{"id":19012,"date":"2023-03-09T12:05:50","date_gmt":"2023-03-09T15:05:50","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=19012"},"modified":"2023-03-05T10:08:45","modified_gmt":"2023-03-05T13:08:45","slug":"onde-os-bilionarios-buscam-consolo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/03\/09\/onde-os-bilionarios-buscam-consolo\/","title":{"rendered":"Onde os bilion\u00e1rios buscam consolo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Sophie Elmhirst &#8211; <\/strong>Visita, na Su\u00ed\u00e7a, \u00e0s cl\u00ednicas de reabilita\u00e7\u00e3o para super-ricos. Entediados e incapazes de conv\u00edvio social, eles exigem fausto e cuidado de uma multid\u00e3o de profissionais. Semana custa R$ 500 mil. Sob imensur\u00e1veis contas banc\u00e1rias, o abismo existencial.<\/p>\n<p>Se o c\u00e9u estiver claro, pode-se debru\u00e7ar nas janelas da Paracelsus Recovery, uma luxuosa cl\u00ednica de reabilita\u00e7\u00e3o em Zurique, e deixar o olhar vagar pelo lago at\u00e9 os Alpes ao longe. \u00c9 o tipo de paisagem, de \u00e1guas azuis e picos brancos, cuja contempla\u00e7\u00e3o promete um rejuvenescimento imediato, uma pureza pr\u00f3xima da santidade. A cl\u00ednica, por sua vez, oferece tratamentos mais elaborados a um custo entre 95 mil e 120 mil francos su\u00ed\u00e7os (R$ 538 mil a R$ 667 mil) por semana para uma estadia t\u00edpica de seis a oito semanas.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o era exatamente a t\u00edpica pessoa esperada na cl\u00ednica Paracelsus, batizada em homenagem ao m\u00e9dico su\u00ed\u00e7o do s\u00e9culo 16 que, ao contr\u00e1rio da opini\u00e3o corrente em sua \u00e9poca, acreditava que quem sofria de doen\u00e7as mentais n\u00e3o era um possu\u00eddo por esp\u00edritos malignos e merecia um tratamento humano. Minha mochila estava cheia de velhas manchas de caf\u00e9 e meu casaco tinha um buraco na parte de tr\u00e1s, por onde as penas ficavam escapando. A equipe aqui est\u00e1 acostumada com pessoas que n\u00e3o carregam sua pr\u00f3pria bagagem e para quem 1 milh\u00e3o em qualquer moeda \u00e9 uma soma negligenci\u00e1vel. Os clientes t\u00edpicos s\u00e3o membros de fam\u00edlias reais do Oriente M\u00e9dio, novos bilion\u00e1rios, atores famosos ou estrelas do esporte, e os filhos problem\u00e1ticos de todas essas figuras, de quem herdam a riqueza e os fardos a ela inerentes.<\/p>\n<p>Mais impressionante do que o luxo material das instala\u00e7\u00f5es da Paracelso, com seus altos tetos e corredores de orqu\u00eddeas brancas, \u00e9 a quantidade de aten\u00e7\u00e3o dispensada assim que eu entrei por suas portas. Eu n\u00e3o estava ali para receber qualquer tratamento, apenas ia ficar hospedada em um dos apartamentos enquanto entrevistava a equipe. Mesmo assim, enfermeiros, m\u00e9dicos, administradores e nutricionistas muito bem-vestidos surgiam de todos os c\u00f4modos, sempre com um sorriso s\u00e1bio nos l\u00e1bios, desses que a gente costuma encontrar nos rostos de cl\u00e9rigos e psicoterapeutas, ou de qualquer um que acredite ter acesso a uma verdade capaz de aliviar a dor.<\/p>\n<p>Assomando por tr\u00e1s deles estava Jan Gerber, o diretor-executivo, alto e radiante como o prado dos pampas, com um len\u00e7o de seda amarrado no pesco\u00e7o e exalando o tipo de afeto controlado de algu\u00e9m que construiu um neg\u00f3cio de sucesso cuidando da ang\u00fastia confidencial dos super-ricos. Seguindo-o, desfolhando um floril\u00e9gio de boas maneiras, estava Pawel Mowlik, o s\u00f3cio-gerente: um homem que ganhou milh\u00f5es em fundos de hedge quando tinha 20 e poucos anos, sucumbiu \u00e0 depend\u00eancia em coca\u00edna e \u00e1lcool por v\u00e1rios anos, internou-se em diversas cl\u00ednicas de reabilita\u00e7\u00e3o e, ap\u00f3s tr\u00eas meses de profundo trabalho psicol\u00f3gico na Paracelsus, descobriu que seu prop\u00f3sito na vida era ajudar pessoas como ele.<\/p>\n<p>Mowlik, 39 anos, \u00e9 o tipo de pessoa que narra sua vida enquanto a vive, um sinal claro de algu\u00e9m que passou por muita terapia. Sabendo que eu vinha de Londres, ele me disse que morou em v\u00e1rios locais da cidade: Covent Garden, Bayswater, as docas de St. Katharine. Ele gostava de se movimentar, inquieto por natureza. \u201cHoje acredito que n\u00e3o existe casa\u201d, disse ele. \u201cCasa \u00e9 um sentimento.