{"id":18659,"date":"2022-12-24T12:06:40","date_gmt":"2022-12-24T15:06:40","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18659"},"modified":"2023-08-25T15:43:41","modified_gmt":"2023-08-25T18:43:41","slug":"a-teoria-da-sacola-aplicada-a-ficcao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/12\/24\/a-teoria-da-sacola-aplicada-a-ficcao\/","title":{"rendered":"A Teoria da Sacola Aplicada \u00e0 Fic\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div id=\"__reading__mode__header__container\" class=\"header_container\">\n<div id=\"header_content_id\" class=\"header_content\">\n<p id=\"mainContentTitle\" class=\"__reading__mode__extracted__title c0011\"><strong>Ursula K. Le Guin <\/strong><em class=\"jf\" style=\"font-size: 16px;\">&#8211; <\/em>Nas regi\u00f5es temperadas e tropicais onde os homin\u00eddeos aparentemente evolu\u00edram para se tornarem seres humanos, o principal alimento da esp\u00e9cie era de origem vegetal. Sessenta e cinco a oitenta por cento do que os seres humanos comiam nessas regi\u00f5es, durante os per\u00edodos Paleol\u00edtico, Neol\u00edtico e pr\u00e9-hist\u00f3rico, era coletado; apenas no extremo \u00c1rtico a carne era o alimento de base. Os ca\u00e7adores de mamutes ocupam de maneira espetacular as paredes da caverna e as mentes, mas o que realmente faz\u00edamos para nos mantermos vivos e gordos era coletar sementes, ra\u00edzes, brotos, rebentos, folhas, nozes, frutinhas e gr\u00e3os, acrescentando insetos e moluscos e capturando com redes ou armadilhas p\u00e1ssaros, peixes, ratos, coelhos e outros pequenos seres inofensivos como suplemento proteico. E sequer nos esfor\u00e7\u00e1vamos muito para isso \u2014 era um trabalho muito mais leve que plebeus trabalhando como escravos no campo de outra pessoa depois da inven\u00e7\u00e3o da agricultura, muito mais leve que trabalhadores remunerados desde que a civiliza\u00e7\u00e3o foi inventada. A pessoa pr\u00e9-hist\u00f3rica m\u00e9dia conseguia ter uma vida boa trabalhando cerca de quinze horas por semana.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"__reading__mode__mainbody__id\" class=\"__reading__mode__mainbody\">\n<div id=\"mainContainer\" class=\"__reading__mode__extracted__article__body\">\n<div class=\"hd he hf hg hh\">\n<p id=\"34fa\" class=\"pw-post-body-paragraph ih ii hk ij b ik il im in io ip iq ir is it iu iv iw ix iy iz ja jb jc jd je hd dt\">Quinze horas por semana para subsist\u00eancia deixa bastante tempo livre para outras coisas. Tanto tempo que talvez aqueles mais inquietos, que n\u00e3o tinham um beb\u00ea por perto para vivificar suas vidas, ou habilidades para confeccionar coisas ou para cozinhar ou cantar, ou pensamentos muito interessantes para pensar, tenham decidido sair e se aventurar na ca\u00e7a aos mamutes. Os ca\u00e7adores habilidosos da \u00e9poca voltavam cambaleando com um monte de carne, um monte de marfim e uma hist\u00f3ria. N\u00e3o era a carne que fazia a diferen\u00e7a. Era a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p id=\"8519\" class=\"pw-post-body-paragraph ih ii hk ij b ik il im in io ip iq ir is it iu iv iw ix iy iz ja jb jc jd je hd dt\">\u00c9 dif\u00edcil contar uma hist\u00f3ria realmente envolvente sobre como eu lutei para arrancar uma semente de aveia selvagem da sua casca, e depois outra e outra e a\u00ed ent\u00e3o cocei minhas mordidas de mosquito e Ool falou uma coisa engra\u00e7ada e n\u00f3s fomos at\u00e9 