{"id":18652,"date":"2022-12-21T12:58:50","date_gmt":"2022-12-21T15:58:50","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18652"},"modified":"2022-12-18T17:02:29","modified_gmt":"2022-12-18T20:02:29","slug":"o-brasil-e-lula-num-mundo-em-transe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/12\/21\/o-brasil-e-lula-num-mundo-em-transe\/","title":{"rendered":"O Brasil e Lula num mundo em transe"},"content":{"rendered":"<p><strong>Alberto Cantalice e Pedro Camar\u00e3o<\/strong> &#8211; Ordem global vive transi\u00e7\u00e3o turbulenta, ainda sem sa\u00edda \u00e0 vista. Pela primeira vez em cinco s\u00e9culos, dom\u00ednio euroc\u00eantrico est\u00e1 amea\u00e7ado. Mas s\u00f3 Am\u00e9rica Latina gira \u00e0 esquerda. Novo governo brasileiro pode expressar esperan\u00e7a global.<\/p>\n<p>Luiz In\u00e1cio Lula da Silva vai assumir a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica em 1\u00ba de janeiro de 2023. O n\u00edvel de cobran\u00e7a por diferentes setores do mercado financeiro e os seus representantes na grande m\u00eddia \u00e9 enorme. O desejo de pressionar o presidente eleito \u00e9 t\u00e3o grande que os editorialistas e muitos dos comentaristas e colunistas de economia ignoram a linha do tempo. Fazem quest\u00e3o de esquecer que houve um golpe de Estado no Brasil e que o teto de gastos \u00e9 uma regra fiscal que n\u00e3o deu certo, algo j\u00e1 reconhecido por diferentes for\u00e7as pol\u00edticas e tamb\u00e9m pelas diferentes linhas de pensamento econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>A tentativa de pressionar Lula gerou rea\u00e7\u00f5es cr\u00edticas ao mercado, j\u00e1 que durante o governo Bolsonaro ela pouco ocorreu, mesmo com todo o desequil\u00edbrio e desrespeito \u00e0s institui\u00e7\u00f5es pelo governo que est\u00e1 chegando ao fim. \u00c9 evidente que os setores que declaram apoio a Lula no segundo turno est\u00e3o cobrando espa\u00e7o j\u00e1 que ajudaram na vit\u00f3ria sobre Jair Bolsonaro. Lula teve 3 milh\u00f5es de votos a mais que o presidente na segunda volta.<\/p>\n<p>O debate entre desenvolvimentismo e equil\u00edbrio fiscal \u00e9 muito mais antigo do que a pol\u00edtica brasileira, segundo Jos\u00e9 Lu\u00eds Fiori, professor titular de economia pol\u00edtica internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ele afirma que a briga n\u00e3o ter\u00e1 fim e que qualquer decis\u00e3o sobre o tema ser\u00e1 fundamentalmente pol\u00edtica e tomada pelo presidente eleito.<\/p>\n<p>O professor diz que o debate est\u00e1 longe de ser o mais importante neste momento. \u201cA volta de Lula \u00e9 muito importante para a reorganiza\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina, bem como da geopol\u00edtica global e, claro, para o desenvolvimento do Brasil que passar\u00e1 por um momento extremamente importante devido \u00e0 reorganiza\u00e7\u00e3o da ordem mundial\u201d. Leia os principais trechos da entrevista:<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea enxerga o papel do Brasil sob o novo governo Lula na geopol\u00edtica internacional?