{"id":18945,"date":"2023-02-18T12:52:28","date_gmt":"2023-02-18T15:52:28","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18945"},"modified":"2023-02-15T20:54:04","modified_gmt":"2023-02-15T23:54:04","slug":"obra-de-caio-prado-junior-nasce-da-rebeldia-moral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/02\/18\/obra-de-caio-prado-junior-nasce-da-rebeldia-moral\/","title":{"rendered":"Obra de Caio Prado J\u00fanior nasce da rebeldia moral"},"content":{"rendered":"<div id=\"__reading__mode__header__container\" class=\"header_container\">\n<div id=\"header_content_id\" class=\"header_content\">\n<p id=\"mainContentTitle\" class=\"__reading__mode__extracted__title c0011\"><strong>Florestan Fernandes &#8211;\u00a0<\/strong><span style=\"font-size: 16px;\">N\u00e3o carecemos de estar de acordo com ele em tudo para real\u00e7ar o seu perfil marxista. Basta que enxerguemos a sua coragem de enfrentar sozinho os riscos de errar e a repress\u00e3o pol\u00edtica brutal, para admir\u00e1-lo ainda mais dentro e acima de sua produ\u00e7\u00e3o como historiador, ge\u00f3grafo, economista, cultor da l\u00f3gica e da teoria da ci\u00eancia, homem de a\u00e7\u00e3o e pol\u00edtico representativo.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"__reading__mode__mainbody__id\" class=\"__reading__mode__mainbody\">\n<div id=\"mainContainer\" class=\"__reading__mode__extracted__article__body\">\n<article id=\"post-31118\" class=\"post-31118 post type-post status-publish format-standard has-post-thumbnail hentry category-colunas tag-armas-da-critica tag-caio-prado-junior tag-caio-prado-jr tag-destaque tag-florestan-fernandes tag-historia-e-desenvolvimento\">\n<div class=\"entry clearfix\">\n<p class=\"has-text-align-justify has-normal-font-size\">O maior enigma posto por Caio Prado J\u00fanior, como pessoa, cidad\u00e3o e pensador, \u00e9 sua ruptura radical com a ordem social existente. Tomo a palavra no seu sentido etimol\u00f3gico, salientado por Marx ao afirmar que ser radical \u00e9 ir \u00e0 raiz das coisas. Lamento o tempo perdido. Nunca lhe perguntei nada sobre sua ruptura total com sua classe; e os escritos iluminam esse per\u00edodo vital, de 1924 a 1928 e de 1924 a 1931. O que se passou na evolu\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia social cr\u00edtica, que o guiou por transforma\u00e7\u00f5es t\u00e3o aceleradas e profundas?<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify has-normal-font-size\">Havia efervesc\u00eancia intelectual e pol\u00edtica na cidade de S\u00e3o Paulo. Os fatos s\u00e3o conhecidos. E S\u00e3o Paulo, como a \u00fanica cidade tipicamente burguesa do Brasil, tocava as mentes dos seres sens\u00edveis, conduzia os oper\u00e1rios \u00e0 inquieta\u00e7\u00e3o a uma atitude de quase repugn\u00e2ncia diante de um quadro doloroso de mis\u00e9ria, explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o. Ele n\u00e3o foi \u00fanico na rebeldia. Oswald de Andrade, Pagu e outros modernistas ergueram a bandeira da antropofagia e do inconformismo pol\u00edtico como uma condena\u00e7\u00e3o sarc\u00e1stica e simb\u00f3lica \u00e0s omiss\u00f5es imperantes. Todavia, ningu\u00e9m sa\u00eddo das elites revela id\u00eantica tenacidade, congru\u00eancia e disposi\u00e7\u00e3o de ir at\u00e9 o fim, \u00e0s ra\u00edzes das coisas.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify has-normal-font-size\">O modernismo s\u00f3 explica uma tend\u00eancia \u00e0 renova\u00e7\u00e3o, \u00e0s vezes temperada (ou destemperada) com oscilantes manifesta\u00e7\u00f5es de iconoclastia. Caio Prado J\u00fanior ostenta uma acelera\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, que percorre uma passagem r\u00e1pida do radicalismo democr\u00e1tico-burgu\u00eas para a oposi\u00e7\u00e3o intransigente prolet\u00e1rio-comunista. Mantendo-se na mesma posi\u00e7\u00e3o de classe, inverteu as baterias e de seu combate e tornou-se um militante, um pol\u00edtico de proa (em 1935 j\u00e1 era vice-presidente da Alian\u00e7a Nacional Libertadora) e, reiterando a troca de identidade, em 1947 tornou-se deputado por S\u00e3o Paulo (ali\u00e1s, um deputado inovador e exemplar).