{"id":19086,"date":"2023-04-03T12:18:35","date_gmt":"2023-04-03T15:18:35","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=19086"},"modified":"2023-04-03T13:06:36","modified_gmt":"2023-04-03T16:06:36","slug":"austeridade-fiscal-vai-por-agua-abaixo-com-a-falencia-de-bancos-internacionais-os-desafios-do-brasil-diante-da-crise-financeira-internacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/04\/03\/austeridade-fiscal-vai-por-agua-abaixo-com-a-falencia-de-bancos-internacionais-os-desafios-do-brasil-diante-da-crise-financeira-internacional\/","title":{"rendered":"Austeridade fiscal \u201cvai por \u00e1gua abaixo\u201d com a fal\u00eancia de bancos internacionais. Os desafios do Brasil diante da crise financeira internacional"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jo\u00e3o Vitor Santos e Patricia Fachin &#8211; <\/strong>\u201cAs raz\u00f5es da crise de 2008 continuam. Quer dizer, h\u00e1 uma aus\u00eancia de regula\u00e7\u00e3o nessa \u00e1rea de derivativos, dos mercados de op\u00e7\u00e3o, h\u00e1 um processo crescente de financeiriza\u00e7\u00e3o da economia\u201d, afirma doutor em economia e membro da carreira de Especialistas em Pol\u00edticas P\u00fablicas e Gest\u00e3o Governamental do governo federal.<\/p>\n<p>As primeiras an\u00e1lises em torno das consequ\u00eancias da\u00a0fal\u00eancia dos bancos americanos Silicon Valley Bank e Signature Bank, na semana passada, indicam que os riscos de uma\u00a0crise sist\u00eamica, a exemplo do\u00a0ocorrido em 2008 e 2009\u00a0no sistema financeiro, n\u00e3o existem. Entretanto, \u201c\u00e9 \u00f3bvio que essa \u00e9 uma avalia\u00e7\u00e3o que ainda est\u00e1 sujeita \u00e0 comprova\u00e7\u00e3o da realidade\u201d, disse\u00a0Paulo Kliass\u00a0ao\u00a0Instituto Humanitas Unisinos \u2013 IHU\u00a0na entrevista a seguir concedida por\u00a0WhatsApp. Segundo ele, apesar de os riscos de um efeito domin\u00f3 serem pouco prov\u00e1veis, a\u00a0quebra dos bancos\u00a0confirma o consenso entre os analistas \u201cem rela\u00e7\u00e3o \u00e0\u00a0situa\u00e7\u00e3o do capitalismo\u00a0e \u00e0\u00a0situa\u00e7\u00e3o financeira\u00a0no plano global, no sentido de que vivemos uma situa\u00e7\u00e3o de\u00a0crise permanente\u201d.De acordo com\u00a0Kliass, a quebra do\u00a0Silicon Valley Bank, que atuava diretamente com as\u00a0startups\u00a0californianas, provavelmente n\u00e3o ter\u00e1 impacto no\u00a0mercado brasileiro. \u201c\u00c9 dif\u00edcil imaginar que a quebra do SVB tenha um reflexo direto nas\u00a0startups\u00a0atuantes no Brasil. Quer dizer, o SVB trata especificamente com empresas nos\u00a0EUA\u00a0e, sobretudo, na\u00a0Calif\u00f3rnia. Ent\u00e3o, \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o muito distante das\u00a0startups\u00a0brasileiras. Como \u00e9 uma crise de desconfian\u00e7a geral, isso provoca uma esp\u00e9cie de afastamento de clientes, de futuras empresas e futuros neg\u00f3cios em busca de financiamento e cr\u00e9dito no mercado financeiro. Mas est\u00e1 muito distante de chegar ao mercado brasileiro, que n\u00e3o tem bancos especializados neste segmento. As\u00a0Fintechs\u00a0come\u00e7aram a atuar recentemente no Brasil, e \u00e9 pouco prov\u00e1vel que haja uma consequ\u00eancia direta entre a situa\u00e7\u00e3o das\u00a0startups\u00a0californianas ou americanas e o setor de\u00a0startups\u00a0no Brasil\u201d, pondera.Na entrevista,\u00a0Kliass\u00a0compara a\u00a0crise financeira de 2008\u00a0com a situa\u00e7\u00e3o atual, critica os dogmas do\u00a0financismo\u00a0e o\u00a0discurso de austeridade fiscal, que \u00e9 desconsiderado quando se trata da necessidade de o Estado auxiliar financeiramente os bancos. Ele tamb\u00e9m reflete sobre o crescimento da\u00a0financeiriza\u00e7\u00e3o da economia\u00a0e seus efeitos na economia real. \u201cDe 2008 para c\u00e1, cresceu muito a \u00e1rea das\u00a0Fintechs, das\u00a0criptomoedas. \u00c9 consenso que existe, circulando na esfera global do\u00a0financismo, um valor extremamente mais alto, multiplicado e potencializado, do que os valores da economia real. Quer dizer, s\u00e3o trilh\u00f5es e trilh\u00f5es de d\u00f3lares que giram diariamente no mercado global e se, de um momento para o outro, ocorrer um aprofundamento s\u00fabito da desconfian\u00e7a, este aprofundamento ser\u00e1 capaz de provocar uma grave\u00a0crise no capitalismo\u00a0mundial. Mas ele n\u00e3o \u00e9 provocado por uma crise como essa que assistimos agora, que aparentemente \u00e9 localizada e foi relativamente controlada, apesar de alguns de seus efeitos terem atravessado o Atl\u00e2ntico e chegado na\u00a0Su\u00ed\u00e7a\u00a0e na\u00a0Fran\u00e7a. Em princ\u00edpio, n\u00e3o vai ter um transbordamento como ocorreu 15 anos atr\u00e1s\u201d.