{"id":18876,"date":"2023-02-08T12:16:31","date_gmt":"2023-02-08T15:16:31","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18876"},"modified":"2023-02-06T20:22:07","modified_gmt":"2023-02-06T23:22:07","slug":"davos-kiev-e-brasilia-o-ocaso-de-um-projeto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/02\/08\/davos-kiev-e-brasilia-o-ocaso-de-um-projeto\/","title":{"rendered":"Davos, Kiev e Bras\u00edlia \u2013 o ocaso de um projeto"},"content":{"rendered":"<p><strong>JOS\u00c9 LU\u00cdS FIORI &#8211;\u00a0<\/strong>A desconstru\u00e7\u00e3o de uma cren\u00e7a, um projeto e uma estrat\u00e9gia que se transformaram na b\u00fassola da pol\u00edtica internacional dos EUA<\/p>\n<blockquote><p>\u201cThe institutions of the neoliberal project were designed not to liberate markets but to encase them, to inoculate capitalism against the threat of democracy, to create a framework to contains often-irrational human behavior\u201d<em>\u00a0(<\/em><strong>Faroohar, R<\/strong>.\u00a0<em>After Neoliberalism<\/em>, Nov\/Dec 2022\u00a0<a href=\"https:\/\/www.foreignaffairs.com\/\">https:\/\/www.foreignaffairs.com<\/a>)<\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c0 primeira vista, o t\u00edtulo deste artigo mistura coisas muito diferentes entre si, mas seu objetivo \u00e9 demonstrar exatamente o contr\u00e1rio: que os acontecimentos das primeiras semanas de 2023, ocorridos nessas tr\u00eas cidades do \u201cmundo ocidental\u201d, t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o muito grande entre si. Ou, pelo menos, t\u00eam tudo a ver com a desconstru\u00e7\u00e3o de uma cren\u00e7a, um projeto e uma estrat\u00e9gia que se transformaram na b\u00fassola da pol\u00edtica internacional dos Estados Unidos, depois da sua crise no in\u00edcio dos anos 1970, em particular ap\u00f3s o fim do Sistema de\u00a0<em>Bretton Woods<\/em>\u00a0e da derrota na Guerra do Vietn\u00e3, em 1973.<\/p>\n<p>Nesse momento, foi criado o Simp\u00f3sio Europeu de Gest\u00e3o, que depois se chamaria F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial e se transformaria, nos anos 1990, no lugar de encontro anual de uma nova elite econ\u00f4mica e pol\u00edtica mundial que foi nascendo \u00e0 sombra do processo da globaliza\u00e7\u00e3o financeira e do novo Sistema Monet\u00e1rio Internacional, baseado exclusivamente no d\u00f3lar e na d\u00edvida p\u00fablica americana, e gerido, em \u00faltima inst\u00e2ncia, pelo FED, o Banco Central dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Na virada do mil\u00eanio, a reuni\u00e3o anual de Davos j\u00e1 havia sido transformada na vitrine onde se expunham as grandes celebridades desse novo mundo, e onde a nova elite mundial debatia os problemas enfrentados pelo projeto da globaliza\u00e7\u00e3o. Por ali passavam centenas de executivos e tecnocratas das grandes corpora\u00e7\u00f5es e bancos internacionais, pol\u00edticos, jornalistas, l\u00edderes religiosos, intelectuais org\u00e2nicos e dirigentes de organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais que analisavam os pa\u00edses, governos e programas para os quais poderiam deslocar seus investimentos e cadeias de produ\u00e7\u00e3o, que viraram a nova \u201cvarinha m\u00e1gica\u201d do desenvolvimento capitalista dos \u201cpa\u00edses atrasados\u201d.<\/p>\n<p>Aos poucos foi se consolidando um novo grupo de poder ou \u201cburguesia internacionalizada\u201d, cada vez aut\u00f4noma e imperme\u00e1vel com rela\u00e7\u00e3o aos conflitos locais e \u00e0s press\u00f5es democr\u00e1ticas dos cerca de 200 estados nacionais existentes. Um dos pontos, ali\u00e1s, em que o projeto da globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica alcan\u00e7ou pleno sucesso, ao lograr autonomizar quase completamente as decis\u00f5es dos mercados financeiros internacionais com rela\u00e7\u00e3o aos governos locais da maioria dos Estados nacionais (com exce\u00e7\u00e3o, evidentemente, dos Estados Unidos, e em alguma medida, tamb\u00e9m da