{"id":18680,"date":"2022-12-27T12:04:12","date_gmt":"2022-12-27T15:04:12","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18680"},"modified":"2022-12-26T10:06:31","modified_gmt":"2022-12-26T13:06:31","slug":"a-loucura-do-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/12\/27\/a-loucura-do-trabalho\/","title":{"rendered":"A loucura do trabalho"},"content":{"rendered":"<p><strong>ANDR\u00c9 M\u00c1RCIO NEVES SOARES<\/strong>* &#8211;\u00a0Coment\u00e1rio sobre o livro de Christophe Dejours<\/p>\n<p>A psicopatologia do trabalho, t\u00e3o bem apresentada por Christophe Dejours, apesar de n\u00e3o ser nova, tem sido muito escanteada pelos pesquisadores da atualidade hist\u00f3rica. N\u00e3o \u00e9 para menos. Afinal, nas \u00faltimas d\u00e9cadas de predom\u00ednio hegem\u00f4nico do grande capital financeiro internacional, falar sobre a sa\u00fade do trabalhador pode parecer, no m\u00ednimo exc\u00eantrico. Nesse sentido, perceber o subdesenvolvimento desse fen\u00f4meno hist\u00f3rico de aprofundar o entendimento sobre o movimento oper\u00e1rio e suas correla\u00e7\u00f5es de for\u00e7as inter e intra-classes \u00e9 varrer para debaixo do tapete as particularidades que nortearam, e ainda norteiam, o cont\u00ednuo adoecimento do trabalhador na modernidade.<\/p>\n<p>Nesse sentido, para Christophe Dejous, a hist\u00f3ria da sa\u00fade dos trabalhadores est\u00e1 coligada com a evolu\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida e de trabalho que estes conseguiram alcan\u00e7ar atrav\u00e9s das lutas oper\u00e1rias ao longo do tempo. Com efeito, se no passado a luta pela sa\u00fade significava lutar pela sobreviv\u00eancia, a atual \u201ccrise civilizacional\u201d perpassa a mera quest\u00e3o da vida em si para chegar ao contexto do sofrimento mental. Em pleno s\u00e9culo XXI, n\u00e3o basta mais atentar para a dura\u00e7\u00e3o excessiva e prec\u00e1ria do trabalho, mas tamb\u00e9m para a organiza\u00e7\u00e3o do atual trabalho alienado numa sociedade de consumo fetichista.<\/p>\n<p>As mudan\u00e7as capitalistas do s\u00e9culo XX e in\u00edcio deste s\u00e9culo impactaram sobremaneira o mundo do trabalho. Depois de 30 (trinta) anos de ouro do capitalismo p\u00f3s-guerras, a nova fase liberal tem deixado marcas indel\u00e9veis na redu\u00e7\u00e3o da qualidade de vida dos trabalhadores. A nova divis\u00e3o internacional do trabalho, com a respectiva redu\u00e7\u00e3o do proletariado industrial, reconfigurou a sociedade estabelecida ao longo dos \u00faltimos 200 anos, onde o trabalho fixo em algum local pr\u00e9-determinado, e a vida decorrente dessa premissa, est\u00e1 se desfazendo rapidamente (POLANYI, 2000).<\/p>\n<p>No Brasil, especialmente na ditadura militar entre 1964-1985, per\u00edodo que evidenciou os dois per\u00edodos do capitalismo p\u00f3s-guerra e sua derrocada para o novo capitalismo liberal, ou neoliberalismo, a industrializa\u00e7\u00e3o dependente refor\u00e7ou a superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho, com baixos sal\u00e1rios, aumento da jornada de trabalho, desorganiza\u00e7\u00e3o do movimento oper\u00e1rio e sindical e reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva. Nesse sentido, o novo sistema neoliberal, herdeiro do fordismo, articula um novo processo de acumula\u00e7\u00e3o primitiva do capital CASTEL (1995).