{"id":18885,"date":"2023-02-11T12:09:54","date_gmt":"2023-02-11T15:09:54","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18885"},"modified":"2023-02-08T08:12:35","modified_gmt":"2023-02-08T11:12:35","slug":"entre-a-estrategia-institucional-e-a-luta-de-massas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/02\/11\/entre-a-estrategia-institucional-e-a-luta-de-massas\/","title":{"rendered":"Entre a estrat\u00e9gia institucional e a luta de massas"},"content":{"rendered":"<p><strong>Lucas Oliveira<\/strong> &#8211; Hoje, Guilherme Boulos, eleito o deputado federal mais votado de S\u00e3o Paulo, toma posse no Congresso. Uma das principais lideran\u00e7as do MTST e filiado ao PSOL, nesta entrevista exclusiva \u00e0 Jacobin\u00a0falou sobre sua vis\u00e3o da estrat\u00e9gia socialistas, das conquistas hist\u00f3ricas e limites das experi\u00eancias socialistas na Am\u00e9rica Latina e no mundo, e sobre como combinar atua\u00e7\u00e3o institucional com mobiliza\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<blockquote><p>O ano de 2022 foi de grandes desafios para o conjunto da esquerda, exigindo dos militantes, das figuras p\u00fablicas e dos partidos muita seriedade e coer\u00eancia estrat\u00e9gica. Para entender os melhores caminhos, Lucas Oliveira, colaborador da <em>Jacobin Am\u00e9rica Latina,<\/em> conversou com deputado federal mais votado de S\u00e3o Paulo, Guilherme Boulos, sobre a sua vis\u00e3o da estrat\u00e9gia socialista, a concep\u00e7\u00e3o de partido movimento e do futuro da juventude e do povo pobre do nosso pa\u00eds.<\/p><\/blockquote>\n<p class=\"pergunta\"><strong>LO<\/strong><\/p>\n<p><strong>Em linhas gerais qual \u00e9 a sua vis\u00e3o do socialismo e quais s\u00e3o os desafios que est\u00e3o diante da nossa gera\u00e7\u00e3o de militantes em prol desse objetivo? Como construir nos dias de hoje uma alternativa concreta ao capitalismo?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\"><strong>GB<\/strong><\/p>\n<p>Tem uma frase do Jean Paul Sartre sobre o marxismo, que eu acho muito boa:\u00a0<em>\u201cO marxismo \u00e9 uma filosofia insuper\u00e1vel do nosso tempo. Porque ele n\u00e3o vai conseguir ser superado enquanto n\u00e3o forem superadas as condi\u00e7\u00f5es que os engendraram.\u201d<\/em>\u00a0Isso \u00e9 v\u00e1lido ao falarmos sobre a atualidade do socialismo, porque diariamente o capitalismo fracassa em resolver os grandes dilemas da humanidade. Se n\u00f3s olharmos as \u00faltimas quatro d\u00e9cadas de hegemonia neoliberal no planeta, vemos um aumento profundo das desigualdades a n\u00edveis poucas vezes visto. Al\u00e9m disso, assistimos um processo devastador de destrui\u00e7\u00e3o ambiental que coloca em risco a sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie humana.<\/p>\n<p>Os limites e o fracasso do capitalismo mais uma vez estiveram em evid\u00eancia durante a pandemia. Se n\u00e3o fossem os sistemas p\u00fablicos de sa\u00fade, o que seria do planeta? N\u00e3o \u00e9 um acaso que o pa\u00eds capitalista mais rico do mundo tenha sido o lugar onde mais morreu gente por covid, porque justamente ali voc\u00ea n\u00e3o tem uma conquista importante, como n\u00f3s tivemos no Brasil ou no Reino Unido, que \u00e9 o sistema universal de sa\u00fade. Essas conquistas estavam ligadas ao que se chamou de Estado de bem-estar social e foi resultado da luta socialista ao longo de quase dois s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Embora, possa se dizer, sobretudo ap\u00f3s a queda do muro de Berlim, que muitas das experi\u00eancias que se reivindicam socialistas tamb\u00e9m fracassaram na constru\u00e7\u00e3o de um outro modelo de sociedade, a luta socialista permitiu avan\u00e7os civilizat\u00f3rios e humanos mesmo dentro de pa\u00edses que se mantiveram capitalistas, a partir da perspectiva de que a vida n\u00e3o pode ser tratada como uma mercadoria, e que os bens comuns, ou seja a sa\u00fade, a educa\u00e7\u00e3o, a \u00e1gua, o conjunto dos recursos naturais precisam ser vistos como propriedades coletivas.