<\/p>\n<div class=\"news-image-credits\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2019\/05\/17_05_paulo_kliass_foto_filipe_calmon_anesp.jpg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><em>Paulo Kliass<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p><strong>IHU \u2013 Qual o tamanho dos bancos americanos que tiveram fal\u00eancia decretada na \u00faltima sexta-feira, 10-03-2023, o Silicon Valley Bank e o Signature Bank? Como eles operam e qual \u00e9 o perfil dos correntistas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Paulo Kliass<\/strong>\u00a0\u2013 O\u00a0Silicon Valley Bank\u00a0\u00e9 o 18\u00ba banco na estrutura do mercado banc\u00e1rio americano e tinha um total de ativos, no fim de 2022, de 210 bilh\u00f5es de d\u00f3lares \u2013 o que n\u00e3o \u00e9 pouca coisa. J\u00e1 o\u00a0Signature Bank\u00a0tinha um total de 110 bilh\u00f5es de d\u00f3lares no final de 2022 e ocupava a 36\u00aa posi\u00e7\u00e3o, mas ele n\u00e3o entrou na contabilidade do ano passado porque n\u00e3o estava sob a jurisdi\u00e7\u00e3o de controle do\u00a0Fed\u00a0(Federal Reserve), banco central dos\u00a0Estados Unidos. Esses s\u00e3o bancos expressivos, principalmente se considerarmos que o mercado americano \u00e9 muito pulverizado: existem mais de 4.200 bancos. Ent\u00e3o a quebra deles n\u00e3o \u00e9 uma coisa a se desconsiderar.<\/p>\n<p>O\u00a0SVB\u00a0\u00e9 um banco do\u00a0Vale do Sil\u00edcio, na\u00a0Calif\u00f3rnia, \u00e1rea considerada o ber\u00e7o de todas as empresas que hoje s\u00e3o as grandes pot\u00eancias da \u00e1rea digital e inform\u00e1tica. A regi\u00e3o continua sendo uma regi\u00e3o de muitas\u00a0startups,\u00a0de empresas que come\u00e7am, geralmente, com alunos brilhantes das universidades, que atuam na \u00e1rea tecnol\u00f3gica. O SVB opera principalmente a\u00ed, oferecendo cr\u00e9dito e participa\u00e7\u00e3o em empresas de ponta da tecnologia.<\/p>\n<blockquote><p>Silicon Valley Bank e Signature Bank s\u00e3o bancos expressivos, principalmente se considerarmos que o mercado americano \u00e9 muito pulverizado: existem mais de 4.200 bancos \u2013 Paulo Kliass<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Impactos<\/strong><\/p>\n<p>As primeiras an\u00e1lises mostram que as dificuldades que o banco come\u00e7ou a apresentar t\u00eam a ver com isso. Ele fazia empr\u00e9stimos de longo prazo para este tipo de empresa, mas, mais recentemente, quando o\u00a0Fed\u00a0come\u00e7ou a subir a\u00a0pol\u00edtica de juros\u00a0e ter uma\u00a0pol\u00edtica monet\u00e1ria\u00a0mais arrochada, acabou criando uma contradi\u00e7\u00e3o entre os empr\u00e9stimos de longo prazo com taxas de juros baixas e os empr\u00e9stimos para rolar no curto prazo com taxas de juros muito altas. Esse descompasso entre o ativo e o passivo \u00e9 o que teria come\u00e7ado a criar problemas, e quando essa situa\u00e7\u00e3o se tornou p\u00fablica houve uma corrida dos clientes para sacar seus recursos do banco, que n\u00e3o conseguiu cumprir os compromissos, justamente, por esse descompasso.<\/p>\n<p>O\u00a0Signature\u00a0\u00e9 um banco menor e o que as primeiras an\u00e1lises demonstram \u00e9 que a\u00a0crise do banco\u00a0teve outras raz\u00f5es. Ele operava principalmente no setor de\u00a0criptomoedas, que \u00e9 um segmentado ainda pouco regulamentado, com pouca transpar\u00eancia, muita especula\u00e7\u00e3o e bastante incerteza. Em fun\u00e7\u00e3o da crise de expectativas, esse foi um dos primeiros bancos a ser afetado justamente por causa da desconfian\u00e7a. Ambas as institui\u00e7\u00f5es sofreram esse processo de corrida dos clientes para sacarem seus recursos e deixaram a contabilidade dos bancos descoberta.<\/p>\n<blockquote><p>Esses s\u00e3o bancos que operam basicamente com o setor privado e vivem de captar recursos e de emprestar dinheiro \u2013 Paulo Kliass<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>IHU \u2013 Esses dois bancos t\u00eam alguma rela\u00e7\u00e3o com o Estado e\/ou mobilizam algum investimento estatal?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Paulo Kliass \u2013<\/strong>\u00a0Segundo as informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis, n\u00e3o. S\u00e3o bancos que operam basicamente com o setor privado e vivem da capta\u00e7\u00e3o de recursos, por um lado, e de empr\u00e9stimo de dinheiro, por outro, mas operam com segmentos diferenciados. A rela\u00e7\u00e3o que eles podem eventualmente ter com o\u00a0Estado\u00a0\u2013 isso ainda n\u00e3o ficou claro pelas informa\u00e7\u00f5es que foram reveladas \u2013 \u00e9 que, de alguma maneira, todos os bancos do\u00a0mercado banc\u00e1rio americano\u00a0operam tamb\u00e9m com t\u00edtulos da\u00a0d\u00edvida p\u00fablica, t\u00edtulos do\u00a0Tesouro americano, mas eles n\u00e3o t\u00eam nenhuma rela\u00e7\u00e3o com o Estado ou com investimento estatal.<\/p>\n<p><strong>IHU \u2013 Quais foram as causas das fal\u00eancias?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Paulo Kliass \u2013<\/strong>\u00a0Basicamente, houve um descompasso entre a estrutura de ativos e passivos em que tem\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/613689-voltar-a-austeridade-nos-levara-ao-desastre-entrevista-com-adam-tooze\" rel=\"noopener noreferrer\">taxas de juros<\/a>\u00a0mais altas de um lado do que do outro. Isso gera uma crise de expectativa, de confian\u00e7a, e uma corrida de clientes e depositantes em fun\u00e7\u00e3o da incerteza da sobreviv\u00eancia do banco no m\u00e9dio prazo. Assim, os correntistas correm para sacar seus recursos a curto prazo. Isso faz com que o banco fique a descoberto.