{"id":19150,"date":"2023-04-17T12:47:17","date_gmt":"2023-04-17T15:47:17","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=19150"},"modified":"2023-04-16T10:32:24","modified_gmt":"2023-04-16T13:32:24","slug":"a-especie-humana-nunca-viveu-situacao-tao-grave","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/04\/17\/a-especie-humana-nunca-viveu-situacao-tao-grave\/","title":{"rendered":"\u2018A esp\u00e9cie humana nunca viveu situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o grave\u2019"},"content":{"rendered":"<p><strong>LEANDRO MELITO<\/strong> &#8211; \u201cSe n\u00e3o mudarmos radicalmente nos pr\u00f3ximos anos, vamos estar em uma situa\u00e7\u00e3o cada vez mais dif\u00edcil de reagir\u201d, conclui Luiz Marques, autor de O dec\u00eanio decisivo: propostas para uma pol\u00edtica de sobreviv\u00eancia<span style=\"font-size: 16px;\">, ecoando o mais recente documento do Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC) das Na\u00e7\u00f5es Unidas, divulgado na semana passada. \u201cTemos que deixar os combust\u00edveis f\u00f3sseis no subsolo. Parar de queimar carv\u00e3o, petr\u00f3leo, g\u00e1s etc. Temos que parar de desmatar, recuperar as florestas e recusar o agroneg\u00f3cio como modelo de sistema alimentar globalizado.\u201d<\/span><\/p>\n<p>Em perfeita sintonia com\u00a0<a href=\"https:\/\/elefanteeditora.com.br\/produto\/o-decenio-decisivo\/\"><strong><em>O dec\u00eanio decisivo<\/em><\/strong><\/a>\u00a0\u2014 em pr\u00e9-venda no site da Elefante \u2014, o novo alerta do IPCC chama a aten\u00e7\u00e3o para a gravidade da crise clim\u00e1tica causada pelo aquecimento global e o curto espa\u00e7o de tempo dispon\u00edvel para interromper esse processo. O\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ipcc.ch\/report\/ar6\/syr\/\">relat\u00f3rio s\u00edntese<\/a>\u00a0\u00e9 um resumo dos \u00faltimos seis relat\u00f3rios produzidos pelo grupo internacional de pesquisadores a partir de 2018, no qual admite publicamente que a temperatura m\u00e9dia global ultrapassar\u00e1 pela primeira vez at\u00e9 o final desta d\u00e9cada 1,5 \u00b0C acima do per\u00edodo pr\u00e9-industrial.<\/p>\n<p>Luiz Marques classifica o documento como um \u201ccarimbo final\u201d em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 urg\u00eancia de a\u00e7\u00f5es para evitar um desfecho tr\u00e1gico. \u201cEu abordo isso no livro. \u00c9 praticamente universal que n\u00f3s agora estamos diante de uma perspectiva de curt\u00edssimo prazo de uma temperatura que atingir\u00e1 ou exceder\u00e1 1,5 \u00b0C pela primeira vez ainda nesta d\u00e9cada, em dire\u00e7\u00e3o a 2 \u00b0C a partir dos anos 2030. Isso \u00e9 terrificante\u201d, afirma o pesquisador, em entrevista \u00e0\u00a0<strong>Elefante<\/strong>.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o completo descaso com a agenda ambiental durante o governo de Jair Bolsonaro, que rebaixou o Brasil no cen\u00e1rio internacional em rela\u00e7\u00e3o a essa quest\u00e3o, o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva assumiu com um forte discurso em defesa do meio ambiente. Marques observa que os primeiros cem dias do novo governo foram marcados por avan\u00e7os concretos e medidas importantes nessa \u00e1rea, mas alerta para as contradi\u00e7\u00f5es que despontam no horizonte.