<\/p>\n<p class=\"destaque-centro\">\u201cCuba desenvolveu um dos melhores sistemas de sa\u00fade do mundo, erradicou o analfabetismo, desenvolveu um sistema de educa\u00e7\u00e3o p\u00fablico universal e permitiu um despertar cultural da popula\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Trata-se de uma batalha cotidiana nos embates pol\u00edticos ao redor do mundo. \u00c9 um debate que acontece inclusive dentro da esquerda socialista: qual \u00e9 a melhor forma de levar adiante essa luta? Estou entre aqueles que n\u00e3o acreditam que o melhor caminho seja simplesmente atrav\u00e9s da propaganda, da agita\u00e7\u00e3o socialista ou de uma cultura acad\u00eamica que eleve o socialismo \u00e0 uma abstra\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, acredito que, por exemplo, dentro de movimentos sociais como o MTST e o MST voc\u00ea tem os embri\u00f5es da constru\u00e7\u00e3o socialista, transformando desde modo de produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o da vida, de redes de solidariedade de trabalho coletivo de ajuda m\u00fatua. \u00c9 por a\u00ed o melhor caminho para pensarmos o avan\u00e7o da luta socialista num mundo t\u00e3o desigual como o que a gente vive.<\/p>\n<p class=\"pergunta\"><strong>LO<\/strong><\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea mencionou a queda do muro de Berlim. Durante a queda do bloco socialista foi propagandeada, inclusive nos c\u00edrculos de esquerda, a suposta inviabilidade do socialismo, deixando de ser um horizonte a se vislumbrar. Ao mesmo tempo, assistimos um avan\u00e7o na crise do capitalismo, em especial desde 2008 e com a pandemia do Covid-19. Como voc\u00ea enxerga o cen\u00e1rio na constru\u00e7\u00e3o dessas alternativas antes desacreditadas?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\"><strong>GB<\/strong><\/p>\n<p>Acredito que \u00e9 preciso olhar para as experi\u00eancias das revolu\u00e7\u00f5es populares, socialistas do s\u00e9culo XX a partir do seu momento hist\u00f3rico e das condi\u00e7\u00f5es nas quais ocorreram. N\u00e3o podemos ter uma leitura atemporal. Na maior parte dos pa\u00edses onde ocorreram essas revolu\u00e7\u00f5es, havia um desenvolvimento extremamente atrasado das for\u00e7as produtivas do pr\u00f3prio capitalismo, deixando com os governos populares revolucion\u00e1rios diversas tarefas do desenvolvimento das for\u00e7as produtivas. Nesse contexto, houve uma centraliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica excessiva, porque se esses pa\u00edses que estavam fora do mercado mundial capitalista n\u00e3o tivessem um desenvolvimento econ\u00f4mico acelerado n\u00e3o sobreviveriam.