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify has-normal-font-size\">\u00c9 \u00f3bvio que a ruptura pol\u00edtica respondia \u00e0s frustra\u00e7\u00f5es provocadas pelo destino do Partido Democr\u00e1tico e pela trai\u00e7\u00e3o dos \u201crevolucion\u00e1rios\u201d de 1930 aos ideais de subvers\u00e3o da ordem. Por\u00e9m havia outra ruptura paralela, de natureza moral: n\u00e3o a substitui\u00e7\u00e3o de \u201cmores\u201d, mas a ressocializa\u00e7\u00e3o da pessoa dentro de \u201cmores\u201d antag\u00f4nicos. A passagem envolvia um renascimento para a vida, do qual brotou e cresceu um comunista confiante na op\u00e7\u00e3o na qual jogara tudo, desde a lealdade de classe at\u00e9 a rela\u00e7\u00e3o intelectual com o mundo e o comportamento pol\u00edtico.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify has-normal-font-size\">Os cinco anos de faculdade de direito tamb\u00e9m n\u00e3o explicam uma evolu\u00e7\u00e3o que converte o radicalismo intelectual em transgress\u00e3o. A institui\u00e7\u00e3o-chave na sele\u00e7\u00e3o e prepara\u00e7\u00e3o dos guardi\u00f5es civis da ordem sempre alimenta o aparecimento de um pugilo de filhos pr\u00f3digos, que submergem na contesta\u00e7\u00e3o aos costumes, ao conservadorismo cultural e ao reacionarismo pol\u00edtico; e depois renascem como F\u00eanix, para resguardar a austeridade dos costumes e a lei como a \u201c\u00faltima ratio\u201d da defesa da ordem. O certo \u00e9 que Caio Prado J\u00fanior n\u00e3o poderia escapar desse lapso de liberdade tolerada. E conv\u00e9m reconhecer que, enquanto ela dura, essa liberdade \u00e9 seminal. Ela sulca a imagina\u00e7\u00e3o, forjando uma insurg\u00eancia compensat\u00f3ria de curta dura\u00e7\u00e3o. Contudo, ela \u00e9 criadora e deixa cicatrizes. Estimula muitas leituras e excurs\u00f5es proibidas ou demolidoras: ainda agora os bachar\u00e9is contam entre os universit\u00e1rios que mais leem, dentro de um campo de irradia\u00e7\u00e3o muito vasto.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify has-normal-font-size\">Portanto, suponho que o modernismo e a atividade estudantil tiveram o seu peso. Mas este n\u00e3o parece decisivo. Diria que contaram como refor\u00e7o psicol\u00f3gico \u00e0 predisposi\u00e7\u00e3o arraigadamente orientada para o inconformismo moral (ali\u00e1s, o ano de 1920, passado no Chelmsford Hall, na Inglaterra, possui o mesmo significado, pelo avesso: como demonstra\u00e7\u00e3o do que \u00e9 uma sociedade civil civilizada).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify has-normal-font-size\">Se a proposi\u00e7\u00e3o do enigma est\u00e1 correta, a resposta procede de uma ruptura moral interior. N\u00f3s, no interior do marxismo, sentimos alguma dificuldade em aceitar uma explica\u00e7\u00e3o fundada exclusiva ou predominantemente em uma ruptura moral. Parece que resvalamos para uma centralidade idealista, que coloca no mesmo n\u00edvel diversas rupturas convergentes (ideol\u00f3gicas, sociais, pol\u00edticas etc.). Todavia, h\u00e1 um momento de crise da personalidade no qual o desabamento de estruturas mentais se conjuga \u00e0 busca de outros conte\u00fados, com uma reorganiza\u00e7\u00e3o completa de suas bases perspectivas e cognitivas. As tentativas de uma revolu\u00e7\u00e3o dentro de linhas radicais (a participa\u00e7\u00e3o do PD e as expectativas relacionadas com a \u201cevolu\u00e7\u00e3o liberal\u201d) precipitaram o processo psicol\u00f3gico e pol\u00edtico em outra dire\u00e7\u00e3o, mais congruente, desvendada pelo Partido Comunista do Brasil.