\u201d<\/p>\n<p>Para o cliente t\u00edpico da Paracelsus, o lar \u00e9 geralmente uma de suas v\u00e1rias mans\u00f5es, quem sabe at\u00e9 um pal\u00e1cio. Eles v\u00eam a Zurique para uma forma particular de tratamento, conhecida como reabilita\u00e7\u00e3o de cliente \u00fanico, ou \u201cum cliente de cada vez\u201d, pela qual a cidade se tornou mundialmente conhecida entre os ultra-ricos. Assim como a Paracelsus, Zurique abriga a Kusnacht Practice, onde o conceito se originou. Ao contr\u00e1rio de outras casas de reabilita\u00e7\u00e3o conhecidas \u2013 Meadows no Arizona, Betty Ford na Calif\u00f3rnia, Priory no Reino Unido \u2013 nas cl\u00ednicas de Zurique, os clientes nunca veem ou interagem com qualquer outro cliente. N\u00e3o h\u00e1 terapia de grupo, nem \u00e1rea comum. Os clientes ficam em sua pr\u00f3pria mans\u00e3o ou apartamento e t\u00eam seu pr\u00f3prio motorista, governanta, chef e terapeuta residente, al\u00e9m de sess\u00f5es individuais di\u00e1rias com uma equipe de 15 a 20 psiquiatras, m\u00e9dicos, enfermeiros, professores de yoga, massagistas, nutricionistas, hipnoterapeutas e terapeutas de trauma que informam uns aos outros sobre o estado e o progresso do cliente ap\u00f3s cada consulta. Embora possa haver tr\u00eas ou quatro clientes hospedados em resid\u00eancias diferentes na cl\u00ednica, a qualquer momento, seus hor\u00e1rios s\u00e3o organizados de modo a assegurar a impress\u00e3o de que cada um \u00e9 o \u00fanico foco da institui\u00e7\u00e3o inteira. Al\u00e9m da equipe, ningu\u00e9m jamais saber\u00e1 que eles est\u00e3o l\u00e1.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que deve ser, disse-me Gerber. N\u00e3o \u00e9 que a dor dos super-ricos seja mais complicada do que a de qualquer outra pessoa. Certamente, eles t\u00eam experi\u00eancias \u00fanicas, de acordo com o campo emergente da \u201cpsicologia da riqueza\u201d, como os problemas da \u201criqueza repentina\u201d ou o fardo de uma vasta heran\u00e7a. Mas ansiedade, depress\u00e3o, depend\u00eancia e dist\u00farbios alimentares dificilmente s\u00e3o exclusivos desse grupo demogr\u00e1fico. Todo mundo usa drogas e \u00e1lcool; \u00e9 que para os ricos, \u201cas drogas s\u00e3o mais caras\u201d, disse a Dr.\u00aa Anna Erat, diretora m\u00e9dica da Paracelsus. (A necessidade de coca\u00edna, por exemplo, que custa milhares de d\u00f3lares por semana, em vez de depend\u00eancia em vodca barata.)<\/p>\n<p>Mesmo assim, insistiu Gerber, a reabilita\u00e7\u00e3o regular simplesmente n\u00e3o funcionaria. Os clientes geralmente s\u00e3o mundialmente famosos e desejam total discri\u00e7\u00e3o. Mas al\u00e9m do desejo de privacidade, a riqueza extrema tem um estranho efeito separador. \u201cSe voc\u00ea colocar um bilion\u00e1rio em um ambiente de grupo, mesmo com pessoas abastadas de classe m\u00e9dia, eles n\u00e3o conseguir\u00e3o se relacionar uns com os outros\u201d, disse Gerber. Essa gente n\u00e3o \u00e9 como o resto de n\u00f3s; suas vidas e mentes foram transformadas por suas fortunas.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p>Em Zurique, at\u00e9 a luz do sol parece cara. As montanhas e o lago emprestam-lhe um brilho dourado que reflete as joias nas vitrines das lojas de grife na Bahnhoffstrasse e as imaculadas velas brancas dos barcos que singram o lago. O custo de vida da cidade \u00e9 o mais alto da<a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/world\/switzerland\">\u00a0Su\u00ed\u00e7a<\/a>\u00a0e o sexto maior do mundo. Uma \u201ccosta dourada\u201d se estende al\u00e9m da cidade, \u00e0 margem do lago. No final das ruas que levam \u00e0s \u00e1guas, h\u00e1 praias onde bab\u00e1s trazem crian\u00e7as pequenas para brincar e homens de sunga nadam antes de, presumivelmente, irem para casa verificar seus investimentos. Descendo uma das ruas principais, passei pelo Algonquin, um castelo murado, para o qual Tina Turner se mudou ao se aposentar em 2009. Aparentemente, quando ela vai ao supermercado local, ningu\u00e9m se vira para olhar. Zurique \u00e9 um bom lugar para os ricos e famosos se esconderem em paz, devido, como disse um morador, \u00e0 \u201cpeculiar falta de \u00e2nimo dos su\u00ed\u00e7os\u201d.<\/p>\n<p>A uma curta caminhada da casa de Tina Turner, no bairro \u00e0 beira do lago de Kusnacht, fica a casa de Carl Jung, uma grande mans\u00e3o cor creme onde o analista viveu a maior parte de sua vida. No final da d\u00e9cada de 1920, Jung tratou um empres\u00e1rio americano alco\u00f3latra, Rowland Hazard III, ao longo de v\u00e1rios meses. Depois que Hazard come\u00e7ou a beber novamente, Jung disse que ele s\u00f3 se recuperaria se tivesse algum tipo de despertar espiritual. Em resposta, Hazard procurou uma irmandade crist\u00e3 evang\u00e9lica chamada Oxford Group, parou de beber e depois orientou um velho amigo na lida com o seu alcoolismo. Esse velho amigo, por sua vez, foi o mentor de Bill Wilson, que fundou a espiritualizada Alco\u00f3licos An\u00f4nimos em 1935.<\/p>\n<p>Zurique, portanto, tem a cura em sua hist\u00f3ria. \u00c9 a origem do maior programa gratuito e interpessoal de tratamento de depend\u00eancia do mundo e tamb\u00e9m, no outro extremo da escala, do mais exclusivo. A primeira cl\u00ednica \u201cum cliente de cada vez\u201d come\u00e7ou aqui, em 2009, por uma enfermeira e seu ent\u00e3o marido, um conselheiro de dependentes qu\u00edmicos. O casal, Christine Merzeder e Lowell Monkhouse, decidiu se dedicar a ajudar um amigo alco\u00f3latra. Em vez de encaminh\u00e1-lo a uma cl\u00ednica de reabilita\u00e7\u00e3o estabelecida, acharam um apartamento para ele, transformaram seu pr\u00f3prio quarto vago em um consult\u00f3rio e contrataram os servi\u00e7os de um professor de ioga.