<\/strong><\/p>\n<p>Existem dois consensos internacionais, neste momento. O primeiro \u00e9 que o mundo est\u00e1 atravessando uma transi\u00e7\u00e3o extremamente tensa e turbulenta, e que dever\u00e1 durar\u00a0 pelo menos durante toda a primeira metade do s\u00e9culo 21. \u00c9 o fim da ordem internacional do p\u00f3s-Guerra Fria, a ascens\u00e3o da \u00c1sia ao centro do tabuleiro econ\u00f4mico e geopol\u00edtico mundial, paralela ao decl\u00ednio da hegemonia \u00e9tica e cultural do mundo euroc\u00eantrico, dentro do sistema internacional, e ao questionamento cada vez mais ostensivo do poder militar global dos \u201cpovos de l\u00edngua inglesa\u201d.<\/p>\n<p>O segundo, \u00e9 que o mundo ocidental carece neste momento de governantes com a lideran\u00e7a indispens\u00e1vel para atravessar esta zona de turbul\u00eancia. Ainda \u00e9 imposs\u00edvel prever se esta transi\u00e7\u00e3o se dar\u00e1 atrav\u00e9s de uma reforma e negocia\u00e7\u00e3o prolongada, ou se envolver\u00e1 uma nova guerra hegem\u00f4nica. Certamente ser\u00e3o tempos muito dif\u00edceis.<\/p>\n<p>Neste contexto, o retorno de Lula ao governo e ao cen\u00e1rio internacional \u00e9 um alento n\u00e3o apenas para a Am\u00e9rica Latina, mas para todo o mundo. Isso por sua experi\u00eancia acumulada, pelo seu carisma, e pela sua enorme vis\u00e3o e capacidade estrat\u00e9gica. Algo que fica muito em destaque depois dos quatro anos em que o Brasil foi alijado das grandes negocia\u00e7\u00f5es internacionais, conduzido por um pobre coitado incapaz, mentalmente, de formular um pensamento completo ou mesmo frase com in\u00edcio, meio e fim, com sujeito, verbo e predicado, sem dizer palavr\u00f5es, sem agredir algu\u00e9m, ou sem extravasar seu esc\u00e1rnio permanente pela condi\u00e7\u00e3o humana, e em particular pela condi\u00e7\u00e3o sub-humana dos \u201ccondenados da terra\u201d, do seu pa\u00eds e do mundo.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de Lula dentro do sistema internacional vai muito al\u00e9m de tudo isto, mas n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que sua figura cresce frente ao mundo por haver conseguido derrotar uma coaliz\u00e3o de for\u00e7as de extrema-direita, encastelada dentro do Estado e das For\u00e7as Armadas, e usando todos os instrumentos do poder e do dinheiro conseguidos com o controle do governo. Mas, al\u00e9m disso, a vit\u00f3ria de Lula culminou de certa forma um conjunto de vit\u00f3rias das for\u00e7as de progressistas e de esquerda nos principais pa\u00edses do continente, permitindo pensar na possibilidade da forma\u00e7\u00e3o de um bloco regional de poder que ampliar\u00e1 em muito o volume da voz e da presen\u00e7a brasileira dentro do cen\u00e1rio internacional.\u00a0 A partir da\u00ed, o mais prov\u00e1vel \u00e9 que o Brasil, com o governo de Lula, possa retomar sua posi\u00e7\u00e3o, mesmo entre as grandes pot\u00eancias do sistema, como uma nova grande pot\u00eancia pacificadora, sem nenhum passado b\u00e9lico ou belicista.<\/p>\n<p><strong>Qual a contribui\u00e7\u00e3o para multipolaridade? For\u00e7ar a m\u00e3o para ampliar o Conselho de Seguran\u00e7a das ONU?<\/strong><\/p>\n<p>O alinhamento natural do Brasil ao lado do bloco latino-americano, mas ao mesmo tempo dentro do BRICS, e junto \u00e0 comunidade das na\u00e7\u00f5es africanas, aponta para o refor\u00e7o da multipolaridade. Sem que seja necess\u00e1rio nenhum ataque direto aos Estados Unidos, como pot\u00eancia dominante dentro do hemisf\u00e9rio ocidental, e tendo grande afinidade com a maior parte dos pa\u00edses do G-7 e da Uni\u00e3o Europeia, o Brasil poder\u00e1 ter um grande peso e dar uma contribui\u00e7\u00e3o