{"id":18938,"date":"2023-02-15T12:51:51","date_gmt":"2023-02-15T15:51:51","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18938"},"modified":"2023-02-14T20:55:35","modified_gmt":"2023-02-14T23:55:35","slug":"como-a-questao-de-classe-moldou-a-obra-de-annie-ernaux","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/02\/15\/como-a-questao-de-classe-moldou-a-obra-de-annie-ernaux\/","title":{"rendered":"Como a quest\u00e3o de classe moldou a obra de Annie Ernaux"},"content":{"rendered":"<p><strong>Manuel Cervera-Marzal<\/strong> &#8211; A escritora francesa Annie Ernaux recebeu o Pr\u00eamio Nobel de Literatura. Nesta entrevista exclusiva \u00e0 Jacobin, ela explica como seu percurso acad\u00eamico e a realidade de classe se dividem na forma de sua escrita.<\/p>\n<p>Em outubro, a escritora francesa Annie Ernaux\u00a0<a href=\"https:\/\/apnews.com\/article\/annie-ernaux-nobel-prize-literature-1f3dd6d357a92e56e845e66afe07b227#:~:text=PARIS%20(AP)%20%E2%80%94%20French%20author,in%20France%20since%20the%201940s.\">recebeu o Pr\u00eamio Nobel de Literatura<\/a>. Vinda de uma fam\u00edlia da classe trabalhadora da Normandia, Ernaux \u00e9 conhecida por suas obras de \u201cautossociobiografia\u201d como\u00a0<em><a href=\"https:\/\/www.fosforoeditora.com.br\/catalogo\/os-anos-annie-ernaux\/\">Os Anos<\/a><\/em>\u00a0(F\u00f3sforo, 2021), nas quais as lutas que ela mesma travou est\u00e3o ligadas a um contexto mais amplo da vida francesa do p\u00f3s-guerra.<\/p>\n<p>Nesta entrevista com Manuel Cervera-Marzal, Ernaux falou sobre as barreiras que os escritores da classe trabalhadora enfrentam, as influ\u00eancias sociol\u00f3gicas em seu pensamento e como escrever sobre a experi\u00eancia individual pode expressar a viol\u00eancia da domina\u00e7\u00e3o de classe.<\/p>\n<p class=\"pergunta\"><strong>MCM<\/strong><\/p>\n<p><strong>Seus estudos liter\u00e1rios e seu sucesso nos concursos de ensino lhe ofereceram uma fuga das circunst\u00e2ncias em que voc\u00ea cresceu. Mas estas circunst\u00e2ncias continuam sendo um fator decisivo em sua escrita. Voc\u00ea acha que a origem da classe trabalhadora de sua fam\u00edlia te levou a escrever diferentemente dos escritores de fam\u00edlias mais privilegiadas?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\"><strong>AE<\/strong><\/p>\n<p>Farei uma primeira observa\u00e7\u00e3o. Sua pergunta basicamente indica, a t\u00edtulo de explica\u00e7\u00e3o, que o escritor da classe trabalhadora est\u00e1 de fato em uma situa\u00e7\u00e3o diferente, ou seja, a situa\u00e7\u00e3o dos dominados. Voc\u00ea provavelmente n\u00e3o faria a mesma pergunta a um escritor de origem burguesa. Eles s\u00e3o a maioria, mas nunca s\u00e3o perguntados: \u201cSua forma\u00e7\u00e3o familiar o fez escrever de maneira diferente?\u201d Acrescentarei que escritores da mesma origem que eu, que conhe\u00e7o, se recusariam a responder sua pergunta porque n\u00e3o querem aparecer como escritores diferentes dos outros.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s esta observa\u00e7\u00e3o preliminar \u2014 o que significa, de certa forma, que n\u00e3o quero ser iludida pela situa\u00e7\u00e3o complexa em que o desertor de classe se encontra \u2014 posso responder \u00e0 sua pergunta porque estou bem ciente em que espa\u00e7o me situo. Portanto, n\u00e3o quero ser induzida a isso: n\u00e3o sei se fui \u201clevada a escrever diferentemente\u201d. O que \u00e9 certo \u00e9 que no in\u00edcio eu n\u00e3o estava ciente disso. Veio do momento em que meu primeiro livro\u00a0<em>Les Armoires Vides<\/em>\u00a0foi publicado, mas n\u00e3o enquanto eu o estava escrevendo. Esta \u00e9 uma nuance importante.<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca, eu sabia que o que estava escrevendo era bastante at\u00edpico, mas n\u00e3o me coloquei a quest\u00e3o da escrita em si ou do tra\u00e7o, em minha escrita, de minha forma\u00e7\u00e3o na classe trabalhadora. Quando escrevi este livro, eu n\u00e3o sabia se seria publicado. Ent\u00e3o, foi depois que o livro foi publicado que me associei a uma forma diferente de escrever \u2014 uma forma violenta, disseram os cr\u00edticos. Ent\u00e3o, abracei totalmente esta forma de escrever com o livro O Lugar, no qual recuso a fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"pergunta\"><strong>MCM<\/strong><\/p>\n<p><strong>Em suas entrevistas com a diretora Michelle Porte, voc\u00ea conta: \u201cEu nunca pensei: \u2018Sou uma mulher que escreve\u2019. Eu n\u00e3o sou uma mulher que escreve; sou algu\u00e9m que escreve\u201d. Voc\u00ea diria o mesmo sobre a origem social de onde voc\u00ea vem? Ser\u00e1 que, na escritora em que voc\u00ea se tornou, resta algo de seus av\u00f3s camponeses e de seus pais da classe trabalhadora que se tornaram comerciantes?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\"><strong>AE<\/strong><\/p>\n<p>Estas s\u00e3o duas quest\u00f5es que se colocam. Eu sempre respondi que ser mulher n\u00e3o era a quest\u00e3o. \u00c9 claro que a condi\u00e7\u00e3o social e a condi\u00e7\u00e3o de ser mulher \u2014 n\u00e3o falo de uma \u201cess\u00eancia\u201d, mas de uma \u201ccondi\u00e7\u00e3o\u201d \u2014 podem ser sentidas no que escrevo, e elas me moldaram. N\u00e3o posso exclu\u00ed-las e dizer que elas s\u00e3o irrelevantes.<\/p>\n<p>Em meu relacionamento com o mundo, em primeiro lugar, permanece algo de meus av\u00f3s camponeses e de meus pais trabalhadores.