<\/p>\n<p>Alguns te\u00f3ricos que fazem a leitura de que esses pa\u00edses n\u00e3o chegaram propriamente a desenvolver sociedades socialistas, e sim uma esp\u00e9cie de um capitalismo de Estado, estatizando os meios de produ\u00e7\u00e3o, mas mantendo rela\u00e7\u00f5es mercantis e hier\u00e1rquicas, inclusive mantendo as rela\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o sobre o trabalho. N\u00e3o podemos fazer uma an\u00e1lise dessas experi\u00eancias sem remeter a esse contexto econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que h\u00e1 muito o que aprender com cada um desses processos revolucion\u00e1rios, mas eu, por exemplo, n\u00e3o vejo o modelo pol\u00edtico baseado em um partido \u00fanico um caminho que nos inspire na constru\u00e7\u00e3o do socialismo do futuro, n\u00e3o enxergo que o enfraquecimento ou mesmo, em alguns casos, a aniquila\u00e7\u00e3o dos instrumentos de poder popular surgidos dessas revolu\u00e7\u00f5es, conselhos populares de todo tipo, tenha alcan\u00e7ado bons resultados, muito pelo contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Portanto essas experi\u00eancias t\u00eam muitos limites ligados ao seu tempo, mas ao mesmo tempo \u00e9 importante notar que h\u00e1 um legado hist\u00f3rico a ser preservado, de avan\u00e7os importantes das sociedades que viveram as experi\u00eancias de revolu\u00e7\u00f5es socialistas. Se olharmos para o exemplo de Cuba, que \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o que persiste at\u00e9 hoje, um pa\u00eds agr\u00e1rio, com uma popula\u00e7\u00e3o menor que a cidade de S\u00e3o Paulo, \u00e9 um pa\u00eds que, justamente, n\u00e3o teve uma oportunidade de desenvolver uma ind\u00fastria pr\u00f3pria, mas pode sobreviver sem a rela\u00e7\u00e3o com o mercado mundial, apenas uma rela\u00e7\u00e3o de troca internacional favor\u00e1vel com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. E, mesmo assim, Cuba desenvolveu um dos melhores sistemas de sa\u00fade do mundo, erradicou o analfabetismo, desenvolveu um sistema de educa\u00e7\u00e3o p\u00fablico universal, permitiu um despertar de uma produ\u00e7\u00e3o cultural incr\u00edvel, desenvolveu pol\u00edticas de lazer, esporte, sobretudo para os jovens, o que inclusive se expressa nos resultados de alto desempenho em Olimp\u00edadas.<\/p>\n<p>Muitas vezes esses debates se d\u00e3o de forma desqualificada. Durante as minhas duas candidaturas, fui questionado insistentemente pela imprensa: \u201ca Venezuela \u00e9 um modelo? Cuba \u00e9 um modelo a ser seguido?\u201d No Brasil precisamos construir o nosso pr\u00f3prio caminho democr\u00e1tico ao socialismo, a partir da nossa diversidade, da nossa hist\u00f3ria, aprendendo com outras experi\u00eancias, mas sem copiar modelos.<\/p>\n<p class=\"pergunta\"><strong>LO<\/strong><\/p>\n<p><strong>Se por um lado ainda vemos essa desconfian\u00e7a da possibilidade do socialismo como sistema vi\u00e1vel, novas pesquisas de opini\u00e3o t\u00eam mostrado que em diversas partes do mundo h\u00e1 um interesse maior sobre o socialismo nas novas gera\u00e7\u00f5es. Voc\u00ea enxerga uma retomada no debate socialista, ou \u00e9 ainda algo muito abstrato?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\"><strong>GB<\/strong><\/p>\n<p>A juventude sempre \u00e9 mais rebelde, s\u00e3o detentores de uma indigna\u00e7\u00e3o \u00e0 flor da pele, n\u00e3o aceitam como natural as desigualdades nem\u00a0<em>o status quo<\/em>\u00a0vigente. \u00c9 natural, portanto, que na juventude haja maior propens\u00e3o a ideais pol\u00edticos anticapitalistas e socialistas.<\/p>\n<p>A juventude tem sido um motor de movimentos contestat\u00f3rios, dos movimentos de indigna\u00e7\u00e3o com a crise de representatividade das democracias liberais, dos nossos sistemas pol\u00edticos, dos movimentos de indigna\u00e7\u00e3o contra a concentra\u00e7\u00e3o de riqueza e de poder do 1%. S\u00e3o parte da base social ativa na constru\u00e7\u00e3o de novas alternativas eleitorais e nos movimentos sociais. Essa chama est\u00e1 viva.