{"id":1900,"date":"2016-10-21T12:56:42","date_gmt":"2016-10-21T14:56:42","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=1900"},"modified":"2016-10-20T17:59:20","modified_gmt":"2016-10-20T19:59:20","slug":"os-10-pontos-que-explicam-o-novo-sistema-mundial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/10\/21\/os-10-pontos-que-explicam-o-novo-sistema-mundial\/","title":{"rendered":"Os 10 pontos que explicam o Novo Sistema Mundial"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ignacio Ramonet<\/strong> &#8211; Precisamos tomar consci\u00eancia das r\u00e1pidas evolu\u00e7\u00f5es em curso e refletir sobre a possibilidade de que cada um de n\u00f3s pode intervir de alguma forma.<\/p>\n<p>Como \u00e9 o Novo Sistema Mundial? Quais s\u00e3o suas principais caracter\u00edsticas? Que din\u00e2micas est\u00e3o determinando o funcionamento real do nosso planeta? Que caracter\u00edsticas dominar\u00e3o os pr\u00f3ximos 15 anos, de aqui at\u00e9 2030?<\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">Para tentar descrever este Novo Sistema Mundial e prever seu futuro imediato, vamos a utilizar a b\u00fassola da geopol\u00edtica, uma disciplina que nos permite compreender o jogo das pot\u00eancias e avaliar os principais riscos e perigos. Para antecipar, como num tabuleiro de xadrez, os movimentos de cada potencial advers\u00e1rio.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">O que essa b\u00fassola nos diz?<\/span><\/p>\n<p><b>O decl\u00ednio do Ocidente<\/b><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">A principal constata\u00e7\u00e3o \u00e9 o decl\u00ednio do Ocidente. Pela primeira vez desde o S\u00e9culo XV, os pa\u00edses ocidentais est\u00e3o perdendo poderio diante da ascens\u00e3o das novas pot\u00eancias emergentes. Come\u00e7a a fase final de um ciclo de cinco s\u00e9culos de domina\u00e7\u00e3o ocidental do mundo. A lideran\u00e7a internacional dos Estados Unidos se v\u00ea amea\u00e7ado hoje pelo surgimento de novos polos de poder (China, R\u00fassia, \u00cdndia) a escala internacional. O \u201crebaixamento estrat\u00e9gico\u201d dos Estados Unidos j\u00e1 come\u00e7ou. O \u201cs\u00e9culo americano\u201d parece chegar ao fim, ao mesmo tempo em que vai se desvanecendo o \u201csonho europeu\u201d\u2026<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">Embora os Estados Unidos continuem sendo uma das principais pot\u00eancias planet\u00e1rias, est\u00e1 perdendo sua hegemonia econ\u00f4mica paulatinamente, com o crescimento da China, e j\u00e1 n\u00e3o exercer\u00e1 sua \u201chegemonia militar solit\u00e1ria\u201d como fez desde o fim da Guerra Fria. Caminhamos em dire\u00e7\u00e3o a um mundo multipolar, no qual os novos atores (China, R\u00fassia e \u00cdndia) t\u00eam voca\u00e7\u00e3o de constituir s\u00f3lidos polos regionais para disputar a supremacia internacional com Washington e seus aliados hist\u00f3ricos (Reino Unido, Fran\u00e7a, Alemanha, Jap\u00e3o).<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">Na terceira linha aparecem as pot\u00eancias intermedi\u00e1rias, com demografias em alta e fortes taxas de crescimento econ\u00f4mico, que podem se transformar tamb\u00e9m em polos hegem\u00f4nicos regionais, com talvez, se mantiverem essa tend\u00eancia nos pr\u00f3ximos quinze anos, em um grupo de influ\u00eancia planet\u00e1ria. S\u00e3o os casos de Indon\u00e9sia, Brasil, Vietn\u00e3, Turquia, Nig\u00e9ria e Eti\u00f3pia.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">Para se ter uma ideia da import\u00e2ncia e da rapidez da queda de prest\u00edgio do Ocidente, basta observar estas duas cifras: parte dos pa\u00edses ocidentais que hoje representam 56% da economia mundial ser\u00e3o apenas 25% em 2030 \u2013 em menos de quinze anos, o Ocidente perder\u00e1 mais da metade de sua preponder\u00e2ncia econ\u00f4mica. Uma das principais consequ\u00eancias disso \u00e9 que os Estados Unidos e seus aliados j\u00e1 n\u00e3o ter\u00e3o os meios financeiros para assumir o rol de guardi\u00e3es do mundo. Desse modo, esta mudan\u00e7a estrutural poderia debilitar o Ocidente de forma duradoura.