<\/p>\n<p>\u201cLula n\u00e3o est\u00e1, a meu ver, adotando na pr\u00e1tica pol\u00edticas compat\u00edveis com a gravidade extrema da nossa situa\u00e7\u00e3o. Ele tem v\u00e1rias raz\u00f5es para isso. N\u00e3o tem for\u00e7a pol\u00edtica para tanto, tem que negociar com bancadas parlamentares muito agressivas, e depende em grande medida delas. Na pr\u00e1tica, voc\u00ea tem uma pol\u00edtica que come\u00e7a a mostrar muito rapidamente as suas limita\u00e7\u00f5es, isso \u00e9 muito preocupante.\u201d<\/p>\n<p><strong>Leia a entrevista completa:<\/strong><\/p>\n<p><strong>O relat\u00f3rio do IPCC traz um alerta sobre a crise clim\u00e1tica, o aquecimento global e as medidas urgentes e necess\u00e1rias para que a gente consiga reduzir emiss\u00f5es e evitar uma cat\u00e1strofe, cen\u00e1rio que voc\u00ea apresenta no seu livro\u00a0<\/strong><a href=\"https:\/\/elefanteeditora.com.br\/produto\/o-decenio-decisivo\/\"><strong><em>O dec\u00eanio decisivo<\/em><\/strong><\/a><strong>.<\/strong><\/p>\n<p>O IPCC est\u00e1 resumindo esses resultados. Sendo um resumo, o relat\u00f3rio diz o que j\u00e1 \u00e9 sabido a respeito das din\u00e2micas em curso do aquecimento global. Mas como todo bom resumo, ele \u00e9 mais eloquente. O mais interessante n\u00e3o \u00e9 tanto o relat\u00f3rio em si, mas os coment\u00e1rios feitos pelos pr\u00f3prios cientistas do IPCC, sobretudo o coment\u00e1rio publicado no seu\u00a0<em>press release<\/em>\u00a0de parte do presidente do IPCC, Hoesung Lee. Ele afirma que o aumento da temperatura m\u00e9dia global atingir\u00e1 pela primeira vez 1,5\u00a0<sup>o<\/sup>C acima do per\u00edodo pr\u00e9-industrial em algum momento ainda nesta d\u00e9cada. Trata-se, at\u00e9 onde sei, da primeira vez em que o IPCC, ou ao menos seu presidente, faz esse tipo de afirma\u00e7\u00e3o. As proje\u00e7\u00f5es do IPCC n\u00e3o se referem \u00e0\u00a0<em>primeira vez<\/em>\u00a0em que certo n\u00edvel de aquecimento ocorrer\u00e1. Elas se ocupam de n\u00edveis de aquecimento consolidados e irrevers\u00edveis no sistema clim\u00e1tico. O coment\u00e1rio de Hoesung Lee parece a mim, nesse sentido, um tanto in\u00e9dito. Em 2018, o IPCC havia projetado a ultrapassagem definitiva desse patamar em algum momento entre 2032 e 2050, com o centro da proje\u00e7\u00e3o em 2040, e isso foi bastante criticado, inclusive numa publica\u00e7\u00e3o da revista\u00a0<em>Science<\/em>, pois considerado uma proje\u00e7\u00e3o muito conservadora. O IPCC \u00e9 uma comunidade intergovernamental de cientistas e, portanto, deve submeter os resultados dos seus relat\u00f3rios \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o dos governos. Ele \u00e9 cientificamente independentemente, mas tem que negociar duramente sua aprova\u00e7\u00e3o com representantes dos governos que tentam suprimir ou \u201csuavizar\u201d certas frases mais contundentes de cada relat\u00f3rio. Esse relat\u00f3rio publicado agora em mar\u00e7o de 2023 deveria ter sa\u00eddo em outubro do ano passado para servir de base para a COP 27 no Egito. N\u00e3o saiu exatamente por press\u00e3o de v\u00e1rios governos, sobretudo dos governos da Ar\u00e1bia Saudita, Emirados \u00c1rabes Unidos, da Austr\u00e1lia, entre outros. Isso explica por que os resultados e proje\u00e7\u00f5es do IPCC est\u00e3o quase sempre um pouco aqu\u00e9m da tend\u00eancia emergente no consenso cient\u00edfico. Quando algu\u00e9m como Hoesung Lee diz que um aumento da temperatura m\u00e9dia global de 1,5\u00a0<sup>o<\/sup>C vai ocorrer pela primeira vez em algum momento nesta d\u00e9cada, isso \u00e9, de alguma maneira, um carimbo final em rela\u00e7\u00e3o a essa quest\u00e3o.