{"id":18857,"date":"2023-02-01T12:00:42","date_gmt":"2023-02-01T15:00:42","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18857"},"modified":"2023-01-29T12:03:11","modified_gmt":"2023-01-29T15:03:11","slug":"reexame-das-fronteiras-do-capital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/02\/01\/reexame-das-fronteiras-do-capital\/","title":{"rendered":"Reexame das fronteiras do capital"},"content":{"rendered":"<p><strong>C\u00e9dric Durand<\/strong> &#8211; Estamos migrando para um tecnofeudalismo, ou seguimos mergulhados nas velhas l\u00f3gicas capitalistas? Economista franc\u00eas argumenta: \u00e9 preciso estar atento \u00e0s muta\u00e7\u00f5es do sistema \u2013 e isso em nada amortece nossa cr\u00edtica a ele.<\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo e matem\u00e1tico Blaise Pascal recomendava crer em Deus por raz\u00f5es pragm\u00e1ticas e l\u00f3gicas. Algu\u00e9m que aposta em sua exist\u00eancia e acerta, ganha tudo, pensava ele. E quem aposta e perde, est\u00e1 lascado. Logo, melhor acreditar\u2026 J\u00e1 o economista marxista C\u00e9dric Durand sugere considerar a hip\u00f3tese de que estamos transitando para um\u00a0<em>tecnofeudalismo\u00a0<\/em>por necessidade pol\u00edtica. Se estivermos errados, diz ele, nada perderemos, e poderemos voltar a recorrer \u00e0 cr\u00edtica anticapitalista de Marx tal como este a formulou. Mas se estivermos certos \u2013 ou seja, se a regress\u00e3o tecnofeudal for uma realidade \u2013 tudo ganhamos, pois teremos criado um novo instrumental te\u00f3rico para compreender o sistema que surge.<\/p>\n<p>Blague \u00e0 parte, a linha de racioc\u00ednio de Durand pode ser resumida mais ou mesmo assim:<\/p>\n<p>1. O feudalismo consiste em pequena produ\u00e7\u00e3o individual (portanto, com baixo n\u00edvel das for\u00e7as produtivas)\u00a0<strong>e\u00a0<\/strong>num sistema de captura da riqueza assegurado por constrangimento extraecon\u00f4mico (o senhor extrai a riqueza dos vassalos diretamente, gra\u00e7as a seu poder, e n\u00e3o ao mais-valor gerando indiretamente no processo produtivo).<\/p>\n<p>2. As novas tecnologias, evidentemente, n\u00e3o conduzem \u00e0 pequena produ\u00e7\u00e3o individual \u2013 muito ao contr\u00e1rio: o trabalho nunca foi t\u00e3o coletivizado.<\/p>\n<p>3. No entanto, esta socializa\u00e7\u00e3o \u201cassume car\u00e1ter regressivo\u201d. Como previu\u00a0<a href=\"https:\/\/www.google.com\/search?channel=fs&amp;client=ubuntu&amp;q=balibar&amp;si=AEcPFx7cBWmhotqAqJms-tchDs3r1ej2qPwJffqzmo1DtR2KATXBAUJThopxeJGagZOaugkBaYVk2W_qc4U-4g-JXxPajucEjuhcSBCdgDl8cqzefJncaww%3D&amp;ictx=1&amp;ved=2ahUKEwi5kYWN2uj8AhWLppUCHZpHCmkQnZMFegQIfRAC\">\u00c9tienne Balibar<\/a>, ela mercantiliza pouco a pouco todos os aspectos da vida social, ao ponto em que cada ato (inclusive a passividade e mesmo a morte) tende a ser vivido na forma de mercadoria.<\/p>\n<p>As plataformas sociais produziram este grau m\u00e1ximo de aliena\u00e7\u00e3o. Nelas, sequer trocamos mercadorias por dinheiro. Nos as alimentamos com nosso trabalho, e oferecemos nossos dados a uma megacorpora\u00e7\u00e3o que os converter\u00e1 em publicidade dirigida particularmente a n\u00f3s \u2013 sem que tenhamos a m\u00ednima autonomia na defini\u00e7\u00e3o desta escolha.<\/p>\n<p>E as corpora\u00e7\u00f5es que mant\u00eam as plataformas controlam, monopolisticamente, os meios simb\u00f3licos (a chance de estar onde todo mundo est\u00e10 e materiais (os centros de processamento, o espa\u00e7o na nuvem, os milh\u00f5es de quil\u00f4metros de cabos de fibra \u00f3tica, o uso da banda) indispens\u00e1veis para estar na rede \u2013 ou seja, para participar da vida social contempor\u00e2nea. As corpora\u00e7\u00f5es\u00a0<em>permitem\u00a0<\/em>que novos agentes entrem em seus dom\u00ednios, apenas para contar com um volume cada vez maior de dados a processar (veja o caso das grandes redes de varejo e seus \u201cmarketplaces\u201d). Se investem pesado em tecnologia, n\u00e3o \u00e9 principalmente para oferecer inova\u00e7\u00f5es \u00fateis \u2013 mas para manter seu lugar de dom\u00ednio na rede e evitar que rivais as desloquem do posto.<\/p>\n<p>\u00c9 por tudo isso, conclui Durand, que as novas tecnologias n\u00e3o est\u00e3o ampliando a produtividade do trabalho, ou multiplicando as ocupa\u00e7\u1ebdso e as rendas. Elas, ao cotnr\u00e1rio, contribuem para o grande desaproveitamento do trabalho; e para que o 0,1% mais rico tenha elevado sua participa\u00e7\u00e3o na riqueza social de 10,8% (em 1998) para 19,4% (em 2020). Os dados refrem-se aos EUA, mas ser\u00e3o semelhantes em quase todo o Ocidente.<\/p>\n<blockquote><p>Esta \u00e9 a imagem do Tecnofeudalismo, sintetiza Durand. Sem recuar um mil\u00edmetro da cr\u00edtica e da constru\u00e7\u00e3o te\u00f3rica de Marx, \u00e9 preciso compreend\u00ea-la e criar novas ferramentas pol\u00edticas para enfrent\u00e1-la, pensa o economista.\u00a0<strong>(Antonio Martins)<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Evgeny Morozov forneceu uma cr\u00edtica salutar das propostas recentes para conceituar as rela\u00e7\u00f5es sociais da economia digital \u2013 os usu\u00e1rios da web est\u00e3o supostamente presos como servos aos dom\u00ednios inescap\u00e1veis dos bar\u00f5es da tecnologia \u2013 por analogia com os da era feudal. A sua \u201cCr\u00edtica da Raz\u00e3o Tecno-feudal\u201d oferece uma revis\u00e3o sistem\u00e1tica do uso do termo feudal na teoria econ\u00f4mica contempor\u00e2nea. Trata-se, para ele, de um p\u00e2ntano discursivo no qual, ele acusa, \u201ca esquerda tem dificuldade em se diferenciar da direita\u201d \u2013 de neoliberais como Glen Weyl e Eric Posner, assim como de neo-reacion\u00e1rios como Curtis Yarvin e do anti-ativista (anti-wokite) Joel Kostin. Esses autores articulam a mesma cr\u00edtica \u201cneo-\u201d ou \u201ctecno-feudal\u201d tal como o fazem Yanis Varoufakis, Mariana Mazzucato, Robert Kuttner ou Jodi Dean.