<\/p>\n<p class=\"pergunta\"><strong>LO<\/strong><\/p>\n<p><strong>Muitos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina passaram por governos de esquerda, no que se chamou de \u201cciclo progressista\u201d, ou \u201conda rosa\u201d. E \u00e9 verdade que promoveram avan\u00e7os muito significativos em v\u00e1rios temas, mas nem sempre colocaram o desafio de se construir uma alternativa socialista. O chavismo colocou mais esse desafio, e talvez um pouco o MAS boliviano, \u00e0 sua maneira. Mas, de forma geral, a quest\u00e3o do socialismo n\u00e3o atravessou esse ciclo como um todo. Quais li\u00e7\u00f5es voc\u00ea acha que podemos tirar desse ciclo progressista em rela\u00e7\u00e3o ao debate sobre a constru\u00e7\u00e3o do socialismo?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\"><strong>GB<\/strong><\/p>\n<p>Primeiro \u00e9 preciso notar, como voc\u00ea disse, que ocorreram avan\u00e7os importantes na Am\u00e9rica Latina, principalmente na primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI. Foi uma onda de governos progressistas, muitos deles com forte vi\u00e9s anti-imperialista, e bem diversos entre si, \u00e9 verdade. Alguns avan\u00e7aram, mas outros foram mais t\u00edmidos nos seus avan\u00e7os, mas, de fato, tiveram um limite, um teto nos marcos institucionais do Estado capitalista.<\/p>\n<p>Se quisermos tirar li\u00e7\u00f5es sobre esses limites, ou apontar esses limites, destacaria principalmente tr\u00eas: primeiro, o descuido em n\u00e3o apostar t\u00e3o intensamente em formas de poder popular, formas de participa\u00e7\u00e3o popular direta que aprofundassem a democracia. Ao n\u00e3o avan\u00e7ar nesse sentido, os governos progressistas ficaram ref\u00e9ns dos velhos modelos de governabilidade e tiveram que fazer alian\u00e7as com as aristocracias pol\u00edticas que estavam incrustadas no Estado, e isso tamb\u00e9m imp\u00f4s limites estreitos. Na maioria dos casos, n\u00e3o houve aposta na mobiliza\u00e7\u00e3o popular e nem nos movimentos sociais tamb\u00e9m como uma forma de poder.<\/p>\n<p class=\"destaque-centro\">\u201cUm tema estava totalmente fora da agenda das experi\u00eancias do s\u00e9culo XX: o tema ambiental. \u00c9 impens\u00e1vel hoje falarmos de socialismo sem falar num outro modelo de desenvolvimento.\u201d<\/p>\n<p>Um segundo ponto \u00e9 que faltou disputa cultural e disputa de valores. Pepe Mujica disse isso muito bem: \u201cn\u00f3s formamos bons consumidores, mas n\u00e3o formamos cidad\u00e3os\u201d. Foi o que no Brasil permitiu o avan\u00e7o da extrema direita. Estamos aprendendo isso a duras penas. O bolsonarismo no Brasil faz guerra cultural todos os dias: um n\u00facleo duro e ideol\u00f3gico de extrema direita, que trava essa batalha incessantemente. A esquerda n\u00e3o se disp\u00f4s a disputar o avan\u00e7o de consci\u00eancia justamente daqueles setores que tiveram uma melhora econ\u00f4mica durante os governos progressistas.<\/p>\n<p>E o terceiro ponto \u00e9 que houve muitos limites no enfrentamento do conflito distributivo. Esses governos tiveram uma caracter\u00edstica de fazer pol\u00edticas sociais extremamente importantes, mas principalmente de manejo or\u00e7ament\u00e1rio se valendo do crescimento econ\u00f4mico ligado ao\u00a0<em>boom<\/em>\u00a0das commodities, a amplia\u00e7\u00e3o dos mercados internos e ao cr\u00e9dito, e com isso n\u00e3o se tocou, por exemplo, em temas como reformas mais estruturantes, tal como a reforma tribut\u00e1ria, que enfrentem mais frontalmente a desigualdade. N\u00e3o se tocou, tampouco, em temas como a absurda concentra\u00e7\u00e3o banc\u00e1ria e as taxas de juros no Brasil, as maiores do mundo. Precisamos pensar pra valer sobre esses pontos, e abord\u00e1-los estrategicamente, em um novo ciclo progressista do nosso continente.