<\/p>\n<p>O governo est\u00e1 assegurando o direito dos depositantes de sacarem os recursos, mas, evidentemente, isso n\u00e3o impediu a\u00a0quebra dos bancos. O que est\u00e3o tentando evitar \u00e9 que essa situa\u00e7\u00e3o se transforme em uma crise de expectativa e desconfian\u00e7a do sistema como um todo, que tenha um efeito domin\u00f3 no sentido de provocar a quebra de outros bancos porque existe um fen\u00f4meno de interdepend\u00eancia dos agentes na esfera financeira.<\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 dif\u00edcil imaginar que a quebra do Silicon Valley Bank tenha um reflexo direto nas startups atuantes no Brasil \u2013 Paulo Kliass<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>IHU \u2013 Quais os impactos da quebra do Silicon Valley Bank para as\u00a0<em>startups<\/em>\u00a0de tecnologia? H\u00e1 riscos e impactos para as\u00a0<em>startups<\/em>\u00a0brasileiras ou que atuam no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Paulo Kliass \u2013<\/strong>\u00a0Precisamos esperar um pouco para saber quais ser\u00e3o as consequ\u00eancias. Mas, em fun\u00e7\u00e3o das dimens\u00f5es do banco, da sua especializa\u00e7\u00e3o no setor das\u00a0startups,\u00a0com certeza vai ter algum grau de afeta\u00e7\u00e3o negativa no ramo das empresas tecnol\u00f3gicas na\u00a0Calif\u00f3rnia\u00a0e nos\u00a0Estados Unidos\u00a0de forma geral. O fato de o governo estar assegurando o direito dos correntistas e clientes talvez sirva um pouco para amenizar o impacto econ\u00f4mico e financeiro da insolv\u00eancia do\u00a0SVB, mas ainda n\u00e3o d\u00e1 para dizer a magnitude dessa consequ\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil imaginar que a\u00a0quebra do SVB\u00a0tenha um reflexo direto nas\u00a0startups\u00a0atuantes no\u00a0Brasil. Quer dizer, o SVB trata especificamente com empresas nos\u00a0EUA\u00a0e, sobretudo, na\u00a0Calif\u00f3rnia. Ent\u00e3o, \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o muito distante das\u00a0startups\u00a0brasileiras. Como \u00e9 uma crise de desconfian\u00e7a geral, isso provoca uma esp\u00e9cie de afastamento de clientes, de futuras empresas e futuros neg\u00f3cios em busca de financiamento e cr\u00e9dito no mercado financeiro. Mas est\u00e1 muito distante de chegar ao mercado brasileiro, que n\u00e3o tem bancos especializados neste segmento. As\u00a0Fintechs\u00a0come\u00e7aram a atuar recentemente no Brasil, e \u00e9 pouco prov\u00e1vel que haja uma consequ\u00eancia direta entre a situa\u00e7\u00e3o das\u00a0startups\u00a0californianas ou americanas e o setor de\u00a0startups\u00a0no Brasil.<\/p>\n<blockquote><p>H\u00e1 um descompasso entre a estrutura dos bancos e as possibilidades reais de as fam\u00edlias e os indiv\u00edduos honrarem os compromissos financeiros \u2013 Paulo Kliass<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>IHU \u2013 Economistas especulam a possibilidade de desencadeamento de uma crise sist\u00eamica no setor financeiro em fun\u00e7\u00e3o da fal\u00eancia dos dois bancos. Em artigo recente, o senhor comentou que \u201ch\u00e1 indica\u00e7\u00f5es de que esta onda talvez n\u00e3o seja t\u00e3o danosa nem destruidora para a economia como aquela que ocorreu 15 anos atr\u00e1s\u201d. Por que, em sua avalia\u00e7\u00e3o, os riscos de uma crise sist\u00eamica n\u00e3o existem?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Paulo Kliass \u2013<\/strong>\u00a0\u00c9 \u00f3bvio que essa \u00e9 uma avalia\u00e7\u00e3o que ainda est\u00e1 sujeita \u00e0 comprova\u00e7\u00e3o da realidade. Quer dizer, h\u00e1 muito tempo existe um consenso entre os analistas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0\u00a0situa\u00e7\u00e3o do capitalismo\u00a0e \u00e0\u00a0situa\u00e7\u00e3o financeira\u00a0no plano global, no sentido de que vivemos uma situa\u00e7\u00e3o de\u00a0crise permanente. Isso \u00e9 fato.<\/p>\n<p><strong>De 2008 a 2023<\/strong><\/p>\n<p>A\u00a0situa\u00e7\u00e3o de 2008 e 2009\u00a0n\u00e3o foi a primeira, mas foi uma crise importante, que tem muito a ver com a crise do\u00a0subprime.