<\/p>\n<p>Se os pensadores radicais abra\u00e7aram o imagin\u00e1rio feudal como um estratagema ret\u00f3rico, como um meme aceit\u00e1vel, Morozov argumenta que isso \u00e9 uma prova n\u00e3o de arg\u00facia, mas de fraqueza intelectual \u2013 a coisa se passa \u201ccomo se a estrutura te\u00f3rica da esquerda n\u00e3o pudesse mais dar sentido ao capitalismo sem mobilizar a linguagem moral da corrup\u00e7\u00e3o e da pervers\u00e3o\u201d. Ao desviar sua aten\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es capitalistas reais para as reminisc\u00eancias do feudalismo, ela corre o risco de deixar sua presa real para perseguir uma sombra, desviando-se de seu \u00e2ngulo de ataque mais original e eficaz que se remete \u00e0s rela\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas de explora\u00e7\u00e3o \u2013 ou seja, ao seu sofisticado aparato pol\u00edtico te\u00f3rico anticapitalista.<a id=\"sdfootnote1anc\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote1sym\"><sup>1<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Ao definir os termos \u2013 o que faz do \u201ccapitalismo\u201d capitalismo e do \u201cfeudalismo\u201d feudalismo \u2013 Morozov remonta aos debates da d\u00e9cada de 1970, em particular \u00e0 cr\u00edtica de Robert Brenner ao texto\u00a0<em>The Origins of the Modern World System\u00a0<\/em>(1974) de Immanuel Wallerstein.<a id=\"sdfootnote2anc\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote2sym\"><sup>2<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Segundo Morozov, a distin\u00e7\u00e3o feita por Brenner entre dois modos de produ\u00e7\u00e3o \u2013 o primeiro deles fundado na compuls\u00e3o econ\u00f4mica que for\u00e7a os capitalistas a acumular via inova\u00e7\u00e3o e os indiv\u00edduos sem propriedades a se tornarem trabalhadores assalariados, distingue-se da apropria\u00e7\u00e3o senhorial via coer\u00e7\u00e3o feudal \u2013 embora seja ela \u201celegante e consistente\u201d, deve, no entanto, ser abandonada em favor da no\u00e7\u00e3o \u201canaliticamente mais confusa\u201d de Wallerstein, mas intuitivamente convincente, de um sistema-mundo capitalista constru\u00eddo sobre a transfer\u00eancia coercitiva do excedente da periferia para o centro.<\/p>\n<p>Assim, se o capitalismo sempre dependeu de um grau de apropria\u00e7\u00e3o extraecon\u00f4mica, n\u00e3o h\u00e1 necessidade de descrever as imposi\u00e7\u00f5es dos gigantes digitais por meio de monop\u00f3lios, ou a redistribui\u00e7\u00e3o ascendente da riqueza impulsionada pelo Estado, como um sistema social que n\u00e3o seja capitalista. Al\u00e9m disso, argumenta Morozov, a \u201cbig-tech\u201d \u00e9 de fato produtiva \u2013 por que mais a Alphabet e a Amazon investiriam dezenas de bilh\u00f5es em P\u00a0<em>&amp;\u00a0<\/em>D, o fazem para \u201cacumular via inova\u00e7\u00e3o\u201d?<a id=\"sdfootnote3anc\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote3sym\"><sup>3<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Para seu cr\u00e9dito, Morozov vai al\u00e9m da discuss\u00e3o das ambiguidades conceituais no novo uso do termo \u201cfeudalismo\u201d, desafiando tamb\u00e9m o n\u00facleo da hip\u00f3tese tecno-feudal \u2013 a ideia de que \u201calgo na natureza das redes de informa\u00e7\u00e3o e dados empurra a economia digital na dire\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica feudal do rentismo e da despossess\u00e3o, em vez da l\u00f3gica capitalista do lucro e da explora\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Lamentando a \u201cfalta de clareza anal\u00edtica\u201d, ele argumenta que n\u00e3o h\u00e1 necessidade de invocar o feudalismo: \u201co capitalismo est\u00e1 se movendo na mesma dire\u00e7\u00e3o de sempre, alavancando quaisquer recursos que possa mobilizar \u2013 e quanto mais barato sejam eles, melhor\u201d. N\u00e3o \u00e9 certo, afirma ele, que as tend\u00eancias redistributivas ascendentes de hoje vencer\u00e3o as produtivas. Mas isso n\u00e3o \u00e9 raz\u00e3o para acreditar que o tecno-capitalismo seja \u201cum regime mais agrad\u00e1vel, mais aconchegante e mais progressista\u201d do que o suposto tecno-feudalismo. Ao contr\u00e1rio, conclui Morozov: \u201cinvocando em v\u00e3o o \u00faltimo, corremos o risco de branquear a reputa\u00e7\u00e3o do primeiro\u201d.<a id=\"sdfootnote4anc\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote4sym\"><sup>4<\/sup><\/a><\/p>\n<p><em>Riscos da inova\u00e7\u00e3o te\u00f3rica<\/em><\/p>\n<p>Estes s\u00e3o pontos reveladores. Se Morozov est\u00e1 certo de que as tend\u00eancias produtivas da economia digital podem vencer as suas tend\u00eancias redistributivas ascendentes, ent\u00e3o a cr\u00edtica de sua din\u00e2mica predat\u00f3ria que desenvolvi em\u00a0<em>Technof\u00e9odalisme\u00a0<\/em>n\u00e3o seria mais eficaz do que o assalto de Dom Quixote aos moinhos de vento<em>.<a id=\"sdfootnote5anc\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote5sym\"><sup>5<\/sup><\/a><\/em>\u00a0Pior ainda, ao escolher a luta errada, tal cr\u00edtica n\u00e3o seria mais qualificada para denunciar o capitalismo \u2013 tal como normalmente funciona \u2013 na era digital.<\/p>\n<p>Esta, de fato, seria uma eventualidade preocupante. Antes de passar para o cerne da discuss\u00e3o, um ponto l\u00f3gico preliminar deve ser apresentado a esse respeito. Uma tentativa de se engajar criticamente com o que \u00e9 percebido como uma transforma\u00e7\u00e3o no modo de produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o necessariamente invalida a cr\u00edtica mais antiga sobre o modo como est\u00e1 constitu\u00eddo.