<\/p>\n<p class=\"pergunta\"><strong>LO<\/strong><\/p>\n<p><strong>Vamos nos deter um pouco mais sobre o tema das li\u00e7\u00f5es que poder\u00edamos tirar das experi\u00eancias passadas de constru\u00e7\u00e3o do socialismo, ao longo do s\u00e9culo XX. Voc\u00ea mencionou o tema do produtivismo, no desafio do desenvolvimento das for\u00e7as produtivas, e agora vemos uma poss\u00edvel contradi\u00e7\u00e3o que hoje isso apresenta com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o ambiental. O tema da centraliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica tamb\u00e9m foi mencionado. Que outras li\u00e7\u00f5es seria poss\u00edvel ainda tirar dessas experi\u00eancias?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\"><strong>GB<\/strong><\/p>\n<p>Temos que tomar cuidado para n\u00e3o fazermos um debate extempor\u00e2neo em rela\u00e7\u00e3o a isso. Aquelas experi\u00eancias est\u00e3o circunscritas nos seus momentos hist\u00f3ricos. O desafio que n\u00f3s temos \u00e9 fazer um balan\u00e7o, cr\u00edtico e ponderando, reconhecendo todas as contradi\u00e7\u00f5es, os descaminhos que essas experi\u00eancias tiveram, mas avaliando tamb\u00e9m o quanto elas avan\u00e7aram em suas sociedades. Mas n\u00e3o acho que sirva muito para n\u00f3s, para pensar uma estrat\u00e9gia de avan\u00e7o da luta popular do enfrentamento \u00e0s desigualdades do capitalismo atual, ficarmos presos a modelos, tendo como refer\u00eancia as experi\u00eancias do que se chamou de \u201csocialismo real\u201d. Vale muito mais, \u00e9 mais \u00fatil para as batalhas que teremos que travar no nosso tempo, termos como ponto de partida as contradi\u00e7\u00f5es da realidade atual. A partir da realidade contradit\u00f3ria do capitalismo contempor\u00e2neo, dos seus antagonismos e das lutas que emergem da\u00ed, como pensar o projeto socialista hoje? Que temas precisam ser tratados com prioridade?<\/p>\n<p>Um tema estava totalmente fora da agenda das experi\u00eancias do s\u00e9culo XX: o tema ambiental. \u00c9 impens\u00e1vel hoje falarmos de socialismo sem falar num outro modelo de desenvolvimento, um modelo de desenvolvimento que zere as emiss\u00f5es de carbono, que fa\u00e7a uma transi\u00e7\u00e3o para energias limpas e uma transi\u00e7\u00e3o para modais de transporte n\u00e3o-poluentes e elabore um plano de erradica\u00e7\u00e3o dos combust\u00edveis f\u00f3sseis no m\u00e9dio prazo.<\/p>\n<p>Um modelo que estabele\u00e7a uma outra rela\u00e7\u00e3o com a terra na agricultura, com a redu\u00e7\u00e3o do uso de fertilizantes qu\u00edmicos e de agrot\u00f3xicos, com a valoriza\u00e7\u00e3o e fomento das experi\u00eancias agroecol\u00f3gicas, que zere o desmatamento e preserve os territ\u00f3rios dos povos origin\u00e1rios. E que tenha uma pol\u00edtica ousada em rela\u00e7\u00e3o a preserva\u00e7\u00e3o da \u00e1gua, que vai ser talvez, j\u00e1 se diz por a\u00ed, objeto de guerras no futuro, porque \u00e9 o nosso principal recurso natural para sobreviv\u00eancia, e est\u00e1 sendo destru\u00eddo por esse modelo de desenvolvimento. A quest\u00e3o ambiental \u00e9 um dos debates que precisamos colocar no centro da agenda, em articula\u00e7\u00e3o com o debate da desigualdade social.