\u00a0Ou seja, h\u00e1 um descompasso entre a estrutura dos bancos e as possibilidades reais de as fam\u00edlias e os indiv\u00edduos honrarem os compromissos financeiros. Isso foi visto no caso das\u00a0hipotecas do setor imobili\u00e1rio, quando houve uma valoriza\u00e7\u00e3o dos im\u00f3veis, num primeiro momento, com uma bolha especulativa no setor, e, num segundo momento, com a crise econ\u00f4mica e o aumento do desemprego. As pessoas n\u00e3o conseguiram honrar as presta\u00e7\u00f5es dos im\u00f3veis.Naquela \u00e9poca, 15 anos atr\u00e1s, ocorreu um efeito domin\u00f3: houve a\u00a0quebra do Lehman Brothers\u00a0e grandes conglomerados industriais foram afetados, como a\u00a0General Motors. Ou seja, teve um efeito cascata que n\u00e3o est\u00e1 ocorrendo agora pela dimens\u00e3o desses dois bancos. A a\u00e7\u00e3o do governo americano aparentemente est\u00e1 contribuindo para que n\u00e3o ocorra um efeito domin\u00f3, no sentido de que o governo est\u00e1 garantindo os direitos dos agentes econ\u00f4micos. Mas isso n\u00e3o impede que a quest\u00e3o esteja resolvida. De maneira nenhuma. As raz\u00f5es da\u00a0crise de 2008\u00a0continuam. Quer dizer, h\u00e1 uma aus\u00eancia de regula\u00e7\u00e3o nessa \u00e1rea de derivativos, dos mercados de op\u00e7\u00e3o, h\u00e1 um processo crescente de\u00a0financeiriza\u00e7\u00e3o da economia.<\/p>\n<p><em>Trabalho Interno | Document\u00e1rio | Trailer Legendado:<\/em><\/p>\n<p><iframe src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/YamDhfIi6Hs\"><\/iframe><\/p>\n<p>De 2008 para c\u00e1, cresceu muito a \u00e1rea das\u00a0Fintechs, das\u00a0criptomoedas. \u00c9 consenso que existe, circulando na esfera global do\u00a0financismo, um valor extremamente mais alto, multiplicado e potencializado, do que os valores da economia real. Quer dizer, s\u00e3o trilh\u00f5es e trilh\u00f5es de d\u00f3lares que giram diariamente no mercado global e se, de um momento para o outro, ocorrer um aprofundamento s\u00fabito da desconfian\u00e7a, este aprofundamento ser\u00e1 capaz de provocar uma grave crise no capitalismo mundial. Mas ele n\u00e3o \u00e9 provocado por uma crise como essa que assistimos agora, que aparentemente \u00e9 localizada e foi relativamente controlada, apesar de alguns de seus efeitos terem atravessado o Atl\u00e2ntico e chegado na\u00a0Su\u00ed\u00e7a\u00a0e na\u00a0Fran\u00e7a. Em princ\u00edpio, n\u00e3o vai ter um transbordamento como ocorreu 15 anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Compreendendo a financeiriza\u00e7\u00e3o: conceito(s), origens, impactos e (im)possibilidades:<\/p>\n<p><iframe src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/bj84GqhUg2A\"><\/iframe><\/p>\n<p><strong>IHU \u2013 Um ponto de discuss\u00e3o em torno da fal\u00eancia dos bancos \u00e9 o uso de recursos p\u00fablicos destinados a estas institui\u00e7\u00f5es pelo Tesouro para salv\u00e1-las. Pode explicar como ocorre este processo e quais suas implica\u00e7\u00f5es para o investimento social?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Paulo Kliass \u2013<\/strong>\u00a0Temos que separar essa quest\u00e3o em dois aspectos. O\u00a0primeiro\u00a0diz respeito ao\u00a0aporte p\u00fablico de recursos or\u00e7ament\u00e1rios\u00a0para atender ao interesse dos bancos e das institui\u00e7\u00f5es financeiras. Isso \u00e9 da natureza do pr\u00f3prio\u00a0capitalismo. No caso brasileiro, os bancos s\u00e3o instrumentos para operar a negocia\u00e7\u00e3o, por exemplo, dos t\u00edtulos da\u00a0d\u00edvida p\u00fablica. Isso oferece para eles uma remunera\u00e7\u00e3o expressiva relativa aos juros do t\u00edtulo da d\u00edvida p\u00fablica. Atualmente, no caso brasileiro, ao longo dos \u00faltimos doze meses foi feita uma transfer\u00eancia de R$ 700 bilh\u00f5es do or\u00e7amento federal para o pagamento desse tipo de despesa.<\/p>\n<p>O\u00a0segundo caso\u00a0\u2013 voltando novamente ao caso concreto dos bancos americanos e do banco su\u00ed\u00e7o \u2013 tem o interesse de evitar, primeiro, a quebra imediata dos bancos e, num segundo momento, a \u201ccontamina\u00e7\u00e3o\u201d do conjunto banc\u00e1rio, financeiro e econ\u00f4mico, como aconteceu na crise de 2008. Isso pode acontecer de v\u00e1rias formas. Uma delas \u00e9 a inje\u00e7\u00e3o de recursos p\u00fablicos do\u00a0Tesouro\u00a0na pr\u00f3pria estrutura dos ativos dos bancos, de forma a evitar que as corridas [pelo resgate dos recursos] possam comprometer a liquidez da institui\u00e7\u00e3o e a capacidade de ela sobreviver no tempo ou de atender aos direitos dos acionistas, correntistas e clientes.<\/p>\n<p>Outra forma \u00e9 o que acontece neste momento nos\u00a0EUA: o governo assegura o direito dos depositantes porque a pessoa corre para o banco e n\u00e3o tem mais o recurso que teoricamente seria dela; ent\u00e3o o Tesouro garante esse montante. Se a pessoa tinha um valor X depositado do banco Y, e o banco n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de repassar o dinheiro porque faliu, o governo garante aos depositantes o resgate dos recursos. Tem um debate em torno dessa quest\u00e3o para saber se o Tesouro atende realmente a todos os depositantes ou somente aos grandes \u2013 que seria uma forma de reproduzir a injusti\u00e7a da desigualdade existente na hora do atendimento dos bancos.