decisiva para a defini\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o das normas e das institui\u00e7\u00f5es que dever\u00e3o reger a nova ordem internacional que haver\u00e1 de nascer dos conflitos que se multiplicam. O mundo vai se posicionando e sendo ordenado transitoriamente pelos conflitos centrais entre Estados Unidos e China, e entre a UE e a R\u00fassia. N\u00e3o \u00e9 improv\u00e1vel que a evolu\u00e7\u00e3o dos acontecimentos permita um consenso em torno da reformula\u00e7\u00e3o do Conselho de Seguran\u00e7a das Na\u00e7\u00f5es Unidas. Mas com certeza isso n\u00e3o deve ser um ponto central da agenda externa do Brasil, porque neste momento as pr\u00f3prias Na\u00e7\u00f5es Unidas e todas as suas inst\u00e2ncias est\u00e3o paralisadas e perderam capacidade decis\u00f3ria. Mais do que isto, perderam relev\u00e2ncia e protagonismo eficaz neste momento de desconfigura\u00e7\u00e3o da geopol\u00edtica internacional.<\/p>\n<p><strong>A disputa entre China e EUA pode acabar se tornando uma oportunidade de desenvolvimento para o Brasil, uma vez que estadunidenses e europeus n\u00e3o querem mais depender totalmente da ind\u00fastria chinesa?<\/strong><\/p>\n<p>Todas as grandes crises internacionais, envolvendo as grandes pot\u00eancias do sistema mundial, s\u00e3o oportunidades raras para os demais pa\u00edses com projetos nacionais e internacionais expansivos. Nestes momentos os pa\u00edses que alguns chamam de \u201csemi-perif\u00e9ricos\u201d logram abrir espa\u00e7os e avan\u00e7ar seus projetos de mudan\u00e7a e escalada dentro das hierarquias mundiais de poder e riqueza. Mas tamb\u00e9m podem ser momento em que outros tantos pa\u00edses naufragam e retroagem inapelavelmente, perdendo o \u201cbonde da hist\u00f3ria\u201d e caindo em estados de letargia econ\u00f4mica e destrui\u00e7\u00e3o social profundas e prolongadas. O que n\u00f3s estamos vivendo neste momento \u00e9 uma grande transforma\u00e7\u00e3o mundial que tem muito a ver, mas que n\u00e3o se restringe \u00e0 disputa e \u00e0 competi\u00e7\u00e3o entre os Estados Unidos e a China. A Guerra da Ucr\u00e2nia \u00e9, em \u00faltima inst\u00e2ncia, uma disputa pela hegemonia militar dentro da Europa, e j\u00e1 logrou acelerar o processo de desmonte da Uni\u00e3o Europeia t\u00e3o bem costurado pelas for\u00e7as conservadoras europeias depois do fim da Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p>S\u00e3o cada vez mais transparentes as disputas e conflitos entre Pol\u00f4nia e Alemanha, entre It\u00e1lia e Fran\u00e7a, e para que dizer, entre a pr\u00f3pria Uni\u00e3o Europeia e a Inglaterra.\u00a0 O decl\u00ednio e a agressividade inglesa s\u00e3o cada vez maiores, e o projeto econ\u00f4mico da unifica\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo minado pelas san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas americanas e europeias contra a R\u00fassia. Esta ser\u00e1 uma destrui\u00e7\u00e3o profunda e prolongada e vai afetar todo o chamado mundo ocidental e, portanto, tamb\u00e9m ao Brasil.