o c\u00f3rrego e bebemos e ficamos olhando as salamandras por algum tempo e depois disso eu encontrei outro canto onde cresciam aveias\u2026 N\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 compara\u00e7\u00e3o, isso n\u00e3o pode competir com como eu cravo minha lan\u00e7a nas profundezas do tit\u00e2nico flanco peludo enquanto Oob, empalado na presa imensa que o atingiu, se contorcia e gritava e o sangue espirrava por toda a parte em torrentes rubras, e Boob foi esmagado at\u00e9 virar geleia quando o mamute caiu sobre ele depois que eu lancei minha flecha certeira diretamente atrav\u00e9s do olho, atingindo o c\u00e9rebro.<\/p>\n<p id=\"3f16\" class=\"pw-post-body-paragraph ih ii hk ij b ik il im in io ip iq ir is it iu iv iw ix iy iz ja jb jc jd je hd dt\">Essa hist\u00f3ria tem mais que A\u00e7\u00e3o, ela tem um Her\u00f3i. Her\u00f3is s\u00e3o poderosos. Antes que voc\u00ea perceba, os homens e mulheres colhendo aveia e seus filhos e as habilidades dos artes\u00e3os e os pensamentos dos pensantes e as can\u00e7\u00f5es dos cantores j\u00e1 s\u00e3o todos parte disso, est\u00e3o todos prestando servi\u00e7os \u00e0 hist\u00f3ria do Her\u00f3i. Mas a hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 deles. \u00c9 do Her\u00f3i.<\/p>\n<p id=\"764a\" class=\"pw-post-body-paragraph ih ii hk ij b ik il im in io ip iq ir is it iu iv iw ix iy iz ja jb jc jd je hd dt\">Quando estava planejando o livro que acabou se tornando\u00a0<em class=\"jf\">Three Guineas<\/em>, Virginia Woolf escreveu uma entrada em seu caderno, \u201cGloss\u00e1rio\u201d; ela pensara em reinventar a l\u00edngua inglesa de acordo com um novo plano, para poder contar uma hist\u00f3ria diferente. Um dos itens que aparece nesse gloss\u00e1rio \u00e9 hero\u00edsmo, definido como \u201cbotulismo\u201d. E her\u00f3i, no dicion\u00e1rio de Woolf, \u00e9 \u201cgarrafa\u201d. O her\u00f3i como garrafa, uma reavalia\u00e7\u00e3o severa. Eu agora proponho a garrafa como hero\u00edna.<\/p>\n<p id=\"9277\" class=\"pw-post-body-paragraph ih ii hk ij b ik il im in io ip iq ir is it iu iv iw ix iy iz ja jb jc jd je hd dt\">N\u00e3o apenas uma garrafa de gin ou de vinho, mas a garrafa em seu sentido mais antigo, de recipiente em geral, uma coisa que cont\u00e9m outra coisa.<\/p>\n<p id=\"73e4\" class=\"pw-post-body-paragraph ih ii hk ij b ik il im in io ip iq ir is it iu iv iw ix iy iz ja jb jc jd je hd dt\">Se voc\u00ea n\u00e3o tiver algo para guard\u00e1-lo, o alimento escapar\u00e1 de voc\u00ea \u2014 at\u00e9 mesmo algo t\u00e3o pouco combativo e sem recursos quanto uma aveia. Voc\u00ea consegue armazenar quantas conseguir no seu est\u00f4mago enquanto estiverem \u00e0 m\u00e3o, sendo esse o recipiente prim\u00e1rio; mas e amanh\u00e3 de manh\u00e3 quando voc\u00ea acordar e estiver frio e chovendo e n\u00e3o seria bom ter apenas alguns punhados de aveias para mastigar e dar para a pequena Oom para faz\u00ea-la calar a boca, mas como carregar mais que um est\u00f4mago cheio e um punhado at\u00e9 em casa? Ent\u00e3o voc\u00ea levanta e vai at\u00e9 o maldito canteiro de aveias encharcadas na chuva, e n\u00e3o seria bom ter algo para guardar o Beb\u00ea Oo Oo para poder usar as duas m\u00e3os para colher aveias? Uma folha uma caba\u00e7a uma rede uma tipoia um saco uma garrafa uma caixa um contentor. Um suporte. Um recipiente.