{"id":18732,"date":"2023-01-07T12:45:16","date_gmt":"2023-01-07T15:45:16","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18732"},"modified":"2023-01-03T20:47:41","modified_gmt":"2023-01-03T23:47:41","slug":"a-alemanha-na-nova-ordem-mundial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/01\/07\/a-alemanha-na-nova-ordem-mundial\/","title":{"rendered":"A Alemanha na nova ordem mundial"},"content":{"rendered":"<p><strong>MICHAEL HUDSON<\/strong> &#8211; As Cruzadas, a ordem baseada em regras dos EUA e a promessa quebrada de ganho m\u00fatuo entre a Alemanha e a R\u00fassia.<\/p>\n<p>A Alemanha tornou-se um sat\u00e9lite econ\u00f4mico da nova guerra fria dos Estados Unidos com a R\u00fassia, a China e o resto da Eur\u00e1sia. A Alemanha e outros pa\u00edses da OTAN foram instru\u00eddos a impor san\u00e7\u00f5es comerciais e de investimento sobre si mesmos que durar\u00e3o mais que a guerra por procura\u00e7\u00e3o de hoje na Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>O presidente dos EUA, Joe Biden, e seus porta-vozes do Departamento de Estado explicaram que a Ucr\u00e2nia \u00e9 apenas a arena de abertura de uma din\u00e2mica muito mais ampla que est\u00e1 dividindo o mundo em dois conjuntos opostos de alian\u00e7as econ\u00f4micas.<\/p>\n<p>Essa fratura global promete ser uma luta de dez ou vinte anos para determinar se a economia mundial ser\u00e1 uma economia dolarizada unipolar centrada nos EUA, ou um mundo multipolar e multimoeda centrado no cora\u00e7\u00e3o da Eur\u00e1sia com economias p\u00fablicas\/privadas mistas.<\/p>\n<p>O presidente Joe Biden caracterizou essa divis\u00e3o como sendo entre democracias e autocracias. A terminologia \u00e9 o t\u00edpico duplo discurso orwelliano. Por \u201cdemocracias\u201d ele se refere aos EUA e \u00e0s oligarquias financeiras ocidentais aliadas. Seu objetivo \u00e9 transferir o planejamento econ\u00f4mico das m\u00e3os dos governos eleitos para Wall Street e outros centros financeiros sob controle dos EUA. Diplomatas dos EUA usam o Fundo Monet\u00e1rio Internacional e o Banco Mundial para exigir a privatiza\u00e7\u00e3o da infraestrutura mundial e a depend\u00eancia da tecnologia, do petr\u00f3leo e das exporta\u00e7\u00f5es de alimentos dos EUA.<\/p>\n<p>Por \u201cautocracia\u201d, Joe Biden quer dizer pa\u00edses que resistem a essa financeiriza\u00e7\u00e3o e privatiza\u00e7\u00e3o. Na pr\u00e1tica, a ret\u00f3rica dos EUA significa promover seu pr\u00f3prio crescimento econ\u00f4mico e padr\u00f5es de vida, mantendo as finan\u00e7as e os bancos como servi\u00e7os p\u00fablicos. Isso \u00e9 basicamente uma quest\u00e3o de se as economias ser\u00e3o planejadas pelos centros banc\u00e1rios para criar riqueza financeira \u2013 privatizando infraestrutura b\u00e1sica, servi\u00e7os p\u00fablicos e servi\u00e7os sociais como assist\u00eancia m\u00e9dica, tornando tudo isso em monop\u00f3lios \u2013 ou elevando o padr\u00e3o de vida e a prosperidade dos povos, mantendo a cria\u00e7\u00e3o de bancos e dinheiro, sa\u00fade p\u00fablica, educa\u00e7\u00e3o, transporte e comunica\u00e7\u00f5es em m\u00e3os p\u00fablicas.<\/p>\n<p>O pa\u00eds que sofre o maior \u201cdano colateral\u201d nessa fratura global \u00e9 a Alemanha. Como a economia industrial mais avan\u00e7ada da Europa, o a\u00e7o, os produtos qu\u00edmicos, as m\u00e1quinas, os autom\u00f3veis e outros bens de consumo da Alemanha s\u00e3o os mais dependentes das importa\u00e7\u00f5es de g\u00e1s, petr\u00f3leo e metais russos \u2013 de alum\u00ednio a tit\u00e2nio e pal\u00e1dio. No entanto, apesar dos dois oleodutos\u00a0<em>Nord Stream<\/em>\u00a0constru\u00eddos para fornecer energia de baixo custo \u00e0 Alemanha, o pa\u00eds foi instru\u00eddo a se desligar do g\u00e1s russo e se desindustrializar. Isso implica no fim de sua preemin\u00eancia econ\u00f4mica.