{"id":18740,"date":"2023-01-09T12:51:14","date_gmt":"2023-01-09T15:51:14","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18740"},"modified":"2023-01-05T16:54:34","modified_gmt":"2023-01-05T19:54:34","slug":"economia-politica-dos-influenciadores-digitais-uma-outra-visao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/01\/09\/economia-politica-dos-influenciadores-digitais-uma-outra-visao\/","title":{"rendered":"Economia pol\u00edtica dos influenciadores digitais: uma outra vis\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><strong>Manolo<\/strong> &#8211;\u00a0Precisamos avan\u00e7ar muito mais na an\u00e1lise da realidade, \u201cde dentro e de perto\u201d inclusive, at\u00e9 chegarmos a uma cr\u00edtica do fen\u00f4meno dos influenciadores digitais adequada ao que se v\u00ea na pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Em tempos de precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, alastra-se como uma praga a profiss\u00e3o de influenciador digital. A entrada neste mercado \u00e9 simples: bastam um celular, acesso \u00e0 internet, conta em certas plataformas digitais, e ter o que dizer. (Minto: dispensa-se ami\u00fade o \u00faltimo item.) Com o fen\u00f4meno da\u00a0<a class=\"urlextern\" title=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Viral_video\" href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Viral_video\" rel=\"nofollow noopener ugc\">viraliza\u00e7\u00e3o<\/a>, t\u00edpico da\u00a0<em>web 2.0<\/em>, \u00e0s poucas barreiras \u00e0 entrada soma-se uma estranha meritocracia aleat\u00f3ria, aleatoriedade ali\u00e1s justificadora da insist\u00eancia dos nano, pico, femto, atto, zepto, iocto, ronto e quectoinfluenciadores em produzir mais e mais v\u00eddeos, na esperan\u00e7a de\u00a0<em>hitar\u00a0<\/em>em vez de\u00a0<em>flopar<\/em>, de\u00a0<em>estar no hype<\/em>. Esperan\u00e7a v\u00e3, ali\u00e1s, que comungam com outros atr\u00e1s de dinheiro f\u00e1cil na internet, como\u00a0<em>traders<\/em>, rifeiros, apostadores, vendedores de cursos ou mesmo quem est\u00e1 novo no\u00a0<em>7<\/em>\u00a0fazendo a primeira\u00a0<em>lara<\/em>\u00a0para\u00a0<em>virar saldo<\/em>\u00a0de\u00a0<em>cc gg fuzil<\/em>\u00a0(entendedores entender\u00e3o).<\/p>\n<p><a class=\"urlextern\" title=\"https:\/\/12ft.io\/proxy?q=https%3A%2F%2Fvalor.globo.com%2Feu-e%2Fnoticia%2F2022%2F12%2F02%2Fcomo-se-faz-um-influenciador.ghtml\" href=\"https:\/\/12ft.io\/proxy?q=https%3A%2F%2Fvalor.globo.com%2Feu-e%2Fnoticia%2F2022%2F12%2F02%2Fcomo-se-faz-um-influenciador.ghtml\" rel=\"nofollow noopener ugc\">A consultoria internacional Influencity Marketing Hub estima que<\/a>, no mundo, o setor da \u201cinflu\u00eancia digital\u201d fechar\u00e1 o ano de 2022 com movimenta\u00e7\u00e3o financeira global de US$ 16,4 bilh\u00f5es; no Brasil, a mesma consultoria estima haver cerca de 9 milh\u00f5es de influenciadores, dos quais 62,2% (aproximadamente 5,6 milh\u00f5es) s\u00e3o mulheres e 37,8% (aproximadamente 3,4 milh\u00f5es) s\u00e3o homens.\u00a0<a class=\"urlextern\" title=\"https:\/\/12ft.io\/proxy?q=https%3A%2F%2Fvalor.globo.com%2Feu-e%2Fnoticia%2F2022%2F12%2F02%2Fcomo-se-faz-um-influenciador.ghtml\" href=\"https:\/\/12ft.io\/proxy?q=https%3A%2F%2Fvalor.globo.com%2Feu-e%2Fnoticia%2F2022%2F12%2F02%2Fcomo-se-faz-um-influenciador.ghtml\" rel=\"nofollow noopener ugc\">Bia Granja, da consultoria Youpix, estima que<\/a>, desses cerca de 9 milh\u00f5es, somente 36% (aproximadamente 3,24 milh\u00f5es) conseguem viver exclusivamente da \u201cinflu\u00eancia\u201d; ainda segundo a consultora, neste conjunto mais restrito, 75% (aproximadamente 2,43 milh\u00f5es) consegue renda mensal entre R$ 2 mil a R$ 5 mil.