<\/p>\n<p>Por exemplo, o medo de n\u00e3o ter dinheiro suficiente para viver e de n\u00e3o ter que depender de ningu\u00e9m para fornecer. Uma desconfian\u00e7a geral dos outros, dos poderosos, mas n\u00e3o s\u00f3 \u2014 n\u00e3o sei se \u00e9 espec\u00edfico da Normandia, de onde venho \u2014 e um pessimismo social. Algo desses medos, dessa desconfian\u00e7a, passa para a escrita, para a frieza da an\u00e1lise. O medo de passar despercebida teve um papel na minha escolha de nunca desistir do trabalho docente.<\/p>\n<p class=\"pergunta\"><strong>MCM<\/strong><\/p>\n<p><strong>Pela estabilidade que ela representa?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\"><strong>AE<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Tive dois filhos para criar sozinha. E eu tinha outro medo \u2014 o de ser obrigada a escrever.<\/p>\n<p class=\"pergunta\"><strong>MCM<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ser professora significava que voc\u00ea n\u00e3o precisava escrever para se sustentar, que voc\u00ea era livre para escrever quando lhe agradasse\u2026<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\"><strong>AE<\/strong><\/p>\n<p>Isso mesmo. A ideia de que voc\u00ea tem que entregar um manuscrito a cada ano ou dois me aterroriza. Senti muito rapidamente que n\u00e3o podia aceitar esta restri\u00e7\u00e3o, que precisava de tempo para amadurecer um texto, para que ele fosse escrito. Portanto, se eu fizesse da escrita a minha profiss\u00e3o, a \u00fanica, eu necessariamente quereria que meus livros fossem vendidos. Me parece que este desejo, esta necessidade material, obscurece as condi\u00e7\u00f5es do que se escreve, o desqualifica. Pode n\u00e3o ser o caso para todos, eu n\u00e3o sei.<\/p>\n<p class=\"pergunta\"><strong>MCM<\/strong><\/p>\n<p><strong>Muitas vezes afirmam que seu trabalho \u00e9 um poderoso testemunho da realidade, que oferece aos leitores uma perspectiva agu\u00e7ada sobre a viol\u00eancia das classes sociais e a domina\u00e7\u00e3o masculina. Mas para voc\u00ea, como autora, escrever n\u00e3o \u00e9, ao inv\u00e9s disso, uma forma de fugir da realidade, de se afastar da atribui\u00e7\u00e3o de pap\u00e9is de g\u00eanero e de classe?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\"><strong>AE<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 uma forma de fugir da realidade. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 sempre uma imers\u00e3o na realidade. Mas tamb\u00e9m \u00e9 verdade que \u00e9, ao mesmo tempo, como para qualquer escritor, uma maneira de se distanciar das tarefas de g\u00eanero e classe. No entanto, a recep\u00e7\u00e3o dos cr\u00edticos muitas vezes me arrasta de volta a ela, de uma forma insidiosa.<\/p>\n<p>Estou muito impressionada no momento com o que \u00e9 dito sobre \u00c9douard Louis, todas as entrevistas o arrastam de volta para \u201cvoc\u00ea \u00e9 um OVNI!\u201d De alguma forma, ele n\u00e3o \u00e9 leg\u00edtimo. Louis me diz que ele est\u00e1 devastado, n\u00e3o \u00e9 amado, e eu lhe respondo \u201cmas voc\u00ea nunca ser\u00e1 amado\u201d. Ele n\u00e3o foi admitido. Como teria dito Pierre Bourdieu: \u201cOnde est\u00e1 o seu ingresso?\u201d Ao escrever, voc\u00ea se apropria dessa legitimidade, mas ela pode ser questionada a qualquer momento. Durante muito tempo, tive que especificar que eu tinha um diploma de ensino de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Isso me deu legitimidade. \u201cEla \u00e9 uma de n\u00f3s\u201d, pensaram eles.<\/p>\n<p>\u00c9 talvez ainda mais complicado com a atribui\u00e7\u00e3o de pap\u00e9is de g\u00eanero, pois atravessa todas as classes sociais e \u00e9 um componente da recep\u00e7\u00e3o machista da literatura. Isto pode ser visto, por exemplo, na sele\u00e7\u00e3o de livros para pr\u00eamios, onde os homens \u00e0s vezes s\u00e3o os \u00fanicos presentes! Quando Paix\u00e3o Simples foi publicada, me atacaram como uma mulher que escreve de supostamente \u201cn\u00e3o feminina\u201d, mas tamb\u00e9m, de forma enigm\u00e1tica, como uma desertora de classe que havia escrito O Lugar.<\/p>\n<p class=\"pergunta\"><strong>MCM<\/strong><\/p>\n<p><strong><em>A Vergonha<\/em>, que voc\u00ea publicou em 1997, come\u00e7a com esta cena traum\u00e1tica \u2013 \u201cMeu pai queria matar minha m\u00e3e num domingo de junho, no in\u00edcio da tarde\u201d \u2014 e conclui com esta confiss\u00e3o \u2014 \u201cSempre quis escrever livros sobre os quais era imposs\u00edvel para mim falar, o que tornaria o olhar dos outros insuport\u00e1vel\u201d. Como a vergonha \u00e9 uma for\u00e7a motriz no desejo de escrever?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\"><strong>AE<\/strong><\/p>\n<p>A frase que voc\u00ea cita continua: \u201cMas que vergonha eu poderia ter ao escrever um livro no n\u00edvel do que experimentei nos meus doze anos\u201d? Este \u00e9 um processo \u2014 o desejo de vergonha, mas tamb\u00e9m a impossibilidade de que a vergonha escrita possa ser igual \u00e0 verdadeira vergonha \u2014 que confirmei com muitos de meus livros, inclusive o pr\u00f3ximo,\u00a0<em>M\u00e9moire de fille\u00a0<\/em>(A Hist\u00f3ria de uma Garota). Cada vez que sou v\u00edtima de uma ilus\u00e3o: \u00e9 antes da escrita, quando a estou planejando, que h\u00e1 vergonha. Ent\u00e3o fa\u00e7o o livro, de alguma forma sou obrigada a faz\u00ea-lo, e n\u00e3o h\u00e1 vergonha na escrita do mesmo.