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify has-normal-font-size\">Esse \u00e9 o significado de uma ruptura plena, pois ela n\u00e3o se confia a certos fins circunscritos; desencadeia-se e prossegue\u2026 O paradigma \u00e9 fornecido por Gandhi (mas pode ser inferido de altera\u00e7\u00f5es similares, experimentadas por revolucion\u00e1rios marxistas, como\u00a0<a href=\"https:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/produto\/combo-arsenal-lenin-1142\" rel=\"noreferrer noopener\">L\u00eanin<\/a>\u00a0ou Tr\u00f3tski, situados nos limites de sua posi\u00e7\u00e3o de classe de origem). A vantagem desta interpreta\u00e7\u00e3o est\u00e1 em que ela permite entender as raz\u00f5es da consist\u00eancia de Caio Prado J\u00fanior, quando confrontado pelo partido (na desobedi\u00eancia ao pragmatismo da disciplina e da hierarquia e, mesmo, no conflito com as concep\u00e7\u00f5es nucleares extramarxistas de ess\u00eancia e dos rumos da revolu\u00e7\u00e3o socialista).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify has-normal-font-size\">Portanto, n\u00e3o existe uma liga\u00e7\u00e3o \u201cmec\u00e2nica\u201d entre as decep\u00e7\u00f5es e a reorienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, o entusiasmo militante inicial e a publica\u00e7\u00e3o em 1933 (aos 26 anos de idade) do seu livro mais vibrante e, ao mesmo tempo, o que reclama explicitamente o seu car\u00e1ter marxista:\u00a0<em>A evolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do Brasil e outros estudos: ensaio de interpreta\u00e7\u00e3o materialista da hist\u00f3ria do Brasil<\/em>.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify has-normal-font-size\">O subt\u00edtulo continha uma confiss\u00e3o para \u201cescandalizar\u201d, um testemunho de que a ruptura avan\u00e7ara t\u00e3o longe, que n\u00e3o evocava uma \u201covelha negra\u201d convencional, mas um pensador revolucion\u00e1rio, com quem a sociedade burguesa teria de se haver. Uma \u201cexplos\u00e3o juvenil\u201d, que precisa ser compreendida no contexto hist\u00f3rico, em termos da concep\u00e7\u00e3o de si pr\u00f3prio e da hist\u00f3ria sustentada vivamente pelo autor. O livro resvala por lapsos l\u00f3gicos, descritivos e interpretativos, que mereceriam reparos de marxistas experimentados. Mas quem poderia ser, dentro de nosso cosmos cultural, mais marxista?<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify has-normal-font-size\">Ainda carregamos limita\u00e7\u00f5es que somente uma dura e longa experi\u00eancia no manejo do materialismo hist\u00f3rico convidaria a ultrapassar. As contradi\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es a fundo e n\u00e3o lan\u00e7am luz sobre o \u201cinferno\u201d da vida nos tr\u00f3picos e nas determina\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas que vinculavam a opress\u00e3o senhorial \u00e0 din\u00e2mica da opress\u00e3o escravista, de escravos e \u201chomens livres pobres\u201d. O \u201cEstado escravista\u201d continuou de p\u00e9, dentro da \u00f3tica dos que o viam como um Estado constitucional, parlamentar e democr\u00e1tico.