\u00a0 A chave para o crescimento do PIB na Alemanha, como em outros pa\u00edses, \u00e9 o consumo de energia por trabalhador.<\/p>\n<p>Essas san\u00e7\u00f5es anti-russas tornam a Nova Guerra Fria atual inerentemente anti-alem\u00e3. O secret\u00e1rio de Estado dos EUA, Anthony Blinken, disse que a Alemanha deveria substituir o g\u00e1s de gasoduto russo de baixo custo pelo g\u00e1s GNL dos EUA de alto custo. Para importar esse g\u00e1s, a Alemanha ter\u00e1 que gastar mais de US$ 5 bilh\u00f5es rapidamente para construir capacidade portu\u00e1ria para lidar com navios-tanque de GNL. O efeito ser\u00e1 tornar a ind\u00fastria alem\u00e3 n\u00e3o competitiva. As fal\u00eancias se espalhar\u00e3o, o desemprego aumentar\u00e1 e os l\u00edderes pr\u00f3-OTAN da Alemanha impor\u00e3o uma depress\u00e3o cr\u00f4nica e queda nos padr\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o alem\u00e3.<\/p>\n<p>A maior parte da teoria pol\u00edtica assume que as na\u00e7\u00f5es devem agir em seu pr\u00f3prio interesse. Caso contr\u00e1rio, s\u00e3o pa\u00edses sat\u00e9lites, que n\u00e3o controlam o pr\u00f3prio destino. A Alemanha est\u00e1 subordinando sua ind\u00fastria e padr\u00f5es de vida aos ditames da diplomacia dos EUA e ao interesse particular do setor de petr\u00f3leo e g\u00e1s dos Estados Unidos. E faz isso voluntariamente \u2013 n\u00e3o por conta da for\u00e7a militar, mas por uma cren\u00e7a ideol\u00f3gica de que a economia mundial deveria ser dirigida por planejadores americanos da Guerra Fria.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes \u00e9 mais f\u00e1cil entender a din\u00e2mica atual do mundo se afastando de sua pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o imediata para olhar para exemplos hist\u00f3ricos similares ao do tipo de diplomacia pol\u00edtica que assistimos dividindo o mundo de hoje.\u00a0O paralelo mais pr\u00f3ximo que posso encontrar \u00e9 a luta da Europa medieval pelo papado romano contra os reis alem\u00e3es \u2013 os Sacro Imperadores Romanos \u2013 no s\u00e9culo XIII. Esse conflito dividiu a Europa em linhas muito parecidas com as que conhecemos atualmente. Uma s\u00e9rie de papas excomungou Frederico II e outros reis alem\u00e3es e mobilizou aliados para lutar contra a Alemanha e seu controle do sul da It\u00e1lia e da Sic\u00edlia.<\/p>\n<p>O antagonismo ocidental contra o Oriente foi incitado pelas Cruzadas (1095-1291), assim como a Guerra Fria de hoje \u00e9 uma cruzada contra as economias que amea\u00e7am o dom\u00ednio dos EUA no mundo. A guerra medieval contra a Alemanha era sobre quem deveria controlar a Europa crist\u00e3: o papado, com os papas tornando-se imperadores mundanos, ou governantes seculares de reinos individuais, reivindicando o poder de legitim\u00e1-los moralmente e aceit\u00e1-los.<\/p>\n<p>O an\u00e1logo da Europa medieval \u00e0 Nova Guerra Fria da Am\u00e9rica contra a China e a R\u00fassia foi o Grande Cisma, em 1054. Exigindo o controle unipolar sobre a cristandade, Le\u00e3o IX excomungou a Igreja Ortodoxa centrada em Constantinopla e toda a popula\u00e7\u00e3o crist\u00e3 que pertencia a ela. Um \u00fanico bispado, Roma, separou-se de todo o mundo crist\u00e3o da \u00e9poca, incluindo os antigos patriarcados de Alexandria, Antioquia, Constantinopla e Jerusal\u00e9m.