<\/p>\n<p>Uma outra forma que tamb\u00e9m existe \u00e9 aquilo que as\u00a0institui\u00e7\u00f5es financeiras\u00a0chamam de separar o ativo podre do ativo ainda s\u00e3o. Para isso, \u00e9 realizada uma interven\u00e7\u00e3o governamental na institui\u00e7\u00e3o banc\u00e1ria ou financeira a partir da qual s\u00e3o separados os t\u00edtulos com problemas e que n\u00e3o podem ser honrados, dos t\u00edtulos \u201cbons\u201d. O Estado, por essa l\u00f3gica de defesa dos\u00a0interesses do capital, assume para si, ou seja, para o conjunto da sociedade \u2013 porque \u00e9 ela quem vai pagar por isso \u2013 a parte podre dos ativos e, num segundo momento, at\u00e9 devolve para o mercado a parte \u201cboa\u201d da institui\u00e7\u00e3o banc\u00e1ria e financeira.<\/p>\n<p>Como vemos, existem v\u00e1rias formas de os\u00a0recursos p\u00fablicos\u00a0serem usados para manter, seja o\u00a0lucro dos bancos, seja o lucro dos acionistas, seja ainda a manuten\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio sistema capitalista. Isso tudo tamb\u00e9m se junta a um discurso ideol\u00f3gico que sempre observamos nos meios de comunica\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do emprego da express\u00e3o \u201cToo big to fail\u201d [grande demais para falir]. Eles t\u00eam que ser ajudados e isso vale n\u00e3o apenas para os bancos, mas tamb\u00e9m para outras empresas e conglomerados. Entre 2008 e 2009, em algum momento a\u00a0General Motors, um dos \u00edcones do capitalismo, por um momento se tornou estatal. O governo americano acabou comprando as a\u00e7\u00f5es da empresa por um per\u00edodo para evitar a quebradeira e depois as devolveu. Enfim, esta \u00e9 a ideia: o\u00a0Estado sempre entra para salvar os interesses do grande capital.<\/p>\n<p><strong>IHU \u2013 Em meio a l\u00f3gicas neoliberais, vemos essas intui\u00e7\u00f5es financeiras, assim como houve em 2008, pedirem socorro ao Estado. O que isso revela?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Paulo Kliass \u2013<\/strong>\u00a0\u00c9 contradit\u00f3rio, do ponto de vista do discurso, para aqueles que defendem a\u00a0l\u00f3gica do sistema capitalista. Ao longo das \u00faltimas quatro d\u00e9cadas, em que houve uma hegemonia da\u00a0ideologia neoliberal, acabaram prevalecendo um arcabou\u00e7o te\u00f3rico e ideol\u00f3gico\u00a0e uma narrativa bem peculiares. Assim, defendem-se a\u00a0austeridade fiscal, a\u00a0redu\u00e7\u00e3o do gasto social, fala-se que o\u00a0Estado\u00a0n\u00e3o pode gastar de forma ineficiente, argumenta-se pela liberaliza\u00e7\u00e3o completa da economia e diz-se que a\u00a0presen\u00e7a do Estado na economia\u00a0\u00e9 prejudicial porque acaba comprometendo a efici\u00eancia do sistema e o bem-estar da popula\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, vem a defesa da ideia da privatiza\u00e7\u00e3o, no sentido de que o Estado, como agente econ\u00f4mico, seria ineficiente e, portanto, a melhor forma de fazer a gest\u00e3o das empresas estatais ou p\u00fablicas seria por meio da venda ou doa\u00e7\u00e3o delas para o setor privado.<\/p>\n<p>Mas, neste momento que estamos vivendo e em momentos anteriores, quando o\u00a0capitalismo\u00a0passou por crises expressivas, \u00e0s favas com a\u00a0ideologia neoliberal, com o discurso em prol do setor privado, e viva o\u00a0Estado\u00a0que vem\u00a0salvar as empresas capitalistas. Este \u00e9 o ponto. No caso dos bancos, vale a mesma l\u00f3gica. Eles sempre continuam recebendo recursos vultuosos do Estado por meio do pagamento dos juros da d\u00edvida p\u00fablica e, agora, recebendo na veia a inje\u00e7\u00e3o de recursos do sistema para evitar sua quebra.<\/p>\n<p>Neste debate, vale a pena refor\u00e7ar que, independentemente deste momento atual de crise, do ponto de vista da narrativa ideol\u00f3gica n\u00f3s vimos a cria\u00e7\u00e3o do conceito de\u00a0super\u00e1vit prim\u00e1rio. Quando se fala em\u00a0austeridade fiscal, a ideia \u00e9 que s\u00f3 se foque nas chamadas contas prim\u00e1rias, que s\u00e3o todas as contas or\u00e7ament\u00e1rias, com exce\u00e7\u00e3o das contas financeiras. Estas \u00faltimas incluem o pagamento de juros da d\u00edvida e ficam de fora dessa apura\u00e7\u00e3o de d\u00e9ficit ou super\u00e1vit. A ideia \u00e9 fazer super\u00e1vit em cima de despesas, por exemplo, de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, previd\u00eancia, saneamento e mesmo de investimento p\u00fablico, dependendo do modelo que o pa\u00eds adota para a sua contabilidade p\u00fablica. Com isso, o\u00a0super\u00e1vit fiscal\u00a0acaba sendo utilizado justamente para gerar um saldo positivo nas contas do governo e honrar o\u00a0pagamento dos juros da d\u00edvida p\u00fablica.