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify has-normal-font-size\">No entanto,\u00a0<em>A evolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do Brasil\u00a0<\/em>\u00e9 um rebento maduro e correspondia, como obra marxista, aos intentos de Caio Prado J\u00fanior. No patamar incipiente e mais puro de sua ruptura, ele desenha a vers\u00e3o do Brasil que animaria suas investiga\u00e7\u00f5es ulteriores e d\u00e1 sua respostas aos membros da classe social dominante e ao PCB, no qual ingressara. \u00c0queles, para que descobrissem que constru\u00edram e reproduziram, cotidianamente, a cadeia dentro da qual prenderam e degradaram a sua consci\u00eancia social, a condi\u00e7\u00e3o humana e a aus\u00eancia de sa\u00eddas hist\u00f3ricas dentro de falsos padr\u00f5es de democracia. Ao \u00faltimo, para afirmar-se em toda a plenitude como um intelectual revolucion\u00e1rio livre, pronto avan\u00e7ar na conquista da revolu\u00e7\u00e3o social e na emancipa\u00e7\u00e3o dos exclu\u00eddos, por\u00e9m dotado de uma faculdade pr\u00f3pria de submeter-se \u00e0 disciplina e \u00e0s orienta\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias. Compartilhava de sua estrat\u00e9gia: reformar, primeiro; e destruir mais tarde aquele gigantesco pres\u00eddio, designado como Estado \u201cmoderno\u201d. N\u00e3o obstante, n\u00e3o se prestaria a servir de pe\u00e3o a qualquer conciliacionomismo ou oportunismo \u201ct\u00e1ticos\u201d. O livro p\u00f5e em evid\u00eancia, principalmente no ensaio primordial, qual \u00e9 o sentido que carrega e os desdobramentos que exige do autor para que a constru\u00e7\u00e3o de uma nova sociedade possibilitasse a cria\u00e7\u00e3o de um Estado realmente democr\u00e1tico e aberto aos aperfei\u00e7oamentos vindos de baixo.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify has-normal-font-size\">A obra seguinte, aparecida nove anos depois (<em>Forma\u00e7\u00e3o do Brasil Contempor\u00e2neo \u2013 Col\u00f4nia<\/em>), adere a outro horizonte intelectual e pol\u00edtico. Mais depurado, como marxista e historiador, prop\u00f5e-se uma ambi\u00e7\u00e3o cicl\u00f3pica: uma devassa em quatro volumes da forma\u00e7\u00e3o e evolu\u00e7\u00e3o do Brasil, do regime colonial escravocrata \u00e0 contemporaneidade. Como historiador, Caio Prado J\u00fanior preocupava-se em cobrir as lacunas da hist\u00f3ria descritiva da maioria dos cultores da mat\u00e9ria, e de corrigir as armadilhas das obras de s\u00edntese hist\u00f3rica, algumas de alta qualidade, que prevaleciam naquele instante. Como marxista, pretendia forjar uma obra-mestra, que servisse de fundamento para que as correntes socialistas e democr\u00e1ticas (especialmente o PCB) pudessem formular uma representa\u00e7\u00e3o s\u00f3lida das debilidades, do trajeto e dos objetivos espec\u00edficos da revolu\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify has-normal-font-size\"><a href=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2021\/11\/caioprado_florestan.jpg\" rel=\"prettyPhoto\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-31246 c008\" src=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2021\/11\/caioprado_florestan.jpg?w=640\" srcset=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2021\/11\/caioprado_florestan.jpg?w=966 966w, https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2021\/11\/caioprado_florestan.jpg?w=1932 1932w, https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2021\/11\/caioprado_florestan.jpg?w=142 142w, https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2021\/11\/caioprado_florestan.jpg?w=283 283w, https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2021\/11\/caioprado_florestan.jpg?w=768 768w, \" alt=\"\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>Florestan Fernandes, Florestan Fernandes J\u00fanior, Caio Prado J\u00fanior, Maria Cec\u00edlia Nacl\u00e9rio Homem e Carlito Maia em ato pelas \u201cDiretas J\u00e1!\u201d na Pra\u00e7a Charles Miller, em frente ao est\u00e1dio do Pacaembu, em 27 de novembro de 1983.