{"id":187,"date":"2016-05-05T15:11:17","date_gmt":"2016-05-05T18:11:17","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=187"},"modified":"2016-05-05T19:17:56","modified_gmt":"2016-05-05T22:17:56","slug":"e-pau-e-pedra-e-o-fim-de-um-caminho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/05\/05\/e-pau-e-pedra-e-o-fim-de-um-caminho\/","title":{"rendered":"\u00c9 pau, \u00e9 pedra, \u00e9 o fim de um caminho"},"content":{"rendered":"<p><strong>C\u00e9sar Benjamin<\/strong> &#8211;\u00a0A crise, a dissolu\u00e7\u00e3o da esquerda e o legado conservador do lulismo<\/p>\n<p>Especialista no marketing do otimismo sem projeto, Lula foi uma esp\u00e9cie de Eike Batista da pol\u00edtica. Arrastou com ele grande parte da esquerda.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">U<\/span>m dos estilos mais t\u00edpicos da orat\u00f3ria antiga eram os chamados discursos epid\u00edcticos, nos quais o tribuno apenas enfatizava aquilo que as plateias esperavam ouvir. Tratava-se, principalmente, de elogiar o elogi\u00e1vel, exaltando as qualidades de um homem ilustre rec\u00e9m-falecido, enaltecendo uma cidade diante de seus habitantes, louvando qualidades abstratas, como a bondade e a justi\u00e7a, e assim por diante.<\/p>\n<p>Com o tempo, os grandes tribunos perceberam que n\u00e3o havia verdadeiro m\u00e9rito nisso. Dedicaram-se, ent\u00e3o, a buscar a perfei\u00e7\u00e3o da orat\u00f3ria na pr\u00e1tica oposta, a de elogiar o feio, o rid\u00edculo ou at\u00e9 mesmo o abomin\u00e1vel.<\/p>\n<p>Luciano e Le\u00e3o Baptista Alberto descreveram as virtudes da mosca. Pol\u00edcrates louvou os ratos. Lu\u00edz Uviqu\u00edlio enalteceu os gafanhotos. Clit\u00e9rio escolheu o caruncho. Fav\u00f4nio, as febres. Betubo, os mosquitos. Miguel Psellos, as pulgas. Sin\u00e9sio, a careca. E Andr\u00e9 Am\u00f4nio fez um antol\u00f3gico discurso em que descreveu as belezas do nada.<\/p>\n<p>Tivesse eu esse talento, faria o elogio de Dilma Rousseff. Seria o elogio da nulidade.<\/p>\n<p><img srcset=\"http:\/\/revistapiaui.estadao.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/103_tribunalivre.jpg\" alt=\"Especialista no marketing do otimismo sem projeto, Lula foi uma esp\u00e9cie de Eike Batista da pol\u00edtica. Arrastou com ele grande parte da esquerda\" \/><\/p>\n<p><strong><strong class=\"capitular\">N<\/strong><\/strong>unca se viu coisa igual: um governo que toma posse e n\u00e3o come\u00e7a, que j\u00e1 no primeiro trimestre se desmoraliza e se arrasta de derrota em derrota, e cuja maior esperan\u00e7a \u00e9 conseguir agonizar em pra\u00e7a p\u00fablica por quatro anos, sem nada propor ao pa\u00eds. N\u00e3o dar\u00e1 certo, \u00e9 claro, embora ainda n\u00e3o saibamos como.<\/p>\n<p>H\u00e1 poucos meses, falar em crise era coisa de gente ranzinza. Hoje, \u00e9 chover no molhado. Mas acho que as pessoas ainda n\u00e3o perceberam o tamanho e a complexidade da confus\u00e3o em que nos metemos. Estamos diante de diversas crises, superpostas e combinadas, que apenas se iniciam. \u00c9 coisa de grandes propor\u00e7\u00f5es. Dadas as caracter\u00edsticas da sociedade brasileira atual, talvez venha a ser a mais grave crise da nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Sua dimens\u00e3o evidente \u00e9 o esgotamento da pol\u00edtica econ\u00f4mica que prevaleceu nos doze \u00faltimos anos. Desde 2003 ouvimos a promessa de combinar desenvolvimento e justi\u00e7a social, tendo o mercado interno, pela primeira vez, como o principal elemento din\u00e2mico.