<\/p>\n<p>Tal ruptura criou um problema pol\u00edtico para a diplomacia romana: como manter todos os reinos da Europa Ocidental sob seu controle e reivindicar o direito de subs\u00eddio financeiro deles. Esse objetivo exigia subordinar os reis seculares \u00e0 autoridade religiosa papal. Em 1074,<a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-alemanha-na-nova-ordem-mundial\/#_edn1\" name=\"_ednref1\">[i]<\/a>\u00a0Greg\u00f3rio VII (nascido Hildebrando), anunciou 27 Ditos do Papa [<em>Dictatus papae<\/em>] delineando a estrat\u00e9gia administrativa de Roma para manter seu poder sobre a Europa.<\/p>\n<p>Essas exig\u00eancias papais s\u00e3o surpreendentemente paralelas \u00e0 diplomacia americana de hoje. Em ambos os casos, os interesses militares e mundanos exigem uma sublima\u00e7\u00e3o na forma de um esp\u00edrito de cruzada ideol\u00f3gica para cimentar o sentimento de solidariedade que qualquer sistema de domina\u00e7\u00e3o imperial exige. A l\u00f3gica \u00e9 atemporal e universal.<\/p>\n<p>Os Ditos do Papa eram radicais de duas maneiras centrais. Em primeiro lugar, elevaram o bispo de Roma acima de todos os outros bispados, criando o papado moderno. A cl\u00e1usula 3 determinava que somente o papa tinha o poder de investidura para nomear bispos ou dep\u00f4-los ou restabelec\u00ea-los. Refor\u00e7ando isso, a Cl\u00e1usula 25 deu ao papa o direito de nomear (ou depor) bispos, impedindo os governantes locais de faz\u00ea-lo. E a Cl\u00e1usula 12 deu ao papa o direito de depor imperadores, seguindo a Cl\u00e1usula 9, que obrigava \u201ctodos os pr\u00edncipes a beijar apenas os p\u00e9s do Papa\u201d para serem considerados governantes leg\u00edtimos.<\/p>\n<p>Da mesma forma, hoje, diplomatas dos EUA reivindicam o direito de nomear quem deve ser reconhecido como chefe de Estado de uma na\u00e7\u00e3o. Em 1953, eles derrubaram o l\u00edder eleito do Ir\u00e3 e o substitu\u00edram pela ditadura militar do X\u00e1. Esse princ\u00edpio d\u00e1 aos diplomatas dos EUA o direito de patrocinar \u201crevolu\u00e7\u00f5es coloridas\u201d para a mudan\u00e7a de regime, como o patroc\u00ednio de ditaduras militares latino-americanas criando oligarquias clientes para servir aos interesses corporativos e financeiros dos EUA. O golpe de 2014 na Ucr\u00e2nia e a sele\u00e7\u00e3o dos novos governantes ucranianos s\u00e3o apenas o mais recente exerc\u00edcio desse direito dos EUA de nomear e depor l\u00edderes.<\/p>\n<p>Mais recentemente, diplomatas dos EUA nomearam Juan Guaid\u00f3 como chefe de Estado da Venezuela em vez de seu presidente eleito, e entregaram as reservas de ouro daquele pa\u00eds para ele. O presidente Joe Biden insistiu que a R\u00fassia deve derrubar Vladimir Putin e colocar um l\u00edder mais pr\u00f3-EUA em seu lugar. Esse \u201cdireito\u201d de selecionar chefes de Estado tem sido uma constante na pol\u00edtica dos Estados Unidos ao longo de sua extensa hist\u00f3ria de intromiss\u00e3o pol\u00edtica nos assuntos europeus desde a Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p>A segunda caracter\u00edstica radical dos Ditos do papa foi sua exclus\u00e3o de toda ideologia e pol\u00edtica que divergisse da autoridade papal. A cl\u00e1usula 2 afirmava que somente o Papa poderia ser chamado de \u201cUniversal\u201d. Qualquer desacordo era, por defini\u00e7\u00e3o, her\u00e9tico. A cl\u00e1usula 17 declarava que nenhum cap\u00edtulo ou livro poderia ser considerado can\u00f4nico sem a autoridade papal.