<\/p>\n<p><strong>IHU \u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/626996\" rel=\"noopener noreferrer\">Em artigo recente<\/a>, o senhor disse que o Silicon Valley Bank \u201ctamb\u00e9m aparecia como institui\u00e7\u00e3o s\u00f3lida e segura (<em>sic<\/em>), chegando a ocupar a 20\u00aa posi\u00e7\u00e3o, em uma lista elaborada h\u00e1 poucos dias pela conhecida publica\u00e7\u00e3o Forbes, como um dos mais recomendados bancos americanos\u201d. Qual \u00e9 o papel e a responsabilidade das ag\u00eancias de risco nesse processo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Paulo Kliass \u2013<\/strong>\u00a0O ponto \u00e9 o seguinte: o\u00a0sistema financeiro\u00a0congrega e \u00e9 composto de um conjunto amplo de entidades, empresas e institui\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m dos bancos, das bolsas de valores, das corretoras, das distribuidoras de t\u00edtulos imobili\u00e1rios, existem as ag\u00eancias de risco. Elas funcionam como um mecanismo para se obter mais informa\u00e7\u00e3o a respeito da real situa\u00e7\u00e3o de empresas, institui\u00e7\u00f5es e bancos a fim de informar os investidores, os acionistas e a popula\u00e7\u00e3o de forma geral. Esse processo \u00e9 antigo e existe h\u00e1 mais de seis d\u00e9cadas, mas ele foi se sofisticando no restante do mundo e tamb\u00e9m no\u00a0Brasil. Atualmente, existe uma esp\u00e9cie de padr\u00e3o por meio do qual essas\u00a0ag\u00eancias de riscos\u00a0operam nas suas avalia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Algumas informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o p\u00fablicas e outras s\u00e3o restritas ou encomendadas a partir de pesquisas espec\u00edficas que s\u00e3o pagas por alguma empresa que deseja um estudo sobre um setor ou empreendimento. As notas variam, mas geralmente s\u00e3o de n\u00fameros de 0 a 10 ou de letras, que s\u00e3o as mais conhecidas. Come\u00e7ou com A, B, C, D e E. Depois, para dar sutileza a respeito da situa\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es, passou-se ao modelo tipo A+ e A- e, depois, para A, AA e AAA, que corresponde \u00e0 empresa mais bem cotada poss\u00edvel. No caso da\u00a0crise de 2008 e 2009, o\u00a0Lehman Brothers, que era um dos grandes bancos da economia americana, at\u00e9 a antev\u00e9spera da queda, era cotado pelas ag\u00eancias de risco como AAA. Isto \u00e9, uma empresa sem problemas e se revelou totalmente fragilizado.<\/p>\n<p>O que acontece \u00e9 que essas\u00a0ag\u00eancias de riscos\u00a0s\u00e3o muito comprometidas e dependem do\u00a0sistema financeiro\u00a0para sobreviver. Portanto, elas vivem esse dilema entre, de um lado, ter sua credibilidade assegurada para o seu mercado potencial futuro e, para isso, teriam que ser rigorosas, mas, de outro lado, dependem do campo financeiro e n\u00e3o querem criticar o\u00a0mercado financeiro, sob pena de tamb\u00e9m perderem espa\u00e7o e mercado por serem vistas como n\u00e3o muito confi\u00e1veis, em fun\u00e7\u00e3o de eventual cr\u00edtica ao sistema. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o complicada e sutil, mas, via de regra, o que acontece \u00e9 que grandes empresas e institui\u00e7\u00f5es com problemas n\u00e3o s\u00e3o captadas e alertadas pelas ag\u00eancias de riscos, em especial quando se trata de bancos. \u00c9 aquela hist\u00f3ria do parasita e do hospedeiro: um depende do outro e fazem um jogo de compadrio e depend\u00eancia rec\u00edproca.<\/p>\n<blockquote><p>Via de regra, o que acontece \u00e9 que grandes empresas e institui\u00e7\u00f5es com problemas n\u00e3o s\u00e3o captadas e alertadas pelas ag\u00eancias de riscos, em especial quando se trata de bancos \u2013 Paulo Kliass<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>IHU \u2013 Quais s\u00e3o os \u201cdogmas do financismo\u201d que s\u00e3o postos \u00e0 prova a partir desses casos de fal\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Paulo Kliass \u2013<\/strong>\u00a0Um dos dogmas do\u00a0financismo\u00a0posto \u00e0 prova nesta crise \u00e9 que somente a a\u00e7\u00e3o \u201clivre\u201d das for\u00e7as de oferta e demanda do mercado bastariam para resolver todos os problemas de inefici\u00eancia econ\u00f4mica. Estamos vendo que n\u00e3o funciona bem assim, uma vez que existem mercados que s\u00e3o oligop\u00f3lios, mercados cuja informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 transparente para todos os setores e agentes envolvidos. Isso significa que \u00e9 fundamental e necess\u00e1rio ter uma regula\u00e7\u00e3o forte do setor p\u00fablico para evitar pr\u00e1ticas oligopolistas que firam a concorr\u00eancia leal. No caso do\u00a0Brasil, essa seria uma das fun\u00e7\u00f5es do\u00a0Conselho Administrativo de Defesa Econ\u00f4mica \u2013 CADE\u00a0nas \u00e1reas econ\u00f4mica e financeira e, nas \u00e1reas econ\u00f4mica e banc\u00e1ria, seria do\u00a0Banco Central. Mas isso n\u00e3o \u00e9 feito.<\/p>\n<p>Outro aspecto \u00e9 a ideia de que n\u00e3o se deve ter a\u00a0presen\u00e7a do Estado na economia\u00a0porque isso levaria a inefici\u00eancias. Percebemos que \u00e9 o contr\u00e1rio: muitas vezes, a presen\u00e7a do Estado na economia acaba colaborando para que a solu\u00e7\u00e3o final, a solu\u00e7\u00e3o pelo equil\u00edbrio, seja mais equ\u00e2nime e promotora de redu\u00e7\u00e3o das desigualdades.<\/p>\n<p>Finalmente, outro dogma \u00e9 a ideia de estar agarrado ao conceito de austeridade fiscal. Essa ideia vai por \u00e1gua abaixo porque fica evidente que, nos momentos de crise, os recursos que, teoricamente, n\u00e3o existiam para as \u00e1reas da sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, previd\u00eancia etc., aparecem para salvar bancos e reduzir as perdas dos grandes conglomerados econ\u00f4micos.