{"id":18759,"date":"2023-01-11T12:20:57","date_gmt":"2023-01-11T15:20:57","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18759"},"modified":"2023-01-09T11:23:48","modified_gmt":"2023-01-09T14:23:48","slug":"sera-o-marxismo-o-futuro-da-ecologia-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/01\/11\/sera-o-marxismo-o-futuro-da-ecologia-politica\/","title":{"rendered":"\u201cSer\u00e1 o marxismo o futuro da ecologia pol\u00edtica?\u201d"},"content":{"rendered":"<div id=\"__reading__mode__header__container\">\n<div id=\"header_content_id\">\n<p id=\"mainContentTitle\"><strong>Bertrand Vaillant<\/strong> &#8211; A explora\u00e7\u00e3o gera lucro dentro do sistema, ao passo que a expropria\u00e7\u00e3o gera lucro e extens\u00e3o do sistema em suas fronteiras, pela coloniza\u00e7\u00e3o de novos espa\u00e7os, povos, recursos ou ecossistemas<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"__reading__mode__mainbody__id\" class=\"__reading__mode__mainbody\">\n<div id=\"mainContainer\">\n<p>\u00c9 o\u00a0marxismo\u00a0o futuro da\u00a0ecologia pol\u00edtica? Se esta pergunta surpreender\u00e1 os novos na\u00a0corrente ecossocialista, os demais reconhecer\u00e3o nela a orienta\u00e7\u00e3o fundamental da obra de\u00a0John Bellamy\u00a0Foster: ver no modo de\u00a0produ\u00e7\u00e3o\u00a0capitalista\u00a0a principal causa da destrui\u00e7\u00e3o da natureza, bem como das vidas humanas, e ligar novamente a Marx\u00a0as\u00a0lutas\u00a0ecol\u00f3gicas\u00a0da esquerda contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>Com\u00a0Brett\u00a0Clark, tamb\u00e9m professor de sociologia nos Estados Unidos, prop\u00f5em assim em\u00a0Le plillage\u00a0de la nature\u00a0(A pilhagem da natureza), publicado por\u00a0\u00c9ditions\u00a0Critiques, 2022, uma trajet\u00f3ria que vai dos estudos dedicados por\u00a0Marx\u00a0aos efeitos do\u00a0capitalismo\u00a0sobre as terras agr\u00edcolas, os animais, a alimenta\u00e7\u00e3o e a<a href=\"https:\/\/brasilamazoniaagora.com.br\/editoria\/saude\/\">\u00a0<\/a><a href=\"https:\/\/brasilamazoniaagora.com.br\/editoria\/saude\/\">sa\u00fade<\/a>\u00a0humana, at\u00e9 as li\u00e7\u00f5es que o\u00a0movimento\u00a0ambientalista\u00a0deve tirar para enfrentar a urg\u00eancia das\u00a0crises\u00a0ambientais.<\/p>\n<p>O livro \u00e9 essencialmente uma antologia de artigos publicados pelos dois autores na\u00a0MonthlyReview\u00a0\u2013 revista dirigida por\u00a0Foster\u00a0e lar do\u00a0ecomarxismo\u00a0americano \u2013 mais ou menos reescritos e adaptados para a ocasi\u00e3o. No entanto, mant\u00e9m uma coer\u00eancia real, e o leitor ganha a possibilidade de ler os cap\u00edtulos independentemente uns dos outros, sem se perder em repeti\u00e7\u00f5es \u00e0s vezes irritantes para uma leitura seguida.<\/p>\n<p>Se A pilhagem da natureza se apresenta como uma resposta \u00e0 emerg\u00eancia contempor\u00e2nea, trata-se sobretudo de estudos tem\u00e1ticos dos compromissos de\u00a0Marx\u00a0que hoje qualificar\u00edamos de\u00a0ecol\u00f3gicos, os autores procurando mostrar n\u00e3o somente que ele havia percebido algumas dessas quest\u00f5es, mas que as teorizou a fundo com base no conhecimento de sua \u00e9poca, gra\u00e7as aos conceitos de \u201cmetabolismo\u00a0social\u201d, \u201cruptura\u00a0metab\u00f3lica\u201d ou mesmo \u201cexpropria\u00e7\u00e3o\u201d ou \u201cpilhagem\u201d da natureza pelo capital.