<\/p>\n<p>Por outro lado, o mundo \u00e1rabe, e todo o Oriente M\u00e9dio est\u00e3o se descolando do G7 e aproximando-se cada vez mais do sistema de alian\u00e7as pol\u00edticas e econ\u00f4micas eurasianas. E \u00e9 vis\u00edvel o avan\u00e7o da extrema-direita dentro da Europa, na Hungria e Pol\u00f4nia, mas j\u00e1 agora tamb\u00e9m na Su\u00e9cia, na It\u00e1lia, e na pr\u00f3pria Fran\u00e7a, no espa\u00e7o aberto pelas antigas for\u00e7as conservadoras e pela pr\u00f3pria desidrata\u00e7\u00e3o quase completa da socialdemocracia europeia. E por cima de tudo isto o que se assiste \u00e9 a ascens\u00e3o cada vez mais n\u00edtida da import\u00e2ncia eurasiana e da lideran\u00e7a regional da China, que projeta seu poder econ\u00f4mico pelo mundo inteiro, j\u00e1 sendo a primeira e segunda maior parceira econ\u00f4mica de todos os pa\u00edses latino-americanos. Portanto, n\u00e3o h\u00e1 duvida que vivemos um momento de grande oportunidade para o Brasil, mas ao mesmo tempo deve-se ter presente que esta crise e transforma\u00e7\u00e3o mundial dever\u00e1 ter como consequ\u00eancia imediata uma desacelera\u00e7\u00e3o da economia mundial. Em 2023, a Europa deve entrar em recess\u00e3o ou estagnar. E o mesmo deve ocorrer nos EUA e a pr\u00f3pria China deve reduzir sua demanda global por mat\u00e9rias-primas. Portanto, n\u00e3o h\u00e1 milagres econ\u00f4micos \u00e0 vista, e a press\u00e3o distributiva dever\u00e1 se intensificar em cima de or\u00e7amentos apertados e restringidos pelas baixas taxas de crescimento das pr\u00f3prias economias latinas.<\/p>\n<p><strong>A Am\u00e9rica Latina tem no momento muitos pa\u00edses que est\u00e3o ou ser\u00e3o governados por grupos de esquerda, centro-esquerda e centro. Trata-se de uma oportunidade para o desenvolvimento da regi\u00e3o e tamb\u00e9m para criar mecanismos mais fortes de coopera\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Com certeza trata-se de uma oportunidade excepcional, mas n\u00e3o \u00fanica. Sem que exista uma explica\u00e7\u00e3o convincente, a hist\u00f3ria da Am\u00e9rica Latina se caracteriza por grandes movimentos conjuntos e sincr\u00f4nicos.\u00a0 Foi assim no s\u00e9culo 19, e acentuou-se no s\u00e9culo 20, depois das redemocratiza\u00e7\u00f5es do p\u00f3s-Segunda Guerra, e no momento das ditaduras militares dos anos 60 e 70. E o mesmo voltou a acontecer com as novas redemocratiza\u00e7\u00f5es dos anos 80, com a onda neoliberal dos anos 90, com a \u201cvirada\u201d \u00e0 esquerda do in\u00edcio do s\u00e9culo 21, \u00e0 direita, na segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo, e agora de novo \u00e0 esquerda.<\/p>\n<p>E, ao mesmo tempo, desde o fim da \u201cera desenvolvimentista\u201d o continente parece mover-se numa gangorra que ora aponta na dire\u00e7\u00e3o neoliberal, ora na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria, sem que seus principais governos consigam sustentar uma estrat\u00e9gia com sucesso e durante um per\u00edodo prolongado de tempo. Com a diferen\u00e7a que a estrat\u00e9gia econ\u00f4mica neoliberal vem se associando cada vez mais a um modelo \u201cpinochetista\u201d mesclado com for\u00e7as pol\u00edticas de extrema-direita e declaradamente fascistas ou nazistas. Por isso, mais do que nunca, urge que esta nova onda de governos progressistas logre definir e levar \u00e0 frente uma estrat\u00e9gia bem sucedida de crescimento econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Mas, sobretudo, mesmo sem um crescimento acelerado, que consiga implementar com sucesso uma estrat\u00e9gia de guerra econ\u00f4mica contra a desigualdade social, a indig\u00eancia, a fome e a falta de moradia, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o