<\/p>\n<p>Merzeder achou o tratamento di\u00e1rio com foco em um \u00fanico cliente mais satisfat\u00f3rio e eficaz do que a abordagem padronizada das institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, mas demandava trabalho intensivamente. O filho de Merzeder, Jan Gerber, percebeu a\u00ed uma oportunidade. Desde que se formou na London School of Economics (LSE), Gerber trabalhou como consultor financeiro para bancos de investimento e abriu v\u00e1rias empresas, incluindo uma cl\u00ednica de cirurgia est\u00e9tica para homens em Zurique. Ele conhecia os h\u00e1bitos dos muito ricos, e tamb\u00e9m os seus problemas. Ele sabia que haveria muitas pessoas dispostas a pagar.<\/p>\n<p>Juntos, eles fundaram a Kusnacht Practice em 2011. No in\u00edcio, o sucesso vinha do boca a boca. De acordo com Moustafa Hammoud, que trabalhou na Kusnacht fazendo a ponte com a clientela do Oriente M\u00e9dio, um cliente da Ar\u00e1bia Saudita enviou pelo menos tr\u00eas de seus filhos, todos em luta contra a depend\u00eancia qu\u00edmica ou a depress\u00e3o. Hammoud estimou que cerca de 70% dos clientes iniciais da Kusnacht vieram da Ar\u00e1bia Saudita, Emirados \u00c1rabes Unidos, Kuwait e Egito. Famosos em casa, muitos clientes buscaram ajuda no exterior para evitar que a \u201cvergonha\u201d de sua ang\u00fastia fosse descoberta. Muitos, disse ele, vieram algumas vezes. \u201cEles se recuperavam, tinham uma reca\u00edda, voltavam.\u201d A cl\u00ednica cresceu rapidamente, contratando mais funcion\u00e1rios e alugando mais mans\u00f5es para os clientes. Em 2013, Gerber saiu e montou a Paracelsus. Monkhouse, por sua vez, vendeu a Kusnacht para uma empresa de\u00a0<em>private equity<\/em>. Hoje ela \u00e9 administrada por um empres\u00e1rio brasileiro e oferece diversos tratamentos m\u00e9dicos, incluindo \u201crestaura\u00e7\u00e3o biomolecular\u201d, al\u00e9m de reabilita\u00e7\u00e3o. A Paracelsus continua menor \u2013 \u201cmais\u00a0<em>boutique<\/em>\u00a0e personalizado\u201d, segundo Gerber.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio, disse-me Merzeder, os clientes apresentaram desafios que ela nunca havia enfrentado durante sua carreira no sistema p\u00fablico de sa\u00fade da Su\u00ed\u00e7a. Frequentemente, eles chegavam com v\u00e1rias prescri\u00e7\u00f5es, consequ\u00eancia de um excesso de tratamento com m\u00e9dicos particulares concorrentes que n\u00e3o liam as anota\u00e7\u00f5es uns dos outros. Ela se lembra de uma paciente mais jovem, \u201cuma princesa\u201d, que foi atendida pelo melhor professor americano de psiquiatria pedi\u00e1trica e apareceu \u201ccarregada de comprimidos\u201d. Uma abordagem que racionalizasse todos os aspectos do cuidado f\u00edsico e psicol\u00f3gico seria transformadora, acreditava Merzeder. \u201cNunca me interessei pelo desenvolvimento de neg\u00f3cios ou pelo resultado financeiro\u201d, acrescentou. \u201cEu estava apenas interessada em resultados cl\u00ednicos.\u201d Gerber, sentado ao lado dela, sorriu: \u201c\u00c9 por isso que formamos uma boa equipe!\u201d.<\/p>\n<p>Gerber conhece seu mercado e sabe que ele est\u00e1 crescendo. De 2019 a 2021, o n\u00famero global de indiv\u00edduos com patrim\u00f4nio l\u00edquido ultraelevado, aqueles com mais de US$ 50 milh\u00f5es (R$ 260 milh\u00f5es), cresceu de 174.800 para 264 mil. De acordo com Gerber, as pessoas nessa faixa de riqueza, apesar de estarem financeiramente resguardadas contra in\u00fameras dificuldades, t\u00eam tr\u00eas a cinco vezes mais chances do que a m\u00e9dia de sofrer de uma doen\u00e7a mental ou de um problema relacionado a abuso de subst\u00e2ncias. Dado que a Paracelsus aceita apenas 30 a 40 clientes por ano, o mercado \u00e9 claramente grande o suficiente para manter a cl\u00ednica ocupada.<\/p>\n<p>O tratamento de sa\u00fade mental ultraexclusivo \u00e9 uma das muitas novas microind\u00fastrias que surgiram para atender os super-ricos. O Spears 500, um guia anual de servi\u00e7os de consultoria, agora assessora especialistas em tudo, desde a aquisi\u00e7\u00e3o de vinhedos at\u00e9 o gerenciamento de cripto-reputa\u00e7\u00e3o. A Dr.\u00aa Ronit Lami, uma \u201cpsic\u00f3loga especializada em patrim\u00f4nio l\u00edquido ultraelevado\u201d com consult\u00f3rios em Los Angeles e Londres, disse-me que quando ela come\u00e7ou a trabalhar, em 2000, ningu\u00e9m sabia muito sobre esse p\u00fablico. Agora, seus clientes querem profissionais especializados que entendam as complexidades espec\u00edficas do planejamento sucess\u00f3rio e da transfer\u00eancia de riqueza geracional. O que desejam \u00e9 similar a muitos de seus outros desejos: um servi\u00e7o que seja prestado de forma personalizada e exclusiva, um jato particular em vez de uma companhia a\u00e9rea comercial.