China). N\u00e3o foi por acaso que no mesmo per\u00edodo a \u201cestatura pol\u00edtica\u201d dos governantes nacionais foi ficando menos relevante, sobretudo no Ocidente, onde os pol\u00edticos tradicionais foram sendo substitu\u00eddos por atores de cinema, animadores de televis\u00e3o, esportistas de sucesso, palha\u00e7os de circo, alc\u00f3olatras, psicopatas e celebridades de qualquer outro tipo que fossem festejadas pelas grandes massas como \u201cfiguras rebeldes\u201d, quando na verdade n\u00e3o passavam de \u201cfiguras exc\u00eantricas\u201d que atuavam, na maioria dos casos, como marionetes dos novos grandes centros internacionalizados de decis\u00e3o financeira.<\/p>\n<p>O que passou menos percebido naquele momento de virada e mudan\u00e7a da estrat\u00e9gia internacional dos Estados Unidos foi a cria\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea de uma esp\u00e9cie de \u201ccomit\u00ea central\u201d das grandes pot\u00eancias ocidentais (mais o Jap\u00e3o), o chamado G7, no ano de 1975, quase ao mesmo tempo em que se institu\u00eda um novo sistema internacional de pagamentos, o SWIFT, com sede formal em Bruxelas e dirigido por um comit\u00ea formado pelos Bancos Centrais dos mesmos pa\u00edses do G7, al\u00e9m de Su\u00ed\u00e7a, Su\u00e9cia e Pa\u00edses Baixos. Um comit\u00ea que passou a centralizar todas as informa\u00e7\u00f5es e a controlar todas as opera\u00e7\u00f5es financeiras realizadas em todo o mundo, por cima do controle dos bancos centrais de cada pa\u00eds.<\/p>\n<p>Assim o projeto da globaliza\u00e7\u00e3o financeira foi assentando suas bases e impondo sua legitimidade, na medida em que os demais pa\u00edses foram delegando ou sendo obrigados a delegar sua soberania financeira para os bancos centrais desse novo grupo de poder internacional, o G7+, ou SWIFT. Um movimento de transfer\u00eancia, centraliza\u00e7\u00e3o e controle de informa\u00e7\u00f5es e decis\u00f5es que alcan\u00e7ou seu \u00e1pice no in\u00edcio da Guerra Global ao Terrorismo, declarada pelos Estados Unidos em 2001. Naquele momento, o governo norte-americano exigiu de seus principais aliados o repasse do sistema de informa\u00e7\u00f5es e o poder de decis\u00e3o, em \u00faltima inst\u00e2ncia, dentro do SWIFT, para seu pr\u00f3prio Banco Central e seu Departamento de Justi\u00e7a, que passaram a controlar e operar uma capacidade sem precedentes de arb\u00edtrio e uso de \u201cinforma\u00e7\u00f5es sigilosas\u201d, e de imposi\u00e7\u00e3o de san\u00e7\u00f5es financeiras, contra todo e qualquer pa\u00eds considerado seu inimigo ou competidor.<\/p>\n<p>J\u00e1 era ent\u00e3o poss\u00edvel ver o que, ap\u00f3s o in\u00edcio da Guerra da Ucr\u00e2nia, ficou absolutamente transparente, mesmo para os menos avisados: o projeto da globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal nunca foi apenas um imperativo dos mercados, e esteve sempre associado ao projeto de poder global dos Estados Unidos. Na verdade, a hist\u00f3ria da internacionaliza\u00e7\u00e3o capitalista dos \u00faltimos 50 anos \u00e9 insepar\u00e1vel da estrat\u00e9gia de poder internacional adotada pelos Estados Unidos em resposta \u00e0 sua crise do in\u00edcio dos anos 1970. Uma estrat\u00e9gia que alcan\u00e7ou seu pleno sucesso nos anos 1990, depois do fim da URSS e da Guerra Fria, e ap\u00f3s a estrondosa vit\u00f3ria militar americana na Guerra do Golfo. Uma express\u00e3o cabal desta vit\u00f3ria foi a inclus\u00e3o da R\u00fassia no grupo do G7, em 1998, que passou a se chamar de G8, at\u00e9 2014, quando a R\u00fassia foi afastada ap\u00f3s a interven\u00e7\u00e3o dos EUA e da OTAN na Ucr\u00e2nia, e depois das respostas dadas pelos russos, com a incorpora\u00e7\u00e3o da Crimeia ao seu territ\u00f3rio. O exato momento em que come\u00e7a a implos\u00e3o do projeto e da estrat\u00e9gia da globaliza\u00e7\u00e3o, acelerada logo em seguida, pelo in\u00edcio da \u201cguerra econ\u00f4mica\u201d declarada pelo governo de Donald Trump contra a economia chinesa.