<\/span><\/p>\n<p><b>O inabal\u00e1vel crescimento da China<\/b><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">O mundo se \u201cdesocidentaliza\u201d rapidamente, e \u00e9 cada vez mais multipolar. Nesse cen\u00e1rio, se destaca, uma vez mais, o papel da China, que emerge como a grande pot\u00eancia do S\u00e9culo XXI. Embora a China se encontre ainda longe de representar um aut\u00eantico rival para Washington, por enquanto. Em parte, a estabilidade do novo candidato a imp\u00e9rio n\u00e3o est\u00e1 garantida, porque coexistem em seu seio o capitalismo mais salvagem e o comunismo mais autorit\u00e1rio. A tens\u00e3o entre essas duas din\u00e2micas causar\u00e1, cedo ou tarde, uma quebra que poderia debilitar o seu poder.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">De qualquer forma, neste 2016, os Estados Unidos continuam exercendo uma indiscut\u00edvel domina\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica sobre o planeta. Tanto em termos de dom\u00ednio militar (fundamental) como em v\u00e1rios outros setores cada vez mais determinantes: em particular, o tecnol\u00f3gico (Internet) e o soft power (cultura de massas). O que n\u00e3o significa que a China n\u00e3o tenha realizado prodigiosos avan\u00e7os nos \u00faltimos trinta anos. Nunca na hist\u00f3ria, nenhum pa\u00eds cresceu tanto em t\u00e3o pouco tempo.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">Por enquanto, o poder dos Estados Unidos est\u00e1 em decl\u00ednio, e o da China em ascens\u00e3o inabal\u00e1vel. J\u00e1 \u00e9 a segunda pot\u00eancia econ\u00f4mica do mundo, superando o Jap\u00e3o e a Alemanha.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">Para Washington, a \u00c1sia \u00e9 agora uma zona priorit\u00e1ria, e o presidente Barack Obama decidiu reorientar a estrat\u00e9gia de sua pol\u00edtica exterior. Os Estados Unidos tenta frear a expans\u00e3o da China no continente, cercando-a com bases militares e se apoiando em seus s\u00f3cios locais tradicionais: Jap\u00e3o, Coreia do Sul, Taiwan, Filipinas. \u00c9 significativo que a primeira viagem de Barack Obama, depois de reeleito em 2012, tenha sido uma turn\u00ea por Birm\u00e2nia, Cambodja e Tail\u00e2ndia, tr\u00eas Estados da Associa\u00e7\u00e3o de Na\u00e7\u00f5es do Sudeste da \u00c1sia Sudeste (ASEAN, por sua sigla em ingl\u00eas), uma organiza\u00e7\u00e3o que re\u00fane os aliados de Washington na regi\u00e3o, a maioria deles com problemas de limites mar\u00edtimos com Pequim.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">Os mares da China se tornaram as zonas de maior potencial de conflito armado da \u00e1rea \u00c1sia-Pac\u00edfico. As maiores tens\u00f5es entre Pequim e T\u00f3quio t\u00eam a ver com a soberania das Ilhas Senkaku \u2013 Diaoy\u00fa para os chineses. Tamb\u00e9m h\u00e1 disputas com o Vietn\u00e3 e as Filipinas, sobre a propriedade das Ilhas Spratly, um conflito que vem crescendo gradualmente. A China est\u00e1 trabalhando para modernizar o arsenal de sua marinha. Em 2012, lan\u00e7ou seu primeiro porta-avi\u00f5es, o Liaoning, e est\u00e1 construindo um segundo, com a inten\u00e7\u00e3o de intimidar a Washington. Pequim suporta cada vez menos a presencia militar dos Estados Unidos na \u00c1sia. Entre estos dois gigantes, se est\u00e1 instalando uma perigosa \u201cdesconfian\u00e7a estrat\u00e9gica\u201d que, sem sombra de d\u00favidas, poderia marcar a pol\u00edtica internacional da regi\u00e3o daqui at\u00e9 2030.<\/span><\/p>\n<p><b>O terrorismo jihadista<\/b><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">Outra das amea\u00e7as globais que nossa b\u00fassola indica \u00e9 o terrorismo jihadista praticado pela Al Qaeda e pela organiza\u00e7\u00e3o Estado Isl\u00e2mico (ISIS, por sua sigla em ingl\u00eas). As principais causas desse terrorismo jihadista atual s\u00e3o os desastrosos erros e os crimes cometidos pelas pot\u00eancias ocidentais que invadiram o Iraque em 2003, al\u00e9m dos disparates nas interven\u00e7\u00f5es armadas na L\u00edbia (2011) e na S\u00edria (2014).<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">No Oriente M\u00e9dio continua sendo o foco de conflito mais perturbador do mundo. Particularmente, em torno da inexplic\u00e1vel guerra civil na S\u00edria. Est\u00e1 claro as grandes pot\u00eancias ocidentais (Estados Unidos, Reino Unido, Fran\u00e7a), aliadas aos Estados que mais difundem pelo mundo a concep\u00e7\u00e3o arcaica e retr\u00f3grada do Isl\u00e3 (Ar\u00e1bia Saudita, Qatar e Turquia), decidiram apoiar, com dinheiro, armas e instrutores, as mil\u00edcias insurgentes sunitas. Os Estados Unidos constituiu nessa regi\u00e3o um amplo \u201ceixo sunita\u201d, com o objetivo de derrubar Bashar al-Assad e despojar o Ir\u00e3 de um grande aliado regional. Mas o governo de Bashar al-Assad, com o apoio da R\u00fassia e do Ir\u00e3, vem resistindo, e continua se consolidando. O resultado de tantos erros \u00e9 o terrorismo jihadista atual que multiplica os atentados odiosos contra civis inocentes na Europa e nos Estados Unidos.