<\/p>\n<p>Alguns ex-funcion\u00e1rios da Kusnacht j\u00e1 exportaram a ideia da reabilita\u00e7\u00e3o de cliente \u00fanico para todo o mundo, abrindo cl\u00ednicas semelhantes em Mallorca (The Balance), Irlanda (Rosglas) e outra em Zurique (Calda). O primeiro centro de luxo para um cliente \u00fanico em Londres, o Addcounsel, foi aberto por um empres\u00e1rio chamado Paul Flynn, que vendeu sua empresa de recrutamento e iniciou a cl\u00ednica em 2016, depois que um amigo que trabalhava na Kusnacht sugeriu a ideia. Flynn me disse que o neg\u00f3cio cresceu 300% no ano passado e espera um crescimento semelhante em 2023. A mis\u00e9ria dos super-ricos \u00e9 um mercado como qualquer outro, e h\u00e1 uma lacuna. Nos pr\u00f3ximos anos, disse ele, \u201cacho que veremos muitas atividades de fus\u00f5es e aquisi\u00e7\u00f5es neste setor\u201d.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 preciso se esfor\u00e7ar muito para n\u00e3o se seduzir pelo luxo. Gerber me mostrou o apartamento onde eu ia ficar na Paracelsus, uma sequ\u00eancia de quartos de cobertura \u00e0 beira do lago, onde tudo parecia brilhar: mesas de vidro, casti\u00e7ais de prata, superf\u00edcies de m\u00e1rmore. No quarto, os len\u00e7\u00f3is tinham uma brancura luminosa e n\u00edtida, imposs\u00edvel de alcan\u00e7ar quando voc\u00ea lava sua pr\u00f3pria roupa. Uma bandeja de minicanelones de ricota e berinjela, feitos na hora, foi servido na mesa de centro, apenas por precau\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A aspira\u00e7\u00e3o \u00e9 que tudo pare\u00e7a se produzir sem esfor\u00e7o, toda essa opul\u00eancia, ent\u00e3o todo o trabalho que permite que ela aconte\u00e7a \u00e9 mantido invis\u00edvel. A governanta, Izabela Borowska-Violante, e o chef, Moritz von Hohenzollern, costumam aparecer para trabalhar antes que o cliente acorde. Enquanto eu vagava pelos quartos perfeitos, tentando n\u00e3o tocar em nada, e desejando que minha mochila n\u00e3o estivesse t\u00e3o suja, eles surgiram dos aposentos de funcion\u00e1rios no apartamento como se estivessem l\u00e1 esperando em repouso. Gerber me disse que a equipe podia se comportar conforme a prefer\u00eancia do cliente, mais interativa e tagarela ou invis\u00edvel. De qualquer forma, os funcion\u00e1rios devem ser os \u201csilenciosos e bons esp\u00edritos da casa\u201d, quase como uma fam\u00edlia, embora n\u00e3o se assemelhe a nenhuma fam\u00edlia que eu tenha conhecido. \u201cQuanto a mim, tudo se resume a ficar quieto\u201d, confirmou Von Hohenzollern, a menos que o cliente queira companhia. Apesar dessa pol\u00edtica precavida, ele nem sempre conseguia conter o entusiasmo. \u201cReceba as grandes boas-vindas de nossa parte aqui da gastronomia!\u201d, se exaltou ele ao me ver chegar.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio, me meti em confus\u00e3o, sem entender direito os termos da rela\u00e7\u00e3o. Agradecia a todos constantemente, ao ponto de me irritar. Por constrangimento, tentei fazer as coisas sozinha, como buscar minha pr\u00f3pria \u00e1gua, at\u00e9 que Von Hohenzollern me lembrou que esse era o trabalho dele. Na primeira manh\u00e3, ele me perguntou se eu gostava de cogumelos. Oh sim, eu menti educadamente. Mais tarde, ele fez cogumelos para o jantar e eu comi todos. No dia seguinte, durante uma sess\u00e3o demonstrativa com a nutricionista, ela me perguntou se havia algo que eu n\u00e3o gostava muito de comer. Cogumelos, eu disse. Antes mesmo de eu voltar para o apartamento, a nova informa\u00e7\u00e3o j\u00e1 havia circulado entre a equipe. Von Hohenzollern ficou mortificado. Por que ele n\u00e3o tinha sido informado antes? Como ele poderia fazer seu trabalho corretamente se n\u00e3o estivesse me servindo o tempo todo exatamente o que eu desejava?<\/p>\n<p>O cliente t\u00edpico estaria acostumado a tais servi\u00e7os, \u00e9 claro. Na verdade, o apartamento da Paracelsus \u2013 com sua cozinha e sala de jantar, e uma grande \u00e1rea privada para o cliente \u2013 provavelmente devia ser apertado em compara\u00e7\u00e3o com suas pr\u00f3prias casas. A cl\u00ednica queria criar um ambiente seguro, semelhante a um casulo, ideal para a recupera\u00e7\u00e3o, explicou Gerber. A Kusnacht Practice, por sua vez, a 10 minutos de carro dali, abriga seus clientes em enormes mans\u00f5es. Quando me mostraram uma delas, com tr\u00eas andares de banheiros de m\u00e1rmore, uma piscina externa e um amplo terra\u00e7o na cobertura, notei o retrato de um homem olhando diretamente para fora da moldura. O zelador me disse que eles poderiam remov\u00ea-lo se o cliente achasse inc\u00f4modo ser olhado, mesmo por uma pintura.