<\/p>\n<p>Para Antunes e Praun (2015, p. ), a implanta\u00e7\u00e3o de programas de qualidade total, dos sistemas\u00a0<em>just-in-time<\/em>\u00a0e\u00a0<em>kanban<\/em>, al\u00e9m da introdu\u00e7\u00e3o de ganhos salariais vinculados \u00e0 lucratividade e \u00e0 produtividade (de que \u00e9 exemplo o programa de participa\u00e7\u00e3o nos lucros e resultados \u2014 PLR), sob uma pragm\u00e1tica que se adequava fortemente aos des\u00edgnios neoliberais, possibilitou a expans\u00e3o intensificada da reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva, tendo como consequ\u00eancias a flexibiliza\u00e7\u00e3o, a informalidade e a profunda precariza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho e vida da classe trabalhadora brasileira.<\/p>\n<p>Os efeitos dessa reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva podem ser vistos no crescente aumento das taxas de acidente no trabalho, com o consequente aumento dos \u00f3bitos dos trabalhadores. Al\u00e9m disso, o nexo entre a deteriora\u00e7\u00e3o laboral e os acidentes sem \u00f3bitos\/adoecimentos t\u00eam se manifestado de forma cada vez mais evidente nas crescentes pesquisas realizadas (MPT, 2017).<\/p>\n<p>Para al\u00e9m das discuss\u00f5es de cunho ideol\u00f3gicas, alguns fatores est\u00e3o intimamente interligados com o aumento dos acidentes de trabalho e adoecimentos. Assim, a flexibiliza\u00e7\u00e3o do trabalho, encurtando as fronteiras entre a vida privada e a vida p\u00fablica dos indiv\u00edduos; a individualiza\u00e7\u00e3o e solid\u00e3o no trabalho; as metas cada mais vez menos tang\u00edveis; os diversos tipos de ass\u00e9dios como forma de explora\u00e7\u00e3o do(a) trabalhador(a); e a terceiriza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os sem a devida fiscaliza\u00e7\u00e3o do poder p\u00fablico, s\u00e3o as portas de entradas para o aumento das estat\u00edsticas negativas sobre a sa\u00fade do trabalhador (idem, 2017).<\/p>\n<p>Como se n\u00e3o bastasse esses fatores de risco, apontados acima, que s\u00e3o respons\u00e1veis diretos por mais de 6,3 mil mortes por acidente de trabalho por dia, segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT, 2018), mais de 61% da popula\u00e7\u00e3o empregada no mundo \u2013 2 bilh\u00f5es de pessoas \u2013 est\u00e1 na economia informal.<\/p>\n<p>Ainda segundo a OIT (2018), a (falta de) educa\u00e7\u00e3o \u00e9 o principal fator dessa alta informalidade pois, segundo ela (OIT), quanto maior o n\u00edvel de escolaridade, menor o n\u00edvel de informalidade. E acrescenta o estudo da OIT que: \u201cPessoas que conclu\u00edram a educa\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria e superior t\u00eam menos chance de estar no mercado informal na compara\u00e7\u00e3o com trabalhadores que n\u00e3o t\u00eam escolaridade ou s\u00f3 completaram a educa\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria.<\/p>\n<p>No Brasil, segundo o Conselho Federal de Medicina \u2013 CFM \u2013 existe uma subnotifica\u00e7\u00e3o muito grande das doen\u00e7as causadas pelo trabalho, sendo notificadas menos de 2% de adoecimentos e menos de1% das mortes, quando a pr\u00f3pria entidade m\u00e1xima mundial, OIT, estabelece que as doen\u00e7as causadas pelo trabalha representam 86%, em m\u00e9dia (CFM, 2018).