<\/p>\n<p>Uma demanda semelhante \u00e0 que est\u00e1 sendo feita, hoje, pela ideologia patrocinada pelos EUA, de \u201cmercados livres\u201d financeirizados e privatizados, significando desregulamenta\u00e7\u00e3o do poder do governo para moldar economias de interesses distintos daqueles das elites financeiras e corporativas centradas nos EUA.<\/p>\n<p>A demanda por universalidade na Nova Guerra Fria de hoje est\u00e1 envolta na linguagem da \u201cdemocracia\u201d. Mas a defini\u00e7\u00e3o de democracia na nova guerra fria atual \u00e9 simplesmente \u201cpr\u00f3-EUA\u201d, e especificamente a privatiza\u00e7\u00e3o neoliberal como a nova religi\u00e3o econ\u00f4mica patrocinada pelos EUA. Essa \u00e9tica \u00e9 considerada \u201cci\u00eancia\u201d, como no quase Nobel de Ci\u00eancias Econ\u00f4micas. Esse \u00e9 o eufemismo moderno para a economia neoliberal da escola de Chicago, programas de austeridade do FMI e favoritismo fiscal para os ricos.<\/p>\n<p>Os ditames papais definiram uma estrat\u00e9gia para bloquear o controle unipolar sobre os reinos seculares. Eles afirmavam a preced\u00eancia papal sobre os reis mundanos, sobretudo encima dos imperadores do Sacro Imp\u00e9rio Romano-Germ\u00e2nico. A cl\u00e1usula 26 deu aos papas autoridade para excomungar quem \u201cn\u00e3o estivesse em paz com a Igreja Romana\u201d. Esse princ\u00edpio implicava a conclus\u00e3o da Cl\u00e1usula 27, permitindo que o papa \u201cabsolvesse os s\u00faditos de sua fidelidade a homens in\u00edquos\u201d. Isso encorajou a vers\u00e3o medieval de \u201crevolu\u00e7\u00f5es coloridas\u201d para provocar mudan\u00e7as de regime.<\/p>\n<p>O que uniu os pa\u00edses nessa solidariedade foi um antagonismo \u00e0s sociedades n\u00e3o sujeitas ao controle papal centralizado \u2013 os infi\u00e9is mu\u00e7ulmanos que detinham Jerusal\u00e9m, e tamb\u00e9m os c\u00e1taros franceses<a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-alemanha-na-nova-ordem-mundial\/#_edn2\" name=\"_ednref2\">[ii]<\/a>\u00a0e qualquer outro considerado herege. Acima de tudo, havia hostilidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s regi\u00f5es fortes o suficiente para resistir \u00e0s exig\u00eancias papais de tributo financeiro.<\/p>\n<p>A contrapartida atual desse poder ideol\u00f3gico de excomungar hereges que resistem \u00e0s exig\u00eancias de obedi\u00eancia e tributo seriam a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio, o Banco Mundial e o FMI ditando pr\u00e1ticas econ\u00f4micas e estabelecendo \u201ccondicionalidades\u201d para todos os governos membros seguirem, sob pena de san\u00e7\u00f5es dos EUA \u2013 a vers\u00e3o moderna de excomunh\u00e3o de pa\u00edses que n\u00e3o aceitam a suserania dos Estados Unidos. A cl\u00e1usula 19 do\u00a0<em>Dictates<\/em>\u00a0determinou que o papa n\u00e3o poderia ser julgado por ningu\u00e9m \u2013 assim como hoje, os Estados Unidos se recusam a submeter suas a\u00e7\u00f5es \u00e0s decis\u00f5es da Corte Mundial. Da mesma forma hoje, espera-se que os ditames dos EUA via OTAN e outras armas (como o FMI e o Banco Mundial) sejam seguidos pelos sat\u00e9lites dos EUA sem contesta\u00e7\u00e3o. Como disse Margaret Thatcher sobre sua privatiza\u00e7\u00e3o neoliberal que destruiu o setor p\u00fablico brit\u00e2nico,\u00a0<em>There Is No Alternative<\/em>\u00a0(TINA).