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica do setor digital levada a efeito sob a denomina\u00e7\u00e3o de \u201ctecno-feudalismo\u201d \u00e9 totalmente compat\u00edvel com as an\u00e1lises da globaliza\u00e7\u00e3o e da financeiriza\u00e7\u00e3o como din\u00e2micas simultaneamente operativas. N\u00e3o se deve ter medo de pensar outra vez nesses novos desenvolvimentos; n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para que a explora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica da din\u00e2mica espec\u00edfica da economia digital resulte num branqueamento do capitalismo ou mesmo um entusiasmar-se com as virtudes produtivas da competi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 importante ressaltar que isso \u00e9 verdade quer a hip\u00f3tese tecno-feudal seja comprovada ou n\u00e3o como correta. Se estiver errada, ou se a din\u00e2mica predat\u00f3ria do setor digital for apenas incipiente ou ainda n\u00e3o efetiva, a cr\u00edtica anticapitalista marxista moderna existente mant\u00e9m sua validade como um desafio ao estado atual do mundo.<\/p>\n<p>Se, por outro lado,\u00a0<em>est\u00e1 ocorrendo\u00a0<\/em>uma muta\u00e7\u00e3o qualitativa do capitalismo, que modifica as leis de movimento do sistema socioecon\u00f4mico com caracter\u00edsticas que lembram o feudalismo, esse novo aparato conceitual nos permitir\u00e1 apreender e combater as formas emergentes de domina\u00e7\u00e3o social. Nenhum dos cen\u00e1rios exige elogios nost\u00e1lgicos ao \u201cbom e velho capitalismo\u201d do passado. Tal como na aposta de Pascal, \u201cse ganhar, voc\u00ea ganha tudo; se perder, voc\u00ea n\u00e3o perde nada\u201d.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio da exist\u00eancia de Deus, no entanto, as caracter\u00edsticas de um modo de produ\u00e7\u00e3o podem ser investigadas te\u00f3rica e empiricamente por meios racionais. Como Morozov enfatiza com raz\u00e3o, qualquer investiga\u00e7\u00e3o que visa as fronteiras do capitalismo, passadas ou futuras, deve come\u00e7ar abordando um problema de defini\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Proponho ir al\u00e9m de uma simples dicotomia entre uma defini\u00e7\u00e3o estreita e brenneriana do capitalismo, onde as rela\u00e7\u00f5es de propriedade p\u00f5em em movimento as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, e uma vis\u00e3o braudeliana predominantemente comercial que o v\u00ea como um sistema de troca \u201cinfinitamente adapt\u00e1vel\u201d, mas sempre orientado para a acumula\u00e7\u00e3o. Enquanto a elasticidade do \u00faltimo lhe permite maior flexibilidade para explicar as varia\u00e7\u00f5es hist\u00f3rico-geogr\u00e1ficas do capitalismo e a diversidade de seus meios de acumula\u00e7\u00e3o de riqueza \u2013 em particular, a persist\u00eancia de processos de acumula\u00e7\u00e3o primitiva \u2013 o primeiro compreende melhor o impulso produtivo \u00fanico deste modo de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa polaridade \u00e9 \u00fatil para esclarecer que n\u00e3o se trata de uma \u201cre-feudaliza\u00e7\u00e3o\u201d. Os sintomas do que venho chamando de \u201ctecno-feudalismo\u201d \u2013 reconhecendo, \u00e9 claro, que o isomorfismo com a Europa medieval e o Jap\u00e3o \u00e9 distante e incompleto \u2013 implicam um impasse produtivo no n\u00edvel do sistema-mundo. Eis que os retornos sobre o capital n\u00e3o podem mais ser obtidos por meio da produ\u00e7\u00e3o de mercadorias b\u00e1sicas, mas requerem interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u2013 garantia do poder de monop\u00f3lio, subscri\u00e7\u00e3o de financeiriza\u00e7\u00e3o especulativa e assim por diante.<\/p>\n<p>Esse impasse que afeta todo o sistema do capital \u00e9 totalmente diferente dos casos mais antigos em que as finan\u00e7as se retiraram da produ\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica para investir em centros capitalistas mais din\u00e2micos em outros lugares, tal como foi o caso da Rep\u00fablica Holandesa nos primeiros anos do capitalismo, por exemplo \u2013 ou, de fato, da Gr\u00e3-Bretanha imperial.<\/p>\n<p>A Rep\u00fablica Holandesa desfrutou de uma Idade de Ouro de prosperidade no s\u00e9culo XVII, mas sua estrutura econ\u00f4mica avan\u00e7ada n\u00e3o se tornou uma plataforma de lan\u00e7amento de uma revolu\u00e7\u00e3o industrial; n\u00e3o houve, ademais qualquer \u201cre-feudaliza\u00e7\u00e3o\u201d ou mesmo restaura\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de apropria\u00e7\u00e3o senhorial da terra.<a id=\"sdfootnote6anc\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote6sym\"><sup>6<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Uma explica\u00e7\u00e3o deve dar conta tanto de sua expans\u00e3o capitalista no in\u00edcio da era moderna quanto de seu bloqueio posterior em n\u00edvel nacional. Sobre o primeiro ponto, parece claro que a transforma\u00e7\u00e3o a\u00a0<em>priori\u00a0<\/em>na esfera da produ\u00e7\u00e3o foi um fator crucial no florescimento mercantil dos Pa\u00edses Baixos.<a id=\"sdfootnote7anc\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote7sym\"><sup>7<\/sup><\/a>\u00a0Mais tarde, por\u00e9m, a predomin\u00e2ncia das finan\u00e7as \u2013 juntamente com a persist\u00eancia de barreiras protecionistas em n\u00edvel local \u2013 tornou-se um s\u00e9rio obst\u00e1culo ao desenvolvimento capitalista nacional. Em vez disso, perpetuou uma aristocracia endinheirada, bem integrada nos circuitos internacionais, que contribuiu e se beneficiou com a transi\u00e7\u00e3o industrial-capitalista da Inglaterra.