que afetam at\u00e9 um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o latino-americana. Nesta nova tentativa, a esquerda e as for\u00e7as progressistas em geral ter\u00e3o que conviver e enfrentar uma sociedade rachada de cima abaixo e extremamente polarizada em termos ideol\u00f3gicos, pol\u00edticos e at\u00e9 mesmo religiosos. Com economias que se desindustrializaram quase todas regredindo para um padr\u00e3o prim\u00e1rio-exportador fortemente dependente das flutua\u00e7\u00f5es dos mercados internacionais, e com uma burguesia empresarial que expande seus lucros mesmo sem crescimento do PIB e que, por isso mesmo, \u00e9 cada vez menos sens\u00edvel a qualquer tipo de projeto nacional e popular de desenvolvimento.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disto, h\u00e1 que ter claro, que vivemos num momento em que as for\u00e7as de esquerda apresentam-se extremamente divididas e com projetos pol\u00edtico-econ\u00f4micos muito diferentes entre si, e sem uma mesma b\u00fassola ut\u00f3pica comum, capaz de harmonizar as diverg\u00eancias imediatas em nome de um mesmo sonho de futuro.<\/p>\n<p>\u00c9 de se prever um retorno do projeto de integra\u00e7\u00e3o latino-americana que foi sempre apoiado pelos progressistas e descartado pelos conservadores de direita e de extrema-direita. O Brasil dever\u00e1 aumentar sua participa\u00e7\u00e3o e liderar uma reativa\u00e7\u00e3o dos v\u00e1rios f\u00f3runs regionais como Celac, Unasul e Mercosul.<\/p>\n<p>Mas como j\u00e1 ficou comprovado no passado, at\u00e9 pela facilidade com que a direita os desativou, que estes f\u00f3runs s\u00e3o um instrumento importante de constru\u00e7\u00e3o de consensos e de uma vontade coletiva comum. Mas eles padecem da falta de instrumentos eficazes para implementar politicas concretas, e inclusive para impedir a sua desmontagem nos momentos de mudan\u00e7a de governo. Haver\u00e1 que repensar e redefinir o que realmente se pretende alcan\u00e7ar em cada um destes f\u00f3runs, fortalecendo um n\u00facleo que assuma sua vanguarda e sua proje\u00e7\u00e3o internacional, onde dever\u00e3o estar sem duvida alguma, Brasil, Argentina e M\u00e9xico.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 a opini\u00e3o do senhor sobre a press\u00e3o que o mercado financeiro vem tentando fazer sobre o presidente eleito, antes mesmo do in\u00edcio do seu governo, utilizando-se dos economistas e dos seus argumentos para justificar a necessidade do equilibro fiscal? O senhor acha do recente debate entre estes e os desenvolvimentistas?<\/strong><\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma discuss\u00e3o muito antiga e recorrente. Eu quase diria que os argumentos esgrimidos s\u00e3o quase sempre os mesmos h\u00e1 muitos s\u00e9culos sem que jamais se possa chegar a um acordo, uma vez que n\u00e3o se trata de um debate acad\u00eamico ou te\u00f3rico.\u00a0 Trata-se de uma decis\u00e3o pr\u00e1tica que deve ser tomada em fun\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es conjunturais. As mesmas pol\u00edticas econ\u00f4micas podem ter resultados completamente diferentes, em distintos momentos hist\u00f3ricos, e dependendo da posi\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica que seu pa\u00eds ocupe dentro do sistema de poder internacional.