<\/p>\n<p>Neste contexto, em especial quando tais estimativas s\u00e3o sabidamente subdimensionadas e quando a produ\u00e7\u00e3o audiovisual tornou-se praticamente forma b\u00e1sica de socializa\u00e7\u00e3o entre adolescentes e jovens, cabe \u00e0 esquerda anticapitalista debru\u00e7ar-se sobre o fen\u00f4meno para intervir politicamente sobre mais este campo onde se opera a explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Numa tentativa de contribuir com este esfor\u00e7o, o Passa Palavra publicou, em 04 de dezembro de 2022, o artigo\u00a0<strong><a class=\"urlextern\" title=\"https:\/\/passapalavra.info\/2022\/12\/146696\/\" href=\"https:\/\/passapalavra.info\/2022\/12\/146696\/\" rel=\"nofollow noopener ugc\">Economia pol\u00edtica dos influenciadores digitais<\/a><\/strong>, onde seu autor, Fagner Enrique, apresenta dois argumentos principais, estendidos em coment\u00e1rios:<\/p>\n<p>1) O influenciador digital est\u00e1 inserido num\u00a0<em>putting-out system\u00a0<\/em>invertido, onde concebe e executa performances sozinho ou com a ajuda de outras pessoas; \u00e9 coinvestidor de um neg\u00f3cio junto com as plataformas digitais onde publicam seu material, porque ocultam o trabalho de outras pessoas necess\u00e1rio \u00e0 sua performance e recebem, pela via da monetiza\u00e7\u00e3o, parte da mais-valia extra\u00edda no processo. Deste modo, todo influenciador \u00e9 um capitalista em potencial, porque a economia da influ\u00eancia digital cria-lhe tal oportunidade; mesmo quando todo o trabalho \u00e9 executado pessoal e isoladamente pelo pr\u00f3prio influenciador, mesmo nesta situa\u00e7\u00e3o ali\u00e1s comum o influenciador deixaria de ser coinvestidor, porque mesmo em tal situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 explorado pela plataforma digital.<\/p>\n<p>2) Interlocutores de esquerda do autor consideram influenciadores como trabalhadores, exclusivamente; como o autor considera os influenciadores como \u201ccoinvestidores\u201d, e afirma que n\u00e3o s\u00e3o explorados pelas plataformas digitais mesmo quando fazem todo seu trabalho sozinhos, imputa a seus interlocutores a incapacidade de enxergar e definir com clareza a classe trabalhadora, negando-se assim a si mesmos enquanto esquerda e condenando-se \u00e0 inexist\u00eancia pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Discordo, integralmente e sem exce\u00e7\u00f5es, de toda a linha argumentativa do artigo. Na minha leitura, em suma, o artigo parte do erro de seus interlocutores iniciais \u2014 de que os influenciadores s\u00e3o exclusivamente trabalhadores, independentemente do processo de produ\u00e7\u00e3o de seu conte\u00fado audiovisual \u2014 para o erro oposto, de que todo influenciador \u00e9 capitalista, em potencial quando n\u00e3o o \u00e9 de fato.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-146908 c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/passapalavra.info\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/acv_imgcapa_1412364755-1200x1217-1.jpg?w=640&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/passapalavra.info\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/acv_imgcapa_1412364755-1200x1217-1.jpg 1200w, https:\/\/passapalavra.info\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/acv_imgcapa_1412364755-1200x1217-1-296x300.jpg 296w, https:\/\/passapalavra.info\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/acv_imgcapa_1412364755-1200x1217-1-1010x1024.jpg 1010w, https:\/\/passapalavra.info\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/acv_imgcapa_1412364755-1200x1217-1-70x70.jpg 