<\/p>\n<blockquote>\n<p id=\"bcb4\" class=\"js jt hk bd ju jv jw jx jy jz ka kb kc kd ke kf kg kh ki kj kk kl km kn ko kp dt\">O primeiro dispositivo cultural foi provavelmente um recipiente\u2026 Muitos te\u00f3ricos sentem que as inven\u00e7\u00f5es culturais mais antigas devem ter sido um recipiente para guardar produtos coletados e algum tipo de tipoia ou rede para carregar beb\u00eas.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p id=\"006b\" class=\"pw-post-body-paragraph ih ii hk ij b ik kq im in io kr iq ir is ks iu iv iw kt iy iz ja ku jc jd je hd dt\">\u00c9 o que diz Elizabeth Fisher em\u00a0<em class=\"jf\">Women\u2019s Creation\u00a0<\/em>(McGraw-Hill, 1975). Mas n\u00e3o, n\u00e3o pode ser. Tem aquela coisa maravilhosa, grande, longa e dura, um osso, acho eu, que o Homem Macaco usou pela primeira vez para bater em algu\u00e9m no filme e depois, grunhindo em \u00eaxtase por ter realizado o primeiro assassinato propriamente dito, arremessou no c\u00e9u, e rodopiando nas alturas ele tornou-se uma nave espacial, estocando seu caminho atrav\u00e9s do cosmos para fertiliz\u00e1-lo e produzir no fim do filme um ador\u00e1vel feto, um menino \u00e9 claro, vagando \u00e0 deriva pela Via L\u00e1ctea sem (curiosamente) qualquer \u00fatero, qualquer matriz? Eu n\u00e3o sei. Nem sequer me importo. N\u00e3o estou contando essa hist\u00f3ria. N\u00f3s j\u00e1 a ouvimos, todas n\u00f3s j\u00e1 ouvimos sobre os porretes e as lan\u00e7as e as espadas, as coisas usadas para espancar e perfurar e bater, as coisas longas e duras, mas n\u00e3o ouvimos sobre a coisa dentro da qual se guardam coisas, o recept\u00e1culo para a coisa que \u00e9 recebida. Essa \u00e9 uma hist\u00f3ria nova. Essa \u00e9 novidade.<\/p>\n<p id=\"9edd\" class=\"pw-post-body-paragraph ih ii hk ij b ik il im in io ip iq ir is it iu iv iw ix iy iz ja jb jc jd je hd dt\">E no entanto \u00e9 antiga. Antes \u2014 quando voc\u00ea p\u00e1ra para pensar, certamente antes da arma, uma ferramenta posterior, luxuosa e sup\u00e9rflua; muito antes dos \u00fateis faca e machado; juntamente com os indispens\u00e1veis esmagador, triturador e cavador \u2014 afinal de que serve desencavar um monte de batatas se voc\u00ea n\u00e3o tem nada para arrastar at\u00e9 em casa aquelas que n\u00e3o conseguiu comer \u2014 juntamente ou antes da ferramenta que for\u00e7a a energia para fora, criamos a ferramenta que traz a energia para casa. Para mim faz sentido. Eu sou adepta do que Fisher chama de Teoria da Sacola aplicada \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p class=\"pw-post-body-paragraph ih ii hk ij b ik il im in io ip iq ir is it iu iv iw ix iy iz ja jb jc jd je hd dt\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"bf jq jr dj\" role=\"presentation\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/miro.medium.com\/max\/700\/1%2Akqwk3zZNB6mP6bv8Dw0ZEQ.jpeg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p id=\"10db\" class=\"pw-post-body-paragraph ih ii hk ij b ik il im in io ip iq ir is it iu iv iw ix iy iz ja jb jc jd je hd dt\">Essa teoria n\u00e3o apenas explica grandes \u00e1reas de obscuridade te\u00f3rica e evita grandes \u00e1reas de baboseira te\u00f3rica (habitadas em grande parte por tigres, raposas e outros mam\u00edferos altamente territoriais); ela tamb\u00e9m me conecta \u00e0 cultura humana de uma maneira como eu jamais me sentira conectada antes. Enquanto a cultura era explicada como algo originado e elaborado a partir do uso de objetos longos e duros para