<\/em><\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify has-normal-font-size\">Saiu apenas o primeiro volume que evidencia uma solidez na reconstru\u00e7\u00e3o emp\u00edrica e uma firmeza nos delineamentos te\u00f3ricos a que n\u00e3o chega o livro anterior. Ent\u00e3o, tivera tempo de absorver rebentos da transplanta\u00e7\u00e3o cultural, medida pela Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras, os quais aproveitou inteligentemente, em particular nas \u00e1reas da geografia e da hist\u00f3ria. Foi pena que n\u00e3o fizesse o mesmo com refer\u00eancia \u00e0 sociologia, pois \u00e9 a\u00ed que refletem as consequ\u00eancias negativas das omiss\u00f5es ou vacila\u00e7\u00f5es mais graves. O talento para combinar v\u00e1rias disciplinas, entretanto, enriquece o questionamento hist\u00f3rico e torna a contribui\u00e7\u00e3o mais compreensiva e esclarecedora.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify has-normal-font-size\">A sociedade colonial e o modo de produ\u00e7\u00e3o escravista encontram, finalmente, o int\u00e9rprete que iria consider\u00e1-las como uma totalidade\u00a0<em>in statu nascendi<\/em>\u00a0e no seu vir a ser. Ela n\u00e3o seduziu s\u00f3 os leitores eruditos e obrigat\u00f3rios. Impregnou a imagina\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de Caio Prado J\u00fanior, convertendo-o em inventor e propagador de uma vis\u00e3o pr\u00f3pria da hist\u00f3ria do Brasil. Essa vis\u00e3o estava contida no primeiro livro. Todavia, \u00e9 na segunda obra que ela se expande como a fonte de suas grandes descobertas e a objetiva\u00e7\u00e3o de seus amplos limites.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify has-normal-font-size\">No conjunto aproxima-se mais da hist\u00f3ria \u201cpositiva\u201d que em outras de suas realiza\u00e7\u00f5es. O que n\u00e3o impede que elucide, por vezes de modo definitivo, a problem\u00e1tica espec\u00edfica do nosso mundo colonial. A come\u00e7ar pelo sentido da coloniza\u00e7\u00e3o e do desmascaramento dos interesses da metr\u00f3pole, dos senhores e da grande explora\u00e7\u00e3o mercantil, at\u00e9 o embrutecimento do escravo como coisa e dos mesti\u00e7os e brancos \u201cpobres\u201d como exclu\u00eddos e ral\u00e9. Por isso, a\u00ed se acham os andaimes de seus estudos sobre a quest\u00e3o agr\u00e1ria e o capitalismo mercantil, assuntos que o atrairiam sem cessar, embora n\u00e3o possam ser devidamente explorados aqui.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify has-normal-font-size\">O espa\u00e7o tamb\u00e9m n\u00e3o comporta uma discuss\u00e3o, sum\u00e1ria que seja, de sua\u00a0<em>Hist\u00f3ria econ\u00f4mica do Brasil<\/em>\u201d (1945), que o compeliu a observar o vasto painel de longa dura\u00e7\u00e3o como foco de refer\u00eancia de problemas concretos. Se se impuseram algumas corre\u00e7\u00f5es, estas n\u00e3o tiveram, contudo, porte para impor uma revis\u00e3o significativa da concep\u00e7\u00e3o global.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify has-normal-font-size\">O seu livro de maior repercuss\u00e3o foi divulgado em 1966 \u2013\u00a0<em>A Revolu\u00e7\u00e3o Brasileir<\/em>a \u2013 e possui uma import\u00e2ncia pol\u00edtica excepcional. Cont\u00e9m um desafio ousado \u00e0 ditadura. Mas constitui uma reflex\u00e3o desafiadora e um rep\u00fadio ao mecanicismo \u201cmarxista\u201d forjado depois de ascens\u00e3o de St\u00e1lin ao poder e da influ\u00eancia manietadora da 3\u00aa Internacional.