<\/p>\n<p>Deposit\u00e1rios da mem\u00f3ria desse merit\u00f3rio projeto, longamente amadurecido, os governos do Partido dos Trabalhadores anunciaram a novidade, mas n\u00e3o souberam lev\u00e1-la adiante: abandonaram a agenda de reformas estruturais; descuidaram da expans\u00e3o dos bens e servi\u00e7os de uso coletivo; n\u00e3o conseguiram coordenar e executar os investimentos necess\u00e1rios em infraestrutura; praticamente s\u00f3 criaram empregos em setores de baixa produtividade; assistiram, sem reagir, \u00e0 reprimariza\u00e7\u00e3o da nossa pauta de exporta\u00e7\u00f5es e \u00e0 desindustrializa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, fen\u00f4menos associados a uma inser\u00e7\u00e3o declinante no sistema internacional. Em vez de tratar desses assuntos dif\u00edceis \u2013 e decisivos \u2013, a pol\u00edtica econ\u00f4mica concentrou-se, cada vez mais, em artif\u00edcios voltados para aquecer a demanda no curto prazo.<\/p>\n<p>A promessa de um ciclo longo de desenvolvimento centrado na expans\u00e3o do mercado interno degenerou em uma bolha de consumo.<\/p>\n<p><strong><strong class=\"capitular\">E<\/strong><\/strong>ssa experimenta\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica acabou. Como o peso das tentativas de distribui\u00e7\u00e3o de renda foi jogado sobre os gastos fiscais do Estado, o qual n\u00e3o se libertou da condi\u00e7\u00e3o de ref\u00e9m da acumula\u00e7\u00e3o rentista, as finan\u00e7as p\u00fablicas foram para o buraco. E, como o sistema produtivo brasileiro n\u00e3o acompanhou a demanda \u2013 em grande parte, por uma pol\u00edtica cambial irrespons\u00e1vel \u2013, nossas contas externas tamb\u00e9m desandaram.<\/p>\n<p>Com a economia estagnada, temos um d\u00e9ficit p\u00fablico de mais de 6% do Produto Interno Bruto e outro d\u00e9ficit de mais de 4% do PIB nas contas externas. Isso quer dizer que Estado e sociedade est\u00e3o em uma espiral de endividamento, com o pa\u00eds parado. Foi preciso pisar fundo no freio. O crescimento, que era baixo nos \u00faltimos anos, ser\u00e1 negativo em 2015, enquanto 2016 j\u00e1 parece longo prazo. Estamos entrando em uma recess\u00e3o cuja dura\u00e7\u00e3o e profundidade ainda desconhecemos.<\/p>\n<p>Isso foi escondido at\u00e9 as elei\u00e7\u00f5es. Logo em seguida, o mesmo governo que, at\u00e9 ontem, se legitimava por meio da apologia do consumo passou a adotar \u2013 sem aviso, sem negocia\u00e7\u00f5es e sem explica\u00e7\u00f5es \u2013 um conjunto de pol\u00edticas que visam, antes de tudo, contrair bruscamente esse mesmo consumo. N\u00e3o podia dar certo.<\/p>\n<p><strong><strong class=\"capitular\">A<\/strong><\/strong>\u00a0segunda dimens\u00e3o da crise, menos vis\u00edvel, \u00e9 o esgotamento simult\u00e2neo dos quatro mecanismos usados na \u00faltima d\u00e9cada para promover alguma distribui\u00e7\u00e3o de renda.<\/p>\n<p>Os aumentos reais do sal\u00e1rio m\u00ednimo, iniciados em 1994 e mantidos sem interrup\u00e7\u00e3o at\u00e9 2014, ficar\u00e3o doravante comprometidos pelo p\u00edfio desempenho do PIB e pelo aperto nas contas da Previd\u00eancia Social.<\/p>\n<p>As pol\u00edticas de transfer\u00eancia de renda, centradas no programa Bolsa Fam\u00edlia, atingiram seu teto de expans\u00e3o, tanto em n\u00famero de fam\u00edlias beneficiadas quanto no valor dos benef\u00edcios. A prec\u00e1ria situa\u00e7\u00e3o fiscal do Estado n\u00e3o permite novos aumentos significativos.<\/p>\n<p>Dado o n\u00edvel de endividamento da popula\u00e7\u00e3o, o cr\u00e9dito se contrai pela primeira vez em doze anos.