<\/p>\n<p class=\"destaque-centro\">\u201cConheci de perto, por exemplo, a experi\u00eancia da Ferruve De El Alto, na Bol\u00edvia. \u00c9 impressionante o que constru\u00edram a partir de ra\u00edzes comunit\u00e1rias ind\u00edgenas, um povo desterrado.\u201d<\/p>\n<p>Se tiv\u00e9ssemos que resumir a luta socialista em um mote, seria o enfrentamento \u00e0 desigualdade social. Mas as desigualdades e as disfun\u00e7\u00f5es do capitalismo hoje n\u00e3o se resumem a desigualdade econ\u00f4mica No caso do nosso pa\u00eds isso \u00e9 hoje muito evidente. A desigualdade social \u00e9 multifacetada, envolve uma complexidade de fatores e experi\u00eancias, como o processo de lutas antirracistas que estamos vendo ao redor do mundo e o surgimento de potentes movimentos feministas contra a l\u00f3gica do patriarcado. Ent\u00e3o, todos esses temas s\u00e3o muito mais candentes hoje. N\u00e3o estavam t\u00e3o presentes na agenda h\u00e1 50 anos atr\u00e1s, ou quando os autores cl\u00e1ssicos da tradi\u00e7\u00e3o socialista produziram suas obras. \u00c9 da\u00ed, das quest\u00f5es do nosso tempo, que temos que partir para pensar um novo modelo de sociedade, o outro mundo que queremos.<\/p>\n<p class=\"pergunta\"><strong>LO<\/strong><\/p>\n<p><strong>Indo para quest\u00f5es mais pr\u00e1ticas, como lidar com alguns desafios que se imp\u00f5e inevitavelmente sobre a milit\u00e2ncia cotidiana organizada, de quem est\u00e1 nessa batalha pelo socialismo, como o tema da burocratiza\u00e7\u00e3o, da adapta\u00e7\u00e3o institucional, da democracia interna?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\"><strong>GB<\/strong><\/p>\n<p>Acredito numa rela\u00e7\u00e3o viva entre organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e movimentos sociais. Acho que a constru\u00e7\u00e3o de formas de poder popular, sobretudo nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas na Am\u00e9rica Latina, a partir da luta na organiza\u00e7\u00e3o territorial, s\u00e3o uma esp\u00e9cie de ant\u00eddoto contra o desvio burocr\u00e1tico dos instrumentos pol\u00edticos organizativos. Conheci de perto, por exemplo, a experi\u00eancia da Ferruve De El Alto, na Bol\u00edvia. \u00c9 impressionante o que constru\u00edram a partir de ra\u00edzes comunit\u00e1rias ind\u00edgenas, um povo desterrado. El Alto \u00e9 uma cidade com 1 milh\u00e3o de habitantes, na beira de La Paz. E eles constru\u00edram uma organiza\u00e7\u00e3o popular comunit\u00e1ria, assemble\u00edsta, que era um poder pr\u00f3prio. Tinha mais poder que a prefeitura do munic\u00edpio; debatia o or\u00e7amento, os problemas do bairro, da cidade e as iniciativas comuns.<\/p>\n<p>Essas constru\u00e7\u00f5es coletivas de formas de resist\u00eancia e de organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria a partir do territ\u00f3rio d\u00e3o um exemplo bem pr\u00e1tico de como lidar com esses desvios, que aconteceram frequentemente na trajet\u00f3ria da esquerda. \u00c9 importante tamb\u00e9m resgatar o significado da milit\u00e2ncia. A ideia mesma de milit\u00e2ncia foi algo muito atacado na era neoliberal: \u201c\u00e9 tudo interesse pessoal\u201d, \u201co militante s\u00f3 quer ganhar dinheiro\u201d, \u201cquer um cargo\u201d. Pura ideologia. A figura do militante \u00e9 a de algu\u00e9m que se engaja, frequentemente com custos pessoais, em um projeto de poder que n\u00e3o \u00e9 privado, ou pessoal, mas coletivo. Por isso o ataque, para esvaziar a milit\u00e2ncia, rebaixar toda a escolha \u00e9tica que ela significa. Porque sem militante n\u00e3o h\u00e1 a\u00e7\u00e3o coletiva, a vit\u00f3ria popular depende disso.