<\/p>\n<p>Sempre penso que morrerei de vergonha quando ele sair, mas nunca acontece nada. Eu nunca morri de vergonha porque, precisamente, escrever n\u00e3o \u00e9 a vida. A vergonha \u00e9 uma for\u00e7a motriz no desejo de escrever, mas n\u00e3o corresponde \u00e0 vergonha, uma vez que a enche, uma vez que age e permanece, apesar de tudo, ap\u00f3s escrever. Continua inutiliz\u00e1vel, mas tendo sido escrita, \u00e9 como se fosse dissolvida, compartilhada com os outros, de certa forma.<\/p>\n<p class=\"destaque-centro\">\u201cEscrevo a vergonha com a ideia de que ela encontrar\u00e1 at\u00e9 mesmo uma pessoa para compreend\u00ea-la. Esse \u00e9 o sentimento que me impulsiona.\u201d<\/p>\n<p>Em meu primeiro livro, Les Armoires vides, n\u00e3o tive vergonha de escrev\u00ea-lo porque n\u00e3o sabia se ele seria publicado. Isso muda tudo. Quando duas editoras aceitaram o manuscrito, fiquei arrasada, percebendo de repente o que eu havia escrito. O Lugar foi um ponto de virada, porque pela primeira vez abracei um \u201ceu\u201d fora da fic\u00e7\u00e3o, e nunca mais voltei atr\u00e1s, pois decidi enfrentar a realidade \u2014 e assim, de certa forma, a vergonha \u2014 de frente.<\/p>\n<p class=\"pergunta\"><strong>MCM<\/strong><\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea mencionou \u00c9douard Louis. Em 2014, a publica\u00e7\u00e3o de seu livro\u00a0<em>The End of Eddy<\/em>\u00a0ressuscitou o debate entre miserabilismo e populismo, entre aqueles que tratam os dominados como v\u00edtimas e aqueles que os consideram her\u00f3is. Estamos condenados a caminhar na corda bamba entre estas duas armadilhas? Podemos encontrar o tom certo para falar dos trabalhadores?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\"><strong>AE<\/strong><\/p>\n<p>Esta ser\u00e1 sempre uma quest\u00e3o em aberto. A linha entre as duas armadilhas \u00e9 extremamente t\u00eanue. O Fim de Eddy levantou esta quest\u00e3o, mas o problema n\u00e3o est\u00e1 neste trabalho em si. Se Louis tivesse escrito a mesma coisa sobre pessoas que n\u00e3o eram seus pais, a recep\u00e7\u00e3o teria sido diferente. \u00c9 por isso que ele est\u00e1 sendo criticado, pelo que ele disse sobre sua fam\u00edlia. Tive a mesma experi\u00eancia com Les Armoires vides.<\/p>\n<p>Esse tipo de cr\u00edtica veio em particular dos jornais comunistas: \u201cEla est\u00e1 atacando as pr\u00f3prias pessoas que a permitiram estudar\u201d. Ent\u00e3o, ser\u00e1 que podemos encontrar o tom certo? Foi dito que o encontrei quando falei sobre meu pai em O Lugar, mas n\u00e3o tenho certeza se encontrei o tom certo. Talvez depois eles descubram que eu n\u00e3o achei o tom. Depende da \u00e9poca em que o crit\u00e9rio \u00e9 feito.<\/p>\n<p class=\"pergunta\"><strong>MCM<\/strong><\/p>\n<p><strong>Durante o processo de escrita, voc\u00ea considera as poss\u00edveis acusa\u00e7\u00f5es de miserabilismo? Voc\u00ea pensa na maneira correta de falar dos trabalhadores, ou \u00e9 apenas uma quest\u00e3o que a sociedade lhe imp\u00f5e, que vem de fora?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\"><strong>AE<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma pergunta f\u00e1cil\u2026 Situo minha escrita no presente, em rela\u00e7\u00e3o ao meu tempo. Sou obrigada a considerar as cren\u00e7as de minha \u00e9poca, a me situar em rela\u00e7\u00e3o a elas. Fa\u00e7o isso de forma mais ou menos consciente. N\u00e3o \u00e9 a primeira coisa em que penso quando escrevo, mas est\u00e1 l\u00e1, implicitamente. Em [<em>A Hist\u00f3ria de uma Garota<\/em>] escrevo sobre o final dos anos 1950 e o presente. Entre as duas, a sociedade passou por uma revolu\u00e7\u00e3o sexual total. O que se espera das meninas, das mulheres, mudou completamente.<\/p>\n<p>N\u00e3o pude deixar de refletir sobre isto, e claramente abordei esta quest\u00e3o em v\u00e1rios pontos do livro. Em \u201c<em>Regarde les lumi\u00e8res mon amour<\/em>\u201d, falo muito de mulheres dissimuladas a fim de mudar a vis\u00e3o do leitor sobre elas, no contexto de uma sociedade francesa que atualmente \u00e9 muito hostil a elas. Portanto, em meus escritos, h\u00e1 sempre este aspecto atual.<\/p>\n<p><strong>Temas<\/strong><\/p>\n<p class=\"pergunta\"><strong>MCM<\/strong><\/p>\n<p><strong>Seu trabalho d\u00e1 uma certa dignidade a fen\u00f4menos geralmente ignorados pela literatura, como o aborto, a viol\u00eancia dom\u00e9stica, as multid\u00f5es an\u00f4nimas nos transportes p\u00fablicos e os clientes dos supermercados. Essa forma de minar as hierarquias liter\u00e1rias parece ter um significado pol\u00edtico. Como voc\u00ea v\u00ea a rela\u00e7\u00e3o entre a literatura e o engajamento pol\u00edtico?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\"><strong>AE<\/strong><\/p>\n<p>Quando eu tinha 20 anos, imaginava escrever, falava de escrever, \u201cpara vingar minha classe\u201d \u2014 j\u00e1 era algo pol\u00edtico, mas de uma forma mal compreendida, muito ing\u00eanua. Pensei que se a filha de um trabalhador escrevesse um romance, seja ele qual for, isso o tornaria um ato pol\u00edtico. N\u00e3o vi que, de certa forma, isso refor\u00e7aria as hierarquias culturais.<\/p>\n<p>Mas passados dez anos, quando escrevi Les Armoires vides, tive em vista desvendar como as institui\u00e7\u00f5es educacionais participam do mundo dominante e arrancar os filhos das classes dominadas de seu mundo de origem. Naquele mesmo momento, virei professora, e senti toda a viol\u00eancia cultural feita a essas crian\u00e7as na escola. Com este primeiro livro, eu estava escrevendo politicamente, ou seja, questionando o que vivemos e vemos. N\u00e3o consigo conceber uma escrita que n\u00e3o envolva a mim e o leitor ao mesmo tempo.