{"id":18704,"date":"2022-12-27T12:29:58","date_gmt":"2022-12-27T15:29:58","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18704"},"modified":"2022-12-27T12:29:58","modified_gmt":"2022-12-27T15:29:58","slug":"a-extrema-direita-na-italia-uma-entrevista-com-david-broder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/12\/27\/a-extrema-direita-na-italia-uma-entrevista-com-david-broder\/","title":{"rendered":"A extrema direita na It\u00e1lia: uma entrevista com David Broder"},"content":{"rendered":"<p><strong>Pedro Charbel<\/strong> &#8211; David Broder \u00e9 escritor e tradutor. Morando atualmente em Roma, \u00e9 editor da revista Jacobin Europa e escreve regularmente sobre pol\u00edtica italiana para publica\u00e7\u00f5es como a Internazionale. No Brasil, \u00e9 autor de \u201cPrimeiro eles tomaram Roma: como a extrema direita conquistou a It\u00e1lia ap\u00f3s a opera\u00e7\u00e3o M\u00e3os Limpas\u201d, lan\u00e7ado pela editora Autonomia Liter\u00e1ria. Historiador do comunismo franc\u00eas e italiano, Broder est\u00e1 atualmente escrevendo um livro sobre a crise da democracia italiana no per\u00edodo p\u00f3s-Guerra Fria. Nesta entrevista para Pedro Charbel, assessor internacional e de direitos humanos da Lideran\u00e7a do PSOL na C\u00e2mara dos Deputados, o pesquisador analisa a extrema-direita italiana e apresenta aspectos sobre o crescimento do fascimo no mundo, passando por EUA, Brasil, Hungria, Fran\u00e7a e tamb\u00e9m sobrevoando detalhes das suas pr\u00f3prias obras.<\/p>\n<p><strong>Pedro Charbel \u2013 O partido p\u00f3s-facista\u00a0<em>Fratelli d\u2019Italia<\/em>\u00a0(Irm\u00e3os da It\u00e1lia) passou de 4%, em 2018, a 26% dos votos na elei\u00e7\u00e3o deste ano, levando Giorgia Meloni a se tornar primeira ministra da It\u00e1lia em uma coaliz\u00e3o com o\u00a0<em>Forza Italia<\/em>\u00a0(For\u00e7a It\u00e1lia), partido de Berlusconi, e o\u00a0<em>Lega\u00a0<\/em>(Liga) de Salvini. O que explica o crescimento t\u00e3o r\u00e1pido e expressivo do Irm\u00e3os da It\u00e1lia? Qu\u00e3o diferente este partido \u00e9 do For\u00e7a It\u00e1lia e do Liga do Norte e de que maneira o governo de Melloni est\u00e1 acomodando\u00a0 todos eles?<\/strong><\/p>\n<p>David Broder \u2013 H\u00e1 duas coisas a se considerar em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ascens\u00e3o repentina do Irm\u00e3os da It\u00e1lia. A primeira \u00e9 que o governo passado, liderado por Mario Draghi, ex-presidente do Banco Central Europeu, foi considerado um governo de unidade nacional, que reuniu de tudo: da centro-esquerda, os Democratas, \u00e0 direita dura, a Liga de Matteo Salvini. O partido de Giorgia Meloni, o Irm\u00e3os da It\u00e1lia, era o \u00fanico partido que n\u00e3o estava no governo e desfrutou da habilidade de se mostrar como \u00fanica oposi\u00e7\u00e3o, criticar o governo de diversas maneiras contradit\u00f3rias e basicamente se alimentar do apoio daqueles insatisfeitos com o governo. Em todas as elei\u00e7\u00f5es italianas nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas, o governo da situa\u00e7\u00e3o perdeu as elei\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o foi diferente neste caso. Ent\u00e3o acredito que vimos, particularmente, a partir das evid\u00eancias que temos, que os eleitores da Liga e do partido de Silvio Berlusconi, o For\u00e7a It\u00e1lia, tamb\u00e9m de direita, basicamente desertaram para o Irm\u00e3os da It\u00e1lia, o partido de Meloni. E essa \u00e9 a principal raz\u00e3o desse crescimento repentino: a maioria desses eleitores votou na Liga tr\u00eas ou quatro anos antes. Isso me leva \u00e0 segunda explica\u00e7\u00e3o sobre sua for\u00e7a, que \u00e9 o fato de que o voto total na direita n\u00e3o cresceu, e tem basicamente o mesmo n\u00edvel em termos percentuais desde os anos 1990. A real mudan\u00e7a, o real avan\u00e7o repentino de um partido p\u00f3s-facista aconteceu naquele momento, no primeiro governo Berlusconi em 1994, que foi o primeiro a incluir o partido conhecido naquele momento como\u00a0<em>Alleanza Nazionale<\/em>\u00a0(Alian\u00e7a Nacional), o antecessor do Irm\u00e3os da It\u00e1lia. Este \u00e9 um partido de tradi\u00e7\u00e3o fascista, cuja hist\u00f3ria remonta ao fascismo da era Mussolini, que j\u00e1 nos anos 1990 estava no governo pela primeira vez e, basicamente, ao longo dos \u00faltimos trinta anos vimos ser totalmente normalizado.