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o dos prazos, dos horizontes de tempo, \u00e9 algo que eu trabalho o tempo todo no livro, como j\u00e1 o indica seu t\u00edtulo. Temos hoje uma percep\u00e7\u00e3o praticamente universal, em ci\u00eancia sempre haver\u00e1 alguma diverg\u00eancia, mas \u00e9 praticamente um consenso consolidado e universal que estamos agora diante de uma perspectiva de curt\u00edssimo prazo de uma temperatura que exceder\u00e1 pela primeira vez 1,5\u00a0<sup>o<\/sup>C em algum momento nesta d\u00e9cada, em dire\u00e7\u00e3o a 2\u00a0<sup>o<\/sup>C a partir dos anos 2030. Isso \u00e9 terrificante. Outro elemento importante a acrescentar: pela primeira vez o IPCC afirma, com todas as letras, que as escolhas e a\u00e7\u00f5es implementadas\u00a0<em>nesta d\u00e9cada<\/em>\u00a0ter\u00e3o impactos imediatos e ao longo de mil\u00eanios. Isso n\u00e3o significa, \u00e9 claro, que, mantida a atual trajet\u00f3ria, em 2031 tudo estar\u00e1, por assim dizer, perdido. Significa precisamente que quanto mais tardarmos em agir no sentido de reverter as tend\u00eancias atuais, mais dif\u00edcil se tornar\u00e1 revert\u00ea-las. Ent\u00e3o, \u00e9 muito clara a import\u00e2ncia da afirma\u00e7\u00e3o de que esta d\u00e9cada \u00e9 uma d\u00e9cada decisiva, que \u00e9 exatamente, mais uma vez, o t\u00edtulo do livro.<\/p>\n<p>O livro tem esse aspecto de oportunidade, digamos assim. Ele se permite afirmar, com maior \u00eanfase, aquilo que a ci\u00eancia afirma, muitas vezes, entretanto, de modo demasiado t\u00e9cnico: temos, concretamente, que deixar os combust\u00edveis f\u00f3sseis no subsolo, parar de queimar carv\u00e3o, petr\u00f3leo, g\u00e1s e biomassa. Temos que parar de desmatar, temos que recuperar as florestas, sobretudo as florestas tropicais, pois nelas se concentra cerca de dois ter\u00e7os da flora e da fauna, em suma, da biodiversidade terrestre. Temos que recusar o agroneg\u00f3cio como modelo do sistema alimentar globalizado, o que significa diminuir drasticamente o consumo de carne, diminuir drasticamente o uso de agrot\u00f3xicos e de fertilizantes industriais. Estamos tamb\u00e9m diante de uma crise iminente de recursos h\u00eddricos. A gente est\u00e1 vendo rios na Europa, que eram rios perenes, virando rios sazonais. E n\u00e3o apenas na Europa. Tamb\u00e9m no Brasil, no Ir\u00e3, nos EUA, no Chile e em tantas outras latitudes.<\/p>\n<p>Diante desse quadro geral, percebemos uma reatividade ainda muito baixa das sociedades, para n\u00e3o dizer imobilismo, em rela\u00e7\u00e3o ao perigo. H\u00e1 por certo uma consci\u00eancia crescente desse perigo, mas ela \u00e9 ainda muito baixa, inclusive nos segmentos com mais acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. E por que essa baixa reatividade? Entre outras raz\u00f5es, porque estamos diante de um sistema capitalista globalizado, ideologicamente muito eficiente em nos \u201cconvencer\u201d da inexist\u00eancia de alternativas sociais e pol\u00edticas ao que se convencionou chamar as \u201cleis\u201d do mercado. Essas s\u00e3o vendidas \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica pela imprensa e por boa parte da Academia como se fossem leis da f\u00edsica, leis inflex\u00edveis que devem manter inalterada a l\u00f3gica da acumula\u00e7\u00e3o do capital, sob pena de caos. E quando falo \u201ccapitalismo\u201d, refiro-me n\u00e3o apenas aos pa\u00edses capitalistas \u201ccl\u00e1ssicos\u201d, n\u00e3o apenas, aos Estados Unidos, ao Jap\u00e3o e aos pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia, mas tamb\u00e9m \u00e0 R\u00fassia, \u00e0 China e \u00e0s demais na\u00e7\u00f5es dos BRICS, que ainda se consideram emergentes. Os pa\u00edses do G20, os vinte pa\u00edses com maiores PIBs do mundo (85% do PIB global), s\u00e3o respons\u00e1veis por cerca de 80% das emiss\u00f5es de gases de efeito estufa. S\u00e3o esses pa\u00edses que, efetivamente, t\u00eam que se alinhar a uma pol\u00edtica de radicalidade, de mudan\u00e7a radical. De onde as propostas para uma pol\u00edtica de sobreviv\u00eancia, subt\u00edtulo do livro. Pol\u00edticas que s\u00e3o, de resto, evidentes. O problema n\u00e3o \u00e9 tanto a formula\u00e7\u00e3o dessa agenda, mas a consecu\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas capazes de viabilizar essas mudan\u00e7as. Isso \u00e9 muito mais dif\u00edcil.<\/p>\n<p><strong>A gente vem de um governo Bolsonaro que manchou mundialmente nossa imagem na quest\u00e3o ambiental e o Lula assume com um discurso forte nessa \u00e1rea. Qual \u00e9 o papel do Brasil hoje nesse processo? O que a gente precisa fazer domesticamente e como podemos levar essa discuss\u00e3o para fora?<\/strong><\/p>\n<p>O Brasil se situa entre os dez pa\u00edses mais emissores de gases de efeito estufa. Portanto, tem um papel important\u00edssimo e uma responsabilidade gigantesca em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o ambiental. Mais importante ainda do que isso \u00e9 a relev\u00e2ncia do Brasil no que se refere \u00e0 biodiversidade, porque n\u00f3s concentramos ainda a maior parte das florestas tropicais do planeta. Isso confere ao Brasil um peso excepcional no concerto das negocia\u00e7\u00f5es globais. O fato mais dram\u00e1tico a salientar aqui \u00e9 que muitas florestas do Brasil, inclusive na Amaz\u00f4nia, j\u00e1 se converteram de sumidouros de carbono em fontes de libera\u00e7\u00e3o de carbono, por causa do desmatamento e da degrada\u00e7\u00e3o do tecido florestal. Eu sou bastante otimista em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 capacidade do Brasil assumir uma posi\u00e7\u00e3o de destaque, pois nos livramos de Bolsonaro e qualquer coisa que n\u00e3o seja Bolsonaro \u00e9 fonte de esperan\u00e7a. Sem d\u00favida nenhuma, Lula adotou nesses primeiros 100 dias de governo uma s\u00e9rie de medidas positivas: a cria\u00e7\u00e3o, por exemplo, do Minist\u00e9rio dos Povos Ind\u00edgenas, com a excelente S\u00f4nia Guajajara \u00e0 sua frente, e a nomea\u00e7\u00e3o de pessoas de reconhecida reputa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e experi\u00eancia pol\u00edtica em lugares-chave: Marina Silva no Minist\u00e9rio do Meio Ambiente, Mercedes Bustamante [presid\u00eancia da Coordena\u00e7\u00e3o de Aperfei\u00e7oamento de Pessoal de N\u00edvel Superior (Capes)], Ricardo Galv\u00e3o [presid\u00eancia do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPq)], Jo\u00eania Wapichana na Funai etc. S\u00e3o pessoas que t\u00eam capacidade de formular e implementar pol\u00edticas necess\u00e1rias, ou pelo menos os primeiros passos efetivos para essas pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 um outro lado da balan\u00e7a, que preocupa. Por exemplo, a quest\u00e3o do gasoduto da Argentina, anunciado pelo Lula em sua visita \u00e0 Argentina; a renova\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o da licen\u00e7a de Belo Monte; o licenciamento da explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo em toda aquela regi\u00e3o