<\/p>\n<p class=\"pergunta\"><strong>MCM<\/strong><\/p>\n<p><strong>Seu Regarde les lumi\u00e8res mon amour \u00e9 um di\u00e1rio de suas idas ao centro comercial Trois-Fontaines em Cergy, uma nova cidade que fica a noroeste de Paris. De onde voc\u00ea tirou a ideia de escrever sobre a superloja?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\"><strong>AE<\/strong><\/p>\n<p>As superlojas s\u00e3o lugares que me fascinam. Talvez venha de minha inf\u00e2ncia, de uma familiaridade com o que meus pais, donos de mercearia, chamavam de \u201ca clientela\u201d, e que para mim era uma comunidade de pessoas, com suas hist\u00f3rias, com seus meios financeiros muitas vezes escassos. E tamb\u00e9m, uma certa familiaridade com a \u201cmercadoria\u201d que preenchia todo o espa\u00e7o, ou quase todo o espa\u00e7o, da casa com as coisas. Da\u00ed uma perspectiva \u2014 carregada de mem\u00f3ria infantil \u2014 sobre os espa\u00e7os comerciais cuja transforma\u00e7\u00e3o vivi, desde os anos 1960 at\u00e9 hoje, desde a pequena loja de autoatendimento at\u00e9 a superloja de muitos metros quadrados de \u00e1rea.<\/p>\n<p>Eu os considero realmente como lugares de mem\u00f3ria e lugares de vida. \u00c9 a\u00ed que entra o compromisso pol\u00edtico: recusar o imagin\u00e1rio burgu\u00eas-bo\u00eamio e elitista que deprecia as grandes lojas, que n\u00e3o as acha interessantes.<\/p>\n<p class=\"destaque-centro\">\u201cO alvo deles n\u00e3o \u00e9 este objeto em si; \u00e9 a multid\u00e3o que os perturba, as pessoas que eles encontram \u2014 o contato pr\u00f3ximo e prom\u00edscuo.\u201d<\/p>\n<p>Em Paris, h\u00e1 principalmente supermercados menores, como o\u00a0<em>Monoprix<\/em>, que, tendo antes encarnado a parte inferior do mercado, s\u00e3o agora muito chiques. A superloja \u00e9 uma realidade nas prov\u00edncias e nos sub\u00farbios. Este livro [<em>Regarde les lumi\u00e8res mon amour<\/em>] representa, \u00e9 claro, uma obra auxiliar, inspirada na obra de Pierre Rosanvallon, mas tem o sentido de uma rea\u00e7\u00e3o pol\u00edtica a um imagin\u00e1rio de desprezo, de uma reabilita\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o frequentado por todas as classes sociais. N\u00e3o sei se fui necessariamente bem sucedida. Mas tem sido muito lido.<\/p>\n<p class=\"pergunta\"><strong>MCM<\/strong><\/p>\n<p><strong>Durante uma cena em frente \u00e0 barraca de peixe de uma loja Auchan, voc\u00ea escreve: \u201cUma mulher negra com um longo vestido florido para na frente dele, hesita, vai embora novamente\u201d. Logo no par\u00e1grafo seguinte, voc\u00ea admite que hesitou em especificar a cor da pele dela. O que voc\u00ea acha que este tipo de dilema nos diz?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\"><strong>AE<\/strong><\/p>\n<p>Se eu estivesse fazendo compras em uma super loja em Bamako, uma escritora do Mali me descreveria como \u201cuma mulher branca\u201d. Ent\u00e3o, decidi escrever a cor da pele dessa mulher. Mas \u00e9 complicado, porque as duas situa\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o completamente id\u00eanticas. Na superloja atual \u2014 em 2012 [neste livro] \u2014 no contexto da \u00e9poca, que se tornou ainda mais dif\u00edcil desde ent\u00e3o, as pessoas v\u00e3o responder imediatamente: \u201cAh, mas obviamente, em tais lugares, s\u00f3 h\u00e1 imigrantes ou descendentes de imigrantes\u201d. Enquanto, na verdade, h\u00e1 pessoas de origem caribenha, h\u00e1 tamb\u00e9m franceses. Mas isso \u00e9 racismo.<\/p>\n<p>Em 1989, em um Auchan, uma mulher muito idosa disse em voz alta a uma jovem negra: \u201cEla deveria voltar para seu pr\u00f3prio pa\u00eds\u201d. Minha rea\u00e7\u00e3o \u2014 \u201cMas senhora, ela pode ser francesa!\u201d \u2014 parecia deix\u00e1-la aturdida, ou incr\u00e9dula. Veja, estas coisas n\u00e3o s\u00e3o novas. Neste contexto, falei tamb\u00e9m das mulheres que usam v\u00e9u, n\u00e3o por serem tantas em n\u00famero, mas para introduzir a legitimidade de sua escolha. Pedir para retir\u00e1-lo \u00e9 um ressurgimento do colonialismo.<\/p>\n<p>Estranhamente, os cr\u00edticos liter\u00e1rios t\u00eam evitado cuidadosamente mencionar este aspecto do livro. Na verdade, h\u00e1 algo de complicado em descrever a realidade multi\u00e9tnica da sociedade atual, quer voc\u00ea mencione ou n\u00e3o a cor da pele de uma pessoa. Isto \u00e9 sintom\u00e1tico da virada preocupante que a Fran\u00e7a est\u00e1 tomando.<\/p>\n<p class=\"pergunta\"><strong>MCM<\/strong><\/p>\n<p><strong>Seus livros t\u00eam uma dimens\u00e3o sociol\u00f3gica evidente. Voc\u00ea coloca sua pr\u00f3pria vida \u00edntima a servi\u00e7o da revela\u00e7\u00e3o de mecanismos coletivos de natureza mais geral. Como voc\u00ea concebe a articula\u00e7\u00e3o entre a subjetividade e a sociedade? Como voc\u00ea garante que o \u201ceu\u201d n\u00e3o invade o \u201cn\u00f3s\u201d, e vice-versa?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\"><strong>AE<\/strong><\/p>\n<p>Penso que esta \u00e9 uma quest\u00e3o de postura, de dist\u00e2ncia. Significa considerar que o que me acontece \u2014 o que me aconteceu \u2014 provavelmente se situa sociologicamente, historicamente, mesmo quando parto do elemento pessoal, perceptivo, que me faz escrever as coisas. Significa sair do singular, em todos os sentidos da palavra.