<\/p>\n<p>Essa fratura aumentou ainda mais ap\u00f3s a decis\u00e3o tomada pelos pa\u00edses da OTAN, no dia de 18 de janeiro, na cidade de Ramstein, na Alemanha, de enviar um contingente de tanques Leopard 2 (alem\u00e3es) e Abrams (norte-americanos) para a Ucr\u00e2nia, aumentando significativamente o envolvimento da OTAN numa guerra cada vez mais direta com a R\u00fassia, e deixando a Europa cada vez mais fraturada e distante da utopia da globaliza\u00e7\u00e3o. Basta ver a rapidez com que os pa\u00edses do G7 abriram m\u00e3o de um de seus segredos ou fetiches mais bem guardados \u2013 o da \u201cneutralidade\u201d da moeda e das finan\u00e7as internacionais \u2013 e passou a utiliz\u00e1-las como armas de guerra contra a R\u00fassia, de alguma forma tamb\u00e9m contra a China.<\/p>\n<p>Neste sentido pode-se afirmar, com toda certeza, que a busca da primazia militar mundial por parte dos Estados Unidos foi o que acabou destruindo seu pr\u00f3prio projeto econ\u00f4mico de globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal. N\u00e3o por acaso, neste ano de 2023, o F\u00f3rum Econ\u00f4mico de Davos escolheu como tema de discuss\u00e3o o problema da \u201ccoopera\u00e7\u00e3o em um mundo fraturado\u201d e o esvaziamento not\u00f3rio da reuni\u00e3o deixa claro que essas fraturas j\u00e1 s\u00e3o irrevers\u00edveis. N\u00e3o h\u00e1 mais nenhum governo s\u00e9rio no mundo que ainda acredite ou aposte no \u201cfuturo da globaliza\u00e7\u00e3o\u201d, e todos est\u00e3o se armando para enfrentar um longo per\u00edodo de retorno aos seus pr\u00f3prios espa\u00e7os econ\u00f4micos nacionais e regionais. Entre o projeto de poder e primazia militar global e o projeto dos mercados autorregulados, ganhou o projeto do imp\u00e9rio que acabou levando o mundo a uma guerra quase permanente, a partir de 2001, e a uma guerra europeia que dever\u00e1 se prolongar por muito tempo ainda, e sempre na beira de uma cat\u00e1strofe nuclear.<\/p>\n<p>O problema, contudo, \u00e9 que as consequ\u00eancias mais nefastas dos \u00faltimos 50 anos de globaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o param por a\u00ed. O pr\u00f3prio sucesso da desregula\u00e7\u00e3o e internacionaliza\u00e7\u00e3o dos mercados, e da acumula\u00e7\u00e3o exponencial da riqueza privada, acabou provocando, ao mesmo tempo, um aumento geom\u00e9trico da desigualdade de riqueza entre pa\u00edses, classes e indiv\u00edduos, e o fortalecimento \u2013 como j\u00e1 vimos \u2013 de uma \u201cburguesia global\u201d que cresceu, nesses 50 anos, de costas para suas sociedades de origem, mas com um enorme poder de mando frente aos seus Estados nacionais. E isto contribuiu decisivamente para o esvaziamento das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas tradicionais, que foram perdendo legitimidade frente \u00e0s grandes massas da popula\u00e7\u00e3o exclu\u00edda da festa da globaliza\u00e7\u00e3o, atropeladas, al\u00e9m disso, pelos processos de suas desindustrializa\u00e7\u00f5es nacionais e desmontagem de suas legisla\u00e7\u00f5es trabalhistas e organiza\u00e7\u00f5es sindicais, com o crescimento simult\u00e2neo de um imenso lumpenzinato, sem identidade coletiva ou nenhuma imagem social e ut\u00f3pica de futuro. Foi por essa mesma trilha que se perderam os partidos social democratas, e de certa forma, a esquerda em geral, cada vez mais fragmentada e dividida entre suas m\u00faltiplas causas e utopias comunit\u00e1rias.<\/p>\n<p>Por outro lado, este mesmo contexto global tem incentivado o aparecimento e expans\u00e3o das \u201crevoltas fascistas\u201d que se multiplicam por todos os lados, destruindo, quebrando e atacando a tudo e a todos que eles consideram \u201cc\u00famplices do sistema\u201d, incluindo os Estados nacionais, que perderam sua efic\u00e1cia dentro dessa ordem econ\u00f4mica neoliberal que vigorou nos \u00faltimos 50 anos.<strong><sup>[1]<\/sup><\/strong>.