<\/p>\n<p class=\"destaque-centro\">\u201cNo partido se discute estrat\u00e9gia, mas tamb\u00e9m se discute as lutas concretas, assim como nos movimentos sociais tamb\u00e9m se formula estrategicamente.\u201d<\/p>\n<p>Acho que \u00e9 papel da nossa gera\u00e7\u00e3o recuperar esse significado de milit\u00e2ncia. Ser militante \u00e9 um ato de coragem, de dedicar parte dos seus melhores anos, das suas mais fortes energias, para um projeto que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 seu, para um sonho compartilhado com muita gente. \u00c9 um ato de insist\u00eancia e persist\u00eancia, um ato de esperan\u00e7a, uma aposta no futuro. Recuperar o papel da milit\u00e2ncia \u00e9 tamb\u00e9m o ant\u00eddoto contra rela\u00e7\u00f5es simplesmente verticais que se estabelecem nas organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de esquerda.<\/p>\n<p class=\"pergunta\"><strong>LO<\/strong><\/p>\n<p><strong>Nesse sentido, qual o papel das ferramentas partid\u00e1rias nessa luta? Qual deve ser o tipo de rela\u00e7\u00e3o buscada entre essas ferramentas partid\u00e1rias e os movimentos sociais, de maneira mais geral?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\"><strong>GB<\/strong><\/p>\n<p>Sou muito simp\u00e1tico ao conceito de \u201cpartido movimento\u201d: uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica partid\u00e1ria, mas fluida, menos centralizada, mais aberta \u00e0 influ\u00eancia das for\u00e7as vivas da sociedade e com uma rela\u00e7\u00e3o de complementa\u00e7\u00e3o com os movimentos sociais. Se construiu uma ideia ao longo da hist\u00f3ria do movimento oper\u00e1rio, do movimento comunista, de que o partido seria a vanguarda da luta e que os movimentos sociais, com suas lutas corporativas e reivindicativas, deveriam levar a pol\u00edtica do partido ao movimento de massas. O movimento \u00e9 o espa\u00e7o da luta cotidiana, mas o espa\u00e7o da pol\u00edtica, da estrat\u00e9gia propriamente dita, seria s\u00f3 do partido. Essa vis\u00e3o, do meu ponto de vista, al\u00e9m de equivocada, fracassou historicamente.<\/p>\n<p>Temos movimentos sociais pujantes com uma tremenda diversidade, que surgem de lutas concretas, e muitos dos atores dessas lutas n\u00e3o querem ser dirigidos por um partido tradicional, querem discutir tamb\u00e9m a pol\u00edtica nos movimentos. Penso que cada vez mais vamos precisar nos aproximar dessas formas h\u00edbridas, em que o partido \u00e9 a express\u00e3o pol\u00edtica do movimento social e em que o movimento social constr\u00f3i os seus espa\u00e7os de representa\u00e7\u00e3o por meio dos partidos.<\/p>\n<p class=\"destaque-centro\">\u201cO caminho para uma transforma\u00e7\u00e3o social mais profunda, estrutural, passa por combinar a a\u00e7\u00e3o institucional, com a\u00e7\u00f5es de organiza\u00e7\u00e3o popular e de mobiliza\u00e7\u00e3o na luta territorial em organiza\u00e7\u00f5es coletivas.\u201d<\/p>\n<p>No partido se discute estrat\u00e9gia, mas tamb\u00e9m se discute as lutas concretas, assim como nos movimentos sociais tamb\u00e9m se formula estrategicamente. H\u00e1 algumas experi\u00eancias concretas interessantes, cada uma com suas contradi\u00e7\u00f5es e com os seus limites, de partido movimento, que foram se construindo seja na Am\u00e9rica Latina, e o MAS da Bol\u00edvia \u00e9 uma express\u00e3o disso, ou na Europa, como o PODEMOS e toda essa gera\u00e7\u00e3o de partidos de nova esquerda, que tamb\u00e9m expressam de alguma maneira isso.