70w, https:\/\/passapalavra.info\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/acv_imgcapa_1412364755-1200x1217-1-768x779.jpg 768w, https:\/\/passapalavra.info\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/acv_imgcapa_1412364755-1200x1217-1-414x420.jpg 414w, https:\/\/passapalavra.info\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/acv_imgcapa_1412364755-1200x1217-1-640x649.jpg 640w, https:\/\/passapalavra.info\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/acv_imgcapa_1412364755-1200x1217-1-681x691.jpg 681w, \" alt=\"\" \/><\/p>\n<p>O artigo me suscitou v\u00e1rias quest\u00f5es, que apresentei de imediato na forma de coment\u00e1rio. Foi pedido ao Passa Palavra que convertesse o coment\u00e1rio em artigo, para maior difus\u00e3o. Ora, o autor do coment\u00e1rio sou eu, n\u00e3o o Passa Palavra, que n\u00e3o tem inger\u00eancia alguma sobre transform\u00e1-lo ou n\u00e3o em artigo. Cabe aos comentaristas do site pedi-lo, se assim o quiserem \u2014 e eu quero. Eis, portanto, o coment\u00e1rio, reformulado como artigo, para que o Passa Palavra decida se o publica ou se, para evitar repeti\u00e7\u00f5es, opta por ficar somente com o coment\u00e1rio, porque o grosso da argumenta\u00e7\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 l\u00e1.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>O artigo, dizia, suscitou-me v\u00e1rias quest\u00f5es, todas relativas aos pontos centrais de sua argumenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Primeiro, o tal \u201c<em>putting-out system\u00a0<\/em>invertido\u201d.<\/p>\n<p>O\u00a0<em>putting-out system<\/em>\u00a0importa para a hist\u00f3ria do desenvolvimento capitalista primariamente enquanto momento do processo de centraliza\u00e7\u00e3o de capital, dos meios de produ\u00e7\u00e3o e do direcionamento\/controle do processo de trabalho nas m\u00e3os dos capitalistas. Na economia pol\u00edtica da influ\u00eancia digital, por contraste, a centraliza\u00e7\u00e3o de capital j\u00e1 se encontra realizada em propor\u00e7\u00f5es muito mais d\u00edspares que no\u00a0<em>putting-out system<\/em>; a centraliza\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o, idem; e n\u00e3o h\u00e1 direcionamento\/controle do processo de produ\u00e7\u00e3o por parte dos capitalistas envolvidos, porque toda produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fado digital lhes interessa. S\u00e3o momentos hist\u00f3ricos diferentes, onde cada regime de trabalho cumpre \u201ctarefas\u201d diferentes no desenvolvimento do capital. A simples semelhan\u00e7a aparente, mesmo \u201cinvertida\u201d, n\u00e3o justifica igualar um regime ao outro.<\/p>\n<p>No\u00a0<em>putting-out system<\/em>, os artes\u00e3os conseguiriam usar as mesmas ferramentas para produzir independentemente do direcionamento dado pelos capitalistas, e tinham um lugar onde vender tais produtos independentemente do monops\u00f4nio\/oligops\u00f4nio que os capitalistas lhes pretendiam impor. Na economia pol\u00edtica da influ\u00eancia digital, por contraste, pode-se at\u00e9 produzir algo, mas a transforma\u00e7\u00e3o do produto em \u201cmercadoria\u201d depende, sem exce\u00e7\u00e3o, da infraestrutura de telecomunica\u00e7\u00f5es e de inform\u00e1tica fornecida por capitalistas: no campo audiovisual, por exemplo, a alternativa a divulgar v\u00eddeos fora da internet \u00e9 gravar em m\u00eddias f\u00edsicas (DVD, pendrives, cart\u00f5es de mem\u00f3ria, etc.) e providenciar sua distribui\u00e7\u00e3o \u2014 como qualquer um pode imaginar, isso \u00e9 poss\u00edvel, mas impratic\u00e1vel hoje, e mesmo invi\u00e1vel para a transforma\u00e7\u00e3o de v\u00eddeos em mercadoria.