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma oportunidade para aprofundar a grade de\u00a0leitura ecomarxista\u00a0que eles v\u00eam desenvolvendo h\u00e1 v\u00e1rios anos com Paul Burkett\u00a0(1), entre outros. \u00c9 tamb\u00e9m a ocasi\u00e3o para aprofundar o debate com os\u00a0ecologistas\u00a0cr\u00edticos\u00a0do marxismo, especialmente com a \u201cecologia\u2013mundo\u201d de\u00a0Jason\u00a0W.\u00a0Moore, considerado timidamente reformista e sol\u00favel na economia de mercado. Para os autores, o retorno a\u00a0Marx, pensador da separa\u00e7\u00e3o entre homem e natureza no capitalismo, \u00e9 a via necess\u00e1ria para uma\u00a0ecologia\u00a0emancipat\u00f3ria\u00a0e a\u00a0luta\u00a0revolucion\u00e1ria que ela implica.<\/p>\n<p><strong>Marx, o guano, as batatas e a fam\u00edlia<\/strong><\/p>\n<p>O pensamento\u00a0ecossocialista, em sua diversidade, organiza-se em torno da ideia de que o capitalismo\u00a0n\u00e3o apenas gera a contradi\u00e7\u00e3o identificada por\u00a0Marx\u00a0entre as for\u00e7as produtivas e as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o na sociedade, mas tamb\u00e9m mina suas pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia ao destruir os recursos naturais, os espa\u00e7os, as formas de vida das quais depende \u2013 o que\u00a0James\u00a0O\u2018Connor\u00a0chamou de \u201csegunda contradi\u00e7\u00e3o\u201d do\u00a0capitalismo\u00a0(2).<\/p>\n<blockquote><p>Se Marx e Engels evocaram e condenaram a destrui\u00e7\u00e3o da natureza, realmente a teorizaram e tiraram dela todas as consequ\u00eancias? \u2013 Bertrand Vaillant<\/p><\/blockquote>\n<p>H\u00e1, no entanto, um debate sobre o lugar dado por\u00a0Marx\u00a0e\u00a0Engels\u00a0a essa destrui\u00e7\u00e3o da natureza pelas\u00a0for\u00e7as do capital: se eles sem sombra de d\u00favida a evocaram e condenaram, eles realmente a teorizaram e tiraram dela todas as consequ\u00eancias? Muitos duvidam disso e consideram que a\u00a0teoria marxista\u00a0deveria ser, no m\u00ednimo, amplamente complementada nesse ponto para levar em considera\u00e7\u00e3o a evolu\u00e7\u00e3o das sociedades e do conhecimento cient\u00edfico, no pr\u00f3prio esp\u00edrito de\u00a0Marx\u00a0e\u00a0Engels. Mas outros, como\u00a0Foster\u00a0e\u00a0Clark, trabalham, ao contr\u00e1rio, para destacar o lugar importante ocupado pela quest\u00e3o do \u201cmetabolismo\u201d entre as sociedades e a natureza em sua obra.<\/p>\n<p>Encontramos em\u00a0Marx\u00a0um uso not\u00e1vel do termo metabolismo, emprestado dos qu\u00edmicos de seu tempo, e enriquecido por suas leituras do qu\u00edmico\u00a0Justus\u00a0von\u00a0Liebig, um fervoroso cr\u00edtico do empobrecimento dos solos pela<a href=\"https:\/\/brasilamazoniaagora.com.br\/editoria\/agricultura\/\">\u00a0agricultura<\/a>\u00a0intensiva.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00f3 o\u00a0materialismo\u00a0de Marx\u00a0(cuja heran\u00e7a epicurista justamente os autores sublinham) v\u00ea no homem uma parte da natureza e em qualquer sociedade um metabolismo, uma troca constante com a natureza mediada pelo trabalho, como ele teorizaria a ruptura desse metabolismo no\u00a0capitalismo.<\/p>\n<p>Marx\u00a0e\u00a0Engels\u00a0prestam assim uma aten\u00e7\u00e3o inquestion\u00e1vel \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da transforma\u00e7\u00e3o dos m\u00e9todos de produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola e industrial, da riqueza dos solos, da sa\u00fade dos trabalhadores, do pr\u00f3prio ar das oficinas e das f\u00e1bricas, dos alimentos, ou ainda da vida das fam\u00edlias e dos cuidados das m\u00e3es dos seus filhos.