<\/p>\n<p>Segundo Christophe Dejours: \u201cA organiza\u00e7\u00e3o do trabalho exerce sobre o homem uma a\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, cujo impacto \u00e9 o aparelho ps\u00edquico. Em certas condi\u00e7\u00f5es emerge um sofrimento que pode ser atribu\u00eddo ao choque entre uma hist\u00f3ria individual, portadora de projetos, de esperan\u00e7as e de desejos e uma organiza\u00e7\u00e3o do trabalho que os ignora.\u201d<\/p>\n<p>Embora o atual ocaso da modernidade (muitos j\u00e1 falam em p\u00f3s-modernidade, o que n\u00e3o \u00e9 o entendimento deste escriba, nem objeto de estudo desse trabalho) n\u00e3o apresentar muitos horizontes favor\u00e1veis para o mundo do trabalho, \u00e9 mister tentar fazer um pequeno passeio pela recente hist\u00f3ria pol\u00edtica-econ\u00f4mica-social mundial e, especificamente, o Brasil, postulando melhor entendimento sobre o desvio hist\u00f3rico que o capitalismo tomou, depois de passar v\u00e1rias d\u00e9cadas de bonan\u00e7a bem-estar social e crescimento econ\u00f4mico, ainda que a periferia do sistema, ou seja, os pa\u00edses em desenvolvimento e\/ou subdesenvolvidos, tenham ficado com a menor fatia do bolo, apesar de concentrar a maioria da popula\u00e7\u00e3o mundial.<\/p>\n<p>Dessa maneira, \u00e9 fundamental entender como a pol\u00edtica estatal foi sendo cooptada pelo capital, em todas as suas esferas de atua\u00e7\u00e3o, inclusive e especialmente a esfera da sa\u00fade p\u00fablica, promovendo o desmantelamento das redes sociais de apoio. O desamparo do fim da centraliza\u00e7\u00e3o da vida familiar pelo trabalho, a falta de condi\u00e7\u00f5es materiais e psicol\u00f3gicas de apoio ao trabalhador e o aumento da rigidez das rela\u00e7\u00f5es sociais, s\u00e3o fatores importantes para o esgar\u00e7amento do tecido social de outrora, quando o trabalho, e sua remunera\u00e7\u00e3o constante, fixa, concreta, dava o tom psicol\u00f3gico da vida capitalista (aqui tamb\u00e9m n\u00e3o entraremos no m\u00e9rito da quest\u00e3o do trabalho como fator de aliena\u00e7\u00e3o do ser humano, tanto o trabalho abstrato, quanto o trabalho concreto) (DELGADO, 2017).<\/p>\n<p>No Brasil, diante de um cen\u00e1rio econ\u00f4mico adverso desde a \u00faltima crise financeira mundial em 2008, a volta da supremacia do mercado, e suas pol\u00edticas ortodoxas de gest\u00e3o p\u00fablica, ainda no governo Dilma, o aumento acelerado do desemprego foi fator de desgaste pol\u00edtico p\u00fablico, do grupo que detinha o poder ou parte dele, e de adoecimento privado dos trabalhadores cada vez menos seguros nos seus empregos. Os desarranjos pol\u00edticos e institucionais desde ent\u00e3o, e que provocaram a ascens\u00e3o de uma nova corrente pol\u00edtica em 2018, s\u00f3 fizeram aumentar a vida prec\u00e1ria do trabalhador brasileiro, elevando os \u00edndices de acidentes do trabalho e de adoecimento laboral (idem, 2017).<\/p>\n<p>Como diz Antunes e Praun (2015): \u201cN\u00e3o se trata, portanto, de mero acaso que a maior incid\u00eancia de casos de les\u00f5es por esfor\u00e7os repetitivos\/dist\u00farbios osteomusculares relacionados ao trabalho (LER\/ Dort) e de transtornos mentais ocorra simultaneamente \u00e0 dissemina\u00e7\u00e3o em escala 424 Serv. Soc. Soc., S\u00e3o Paulo, n. 123, p. 407-427, jul.