<\/p>\n<p>Meu interesse \u00e9 enfatizar essa analogia com as san\u00e7\u00f5es dos EUA de hoje contra todos os pa\u00edses que n\u00e3o seguem suas pr\u00f3prias exig\u00eancias diplom\u00e1ticas. As san\u00e7\u00f5es comerciais s\u00e3o uma forma de excomunh\u00e3o. Eles revertem o princ\u00edpio do Tratado de Westf\u00e1lia de 1648 que tornava cada pa\u00eds e seus governantes independentes da intromiss\u00e3o estrangeira. O presidente Biden caracteriza a interfer\u00eancia dos EUA como garantia de sua nova ant\u00edtese entre \u201cdemocracia\u201d e \u201cautocracia\u201d. Por democracia, ele quer dizer uma oligarquia cliente sob controle dos EUA, criando riqueza financeira que reduz os padr\u00f5es de vida do trabalho, em oposi\u00e7\u00e3o a economias mistas p\u00fablico\/privadas que visam promover padr\u00f5es de vida e solidariedade social.<\/p>\n<p>Como mencionei, ao excomungar a Igreja Ortodoxa centrada em Constantinopla e sua popula\u00e7\u00e3o crist\u00e3, o Grande Cisma criou a fat\u00eddica linha divis\u00f3ria religiosa que dividiu \u201co Ocidente\u201d do Oriente no \u00faltimo mil\u00eanio. Essa divis\u00e3o foi t\u00e3o importante que Vladimir Putin a citou como parte de seu discurso de 30 de setembro de 2022, descrevendo a ruptura de hoje com as economias ocidentais centradas nos EUA e na OTAN.<\/p>\n<p>Os s\u00e9culos XII e XIII viram conquistadores normandos da Inglaterra, Fran\u00e7a e outros pa\u00edses, juntamente com reis alem\u00e3es, protestarem repetidamente, serem excomungados repetidamente, mas finalmente sucumbirem \u00e0s exig\u00eancias papais. Demorou at\u00e9 o s\u00e9culo XVI que Martinho Lutero, Zwinglio e Henrique VIII finalmente criassem uma alternativa protestante a Roma, tornando o cristianismo ocidental multipolar.<\/p>\n<p>Por que demorou tanto? A resposta est\u00e1 nas Cruzadas, que forneceram uma gravidade ideol\u00f3gica organizadora. Essa era a analogia medieval com a Nova Guerra Fria de hoje entre o Oriente e o Ocidente. As Cruzadas criaram um foco espiritual de \u201creforma moral\u201d ao mobilizar o \u00f3dio contra \u201co outro\u201d \u2013 o Oriente mu\u00e7ulmano, e cada vez mais judeus e crist\u00e3os europeus dissidentes do controle romano. Essa foi a analogia medieval com as doutrinas neoliberais de \u201clivre mercado\u201d de hoje da oligarquia financeira americana e sua hostilidade \u00e0 China, R\u00fassia e outras na\u00e7\u00f5es que n\u00e3o seguem essa ideologia. Na nova guerra fria corrente, a ideologia neoliberal do Ocidente est\u00e1 mobilizando o medo e o \u00f3dio ao \u201coutro\u201d, demonizando na\u00e7\u00f5es que seguem um caminho independente como \u201cregimes autocr\u00e1ticos\u201d. O racismo absoluto \u00e9 fomentado contra povos inteiros, como fica evidente na russofobia e na cultura do cancelamento atualmente varrendo o Ocidente.<\/p>\n<p>Assim como a transi\u00e7\u00e3o multipolar do cristianismo ocidental exigiu a alternativa protestante do s\u00e9culo XVI, a ruptura do cora\u00e7\u00e3o da Eur\u00e1sia com o Ocidente da OTAN, centrada nos bancos, deve ser consolidada por uma ideologia alternativa sobre como organizar economias mistas p\u00fablico\/privadas e sua infraestrutura financeira.<\/p>\n<p>As igrejas medievais no Ocidente foram drenadas de suas esmolas e doa\u00e7\u00f5es para contribuir com a moeda de Pedro e outros subs\u00eddios ao papado para as guerras que travava contra os governantes que resistiam \u00e0s exig\u00eancias papais. A Inglaterra desempenhou o papel de grande v\u00edtima que a Alemanha protagoniza hoje. Enormes impostos ingleses foram cobrados ostensivamente para financiar as Cruzadas, foram desviados para lutar contra Frederico II, Conrado e Manfredo na Sic\u00edlia. Esse desvio foi financiado por banqueiros papais do norte da It\u00e1lia (Lombardos e Cahorsins), e se tornaram d\u00edvidas reais transmitidas por toda a economia. Os bar\u00f5es da Inglaterra travaram uma guerra civil contra Henrique II na d\u00e9cada de 1260, encerrando sua cumplicidade em sacrificar a economia \u00e0s demandas papais.