norte da plataforma mar\u00edtima do Brasil, do Amap\u00e1 ao Rio Grande do Norte. Um quarto ponto que preocupa \u00e9 essa viagem do Lula \u00e0 China com um bando de empres\u00e1rios ligados \u00e0 pecu\u00e1ria bovina, do Centro-Oeste, do Cerrado e da Amaz\u00f4nia, historicamente respons\u00e1veis por 80% do desmatamento da Amaz\u00f4nia e de uma grande porcentagem tamb\u00e9m de desmatamento do Cerrado. Como diz uma amiga, s\u00e3o como gafanhotos que destroem tudo \u00e0 sua volta. A compara\u00e7\u00e3o \u00e9 exata. Lula n\u00e3o est\u00e1, a meu ver, adotando na pr\u00e1tica pol\u00edticas que sejam compat\u00edveis com a gravidade extrema da nossa situa\u00e7\u00e3o. Ele tem v\u00e1rias raz\u00f5es para isso. N\u00e3o tem for\u00e7a pol\u00edtica para tanto, tem que negociar com bancadas parlamentares muito agressivas e depende em grande medida delas. Na pr\u00e1tica, voc\u00ea tem uma pol\u00edtica que come\u00e7a a mostrar muito rapidamente as suas limita\u00e7\u00f5es, isso \u00e9 muito preocupante.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea tem essa perspectiva otimista de que ainda d\u00e1 tempo de resolver a situa\u00e7\u00e3o, de amenizar ou criar mecanismos para que a gente n\u00e3o atinja o ponto de n\u00e3o retorno. Agora, precisamos de a\u00e7\u00f5es imediatas, como aponta o relat\u00f3rio e voc\u00ea tamb\u00e9m, no livro. Qual a perspectiva mundial em rela\u00e7\u00e3o a essas a\u00e7\u00f5es, o que voc\u00ea colocaria como priorit\u00e1rio?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Todos sabemos o que \u00e9 preciso fazer, a come\u00e7ar pela diminui\u00e7\u00e3o imediata do consumo de petr\u00f3leo. N\u00e3o se pode mais abrir nenhuma plataforma de explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo. Quem o diz n\u00e3o s\u00e3o ambientalistas \u201cradicais\u201d. \u00c9 a Ag\u00eancia Internacional de Energia (AIE), baseada em cientistas da mais ilibada reputa\u00e7\u00e3o, muitos dos quais deveriam, de resto, at\u00e9 ter maior milit\u00e2ncia pol\u00edtica na \u00e1rea ambiental. Mas, infelizmente, ainda n\u00e3o t\u00eam. Limitam-se a registrar fatos e tend\u00eancias que est\u00e3o, em todo o caso, muito precisamente quantificados.<\/p>\n<p>O limite final para come\u00e7ar a diminuir a curva das emiss\u00f5es de gases de efeito estufa era 2020, se quis\u00e9ssemos manter uma chance razo\u00e1vel de limitar o aquecimento m\u00e9dio global em 1,5\u00a0<sup>o<\/sup>C. Houve a pandemia que, bem ou mal, causou uma diminui\u00e7\u00e3o muito r\u00e1pida e muito ef\u00eamera, tempor\u00e1ria, dessas emiss\u00f5es. Mas j\u00e1 em 2021-2022 voltamos aos n\u00edveis de 2019 e agora continuamos a aument\u00e1-las, e as proje\u00e7\u00f5es s\u00e3o claras: estamos ainda em uma din\u00e2mica de crescimento dessas emiss\u00f5es. Elas teriam que diminuir j\u00e1, o que sup\u00f5e diminuir a queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis. Sabemos isso, sabemos que temos que parar de desmatar tamb\u00e9m. Sabemos que temos uma situa\u00e7\u00e3o de tr\u00e1gica perda de biodiversidade, entre as quais, por exemplo, a perda de polinizadores, fundamentais para a produtividade agr\u00edcola e para a reprodu\u00e7\u00e3o de muitas esp\u00e9cies de plantas. Mesmo de um estreito ponto de vista antropoc\u00eantrico, temos que manter essa biodiversidade porque dependemos dela para nos alimentar. Tudo depende, em \u00faltima inst\u00e2ncia, da pr\u00f3pria sociedade. Depende, em \u00faltima inst\u00e2ncia, de voc\u00ea e de mim, de exigir, de se organizar politicamente, de levantar uma barreira forte \u00e0 din\u00e2mica t\u00edpica do capitalismo globalizado, que \u00e9 a din\u00e2mica expansiva, \u00e9 a din\u00e2mica de acumula\u00e7\u00e3o do capital, que considera a economia como um sistema fechado gerador de lucro.