<\/p>\n<p>Apoiando-se em historiadores da economia como Blackburn\u00a0e Polanyi, \u00e0s vezes mais do que no pr\u00f3prio\u00a0Marx,\u00a0Foster\u00a0e\u00a0Clark\u00a0mostram que o\u00a0capitalismo\u00a0n\u00e3o opera uma transi\u00e7\u00e3o de uma\u00a0economia da expropria\u00e7\u00e3o, baseada na pilhagem das terras e dos recursos sem troca, para uma economia da\u00a0explora\u00e7\u00e3o\u00a0do\u00a0trabalho\u00a0baseada na troca equivalente em mercados, mas que os dois formam uma \u201cdial\u00e9tica\u00a0da explora\u00e7\u00e3o\u00a0e da\u00a0expropria\u00e7\u00e3o\u201d (p. 37).<\/p>\n<p>A explora\u00e7\u00e3o gera\u00a0lucro\u00a0dentro do sistema, ao passo que a\u00a0expropria\u00e7\u00e3o\u00a0gera\u00a0lucro\u00a0e extens\u00e3o do sistema em suas fronteiras, pela coloniza\u00e7\u00e3o de novos espa\u00e7os, povos, recursos ou ecossistemas. Ao faz\u00ea-lo, continua a agravar a \u201csepara\u00e7\u00e3o do homem e da natureza\u201d e a \u201cruptura do metabolismo\u201d j\u00e1 denunciadas por\u00a0Marx, especialmente no que diz respeito \u00e0 agricultura intensiva inglesa, grande importadora de guano do Peru e de ossos de toda a Europa.<\/p>\n<p>O\u00a0Cap\u00edtulo\u00a0II\u00a0oferece um belo estudo de caso, mostrando como\u00a0Marx\u00a0se interessou de perto pelas pr\u00e1ticas agr\u00edcolas impostas pela Inglaterra \u00e0 Irlanda, at\u00e9 o tipo de fertilizante e a rota\u00e7\u00e3o de culturas. Assim, relacionou a\u00a0Grande\u00a0Fome\u00a0de\u00a01845\u20131852\u00a0\u00e0 press\u00e3o cada vez maior sobre os solos e os camponeses irlandeses em detrimento de pr\u00e1ticas mais sustent\u00e1veis, e \u00e0 generaliza\u00e7\u00e3o da batata como alimento quase exclusivo dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Marx, no entanto, \u00e9 frequentemente acusado pela esquerda contempor\u00e2nea de ter ignorado, conscientemente ou n\u00e3o, ou por ter desenvolvido muito pouco toda uma s\u00e9rie de problemas hoje considerados essenciais nas lutas progressistas: a\u00a0reprodu\u00e7\u00e3o\u00a0social\u00a0e o peso que ela imp\u00f5e \u00e0s mulheres, o sofrimento infligido aos animais, a\u00a0produ\u00e7\u00e3o\u00a0sustent\u00e1vel\u00a0dealimentos\u00a0de qualidade para todos.<\/p>\n<p>Os autores, portanto, dedicam um cap\u00edtulo a cada uma dessas quest\u00f5es, para mostrar, ao contr\u00e1rio, que\u00a0Marx\u00a0(e\u00a0Engels) foram de fato testemunhas, e mesmo investigadores cr\u00edticos, da dissolu\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia trabalhadora devido ao trabalho das mulheres e das crian\u00e7as, das doen\u00e7as causadas pelas condi\u00e7\u00f5es de trabalho e pela alimenta\u00e7\u00e3o muitas vezes adulterada (contendo chumbo, estricnina, sulfato de cobre, giz, etc.), e at\u00e9 pelo sofrimento animal.<\/p>\n<p>Eles, portanto, inegavelmente d\u00e3o corpo \u00e0\u00a0an\u00e1lise\u00a0marxista\u00a0e mostram de forma convincente que os dois pensadores foram testemunhas atentas dos males de seu tempo em sua diversidade concreta, incluindo aqueles aos quais n\u00e3o necessariamente est\u00e3o associados.