<\/p>\n<p>O que acabou com o poder do papado sobre outros pa\u00edses foi o fim de sua guerra contra o Oriente. Quando os cruzados perderam Acre, a capital de Jerusal\u00e9m em 1291, o papado perdeu o controle sobre a cristandade. N\u00e3o havia mais \u201cmal\u201d para combater, e o \u201cbem\u201d havia perdido o centro de gravidade e a coer\u00eancia. Em 1307, o franc\u00eas Filipe IV (\u201co Belo\u201d) apoderou-se da grande riqueza da ordem banc\u00e1ria militar da Igreja, a dos Templ\u00e1rios no Templo de Paris. Outros governantes tamb\u00e9m nacionalizaram os Templ\u00e1rios, e os sistemas monet\u00e1rios foram tirados das m\u00e3os da Igreja. Sem um inimigo comum definido e mobilizado por Roma, o papado perdeu seu poder ideol\u00f3gico unipolar sobre a Europa Ocidental.<\/p>\n<p>O equivalente moderno \u00e0 rejei\u00e7\u00e3o dos Templ\u00e1rios e das finan\u00e7as papais seria a retirada dos pa\u00edses da Nova Guerra Fria dos Estados Unidos. Eles rejeitariam o padr\u00e3o d\u00f3lar e o sistema banc\u00e1rio e financeiro dos EUA. Isso est\u00e1 acontecendo \u00e0 medida que mais e mais pa\u00edses veem a R\u00fassia e a China n\u00e3o como advers\u00e1rios, mas como oportunidades significativas para vantagens econ\u00f4micas m\u00fatuas.<\/p>\n<p><strong>A promessa quebrada de ganho m\u00fatuo entre a Alemanha e a R\u00fassia<\/strong><\/p>\n<p>A dissolu\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica em 1991 prometia o fim da Guerra Fria. O Pacto de Vars\u00f3via foi dissolvido, a Alemanha foi reunificada e diplomatas americanos prometeram o fim da OTAN, porque uma amea\u00e7a militar sovi\u00e9tica n\u00e3o existia mais. Os l\u00edderes russos se entregaram \u00e0 esperan\u00e7a de que, como o presidente Putin expressou, uma nova economia pan-europeia seria criada de Lisboa a Vladivostok. Esperava-se que a Alemanha, em particular, assumisse a lideran\u00e7a no investimento na R\u00fassia e na reestrutura\u00e7\u00e3o de sua ind\u00fastria em moldes mais eficientes. A R\u00fassia pagaria por essa transfer\u00eancia de tecnologia fornecendo g\u00e1s e petr\u00f3leo, juntamente com n\u00edquel, alum\u00ednio, tit\u00e2nio e pal\u00e1dio.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia previs\u00e3o de que a OTAN seria expandida para amea\u00e7ar uma Nova Guerra Fria, muito menos que apoiaria a Ucr\u00e2nia, reconhecida como a cleptocracia mais corrupta da Europa, a ser liderada por partidos extremistas que se identificam pela ins\u00edgnia nazista alem\u00e3.<\/p>\n<p>Como explicamos por que o potencial aparentemente l\u00f3gico de ganho m\u00fatuo entre a Europa Ocidental e as antigas economias sovi\u00e9ticas se transformou em um patroc\u00ednio de cleptocracias olig\u00e1rquicas? A destrui\u00e7\u00e3o dos gasodutos\u00a0<em>Nord Stream<\/em>\u00a0resume a din\u00e2mica em poucas palavras. Por quase uma d\u00e9cada, uma demanda constante dos EUA tem sido para que a Alemanha rejeite sua depend\u00eancia da energia russa. Tais demandas foram contestadas por Gerhardt Schroeder, Angela Merkel e l\u00edderes empresariais alem\u00e3es. Eles apontaram para a l\u00f3gica econ\u00f4mica evidente do com\u00e9rcio m\u00fatuo de manufaturas alem\u00e3s por mat\u00e9rias-primas russas.