<\/p>\n<p>O ponto te\u00f3rico \u00e9 que, por um lado, o engajamento com a produ\u00e7\u00e3o em um contexto competitivo vem a ser uma caracter\u00edstica definidora do impulso expansionista do capitalismo; e, por outro, que a \u201cre-feudaliza\u00e7\u00e3o\u201d requer algo mais do que uma contra\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o em favor das finan\u00e7as ou do com\u00e9rcio (cuja contrapartida \u00e9 necessariamente encontrada em desenvolvimentos produtivos em outras partes do sistema-mundo).<\/p>\n<p>A \u201cre-feudaliza\u00e7\u00e3o\u201d exige um recuo\u00a0<em>generalizado\u00a0<\/em>da produ\u00e7\u00e3o como l\u00f3cus da apropria\u00e7\u00e3o do mais-valor; n\u00e3o \u00e9 um efeito colateral de uma acelera\u00e7\u00e3o do capitalismo em outros lugares. O tecno-feudalismo, para voltar ao nosso problema, sinaliza mais do que a financeiriza\u00e7\u00e3o decorrente da distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica dos lucros pela globaliza\u00e7\u00e3o por meios digitais. Implica,\u00a0<em>mutatis mutandis,<\/em>\u00a0alguma reitera\u00e7\u00e3o positiva das rela\u00e7\u00f5es de apropria\u00e7\u00e3o impostas pol\u00edtica ou coercivamente que caracterizaram o feudalismo em seu tempo.<\/p>\n<p><strong>Socializa\u00e7\u00e3o regressiva<\/strong><\/p>\n<p>Ao pedir maior clareza anal\u00edtica, Morozov pede para \u201cidentificar as principais caracter\u00edsticas do sistema feudal, examinando se elas podem ocorrer novamente hoje\u201d. Em outras palavras, as caracter\u00edsticas que estamos chamando de \u201ctecno-feudais\u201d precisam ser definidas n\u00e3o apenas em termos do feudalismo, mas tamb\u00e9m em termos do capitalismo do qual o primeiro emerge.<\/p>\n<p>Nas sociedades de classes, um modo de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre uma combina\u00e7\u00e3o particular, primeiro, de um processo de trabalho \u2013 isto \u00e9, trabalhadores, aut\u00f4nomos ou subordinados, que usam os instrumentos de produ\u00e7\u00e3o e transformam os objetos de trabalho; e segundo, uma rela\u00e7\u00e3o de apropria\u00e7\u00e3o, significando os m\u00e9todos pelos quais os n\u00e3o produtores capturam uma parte do excedente econ\u00f4mico. Os arranjos dessas rela\u00e7\u00f5es variam de acordo com o modo de produ\u00e7\u00e3o, o que, por sua vez, leva a distintas din\u00e2micas econ\u00f4micas, sociais e pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Nesses termos, o medievalista franc\u00eas Guy Bois apreendeu o modo de produ\u00e7\u00e3o feudal em uma \u00fanica f\u00f3rmula: \u201cconsiste na hegemonia da pequena produ\u00e7\u00e3o individual (e, portanto, num n\u00edvel de for\u00e7as produtivas implicado por essa hegemonia), mais um sistema de impostos assegurados por constrangimentos de origem pol\u00edtica (ou extraecon\u00f4mica)\u201d.<a id=\"sdfootnote8anc\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote8sym\"><sup>8<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Esta defini\u00e7\u00e3o concisa permite estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o cr\u00edtica entre o tecno-feudalismo e o feudalismo. Por um lado, as formas econ\u00f4micas contempor\u00e2neas claramente n\u00e3o s\u00e3o \u201cfeudais\u201d no sentido da primeira parte da defini\u00e7\u00e3o de Bois: n\u00e3o se pode falar em pequena produ\u00e7\u00e3o individual. N\u00e3o houve no s\u00e9culo XXI uma involu\u00e7\u00e3o na divis\u00e3o do trabalho ou uma retra\u00e7\u00e3o na coopera\u00e7\u00e3o social ao n\u00edvel da produ\u00e7\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio: o tecno-feudalismo \u00e9 o resultado do que Ernest Mandel certa vez definiu como a \u201ccrescente socializa\u00e7\u00e3o objetiva do trabalho\u201d.<\/p>\n<p>Ora, esta tem sido \u201ca tend\u00eancia hist\u00f3rica b\u00e1sica do desenvolvimento capitalista desde a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial em diante.\u201d<a id=\"sdfootnote9anc\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote9sym\"><sup>9<\/sup><\/a>\u00a0Cada minuto da nossa vida est\u00e1 inserido nesta teia tensa de interdepend\u00eancias produtivas, que nos permite comer alimentos cultivados por uns e transportados por outros; manter-se aquecido gra\u00e7as \u00e0s usinas de energia que outros constroem e administram; para nos comunicarmos por meio de redes eletr\u00f4nicas ou formul\u00e1rios impressos que n\u00e3o desempenhamos nenhum papel na manuten\u00e7\u00e3o \u2014 de todas as coisas sofisticadas que fazemos. A parte crescente de nossas vidas passadas online s\u00f3 aumenta a complexidade desses la\u00e7os sociais.<\/p>\n<p>Por outro lado, o cerne da hip\u00f3tese tecno-feudal \u00e9 que \u2013 ao contr\u00e1rio das esperan\u00e7as de parte da esquerda \u2013 essa socializa\u00e7\u00e3o assumiu um car\u00e1ter regressivo. Essa possibilidade foi at\u00e9 certo ponto vislumbrada por Balibar; ele argumentou que o constante processo de mercantiliza\u00e7\u00e3o em curso cruzou sucessivos limiares, reinventando continuamente coisas como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, conhecimento, arte, entretenimento, cuidado, sentimentos e assim por diante na forma de \u201cmercadorias fict\u00edcias\u201d.<\/p>\n<p>Essa mercantiliza\u00e7\u00e3o geral e abrangente consiste numa \u201csubsun\u00e7\u00e3o total\u201d que resulta em uma completa perda de identidade e de autonomia pessoal, uma vez que as l\u00f3gicas e as restri\u00e7\u00f5es de mercado comandam cada vez mais a qualidade e a quantidade da vida humana. Tendencialmente, escreve Balibar, \u201cnenhuma forma de vida \u2013 como ag\u00eancia, atividade, passividade e at\u00e9 mesmo a morte \u2013 pode ser vivida fora da forma de mercadoria e da forma de valor que \u00e9, de fato, um momento no processo de valoriza\u00e7\u00e3o do capital\u201d.