<\/p>\n<p>Enquanto a sociedade n\u00e3o exigir uma mudan\u00e7a na l\u00f3gica de como as sociedades funcionam, vamos continuar a afundar, porque, evidentemente, por mais otimista que algu\u00e9m seja, jamais poderia acreditar que as corpora\u00e7\u00f5es v\u00e3o adotar, elas mesmas, as pol\u00edticas necess\u00e1rias para sairmos dessa l\u00f3gica suicida. N\u00e3o v\u00e3o. Elas s\u00e3o a causa disso. Elas n\u00e3o v\u00e3o se contradizer existencialmente; v\u00e3o continuar a fazer o que \u00e9 sua raz\u00e3o de ser. A raz\u00e3o de ser de uma empresa de petr\u00f3leo \u00e9 obter o m\u00e1ximo lucro poss\u00edvel na explora\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo. Pretender que empresas de petr\u00f3leo deixem de extrair petr\u00f3leo \u00e9 como querer que voc\u00ea pare de respirar. Ent\u00e3o elas s\u00f3 v\u00e3o parar de fazer o que justifica sua exist\u00eancia se forem obrigadas. E quem pode obrig\u00e1-las a fazer isso s\u00e3o as sociedades. Os governos t\u00eam que sofrer uma press\u00e3o de tal ordem, que se vejam obrigados a adotar pol\u00edticas de sobreviv\u00eancia. E isso depende da admiss\u00e3o coletiva de que tais pol\u00edticas s\u00e3o necess\u00e1rias, ainda que redundem em muito sofrimento. Dif\u00edcil, claro. Mas o que \u00e9 certo \u00e9 que quanto mais demorarmos a reagir, maior ser\u00e1 esse sofrimento.<\/p>\n<p>Minha raz\u00e3o para manter certo otimismo \u00e9 basicamente esta: a gente n\u00e3o conhece e n\u00e3o consegue prever a din\u00e2mica das sociedades, sua capacidade de se organizar, de protestar, de n\u00e3o consentir. As sociedades podem estar prestes a dar um salto de qualidade muito grande nessa reatividade. No momento atual, a gente n\u00e3o v\u00ea isso, a gente v\u00ea um aumento muito gradual da consci\u00eancia, um processo muito lento, ainda muito aqu\u00e9m do que seria necess\u00e1rio. Mas ningu\u00e9m sabe o dia de amanh\u00e3, ningu\u00e9m consegue prever a forma da curva. O que esse livro quer? Ele quer p\u00f4r uma gotinha a mais nesse estoque, digamos assim, de consci\u00eancia pol\u00edtica e de n\u00e3o consentimento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pol\u00edticas atuais, de maneira a fazer com que a sociedade diga n\u00e3o. N\u00f3s temos que dizer n\u00e3o. \u00c9 muito dif\u00edcil dizer n\u00e3o, mas essa \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o primeira de possibilidade para que a gente consiga deter esse processo. Temos pela frente mais poucos dec\u00eanios, talvez mais um dec\u00eanio apenas, de sociedades organizadas, capazes, por exemplo, de produzir alimentos, de ter acesso \u00e0 \u00e1gua doce e despolu\u00edda em quantidade suficiente e a demais condi\u00e7\u00f5es elementares de vida. Muito em breve n\u00e3o teremos comida e \u00e1gua em quantidades suficientes. Os especialistas t\u00eam afirmado, inclusive recentemente, que a demanda global de \u00e1gua superar\u00e1 em 40% a oferta at\u00e9 2030. Vamos ter, al\u00e9m disso, picos de calor e eventos meteorol\u00f3gicos extremos cada vez mais letais, e assim por diante. A gente nunca esteve numa situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o grave em toda a hist\u00f3ria da nossa esp\u00e9cie, e com amea\u00e7as t\u00e3o iminentes, amea\u00e7as que podem se tornar, em breve, existenciais.