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">Algumas capitais ocidentais continuam pensando que a pot\u00eancia militar massiva \u00e9 suficiente para conter o terrorismo. Por\u00e9m, na hist\u00f3ria militar, abundam os exemplos de grandes pot\u00eancias incapazes de derrotar advers\u00e1rios mais fracos. Basta recordar os fracassos norte-americanos no Vietn\u00e3, nos Anos 70, ou na Som\u00e1lia, nos Anos 90. Num combate assim\u00e9trico, aquele que pode mais, n\u00e3o necessariamente vence. O historiador Eric Hobsbawn recordava que \u201cna Irlanda do Norte, durante cerca de trinta anos, o poder brit\u00e2nico se mostrou incapaz de derrotar um ex\u00e9rcito t\u00e3o min\u00fasculo como o IRA, que certamente nunca esteve em vantagem no conflito, mas tampouco foi vencido\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">Os conflitos em que o mais forte enfrenta o mais fraco em terreno s\u00e3o f\u00e1ceis de iniciar, mas n\u00e3o de terminar. O uso massivo de meios militares pesados n\u00e3o significa necessariamente alcan\u00e7ar os objetivos buscados.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">A luta contra o terrorismo tamb\u00e9m est\u00e1 autorizando, em mat\u00e9ria de governa\u00e7\u00e3o e pol\u00edtica interior, todas as medidas autorit\u00e1rias e todos os excessos, inclusive uma vers\u00e3o moderna do \u201cautoritarismo democr\u00e1tico\u201d que tem como principal alvo n\u00e3o as organiza\u00e7\u00f5es terroristas em sia mas sim os grupos insubmissos e insurgentes que se op\u00f5em a las pol\u00edticas globalizadoras e neoliberais em certas regi\u00f5es do mundo. <\/span><\/p>\n<p><b>A crise ser\u00e1 longa\u2026<\/b><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">Outra constata\u00e7\u00e3o importante: os pa\u00edses ricos continuam padecendo pelas consequ\u00eancias do terremoto econ\u00f4mico-financeiro que foi crise de 2008. Pela primeira vez, a Uni\u00e3o Europeia v\u00ea sua coes\u00e3o e at\u00e9 a sua exist\u00eancia sob amea\u00e7a \u2013 situa\u00e7\u00e3o confirmada pelo \u201cbrexit\u201d. Na Europa, a crise econ\u00f4mica durar\u00e1 ao menos uma d\u00e9cada mais, ou seja, at\u00e9 pelo menos 2025\u2026<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">As crises, em qualquer setor, acontecem quando algum mecanismo deixa de atuar como o esperado, come\u00e7a a ceder, at\u00e9 que se quebra. Essa ruptura impede que o conjunto das m\u00e1quinas continue funcionando. \u00c9 o que est\u00e1 ocorrendo na economia mundial desde que estourou a crise do subprime, em 2007-2008.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">As repercuss\u00f5es sociais desse cataclismo econ\u00f4mico t\u00eam sido de uma brutalidade in\u00e9dita: 23 milh\u00f5es de desempregados na Uni\u00e3o Europeia e mais de 80 milh\u00f5es de pobres\u2026 Os jovens em particular s\u00e3o as v\u00edtimas principais; gera\u00e7\u00f5es sem futuro. Mas as classes m\u00e9dias tamb\u00e9m est\u00e3o assustadas, porque o modelo neoliberal de crescimento as abandona \u00e0 margem do caminho.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">A velocidade da economia e do mercado financeiro hoje \u00e9 como a de um rel\u00e2mpago, enquanto a velocidade da pol\u00edtica se parece \u00e0 de um caracol, para melhor compara\u00e7\u00e3o. \u00c9 cada vez mais dif\u00edcil conciliar tempo econ\u00f4mico e tempo politico. E tamb\u00e9m crises globais e governos nacionais. Tudo isso provoca nos cidad\u00e3os sentimentos de frustra\u00e7\u00e3o e ang\u00fastia.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">A crise global produz vencedores e perdedores. Os vencedores se encontram, essencialmente, na \u00c1sia e nos pa\u00edses emergentes, que n\u00e3o t\u00eam uma vis\u00e3o t\u00e3o pessimista da situa\u00e7\u00e3o como a dos europeus. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 muitos \u201cvencedores\u201d entre os pa\u00edses ocidentais, cujas sociedades se encontram fraturadas pelas desigualdades entre ricos cada vez mais ricos e pobres cada vez mais pobres.