espetar, espancar e matar, eu nunca achei que eu tinha, ou queria, ter algo a ver com ela. (\u201cO que Freud erroneamente interpretou como a falta de civiliza\u00e7\u00e3o na mulher era sua falta de lealdade \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o,\u201d observou Lillian Smith.) A sociedade, a civiliza\u00e7\u00e3o sobre a qual falavam esses te\u00f3ricos, pertencia evidentemente a eles; eles eram seus donos, eles gostavam dela; eles eram humanos, plenamente humanos, espancando, espetando, estocando, matando. Querendo ser humana tamb\u00e9m, eu busquei evid\u00eancias de s\u00ea-lo; mas era preciso confeccionar uma arma e us\u00e1-la para matar, ent\u00e3o evidentemente eu era um ser humano extremamente defeituoso ou sequer era humana.<\/p>\n<blockquote>\n<p id=\"66e8\" class=\"js jt hk bd ju jv jw jx jy jz ka kb kc kd ke kf kg kh ki kj kk kl km kn ko kp dt\">Exatamente, eles disseram. Voc\u00ea \u00e9 mulher, \u00e9 isso que voc\u00ea \u00e9. Possivelmente sequer humana, certamente defeituosa. Agora fique quietinha enquanto n\u00f3s continuamos contando a Hist\u00f3ria da Ascens\u00e3o do Homem Her\u00f3i.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p id=\"b82c\" class=\"pw-post-body-paragraph ih ii hk ij b ik kq im in io kr iq ir is ks iu iv iw kt iy iz ja ku jc jd je hd dt\">Podem continuar, digo eu, e vou saindo em dire\u00e7\u00e3o ao canteiro de aveias selvagens, com Oo Oo na tipoia e a pequena Oom carregando o cesto. Podem continuar contando como o mamute caiu em cima de Boob e como Caim caiu sobre Abel e como a bomba caiu sobre Nagasaki e como a geleia que queima caiu sobre os alde\u00f5es e como os m\u00edsseis cair\u00e3o sobre o Imp\u00e9rio do Mal e todas as outras etapas na Ascens\u00e3o do Homem.<\/p>\n<p id=\"a443\" class=\"pw-post-body-paragraph ih ii hk ij b ik il im in io ip iq ir is it iu iv iw ix iy iz ja jb jc jd je hd dt\">Se \u00e9 uma coisa humana a fazer guardar algo que voc\u00ea quer \u2014 porque \u00e9 \u00fatil, comest\u00edvel ou belo \u2014 dentro de uma sacola ou de um cesto ou de uma rede tecida com seu pr\u00f3prio cabelo, ou do que quer que seja, e depois levar essa coisa para casa com voc\u00ea, a casa sendo outro tipo de bolsa ou sacola, um recipiente para pessoas, e mais tarde voc\u00ea pega essa coisa e come ou compartilha ou armazena para o inverno em um recipiente mais s\u00f3lido ou coloca na sacola de talism\u00e3s ou no relic\u00e1rio ou no museu, o lugar sagrado, a \u00e1rea que cont\u00e9m aquilo que \u00e9 sagrado, e ent\u00e3o no dia seguinte voc\u00ea provavelmente faz mais ou menos a mesma coisa outra vez \u2014 se fazer isso \u00e9 humano, se esse \u00e9 o pr\u00e9-requisito, ent\u00e3o eu sou um ser humano no fim das contas. Plenamente, livremente, alegremente, pela primeira vez.<\/p>\n<p id=\"58df\" class=\"pw-post-body-paragraph ih ii hk ij b ik il im in io ip iq ir is it iu iv iw ix iy iz ja jb jc jd je hd dt\">N\u00e3o um ser humano pac\u00edfico ou incombativo, devo dizer. Sou uma mulher brava que est\u00e1 envelhecendo, desfiro golpes magn\u00edficos com minha bolsa para afastar os vagabundos. No entanto, nem eu nem ningu\u00e9m me consideraria her\u00f3ica por faz\u00ea-lo. \u00c9 apenas uma daquelas coisas infernais que voc\u00ea tem que fazer para poder seguir coletando aveias selvagens e contando hist\u00f3rias.