<\/p>\n<p>O aumento da formaliza\u00e7\u00e3o do trabalho arrefece e d\u00e1 lugar a um novo ciclo de desemprego ascendente, principalmente na ind\u00fastria.<\/p>\n<p>O distributivismo sem reformas atingiu seu limite. A recess\u00e3o se encarregar\u00e1 de anular boa parte dos ganhos que o povo brasileiro obteve na \u00faltima d\u00e9cada, o que prenuncia uma crise social importante. As popula\u00e7\u00f5es que aumentaram sua capacidade de consumo e viram nisso uma express\u00e3o acabada de ascens\u00e3o ter\u00e3o muitos motivos para reagir \u00e0s perdas que se avizinham. N\u00e3o temos institui\u00e7\u00f5es que acolham e canalizem sua prov\u00e1vel rebeldia, que ainda n\u00e3o se expressou (elas n\u00e3o estiveram significativamente presentes nas manifesta\u00e7\u00f5es dos dias 13 e 15 de mar\u00e7o).<\/p>\n<p><strong><strong class=\"capitular\">A<\/strong><\/strong>\u00a0terceira dimens\u00e3o da crise \u00e9 especificamente pol\u00edtica. O loteamento do Estado, com o consequente rebaixamento do Congresso Nacional e da pr\u00f3pria ideia de pol\u00edtica, tornou-se o principal mecanismo de constru\u00e7\u00e3o da chamada governabilidade. Levado ao extremo, ele eliminou a capacidade de esse mesmo Estado conduzir empreendimentos complexos e de longa matura\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o os mais importantes. A pol\u00edtica afastou-se das grandes quest\u00f5es nacionais.<\/p>\n<p>A governabilidade assim obtida no curto prazo \u00e9 a contraface de uma tend\u00eancia \u00e0 ingovernabilidade no longo prazo, pelo ac\u00famulo de desafios relevantes n\u00e3o enfrentados.<\/p>\n<p>Como escrevi aqui em 2013, o longo prazo chegou: as disfuncionalidades desse tipo de pol\u00edtica j\u00e1 superam, de longe, qualquer contribui\u00e7\u00e3o que ela possa nos dar. N\u00e3o obstante, ela prossegue, pois o sistema funciona no piloto autom\u00e1tico. Constru\u00edmos um Estado \u00e1gil para premiar amigos e punir advers\u00e1rios, mas inoperante para liderar um projeto nacional.<\/p>\n<p>Nosso sistema pol\u00edtico gira em falso. Governa a si mesmo, em vez de governar o Brasil. Presos nessa armadilha, tornamo-nos uma sociedade de vontade fraca, que n\u00e3o consegue canalizar sua energia para o que verdadeiramente importa. Sociedades assim perdem a capacidade de se desenvolver, ainda mais em um contexto internacional, como o atual, em que as disputas se acirram.<\/p>\n<p><strong><strong class=\"capitular\">A<\/strong><\/strong>\u00a0esse quadro preocupante somam-se tr\u00eas crises espec\u00edficas, mas muito relevantes.<\/p>\n<p>A crise no abastecimento de \u00e1gua, principalmente em S\u00e3o Paulo, onde est\u00e1 nossa maior metr\u00f3pole, nossa agricultura mais forte e nossa maior concentra\u00e7\u00e3o industrial.<\/p>\n<p>A crise do setor el\u00e9trico, que j\u00e1 se expressa na disparada das tarifas e em apag\u00f5es sucessivos, e provavelmente exigir\u00e1 novo racionamento de energia ao longo do ano.<\/p>\n<p>A crise da Petrobras e da engenharia pesada, que \u2013 somadas \u00e0 sua extensa cadeia de fornecedores \u2013 representam em torno de 10% do PIB. Ainda desconhecemos os efeitos da contra\u00e7\u00e3o desses investimentos sobre o conjunto da ind\u00fastria e o impacto da perda patrimonial desses setores sobre a higidez do sistema financeiro, dos fundos de pens\u00e3o e de outros investidores institucionais, como o pr\u00f3prio Fundo de Amparo ao Trabalhador. Esse impacto especificamente financeiro, que permanece incubado e despercebido, poder\u00e1 vir a causar, adiante, um dram\u00e1tico agravamento da crise que est\u00e1 come\u00e7ando.