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify has-normal-font-size\">Nessa obra, Caio Prado J\u00fanior procede a uma cr\u00edtica severa dos desvios de rota da revolu\u00e7\u00e3o socialista, programados e impostos como uma deforma\u00e7\u00e3o do marxismo; o uso invertido e ditatorial do centralismo democr\u00e1tico; a simplifica\u00e7\u00e3o grosseira da teoria e das pr\u00e1ticas marxistas da luta de classes e da revolu\u00e7\u00e3o em escala mundial. Os pa\u00edses dependentes, coloniais e neocoloniais tinham sido metidos em um mesmo saco e em uma mesma camisa de for\u00e7a, que pressupunham que a revolu\u00e7\u00e3o pudesse ser \u201cun\u00edvoca\u201d, monol\u00edtica, dirigida segundo uma f\u00f3rmula \u00fanica, a partir das diretrizes da 3\u00aa Internacional e da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify has-normal-font-size\">Desse \u00e2ngulo, o livro retoma o marxismo como processo, que nasce e cresce por dentro das classes trabalhadoras e na busca de sua autoemancipa\u00e7\u00e3o coletiva, atrav\u00e9s da constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade nova.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify has-normal-font-size\">O n\u00facleo de refer\u00eancia vem a ser o Brasil do momento da ditadura militar e do auge da Guerra Fria. O que impele Caio Prado J\u00fanior a retomar os temas de suas investiga\u00e7\u00f5es, dissertando sobre os marcos coloniais da domina\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, cultural e pol\u00edtica da burguesia, a debilidade dessa burguesia em termos de sua situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, associada e dependente, e os par\u00e2metros da conquista da cidadania e da democracia como requisitos da reforma agr\u00e1ria e de outras transforma\u00e7\u00f5es sociais. Ele fica exposto a v\u00e1rias cr\u00edticas te\u00f3ricas e pr\u00e1ticas, inclusive o da via reformista, gradualista e por etapas da implanta\u00e7\u00e3o do socialismo. N\u00e3o obstante, recupera o entendimento de Marx e Engels a respeito da revolu\u00e7\u00e3o permanente, segundo o qual ela \u00e9 produto da luta de classes, n\u00e3o de utopias melhoristas ou humanit\u00e1rias.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify has-normal-font-size\">Nessa ocasi\u00e3o, Caio Prado J\u00fanior atingiu o cl\u00edmax de sua grandeza como marxista, cientista social e agente hist\u00f3rico. Marchando contra a corrente, realizou uma s\u00edntese da evolu\u00e7\u00e3o do Brasil e uma revis\u00e3o em profundidade de quest\u00f5es concretas, intr\u00ednsecas a certos dilemas pol\u00edticos, como a reforma agr\u00e1ria. Buscou o alargamento do marxismo para adequ\u00e1-lo \u00e0s condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas vari\u00e1veis de periferia, da Am\u00e9rica Latina e do Brasil. E demonstrou como o intelectual, desempenhando seus pap\u00e9is e sem transcend\u00ea-los pela efic\u00e1cia de partidos, pode alcan\u00e7ar o cume de milit\u00e2ncia exigente e criativa.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify has-normal-font-size\">N\u00e3o carecemos de estar de acordo com ele em tudo para real\u00e7ar o seu perfil marxista. Basta que enxerguemos a sua coragem de enfrentar sozinho os riscos de errar e a repress\u00e3o pol\u00edtica brutal, para admir\u00e1-lo ainda mais dentro e acima de sua produ\u00e7\u00e3o como historiador, ge\u00f3grafo, economista, cultor da l\u00f3gica e da teoria da ci\u00eancia, homem de a\u00e7\u00e3o e pol\u00edtico representativo.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-right has-normal-font-size\">Publicado originalmente no jornal\u00a0<a href=\"http:\/\/almanaque.folha.uol.com.br\/florestan11.htm\" rel=\"noreferrer noopener\">Folha de S\u00e3o Paulo<\/a> em 7 de setembro de 1991.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/article>\n<\/div>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Florestan Fernandes &#8211;\u00a0N\u00e3o carecemos de estar de acordo com ele em tudo para real\u00e7ar o seu perfil marxista. 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