<\/p>\n<p>Agora, qu\u00e3o diferente \u00e9 o Irm\u00e3os da It\u00e1lia desses outros partidos que t\u00eam estado no poder recentemente? Frequentemente, quando partidos como o\u00a0<em>Movimento 5 Stelle<\/em>\u00a0(Movimento 5 Estrelas) ou a Liga entraram no governo ou pareciam prestes a faz\u00ea-lo, havia muita excita\u00e7\u00e3o na m\u00eddia internacional classificando-os como \u201cpartidos populistas que v\u00e3o desmembrar a Uni\u00e3o Europeia\u201d e coisas do tipo \u2013 e esses partidos n\u00e3o fizeram isso, e foi errado esperar que o fizessem. Novamente, o Irm\u00e3os da It\u00e1lia n\u00e3o est\u00e1 buscando explodir o lugar da It\u00e1lia na UE ou coisa do tipo. O que esse partido realmente quer \u00e9 defender o lugar da It\u00e1lia na ordem internacional e demonstrar-se um aliado dos EUA contra a R\u00fassia e a China, enquanto ao mesmo tempo desenvolve uma intensa guerra contra seus oponentes dom\u00e9sticos: seja as pessoas de esquerda, que chama de comunistas, sejam as pessoas imigrantes, dentro de ideias variadas de que existe uma \u201ctrama globalista\u201d para substituir italianos brancos por mul\u00e7umanos, africanos, e coisas desse tipo. Ent\u00e3o eu acho que n\u00e3o t\u00eam uma posi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica radical que vai colocar a It\u00e1lia contra a Uni\u00e3o Europeia e os EUA, nada disso \u00e9 prov\u00e1vel de modo algum, mas certamente veremos, e j\u00e1 vemos, uma intensifica\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica nacionalista, racista, obcecada pela fam\u00edlia e por a\u00ed vai. E \u00e9 importante dizer que se trata de uma pol\u00edtica muito dura contra pequenos propriet\u00e1rios e o Estado de bem-estar social.<\/p>\n<p><strong>PC \u2013 Poderia-se esperar que uma vez no poder Meloni tentaria pelo menos parecer moderada, inclusive para n\u00e3o ficar isolada na Europa, mas temos visto a\u00e7\u00f5es bem agressivas e racistas contra a imigra\u00e7\u00e3o \u2013 ela at\u00e9 negou a entrada de barcos de ONGs que resgatam refugiados, causando at\u00e9 um incidente internacional com a Fran\u00e7a -, contra festas nas ruas, e at\u00e9 contra a ci\u00eancia, como no caso da recontrata\u00e7\u00e3o de funcion\u00e1rios n\u00e3o vacinados para o sistema de sa\u00fade. Conhecemos bem esse tipo de pol\u00edtica no caso do Brasil, mas como esta agenda reacion\u00e1ria opera em linha com os interesses do grande capital na It\u00e1lia? De que modo est\u00e1 coordenada com a extrema direita internacionalmente?<\/strong><\/p>\n<p>DB \u2013 Frequentemente, jornalistas e cientistas pol\u00edticos questionam se partidos como o Irm\u00e3os da It\u00e1lia est\u00e3o se tornando moderados ou mainstream. E o que eu fico pensando \u00e9 com o que a direita mainstream se parece hoje. No caso da It\u00e1lia, \u00e9 comum dizerem que a esquerda v\u00ea o Irm\u00e3os da It\u00e1lia como \u201cextremista\u201d e que tenta associ\u00e1-lo ao fascismo e seu passado, mas no fim das contas Giorgia Meloni \u00e9 convidada para falar em eventos como o CPAC (Conservative Political Action Conference) nos EUA, ou lidera o partido europeu chamado Europeus Conservadores, um partido que tamb\u00e9m inclui outros de extrema direita, como o Vox na Espanha