<\/p>\n<p><strong><strong class=\"capitular\">E<\/strong><\/strong>sgotaram-se, simultaneamente, a pol\u00edtica econ\u00f4mica, a pol\u00edtica social e a maneira de fazer pol\u00edtica adotadas pelos governos do PT. A rigor, n\u00e3o estamos assistindo apenas ao fim de um ciclo, mas de dois. No olhar de curto prazo, desfaz-se a hegemonia que prevaleceu na pol\u00edtica brasileira na \u00faltima d\u00e9cada e, com ela, come\u00e7a a se desfazer a polariza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds em dois blocos, um liderado pelo PT, outro pelo PSDB, com o PMDB como for\u00e7a pendular.<\/p>\n<p>Em um olhar mais abrangente, estendido no tempo, tamb\u00e9m chega ao fim o impulso ideol\u00f3gico e institucional que a sociedade brasileira ganhou na d\u00e9cada de 80. A maioria do nosso povo j\u00e1 n\u00e3o se reconhece nos partidos, nas organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil e nos movimentos sociais nascidos ou reestruturados no fim do regime militar, h\u00e1 mais de trinta anos.<br \/>\nA sociedade mudou, e eles envelheceram.<\/p>\n<p>Um ciclo longo da pol\u00edtica brasileira est\u00e1 terminando. Entramos em voo cego. Ser\u00e1 preciso reconstruir refer\u00eancias, o que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil.<\/p>\n<p><strong><strong class=\"capitular\">E<\/strong><\/strong>specialista em fazer o marketing do otimismo sem projeto, Lula foi uma esp\u00e9cie de Eike Batista da pol\u00edtica. Tamb\u00e9m encantou multid\u00f5es e, com isso, arrastou grande parte da esquerda. Entre os atores pol\u00edticos, ela ser\u00e1 a maior perdedora.<\/p>\n<p>Ao longo da hist\u00f3ria, a esquerda resistiu a diversas tentativas de aniquila\u00e7\u00e3o, vindas de fora para dentro. Ao aderir ao lulismo \u2013 que abria aos seus quadros generosas oportunidades de ascens\u00e3o social, aflu\u00eancia material e poder \u2013, ela se deixou sucumbir por um processo in\u00e9dito, lento e profundamente corrosivo: a dissolu\u00e7\u00e3o de dentro para fora, pela perda de seus valores fundamentais.<\/p>\n<p>Embora abrigado em legendas de esquerda, o lulismo sempre foi, na ess\u00eancia, um movimento conservador, que reduziu a ideia de justi\u00e7a social apenas \u00e0 dimens\u00e3o do consumo individual e \u00e0 conquista de votos a ela associada. O fortalecimento da coisa p\u00fablica e das institui\u00e7\u00f5es republicanas, o desenvolvimento moral, intelectual e cultural das pessoas e o aperfei\u00e7oamento do ambiente social em que se d\u00e1 a conviv\u00eancia humana \u2013 que s\u00e3o essenciais em qualquer projeto progressista \u2013 sempre estiveram fora de seu horizonte ideol\u00f3gico.<\/p>\n<p>\u201cCompre mais e vote em mim\u201d, foi tudo o que Lula disse, durante anos, ao povo brasileiro. Na pol\u00edtica, ele reorganizou e fortaleceu o antigo Centr\u00e3o, a articula\u00e7\u00e3o do fisiologismo e das oligarquias, que agora controla de novo, com folga, o Congresso Nacional e amea\u00e7a engolir de vez todo o poder, num retrocesso que chegou a ser inimagin\u00e1vel depois do fim do regime militar.<\/p>\n<p>N\u00e3o me surpreende que o lulismo, ao fim e ao cabo, nos deixe como legado uma sociedade mais conservadora do que a que t\u00ednhamos doze anos atr\u00e1s. Ao contr\u00e1rio, parece-me ser o desdobramento natural do que ele \u00e9. Ao mesmo tempo, nunca antes tivemos massas humanas t\u00e3o grandes, t\u00e3o concentradas e t\u00e3o carentes de participa\u00e7\u00e3o, consci\u00eancia, organiza\u00e7\u00e3o e representa\u00e7\u00e3o. Essa despolitiza\u00e7\u00e3o ampla, geral e irrestrita \u00e9 o pior legado da maneira como o PT conduziu a na\u00e7\u00e3o na \u00faltima d\u00e9cada. Nesse contexto, em uma situa\u00e7\u00e3o de crise aguda, tudo pode surgir.