<\/p>\n<p><strong>IHU \u2013 O senhor destacou que esses casos de fal\u00eancia confirmam \u201ca possibilidade que o Estado tem de criar moeda e gerar recursos da noite para o dia, sempre que houver esse tipo de necessidade (\u2026) para salvar prioritariamente os grandes conglomerados\u201d. O que isso indica sobre a pol\u00edtica econ\u00f4mica dos governos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Paulo Kliass \u2013<\/strong>\u00a0Indica que o problema n\u00e3o \u00e9 t\u00e9cnico nem um dogma insol\u00favel a respeito da exist\u00eancia de recursos ou da inexist\u00eancia de recursos fiscais, tribut\u00e1rios e econ\u00f4micos do governo. Toda a discuss\u00e3o sobre\u00a0austeridade fiscal, a vig\u00eancia do\u00a0teto de gastos, a necessidade de fazer a revoga\u00e7\u00e3o do teto de gastos, a necessidade um novo arcabou\u00e7o fiscal no lugar daquilo que era chamado de\u00a0novo regime fiscal, da\u00a0Emenda Constitucional n. 95, tudo isso est\u00e1 sendo colocado em quest\u00e3o e indo por \u00e1gua abaixo.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que os recursos existentes podem ser acessados e a decis\u00e3o \u00e9 pol\u00edtica; n\u00e3o \u00e9 uma decis\u00e3o t\u00e9cnica. Isso vale para o\u00a0Brasil\u00a0e para outros pa\u00edses. Sempre que se trata de cogitar um aumento das despesas, uma promo\u00e7\u00e3o dos gastos e fazer investimentos na \u00e1rea social, o discurso oficial e do\u00a0financismo\u00a0\u00e9 que n\u00e3o d\u00e1 para fazer porque os recursos n\u00e3o existem e isso seria\u00a0populismo fiscal, gastan\u00e7a e irresponsabilidade. Por outro lado, sempre que aparece alguma necessidade do grande capital, por exemplo, no caso das ajudas aos bancos, o dinheiro que antes n\u00e3o existia,\u00a0agora aparece: ele aparece na forma de recursos e or\u00e7amentos a serem utilizados, como \u00e9 o caso do\u00a0pagamento de juros.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca da\u00a0pandemia, por exemplo, o governo conseguiu recursos \u2013 eles apareceram \u2013 para pagar uma s\u00e9rie de despesas que n\u00e3o estavam previstas no or\u00e7amento. Isso mostra que o Estado, como \u00e9 o caso do Brasil desde o\u00a0Plano Real\u00a0e dos pa\u00edses que conseguem se financiar na sua pr\u00f3pria moeda, tem mais liberdade para aumentar a quantidade de recursos na sociedade atrav\u00e9s da emiss\u00e3o de moeda ou do lan\u00e7amento de novos t\u00edtulos, aumentando o endividamento p\u00fablico, sem provocar nenhuma quebradeira. A\u00a0rela\u00e7\u00e3o d\u00edvida\/PIB nos EUA\u00a0\u00e9 superior a 120%. Nos pa\u00edses da\u00a0Uni\u00e3o Europeia\u00a0acontece a mesma coisa. O\u00a0Jap\u00e3o\u00a0supera 200% e nem por isso esses pa\u00edses est\u00e3o quebrados. Esse \u00e9 mais um dos aspectos que v\u00eam a confirmar a necessidade de superar esses dogmas do\u00a0financismo, que na verdade serve apenas para proteger os interesses dos grandes conglomerados, bancos e institui\u00e7\u00f5es financeiras.<\/p>\n<p>Na verdade, est\u00e1 em curso uma grande mudan\u00e7a nos paradigmas da macroeconomia convencional. Afinal, os\u00a0Estados Unidos\u00a0e os pa\u00edses europeus, por exemplo, romperam com a l\u00f3gica da austeridade depois da crise de 2008-2009 e da pandemia. As autoridades econ\u00f4micas aumentaram a emiss\u00e3o de moeda e elevaram seus n\u00edveis de endividamento para fazer face \u00e0s necessidades da crise. E nem por isso houve um aumento da infla\u00e7\u00e3o ou quebradeira dos pa\u00edses. Estas s\u00e3o algumas das pondera\u00e7\u00f5es que a abordagem da Teoria Monet\u00e1ria Moderna sempre fez e que s\u00f3 agora est\u00e3o sendo incorporadas aos poucos pelo pr\u00f3prio establishment em alguns pa\u00edses.<\/p>\n<blockquote><p>Algumas avalia\u00e7\u00f5es indicam que um trilh\u00e3o de d\u00f3lares estariam sendo aplicados em criptomoedas \u2013 Paulo Kliass<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>IHU \u2013 Como est\u00e1 o investimento em criptomoeda hoje? Por que h\u00e1 interesse nesse mercado e quais seus impactos na economia real?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Paulo Kliass \u2013<\/strong>\u00a0Sugiro muita cautela nesta quest\u00e3o, que \u00e9 muito complexa, muito pouco conhecida e sobre a qual se tem pouca informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um dos problemas diz respeito ao fato de que essa \u00e9 uma atividade que come\u00e7ou e continua \u00e0 margem do\u00a0sistema financeiro oficial, sem qualquer mecanismo de regula\u00e7\u00e3o nos pa\u00edses, inclusive nos\u00a0EUA, onde ela \u00e9 mais desenvolvida. \u00c9 muito dif\u00edcil fazer uma avalia\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o desse mercado. A\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/159-entrevistas\/572573-bitcoins-e-a-dificil-fuga-do-sistema-financeiro-mundial-entrevista-especial-com-alex-preukschat\" rel=\"noopener noreferrer\">criptomoeda<\/a>\u00a0acontece no universo dos\u00a0blockchain, que s\u00e3o inacess\u00edveis teoricamente do ponto de vista regulat\u00f3rio. Algumas avalia\u00e7\u00f5es indicam que um trilh\u00e3o de d\u00f3lares estariam sendo aplicados em\u00a0criptomoedas, mas \u00e9 dif\u00edcil ter essa seguran\u00e7a porque quem fez essa conta muito provavelmente n\u00e3o conseguiu chegar no total dos montantes para chegar a uma avalia\u00e7\u00e3o dos estoques globais.