<\/p>\n<p id=\"c4c7\" class=\"pw-post-body-paragraph ih ii hk ij b ik il im in io ip iq ir is it iu iv iw ix iy iz ja jb jc jd je hd dt\">\u00c9 a hist\u00f3ria que faz a diferen\u00e7a. A hist\u00f3ria \u00e9 o que escondeu de mim minha humanidade, a hist\u00f3ria que os ca\u00e7adores de mamute contaram sobre espancar, estocar, estuprar, matar, sobre o Her\u00f3i. A maravilhosa e venenosa hist\u00f3ria do Botulismo. A hist\u00f3ria assassina.<\/p>\n<p id=\"8277\" class=\"pw-post-body-paragraph ih ii hk ij b ik il im in io ip iq ir is it iu iv iw ix iy iz ja jb jc jd je hd dt\">\u00c0s vezes parece que essa hist\u00f3ria est\u00e1 pr\u00f3xima de chegar ao fim. Para evitar que a conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias acabe, algumas de n\u00f3s aqui no meio das aveias selvagens, em meio ao alheio trigo, achamos que \u00e9 hora de come\u00e7armos a contar uma outra, que talvez as pessoas possam seguir contando quando a velha hist\u00f3ria acabar. Talvez. O problema \u00e9 que todas n\u00f3s nos deixamos tornar parte da hist\u00f3ria assassina, e assim talvez acabemos junto com ela. Por isso, \u00e9 com um certo sentimento de urg\u00eancia que busco a natureza, o tema, as palavras da outra hist\u00f3ria, a hist\u00f3ria n\u00e3o-contada, a hist\u00f3ria da vida.<\/p>\n<p class=\"pw-post-body-paragraph ih ii hk ij b ik il im in io ip iq ir is it iu iv iw ix iy iz ja jb jc jd je hd dt\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"bf jq jr dj\" role=\"presentation\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/miro.medium.com\/max\/700\/1%2Aaox4WgU-mhtkSzAfNQEj2Q.jpeg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p id=\"b0cd\" class=\"pw-post-body-paragraph ih ii hk ij b ik il im in io ip iq ir is it iu iv iw ix iy iz ja jb jc jd je hd dt\">Ela \u00e9 pouco familiar, n\u00e3o vem facilmente e distraidamente aos l\u00e1bios como a hist\u00f3ria assassina; mas ainda assim, \u201cn\u00e3o contada\u201d foi um exagero. As pessoas v\u00eam contando a hist\u00f3ria da vida h\u00e1 muito tempo, com todos os tipos de palavras e de modos. Mitos de cria\u00e7\u00e3o e de transforma\u00e7\u00e3o, hist\u00f3rias de\u00a0<em class=\"jf\">tricksters<\/em>, contos folcl\u00f3ricos, piadas, romances\u2026<\/p>\n<p id=\"c772\" class=\"pw-post-body-paragraph ih ii hk ij b ik il im in io ip iq ir is it iu iv iw ix iy iz ja jb jc jd je hd dt\">O romance \u00e9 um tipo de hist\u00f3ria fundamentalmente n\u00e3o-her\u00f3ica. \u00c9 claro que o Her\u00f3i muitas vezes a tomou de assalto, sendo essa sua natureza imperial e impulso incontrol\u00e1vel, tomar tudo de assalto e dirigir, emitindo implac\u00e1veis decretos e leis para controlar seu incontrol\u00e1vel impulso de matar. Ent\u00e3o o Her\u00f3i decretou atrav\u00e9s de seus porta-vozes e Legisladores, primeiramente, que a forma adequada da narrativa \u00e9 a de uma flecha ou lan\u00e7a, come\u00e7ando aqui e indo diretamente para l\u00e1 e TONK! atingindo seu alvo (que cai morto); segundamente, que a preocupa\u00e7\u00e3o central da narrativa, incluso a\u00ed o romance, \u00e9 o conflito; e em terceiro lugar, que a hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 boa se ele n\u00e3o for parte dela.<\/p>\n<p id=\"4963\" class=\"pw-post-body-paragraph ih ii hk ij b ik il im in io ip iq ir is it iu iv iw ix iy iz ja jb jc jd je hd dt\">Eu discordo de tudo isso. Eu ousaria dizer que o formato natural, pr\u00f3prio, adequado do romance pode ser o de um saco, uma sacola. Um livro guarda palavras. Palavras guardam coisas. Elas cont\u00e9m significados. Um romance \u00e9 uma sacola de talism\u00e3s, que guarda itens em uma espec\u00edfica e poderosa rela\u00e7\u00e3o uns entre os outros e em rela\u00e7\u00e3o a n\u00f3s.