<a id=\"sdfootnote10anc\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote10sym\"><sup>10<\/sup><\/a><\/p>\n<p>A tese de Balibar capta com precis\u00e3o o potencial regressivo da socializa\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea. A sua \u00eanfase na mercantiliza\u00e7\u00e3o, no entanto, leva \u00e0 neglig\u00eancia de outras formas de socializa\u00e7\u00e3o \u2013 acima de tudo, a forma como a digitaliza\u00e7\u00e3o alterou a qualidade da transa\u00e7\u00e3o e da coordena\u00e7\u00e3o. Embora as atividades digitais flutuem em um oceano de dinheiro, elas n\u00e3o s\u00e3o mercantilizadas da maneira tradicional. A maioria dos servi\u00e7os oferecidos pelo Google ou Facebook s\u00f3 s\u00e3o mercantilizados em um n\u00edvel secund\u00e1rio, por meio da venda de publicidade para empresas que desejam acessar seus usu\u00e1rios.<\/p>\n<p>Ao inv\u00e9s de entender as atividades digitais como se fossem governadas por uma l\u00f3gica de consumo, devemos v\u00ea-las como determinadas, em primeiro n\u00edvel, por uma l\u00f3gica de acesso, cujo correlato \u00e9 o grau de inser\u00e7\u00e3o dentro de um circuito fechado algor\u00edtmico de propriedade privada. As plataformas digitais s\u00e3o ecossistemas; sua fun\u00e7\u00e3o \u00e9 manipular as intera\u00e7\u00f5es sociais com base nos padr\u00f5es de comportamento entre pessoas n\u00e3o relacionadas entre si que detectam algoritmicamente.<\/p>\n<p>O produto \u2013 informar ou orientar o usu\u00e1rio \u2013 e o insumo \u2013 a informa\u00e7\u00e3o que o usu\u00e1rio fornece \u2013 s\u00e3o indistingu\u00edveis. Isso se aplica n\u00e3o apenas no caso de algu\u00e9m inserir um termo de pesquisa na plataforma, ou usar um seu servi\u00e7o de navega\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m, digamos, um fornecedor cujo estoque de mercadorias \u00e9 inserido como entrada no sistema de informa\u00e7\u00f5es do Walmart \u2013 cuja lista de pedidos estar\u00e1 determinada pelos dados que l\u00e1 s\u00e3o postos.<\/p>\n<p>Quanto mais ampla for a rede de usu\u00e1rios, mais eficaz ser\u00e1 o servi\u00e7o prestado. Isso incentiva o provedor de servi\u00e7os digitais a oferecer uma plataforma aberta que os usu\u00e1rios podem acessar gratuitamente, mas tamb\u00e9m bem atraente, para chamar a aten\u00e7\u00e3o do maior n\u00famero de pessoas poss\u00edvel. Isso resulta em uma din\u00e2mica de escala acelerada, fortalecendo a posi\u00e7\u00e3o do provedor; o mecanismo de busca dominante tamb\u00e9m \u00e9 o de melhor desempenho, devido ao seu pr\u00f3prio dom\u00ednio.<\/p>\n<p>Pela mesma l\u00f3gica, Amazon e Walmart permitem que uma longa cauda de terceiros venda produtos em suas plataformas; isso os beneficia tanto diretamente \u2013 pois, assim, obt\u00eam volumes de vendas mais altos, devido a uma base de clientes maior \u2013 quanto indiretamente, j\u00e1 que isso permite que eles coletem mais dados e expandam seus recursos algor\u00edtmicos.<\/p>\n<p>Enquanto o valor dos dados deriva em parte de economias de escala \u2013 ou seja, do grande volume de informa\u00e7\u00f5es coletadas \u2013 ele \u00e9 realizado por meio da \u201ccapacidade de process\u00e1-los, analis\u00e1-los e us\u00e1-los para induzir o comportamento de outros eventuais\u201d.<a id=\"sdfootnote11anc\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote11sym\"><sup>11<\/sup><\/a>\u00a0Ao contr\u00e1rio dos bens comercializ\u00e1veis, cujo valor de troca \u00e9 lastreado por algum valor de uso, o neg\u00f3cio dos dados, antes de tudo, est\u00e1 baseado em controle. Isso inclui a capacidade de antecipar padr\u00f5es e influenciar seu desdobramento, que novamente \u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o do escopo e da quantidade de dados coletados.<\/p>\n<p>Como insumos para a coordena\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica, os dados tornam as transa\u00e7\u00f5es mais efetivas, mas ao mesmo tempo mais tendenciosas, j\u00e1 que operam por crit\u00e9rios amplamente ocultos incorporados na arquitetura das plataformas digitais. A implica\u00e7\u00e3o disso \u00e9 direta. Se o resultado final \u00e9 um efetivo monop\u00f3lio intelectual das \u201cbig-tech\u201d dos meios de coordena\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica, ent\u00e3o devemos conceituar a renda que eles obt\u00eam de sua posi\u00e7\u00e3o dominante como uma taxa ou como um imposto sobre a atividade do usu\u00e1rio. Como forma de renda, isso est\u00e1 muito mais pr\u00f3ximo de um ped\u00e1gio rodovi\u00e1rio, ou do que Guy Bois chamou de \u201ctaxa senhorial\u201d, do que de um pagamento de contrapartida em um mercado de trocas.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que h\u00e1 uma vulnerabilidade nesse modelo \u201crentista\u201d. Quem vive da expans\u00e3o viral perecer\u00e1 pela expans\u00e3o viral. Quem se lembra agora do My Space, a rede social pioneira, o site mais visitado dos Estados Unidos, em 2006, antes de ser marginalizado pela ascens\u00e3o do Facebook? Os servi\u00e7os digitais s\u00e3o mercados contest\u00e1veis em que os padr\u00f5es de inova\u00e7\u00e3o schumpeterianos alimentam o processo de destrui\u00e7\u00e3o criativa, o que for\u00e7a o titular ou incumbente a investir e inovar para enfrentar essas amea\u00e7as competitivas.<\/p>\n<p>\u00c9 a isso que Morozov est\u00e1 se referindo quando pergunta: \u201cSe os gigantes da tecnologia realmente s\u00e3o rentistas pregui\u00e7osos que est\u00e3o roubando todo mundo, explorando direitos de propriedade intelectual e efeitos de rede \u2013 por que eles investem tanto dinheiro no que s\u00f3 pode ser descrito como um processo de produ\u00e7\u00e3o? De algum tipo de produ\u00e7\u00e3o, certamente.