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">Na verdade, esses pa\u00edses n\u00e3o est\u00e3o suportando uma s\u00f3 crise, mas sim uma soma de crises mescladas t\u00e3o intimamente umas com as outras que n\u00e3o conseguimos distinguir entre causas e efeitos. Os efeitos de umas s\u00e3o as causas de outras, formando assim um verdadeiro sistema de crises. Ou seja, enfrentamos uma aut\u00eantica crise sist\u00eamica do mundo ocidental, que afeta a tecnologia, a economia, o com\u00e9rcio, a pol\u00edtica, a democracia, a identidade, a guerra, o clima, e meio ambiente, a cultura, os valores, a fam\u00edlia, a educa\u00e7\u00e3o, a juventude, etc.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">Do ponto de vista antropol\u00f3gico, estas crises est\u00e3o se traduzindo num aumento do medo e do ressentimento. As pessoas vivem em estado de ansiedade e de incerteza. Voltam a estar presentes os grandes p\u00e2nicos diante de amea\u00e7as indeterminadas, como a da perda do emprego, dos eletrochoques tecnol\u00f3gicos, das consequ\u00eancias da biotecnologia, das cat\u00e1strofes naturais, da inseguran\u00e7a generalizada\u2026 Tudo isso configura um desafio para as democracias. Porque esse terror se transforma \u00e0s vezes em \u00f3dio e em rep\u00fadio. Em v\u00e1rios pa\u00edses europeus, e tamb\u00e9m nos Estados Unidos, esse \u00f3dio se dirige hoje contra o estrangeiro, o imigrante, o refugiado, o diferente. A ojeriza contra os chamados \u201coutros\u201d (mu\u00e7ulmanos, latinos, ciganos, subsaarianos, indocumentados, etc) vem crescendo e fomentando os partidos xen\u00f3fobos e a extrema direita.<\/span><\/p>\n<p><b>Decep\u00e7\u00e3o e desencantamento<\/b><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">\u00c9 preciso entender que, desde a crise financeira de 2008 (da qual ainda n\u00e3o sa\u00edmos), j\u00e1 nada \u00e9 igual em nenhum lugar do mundo. Os cidad\u00e3os est\u00e3o profundamente desencantados. A pr\u00f3pria democracia como modelo vem perdendo sua credibilidade. Os sistemas pol\u00edticos foram sacudidos at\u00e9 as ra\u00edzes. Na Europa, por exemplo, os grandes partidos tradicionais est\u00e3o em crise. E em todos os lugares e poss\u00edvel perceber o avan\u00e7o das agrupa\u00e7\u00f5es de extrema direita (na Fran\u00e7a, na \u00c1ustria e nos pa\u00edses n\u00f3rdicos) ou de partidos antissistema e anticorrup\u00e7\u00e3o (na It\u00e1lia e na Espanha). A paisagem pol\u00edtica foi radicalmente transformada.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">Esse fen\u00f4meno chegou aos Estados Unidos, um pa\u00eds que j\u00e1 viveu uma onda populista devastadora, em 2010, protagonizada ent\u00e3o pelo chamado <\/span><i><span class=\"texto_detalhe\">Tea Party<\/span><\/i><span class=\"texto_detalhe\">. A candidatura do multimilion\u00e1rio Donald Trump para ocupar a Casa Branca prolonga aquela onda e configura uma revolu\u00e7\u00e3o eleitoral que nenhum analista poderia prever. Embora persista, em apar\u00eancia, a velha dicotomia entre democratas e republicanos, a ascens\u00e3o de um candidato t\u00e3o heterodoxo como Trump constitui um verdadeiro sismo. Seu estilo direto, bonach\u00e3o, seu discurso maquiado e reducionista, apelando aos baixos instintos de certos setores da sociedade, deram a ele um car\u00e1ter de autenticidade aos olhos dos mais decepcionado eleitores da direita.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">Vencedor das prim\u00e1rias do Partido Republicano, Trump soube interpretar o que poder\u00edamos chamar de \u201crebeli\u00e3o das bases\u201d. Melhor que ningu\u00e9m, ele percebeu que, por um lado, existe a fratura cada vez mais ampla entre as elites pol\u00edticas, econ\u00f4micas, intelectuais e midi\u00e1ticas, e por outro, uma quebra na base do eleitorado conservador. Seu discurso violentamente cr\u00edtico \u00e0 burocracia de Washington, aos meios de comunica\u00e7\u00e3o e a Wall Street seduz particularmente os eleitores brancos, pouco cultos e empobrecidos pelos efeitos da globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica.<\/span><\/p>\n<p><b>Sismos e mais sismos<\/b><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">Neste sentido, poder\u00edamos dizer que outra grande caracter\u00edstica do Novo Sistema Mundial s\u00e3o os sismos. Sismos financeiros e monet\u00e1rios, sismos clim\u00e1ticos, sismos energ\u00e9ticos, sismos tecnol\u00f3gicos, sismos sociais, sismos geopol\u00edticos \u2013 como o restabelecimento de rela\u00e7\u00f5es entre Cuba e Estados Unidos, ou, em outro sentido, o recente golpe de Estado institucional no Brasil, contra a presidenta Dilma Rousseff. Sem esquecer dos sismos eleitorais, como a vit\u00f3ria do \u201cN\u00e3o\u201d aos acordos de paz no plebiscito realizado na Col\u00f4mbia, al\u00e9m do \u201cbrexit\u201d no Reino Unido, ou o sucesso da extrema direita na \u00c1ustria, ou a derrota de Angela Merkel em v\u00e1rias elei\u00e7\u00f5es parciais na Alemanha. Ou o enorme sismo eleitoral que poderia constituir efetivamente a eventual vit\u00f3ria de Donald Trump nos Estados Unidos, em novembro.