e assim por diante. Eu acho que as barreiras entre os chamados partidos conservadores \u201cnormais\u201d, como os Republicanos nos EUA, ou o Partido Conservador no Reino Unido, e aqueles com passado colaboracionista ou fascista se colapsaram. O fato de o Irm\u00e3os da It\u00e1lia virem de uma tradi\u00e7\u00e3o fascista basicamente n\u00e3o o deslegitima mais na direita internacional, assim como tampouco o fato de que ele se engaje em teorias da conspira\u00e7\u00e3o sobre substitui\u00e7\u00e3o \u00e9tnica ou vacinas de Covid, etc. O que vemos em vez disso \u00e9 que o radicalismo do seu discurso e do seu programa \u00e9 confinado a certas \u00e1reas pol\u00edticas. Ent\u00e3o, como disse antes, n\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a coisas como pol\u00edtica exterior, ou questionamentos ao seu lugar no Euro, mas sim nesse tipo de quest\u00f5es de guerra cultural.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso enfatizar que guerra cultural n\u00e3o deve ser considerada como um tipo de eufemismo para racismo e sexualidade, e assim por diante. Guerra cultural tamb\u00e9m \u00e9 sobre quest\u00f5es econ\u00f4micas. Um bom exemplo \u00e9 o fato de que Meloni quer se livrar do aux\u00edlio \u00e0s pessoas que est\u00e3o em busca de emprego, o qual foi criado em 2019. Trata-se de um pagamento mensal \u00e0s pessoas que n\u00e3o conseguem achar trabalho, introduzido pelo Movimento 5 Estrelas quando estava no governo. O Irm\u00e3os da It\u00e1lia prometeu, antes da elei\u00e7\u00e3o, se livrar disso, e agora est\u00e1 levando essa promessa adiante. Meloni disse em sua live no Facebook recentemente que \u201ctrabalho pode levar voc\u00ea a qualquer lugar, enquanto esse aux\u00edlio te deixa deitado no sof\u00e1\u201d. Ent\u00e3o existe essa ideia promovida por intelectuais e pela m\u00eddia de que benef\u00edcios de bem-estar social encorajam a pregui\u00e7a, que pessoas pobres est\u00e3o se aproveitando do sistema, que a raz\u00e3o pela qual a It\u00e1lia est\u00e1 enfrentando dificuldades econ\u00f4micas \u00e9 porque n\u00e3o h\u00e1 uma \u201ccultura do trabalho\u201d. Tamb\u00e9m vemos coisas do g\u00eanero no caso do ministro de Educa\u00e7\u00e3o falando do potencial das escolas em basicamente preparar trabalhadores, que, desde a educa\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, as crian\u00e7as mais jovens j\u00e1 devem ser preparadas em uma cultura de trabalho duro, disciplina\u2026 Ele falou do valor da \u201chumilha\u00e7\u00e3o social\u201d no preparo de pessoas para serem cidad\u00e3os modelos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o que de fato vemos na extrema direita no poder \u00e9 quase uma ideia vitoriana de austeridade e trabalho duro, cortando o bem-estar social, se opondo a coisas como sal\u00e1rio m\u00ednimo e outras. Esse tipo de ideias reacion\u00e1rias \u00e9 obviamente perfeitamente compat\u00edvel com os interesses das partes mais ricas da sociedade italiana. E \u00e9 claro que em geral \u00e9 verdade que grandes por\u00e7\u00f5es da classe dominante italiana e da classe m\u00e9dia alta votariam em partidos mais liberais que o Irm\u00e3os da It\u00e1lia, mas n\u00e3o vejo nada no programa do Irm\u00e3os da It\u00e1lia que seja de algum modo incompat\u00edvel com os interesses do capitalismo italiano ou nada do tipo. \u00c9 um partido que, al\u00e9m de seu chauvinismo e racismo, tem o livre mercado e ideias econ\u00f4micas com certo toque nacional, que \u00e9 aberto sobre suas inten\u00e7\u00f5es de se livrar do estado de bem-estar existente.