<\/p>\n<p>E muitas vezes n\u00e3o h\u00e1 como conciliar, nem \u00e9 poss\u00edvel montar um jogo de soma positiva, sendo necess\u00e1rio fazer escolhas onde haver\u00e1 ganhadores e perdedores. No Brasil, este debate come\u00e7ou h\u00e1 muito tempo, j\u00e1 na segunda metade do s\u00e9culo 19, com a discuss\u00e3o entre os \u201cmetalistas\u201d e os \u201cpapelistas\u201d e suas diferentes vis\u00f5es a respeito da \u201cneutralidade da moeda\u201d. Uma discuss\u00e3o que antecipa o debate brasileiro do s\u00e9culo 20, entre monetaristas, liberais e ortodoxos, e desenvolvimentistas, protecionistas ou keynesianos, que come\u00e7a logo depois da Segunda Guerra, entre Eugenio Gudin e Roberto Simonsen.<\/p>\n<p>E a ladainha \u00e9 quase exatamente a mesma, desde ent\u00e3o, de um lado e do outro. Vargas, inclusive, inaugurou uma solu\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica para estimular a conviv\u00eancia entre estes dois grupos que depois foi repetida por v\u00e1rios outros governos, colocando um monetarista ou fiscalista ortodoxo no Minist\u00e9rio da Fazenda, e um desenvolvimentista ou keynesiano na Presid\u00eancia do Banco do Brasil e, depois, no Minist\u00e9rio de Planejamento.<\/p>\n<p>Pode-se mesmo dizer que esta diverg\u00eancia \u00e9 mais do que secular, \u00e9 milenar. Mas, apesar disso, parece que ningu\u00e9m consegue aprender que este n\u00e3o \u00e9 um debate acad\u00eamico e n\u00e3o existem verdades absolutas em mat\u00e9ria de pol\u00edtica econ\u00f4mica, porque qualquer decis\u00e3o que seja tomada envolver\u00e1 sempre uma arbitragem que \u00e9 fundamentalmente pol\u00edtica, e que tem que ser feita pelos governos em fun\u00e7\u00e3o de seus objetivos estrat\u00e9gicos e em fun\u00e7\u00e3o dos interesses que se proponham a defender ou priorizar.<\/p>\n<p>Para isso, existem as elei\u00e7\u00f5es, para fazer escolhas muitas vezes dolorosas e dram\u00e1ticas. Basta dizer que o senhor Paulo Guedes \u201cfurou o tal do teto de gastos\u201d \u2014 que \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o absolutamente original e brasileira \u2014 em cerca de R$ 400 bilh\u00f5es. E ningu\u00e9m protestou. Nem na Faria Lima, nem entre os economistas de plant\u00e3o defensores do \u201cbom senso fiscal\u201d. Agora, o simples an\u00fancio de uma politica social aprovada pelo povo brasileiro j\u00e1 fez come\u00e7ar a gritaria dos \u201cbons mo\u00e7os de Davos\u201d. A respeito deste assunto sempre conto para meus alunos uma hist\u00f3ria muito antiga e paradigm\u00e1tica: a disputa pol\u00edtica entre o Imperador chin\u00eas Yung-Lo, que reinou entre 1403 e 1424, e o seu ministro da fazenda, Hsia Y\u00fcan-Chi.<\/p>\n<p>Yung-Lo foi um dos imperadores chineses com maior vis\u00e3o estrat\u00e9gica e expansionista de toda a hist\u00f3ria da China. Foi ele que concluiu as obras do Grande Canal comunicando o Mar da China e a antiga capital Nanquim, com a regi\u00e3o mais pobre do norte do imp\u00e9rio, e foi ele que decidiu construir uma nova capital que veio a ser Pequim. Um gigantesco projeto desenvolvimentista que mobilizou e empregou durante muitos anos, milhares de trabalhadores, artes\u00e3os, soldados e arquitetos. Al\u00e9m disto, Yung-Lo se prop\u00f4s estender a hegemonia chinesa \u2014 pol\u00edtica, econ\u00f4mica e cultural \u2014 em todas as dire\u00e7\u00f5es, e atrav\u00e9s das fronteiras territoriais da China, e tamb\u00e9m, na dire\u00e7\u00e3o dos Mares do Sul, do Oceano \u00cdndico, do Golfo P\u00e9rsico e da Costa Africana.