<\/p>\n<p>Talvez seja mais f\u00e1cil para os desertores de classe, que viveram em um mundo e depois em outro \u2014 para eles, mais do que para outros, sua identidade est\u00e1 em quest\u00e3o. Mesmo em um campo t\u00e3o \u00edntimo como a paix\u00e3o, eu n\u00e3o poderia escrever a n\u00e3o ser de forma intimista, observando o que fa\u00e7o e experimentando o que experimento, como se fosse feito e experimentado por outra pessoa.<\/p>\n<p class=\"pergunta\"><strong>MCM<\/strong><\/p>\n<p><strong>Em 1972, a leitura de Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron do livro Os Herdeiros causou uma forte impress\u00e3o em voc\u00ea. Depois de v\u00e1rios anos de inatividade, voc\u00ea se sentiu \u201cautorizada\u201d a escrever novamente. Voc\u00ea come\u00e7ou um projeto liter\u00e1rio atrasado, que resultou dois anos mais tarde na publica\u00e7\u00e3o de Les Armoires vides. No in\u00edcio, portanto, h\u00e1 uma influ\u00eancia da sociologia na literatura. Quarenta anos depois, a rela\u00e7\u00e3o se inverteu: os soci\u00f3logos est\u00e3o dedicando suas pesquisas ao trabalho e \u00e0 vida de Annie Ernaux. Isso a inspira?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\"><strong>AE<\/strong><\/p>\n<p>Estou feliz com isso. De certa forma, era l\u00f3gico que o que vinha da sociologia voltasse a ela, mas de outra forma \u2014 encarnada, se \u00e9 que posso dizer assim, na diversidade e na textura de uma vida singular, e na forma de uma verdade sentida. Meus textos n\u00e3o s\u00e3o demonstra\u00e7\u00f5es da exatid\u00e3o da sociologia da domina\u00e7\u00e3o, mas trazem a ela elementos extra\u00eddos da experi\u00eancia pessoal.<\/p>\n<p class=\"pergunta\"><strong>MCM<\/strong><\/p>\n<p><strong>Algumas pessoas entrevistadas em projetos de pesquisa t\u00eam um sentimento violento de serem \u201cobjetificadas\u201d sob a caneta do soci\u00f3logo. Em um caso extremo, alguns dizem que o soci\u00f3logo os tratou como \u201cratos de laborat\u00f3rio\u201d\u2026<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\"><strong>AE<\/strong><\/p>\n<p>Sim, neste aspecto a vantagem do escritor sobre o soci\u00f3logo \u00e9 que seus leitores s\u00e3o livres para se reconhecerem, ou n\u00e3o, em seu livro. O reconhecimento pode, no entanto, ser violento. V\u00e1rios leitores de meus livros me disseram que n\u00e3o conseguiam dormir, que estavam abalados. Mas, para eles, foi muito libertador. E acredito que esta \u00e9 a vantagem das obras liter\u00e1rias: voc\u00ea pode aceitar o que est\u00e1 sendo narrado, porque \u00e9 outra pessoa que est\u00e1 se narrando, que est\u00e1 chegando ao fundo das quest\u00f5es. A an\u00e1lise n\u00e3o passa por [o leitor], mas por outra pessoa. Portanto, n\u00e3o h\u00e1 esta mesma objetifica\u00e7\u00e3o. Esta \u00e9 a vantagem dos meus livros sobre as obras puramente sociol\u00f3gicas.<\/p>\n<p class=\"pergunta\"><strong>MCM<\/strong><\/p>\n<p><strong>Este tipo de testemunho \u2014 \u201cN\u00e3o dormi a noite toda \u2014 e, ao mesmo tempo, que al\u00edvio ler isto\u201d \u2014 \u00e9 a coisa mais gratificante para um escritor?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\"><strong>AE<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 claro que \u00e9 o mais poderoso. \u00c9 a prova de que a literatura n\u00e3o \u00e9 in\u00fatil. Sabe, \u00e9 dif\u00edcil escrever. Portanto, ver que \u00e9 \u00fatil para algo, para algu\u00e9m, \u00e9 importante. Esse senso de utilidade significa muito para mim. Fui muito influenciada por minha m\u00e3e, que sempre acreditou ser \u201c\u00fatil\u201d.<\/p>\n<p>Para minha m\u00e3e, as mulheres em casa, especialmente as mulheres de classe m\u00e9dia, representavam a inutilidade por excel\u00eancia. Fui criada com uma esp\u00e9cie de m\u00edstica de trabalho. \u00c9 algo que nunca me deixou. Neste sentido, os testemunhos dos leitores, que mostram que meu trabalho foi \u00fatil para eles, s\u00e3o essenciais. Este tipo de cartas me comove muito.\u00a0\u00c9 algo bastante novo na sua vida: algu\u00e9m que voc\u00ea n\u00e3o conhece escrevendo para voc\u00ea que seu livro mudou sua vida\u2026 Li testemunhos de leitores japoneses \u2014 traduzidos para mim, \u00e9 claro \u2014 que disseram que se reconheceram em\u00a0<em>O Lugar e Une Femme<\/em>, e em\u00a0<em>Paix\u00e3o Simples<\/em>\u00a0tamb\u00e9m. Foi uma grande surpresa e uma grande gratifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Origem social<\/strong><\/p>\n<p class=\"pergunta\"><strong>MCM<\/strong><\/p>\n<p><strong>Os desertores de classe passam muitas vezes por uma situa\u00e7\u00e3o descrita como dif\u00edcil, e dolorosa: eles se sentem deslocados em seu novo ambiente e que estavam mais no lugar em seu ambiente original. Este deslocamento lhes d\u00e1 uma vis\u00e3o privilegiada do mundo, uma intelig\u00eancia social particular?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\"><strong>AE<\/strong><\/p>\n<p>Sim, muitas vezes apresentam uma vis\u00e3o mais agu\u00e7ada e distanciada do mundo social. Mas eles tamb\u00e9m devem abra\u00e7ar sua situa\u00e7\u00e3o de desertores de classe e, antes de tudo, devem estar cientes disso e n\u00e3o estar em nega\u00e7\u00e3o. De outra forma, restam sentimentos, emo\u00e7\u00f5es: vergonha, por exemplo, a desvaloriza\u00e7\u00e3o de si mesmo, ou, inversamente, a supervaloriza\u00e7\u00e3o do m\u00e9rito individual.