<\/p>\n<p><strong>PC \u2013 Voc\u00ea disse em uma entrevista que a guerra na Ucr\u00e2nia permitiu que Meloni se normalizasse, no sentido de que, condenando duramente a R\u00fassia e n\u00e3o tecendo cr\u00edticas \u00e0 OTAN, ela garantiu um assento \u00e0 mesa que em outro contexto talvez n\u00e3o tivesse. Voc\u00ea poderia explicar mais essa an\u00e1lise e de que maneira esse processo est\u00e1 coordenado com governos como o da Hungria e da Pol\u00f4nia, e tamb\u00e9m com grupos de extrema direita que ainda n\u00e3o est\u00e3o no poder, como no caso do Vox, que voc\u00ea mencionou, ou o partido de Le Pen na Fran\u00e7a? Como esses grupos est\u00e3o se organizando ao redor da Ucr\u00e2nia e como a extrema direita est\u00e1 reformulando sua coordena\u00e7\u00e3o internacional nesse contexto?<\/strong><\/p>\n<p>DB \u2013 Na extrema direita europeia sempre houve partidos com rela\u00e7\u00f5es muito mais pr\u00f3ximas com a R\u00fassia, o caso mais \u00f3bvio \u00e9 o da Liga, liderado por Salvini, que abertamente fez uma alian\u00e7a com o R\u00fassia Unida, o principal partido pr\u00f3-Putin no Duma, e \u00e9 apontado por muitos como receptor de verbas deste parceiro na R\u00fassia. Tamb\u00e9m se olharmos para Le Pen na Fran\u00e7a, que fez v\u00e1rios coment\u00e1rios efusivos e positivos sobre a R\u00fassia de Putin, tendo-a como uma esp\u00e9cie de modelo civilizacional, uma esp\u00e9cie de Estado crist\u00e3o e conservador, o qual tamb\u00e9m enfrenta a hegemonia estadunidense. H\u00e1 outras for\u00e7as na extremadireita europeia que n\u00e3o fizeram isso. Eu acho que, particularmente em 2021, Mateusz Morawiecki, o primeiro ministro da Pol\u00f4nia, tentou criar uma esp\u00e9cie de alian\u00e7a da extremadireita de toda a Europa, incluindo pessoas como Salvini e Le Pen, mas tamb\u00e9m Meloni e outras. E a quest\u00e3o da R\u00fassia foi um grande problema. Foi um grande problema na pol\u00edtica dom\u00e9stica da Pol\u00f4nia e impediu que essa alian\u00e7a acontecesse e a\u00ed a guerra fez isso ser ainda mais dif\u00edcil. Ent\u00e3o a guerra tamb\u00e9m causou certa divis\u00e3o entre as partes da extremadireita europeia que olhavam para a Hungria, o governo de Erdogan em espec\u00edfico, o qual basicamente \u00e9 o mais pr\u00f3-R\u00fassia ou menos pr\u00f3-Ucr\u00e2nia na Uni\u00e3o Europeia; e aqueles que, em vez disso, s\u00e3o mais pr\u00f3ximos do governo polon\u00eas, do partido Lei e Justi\u00e7a, o qual est\u00e1 no grupo de Meloni no Parlamento Europeu. Assim, mesmo que em geral o argumento liberal contra a extrema direita europeia seja basicamente associ\u00e1-la \u00e0 R\u00fassia, \u00e0 influ\u00eancia russa, o partido de Meloni, o Irm\u00e3os da It\u00e1lia, n\u00e3o tem muito dessa tradi\u00e7\u00e3o, na verdade, diferentemente do partido de Salvini, a Liga, ou o franc\u00eas Reagrupamento Nacional. \u00c9 poss\u00edvel encontrar exemplos de Meloni dizendo coisas positivas sobre Putin no passado, mas n\u00e3o \u00e9 o mesmo tipo de colabora\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica, muito pouca evid\u00eancia de financiamento ou apoio real para o partido dela, de modo que as tentativas de desgast\u00e1-la com isso n\u00e3o funcionaram.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma confer\u00eancia de neg\u00f3cios na It\u00e1lia antes da elei\u00e7\u00e3o chamada Cernobbio, uma esp\u00e9cie de vers\u00e3o italiana do F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial de Davos. L\u00e1, Meloni disse que, para ter credibilidade internacional, a It\u00e1lia tinha que apoiar a Ucr\u00e2nia, mas isso n\u00e3o faria muita diferen\u00e7a no campo de batalha. O que ela diz \u00e9 verdade, mas existe algo em rela\u00e7\u00e3o ao partido dela tamb\u00e9m: para o Irm\u00e3os da It\u00e1lia, apoiar a Ucr\u00e2nia era necess\u00e1rio para que fossem vistos como um partido leg\u00edtimo de governo, com boas rela\u00e7\u00f5es com outros governos europeus e com Washington. No entanto, a It\u00e1lia n\u00e3o conta muito na pol\u00edtica internacional, e o apoio militar e econ\u00f4mico da It\u00e1lia