\u201d Ora, \u00e9 dif\u00edcil \u2013 ali\u00e1s, reconhecidamente \u2013 compreender as especificidades das rendas derivadas do monop\u00f3lio intelectual na era digital.<\/p>\n<p>Afinal, estamos falando dos setores mais din\u00e2micos e inovadores da economia do s\u00e9culo XXI. Muitas das principais empresas do setor de tecnologia eram startups h\u00e1 algumas d\u00e9cadas; sua ascens\u00e3o ao \u00e1pice do capitalismo \u00e9 o resultado de um investimento sustentado tanto em P\u00a0<em>&amp;\u00a0<\/em>D quanto em infraestrutura f\u00edsica. Alguns, como Amazon ou Uber, s\u00f3 recentemente conseguiram obter lucros.<\/p>\n<p>Morozov est\u00e1 certo em levar em considera\u00e7\u00e3o essas caracter\u00edsticas produtivas \u2013 ou quase produtivas \u2013 da economia digital. Mas eles n\u00e3o s\u00e3o motivo para ignorar as rela\u00e7\u00f5es emergentes cuja r\u00e1pida dissemina\u00e7\u00e3o est\u00e1 criando um novo cen\u00e1rio socioecon\u00f4mico. Estamos diante de um mecanismo de causa\u00e7\u00e3o cumulativa, sob o qual pretensos monopolistas intelectuais investem e inovam para acumular ativos intang\u00edveis que geram formas de controle social. Como observa um estudo recente, a expans\u00e3o sistem\u00e1tica de seu monop\u00f3lio de conhecimento concede a essas empresas uma fonte potencialmente ilimitada de poder que pode levar a uma troca de mercado desigual ou sim\u00e9trica.<a id=\"sdfootnote12anc\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote12sym\"><sup>12<\/sup><\/a><\/p>\n<p>A coleta de dados \u00e9 uma dimens\u00e3o chave desse processo; e embora, como foi visto, o grande volume de dados n\u00e3o seja o \u00fanico crit\u00e9rio, a escala representa uma barreira quase intranspon\u00edvel \u00e0 entrada de empresas menores, especialmente quando os ativos intang\u00edveis s\u00e3o complementados por ativos tang\u00edveis maci\u00e7os. Se o monop\u00f3lio intelectual visa afirmar o controle por meio da manipula\u00e7\u00e3o de intang\u00edveis, isso est\u00e1 longe de ser um processo imaterial.<\/p>\n<p>Proteger a infraestrutura f\u00edsica relevante \u00e9 uma pr\u00e9-condi\u00e7\u00e3o para a hegemonia sobre o conhecimento. A computa\u00e7\u00e3o em nuvem \u2013 o atual santo dos santos para a monopoliza\u00e7\u00e3o intelectual \u2013 requer vastos estoques de dados empilhados com poderosos processadores de aprendizado de m\u00e1quina, bem como fileiras de discos r\u00edgidos para armazenar dados processados, assim como um milh\u00e3o de quil\u00f4metros de cabos de banda larga para transportar os dados ao redor do mundo.<\/p>\n<p>Curiosamente, n\u00e3o s\u00e3o os dados em si, mas as m\u00e9tricas do usu\u00e1rio \u2013 n\u00famero de pessoas, graus de engajamento \u2013 que servem de base para a constitui\u00e7\u00e3o dos ativos das grandes empresas de tecnologia dos EUA.<a id=\"sdfootnote13anc\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote13sym\"><sup>13<\/sup><\/a>\u00a0Os usu\u00e1rios, por sua vez, s\u00e3o constitu\u00eddos por meio de uma s\u00e9rie de escolhas tecnol\u00f3gicas e sociojur\u00eddicas. Eles se tornam uma nova classe de ativos porque s\u00e3o a mat\u00e9ria-prima por meio da qual os gigantes da tecnologia criam e controlam os dados que lhes permitem gerar receitas.<\/p>\n<p>A qualidade e quantidade do envolvimento dos usu\u00e1rios \u2013 pessoas em seus diversos pap\u00e9is sociais, acessando o mundo online ou alimentando passivamente os sat\u00e9lites com dados do telefone em seu bolso \u2013 tamb\u00e9m dependem de uma mistura de ativos tang\u00edveis e intang\u00edveis. A singularidade da lucratividade no neg\u00f3cio de dados n\u00e3o est\u00e1 na quantidade de produtos vendidos, nem em seu mark-up, mas no espa\u00e7o social sob o controle da empresa.<\/p>\n<p><strong>Consequ\u00eancias da longa recess\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A pergunta final de Morozov \u2014 se as din\u00e2micas redistributivas ascendentes do capitalismo contempor\u00e2neo ser\u00e3o mais determinantes do que as produtivas \u2014 toca naquele fato estilizado que impulsionou a hip\u00f3tese tecno-feudal. O ceticismo de Morozov, no entanto, \u00e9 surpreendente, uma vez que esta \u00e9 uma das caracter\u00edsticas menos contestadas das economias capitalistas avan\u00e7adas.<\/p>\n<p>A figura abaixo apresentada mostra a tend\u00eancia secular de decl\u00ednio do investimento nos pa\u00edses da OCDE ao longo do \u00faltimo meio s\u00e9culo, ilustrando a longa desacelera\u00e7\u00e3o do capitalismo. Essa falta de dinamismo foi acompanhada por um aumento geral das disparidades de renda. De acordo com o World Income Database, em 1980, a parcela de renda do 1% mais rico era de 10,8% na Am\u00e9rica do Norte e 8,4% na Europa Ocidental; em 2020, essas percentagens aumentaram para 19,4 e 11,8 por cento. H\u00e1 tamb\u00e9m indica\u00e7\u00f5es de que ocorreu um decl\u00ednio significativo na participa\u00e7\u00e3o do trabalho na renda desde o in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980 na maioria dos pa\u00edses, correspondendo a um aumento geral na taxa de explora\u00e7\u00e3o que foi especialmente dram\u00e1tico nos EUA.