<\/p>\n<p>O componente final do apartamento da Paracelsus, ausente durante minha estada, foi o terapeuta residente: \u201cUma rela\u00e7\u00e3o sagrada\u201d, disse Danuta Siemek, que est\u00e1 no cargo h\u00e1 um ano. Uma vez atribu\u00edda a um cliente, ela fica com ele durante toda a estadia. Ela vai comer com ele, conversar sempre que ele quiser, cuidar dele se estiver tendo um ataque de p\u00e2nico \u00e0s 4 da manh\u00e3. \u00c9 um trabalho intenso e \u00edntimo, uma din\u00e2mica que surpreendeu outros psicoterapeutas com quem conversei, acostumados ao formato mais convencional de sess\u00f5es semanais estritamente delimitadas de 50 minutos. Para evitar qualquer confus\u00e3o, os clientes geralmente recebem terapeutas de uma idade diferente e de um sexo n\u00e3o compat\u00edvel com sua prefer\u00eancia. \u201cA vida como a conhecemos acaba\u201d, disse Siemek, a respeito do trabalho. Eu me perguntei como ela conseguia permanecer s\u00e3. \u201cCaminhada forte\u201d, ela respondeu.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 um efeito particular em ser o centro das aten\u00e7\u00f5es de v\u00e1rios profissionais. Eu mencionei que gostava de nozes. Nozes, suavemente temperadas, chegaram. Se eu esbarrasse em uma toalha, ela era quase imediatamente dobrada de novo para parecer intocada. Durante a avalia\u00e7\u00e3o do nutricionista, comecei a me perguntar se meus h\u00e1bitos alimentares eram de fato t\u00e3o singularmente fascinantes. Um leve escorreg\u00e3o para o narcisismo parecia inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 por isso que o cliente paga: a dedica\u00e7\u00e3o exclusiva de toda uma equipe. No in\u00edcio da estadia do cliente, a prioridade \u00e9 a estabiliza\u00e7\u00e3o f\u00edsica. A equipe m\u00e9dica realiza exames de sangue, monitora a press\u00e3o arterial e a frequ\u00eancia card\u00edaca e, em seguida, produz um relat\u00f3rio de linha de base, mostrando todas as defici\u00eancias poss\u00edveis. \u201cMuitos de nossos clientes s\u00e3o bastante orientados por dados\u201d, disse Erat, a diretora m\u00e9dica. \u00c0s vezes, eles ficam um pouco obsessivos em rela\u00e7\u00e3o aos relat\u00f3rios, com seus \u201cselfs\u201d reproduzidos em forma de planilha, como se seus problemas pudessem ser resolvidos corrigindo um \u00fanico ponto perdido entre os dados. Mas, como disse Erat, em termos de recupera\u00e7\u00e3o \u201c\u00e9 apenas um m\u00e9todo entre muitos\u201d.<\/p>\n<p>A recupera\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica, seja voc\u00ea extremamente rico ou n\u00e3o, \u00e9 um trabalho \u00e1rduo. O principal psiquiatra da Paracelsus, Thilo Beck, \u00e9 um dos mais respeitados em Zurique. Um homem de fala mansa com cabe\u00e7a raspada, enormes t\u00eanis brancos e um ar frio e inabal\u00e1vel, Beck divide seu tempo entre a Paracelsus e a Arud, uma das maiores cl\u00ednicas ambulatoriais para o tratamento da depend\u00eancia qu\u00edmica sem fins lucrativos da Su\u00ed\u00e7a. Na Arud, ele trata pessoas do outro extremo do espectro socioecon\u00f4mico, dependentes qu\u00edmicos que vivem na pobreza ou \u00e0 beira de n\u00e3o ter onde morar. Ambos os grupos, observa Beck, s\u00e3o \u201cestigmatizados e marginalizados de certa forma, e considerados n\u00e3o muito normais\u201d. Ele frequentemente encontra em ambos uma neglig\u00eancia emocional. Por um lado, o paciente pode ter sido criado por um pai que trabalha em v\u00e1rios empregos para sobreviver. No outro, o cliente muitas vezes foi \u201ccriado por bab\u00e1s\u201d. Frequentemente, identificava um sentimento, segundo ele, de que ningu\u00e9m realmente se importava.<\/p>\n<p>Beck se formou no mesmo hospital psiqui\u00e1trico em Zurique onde Jung trabalhou. No in\u00edcio de sua carreira, na d\u00e9cada de 1990, o tratamento da depend\u00eancia qu\u00edmica se concentrava na abstin\u00eancia, que ainda \u00e9 o m\u00e9todo central do programa de 12 passos do AA. Ele diz n\u00e3o ter tempo para isso. \u201c\u00c9 paternalista\u201d, disse. \u201cVem da ideia de que \u2018N\u00f3s sabemos o que \u00e9 certo e temos que pressionar esses caras para entender o que \u00e9 bom para eles\u2019.\u201d Beck prefere uma abordagem mais pragm\u00e1tica, concordando com uma \u201chip\u00f3tese de trabalho\u201d com seus clientes sobre qual \u00e9 o problema e como eles podem trat\u00e1-lo. Ele ent\u00e3o implementa uma s\u00e9rie de terapias, incluindo o que ele descreve como tratamentos de \u201cterceira onda\u201d, como terapia de aceita\u00e7\u00e3o e compromisso, cujo objetivo n\u00e3o \u00e9 combater os sintomas, mas \u201creceb\u00ea-los como convidados em sua vida\u201d. Essa abordagem, disse ele, frequentemente ajudava os clientes a transformar o que antes consideravam um problema em uma oportunidade de mudar o curso de suas vidas. Os clientes tendiam a responder rapidamente, acrescentou, por causa da intensidade do processo. Em um ambulat\u00f3rio, ele pode ver um paciente uma vez por semana. Na Paracelsus, ele atende um cliente todos os dias por 90 minutos e pode adaptar seus m\u00e9todos rapidamente. \u201cVemos mudan\u00e7as acontecendo em um m\u00eas ou dois que levariam um ano em outro formato de atendimento.