferente.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>A vis\u00e3o mais pessimista sobre isso vem de Sartre, em Huis clos. De um lado, s\u00f3 podemos nos reconhecer a n\u00f3s mesmos na presen\u00e7a de um Outro, e nisto se baseiam as regras de conviv\u00eancia e mansuetude. Mas \u00e9 mais f\u00e1cil considerar este Outro insuport\u00e1vel, porque simplesmente n\u00e3o \u00e9 n\u00f3s. E assim, reduzindo-o a inimigo, constru\u00edmos nosso inferno na terra. Quando Sartre encerra tr\u00eas defuntos, que n\u00e3o se conheceram em vida, num quarto de hotel, um deles compreende a tremenda verdade:<\/p>\n<p><em>Voc\u00ea vai ver que idiotice. Idiota como uma flor! N\u00e3o tem tortura f\u00edsica, n\u00e3o \u00e9 verdade? E, no entanto, estamos no inferno, lugar de ser castigado, n\u00e9? Ningu\u00e9m mais vem, vem? A gente vai ficar at\u00e9 o fim, s\u00f3 n\u00f3s, juntos, n\u00e3o \u00e9 isso? (&#8230;) Falta o carrasco. (&#8230;) Fizeram um corte de pessoal. \u00c9 s\u00f3 isso. (&#8230;) Cada um de n\u00f3s \u00e9 o carrasco dos outros dois.<\/em><\/p>\n<p>[CONFER\u00caNCIA PROFERIDA NA UNIVERSIDADE DE BOLONHA, EM 15 DE MAIO DE 2008, NO \u00c2MBITO DOS SARAUS SOBRE OS CL\u00c1SSICOS, E PUBLICADA EM: IVANO DIONIGI (ORG.). ELOGIO DELLA POLITICA. MIL\u00c3O: BUR, 2009.]<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: \u201cConstruir o inimigo\u201d &#8211; um ensaio de Umberto Eco | Fronteiras do Pensamento &#8211; https:\/\/www.fronteiras.com\/leia\/exibir\/lconstruir-o-inimigor-um-ensaio-de-umberto-eco<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u200bUmberto Eco &#8211; Confira o ensaio de Umberto Eco \u201cConstruir o inimigo\u201d, que d\u00e1 t\u00edtulo \u00e0 colet\u00e2nea de textos do autor italiano publicada pela Editora Record\u200b\u200b no Brasil. Construir o inimigo\u00a0 Alguns anos atr\u00e1s, em Nova York, topei com um taxista cujo nome era dif\u00edcil de decifrar e ele me explicou que era paquistan\u00eas. 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Confira o ensaio de Umberto Eco \u201cConstruir o inimigo\u201d, que d\u00e1 t\u00edtulo \u00e0 colet\u00e2nea de textos do autor italiano publicada pela Editora Record\u200b\u200b no Brasil. 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