<\/p>\n<p>No entanto, eles passam bastante rapidamente dos interesses, das leituras e at\u00e9 posi\u00e7\u00f5es assumidas por\u00a0Marx\u00a0e\u00a0Engels\u00a0\u00e0 ideia de que estes \u00faltimos teriam teorizado essas quest\u00f5es dando-lhes uma import\u00e2ncia compar\u00e1vel \u00e0quela que eles t\u00eam hoje, e que\u00a0Marx\u00a0seria tanto um \u201cte\u00f3rico da alimenta\u00e7\u00e3o\u201d, um pensador da reprodu\u00e7\u00e3o social e um cr\u00edtico do \u201cespecismoalienado\u201d. O fato de autores posteriores terem desenvolvido esses pontos a partir das intui\u00e7\u00f5es e do m\u00e9todo de\u00a0Marx\u00a0n\u00e3o significa que tudo isso j\u00e1 estivesse presente em sua obra, como \u00e0s vezes d\u00e3o a entender.<\/p>\n<p><strong>O ecomarxismo, a \u00fanica ecologia pol\u00edtica \u00e0 altura dos desafios?<\/strong><\/p>\n<p>A segunda parte do livro constitui um apelo para romper com as formas de\u00a0ecologia\u00a0pol\u00edticaque n\u00e3o p\u00f5em em causa o car\u00e1ter estruturalmente ecocida\u00a0do\u00a0capitalismo, destacado na primeira parte, e a fazer da sua aboli\u00e7\u00e3o a condi\u00e7\u00e3o de uma\u00a0ecologia\u00a0eficaz.<\/p>\n<p>O argumento (\u00e0s vezes severo) n\u00e3o \u00e9 dirigido tanto aos\u00a0capitalistas\u00a0declarados quanto a outras fra\u00e7\u00f5es da\u00a0esquerda ecol\u00f3gica, especialmente aquelas que defendem uma forma de\u00a0ecomodernismoe rejeitam qualquer\u00a0decrescimento, e aqueles que tentam valorizar a natureza dentro da\u00a0economia\u00a0de mercado, colocando um pre\u00e7o nos \u201cservi\u00e7os\u00a0ecossist\u00eamicos\u201d ou nas emiss\u00f5es de carbono.<\/p>\n<blockquote><p>O capitalismo n\u00e3o pode abster-se de destruir inconsequentemente por\u00e7\u00f5es cada vez maiores da natureza que, no entanto, necessita, minando assim suas pr\u00f3prias bases de longo prazo \u2013 Bertrand Vaillant<\/p><\/blockquote>\n<p>O\u00a0capitalismo, de acordo com as intui\u00e7\u00f5es do \u201cMarx\u00a0ecol\u00f3gico\u201d, mas sem d\u00favida ainda mais profundamente, n\u00e3o pode abster-se de destruir inconsequentemente por\u00e7\u00f5es cada vez maiores da natureza que, no entanto, necessita, minando assim suas pr\u00f3prias bases de longo prazo.<\/p>\n<p>Mas os autores n\u00e3o caem em uma atitude ing\u00eanua de esperar para ver que se trataria de esperar por esse\u00a0colapso\u00a0iminente: ao contr\u00e1rio, eles se esfor\u00e7am para mostrar o quanto o capital poderia aproveitar a escassez de recursos, o que lhes permitir\u00e1 ser privatizados e revendidos com lucro \u2013 tudo em nome da chamada \u201ctrag\u00e9dia dos comuns\u201d teorizada por\u00a0Hardin, uma hip\u00f3tese altamente contestada segundo a qual os bens comuns sempre estariam sujeitos \u00e0 superexplora\u00e7\u00e3o, o que somente sua privatiza\u00e7\u00e3o poderia impedir (3). Para isso,\u00a0Foster\u00a0e\u00a0Clark\u00a0retornam utilmente ao paradoxo formulado por\u00a0Lauderdale\u00a0no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX (cap. VI):<\/p>\n<p>\u201cEm outras palavras, a escassez \u00e9 um requisito necess\u00e1rio para que algo tenha valor de troca e para aumentar as fortunas privadas. Mas este n\u00e3o \u00e9 o caso da riqueza p\u00fablica, que engloba todo o valor de uso e, portanto, inclui o que \u00e9 escasso, mas tamb\u00e9m o que \u00e9 abundante.