\u201d<\/p>\n<p>Os clientes dividem-se basicamente em dois grupos: os que nasceram ricos e os que adquiriram riqueza depois de adultos. Os primeiros muitas vezes se sentem sem dire\u00e7\u00e3o, oprimidos pelo sucesso de seus pais e envergonhados pela facilidade de suas vidas. \u201cOs\u00a0<em>self-made guys<\/em>\u00a0s\u00e3o totalmente diferentes\u201d, disse Beck. \u201cN\u00e3o quer dizer que seja mais f\u00e1cil.\u201d Muitas vezes, sua \u00e9tica de trabalho era autodestrutiva e os levava a negligenciar a fam\u00edlia, os amigos e a pr\u00f3pria sa\u00fade. Mas tamb\u00e9m havia semelhan\u00e7as entre os dois grupos. Ambos pareciam sentir que algo estava faltando, uma \u201cquest\u00e3o de valor\u201d mais profunda, disse Beck, que se resumia a uma pergunta: \u201cO que eu vim fazer neste mundo?\u201d H\u00e1 uma aus\u00eancia de prop\u00f3sito, algo faltante ou perdido; um vasto vazio que jaz sob o dinheiro.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p>Na minha segunda noite em Zurique, Pawel Mowlik me contou sobre o momento em que sentiu o vazio. No ver\u00e3o de 2014, ele acordou na su\u00edte presidencial de um hotel em M\u00f4naco cercado por corpos nus de pessoas que n\u00e3o conhecia. Sua vida n\u00e3o tinha sentido, ele ent\u00e3o percebeu.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos em um de seus restaurantes favoritos em Zurique, um entre as centenas que ele frequentou em um \u00fanico ano, quando gastou mais de R$ 6 milh\u00f5es em refei\u00e7\u00f5es requintadas. Nascido em uma pequena cidade da Pol\u00f4nia, Mowlik tinha uma m\u00e3e disciplinadora e um pai infeliz. Depois que seus pais se divorciaram, ele come\u00e7ou a experimentar anfetaminas. Em sua lembran\u00e7a, certa vez ele ficou acordado por tr\u00eas dias, conversando com qualquer um que se aproximasse e quisesse ouvir. Largou a escola aos 15 anos e trabalhou como carregador de malas no Hotel Atlantic Kempinski em Hamburgo, onde seu charme se tornou t\u00e3o conhecido que foi destaque em uma revista local. (Ele mant\u00e9m uma fotografia do artigo em seu celular.) Enquanto estudava na escola de administra\u00e7\u00e3o de hot\u00e9is em Zurique, ele conheceu um gerente de fundos de\u00a0<em>hedge<\/em>\u00a0que lhe ofereceu um emprego de relacionamento com investidores no escrit\u00f3rio su\u00ed\u00e7o. Aos 24 anos, ele ganhou milh\u00f5es, mudou-se de Nova York para Londres (\u201cmeu auge\u201d) e festejou com for\u00e7a, como algu\u00e9m que veio do nada e ganhou tudo. Ele usava ternos Louis Vuitton e camisas Tom Ford e se tornou, como ele mesmo disse, \u201cum cara tipo James Bond\u201d. A coca\u00edna, a essa altura, para ele n\u00e3o era mais uma droga, mas uma necessidade funcional para tocar a vida.<\/p>\n<p>Quando Mowlik percebeu que estava perto da autodestrui\u00e7\u00e3o, ele buscou tratamento de reabilita\u00e7\u00e3o, primeiro na Fl\u00f3rida, depois seguidamente, v\u00e1rias vezes, at\u00e9 aterrissar na Paracelsus. Uma vez recuperado, ele se juntou \u00e0 equipe de Gerber. A paix\u00e3o de Mowlik era fazer amizade com os clientes, e muitas vezes viajava com eles para Proven\u00e7a, M\u00f4naco, Mil\u00e3o. Ele contava sua hist\u00f3ria e eles compartilhavam a deles. \u201c\u00c0s vezes \u00e9 engra\u00e7ado, \u00e0s vezes \u00e9 triste\u201d, disse ele, \u201cporque passei por muitas coisas tristes\u201d. Ele teve overdose, mais de uma vez. Sentiu que todas as suas amizades haviam sido compradas. \u201cToda a minha vida me senti meio solit\u00e1rio, embora conhe\u00e7a tantas pessoas\u201d, disse-me Mowlik. \u201cH\u00e1 uma diferen\u00e7a entre estar sozinho e a solid\u00e3o. Eu me sentia\u00a0<em>sozinho<\/em>, sem estar s\u00f3. E ainda me sinto.\u201d Ele parecia bastante tranquilo em rela\u00e7\u00e3o a esse fato, como se fosse simplesmente o pre\u00e7o de uma vida como a dele. \u201cN\u00e3o \u00e9 mais algo que me deixe triste, em compara\u00e7\u00e3o com a \u00e9poca em que eu precisava de drogas e \u00e1lcool para compensar. Eu apenas aceito.