\/set. 2015 global dos processos de reorganiza\u00e7\u00e3o do trabalho e da produ\u00e7\u00e3o e, de maneira articulada, \u00e0 expans\u00e3o das diferentes formas de precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, entre elas a expans\u00e3o da terceiriza\u00e7\u00e3o\u201d (ANTUNES E PRAUN, 2015, p. 423-424).<\/p>\n<p>Uma visada importante para ajudar a minimizar os danos j\u00e1 efetuados pelo ainda mais radical sistema neoliberal, alguns chamam de ultraliberal, no mundo e nos pa\u00edses perif\u00e9ricos, notadamente no Brasil, \u00e9 a psicopatologia do trabalho de Christophe Dejours. Com efeito, para este autor, o objetivo maior do seu estudo foi estabelecer as rela\u00e7\u00f5es entre a organiza\u00e7\u00e3o do trabalho e o sofrimento ps\u00edquico. Apesar do estudo dele ser majoritariamente euroc\u00eantrico, \u00e9 poss\u00edvel estender seu estudo para a esfera global em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 explora\u00e7\u00e3o do sentimento de medo e de ansiedade para a extra\u00e7\u00e3o m\u00e1xima da produtividade do trabalhador na sua \u201crela\u00e7\u00e3o de trabalho\u201d.<a href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-loucura-do-trabalho%2F#_edn1\" name=\"_ednref1\">[i]<\/a><\/p>\n<p>Por conseguinte, na fase de ouro do capitalismo industrial \u2013 s\u00e9culo XIX \u2013 at\u00e9 a fase \u00e1urea do taylorismo, precisamente na chamada \u00e9poca dos \u201ctrintas anos gloriosos\u201d,<a href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-loucura-do-trabalho%2F#_edn2\" name=\"_ednref2\">[ii]<\/a>\u00a0os habitantes de favelas nas grandes cidades representavam o grosso do operariado das f\u00e1bricas mundo afora e eram as principais v\u00edtimas, junto com seus familiares, de uma alta taxa de morbidez, pois viviam em situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria quanto \u00e0 materialidade da pobreza end\u00eamica.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a sa\u00fade mental desses trabalhadores expostos a condi\u00e7\u00f5es degradantes de conv\u00edvio social encetou estrat\u00e9gias defensivas para mitigar os efeitos dessas condi\u00e7\u00f5es insalubres de vida. Para tal desid\u00e9rio, Christophe Dejours identificou as rea\u00e7\u00f5es dessas pessoas como \u201cv\u00e1lvula de escape\u201d, a saber, o alcoolismo, atos de viol\u00eancia antissocial, loucuras de todas as formas e morte. Para ele, o sofrimento dos trabalhadores estava atrelado a insatisfa\u00e7\u00e3o e a ansiedade\/medo.<\/p>\n<p>A pesquisa realizada pelo autor trouxe o sentimento de indignidade desses trabalhadores por realizarem tarefas desinteressantes, por n\u00e3o terem condi\u00e7\u00f5es adequadas para a realiza\u00e7\u00e3o delas, tanto materiais como emocionais, e mesmo assim serem for\u00e7adas a realizar determinadas tarefas incompreendidas por esses trabalhadores em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 finalidade do trabalho.<\/p>\n<p>Destarte, ainda segundo o autor, o sentimento de indignidade est\u00e1 relacionado com a viv\u00eancia depressiva do trabalhador assalariado, a qual se manifesta pelo cansa\u00e7o deste, n\u00e3o apenas o cansa\u00e7o f\u00edsico, mas o esgotamento mental a influenciar seu desempenho e sua produtividade na concretiza\u00e7\u00e3o das tarefas que lhe s\u00e3o impostas.