<\/p>\n<p>Esse paradoxo levou\u00a0Lauderdale\u00a0a afirmar que o aumento da escassez de elementos de vida at\u00e9 ent\u00e3o abundantes, mas necess\u00e1rios, como o ar, a \u00e1gua e a comida, se estivessem associados a valores de troca, melhorariam as fortunas privadas individuais e, portanto, a riqueza do pa\u00eds \u2013 concebida como\u00a0a soma total das fortunas individuais\u00a0\u2013, mas apenas em detrimento da riqueza comum\u201d. (p. 155)<\/p>\n<p>A economia cl\u00e1ssica rejeitou este paradoxo recusando-se a levar em considera\u00e7\u00e3o o valor de uso, considerando exclusivamente, seguindo\u00a0Adam\u00a0Smith\u00a0e\u00a0Jean\u2013Baptiste\u00a0Say, apenas o valor de troca, e considerando os recursos naturais como for\u00e7as gratuitas que n\u00e3o entram no c\u00e1lculo econ\u00f4mico. Ecologistas como\u00a0E.\u00a0F.\u00a0Schumacher\u00a0(Small\u00a0is Beautiful, 1973) ou\u00a0David Harvey\u00a0(Marx,\u00a0Capital and the Madnesse of Economic Reason, 2017) criticaram\u00a0Marx\u00a0por ter focado suas an\u00e1lises na produ\u00e7\u00e3o de valor de troca e por n\u00e3o atribuir nenhum valor \u00e0 natureza. Os autores lembram que, ao contr\u00e1rio,\u00a0Marx\u00a0sublinha, na\u00a0Cr\u00edtica do Programa de Gotha, que:<\/p>\n<p>\u201cO trabalho n\u00e3o \u00e9 a fonte de toda a riqueza. A natureza \u00e9 tanto a fonte dos valores de uso (e s\u00e3o eles que realmente constituem a riqueza) quanto do trabalho, que \u00e9 apenas a express\u00e3o de uma for\u00e7a natural, a for\u00e7a de trabalho.\u201d<\/p>\n<p>A\u00a0cegueira\u00a0ecol\u00f3gica\u00a0de uma economia que ignora o valor de uso tamb\u00e9m se encontra, para os autores, nas propostas dos\u00a0ecologistas\u00a0que pretendem regular a\u00a0destrui\u00e7\u00e3o capitalista\u00a0atribuindo um pre\u00e7o aos seres vivos, aos ecossistemas, \u00e0s condi\u00e7\u00f5es elementares da vida, como a \u00e1gua pot\u00e1vel e o ar respir\u00e1vel, ou ver no aumento do pre\u00e7o desses recursos o fim programado do\u00a0capitalismo.<\/p>\n<p>No cap. IX, \u201cO valor n\u00e3o \u00e9 tudo\u201d, d\u00e3o continuidade a um virulento debate iniciado pelo menos desde 2017 com o pensador ecol\u00f3gico\u00a0Jason\u00a0W.\u00a0Moore, autor de\u00a0Capitalism in the Web of Life\u00a0(O capitalismo na teia da vida), e cr\u00edtico severo do\u00a0conceito fosteriano\u00a0de \u201cruptura metab\u00f3lica\u201d como sendo excessivamente \u201cdualista\u201d e \u201ccartesiano\u201d (5).\u00a0Mooredesenvolve em sua obra uma an\u00e1lise otimista da hist\u00f3ria do capitalismo visto que este, dependente do acesso a uma natureza barata, aproximar-se-ia do seu fim \u00e0 medida que provoca o aumento do custo dos recursos.<\/p>\n<p>Foster e Clark oferecem uma cr\u00edtica convincente \u00e0quelas teorias que negam \u00e0 natureza qualquer autonomia para integr\u00e1-la totalmente ao\u00a0capitalismo\u00a0mundial\u00a0e pensam em termos\u00a0capitalistas\u00a0quando procuram atribuir a ela um valor econ\u00f4mico muito alto.<\/p>\n<p>Eles lembram que debates semelhantes j\u00e1 tinham preocupado\u00a0Marx\u00a0e\u00a0Engels\u00a0em rela\u00e7\u00e3o aos fisiocratas, mas tamb\u00e9m \u00e0s primeiras tentativas de integrar a energia natural \u00e0 economia de mercado via termodin\u00e2mica. Em poucas palavras, para os autores: \u201cOs p\u00e1ssaros canoros est\u00e3o desaparecendo porque seus habitats est\u00e3o sendo destru\u00eddos pela expans\u00e3o hist\u00f3rica do sistema \u2013 n\u00e3o apenas porque s\u00e3o considerados \u2018in\u00fateis\u2019 do ponto de vista do mercado\u201d. (p. 237)<\/p>\n<p>O livro recorda atrav\u00e9s de um conjunto de dados essenciais (mas suficientemente conhecidos ou acess\u00edveis para n\u00e3o voltarmos a eles aqui) a urg\u00eancia e a gravidade das m\u00faltiplas\u00a0crisesecol\u00f3gicas\u00a0que nos amea\u00e7am ou, como o aquecimento global ou o desaparecimento a um ritmo alarmante da biodiversidade, j\u00e1 pairam sobre n\u00f3s. Fi\u00e9is \u00e0 inten\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de\u00a0Marx\u00a0e\u00a0Engels, os autores pedem que se leve em considera\u00e7\u00e3o as ci\u00eancias do sistema\u00a0Terra\u00a0e os limites planet\u00e1rios que elas estabeleceram.<\/p>\n<p>Eles s\u00e3o, portanto, logicamente cr\u00edticos do\u00a0ecomodernismo, que v\u00ea na tecnologia usada racionalmente, inclusive na geoengenharia, uma solu\u00e7\u00e3o para todos os problemas ambientais (esta \u00e9 a ocasi\u00e3o para outra pol\u00eamica com a revista socialista americana\u00a0Jacobin, no\u00a0Cap\u00edtulo\u00a0XI).<\/p>\n<p>Se os contornos da futura\u00a0sociedade ecol\u00f3gica\u00a0s\u00e3o pouco esbo\u00e7ados (especialmente num cap\u00edtulo sobre \u201co sentido do trabalho na sociedade socialista\u201d, que se baseia de forma estimulante no artista e pensador marxista\u00a0William\u00a0Morris), a gest\u00e3o da \u201clonga\u00a0revolu\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica\u201d (a palavra ainda \u00e9 de\u00a0Morris) est\u00e1 clara para\u00a0John BellamyFoster\u00a0e\u00a0Brett\u00a0Clark: ela deve abolir um\u00a0capitalismo\u00a0intrinsecamente ecocida\u00a0e absurdo, que n\u00e3o s\u00f3 gera quantidades cada vez maiores de lixo, destrui\u00e7\u00e3o e sofrimento, mas desperdi\u00e7a ao mesmo tempo uma quantidade enorme de valor na constru\u00e7\u00e3o da demanda por bens in\u00fateis, atrav\u00e9s do marketing em todas as suas formas, ou em or\u00e7amentos militares.<\/p>\n<p>Este \u201csistema constru\u00eddo sobre o desperd\u00edcio\u201d deve dar lugar, segundo a famosa f\u00f3rmula de\u00a0Marx, a uma sociedade na qual os produtores associados regulam racionalmente suas trocas com a natureza, [onde] eles a controlam juntos em vez de serem dominados por seu poder cego e [na qual] realizam essas trocas gastando o m\u00ednimo de for\u00e7a e nas condi\u00e7\u00f5es mais dignas, o m\u00e1ximo em conformidade com sua natureza humana (6).<\/p>\n<p>E para record\u00e1-lo utilmente, contra as acusa\u00e7\u00f5es de\u00a0produtivismo\u00a0ing\u00eanuo, as cr\u00edticas de\u00a0Engels\u00a0\u00e0 ideia moderna de domina\u00e7\u00e3o da natureza (p. 285). Longe de ser um objetivo adiado face \u00e0 emerg\u00eancia clim\u00e1tica, a \u201cluta\u00a0revolucion\u00e1ria\u201d (p. 289) pelo\u00a0ecossocialismo\u00a0\u00e9, aos olhos dos autores, o \u00fanico caminho para uma ecologia emancipat\u00f3ria e eficaz. Ao contr\u00e1rio de Adeus ao proletariado, de Andr\u00e9 Gorz, pioneiro do\u00a0ecossocialismo\u00a0contempor\u00e2neo, os autores concluem sobre a constitui\u00e7\u00e3o em curso de um \u201cproletariado\u00a0ambiental\u201d que re\u00fane prioritariamente aqueles que s\u00e3o as principais v\u00edtimas das crises ecol\u00f3gicas:<\/p>\n<p>\u201cEssa revolta encontrar\u00e1 inevitavelmente seu principal \u00edmpeto em um proletariado ambiental, formado pela converg\u00eancia de\u00a0crises\u00a0econ\u00f4micas\u00a0e ecol\u00f3gicas\u00a0e pela resist\u00eancia coletiva de culturas e comunidades trabalhadoras \u2013 uma nova realidade que j\u00e1 est\u00e1 