<\/p>\n<p><strong><strong class=\"capitular\">T<\/strong><\/strong>empo de crise, tempo de cacofonia. Quem n\u00e3o tem o que propor logo prop\u00f5e criar novas regras e fazer novas leis, um debate vazio. Regras e leis s\u00e3o sempre burladas, quando n\u00e3o temos capacidade de definir nem mesmo meia d\u00fazia de objetivos comuns que constituam um consenso b\u00e1sico em torno de si.<\/p>\n<p>Mais do que de novas regras, precisamos de novos fins e valores. Isso, as institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que a\u00ed est\u00e3o, maculadas pelo peso abusivo do poder econ\u00f4mico e pela dissemina\u00e7\u00e3o do cinismo, n\u00e3o podem nos dar. O conte\u00fado da pol\u00edtica \u00e9 que precisa mudar.<\/p>\n<p>Nossos pol\u00edticos tornaram-se camale\u00f5es que a cada quatro anos se esfor\u00e7am para se adaptar ao que a sociedade \u00e9, ou parece ser, conforme lhes ensinam as minuciosas pesquisas de opini\u00e3o que encomendam. Sempre preocupados com os interesses da hora, s\u00e3o incapazes de despertar qualidades novas que estejam latentes.<\/p>\n<p>O futuro que resulta do somat\u00f3rio de suas pequenas a\u00e7\u00f5es, fabricadas com sucessivas costuras de curto prazo, \u00e9 apenas o prolongamento do presente. N\u00e3o cont\u00e9m o car\u00e1ter novo de um verdadeiro futuro. Ficamos andando em c\u00edrculos, sem sair do lugar.<\/p>\n<p>Precisamos encontrar gente nova, organizada de maneira nova, que, em vez de tentar se adaptar ao que a sociedade \u00e9, ou parece ser, aceite correr os riscos de anunciar o que ela pode vir a ser, para impulsion\u00e1-la.<\/p>\n<p><strong class=\"capitular\">\u00c9<\/strong>de uma discuss\u00e3o de projeto que se trata, e ela exige que tenhamos capacidade de recolocar quest\u00f5es fundamentais. Esse pode ser o melhor legado da crise.<\/p>\n<p>Precisamos abandonar ninharias, como a polariza\u00e7\u00e3o PT PSDB, nos libertar de preconceitos, como os que nos mant\u00eam presos \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es da esquerda tradicional, e revisitar fundamentos, buscando atualizar uma ideia de Brasil, agora em um cen\u00e1rio de grandes dificuldades.<\/p>\n<p>O tempo est\u00e1 contra n\u00f3s. N\u00e3o vir\u00e1 nenhum golpe de Estado, pois ningu\u00e9m minimamente relevante o deseja, a come\u00e7ar pelas For\u00e7as Armadas. Mas, se n\u00e3o reagirmos, poderemos nos tornar um Estado falido e uma na\u00e7\u00e3o invi\u00e1vel. Nem a nulidade de Dilma Rousseff, nem a esperteza de Lula, nem o oportunismo dos nossos pol\u00edticos atuais \u2013 feitas algumas exce\u00e7\u00f5es de praxe \u2013 nos salvar\u00e3o.<\/p>\n<p>O que escrevi aqui, e muito mais, eu digo h\u00e1 muitos anos \u00e0 esquerda. S\u00f3 colhi isolamento e difama\u00e7\u00e3o. N\u00e3o fico feliz em constatar que tinha raz\u00e3o. \u00c9 pau, \u00e9 pedra, \u00e9 o fim de um caminho. M\u00e3os \u00e0 obra.<\/p>\n<p>http:\/\/revistapiaui.estadao.com.br\/materia\/e-pau-e-pedra-e-o-fim-de-um-caminho\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>C\u00e9sar Benjamin &#8211;\u00a0A crise, a dissolu\u00e7\u00e3o da esquerda e o legado conservador do lulismo Especialista no marketing do otimismo sem projeto, Lula foi uma esp\u00e9cie de Eike Batista da pol\u00edtica. Arrastou com ele grande parte da esquerda. 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