<\/p>\n<p id=\"d839\" class=\"pw-post-body-paragraph ih ii hk ij b ik il im in io ip iq ir is it iu iv iw ix iy iz ja jb jc jd je hd dt\">Uma rela\u00e7\u00e3o poss\u00edvel entre elementos dentro de um romance pode perfeitamente ser o conflito, mas a redu\u00e7\u00e3o da narrativa a conflito \u00e9 absurda. (Eu j\u00e1 li um daqueles manuais de como escrever que dizia: \u201cuma hist\u00f3ria deveria ser vista como um guerreiro\u201d e discorria sobre estrat\u00e9gias, ataque, vit\u00f3ria, etc.). Conflito, competi\u00e7\u00e3o, tens\u00e3o, luta, etc. dentro de uma narrativa concebida como sacola\/barriga\/caixa\/casa\/saco de talism\u00e3s, podem ser vistos como elementos necess\u00e1rios de um todo que, em si mesmo, n\u00e3o pode ser caracterizado simplesmente como conflito ou como harmonia, uma vez que seu prop\u00f3sito n\u00e3o \u00e9 a resolu\u00e7\u00e3o e tampouco a estase mas sim um processo cont\u00ednuo.<\/p>\n<p id=\"edcf\" class=\"pw-post-body-paragraph ih ii hk ij b ik il im in io ip iq ir is it iu iv iw ix iy iz ja jb jc jd je hd dt\">Por fim, est\u00e1 claro que o Her\u00f3i n\u00e3o fica bem nessa sacola. Ele precisa de um palco ou de um pedestal ou de um cume. Voc\u00ea o coloca dentro de uma sacola e ele fica parecendo um coelho, uma batata.<\/p>\n<p id=\"9e74\" class=\"pw-post-body-paragraph ih ii hk ij b ik il im in io ip iq ir is it iu iv iw ix iy iz ja jb jc jd je hd dt\">\u00c9 por isso que eu gosto de romances: ao inv\u00e9s de her\u00f3is, o romance tem pessoas. Ent\u00e3o, quando comecei a escrever romances de fic\u00e7\u00e3o-cient\u00edfica, eu cheguei arrastando um imenso e pesad\u00edssimo saco de coisas, minha sacola estava cheia de covardes e de desajeitados, de min\u00fasculos gr\u00e3os e de coisas menores que uma semente de mostarda, e de redes intrincadamente tecidas que, quando laboriosamente desenredadas revelam conter uma pedrinha azul, um cron\u00f4metro imperturbavelmente funcional que mostra a hora em outro mundo, e o cr\u00e2nio de um camundongo; minha sacola estava cheia de in\u00edcios sem fim e de inicia\u00e7\u00f5es, de perdas, de transforma\u00e7\u00f5es e tradu\u00e7\u00f5es, e de muito mais artimanhas que conflitos, de muito menos triunfos que armadilhas e desilus\u00f5es; cheia de naves espaciais que acabam emperradas, de miss\u00f5es que fracassam e de pessoas que n\u00e3o entendem. Eu falei que era dif\u00edcil contar uma hist\u00f3ria envolvente sobre como lutamos para arrancar as aveias selvagem de suas cascas, n\u00e3o falei que era imposs\u00edvel. Quem disse que escrever um romance era f\u00e1cil?<\/p>\n<p id=\"2907\" class=\"pw-post-body-paragraph ih ii hk ij b ik il im in io ip iq ir is it iu iv iw ix iy iz ja jb jc jd je hd dt\">Se a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u00e9 a mitologia da tecnologia moderna, ent\u00e3o seu mito \u00e9 tr\u00e1gico. A \u201ctecnologia\u201d ou \u201cci\u00eancia moderna\u201d (para usar as palavras como s\u00e3o usualmente empregadas, em uma estenografia impensada que se refere \u00e0s ci\u00eancias \u201cduras\u201d e \u00e0 alta tecnologia baseada no crescimento econ\u00f4mico cont\u00ednuo) \u00e9 uma tarefa heroica, Herc\u00falea, Prometeusiana, concebida como um triunfo e, como tal, fundamentalmente como trag\u00e9dia. A fic\u00e7\u00e3o que incorpora esse mito ser\u00e1, e tem sido, triunfante (Homem conquista terra, espa\u00e7o, alien\u00edgenas, morte, futuro, etc.) e tr\u00e1gica (apocalipse, holocausto, em outro tempo ou agora).