<a id=\"sdfootnote14anc\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote14sym\"><sup>14<\/sup><\/a><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3076532\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2023\/01\/27190417\/image-8.png?w=640&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2023\/01\/27190417\/image-8.png 866w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2023\/01\/27190417\/image-8-300x232.png 300w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2023\/01\/27190417\/image-8-768x593.png 768w, \" alt=\"\" \/><\/p>\n<p>Todas as evid\u00eancias apontam para fortes tend\u00eancias redistributivas ascendentes e din\u00e2micas produtivas concentradoras, ambas bem sombrias. A verdadeira quest\u00e3o \u00e9 como explicar isso. Como observado acima, a hip\u00f3tese tecno-feudal complementa outras explica\u00e7\u00f5es, incluindo globaliza\u00e7\u00e3o e financeiriza\u00e7\u00e3o. Embora ainda n\u00e3o tenhamos estat\u00edsticas ou metodologias adequadas para o teste rigoroso e exaustivo dos diversos mecanismos de monop\u00f3lio intelectual que j\u00e1 foram identificados,<a id=\"sdfootnote15anc\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote15sym\"><sup>15<\/sup><\/a>\u00a0outros fatores corroboram a ideia de uma mudan\u00e7a hist\u00f3rica na l\u00f3gica da competi\u00e7\u00e3o intercapitalista.<\/p>\n<p>Primeiro, os lucros \u201cconvencionais\u201d est\u00e3o cada vez mais concentrados. Nos EUA, os lucros no percentil 90 subiram de 2,1 vezes os lucros m\u00e9dios na d\u00e9cada de 1970 para mais de seis vezes os lucros m\u00e9dios em 2017, com a maior parte disso ocorrendo desde 2000.<a id=\"sdfootnote16anc\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote16sym\"><sup>16<\/sup><\/a>\u00a0Segundo, quando olhamos para o total de ativos \u2013 isto \u00e9, incluindo financeiro e ativos intang\u00edveis \u2013 essa diverg\u00eancia desaparece; mas longe de resolver o quebra-cabe\u00e7a, isso levanta quest\u00f5es intrigantes.<a id=\"sdfootnote17anc\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote17sym\"><sup>17<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Por um lado, o peso crescente do capital financeiro retido como caixa sugere a falta de oportunidades de investimento. Por outro lado, o fato de que as empresas com altas taxas de lucro operacional tamb\u00e9m det\u00eam estoques particularmente grandes de intang\u00edveis sugere que suas estrat\u00e9gias de crescimento dependem cada vez mais da aquisi\u00e7\u00e3o de empresas existentes.<\/p>\n<p>Esses desenvolvimentos s\u00e3o consistentes com o diagn\u00f3stico de um capitalismo disfuncional, onde a centraliza\u00e7\u00e3o do capital ocorre por meio de processos de preda\u00e7\u00e3o amplamente desconectados das atividades produtivas \u2013 a l\u00f3gica da apropria\u00e7\u00e3o do excedente na hip\u00f3tese tecno-feudal. A lucratividade sustentada do Walmart, gra\u00e7as \u00e0 sua virada digital \u2013 apesar da diminui\u00e7\u00e3o do investimento \u2013 e a decis\u00e3o da Amazon de expandir os servi\u00e7os para terceiros, a fim de alavancar os custos fixos, ilustram essa nova din\u00e2mica, em que o controle sobre os meios de coordena\u00e7\u00e3o gera receitas que tendencialmente substitui a obten\u00e7\u00e3o de lucro atrav\u00e9s da produ\u00e7\u00e3o e vendas.<a id=\"sdfootnote18anc\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote18sym\"><sup>18<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Respondendo a Morozov em \u201cCapital and Cybernetics\u201d, Timothy Str\u00f6m avan\u00e7a a ideia de que o setor cibercapitalista pode ser concebido como um sistema inteiramente novo, que introduziu um novo modo de abstra\u00e7\u00e3o; ele opera como \u201cuma camada fina, espalhada desigualmente pelo sistema-mundo capitalista, sobrepondo padr\u00f5es mais antigos de pr\u00e1tica social\u201d.<a id=\"sdfootnote19anc\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote19sym\"><sup>19<\/sup><\/a>\u00a0Reminiscente de\u00a0<em>The Stack,\u00a0<\/em>conceito desenvolvido por Benjamin Bratton para compreender as complexidades sobrepostas do sistema-mundo, essa perspectiva sugere a exist\u00eancia de um novo terreno com novas regras de apropria\u00e7\u00e3o do excedente.<\/p>\n<p>Tal desenvolvimento \u00e9 consistente com os inquietantes fatos estilizados apresentados anteriormente sobre rentabilidade, investimento e desigualdades. Ainda vivemos em um velho sistema capitalista, muito ruim, ou em um novo sistema, ainda mais maligno? A resposta permanece empiricamente incerta, mas depende, em \u00faltima an\u00e1lise, de uma quest\u00e3o de limiar. Quando a apropria\u00e7\u00e3o exceder a explora\u00e7\u00e3o capitalista, o sistema passou por uma muta\u00e7\u00e3o. Ou ser\u00e1 que ela j\u00e1 aconteceu?<\/p>\n<p>Notas<\/p>\n<p><a id=\"sdfootnote1sym\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote1anc\">1<\/a>\u00a0Evgeny Morozov, Critique of tecno-feudal reason, NLR 133\/4, Janeiro-abril de 2022, pp. 90\u201392.<\/p>\n<p><a id=\"sdfootnote2sym\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote2anc\">2<\/a>\u00a0Robert Brenner, The origins of capitalist development: a critique of neo-Smithian Marxism. NLR 104, julho-agosto de 1977.<\/p>\n<p><a id=\"sdfootnote3sym\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote3anc\">3<\/a>\u00a0Morozov, Critique of tecno-feudal reason, pp. 110-11, 118.<\/p>\n<p><a id=\"sdfootnote4sym\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote4anc\">4<\/a>\u00a0Morozov, Critique of tecno-feudal reason, pp. 125-6.<\/p>\n<p><a id=\"sdfootnote5sym\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote5anc\">5<\/a>\u00a0Ver o meu livro\u00a0<em>Technof\u00e9odalisme: critique de l\u2019\u00e9conomie num\u00e9rique<\/em>, Paris 2020. Agrade\u00e7o a oportunidade de esclarecer meus argumentos aqui; desde que o livro foi publicado, as discuss\u00f5es com os cr\u00edticos me ajudaram a refinar as teses que sustento. Embora seus argumentos sigam caminhos diferentes, a cr\u00edtica de Morozov se alinha com a de Sterenn Lebayle e Nicolas Pinsard, que tamb\u00e9m defendem que a an\u00e1lise do setor digital deve ser \u201cancorada\u201d na l\u00f3gica do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista e, em particular, na sua din\u00e2mica imperialista. Ver Lebayle e Pinsard,\u00a0<em>L\u2019\u00e9conomie num\u00e9rique: une involution du mode de production capitaliste<\/em>? A propos de l\u2019ouvrage Technof\u00e9odalisme. Critique del\u2019\u00e9conomie num\u00e9rique de C\u00e9dric Durand\u2019,\u00a0<em>Revue de La R\u00e9gulation<\/em>, n\u00ba 30, 17 de maio de 2021.