<\/p>\n<p>Realmente, o que o autor verificou foi que os trabalhadores jamais abandonam a \u201ctens\u00e3o nervosa\u201d, mesmo onde a carga de trabalho \u00e9 menos elevada. Assim, as representa\u00e7\u00f5es de ignor\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o ao sentido do trabalha efetuado, este fragmentado de prop\u00f3sito para proporcionar a m\u00e1xima produtividade do trabalhador, o sentimento penoso de estar sempre sendo controlado pelos superiores e a convic\u00e7\u00e3o de que o pr\u00f3prio local de trabalho \u00e9 perigoso para a vida do trabalhador, especialmente os trabalhadores que participam diretamente do processo de produ\u00e7\u00e3o mostram, segundo Dejours: \u201c\u2026 a extens\u00e3o do medo que responde, no n\u00edvel psicol\u00f3gico, a todos os riscos que n\u00e3o s\u00e3o controlados pela preven\u00e7\u00e3o coletiva\u201d. (Idem, p. 88)<\/p>\n<p>O que da\u00ed resulta \u00e9 o que o autor chamou de \u201cexplora\u00e7\u00e3o do sofrimento\u201d, ou seja, que a explora\u00e7\u00e3o desse sentimento da\/o ansiedade\/medo acarreta a eros\u00e3o da sa\u00fade mental dos trabalhadores \u00e9 ben\u00e9fico para a implementa\u00e7\u00e3o de um condicionamento a favor da produ\u00e7\u00e3o. Em outras palavras, a vida mental de cada trabalhador, individualmente, nada mais \u00e9 do que um intermedi\u00e1rio necess\u00e1rio \u00e0 submiss\u00e3o do corpo.<\/p>\n<p>Por consequ\u00eancia, os exemplos das telefonistas e da ind\u00fastria petroqu\u00edmica que Christophe Dejours deu para que o sofrimento advindo da insatisfa\u00e7\u00e3o e do medo, respectivamente, s\u00e3o essenciais para entender como funciona a engrenagem da organiza\u00e7\u00e3o do trabalho. Esses sentimentos produzem uma agressividade indeterminada, difusa e manipul\u00e1vel para a explora\u00e7\u00e3o do trabalhador pela organiza\u00e7\u00e3o do trabalho. De fato, na impossibilidade de escapar desse meio pan\u00f3ptico, o trabalhador passa para a fase da autoagress\u00e3o, quando a agressividade se transforma em culpa e a frustra\u00e7\u00e3o alimenta a disciplina, que \u00e9 a base do comportamento condicionado.<\/p>\n<p>Logo, para Christophe Dejours: \u201cDe maneira que a \u00fanica sa\u00edda para a agressividade, ali\u00e1s, bem restrita, \u00e9 trabalhar mais depressa. Eis a\u00ed um fato extraordin\u00e1rio, que conduz a fazer aumentar a produtividade\u2026\u201d. (Ibidem, 134)<\/p>\n<p>Isto posto, se por um lado Dejours entende que a ang\u00fastia serve como correia de transmiss\u00e3o da repress\u00e3o, de outro a irrita\u00e7\u00e3o e a tens\u00e3o nervosa \u00e9 capaz de promover um aumento da produ\u00e7\u00e3o. Da\u00ed que ele entende que, para trabalhos repetitivos como o da telefonista: \u201co sofrimento ps\u00edquico, longe de ser um epifen\u00f4meno, \u00e9 o pr\u00f3prio instrumento para a produ\u00e7\u00e3o do trabalho\u201d. (ibidem, p. 134).<\/p>\n<p>Nesse ponto, seu estudo deixa bem claro que a organiza\u00e7\u00e3o do trabalho explora n\u00e3o o sofrimento em si mesmo, mas principalmente os mecanismos de defesa utilizados contra esse sofrimento. Os relatos das telefonistas sobre o trabalho \u201crobotizante\u201d, fragmentado, repetitivo que a organiza\u00e7\u00e3o do trabalho proporciona as trabalhadoras resulta na expuls\u00e3o do desejo pr\u00f3prio de cada uma. Pois \u00e9, precisamente, a frustra\u00e7\u00e3o e a agressividade da jornada laboral sofrida e tensionada que vai propiciar o aumento do ritmo de trabalho.