<\/p>\n<p>Segundo, o \u201ccoinvestimento\u201d.<\/p>\n<p>Quando se afirma no artigo que os influenciadores \u201ccostumam ser donos de outros meios de produ\u00e7\u00e3o utilizados: um celular, por exemplo\u201d, abstrai-se tal \u201ccoinvestimento\u201d da tend\u00eancia de\u00a0<em>outsourcing<\/em>\u00a0dos meios de produ\u00e7\u00e3o, em especial daquela conhecida como\u00a0<em>bring your own device<\/em>\u00a0(\u201ctraga seu pr\u00f3prio aparelho\u201d, tamb\u00e9m referenciada pela sigla BYOD), que tem se tornado cada vez mais influente no setor de servi\u00e7os. Em suma: em vez de fornecer um celular ou um\u00a0<em>laptop<\/em>\u00a0a cada trabalhador, ou de comprar computadores para deixar na sede, empresas t\u00eam recorrido cada vez mais a usar os equipamentos dos pr\u00f3prios trabalhadores, sujeitando-os a regras com variados graus de rigidez quanto ao\u00a0<em>software<\/em>\u00a0que se permite usar nos aparelhos, ao acesso \u00e0s pastas onde ficam os arquivos de trabalho, etc. A diferen\u00e7a: no regime BYOD as regras quanto ao uso do aparelho para o trabalho na empresa s\u00e3o centralizadas, na produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fado digital n\u00e3o existem diretrizes ou supervis\u00e3o alheias ao pr\u00f3prio influenciador. Meio de produ\u00e7\u00e3o, neste contexto, pode incluir certas ferramentas de propriedade jur\u00eddica do trabalhador, mas que s\u00e3o postas a funcionar de acordo com o controle do processo de trabalho exercido pela empresa.<\/p>\n<p>Terceiro, a compara\u00e7\u00e3o, a meu ver equivocada, entre influenciadores e trabalhadores do transporte e log\u00edstica submetidos \u00e0 explora\u00e7\u00e3o por meio de aplicativos. Entregadores e \u00faberes, em resumo.<\/p>\n<p>A compara\u00e7\u00e3o dos influenciadores digitais com o \u00faber no que diz respeito ao\u00a0<em>status<\/em>\u00a0\u00e9 um despaut\u00e9rio, porque n\u00e3o \u00e9 isto o que o \u00faber produz. Por contraste, o reconhecimento p\u00fablico \u00e9 um dos resultados esperados da produ\u00e7\u00e3o audiovisual. Se est\u00e1 correta a observa\u00e7\u00e3o de que a produ\u00e7\u00e3o audiovisual digital como que democratizou o acesso ao mundo das celebridades\u00a0<em>pop<\/em>, por outro lado deve-se reconhecer que a mudan\u00e7a de meios de produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o n\u00e3o afetou o reconhecimento p\u00fablico como um (sub)produto da ind\u00fastria cultural, do qual se alimenta a ind\u00fastria do\u00a0<em>marketing<\/em>. Na uberiza\u00e7\u00e3o dos transportes, por sua vez, n\u00e3o se inseriu o reconhecimento p\u00fablico como (sub)produto da atividade do deslocamento, porque n\u00e3o \u00e9 pr\u00f3prio da atividade de deslocar; isto se entende muito facilmente ao se lembrar que, inversamente, n\u00e3o se pode esperar que um influenciador leve algu\u00e9m de c\u00e1 para l\u00e1, ou que fa\u00e7a entregas, etc., exceto se, al\u00e9m de influenciador, \u00e9 tamb\u00e9m motorista, entregador, etc.<\/p>\n<p>Quarto, a quest\u00e3o do ocultamento dos trabalhos de outros trabalhadores envolvidos no processo de produ\u00e7\u00e3o da \u201cinflu\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 outro despaut\u00e9rio a argumenta\u00e7\u00e3o em favor da tese de que \u201ccomo a visibilidade \u00e9 toda de quem executa as performances, oculta-se o trabalho de quem organiza o \u2018palco\u2019, isto \u00e9, o trabalho dos assistentes dos influenciadores e o trabalho de quem mant\u00e9m em funcionamento a infraestrutura da rede social\u201d. O trabalho de produ\u00e7\u00e3o audiovisual, e de produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica em geral,\u00a0<em>j\u00e1 \u00e9 assim, exatamente assim, independentemente do meio<\/em>. Idem para a afirma\u00e7\u00e3o de que \u201c[o] influenciador, na verdade, como qualquer celebridade, depende do trabalho de dezenas, \u00e0s vezes centenas, milhares de trabalhadores\u201d.