emergindo, particularmente no\u00a0Sul\u00a0Global. Esta ser\u00e1 necessariamente uma batalha travada de forma desproporcional pelos jovens, dado o enorme fardo que agora lhes \u00e9 imposto, mas a luta tem de ser travada por todos n\u00f3s\u201d. (p. 289)<\/p>\n<blockquote><p>No entanto, os autores \u00e0s vezes parecem mais preocupados em salvar Marx de todas as cr\u00edticas do que em salvar o planeta \u2013 Bertrand Vaillant<\/p><\/blockquote>\n<p>Permanece, no entanto, insatisfat\u00f3rio quanto aos m\u00e9todos reais de constitui\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o deste novo proletariado, por natureza muito mais fragmentado e aparentemente beneficiado por um equil\u00edbrio de poder ainda menos favor\u00e1vel do que o proletariado oper\u00e1rio dos s\u00e9culos XIX e XX.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o: salvar os seres vivos ou salvar Marx?<\/strong><\/p>\n<p>A releitura de\u00a0Marx\u00a0oferecida por este livro, que prolonga o\u00a0Marx ecologista de Foster ou a Natureza contra o capital de Kohei\u00a0Sa\u00efto, \u00e9 uma contribui\u00e7\u00e3o indiscutivelmente \u00fatil, tanto para o conhecimento do grande pensador do\u00a0capitalismo, como para os debates contempor\u00e2neos sobre a\u00a0ecologia.<\/p>\n<p>No entanto, os autores \u00e0s vezes parecem mais preocupados em salvar\u00a0Marx\u00a0de todas as cr\u00edticas do que em salvar o planeta. Sua tentativa de torn\u00e1-lo uma esp\u00e9cie de fonte suficiente de todo pensamento progressista e emancipat\u00f3rio parece mal motivada em certos casos (o feminismo ou a \u00e9tica animal em particular), embora possa ajudar a elevar a barra diante dos excessos opostos.<\/p>\n<p>Que\u00a0Marx\u00a0tenha concedido um lugar \u00e0 natureza em sua an\u00e1lise da sociedade e do\u00a0capitalismo, e at\u00e9 mesmo na produ\u00e7\u00e3o de riqueza, e que ele estava ciente de certas destrui\u00e7\u00f5es que hoje chamar\u00edamos de\u00a0ecol\u00f3gicas\u00a0(polui\u00e7\u00e3o da \u00e1gua e do ar ou o empobrecimento do solo), isso agora parece estabelecido.<\/p>\n<p>Que esta quest\u00e3o tenha ocupado o papel central em seu pensamento que os autores atribuem a ele n\u00e3o \u00e9 totalmente convincente, como mostra, por outro lado, sua tend\u00eancia a retornar frequentemente \u00e0s mesmas cita\u00e7\u00f5es de\u00a0Marx, ou de associar a ele conceitos ou cita\u00e7\u00f5es de outros autores (de uma forma que \u00e0s vezes leva \u00e0 confus\u00e3o), e o fato de que eles se baseiam em um corpo muito vasto de trabalhos posteriores, que tamb\u00e9m \u00e9, por outro lado, a riqueza do livro.<\/p>\n<p>Podemos notar tamb\u00e9m que eles se mant\u00eam afastados da virada ontol\u00f3gica da\u00a0ecologia, e n\u00e3o buscam (como recentemente p\u00f4de fazer\u00a0Paul\u00a0Guillibert) justificar o uso das categorias de natureza e sociedade, hoje sob o fogo dos cr\u00edticos.<\/p>\n<p>Os conceitos de \u201cruptura metab\u00f3lica\u201d, de expropria\u00e7\u00e3o da natureza, de dial\u00e9tica explora\u00e7\u00e3o (no seio do sistema)\/expropria\u00e7\u00e3o (nas fronteiras) s\u00e3o, no entanto, valiosos para evidenciar o car\u00e1ter\u00a0intrinsecamente ecocida\u00a0do capitalismo, e fornecem uma grade de leitura relevante para observar como nossas sociedades se relacionam com suas condi\u00e7\u00f5es naturais de exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Mesmo que a an\u00e1lise seja principalmente cr\u00edtica e geral, ela reorienta a\u00a0luta ecol\u00f3gica\u00a0para um advers\u00e1rio concreto, o capitalismo, em vez de exigir apenas uma mudan\u00e7a ainda mais geral de vis\u00e3o de mundo ou de ontologia.