\u201d<\/p>\n<p>Ela aparece reiteradamente: a solid\u00e3o. Gerber esbo\u00e7ou um perfil t\u00edpico de um filho de bilion\u00e1rios, criado por uma bab\u00e1 cara, enviado para um col\u00e9gio interno de elite, e do qual se espera que ele saia para ingressar na empresa da fam\u00edlia ou pelo menos se conformar a um certo tipo de vida. Muitas vezes, n\u00e3o lhes \u00e9 permitido casar-se com quem queiram, pois os pais \u201cv\u00e3o querer se certificar de que n\u00e3o tragam ningu\u00e9m para casa, por quest\u00f5es de seguran\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Surpreendeu-me que as condi\u00e7\u00f5es da cl\u00ednica parecessem replicar a solid\u00e3o que havia definido a vida de muitos clientes: separados da comunidade, isolados a um alto custo e afligidos por um injustificado sentimento de serem pessoas muito especiais. Gerber sempre me dizia que era importante para a recupera\u00e7\u00e3o do cliente que o ambiente fosse familiar e no padr\u00e3o ao qual estavam acostumados. Mas, como me disse um ex-terapeuta residente em uma das cl\u00ednicas su\u00ed\u00e7as: \u201c\u00c9 uma b\u00ean\u00e7\u00e3o e uma maldi\u00e7\u00e3o. Essencialmente, estamos alimentando essa din\u00e2mica de que voc\u00ea \u00e9 a pessoa mais importante da sala.\u201d<\/p>\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p>Sinais preocupantes come\u00e7aram a surgir. No segundo dia no apartamento, reduzi radicalmente minha incans\u00e1vel gratid\u00e3o e me acostumei a ser escoltada por toda parte, tanto que, na \u00fanica vez em que tive que me virar sozinha, fiquei trancada do lado de fora e tive que ligar para uma enfermeira me deixar entrar, indefesa como uma crian\u00e7a.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio parecia alimentar tal irresponsabilidade pessoal. Frequentemente, disse-me Hammoud, os clientes n\u00e3o est\u00e3o acostumados a acordar cedo. \u201c\u00c0s vezes voc\u00ea n\u00e3o tem permiss\u00e3o para acord\u00e1-los\u201d, disse ele. \u201cEles te olham de cima a baixo e perguntam quem \u00e9 voc\u00ea para me acordar?\u201d Um cara era verbalmente abusivo com todos, contou Von Hohenzollern. Jogava o prato de comida no ch\u00e3o. \u201cN\u00f3s atendemos a cada uma de suas necessidades e desejos\u201d, disse o ex-terapeuta residente. \u201cEles n\u00e3o t\u00eam a experi\u00eancia de cair na realidade.\u201d Alguns nunca ouviram um \u201cn\u00e3o\u201d em suas vidas, disse Gerber. Mas ainda s\u00e3o pessoas com muita dor, ele enfatizou, possivelmente percebendo as ondas de julgamento que se evidenciavam em meu rosto.<\/p>\n<p>Danuta Siemek, a terapeuta residente, me disse que o princ\u00edpio de seu relacionamento com um cliente era trat\u00e1-lo com \u201cconsidera\u00e7\u00e3o positiva incondicional\u201d. Ela os aceita sem julgamento. Isso n\u00e3o quer dizer que um cliente nunca seja desafiado, mas \u201cquando os desafiamos demais\u201d, explicou Gerber, \u201cpodemos criar uma situa\u00e7\u00e3o de perde-perde. Eles fazem as malas e v\u00e3o embora.\u201d N\u00e3o \u00e9 incomum que o piloto do jato particular de um cliente fique instalado em um hotel pr\u00f3ximo de Zurique para que ele possa sair quando quiser. Naturalmente, \u00e9 melhor para o balan\u00e7o da cl\u00ednica se o cliente ficar.<\/p>\n<p>N\u00e3o que a reabilita\u00e7\u00e3o termine quando eles saem. Ap\u00f3s o per\u00edodo na Su\u00ed\u00e7a, o cliente voltar\u00e1 para casa, geralmente com o terapeuta residente a reboque, a um custo cont\u00ednuo aproximado de R$ 12.500 por dia. O programa de p\u00f3s-tratamento, de acordo com Paul Flynn em Londres, \u00e9 a chave para o modelo financeiro, sendo uma fonte de receita recorrente, ao inv\u00e9s da taxa \u00fanica de reabilita\u00e7\u00e3o. Recentemente, contou Gerber, um cliente levou um terapeuta de volta a Nova York, hospedou-o em um hotel por uma semana e n\u00e3o o viu nem uma \u00fanica vez: ele simplesmente gostava de saber que ele estava l\u00e1. \u201cTemos uma terapeuta na faixa dos 70 anos\u201d, acrescentou, \u201cque praticamente se mudou para a Ar\u00e1bia Saudita\u201d. Uma configura\u00e7\u00e3o, ao que parecia, um tanto em desacordo com a \u00eanfase t\u00edpica da psicoterapia na cria\u00e7\u00e3o de um relacionamento n\u00e3o dependente no qual o cliente adquire a autoconfian\u00e7a.<\/p>\n<p>Na maioria dos casos, no entanto, o terapeuta acabar\u00e1 saindo. A cl\u00ednica mant\u00e9m contato, mas no final das contas, como uma crian\u00e7a transitando para a idade adulta, o cliente deve aprender a se virar sozinho, com seus pr\u00f3prios motoristas, chefs, camareiras, terapeutas e psiquiatras.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p>Mais de uma vez, durante a visita \u00e0s luxuosas cl\u00ednicas de reabilita\u00e7\u00e3o de Zurique, ouvi dizer que o momento transformador da experi\u00eancia de um cliente, seu despertar espiritual, era uma ida ao supermercado. Em uma vers\u00e3o, um membro de uma fam\u00edlia real do Oriente M\u00e9dio foi filmado por seus filhos fazendo fila no caixa, exultantes com a experi\u00eancia de ter colocado coisas em sua cesta e depois pago por elas. Ele nunca tinha feito nada parecido antes. Em outro, um jovem cliente parado no corredor de iogurtes ficou completamente impressionado com a oferta de iogurtes, porque ele nunca antes tinha tido que ficar em um corredor de iogurtes e escolher.