<\/p>\n<p>O problema dos EUA era como impedir a Alemanha de certificar o gasoduto\u00a0<em>Nord Stream 2<\/em>. Victoria Nuland, o presidente Biden e outros diplomatas dos EUA demonstraram que a maneira de fazer isso era incitar o \u00f3dio \u00e0 R\u00fassia. A Nova Guerra Fria foi enquadrada como uma nova Cruzada. Foi assim que George W. Bush descreveu o ataque dos Estados Unidos ao Iraque para tomar seus po\u00e7os de petr\u00f3leo. O golpe de 2014 patrocinado pelos EUA criou um regime fantoche ucraniano que passou oito anos bombardeando as prov\u00edncias orientais de l\u00edngua russa. A OTAN incitou, dessa forma, uma resposta militar russa. A incita\u00e7\u00e3o foi bem-sucedida, e a resposta russa desejada foi devidamente rotulada de atrocidade n\u00e3o provocada. Sua prote\u00e7\u00e3o de civis foi retratada na m\u00eddia patrocinada pela OTAN como sendo t\u00e3o ofensiva que merece as san\u00e7\u00f5es comerciais e de investimento que foram impostas desde fevereiro. Isso \u00e9 o que significa uma Cruzada.<\/p>\n<p>O resultado disso \u00e9 que o mundo se dividindo em dois campos: a OTAN centrada nos EUA e a emergente coaliz\u00e3o eurasiana. Um subproduto dessa din\u00e2mica foi deixar a Alemanha incapaz de seguir a pol\u00edtica econ\u00f4mica de rela\u00e7\u00f5es comerciais e de investimento mutuamente vantajosas com a R\u00fassia (e talvez tamb\u00e9m com a China). O chanceler alem\u00e3o Olaf Sholz vai \u00e0 China esta semana para exigir que desmantele o setor p\u00fablico e pare de subsidiar sua economia, ou ent\u00e3o a Alemanha e a Europa impor\u00e3o san\u00e7\u00f5es ao com\u00e9rcio com a China. N\u00e3o h\u00e1 como a China atender a essa demanda rid\u00edcula, assim como os Estados Unidos ou qualquer outra economia industrial n\u00e3o deixariam de subsidiar seu pr\u00f3prio chip de computador e outros setores-chave.<a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-alemanha-na-nova-ordem-mundial\/#_edn3\" name=\"_ednref3\">[iii]<\/a>\u00a0O Conselho Alem\u00e3o de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores \u00e9 um bra\u00e7o neoliberal \u201clibert\u00e1rio\u201d da OTAN exigindo a desindustrializa\u00e7\u00e3o germ\u00e2nica e a depend\u00eancia dos Estados Unidos para seu com\u00e9rcio, n\u00e3o da China, R\u00fassia ou seus aliados. Este promete ser o \u00faltimo prego no caix\u00e3o econ\u00f4mico da Alemanha.<\/p>\n<p>Outro subproduto da Nova Guerra Fria dos Estados Unidos foi o fim de qualquer plano internacional para conter o aquecimento global. Uma pedra angular da diplomacia econ\u00f4mica dos EUA \u00e9 que suas companhias petrol\u00edferas e as de seus aliados da OTAN controlem o suprimento mundial de petr\u00f3leo e g\u00e1s \u2013 ou seja, reduzam a depend\u00eancia de combust\u00edveis baseados em carbono. \u00c9 disso que se trata a guerra da OTAN no Iraque, L\u00edbia, S\u00edria, Afeganist\u00e3o e Ucr\u00e2nia. N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o abstrato quanto \u201cDemocracias versus Autocracias\u201d. Trata-se da capacidade dos EUA de prejudicar outros pa\u00edses, interrompendo seu acesso \u00e0 energia e outras necessidades b\u00e1sicas.<\/p>\n<p>Sem a narrativa \u201cbem versus mal\u201d da Nova Guerra Fria, as san\u00e7\u00f5es dos EUA perder\u00e3o sua raz\u00e3o de ser neste ataque dos EUA \u00e0 prote\u00e7\u00e3o ambiental e ao com\u00e9rcio m\u00fatuo entre a Europa Ocidental e a R\u00fassia e a China. Esse \u00e9 o contexto para a luta de hoje na Ucr\u00e2nia, que deve ser apenas o primeiro passo na luta antecipada de vinte anos dos EUA para impedir que o mundo se torne multipolar. Este processo deixar\u00e1 a Alemanha e a Europa dependentes do fornecimento de GNL dos EUA.