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma frase de Jean-Paul Sartre em\u00a0<em>Quest\u00e3o de M\u00e9todo<\/em>\u00a0que me parece definir este desertor de classe que n\u00e3o est\u00e1 consciente de sua situa\u00e7\u00e3o: \u201cNum mundo de aliena\u00e7\u00e3o, o indiv\u00edduo vitorioso n\u00e3o se reconhece em sua pr\u00f3pria vit\u00f3ria\u201d. O fil\u00f3sofo Chantal Jaquet avan\u00e7ou o termo \u201ctransclasse\u201d, que \u00e9 menos estigmatizador do que \u201cdesertor\u201d, com sua conota\u00e7\u00e3o de trai\u00e7\u00e3o deliberada. Essa conota\u00e7\u00e3o me incomodou, trinta anos atr\u00e1s, quando tive que explicar o que era um desertor de classe, porque esta no\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica ainda n\u00e3o havia penetrado na sociedade em geral.<\/p>\n<p>Fui obrigada a apontar que n\u00e3o \u00e9 como se voc\u00ea decidisse uma manh\u00e3 escapar de sua classe social; que isto \u00e9 feito atrav\u00e9s de processos \u2014 sucesso nos estudos, a companhia de pessoas de uma classe social superior, etc. \u2014 que, em grande medida, n\u00e3o dependem de decis\u00e3o e responsabilidade individual. Portanto, penso que esta mudan\u00e7a de vocabul\u00e1rio \u00e9 bastante leg\u00edtima.<\/p>\n<p>Dito isto, mesmo antes de conhecer a palavra \u201cdesertor\u201d, que um soci\u00f3logo me ensinou, senti minha passagem do mundo da classe trabalhadora para o mundo pequeno burgu\u00eas em termos de trai\u00e7\u00e3o. Formulei isto escolhendo, como ep\u00edgrafe para\u00a0<em>O Lugar<\/em>, esta frase de Jean Genet: \u201cEu arrisco uma explica\u00e7\u00e3o: escrever \u00e9 o \u00faltimo recurso quando se traiu\u201d.<\/p>\n<p class=\"pergunta\"><strong>MCM<\/strong><\/p>\n<p><strong>Escrever sobre a classe trabalhadora \u00e9 uma forma de preservar um v\u00ednculo com aqueles que voc\u00ea deixou para tr\u00e1s, de compensar o sentimento de trai\u00e7\u00e3o? Podemos interpretar seus livros como uma contribui\u00e7\u00e3o para a mem\u00f3ria coletiva, nas palavras de Saint-Simon, \u201ca classe mais numerosa e mais pobre\u201d?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\"><strong>AE<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 tudo isso em meus escritos, eu acho. Para restabelecer um elo que comecei a recusar em minha adolesc\u00eancia \u2013 odiar, por exemplo, que minha m\u00e3e tenha ostentado abertamente para a diretora do col\u00e9gio interno o fato de ter sido oper\u00e1ria durante toda sua juventude, \u201cVoc\u00ea sabe, Irm\u00e3, n\u00e3o tenho vergonha disso\u201d. E eu pensei, por dentro: \u201cMas ela n\u00e3o precisa dizer isso\u201d, como se ela estivesse admitindo sua inferioridade, apesar de si mesma.<\/p>\n<p>Escrever \u00e9 precisamente dar-me o direito, n\u00e3o s\u00f3 de dizer isso, mas tamb\u00e9m de denunciar as hierarquias, o dom\u00ednio cultural que implicitamente coloca uma mulher trabalhadora no fundo da escala social. \u00c9 querer transformar a indignidade social em dignidade, \u00e9 dar justi\u00e7a aos dominados.<\/p>\n<p class=\"pergunta\"><strong>MCM<\/strong><\/p>\n<p><strong>Quando voc\u00ea tinha uns vinte anos, voc\u00ea escreveu numa folha de caderno: \u201cEscreverei para vingar minha classe\u201d, para fazer justi\u00e7a ao sofrimento dos dominados. Ser\u00e1 que a escrita conseguiu satisfazer esta necessidade de vingan\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\"><strong>AE<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, isso significaria que n\u00e3o existem mais sofrimentos sociais para vingar, ou que considero ter \u201cfeito o suficiente\u201d escrevendo alguns livros. Continuo sendo habitada pela raiva e, \u00e9 preciso dizer, pela impot\u00eancia, diante do abismo que separa categorias inteiras da popula\u00e7\u00e3o e da aus\u00eancia de uma solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para isso. O que quero dizer \u00e9 que, de todas as op\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis para mim, de como aproveitar minha vida, escrever me parece ser a coisa mais completa que eu poderia fazer, indo al\u00e9m do singular e da fam\u00edlia.<\/p>\n<p class=\"destaque-centro\">\u201cSignifica ser a cronista de uma hist\u00f3ria condenada \u00e0 indiferen\u00e7a e ao esquecimento.\u201d<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, quando eu era professora do ensino m\u00e9dio e superior, eu considerava que estava firme, quando n\u00e3o na origem das desigualdades, pelo menos no local de sua reprodu\u00e7\u00e3o, e que havia uma luta a ser travada ali. Nunca dei aulas em escolas \u201d renomadas \u201d no centro da cidade, mas sempre em escolas na periferia das cidades de m\u00e9dio porte, e estava ciente das dificuldades envolvidas na aquisi\u00e7\u00e3o de um idioma e c\u00f3digos que n\u00e3o eram os de seu ambiente, como eu mesma havia experimentado.<\/p>\n<p>Mas nada parecia capaz \u2013 ainda n\u00e3o parece poss\u00edvel \u2014 de abalar este sistema de sele\u00e7\u00e3o, que produzia pouco mais do que um ou dois \u201cmilagres\u201d por classe. Eu diria que, de certa forma, mudei na escrita o que n\u00e3o poderia fazer como professora, n\u00e3o teria escrito os livros que escrevi, e como os escrevi \u2014\u00a0<em>Les Armoires<\/em>\u00a0vides especialmente \u2013 se eu n\u00e3o tivesse sido professora de literatura naquelas aulas.<\/p>\n<p class=\"pergunta\"><strong>MCM<\/strong><\/p>\n<p><strong>Em\u00a0<em>O Lugar<\/em>, voc\u00ea diz que a morte de seu pai foi um acontecimento que lhe deu o desejo de escrever sobre sua vida, a vida dele, e \u201ca dist\u00e2ncia que veio entre ele e eu, como adolescente\u201d. Escrever \u00e9, ent\u00e3o, uma forma de examinar a dist\u00e2ncia que se desenvolveu em sua fam\u00edlia. Mas n\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de abrir essa dist\u00e2ncia?