<\/p>\n<p><a id=\"sdfootnote6sym\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote6anc\">6<\/a>\u00a0Ver Pepijn Brandon, Marxism and the Dutch Miracle: The Dutch Republic and the Transition-Debate,\u00a0<em>Historical Materialism,<\/em>\u00a0vol. 19, n\u00ba 3, 2011.<\/p>\n<p><a id=\"sdfootnote7sym\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote7anc\">7<\/a>\u00a0Isso est\u00e1 de acordo com a posi\u00e7\u00e3o brenneriana de que as mudan\u00e7as nas rela\u00e7\u00f5es de propriedade t\u00eam uma preced\u00eancia l\u00f3gica em rela\u00e7\u00e3o ao com\u00e9rcio na decolagem da acumula\u00e7\u00e3o capitalista sustentada, embora Brandon tamb\u00e9m insista na import\u00e2ncia da intera\u00e7\u00e3o entre desenvolvimento rural e urbano no caso holand\u00eas.<\/p>\n<p><a id=\"sdfootnote8sym\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote8anc\">8<\/a>\u00a0Guy Bois, Crise du f\u00e9odalisme: \u00e9conomie rurale et d\u00e9mographie en Normandie orientale du d\u00e9but du XIV si\u00e8cle au milieu du XVI si\u00e8cle,\u00a0<em>Cahiers de la Fondation nationale des sciences politiques\u00a0<\/em>, n. 202\u00a0; 1976, p. 355.<\/p>\n<p><a id=\"sdfootnote9sym\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote9anc\">9<\/a>\u00a0Ernest Mandel, In defense of socialist planning. NLR n\u00ba 159, set-out 1986, p. 6.<\/p>\n<p><a id=\"sdfootnote10sym\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote10anc\">10<\/a>\u00a0\u00c9tienne Balibar , Towards a New Critique of Political Economy: From Generalized Surplus value to Total Subsumption\u2019, em Peter Osborne , \u00c9ric Alliez e Eric-John Russell, eds,\u00a0<em>Capitalism: Concept, Idea , Image: Aspects of Marx\u2019s Capital Today\u00a0<\/em>, Londres, 2019 , pp. 40\u201345.<\/p>\n<p><a id=\"sdfootnote11sym\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote11anc\">11<\/a>\u00a0Katharina Pistor, Rule by Data: The End of Markets?\u00a0<em>Law &amp;Contemporary Problems<\/em>, n\u00ba 83, 2020, p. 106<\/p>\n<p><a id=\"sdfootnote12sym\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote12anc\">12<\/a>\u00a0Cecilia Rikap ,\u00a0<em>Capitalism, Power and Innovation: Intellectual Monopoly Capitalism Uncovered\u00a0<\/em>, New York, 2022, pp. 26\u20137.<\/p>\n<p><a id=\"sdfootnote13sym\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote13anc\">13<\/a>\u00a0Kean Birch, D. T. Cochrane and Callum Ward, Data as Asset? The Measurement, Governance, and Valuation of Digital Personal Data by Big Tech,\u00a0<em>Big Data &amp; Society<\/em>, vol. 8, n\u00ba 1, 2021, p.2.<\/p>\n<p><a id=\"sdfootnote14sym\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote14anc\">14<\/a>\u00a0Engelbert Stockhammer, Determinants of the Wage Share: A Panel Analysis of Advanced and Developing Economies,\u00a0<em>British Journal of Industrial Relations,\u00a0<\/em>vol. 55, no. 1, 2017, pp. 3\u201333.<\/p>\n<p><a id=\"sdfootnote15sym\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote15anc\">15<\/a>\u00a0C\u00e9dric Durand e Cecilia Rikap, Intellectual Monopoly Capitalism\u2014Challenge of Our Times,\u00a0<em>Social Europe<\/em>, 5 de outubro de 2021; C\u00e9dric Durand e William Milberg, Intellectual Monopoly in Global Value Chains,\u00a0<em>Review of International Political Economy,\u00a0<\/em>vol.27, no. 2, 3 de mar\u00e7o de 2020, pp. 404\u201329.<\/p>\n<p><a id=\"sdfootnote16sym\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote16anc\">16<\/a>\u00a0Leila Davis e Jo\u00e3o Paulo de Souza, Churning and Profitability in the US Corporate Sector,\u00a0<em>Metroeconomica<\/em>, 2021.<\/p>\n<p><a id=\"sdfootnote17sym\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote17anc\">17<\/a>\u00a0Agrade\u00e7o a Joel Rabinovich por me indicar esta refer\u00eancia. Entre os trabalhos anteriores que mostram a concentra\u00e7\u00e3o de lucros, veja-se: Jason Furman e Peter Orszag, A Firm-Level Perspective on the Role of Rents in the Rise in Inequality,\u00a0<em>Toward a Just Society,<\/em>\u00a0Nova York 2018, pp. 19\u201347; The Fall of the Labor Share and the Rise of Superstar Firms\u2019,\u00a0<em>The Quarterly Journal of Economics<\/em>, vol. 135, no. 2, 2020, pp.645\u2013709.<\/p>\n<p><a id=\"sdfootnote18sym\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote18anc\">18<\/a>\u00a0C\u00e9line Baud e C\u00e9dric Durand, Making Profits by Leading Retailers in the Digital Transition: A Comparative Analysis of Carrefour, Amazon and Wal-Mart (1996\u20132019),\u00a0<em>Working Paper\u00a0<\/em>unige, n\u00ba 153880, 2021.<\/p>\n<p><a id=\"sdfootnote19sym\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpos-capitalismo%2Freexame-das-fronteiras-do-capital%2F#sdfootnote19anc\">19<\/a>\u00a0Timothy Erik Str\u00f6m , Capital and Cybernetics, NLR n\u00ba 135, maio-junho de 2022, p. 30.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Reexame das fronteiras do capital &#8211; Outras Palavras &#8211; https:\/\/outraspalavras.net\/pos-capitalismo\/reexame-das-fronteiras-do-capital\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>C\u00e9dric Durand &#8211; Estamos migrando para um tecnofeudalismo, ou seguimos mergulhados nas velhas l\u00f3gicas capitalistas? 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