<\/p>\n<p>O truque \u00e9 tentar convencer a Alemanha de que depende dos Estados Unidos para sua seguran\u00e7a militar. O que a Alemanha realmente precisa de prote\u00e7\u00e3o \u00e9 da guerra dos EUA contra a China e a R\u00fassia, que est\u00e1 marginalizando e \u201cucranizando\u201d a Europa.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve apelos dos governos ocidentais para um fim negociado para esta guerra, porque nenhuma guerra foi declarada na Ucr\u00e2nia. Os Estados Unidos n\u00e3o declaram guerra em nenhum lugar, porque isso exigiria uma declara\u00e7\u00e3o do Congresso sob a Constitui\u00e7\u00e3o dos EUA. Assim, os ex\u00e9rcitos dos EUA e da OTAN bombardeiam, organizam revolu\u00e7\u00f5es coloridas, se intrometem na pol\u00edtica dom\u00e9stica (tornando obsoletos os acordos de Westf\u00e1lia de 1648) e imp\u00f5em as san\u00e7\u00f5es que est\u00e3o separando a Alemanha e seus vizinhos europeus.<\/p>\n<p>Como as negocia\u00e7\u00f5es podem \u201cterminar\u201d uma guerra que n\u00e3o tem declara\u00e7\u00e3o de guerra e \u00e9 uma estrat\u00e9gia de longo prazo de domina\u00e7\u00e3o mundial unipolar total?<\/p>\n<p>A resposta \u00e9 que nenhum fim pode vir at\u00e9 que uma alternativa ao atual conjunto de institui\u00e7\u00f5es internacionais centradas nos EUA seja substitu\u00edda. Isso requer a cria\u00e7\u00e3o de novas institui\u00e7\u00f5es que reflitam uma alternativa \u00e0 vis\u00e3o neoliberal centrada nos bancos de que as economias devem ser privatizadas com planejamento centralizado pelos centros financeiros. Rosa Luxemburgo caracterizou a escolha entre o socialismo e a barb\u00e1rie. Esbocei a din\u00e2mica pol\u00edtica de uma alternativa em meu livro recente,\u00a0<em>The Destiny of Civilization<\/em>.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-alemanha-na-nova-ordem-mundial\/#_ednref1\" name=\"_edn1\">[i]<\/a>\u00a0Nota do tradutor: a data mais aceita \u00e9 1075, embora alguns historiadores defendam que os decretos teriam sido ditados pelo Papa em ano posterior.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-alemanha-na-nova-ordem-mundial\/#_ednref2\" name=\"_edn2\">[ii]<\/a>\u00a0Nota do tradutor: Os c\u00e1taros \u2013 tamb\u00e9m conhecidos como \u201calbigenses\u201d em homenagem \u00e0 cidade francesa de Albi, \u00e0s vezes identificada como sua sede \u2013 eram \u201cdualistas\u201d, o que significa que acreditavam em dois deuses.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-alemanha-na-nova-ordem-mundial\/#_ednref3\" name=\"_edn3\">[iii]<\/a>\u00a0Ver Guntram Wolff, \u201cSholz deve enviar uma mensagem expl\u00edcita sobre sua visita a Pequim\u201d,\u00a0<em>Financial Times<\/em> , 31 de outubro de 2022. Wolff \u00e9 diretor e CE do Conselho Alem\u00e3o de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Michael Hudson: A Alemanha na nova ordem mundial \u2190 ORIENTE m\u00eddia &#8211; http:\/\/www.orientemidia.org\/michael-hudson-a-alemanha-na-nova-ordem-mundial\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MICHAEL HUDSON &#8211; As Cruzadas, a ordem baseada em regras dos EUA e a promessa quebrada de ganho m\u00fatuo entre a Alemanha e a R\u00fassia. A Alemanha tornou-se um sat\u00e9lite econ\u00f4mico da nova guerra fria dos Estados Unidos com a R\u00fassia, a China e o resto da Eur\u00e1sia. 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