para a Ucr\u00e2nia \u00e9 muito menos importante do que o de pa\u00edses como Reino Unido ou Fran\u00e7a, mesmo que suas economias tenham tamanhos semelhantes. Ent\u00e3o, acredito que no mundo da Uni\u00e3o Europeia e da alian\u00e7a dos EUA foi simbolicamente importante que o Irm\u00e3os da\u00a0 It\u00e1lia tomasse a posi\u00e7\u00e3o que tomou, que \u00e9 de total comprometimento a apoiar a Ucr\u00e2nia, mesmo que na realidade isso n\u00e3o tenha custado muito. Uma posi\u00e7\u00e3o relativamente f\u00e1cil de tomar. Uma das ironias \u00e9 que no caminho para a elei\u00e7\u00e3o, quando havia cobertura de imprensa cr\u00edtica sobre Meloni e as ra\u00edzes fascistas do seu partido, o foco era menos ela e seu partido e mais o fato dela ter Salvini e a Liga como aliados, n\u00e3o se podendo confiar que que apoiariam a Ucr\u00e2nia. A quest\u00e3o de se voc\u00ea est\u00e1 de fato ou n\u00e3o do lado da Ucr\u00e2nia substituiu a quest\u00e3o do fascismo versus anti-facismo em certos discursos liberais mainstream em rela\u00e7\u00e3o a se partidos s\u00e3o ou n\u00e3o extremistas.<\/p>\n<p><strong>PC \u2013 No seu livro \u201cPrimeiro eles tomaram Roma: como a extrema direita conquistou a It\u00e1lia ap\u00f3s a opera\u00e7\u00e3o M\u00e3os Limpas\u201d, publicado pela Autonomia Liter\u00e1ria, voc\u00ea demonstra como a extrema direita na It\u00e1lia se beneficiou do contexto gerado pela Opera\u00e7\u00e3o M\u00e3os Limpas nos anos 1990. Isso antecipa um cen\u00e1rio que n\u00f3s ir\u00edamos conhecer muito bem em outros lugares, especialmente no Brasil \u2013 o pr\u00f3prio S\u00e9rgio Moro elogiou esta opera\u00e7\u00e3o e disse publicamente que a considerava uma inspira\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea poderia explicar como essa atmosfera anti-sistema foi gerada e como ainda permanece viva? Que li\u00e7\u00f5es podemos aprender para lidar com o crescente lawfare que opera ao redor do mundo, especialmente na Am\u00e9rica Latina, abrindo caminhos para a extrema direita?<\/strong><\/p>\n<p>DB \u2013 Eu costumo dizer que a It\u00e1lia \u00e9 um tipo de previs\u00e3o, ou oferece uma perspectiva num processo que est\u00e1 acontecendo em todo o mundo. O que aconteceu na It\u00e1lia no come\u00e7o dos anos 1990 concretiza e re\u00fane muitas das mudan\u00e7as pol\u00edticas gerais que vemos na maioria das democracias ocidentais. Isso porque temos ao mesmo tempo os julgamentos de corrup\u00e7\u00e3o da Opera\u00e7\u00e3o M\u00e3os Limpas \u2013 que destroem os partidos pol\u00edticos existentes, todos eles, a Democracia Crist\u00e3, os Socialistas, e o partido Comunista j\u00e1 fora dissolvido no fim de 1991\u00a0 \u2013 e, junto a isso, no mesmo momento pol\u00edtico, a cria\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia e a It\u00e1lia entrando no caminho para se unir \u00e0 moeda comum. Nesse momento, h\u00e1 muito desse triunfalismo neoliberal, o fim da Guerra Fria, o fim das grandes ideologias. Ent\u00e3o temos basicamente ju\u00edzes, tecnocratas, economistas e presidentes de bancos centrais tomando o campo pol\u00edtico, enquanto h\u00e1 o colapso daquilo que anteriormente governou a pol\u00edtica, partidos de massa, organiza\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, etc. Neste momento inicial, quando esses ju\u00edzes estavam se livrando de pol\u00edticos corruptos, questionando-os na televis\u00e3o, havia um grande otimismo \u2013 talvez dif\u00edcil de ser lembrado hoje \u2013 de que esse tipo de esp\u00edrito judicializador iria quebrar as velhas burocracias, modernizar a It\u00e1lia, tir\u00e1-la de sua condi\u00e7\u00e3o estagnada e lev\u00e1-la ao futuro. O Euro tamb\u00e9m tinha o prop\u00f3sito de fazer esse papel : as quest\u00f5es de economia pol\u00edtica seriam decididas basicamente por banqueiros europeus, idealmente