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\"><strong>AE<\/strong><\/p>\n<p>Se estamos falando da verdadeira dist\u00e2ncia com meus familiares, a escrita n\u00e3o a ampliou. Muito pelo contr\u00e1rio, porque eles sentiam que algo estava sendo reparado em suas vidas, que sua exist\u00eancia estava sendo reconhecida em um livro. A dist\u00e2ncia entre n\u00f3s come\u00e7ou cedo, a partir do momento em que fui eu quem n\u00e3o \u201cpegou meu certificado de conclus\u00e3o de estudos\u201d, mas continuou estudando \u2013 a dist\u00e2ncia que todos n\u00f3s sentimos, e eu fui a primeira, em rela\u00e7\u00e3o ao bra\u00e7al e ao intelectual.<\/p>\n<p>Mas minha fam\u00edlia \u2013 toda minha fam\u00edlia \u2013 estava ciente desta dist\u00e2ncia antes de mim. Eu era muito pr\u00f3xima de uma prima que era tr\u00eas anos mais velha do que eu e que, ap\u00f3s seu certificado de conclus\u00e3o de estudos, tornou-se datil\u00f3grafa, o que era uma ocupa\u00e7\u00e3o muito estimada em compara\u00e7\u00e3o com a condi\u00e7\u00e3o de colarinho azul.<\/p>\n<p>Um dia \u2014 eu estava na 8\u00aa ou 9\u00aa s\u00e9rie \u2014 ela me disse: \u201cVoc\u00ea vai continuar seus estudos e n\u00f3s n\u00e3o vamos mais conversar\u201d. Fiquei chocada: \u201cDo que voc\u00ea est\u00e1 falando?\u201d Em \u00faltima an\u00e1lise, ela estava certa. N\u00f3s t\u00ednhamos cada vez menos em comum. Naquela \u00e9poca, como quer\u00edamos compartilhar nossos gostos uma com a outra, ela me fez ler uma hist\u00f3ria que fez ela chorar. Eu me sentia apenas entediada.<\/p>\n<p>Por outro lado, eu lhe havia dado um romance que eu gostava e que me tocou muito, escrito por uma inglesa, Marghanita Laski, Little Boy Lost. Ela odiou. Naquela \u00e9poca, eu n\u00e3o sabia que nossos gostos j\u00e1 eram induzidos por uma diferen\u00e7a na escolaridade e que \u2014 como confirmei ao reler este romance anos atr\u00e1s \u2014 eu podia ser sens\u00edvel \u00e0 for\u00e7a liter\u00e1ria. Aos poucos deixamos de nos ver. Ela se casou e eu fui para a universidade.<\/p>\n<p>Para meus pais, o fato de eu escrever livros s\u00f3 confirma a disparidade criada pelos meus estudos. Para eles, tudo isso se refere ao mesmo universo, que n\u00e3o \u00e9 o deles, e sobre o qual existe uma grande ignor\u00e2ncia. \u00c9 preciso um exemplo. Depois que recebi o Pr\u00eamio Renaudot e estive no \u201c<em>Apostrophes<\/em>\u201d [um talk show franc\u00eas apresentado por Bernard Pivot], um outro primo meu que era enfermeiro de geriatria me disse: \u201cOh, voc\u00ea deve conhecer muita gente! Voc\u00ea v\u00ea Collaro?\u201d St\u00e9phane Collaro foi a criadora do \u201cshow B\u00e9b\u00eate\u201d, um entretenimento que n\u00e3o tinha nada a ver com Pivot. Mas para meu primo, Collaro e eu \u00e9ramos de um mesmo \u201coutro mundo\u201d. Hoje, h\u00e1 alguns outros parentes desertores de classe \u2014 ou transclasse \u2014, primos em segundo grau. Com eles, eu compartilho uma esp\u00e9cie de dupla liga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Pais<\/strong><\/p>\n<p class=\"pergunta\"><strong>MCM<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ao se tornar escritora, voc\u00ea for\u00e7ou sua m\u00e3e a admir\u00e1-la. Isto tamb\u00e9m introduziu uma esp\u00e9cie de ci\u00fame ou ressentimento em seu relacionamento, no sentido de que voc\u00ea realizou um sonho que sempre foi inalcan\u00e7\u00e1vel para ela?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\"><strong>AE<\/strong><\/p>\n<p>Independentemente da diferen\u00e7a cultural, houve muita viol\u00eancia e ao mesmo tempo coniv\u00eancia entre minha m\u00e3e e eu. Ao longo de sua vida, at\u00e9 seu Alzheimer, n\u00f3s lutamos.<\/p>\n<p>Provavelmente t\u00ednhamos muito em comum. Escrever livros era de fato um sonho para ela, que ela me confessou, quase corando, quando eu tinha vinte e dois anos e lhe disse que havia enviado um manuscrito para uma editora: \u201cEu tamb\u00e9m teria gostado, se eu tivesse sido capaz\u201d. De escrever. Mas ela tinha deixado a escola aos treze anos.<\/p>\n<p>Dito isto, eu nunca senti, nem suspeitei, qualquer ci\u00fame ou ressentimento nela sobre minha escrita. Muito pelo contr\u00e1rio. A coisa dominante era o orgulho, e o orgulho vinha da certeza de que era gra\u00e7as a ela, \u00e0 sua educa\u00e7\u00e3o \u2014 incentivando meus estudos, meu gosto pela leitura, n\u00e3o me criando para o casamento \u2014 que eu tinha me tornado uma escritora. Acredito que o conflito estava em outro lugar, que era de natureza edipiana, como eu o percebi na rea\u00e7\u00e3o de minha m\u00e3e, sofrendo de Alzheimer \u2014 uma doen\u00e7a antissocial, onde tudo fica fora de controle \u2014 quando uma enfermeira lhe disse que eu havia recebido um grande pr\u00eamio liter\u00e1rio, o Pr\u00eamio Renaudot.<\/p>\n<p>Cito o que ela disse, como disse a enfermeira: \u201cEla sempre teve um jeito com as palavras! Mas n\u00e3o se deve dizer ao pai dela, ele est\u00e1 sempre de joelhos\u201d! \u00c9 importante saber que, naquele momento, faz dezessete anos que meu pai havia morrido. Minha m\u00e3e era uma mulher muito exigente e possessiva e deve ter pensado que ele me amava demais, que ele me deixava fazer qualquer coisa.<\/p>\n<p class=\"pergunta\"><strong>MCM<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sua m\u00e3e tinha uma esp\u00e9cie de devo\u00e7\u00e3o aos livros, que ela nunca pegava sem lavar as m\u00e3os primeiro. Seu pai, por outro lado, disse que os livros eram bons para voc\u00ea, mas que ele \u201cn\u00e3o precisava deles para viver\u201d. Qual \u00e9 a sua pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o com este objeto singular?