<\/p>\n<p>Apesar disso, nas\u00a0bolsas de Nova York, por exemplo, h\u00e1 pap\u00e9is cotados em criptomoedas. Ent\u00e3o os derivativos da pr\u00f3pria criptomoeda, isto \u00e9, a quantidade de recursos aplicados \u00e0 criptomoeda, s\u00e3o t\u00edtulos, valores, que j\u00e1 est\u00e3o na superf\u00edcie do mercado financeiro, mas que operam com cota\u00e7\u00e3o e expectativa de mercado futuro da criptomoeda.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que a criptomoeda est\u00e1 crescendo. Na \u00faltima d\u00e9cada, a cada ano que passou, houve um aumento da utiliza\u00e7\u00e3o da criptomoeda, mas ainda tem muita desconfian\u00e7a em fun\u00e7\u00e3o da falta de transpar\u00eancia, da falta de organismos controladores e reguladores por parte dos Estados e por parte das institui\u00e7\u00f5es internacionais.<\/p>\n<p>O que se avalia tamb\u00e9m \u00e9 que uma parte dos recursos que s\u00e3o aplicados em criptomoedas e que s\u00e3o negociados em\u00a0criptomoeda\u00a0ocorre na profundidade da\u00a0deep web\u00a0e nos\u00a0blockchain, ou seja, h\u00e1 muitos recursos ilegais. Muito do universo do jogo, do crime organizado, das drogas, da\u00a0prostitui\u00e7\u00e3o, das armas, no plano internacional, tamb\u00e9m est\u00e1 aplicado \u00e0 criptomoeda. Ela tem dois aspectos, assim como as moedas tradicionais: pode ser usada como instrumento de troca, na compra e venda de produtos na forma de criptomoeda, ou como instrumento de valoriza\u00e7\u00e3o, de aplica\u00e7\u00e3o, porque a criptomoeda tem valor de cota\u00e7\u00e3o di\u00e1rio e \u00e9 poss\u00edvel fazer investimentos com a compra de uma quantidade de criptomoeda com as moedas nacionais, esperando que no futuro v\u00e1 ter uma valoriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os especialistas avaliam que, apesar desse lado pouco conhecido, pouco transparente e sem regulariza\u00e7\u00e3o, o sistema \u00e9 muito seguro no sentido de que o recurso aplicado n\u00e3o vira p\u00f3, n\u00e3o desaparece. A pessoa pode ter uma perda de dinheiro em fun\u00e7\u00e3o da varia\u00e7\u00e3o da cota\u00e7\u00e3o di\u00e1ria. A avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 que essas estruturas de\u00a0blockchain\u00a0s\u00e3o acess\u00edveis e seguras e que o montante investido em\u00a0criptomoeda\u00a0seria preservado.<\/p>\n<p>As consequ\u00eancias do ponto de vista do\u00a0mercado financeiro\u00a0est\u00e3o por ser feitas. Estamos vivendo no olho do furac\u00e3o. O crescimento \u00e9 real do ponto de vista do volume de recursos e de aplica\u00e7\u00f5es, mas ainda n\u00e3o est\u00e1 na dimens\u00e3o de amea\u00e7ar o mercado financeiro mais tradicional e ativo. Agora, como toda inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica \u2013 por exemplo, como acontece com os bancos totalmente digitais, com a internacionaliza\u00e7\u00e3o poss\u00edvel das opera\u00e7\u00f5es financeiras di\u00e1rias no plano internacional e da sofistica\u00e7\u00e3o do universo dos derivativos \u2013, \u00e9 poss\u00edvel que esse seja o\u00a0futuro da criptomoeda. Se, algumas d\u00e9cadas atr\u00e1s, tiv\u00e9ssemos tido uma conversa sobre os riscos que o mercado de derivativo colocaria para os mercados \u00e0 vista (petr\u00f3leo, ouro, soja), tamb\u00e9m haveria essa quest\u00e3o. Hoje, as estimativas dos organismos internacionais \u00e9 que o valor de derivativos negociado diariamente no mundo \u00e9 da ordem de dezenas de trilh\u00f5es de d\u00f3lares e isso supera em muito o potencial das economias reais. Essa \u00e9 uma caracter\u00edstica da\u00a0financeiriza\u00e7\u00e3o da economia desde sempre, mas o universo dos derivativos potencializa esse deslocamento da esfera financeira em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 esfera real da economia.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Austeridade fiscal \u201cvai por \u00e1gua abaixo\u201d com a fal\u00eancia de bancos internacionais. Os desafios do Brasil diante da crise financeira internacional. Entrevista especial com Paulo Kliass &#8211; Instituto Humanitas Unisinos &#8211; IHU &#8211; https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/159-entrevistas\/627144-austeridade-fiscal-vai-por-agua-abaixo-com-a-falencia-de-bancos-internacionais-os-desafios-do-brasil-diante-da-crise-financeira-internacional-entrevista-especial-com-paulo-kliass<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Vitor Santos e Patricia Fachin &#8211; \u201cAs raz\u00f5es da crise de 2008 continuam. 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