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">Acontecimentos imprevistos que surgem com for\u00e7a, sem que ningu\u00e9m, ou quase ningu\u00e9m, possa se prevenir. H\u00e1 uma falta de visibilidade geral. Se governar \u00e9 prever, vivemos uma evidente crise de governan\u00e7a geral. Em muitos pa\u00edses, o Estado que protegia os cidad\u00e3os deixou de existir. H\u00e1 uma crise da democracia representativa: \u201cn\u00e3o nos representam!\u201d, diziam os \u201cindignados\u201d. As pessoas reclamam que a autoridade pol\u00edtica volte a assumir o seu papel de condutor da sociedade. Se insiste na necessidade de reinventar a pol\u00edtica e de fazer o poder pol\u00edtico entender que precisa colocar freios ao poder econ\u00f4mico e financeiro dos mercados.<\/span><\/p>\n<p><b>Internet, a ciberespionagem e a ciberdefesa<\/b><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">O Novo Sistema Mundial tamb\u00e9m se caracteriza pela multiplicidade de rupturas estrat\u00e9gicas cujo significado \u00e0s vezes n\u00e3o compreendemos. Hoje, a Internet \u00e9 o vetor da maioria das mudan\u00e7as. Quase todas as crises recentes t\u00eam alguma rela\u00e7\u00e3o com as novas tecnologias da comunica\u00e7\u00e3o e da informa\u00e7\u00e3o, com a desmaterializa\u00e7\u00e3o e a digitaliza\u00e7\u00e3o generalizadas e com a propaga\u00e7\u00e3o das redes sociais. Mais que uma tecnologia, a Internet \u00e9 um ator fundamental das crises. Basta recordar o rol cumprido por WikiLeaks, Facebook, Twitter e as demais redes sociais na acelera\u00e7\u00e3o da difus\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o, e tamb\u00e9m na conectividade social atrav\u00e9s do mundo.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">At\u00e9 2030, no Novo Sistema Mundial, algumas das maiores coletividades do planeta j\u00e1 n\u00e3o ser\u00e3o pa\u00edses e sim comunidades congregadas e vinculadas entre si pela Internet e pelas redes sociais. Por exemplo, \u201cFacebookl\u00e2ndia\u201d, com mais de um bilh\u00e3o de usu\u00e1rios, ou \u201cTwitterl\u00e2ndia\u201d, com mais 800 milh\u00f5es. Espa\u00e7os cuja influ\u00eancia no jogo de tronos da geopol\u00edtica mundial, poderia ser decisiva. Hoje, as estruturas de poder se mostram cada vez mais obsoletas aos olhos de um p\u00fablico com acesso \u00e0s novas redes e ferramentas digitais.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">Por outro lado, a estreita cumplicidade entre algumas grandes pot\u00eancias e as grandes empresas privadas que dominam as ind\u00fastrias da inform\u00e1tica e das telecomunica\u00e7\u00f5es, a capacidade em mat\u00e9ria de espionagem de massas cresce tamb\u00e9m de forma exponencial. As megaempresas, como Google, Apple, Microsoft, Amazon e Facebook estabeleceram estreitos la\u00e7os com o aparato do Estado em Washington, especialmente com os respons\u00e1veis pela pol\u00edtica exterior. Essa rela\u00e7\u00e3o se tornou evidente. Compartilham as mesmas ideias pol\u00edticas e id\u00eantica vis\u00e3o do mundo. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, esses estreitos v\u00ednculos e a vis\u00e3o comum do mundo, por exemplo, entre a Google e a administra\u00e7\u00e3o estadunidense, est\u00e3o a servi\u00e7o dos objetivos da pol\u00edtica exterior dos Estados Unidos.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">Se trata de uma alian\u00e7a sem precedentes: Estado, aparato militar de seguran\u00e7a e ind\u00fastrias gigantes da web. Criaram um verdadeiro imp\u00e9rio da vigil\u00e2ncia, cujo objetivo claro e concreto \u00e9 manter a Internet sob constante observa\u00e7\u00e3o, toda a Internet e todos os internautas, como foi denunciado por Julian Assange e Edward Snowden.