<\/p>\n<p>E \u00e9 aqui que se inscrevem tamb\u00e9m os ataques contra os pal\u00e1cios dos tr\u00eas poderes em Bras\u00edlia, no dia 8 de janeiro de 2023. Uma explos\u00e3o de barb\u00e1rie fascista e paramilitar que lembra formalmente o ataque ao Capit\u00f3lio, mas que no caso brasileiro apareceu como \u00faltimo cap\u00edtulo de um governo absolutamente ca\u00f3tico e autodestrutivo, que logrou juntar sob uma mesma tutela militar de extrema-direita, o fanatismo religioso, a viol\u00eancia fascista e um grupo de economistas ultraliberais que mais se pareciam com \u201cfantasmas de Davos\u201d, correndo atr\u00e1s de um mundo que j\u00e1 acabou.<\/p>\n<p>Quando se olha desta perspectiva para o que aconteceu no in\u00edcio do ano de 2023, em lugares t\u00e3o distantes como Davos, Kiev e Bras\u00edlia, consegue-se entender melhor o que h\u00e1 de comum entre a viol\u00eancia que est\u00e1 destruindo a Ucr\u00e2nia e a viol\u00eancia dos que destru\u00edram os pal\u00e1cios de Bras\u00edlia. Em claves diferentes, s\u00e3o produtos do mesmo desastre provocado por uma utopia econ\u00f4mica que foi atropelada e destru\u00edda pela disputa de poder global entre as grandes pot\u00eancias, e sobretudo, pela expans\u00e3o permanente do poder militar dos Estados Unidos, que foram \u2013 paradoxalmente \u2013 os grandes \u201cinventores\u201d e maiores benefici\u00e1rios do projeto da globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal.<\/p>\n<p>Foi por isso que, em 2023, as luzes de Davos se apagaram sem deixar nenhum brilho e suas celebridades foram saindo e desaparecendo da Montanha M\u00e1gica, em sil\u00eancio e cabisbaixos. A festa acabou, e o \u201cHomem de Davos\u201d (1973-2023) morreu, nas trincheiras da Ucr\u00e2nia, nas barricadas de Bras\u00edlia e em tantos outros lugares do mundo onde avan\u00e7am a desigualdade econ\u00f4mica, as fraturas sociais, as divis\u00f5es geopol\u00edticas e a viol\u00eancia fascista provocadas, em \u00faltima inst\u00e2ncia, pela cren\u00e7a cega nos mercados autorregulados e globais. Mas aten\u00e7\u00e3o, porque se o \u201cHomem de Davos\u201d morreu, o desastre que ele deixou atr\u00e1s de si deve atormentar o mundo ainda por muito tempo.<\/p>\n<p><strong>Nota<\/strong><\/p>\n<p><strong>[1]<\/strong>\u00a0Uma tend\u00eancia que podia ser percebida muito tempo atr\u00e1s, na d\u00e9cada de 1990, no momento de auge e grande sucesso aparente do projeto da globaliza\u00e7\u00e3o, como se pode ler num texto nosso de 1994: \u201cO que vem se afirmando como como consequ\u00eancia do projeto de globaliza\u00e7\u00e3o liberal e como efeito do esvaziamento da social-democracia, \u00e9 , por um lado, a barb\u00e1rie, e por outro, variadas formas de um nacionalismo fascista que Charles Mayer chamou do \u201cterritorial populismo\u201d referindo-se a Berlusconi, na It\u00e1lia\u2026\u201d (Jos\u00e9 Lu\u00eds Fiori, \u201cAs palavras e as coisas\u201d Caderno Mais,\u00a0<em>Folha de S. Paulo<\/em>, 14 de agosto de 1994).<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Davos, Kiev e Bras\u00edlia \u2013 o ocaso de um projeto &#8211; A TERRA \u00c9 REDONDA &#8211; https:\/\/aterraeredonda.com.br\/davos-kiev-e-brasilia-o-ocaso-de-um-projeto\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>JOS\u00c9 LU\u00cdS FIORI &#8211;\u00a0A desconstru\u00e7\u00e3o de uma cren\u00e7a, um projeto e uma estrat\u00e9gia que se transformaram na b\u00fassola da pol\u00edtica internacional dos EUA \u201cThe institutions of the neoliberal project were designed not to liberate markets but to encase them, to inoculate capitalism against the threat of democracy, to create a framework to contains often-irrational human [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":10073,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[1,3],"tags":[71],"class_list":["post-18876","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geografia","category-internacional","tag-geopolitica"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.8 - 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