<\/p>\n<p>Estas duas linhas de argumenta\u00e7\u00e3o, com que se tenta afirmar tamb\u00e9m nisso a especificidade do \u201c<em>putting-out system<\/em>\u00a0invertido\u201d, se baseiam em tornar\u00a0<em>necessariamente social<\/em>\u00a0o trabalho da produ\u00e7\u00e3o audiovisual, e em\u00a0<em>robinsonadas<\/em>\u00a0todos os outros tipos de trabalho. S\u00f3 para ficar entre aqueles com quem tem contato imediato, o entregador depende do trabalho do mec\u00e2nico, do frentista, do estoquista, do restaurante, etc.; idem para o motorista por aplicativo. Se forem pautados aqueles com quem estes trabalhadores n\u00e3o t\u00eam contato imediato, como toda a cadeia produtiva dos ramos de energia, eletr\u00f4nica, telecomunica\u00e7\u00f5es e\u00a0<em>software<\/em>, a situa\u00e7\u00e3o fica ainda mais complexa.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-146910\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/passapalavra.info\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/IMG_7062_PB_1920x1080.jpg?w=640&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/passapalavra.info\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/IMG_7062_PB_1920x1080.jpg 1920w, https:\/\/passapalavra.info\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/IMG_7062_PB_1920x1080-300x169.jpg 300w, https:\/\/passapalavra.info\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/IMG_7062_PB_1920x1080-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/passapalavra.info\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/IMG_7062_PB_1920x1080-768x432.jpg 768w, https:\/\/passapalavra.info\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/IMG_7062_PB_1920x1080-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/passapalavra.info\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/IMG_7062_PB_1920x1080-747x420.jpg 747w, https:\/\/passapalavra.info\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/IMG_7062_PB_1920x1080-640x360.jpg 640w, https:\/\/passapalavra.info\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/IMG_7062_PB_1920x1080-681x383.jpg 681w, \" alt=\"\" \/><\/p>\n<p>Este argumento se cruza com a defesa da tese do influenciador como \u201ccoinvestidor\u201d, quando se afirma no artigo que, \u201cse for competente o suficiente para \u2018viralizar\u2019 seus v\u00eddeos, tornar-se-\u00e1 s\u00f3cio do empreendimento, celebridade e garoto-propaganda, e receber\u00e1 uma parte da mais-valia expropriada pela plataforma digital, que por sua vez receber\u00e1 uma parte da mais-valia expropriada pelo influenciador, caso seja o empregador de uma equipe de assistentes; se o influenciador n\u00e3o demonstrar compet\u00eancia, n\u00e3o conseguir\u00e1 ultrapassar o n\u00edvel do micro ou nanoempreendedor\u201d. Ora, isto \u00e9 verdade tanto para o influenciador digital quanto para qualquer trabalho de produ\u00e7\u00e3o audiovisual. A descri\u00e7\u00e3o citada serve tanto para a produ\u00e7\u00e3o audiovisual mais tradicional quanto para aquela voltada para o digital; se o par\u00e2metro de \u201csucesso\u201d no digital \u00e9 o \u201cviralizar\u201d, antes dele o par\u00e2metro eram os pr\u00eamios recebidos, eventualmente o retorno de bilheteria (com patroc\u00ednios, nem sempre bilheteria \u00e9 determinante), etc. Nos filmes que entravam no circuito comercial, o papel da plataforma digital era desempenhado pelas distribuidoras; basta trocar \u201cplataforma digital\u201d por \u201cdistribuidora\u201d, e trocar \u201cinfluenciador\u201d por \u201cdiretor\u201d ou \u201cprodutora\u201d, e o resultado \u00e9 o mesmo. As plataformas digitais ampliaram o alcance e dura\u00e7\u00e3o da distribui\u00e7\u00e3o, e tamb\u00e9m baratearam enormemente seus custos; o resto \u00e9 o mesmo, literalmente o mesmo.