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">O ciberespa\u00e7o se transformou numa esp\u00e9cie de quinto elemento. O fil\u00f3sofo grego Emp\u00e9docles sustentava que nosso mundo estava formado por uma combina\u00e7\u00e3o de quatro elementos: terra, ar, \u00e1gua e fogo. Por\u00e9m, o surgimento da Internet, com seu misterioso \u201cinterespa\u00e7o\u201d superposto ao nosso, formado por bilh\u00f5es e bilh\u00f5es de interc\u00e2mbios digitais de todo tipo, por seu roaming, seu streaming e seu clouding, engendrou um novo universo, de certo modo qu\u00e2ntico, que completa a realidade do nosso mundo contempor\u00e2neo como se fosse um aut\u00eantico quinto elemento.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">Neste sentido, \u00e9 preciso destacar que cada um dos quatro elementos tradicionais constitui, historicamente, um campo de batalha, um lugar de confronta\u00e7\u00e3o. E que os Estados vem tendo que desenvolver componentes espec\u00edficos das for\u00e7as armadas para cada um destes elementos: para a terra, o ex\u00e9rcito de terra; para o ar, o ex\u00e9rcito do ar (aeron\u00e1utica); para a \u00e1gua, o ex\u00e9rcito da \u00e1gua (marinha); e, num car\u00e1cter mais singular para o fogo, os \u201cguerreiros do fogo\u201d (bombeiros). De forma natural, como aconteceu com a cria\u00e7\u00e3o da avia\u00e7\u00e3o militar \u2013 entre 1914 e 1918 \u2013, todas as grandes pot\u00eancias est\u00e3o conformando hoje, juntos com os ex\u00e9rcitos tradicionais e os combatentes do fogo, um novo ex\u00e9rcito cujo ecossistema \u00e9 o quinto elemento: o ciberex\u00e9rcito, encarregado da ciberdefensa, que tem suas pr\u00f3prias estruturas org\u00e2nicas, seu Estado maior, seus cibersoldados e suas pr\u00f3prias armas: supercomputadores preparados para defender as ciberfronteiras e enfrentar a ciberguerra digital, no \u00e2mbito da Internet.<\/span><\/p>\n<p><b>Uma muta\u00e7\u00e3o do capitalismo: a economia colaborativa<\/b><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">Trinta anos depois da expans\u00e3o massiva da web, os h\u00e1bitos de consumo tamb\u00e9m est\u00e3o mudando. Pouco a pouco, est\u00e1 se impondo a ideia de que a op\u00e7\u00e3o mais inteligente hoje \u00e9 a de usar algo em comum, e n\u00e3o necessariamente compr\u00e1-la. Isso significa abandonar aos poucos uma economia baseada na submiss\u00e3o dos consumidores e no antagonismo ou na competi\u00e7\u00e3o entre os produtores, e passar a uma economia que estimula a colabora\u00e7\u00e3o e o interc\u00e2mbio entre os usu\u00e1rios de um bem ou um servi\u00e7o. Tudo isto planteia uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o no seio do capitalismo, que est\u00e1 bem diante dos nossos narizes, uma nova muta\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">\u00c9 um movimento irresist\u00edvel. Milhares de plataformas digitais de interc\u00e2mbio de produtos e servi\u00e7os est\u00e3o se expandindo a toda velocidade. A quantidade de bens e servi\u00e7os que podem ser alugados ou intercambiados atrav\u00e9s de plataformas online, sejam elas pagas ou gratuitas, j\u00e1 \u00e9 literalmente infinita.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">A n\u00edvel planet\u00e1rio, esta economia colaborativa cresce atualmente entre 15% e 17% ao ano. Com alguns exemplos de crescimento absolutamente espetaculares. Um exemplo conhecido \u00e9 o Uber, a aplica\u00e7\u00e3o digital que conecta passageiros e motoristas, que tem somente cinco anos de exist\u00eancia e j\u00e1 vale 68 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, e opera em 132 pa\u00edses. Por sua parte, Airbnb, a plataforma online de alojamentos para particulares, surgida em 2008, j\u00e1 encontrou camas para mais de 40 milh\u00f5es de viajantes, e vale hoje mais de 30 bilh\u00f5es de d\u00f3lares \u2013 significa que, sem ser propriet\u00e1ria habita\u00e7\u00e3o nenhuma, a empresa j\u00e1 vale mais que os grandes grupos Hilton, Marriott ou Hyatt.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">Outro aspecto fundamental que est\u00e1 mudando \u2013 e que foi nada menos que a base da sociedade de consumo \u2013, \u00e9 o sentido da propriedade, o desejo de possess\u00e3o. Adquirir, comprar, ter, possuir eram os verbos que melhor traduziam a ambi\u00e7\u00e3o essencial de uma \u00e9poca na qual o ter definia o ser. Acumular \u201ccoisas\u201d (casas, carros, geladeiras, televisores, m\u00f3veis, roupa, rel\u00f3gios, livros, quadros, telefones, etc) constitu\u00eda, para muitas pessoas a principal raz\u00e3o da exist\u00eancia. Parecia que, desde o in\u00edcio dos tempos, o sentido materialista de posse era inerente ao ser humano.