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\"><strong>AE<\/strong><\/p>\n<p>Para mim, a biblioteca sempre foi o s\u00edmbolo da classe educada. Os livros, assim que pude ler, foram objeto de um desejo quase insaci\u00e1vel. At\u00e9 os 18 anos de idade, este desejo era dif\u00edcil de satisfazer porque os livros eram caros e n\u00e3o ousamos ir \u00e0 biblioteca p\u00fablica \u2013 que s\u00f3 estava aberta, para dizer a verdade, duas horas por semana! N\u00e3o era um lugar para n\u00f3s. Ainda existiam livrarias, onde minha m\u00e3e me levava desde muito cedo. Ela me dava livros sempre que podia.<\/p>\n<p>Como explico no\u00a0<em>Les Armoires vides<\/em>, eu vivia em livros. Eles eram uma grande fonte de conhecimento e provavelmente me deram esta famosa maneira com palavras. Na verdade, esta era uma maneira com a palavra escrita, n\u00e3o com a fala: durante muito tempo falei como todos os outros ao meu redor, enquanto eu tentava escrever como nos livros, e as palavras nos livros pareciam maravilhosas para mim. Com uma certa crueldade e muita vaidade, algumas vezes usei algumas dessas palavras que eu tinha certeza de que as meninas da minha classe ou, pior, meu pai, n\u00e3o iriam entender.<\/p>\n<p>N\u00e3o acho que seja exagero dizer que minha vida se misturou muito cedo \u2013 tanto na realidade como na minha imagina\u00e7\u00e3o \u2014 com os livros em geral. Mas, precisamente por causa desta familiaridade, acho que nunca tive a mesma atitude de rever\u00eancia para com eles que minha m\u00e3e teve, mesmo que durante muito tempo tenha me for\u00e7ado a ler um livro que comecei at\u00e9 o fim, movida pela esperan\u00e7a de que eventualmente encontraria interesse nele e tamb\u00e9m por um respeito pelo trabalho de escrever. Hoje, n\u00e3o. Eu n\u00e3o tenho mais esse respeito incondicional.<\/p>\n<p>Abandono sem hesita\u00e7\u00e3o um livro \u2014 muitas vezes um romance \u2014 que acho que levou muita presun\u00e7\u00e3o por parte de seu autor para escrever, e fraqueza por parte de sua editora para publicar. Mas aos 20 anos, eu devo ter tido a mesma presun\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>A atitude de meu pai era diametralmente oposta \u00e0 de minha m\u00e3e. Ele irritou minha m\u00e3e por ler romances \u2014 \u201cmesmo na sua idade\u201d, disse ele. Lembro-me de seus protestos, referindo-se a mim, \u201cela gosta demais de livros\u201d. Ele dizia sempre: \u201cos livros n\u00e3o s\u00e3o realidade\u201d, ou \u201cn\u00e3o \u00e9 real\u201d. Acho que essas palavras me marcaram muito. Talvez eu quisesse escrever para mostrar a meu pai que isto \u00e9 realidade. Talvez eu quisesse que a escrita fosse a realidade.<\/p>\n<p class=\"pergunta\"><strong>MCM<\/strong><\/p>\n<p><strong>Seus livros t\u00eam anota\u00e7\u00f5es, est\u00e3o riscados ou voc\u00ea cuida deles tanto quanto sua m\u00e3e?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\"><strong>AE<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o tanto, mas anoto meus livros com um l\u00e1pis, que se desvanece. Eu n\u00e3o gosto de livros manchados ou de impress\u00f5es digitais na capa. \u00c9 por isso que sou relutante em emprestar meus livros, exceto \u00e0s pessoas acostumadas a cuidar deles. N\u00e3o entendo porque algu\u00e9m se atreveria a devolver um livro sujo. Portanto, mantenho uma forma de respeito por este objeto. Acima de tudo, dou tanto valor ao que \u00e9 um livro, que sou capaz de jogar um fora quando seu conte\u00fado me enoja. \u00c9 um gesto simb\u00f3lico: n\u00e3o vai mudar nada em sua circula\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o quero manter este livro em casa, para me tornar seu mensageiro involunt\u00e1rio.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, recentemente joguei fora o \u00faltimo livro de Gabriel Matzneff, seu Di\u00e1rio. H\u00e1 alguns anos, recomendei online um romance que havia lido quando crian\u00e7a na casa de minha m\u00e3e, chamado\u00a0<em>La petite reine de l\u2019impasse au Coq<\/em>, publicado em uma cole\u00e7\u00e3o de livros cat\u00f3licos, do qual gostei muito. Era a hist\u00f3ria de uma garotinha da classe trabalhadora e eu me identificava muito com ela.<\/p>\n<p>Lembrei de um detalhe: assim como eu, ela fez caramelo com a\u00e7\u00facar em uma colher, colocado no fog\u00e3o. Quando a reli, fiquei surpresa ao perceber que este texto dos anos 1930 estava cheio de antissemitismo do in\u00edcio ao fim. Eu o joguei no lixo \u2014 n\u00e3o na reciclagem, a prop\u00f3sito! Fiz isso com raiva e uma perturba\u00e7\u00e3o que atribu\u00eda \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o de que, quando crian\u00e7a, eu amava uma hist\u00f3ria cuja ideologia me era imposs\u00edvel perceber na \u00e9poca. Como quando voc\u00ea aprende que o objeto de seu amor \u00e9 desprez\u00edvel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manuel Cervera-Marzal &#8211; A escritora francesa Annie Ernaux recebeu o Pr\u00eamio Nobel de Literatura. Nesta entrevista exclusiva \u00e0 Jacobin, ela explica como seu percurso acad\u00eamico e a realidade de classe se dividem na forma de sua escrita. Em outubro, a escritora francesa Annie Ernaux\u00a0recebeu o Pr\u00eamio Nobel de Literatura. 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