alem\u00e3es, que saberiam mais e fariam da It\u00e1lia um pa\u00eds \u201cnormal\u201d como a Alemanha. Todas essas receitas produziram, grosso modo, efeitos desastrosos. Mesmo no n\u00edvel de se livrar da corrup\u00e7\u00e3o n\u00e3o funcionaram, porque basicamente substitu\u00edram partidos de massa democr\u00e1ticos por um campo pol\u00edtico desertado, no qual aqueles que j\u00e1 tinham mais poder foram capazes de conquistar poder por meios eleitorais. O melhor exemplo disso \u00e9, evidentemente, Silvio Berlusconi, que, mesmo sem um partido e sem apoiadores reais, p\u00f4de utilizar sua posse privada de m\u00eddia para conquistar as elei\u00e7\u00f5es em 1994 e basicamente se tornar o l\u00edder hegem\u00f4nico por praticamente as duas d\u00e9cadas seguintes.<\/p>\n<p>Assim, ainda que a promessa inicial da Opera\u00e7\u00e3o M\u00e3os Limpas fosse se livrar das velhas burocracias partid\u00e1rias e assim por diante, e objetivasse fazer as institui\u00e7\u00f5es mais transparentes e democr\u00e1ticas, etc., o que vimos, em vez disso, foi que as institui\u00e7\u00f5es ficaram menos responsivas porque n\u00e3o h\u00e1 organiza\u00e7\u00f5es coletivas, partidos, ou batalha de programas pol\u00edticos que poderiam gerar uma competi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica saud\u00e1vel. No lugar disso, falando de modo muito resumido, o que vimos foram cidad\u00e3os italianos ainda menos capazes de controlar o que acontece politicamente, menos capazes de se organizar e se mobilizar por ideias alternativas de mudan\u00e7a social, e assim por diante. Isso tamb\u00e9m teve como\u00a0 efeito que menos italianos participem da democracia: na \u00faltima elei\u00e7\u00e3o, em setembro, tivemos apenas 68% de participa\u00e7\u00e3o dos votantes, enquanto nos anos 1970 e 1980, essa taxa era de 90%.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o conhe\u00e7o o Brasil muito bem, passei apenas algumas semanas a\u00ed recentemente e n\u00e3o estudei o pa\u00eds a fundo, mas fazendo uma compara\u00e7\u00e3o grosseira, acho que o que \u00e9 interessante no contraste entre o que ocorreu na It\u00e1lia nos anos 1990 e o que ocorreu nos anos 2010 no Brasil \u00e9 que no caso brasileiro, com os limites de Lula e Dilma, mesmo com os aspectos morais, o golpe e tudo isso, ainda se tem um movimento de massa organizado, h\u00e1 grandes partidos, organiza\u00e7\u00f5es sociais. Houve resist\u00eancia na \u00e9poca e temos a vit\u00f3ria eleitoral recente \u2013 houve uma esp\u00e9cie de luta de volta. No caso italiano, em vez disso, os l\u00edderes do que fora o Partido Comunista, os l\u00edderes da esquerda, foram, na verdade, os mais entusiastas apoiadores dessa tomada liberal e tecnocrata da pol\u00edtica. Eles desmobilizaram por completo o seu pr\u00f3prio lado e a esquerda destruiu a si mesma. Obviamente o Brasil \u00e9 muito mais desigual que a It\u00e1lia, h\u00e1 muito mais conflito social, mas tamb\u00e9m h\u00e1 muito mais potencial nesta situa\u00e7\u00e3o. No caso da It\u00e1lia, a ideia de mudan\u00e7a pol\u00edtica ou de se organizar para conquistar qualquer coisa \u00e9 muito limitada, ent\u00e3o a luta fica muito mais limitada a essas quest\u00f5es de identidade.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: A extrema direita na It\u00e1lia: uma entrevista com David Broder | Funda\u00e7\u00e3o Lauro Campos e Marielle Franco &#8211; https:\/\/flcmf.org.br\/a-extrema-direita-na-italia-uma-entrevista-com-david-broder\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pedro Charbel &#8211; David Broder \u00e9 escritor e tradutor. Morando atualmente em Roma, \u00e9 editor da revista Jacobin Europa e escreve regularmente sobre pol\u00edtica italiana para publica\u00e7\u00f5es como a Internazionale. 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