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">A economia colaborativa constitui um modelo econ\u00f4mico baseado no interc\u00e2mbio e na comunh\u00e3o de bens e servi\u00e7os, mediante o uso de plataformas digitais. Se inspira nas utopias do compartilhamento e em valores n\u00e3o mercantis, como a ajuda m\u00fatua ou a convivialidade, e tamb\u00e9m no esp\u00edrito de gratuidade, mito fundador da Internet. Sua ideia principal \u00e9: \u201co que \u00e9 meu \u00e9 seu\u201d, ou seja compartilhar em vez de possuir. O conceito b\u00e1sico \u00e9 a troca. Se trata de conectar, por via digital, aqueles que buscam \u201calgo\u201d com aqueles que oferecem esse algo. As empresas mais conhecidas desse setor s\u00e3o Uber, Airbnb, Netflix, Blabacar, etc.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">Muitos ind\u00edcios nos levam a pensar que estamos assistindo o ocaso da segunda revolu\u00e7\u00e3o industrial, baseada no uso massivo de energias f\u00f3sseis e em telecomunica\u00e7\u00f5es centralizadas. Assistimos o surgimento de uma economia colaborativa que obriga o sistema capitalista a mutar.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">Por outra parte, num contexto em que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas se tornam a principal amea\u00e7a \u00e0 sobreviv\u00eancia da humanidade, os cidad\u00e3os n\u00e3o desconhecem os perigos ecol\u00f3gicos inerentes ao modelo de hiperprodu\u00e7\u00e3o e de hiperconsumo globalizado. Tamb\u00e9m nesse sentido, a economia colaborativa oferece solu\u00e7\u00f5es menos agressivas para o planeta.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">Num momento como o atual, de forte desconfian\u00e7a sobre o modelo neoliberal e as elites pol\u00edtica, financeira, midi\u00e1tica e banc\u00e1ria, a economia colaborativa parece entregar respostas a muitos cidad\u00e3os em busca de sentido e de \u00e9tica respons\u00e1vel. Exalta valores de ajuda m\u00fatua e boa vontade para dividir recursos, crit\u00e9rios que, em outros momentos, foram a argamassa das teorias comunit\u00e1rias e de ambi\u00e7\u00f5es socialistas. Por\u00e9m, que ningu\u00e9m se equivoque, pois hoje elas s\u00e3o o roto de um capitalismo mutante, que deseja se afastar da selvageria do impiedoso per\u00edodo ultraliberal.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">Nossa b\u00fassola tamb\u00e9m nos mostra como a apari\u00e7\u00e3o de tens\u00f5es entre os cidad\u00e3os e alguns governos, em din\u00e2micas que v\u00e1rios soci\u00f3logos qualificam como \u201cp\u00f3s-pol\u00edticas\u201d ou \u201cp\u00f3s-democr\u00e1ticas\u201d\u2026 Por um lado, a generaliza\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 Internet e a universaliza\u00e7\u00e3o do uso das novas tecnologias permitem \u00e0 cidadania alcan\u00e7ar altas quotas de liberdade e desafiar os representantes pol\u00edticos (como durante a crise dos \u201cindignados\u201d). Ao mesmo tempo, essas mesmas ferramentas eletr\u00f4nicas proporcionam aos governos, como j\u00e1 foi dito acima, uma capacidade sem precedentes para vigiar os seus cidad\u00e3os.<\/span><\/p>\n<p><b>Amea\u00e7as n\u00e3o militares<\/b><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">\u201cA tecnologia \u2013 como analisa um relat\u00f3rio recente da CIA \u2013 continuar\u00e1 sendo o grande nivelador, e os futuros magnatas da Internet, como poderia ser o caso dos donos de Google e Facebook, possuem montanhas inteiras de bases de dados, e manejam muito mais informa\u00e7\u00f5es que qualquer governo, e em tempo real\u201d. Por isso, a CIA recomenda \u00e0 administra\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos que fa\u00e7a frente a essa amea\u00e7a eventual das grandes corpora\u00e7\u00f5es de Internet, ativando o Special Collection Service, um servi\u00e7o de intelig\u00eancia ultrassecreto, administrado conjuntamente pela NSA (sigla em ingl\u00eas da Ag\u00eancia Nacional de Seguran\u00e7a) e pelo SCE (Servi\u00e7o de Elementos Criptol\u00f3gicos) das For\u00e7as Armadas, especializado na capta\u00e7\u00e3o clandestina de informa\u00e7\u00f5es de origem electromagn\u00e9tica. O perigo de que um grupo de empresas privadas controle toda essa massa de dados reside, principalmente, em que poderia condicionar o comportamento da popula\u00e7\u00e3o mundial em grande escala, e que inclusive das entidades governamentais. Tamb\u00e9m se teme que o terrorismo jihadista seja substitu\u00eddo por um ciberterrorismo ainda mais poderoso.