<\/p>\n<p>Ademais, o sofrimento ps\u00edquico na organiza\u00e7\u00e3o de trabalho \u00e9 pouco reconhecido pelo pr\u00f3prio sujeito. As estrat\u00e9gias de defesa atuam para mitigar tal sofrimento, fazendo com que cada trabalhador\/a administre seu sofrimento de acordo com as condi\u00e7\u00f5es objetivas que cada um disp\u00f5e, como uma esp\u00e9cie de \u201cv\u00e1lvula de escape\u201d, podendo ocasionar com o tempo casos de depress\u00e3o, neurose e psicose.<\/p>\n<p>Por tudo isso, Christophe Dejours entende que a organiza\u00e7\u00e3o de trabalho \u201crobotizado\u201d, perigosa, fragmentada como tem sido a t\u00f4nica desde o auge do capitalismo pode acarretar na perda de esperan\u00e7a e de sonhos por parte da classe trabalhadora. Assim, pode ocorrer o que ele chama de bloqueio na rela\u00e7\u00e3o entre o homem e o trabalho. Esse bloqueio patog\u00eanico, para ele, est\u00e1 relacionado ao modo predat\u00f3rio que o trabalho atinge as necessidades da estrutura mental do trabalhador.<\/p>\n<p><strong>Bibliografia<\/strong><\/p>\n<p>ANTUNES, Ricardo; PRAUN, Luci. A sociedade dos adoecimentos no trabalho.\u00a0<em>Revista de Servi\u00e7o Social<\/em>. S\u00e3o Paulo, N<sup>o<\/sup>. 123, p\u00e1gs. 407-427, 2015.<\/p>\n<p>CASTEL, Robert.\u00a0<em>As metamorfoses da quest\u00e3o social \u2013 Uma cr\u00f4nica do sal\u00e1rio<\/em>. Petr\u00f3polis. Editora Vozes. 1995.<\/p>\n<p>DELGADO, Maur\u00edcio Godinho.\u00a0<em>Capitalismo, Trabalho e Emprego<\/em>. S\u00e3o Paulo. Editora LTr. 2017.<\/p>\n<p>POLANYI, Karl.\u00a0<em>A grande transforma\u00e7\u00e3o: as origens da nossa \u00e9poca<\/em>. Rio de Janeiro. Editora Elsevier. 2000.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-loucura-do-trabalho%2F#_ednref1\" name=\"_edn1\">[i]<\/a>\u00a0Dejours entende \u201crela\u00e7\u00e3o de trabalho\u201d como todos os la\u00e7os humanos criados pela organiza\u00e7\u00e3o do trabalho: rela\u00e7\u00f5es com a hierarquia, com as chefias, com a supervis\u00e3o com os outros trabalhadores \u2013 e que s\u00e3o \u00e0s vezes desagrad\u00e1veis ou mesmo insuport\u00e1veis. (2017, p\u00e1g. 96)<\/p>\n<p><a href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-loucura-do-trabalho%2F#_ednref2\" name=\"_edn2\">[ii]<\/a> Fase p\u00f3s-guerras \u2013 de 1946 ao in\u00edcio dos anos 1970 \u2013 que engloba a tr\u00eas d\u00e9cadas de esplendor do Estado de Bem-Estar Social na Europa, especialmente, mas tamb\u00e9m de reconstru\u00e7\u00e3o global do mundo solapado por duas guerras mundiais.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: A loucura do trabalho &#8211; A TERRA \u00c9 REDONDA &#8211; https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-loucura-do-trabalho\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ANDR\u00c9 M\u00c1RCIO NEVES SOARES* &#8211;\u00a0Coment\u00e1rio sobre o livro de Christophe Dejours A psicopatologia do trabalho, t\u00e3o bem apresentada por Christophe Dejours, apesar de n\u00e3o ser nova, tem sido muito escanteada pelos pesquisadores da atualidade hist\u00f3rica. N\u00e3o \u00e9 para menos. 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