<\/p>\n<p>Quinto, a quest\u00e3o do controle sobre o tempo e sobre o processo de trabalho pelos influenciadores.<\/p>\n<p>Na verdade, mesmo a afirmada falta de direcionamento\/controle do processo de produ\u00e7\u00e3o por parte dos capitalistas envolvidos deve ser entendida\u00a0<em>cum grano salis<\/em>, porque existe, sim, um processo relativamente complexo de sele\u00e7\u00e3o entre o material publicado, determinado por v\u00e1rios fatores: n\u00famero de seguidores, os algoritmos de cada rede, etc. A diferen\u00e7a: enquanto nos meios tradicionais de comunica\u00e7\u00e3o (<em>People<\/em>, Caras, etc.) h\u00e1 uma sele\u00e7\u00e3o pr\u00e9via do material a publicar, nos meios digitais a sele\u00e7\u00e3o \u00e9 feita a posteriori, quase sem controle \u201chumano\u201d algum. Essa \u201cfalta de controle\u201d sobre os algoritmos envolvidos n\u00e3o permite comunicar com clareza por que o v\u00eddeo X teve prefer\u00eancia sobre o v\u00eddeo Y, como o faria um editor \u201chumano\u201d, mas indica algumas linhas gerais.<\/p>\n<p>Especialistas em\u00a0<em>marketing<\/em>\u00a0digital dizem ter o poder de interpretar os algoritmos e evidenci\u00e1-las, mas a intera\u00e7\u00e3o entre os fatores desse \u201csistema editorial difuso\u201d mudam sempre, e um v\u00eddeo hoje \u201cmonetizado\u201d amanh\u00e3 pode n\u00e3o mais s\u00ea-lo, e vice-versa. Na intera\u00e7\u00e3o entre sele\u00e7\u00e3o por intelig\u00eancia artificial, interpreta\u00e7\u00e3o dos especialistas em\u00a0<em>marketing<\/em>\u00a0digital e intui\u00e7\u00e3o dos produtores opera-se um processo de sele\u00e7\u00e3o pr\u00e9via, por meio do qual d\u00e1-se maior prefer\u00eancia a determinado conte\u00fado em vez de outros.<\/p>\n<p>Um exemplo: \u00e9 comum no Youtube que as \u201ccapas\u201d dos v\u00eddeos (a imagem que aparece primeiro) os influenciadores apare\u00e7am com express\u00f5es faciais exageradas (boca muito aberta e olhos esbugalhados, para expressar espanto; sobrancelhas muito franzidas e boca muito apertada, para expressar raiva ou desgosto; etc.). Isso acontece porque h\u00e1, entre produtores de conte\u00fado digital, a interpreta\u00e7\u00e3o de que os algoritmos \u201cclassificam melhor\u201d v\u00eddeos cujas express\u00f5es faciais exageradas de capa permitam \u00e0 intelig\u00eancia artificial do Youtube \u201cl\u00ea-las melhor\u201d. Ora, se \u00e9 fato que a intelig\u00eancia artificial se d\u00e1 melhor interpretando exageros, n\u00e3o sutilezas, insistir no exagero faz com que entenda como \u201cnormal\u201d a express\u00e3o exagerada, tornando-se necess\u00e1rio exagerar ainda mais nas express\u00f5es de capa, o que retroalimenta este mesmo sistema num\u00a0<em>loop<\/em>.<\/p>\n<p>Haveria mais a dizer, mas o tempo anda curto.