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">A CIA toma t\u00e3o em s\u00e9rio este novo tipo de amea\u00e7a que considera que, finalmente, o decl\u00ednio dos Estados Unidos n\u00e3o foi provocado por uma causa exterior, mas sim por uma crise interna: a quebra econ\u00f4mica a partir dos anos de 2007 e 2008. O informe insiste em dizer que a geopol\u00edtica de hoje deve se interessar por novos fen\u00f4menos que n\u00e3o possuem necessariamente um car\u00e1cter militar. As amea\u00e7as militares n\u00e3o desapareceram, mas alguns dos perigos mais importantes rondam as nossas sociedades hoje s\u00e3o de ordem n\u00e3o militar: crise clim\u00e1tica, muta\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, conflitos econ\u00f4micos, crime organizado, guerras eletr\u00f4nicas, esgotamento dos recursos naturais\u2026<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">Sobre este \u00faltimo aspecto, \u00e9 importante saber que um dos recursos que est\u00e1 se esgotando mais aceleradamente \u00e9 a \u00e1gua doce. Em 2030, 60% da popula\u00e7\u00e3o mundial ter\u00e1 problemas de abastecimento de \u00e1gua, dando lugar ao surgimento de \u201cconflitos h\u00eddricos\u201d. Com respeito ao petr\u00f3leo e o g\u00e1s natural, gra\u00e7as \u00e0s novas t\u00e9cnicas de fratura\u00e7\u00e3o hidr\u00e1ulica, a explora\u00e7\u00e3o dessas mat\u00e9rias-primas energ\u00e9ticas est\u00e1 alcan\u00e7ando n\u00edveis excepcionais. Os Estados Unidos j\u00e1 s\u00e3o quase autossuficientes em g\u00e1s, e em 2030 poderia ser tamb\u00e9m autossuficiente em petr\u00f3leo, o que tende a abaratar seus custos de produ\u00e7\u00e3o de manufaturas, impulsar a relocaliza\u00e7\u00e3o de suas ind\u00fastrias. Mas se os Estados Unidos \u2013 principal importador atual de hidrocarburetos \u2013 deixa de importar petr\u00f3leo, podemos prever ent\u00e3o uma queda no pre\u00e7o do barril. Quais ser\u00e3o as consequ\u00eancias disso para os grandes pa\u00edses exportadores?<\/span><\/p>\n<p><b>O triunfo das cidades e das classes m\u00e9dias<\/b><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">No mundo para o qual caminhamos, 60% das pessoas viver\u00e3o nas grandes cidades, algo in\u00e9dito na hist\u00f3ria da humanidade. As consequ\u00eancias da redu\u00e7\u00e3o acelerada da pobreza, as classes m\u00e9dias ser\u00e3o dominantes e triplicar\u00e3o de tamanho, passando de um bilh\u00e3o a tr\u00eas bilh\u00f5es de pessoas. Isto em si j\u00e1 seria uma revolu\u00e7\u00e3o colossal, e deixar\u00e1 como sequela, entre outros efeitos, uma mudan\u00e7a geral nos h\u00e1bitos culin\u00e1rios e, em particular, um aumento do consumo de carne a escala planet\u00e1ria, o que agravar\u00e1 a crise meio ambiental.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">Em 2030, seremos 8,5 bilh\u00f5es de habitantes no planeta, mas o aumento demogr\u00e1fico cessar\u00e1 em todos os continentes, menos na \u00c1frica, com o conseguinte envelhecimento geral da popula\u00e7\u00e3o mundial. O v\u00ednculo entre o ser humano e as tecnologias prot\u00e9sicas estimular\u00e1 a inven\u00e7\u00e3o de novas gera\u00e7\u00f5es de rob\u00f4s e a apari\u00e7\u00e3o de \u201csuper homens\u201d, capazes de proezas f\u00edsicas e intelectuais in\u00e9ditas.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"texto_detalhe\">O futuro \u00e9 muito poucas vezes previs\u00edvel. Por isso, \u00e9 preciso deixar de imagin\u00e1-lo em termos de prospectiva. Devemos nos preparar para atuar em diferentes circunst\u00e2ncias poss\u00edveis, das quais somente uma se tornar\u00e1 realidade. A geopol\u00edtica \u00e9 uma ferramenta extremamente \u00fatil. Nos ajuda a tomar consci\u00eancia das r\u00e1pidas evolu\u00e7\u00f5es em curso e a refletir sobre a possibilidade de que cada um de n\u00f3s pode intervir de alguma forma, e propor um rumo. Para se tentar construir um futuro mais justo, mais ecol\u00f3gico, menos desigual e mais solid\u00e1rio.<\/span><\/p>\n<p>http:\/\/cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Internacional\/Os-10-pontos-que-explicam-o-Novo-Sistema-Mundial\/6\/36951<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ignacio Ramonet &#8211; Precisamos tomar consci\u00eancia das r\u00e1pidas evolu\u00e7\u00f5es em curso e refletir sobre a possibilidade de que cada um de n\u00f3s pode intervir de alguma forma. Como \u00e9 o Novo Sistema Mundial? Quais s\u00e3o suas principais caracter\u00edsticas? 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