<\/p>\n<p><strong>Por onde pode come\u00e7ar a mudan\u00e7a de comportamento em rela\u00e7\u00e3o a essas quest\u00f5es?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Temos que voltar a acreditar em n\u00f3s mesmos. As pessoas da minha idade, tenho 71 anos, conviveram ao longo da segunda metade do s\u00e9culo XX com derrotas, fracassos, desilus\u00f5es de todo tipo em rela\u00e7\u00e3o a projetos alternativos de sociedade. Recebemos recorrentemente avisos de que essas tentativas de alternativas sist\u00eamicas acabavam sendo iguais ou mesmo piores que o capitalismo, como foi o caso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e da R\u00fassia de hoje, entre outros. Ent\u00e3o isso abalou muito nossa autoconfian\u00e7a na capacidade da humanidade de superar esses grandes obst\u00e1culos, que hoje apenas aumentam. E as gera\u00e7\u00f5es mais novas, por outro lado, cresceram num ambiente pol\u00edtico e ideol\u00f3gico no qual a quest\u00e3o de mudan\u00e7as sist\u00eamicas radicais j\u00e1 era coisa do passado. J\u00e1 n\u00e3o existiam mais. Precisamos, velhos e jovens, voltar a ter confian\u00e7a na gente, n\u00e3o para reproduzir os modelos que eram considerados revolucion\u00e1rios no come\u00e7o do s\u00e9culo XX, como a Revolu\u00e7\u00e3o Russa. Isso, evidentemente, acabou. Mesmo a palavra socialismo, a meu ver, \u00e9 uma palavra hoje profundamente impregnada de uma carga muito negativa. Mas a gente n\u00e3o pode jogar o beb\u00ea junto com a \u00e1gua suja do banho, como se diz. Ali\u00e1s, as mudan\u00e7as de que precisamos hoje s\u00e3o muito mais radicais do que a agenda das revolu\u00e7\u00f5es socialistas do passado, porque elas envolvem hoje n\u00e3o apenas as rela\u00e7\u00f5es sociais, mas nossas rela\u00e7\u00f5es com a natureza, algo que n\u00e3o era uma preocupa\u00e7\u00e3o do passado. Em outras palavras, a gente tem que cultivar uma confian\u00e7a nova e muito mais audaciosa em nossa capacidade de mudar. Acho que \u00e9 isso que est\u00e1 faltando, em primeiro lugar. Um elemento fundamental para que as sociedades mudem \u00e9 acreditar que elas s\u00e3o capazes de mudar. \u00c9 um ingrediente psicol\u00f3gico e emocional muito importante.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: \u2018A esp\u00e9cie humana nunca viveu situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o grave\u2019 &#8211; Editora Elefante &#8211; https:\/\/elefanteeditora.com.br\/luiz-marques-o-ser-humano-nunca-viveu-situacao-tao-grave\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LEANDRO MELITO &#8211; \u201cSe n\u00e3o mudarmos radicalmente nos pr\u00f3ximos anos, vamos estar em uma situa\u00e7\u00e3o cada vez mais dif\u00edcil de reagir\u201d, conclui Luiz Marques, autor de O dec\u00eanio decisivo: propostas para uma pol\u00edtica de sobreviv\u00eancia, ecoando o mais recente documento do Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC) das Na\u00e7\u00f5es Unidas, divulgado na semana passada. \u201cTemos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":19153,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[10],"tags":[37,73],"class_list":["post-19150","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-meio-ambiente","tag-desmatamento","tag-poluicao"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - 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