<\/p>\n<p class=\"pergunta\"><strong>LO<\/strong><\/p>\n<p><strong>Vamos terminar com uma quest\u00e3o mais estrat\u00e9gica. Concordo que o nosso debate pode at\u00e9 se referenciar de alguma maneira nas experi\u00eancias do s\u00e9culo XX, mas que fundamentalmente precisamos criar o nosso projeto, a nossa estrat\u00e9gia para o nosso tempo. Como voc\u00ea v\u00ea o caminho para o poder, para se construir o socialismo na pr\u00e1tica?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\"><strong>GB<\/strong><\/p>\n<p>Enxergo que a luta anticapitalista hoje passa necessariamente por uma uma estrat\u00e9gia combinada: uma estrat\u00e9gia institucional articulada \u00e0 luta de massas. Se n\u00f3s olharmos as experi\u00eancias mais recentes, da luta da esquerda mundial, vamos encontrar experi\u00eancias que descuidaram da luta de massas e se dedicaram exclusivamente \u00e0 luta institucional e a\u00ed encontraram o seu limite. Vamos encontrar tamb\u00e9m, em menor medida, \u00e9 claro, experi\u00eancias que desacreditaram a institucionalidade como espa\u00e7o de mudan\u00e7a, disputaram unicamente a luta de massas, a luta popular, e encontraram um limite de esvaziamento, de perda de capacidade de tradu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do ac\u00famulo social que tiveram.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o caminho para uma transforma\u00e7\u00e3o social mais profunda, estrutural, passa por combinar a a\u00e7\u00e3o institucional, a disputa dos espa\u00e7os do Estado e da pol\u00edtica, das pol\u00edticas p\u00fablicas do Estado, do or\u00e7amento p\u00fablico, com a\u00e7\u00f5es de organiza\u00e7\u00e3o popular e de mobiliza\u00e7\u00e3o na luta territorial para fomentar as formas de organiza\u00e7\u00e3o coletiva, as redes solid\u00e1rias e de apoio m\u00fatuo que sejam capazes de sustentar e impulsionar avan\u00e7os institucionais. E que tamb\u00e9m possam barrar retrocessos, quando esses avan\u00e7os encontrarem rea\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias por parte das for\u00e7as que sempre comandaram o Estado.<\/p>\n<p>Circulou muito na Am\u00e9rica Latina a ideia de que durante os governos progressistas os movimentos sociais n\u00e3o deveriam se manifestar, porque isso significaria \u201cfazer o jogo da direita\u201d. Como os governos j\u00e1 estavam pressionados demais pelo poder econ\u00f4mico e pela direita, o papel do movimento social seria unicamente defender o governo. Esse tipo de orienta\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, que na verdade esconde uma falta de vis\u00e3o estrat\u00e9gica, se revelou suicida. Pois \u00e9 justamente o movimento social forte e atuante que tem condi\u00e7\u00e3o de fazer o contraponto, de fazer a disputa para que esse tipo de governo possa ter mais avan\u00e7os, possa ir mais longe no enfrentamento \u00e0s desigualdades estruturais do capitalismo. Por isso, vejo na combina\u00e7\u00e3o dessas duas linhas de atua\u00e7\u00e3o o melhor caminho para os desafios que temos hoje.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Entre a estrat\u00e9gia institucional e a luta de massas &#8211; https:\/\/jacobin.com.br\/2023\/02\/entre-a-disputa-institucional-e-a-luta-de-massas\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lucas Oliveira &#8211; Hoje, Guilherme Boulos, eleito o deputado federal mais votado de S\u00e3o Paulo, toma posse no Congresso. 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