<\/p>\n<p id=\"1ba3\" class=\"pw-post-body-paragraph ih ii hk ij b ik il im in io ip iq ir is it iu iv iw ix iy iz ja jb jc jd je hd dt\">Se, no entanto, for poss\u00edvel evitar o modo linear, progressivo, Flecha-(assassina)-do-tempo do Tecno-Heroico e redefinir tecnologia e ci\u00eancia primordialmente como uma sacola cultural, e n\u00e3o como arma de domina\u00e7\u00e3o, um efeito colateral ben\u00e9fico \u00e9 o de que a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica pode ent\u00e3o ser vista como um campo muito menos r\u00edgido e limitado, n\u00e3o necessariamente Prometeusiano ou apocal\u00edptico em absoluto e, na verdade, um g\u00eanero muito menos mitol\u00f3gico do que realista.<\/p>\n<blockquote>\n<p id=\"89db\" class=\"js jt hk bd ju jv jw jx jy jz ka kb kc kd ke kf kg kh ki kj kk kl km kn ko kp dt\">\u00c9 um realismo estranho, mas a realidade \u00e9 estranha.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p id=\"23cf\" class=\"pw-post-body-paragraph ih ii hk ij b ik kq im in io kr iq ir is ks iu iv iw kt iy iz ja ku jc jd je hd dt\">Quando concebida de maneira adequada, a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, como toda fic\u00e7\u00e3o s\u00e9ria, por mais engra\u00e7ada que seja, \u00e9 uma maneira de tentar descrever aquilo que est\u00e1 de fato acontecendo, o que as pessoas realmente fazem e sentem, como as pessoas se relacionam com tudo mais nesse imenso saco, essa barriga do universo, esse \u00fatero das coisas que ser\u00e3o e t\u00famulo das coisas que j\u00e1 foram, essa hist\u00f3ria intermin\u00e1vel. Na fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, como em toda a fic\u00e7\u00e3o, h\u00e1 espa\u00e7o suficiente inclusive para manter o Homem em seu lugar de direito, em seu lugar no esquema das coisas; h\u00e1 tempo suficiente para coletar muita aveias selvagens e para seme\u00e1-las tamb\u00e9m, e para cantar para a pequena Oom e para ouvir a piada de Ool, e para ficar olhando as salamandras e ainda assim a hist\u00f3ria n\u00e3o acaba. Ainda h\u00e1 sementes para coletar e espa\u00e7o no saco de estrelas.<\/p>\n<p class=\"pw-post-body-paragraph ih ii hk ij b ik kq im in io kr iq ir is ks iu iv iw kt iy iz ja ku jc jd je hd dt\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"bf jq jr dj\" role=\"presentation\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/miro.medium.com\/max\/700\/1%2As4B99MxBPeDnRiqEGva2IA.jpeg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p id=\"efe7\" class=\"pw-post-body-paragraph ih ii hk ij b ik il im in io ip iq ir is it iu iv iw ix iy iz ja jb jc jd je hd dt\"><em class=\"jf\">(As imagens que ilustram este mostram pinturas rupestres na gruta de Chauvet, na Fran\u00e7a)<\/p>\n<p><\/em>Tradu\u00e7\u00e3o: <strong>Mariana Bandarra<\/strong><\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: A Teoria da Sacola Aplicada \u00e0 Fic\u00e7\u00e3o | Medium &#8211; https:\/\/bandarra.medium.com\/a-teoria-da-sacola-aplicada-%C3%A0-fic%C3%A7%C3%A3o-a4a7dd5866e<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ursula K. 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