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-146911\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/passapalavra.info\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Canal_thomazfarkas-640x495-1.jpg?w=640&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/passapalavra.info\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Canal_thomazfarkas-640x495-1.jpg 640w, https:\/\/passapalavra.info\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Canal_thomazfarkas-640x495-1-300x232.jpg 300w, https:\/\/passapalavra.info\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Canal_thomazfarkas-640x495-1-543x420.jpg 543w, \" alt=\"\" \/><\/p>\n<p>Disse no in\u00edcio que o artigo aqui comentado parte de um erro para cometer outro. Entre um e outro extremo existe um universo inteiro que o artigo ignora, justificando tal ignor\u00e2ncia quanto ao fen\u00f4meno com a afirma\u00e7\u00e3o de que \u201cn\u00e3o tem a menor inten\u00e7\u00e3o de observ\u00e1-lo de dentro e de perto\u201d, contentando-se em observ\u00e1-lo \u201catrav\u00e9s do notici\u00e1rio, observando as pessoas ao redor e conversando com elas\u201d. Com isso, o artigo ignora tanta coisa que seria necess\u00e1ria uma longa s\u00e9rie de artigos para suprir tais lapsos. Alguns temas que o artigo ignora:<\/p>\n<p><strong>1)<\/strong>\u00a0A produ\u00e7\u00e3o audiovisual em celulares como\u00a0<em>forma de socializa\u00e7\u00e3o<\/em>, especialmente entre mais jovens;<\/p>\n<p><strong>2)<\/strong>\u00a0Os mecanismos espec\u00edficos de inser\u00e7\u00e3o desta forma de socializa\u00e7\u00e3o em cadeias de produ\u00e7\u00e3o de valor, operados por capitalistas que desempenham fun\u00e7\u00f5es muito diversas em cadeias produtivas at\u00e9 ent\u00e3o distintas;<\/p>\n<p><strong>3)<\/strong>\u00a0O esmaecimento dos limites entre trabalho e lazer neste campo, sintetizado na express\u00e3o angl\u00f3fona\u00a0<a class=\"urlextern\" title=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Playbour\" href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Playbour\" rel=\"nofollow noopener ugc\">playbor<\/a>\u00a0(<em>play<\/em>\u00a0+\u00a0<em>labor<\/em>), que traduzo como \u201ctrabalhazer\u201d;<\/p>\n<p><strong>4)<\/strong>\u00a0O papel espec\u00edfico das produtoras de audiovisual junto a influenciadores de maior impacto, e, inversamente, o papel dos influenciadores que procuram tais ag\u00eancias para aumentar seu impacto.<\/p>\n<p>Qualquer que seja a posi\u00e7\u00e3o acerca destes temas, n\u00e3o se pode falar do assunto sem alguma reflex\u00e3o m\u00ednima sobre eles.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Costuma-se dizer que n\u00e3o se deve julgar um artigo pelo que nele falta, mas pelo que nele h\u00e1. Este artigo serve como curioso exemplo de um escrito que se pode criticar, e se deve criticar, tanto pelo que nele falta quanto pelo que nele h\u00e1. Precisamos avan\u00e7ar muito mais na an\u00e1lise da realidade, \u201cde dentro e de perto\u201d inclusive, at\u00e9 chegarmos a uma cr\u00edtica do fen\u00f4meno dos influenciadores digitais adequada ao que se v\u00ea na pr\u00e1tica. Fica aberto o convite a quem mais queira contribuir com o debate.<\/p>\n<p><em>As fotografias presentes no artigo s\u00e3o do acervo do\u00a0<a href=\"https:\/\/ims.com.br\/titular-colecao\/walter-firmo\/\" rel=\"noopener\">Instituto Moreira Salles<\/a>.<\/em><\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Economia pol\u00edtica dos influenciadores digitais: uma outra vis\u00e3o | Passa Palavra &#8211; https:\/\/passapalavra.info\/2022\/12\/146905\/<\/p>\n<div id=\"__reading__mode__content_end_mark_container_id\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manolo &#8211;\u00a0Precisamos avan\u00e7ar muito mais na an\u00e1lise da realidade, \u201cde dentro e de perto\u201d inclusive, at\u00e9 chegarmos a uma cr\u00edtica do fen\u00f4meno dos influenciadores digitais adequada ao que se v\u00ea na pr\u00e1tica. Em tempos de precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, alastra-se como uma praga a profiss\u00e3o de influenciador digital. 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