<\/p>\n<p>Ela tra\u00e7a um caminho tanto para os movimentos ecol\u00f3gicos\u00a0quanto para os socialistas, delimitado pelas armadilhas a serem evitadas: a nova sociedade ter\u00e1 que regular racionalmente suas rela\u00e7\u00f5es com a natureza atrav\u00e9s de uma forma de planejamento mantendo-se democr\u00e1tica; eliminar o\u00a0desperd\u00edcio capitalista\u00a0de valor e de recursos e especialmente o enorme desperd\u00edcio de publicidade; inverter a extrema divis\u00e3o do trabalho e encontrar os meios para produzir menos e melhor, desenvolvendo \u201cnovas possibilidades de trabalho n\u00e3o alienado e de arte no local de trabalho, que permitem recuperar em um n\u00edvel superior o que se perdeu com o desaparecimento do artes\u00e3o\u201d (p. 185)<\/p>\n<p>Sem cair na utopia nost\u00e1lgica; inventar uma economia que leve em conta os limites do sistema Terra e n\u00e3o reduza a riqueza ao valor de troca; recolocar o valor de uso no centro da produ\u00e7\u00e3o e com ele todo o trabalho de\u00a0reprodu\u00e7\u00e3o\u00a0social\u00a0hoje invis\u00edvel; e fazer da preserva\u00e7\u00e3o da sa\u00fade humana e animal um objetivo central. Tudo isso enquanto inventa uma nova forma de metabolismo entre a sociedade e a natureza, uma nova etapa de uma rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica que n\u00e3o est\u00e1 fadada a um aumento fatal e desesperador da\u00a0domina\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica.<\/p>\n<p>Este livro permitir\u00e1 ao leitor descobrir um outro Marx e entrar de forma clara e estimulante nos debates que dividem ou dilaceram a esquerda ecol\u00f3gica contempor\u00e2nea \u2013 Bertrand Vaillant<\/p>\n<p>Este livro permitir\u00e1 ao leitor descobrir um outro\u00a0Marx\u00a0e entrar de forma clara e estimulante nos debates que dividem ou dilaceram a\u00a0esquerda ecol\u00f3gica\u00a0contempor\u00e2nea, mesmo que sejam obviamente apresentados numa perspectiva pol\u00eamica, ou seja, do movimento mais marxista do ecossocialismo.<\/p>\n<p>Sua tradu\u00e7\u00e3o para o franc\u00eas por\u00a0Cyrille\u00a0Rivallan\u00a0e as\u00a0\u00c9ditions\u00a0Critiques\u00a0felizmente contribui para tornar acess\u00edvel aos leitores franc\u00f3fonos a corrente\u00a0ecossocialista\u00a0muito viva, a das revistas\u00a0Monthly Review\u00a0de Foster,\u00a0Capitalism\u00a0Nature\u00a0Socialism\u00a0do falecido\u00a0JamesO\u2019Connor, ou\u00a0Climate\u00a0&amp; Capitalism\u00a0de\u00a0Ian\u00a0Angus, uma corrente com a qual a\u00a0ecologiapol\u00edtica deve agora contar.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: &#8220;Ser\u00e1 o marxismo o futuro da ecologia pol\u00edtica?&#8221; &#8211; Brasil Amaz\u00f4nia Agora &#8211; https:\/\/brasilamazoniaagora.com.br\/2022\/marxismo-futuro-da-ecologia\/<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bertrand Vaillant &#8211; A explora\u00e7\u00e3o gera lucro dentro do sistema, ao passo que a expropria\u00e7\u00e3o gera lucro e extens\u00e3o do sistema em suas fronteiras, pela coloniza\u00e7\u00e3o de novos espa\u00e7os, povos, recursos ou ecossistemas \u00c9 o\u00a0marxismo\u00a0o futuro da\u00a0ecologia pol\u00edtica? 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