<\/p>\n<p>Eu me perguntei se, realmente, os clientes precisavam de uma equipe inteira de m\u00e9dicos para viver uma epifania no supermercado. E, no entanto, da maneira como a riqueza extrema parece transformar as pessoas em uma mistura problem\u00e1tica de solit\u00e1rios auto-isolados e crian\u00e7as indulgentes, talvez eles precisem. (Como disse o ex-terapeuta residente: \u201cO L\u00f3tus Branco realmente retrata com precis\u00e3o muitos dos problemas que vejo.\u201d)<\/p>\n<p>Thilo Beck descreveu os \u201cpequenos passos\u201d que costumava dar com os clientes, encorajando-os a \u201cencontrar novos amigos ou um grupo de amigos ou outros hobbies\u201d. \u00c9 muito dinheiro gasto, no entanto, para receber a recomenda\u00e7\u00e3o de participar de uma aula de desenho vivo. Os m\u00e9dicos, principalmente aqueles que trabalham com clientes de renda drasticamente baixa, n\u00e3o desconheciam a disparidade no atendimento. \u201cEu adoraria\u201d, disse Beck, \u201cpoder oferecer isso a todos\u201d. (Embora tal movimento pudesse desmantelar a alega\u00e7\u00e3o de exclusividade da cl\u00ednica.)<\/p>\n<p>\u201cComo economista experiente, sei que esta n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o\u201d, disse Gerber, que argumentou que o trabalho deles produz um efeito cascata. Ajude o cara no topo de uma grande empresa, ou o jovem de 20 e poucos anos com milh\u00f5es que nunca ganhou na conta do banco, e seus \u201cselfs\u201d transformados podem escolher ajudar seus funcion\u00e1rios, sua sociedade, o mundo. Como frequentemente acontece com essa ret\u00f3rica da cascata, ela parece expressar mais uma esperan\u00e7a do que uma realidade. Se a riqueza \u00e9 uma parte da pr\u00f3pria doen\u00e7a, n\u00e3o pude deixar de pensar que a tributa\u00e7\u00e3o agressiva talvez ofere\u00e7a um tipo diferente de cura.<\/p>\n<p>Para Mowlik, que deixou a Paracelsus logo ap\u00f3s minha visita, sua experi\u00eancia de co-dirigir uma cl\u00ednica de reabilita\u00e7\u00e3o se resumia a algumas verdades simples. \u201cAcredito honestamente que at\u00e9 a pessoa mais rica do mundo est\u00e1 procurando se conectar com as pessoas\u201d, disse-me. Quanto ao sucesso do tratamento, dependia inteiramente da determina\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio cliente. \u201cVoc\u00ea tem que estar disposto a mudar. Nenhum Bentley ou mans\u00e3o far\u00e1 a diferen\u00e7a.\u201d Ele passou a pensar que a abund\u00e2ncia de luxo \u2013 \u201ctoda essa merda, desculpe pelo meu\u00a0<em>franc\u00eas<\/em>\u201d \u2013 era simplesmente uma distra\u00e7\u00e3o. Estas cl\u00ednicas eram bolhas, insustent\u00e1veis \u200b\u200be fr\u00e1geis, \u201c\u00e9 por isso que muitos n\u00e3o encontram as respostas e acabam voltando para seus velhos estilos de vida t\u00f3xicos\u201d. Como sua pr\u00f3xima iniciativa, ele estava decidido a criar uma funda\u00e7\u00e3o de sa\u00fade mental sem fins lucrativos. Olhando para tr\u00e1s, Mowlik sentiu que o per\u00edodo mais aut\u00eantico de sua vida at\u00e9 agora foi quando trabalhou como carregador de malas em Hamburgo. Prop\u00f3sito, servi\u00e7o, conex\u00e3o humana: todas as li\u00e7\u00f5es de vida estavam l\u00e1.<\/p>\n<p>No final da segunda noite, me vi vagando sozinha pelo apartamento, \u00e0 deriva. Depois de dois dias tendo todas as necessidades antecipadas e todos os aspectos pr\u00e1ticos resolvidos, eu n\u00e3o tinha ideia do que fazer. Na pr\u00e1tica, era um luxo, eu sabia, n\u00e3o ter que cozinhar, limpar ou administrar as mundanidades da log\u00edstica, mas tamb\u00e9m tinha um efeito de esvaziamento distinto. Tudo que eu tinha para pensar era em mim mesma, uma condi\u00e7\u00e3o terr\u00edvel para se estar.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte, me despedi de Von Hohenzollern, que me deu alguns chocolates artesanais para levar para casa. Ele queria me mostrar onde comprar o almo\u00e7o, como chegar ao aeroporto, o melhor lugar para comer p\u00e3o em Zurique. N\u00e3o se preocupe, eu disse, vou dar um jeito. Eu estava desesperada para descobrir. Peguei meu casaco xexelento e corri para fora do pr\u00e9dio como se fugisse de um inc\u00eandio.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Onde os bilion\u00e1rios buscam consolo &#8211; Outras Palavras &#8211; https:\/\/outraspalavras.net\/desigualdades-mundo\/e-onde-bilionarios-buscam-consolo\/?utm_source=sendinblue&amp;utm_campaign=228%20-%20Ningum%20solta%20a%20mo%20de%20ningum&amp;utm_medium=email<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sophie Elmhirst &#8211; Visita, na Su\u00ed\u00e7a, \u00e0s cl\u00ednicas de reabilita\u00e7\u00e3o para super-ricos. Entediados e incapazes de conv\u00edvio social, eles exigem fausto e cuidado de uma multid\u00e3o de profissionais. Semana custa R$ 500 mil. Sob imensur\u00e1veis contas banc\u00e1rias, o abismo existencial. 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