\u00a0 Foi durante o seu reinado que o Almirante Cheng Ho liderou seis grandes expedi\u00e7\u00f5es navais que chegaram at\u00e9 a costa da \u00c1frica, no momento em que os portugueses estavam rec\u00e9m chegando a Ceuta. Durante todo seu reinado, as pol\u00edticas desenvolvimentistas e expansionistas do Imperador Yung-Lo enfrentaram a oposi\u00e7\u00e3o declarada de uma parte do mandarinato e das elites chinesas lideradas pelo seu pr\u00f3prio ministro da Fazenda, Hsia Y\u00fcan-Chi, um cr\u00edtico ferrenho do excesso de gastos do imp\u00e9rio, e o defensor implac\u00e1vel do \u201cequil\u00edbrio fiscal\u201d.<\/p>\n<p>Por isto, o imperador Yung-Lo mandou prender seu ministro da Fazenda em 1421, mas pouco depois o imperador morreu, e o novo imperador, Chu Kao-Chih, recolocou no minist\u00e9rio das finan\u00e7as o antigo ministro que interrompeu todas as obras e todas as expedi\u00e7\u00f5es expansivas de Yung-Lo em nome do \u201ccorte de gastos\u201d e da \u201cresponsabilidade fiscal\u201d. E foi assim que o Imp\u00e9rio Ming perdeu seu f\u00f4lego expansivo e fechou-se sobre si mesmo, caindo no isolamento quase total, durante quase quatro s\u00e9culos.\u00a0 Como disse um historiador ingl\u00eas, \u201cpara levar \u00e0 frente naquele momento a estrat\u00e9gia expansionista de Yung-Lo, teria sido necess\u00e1ria uma sucess\u00e3o de l\u00edderes com a sua mesma vis\u00e3o vigorosa e estrat\u00e9gica, a vis\u00e3o de um construtor de imp\u00e9rios que n\u00e3o teve seguidores.\u201d ( The Cambridge History of China, 1988, vol 7, pp:275). Mas n\u00e3o foi isto que aconteceu, e por isto n\u00e3o \u00e9 inteiramente absurdo pensar que a China acabou atrasando em 500 anos o seu projeto atual de proje\u00e7\u00e3o da sua influ\u00eancia e do seu poder, gra\u00e7as \u00e0 obsess\u00e3o cega pelo \u201cequilibro fiscal\u201d do seu ministro da Fazenda, Hsia Y\u00fcan-Chi, um aut\u00eantico economista \u201cortodoxo\u201d avant la lettre.<\/p>\n<p><strong>O mundo viu ascender um movimento de extrema-direita, que apela para quest\u00f5es imediatistas mas se utiliza de informa\u00e7\u00f5es falsas ou distorcidas da realidade. Quais devem ser os passos a serem seguidos para esvazi\u00e1-lo?<\/strong><\/p>\n<p>Trata-se de um tsunami que vem crescendo h\u00e1 duas ou tr\u00eas d\u00e9cadas e agora est\u00e1 alcan\u00e7ando um n\u00edvel de mobiliza\u00e7\u00e3o e agressividade sem precedentes. \u00c9 um movimento que vem explodindo em v\u00e1rios lugares e pa\u00edses, de distintas maneiras, mas com um grande denominador comum, profundamente reacion\u00e1rio, contra todas as for\u00e7as consideradas representantes do \u201csistema\u201d ou do \u201cstatus quo\u201d nacional e internacional. Este impulso esteve presente nos EUA de Donald Trump, mas come\u00e7ou muito antes em Israel, passou pelo BREXIT, e est\u00e1 presente tamb\u00e9m na R\u00fassia de Vladimir Putin, como na Pol\u00f4nia, Hungria, Su\u00e9cia e It\u00e1lia. Aqui, encontra-se mais uma raz\u00e3o da import\u00e2ncia do que est\u00e1 passando na Am\u00e9rica Latina, o \u00fanico lugar do mundo onde o descontentamento e a fadiga social t\u00eam sido ainda capitalizadas eleitoralmente por for\u00e7as pol\u00edticas de esquerda, centro-esquerda e progressistas em geral.<\/p>\n<p>Talvez por isto mesmo, movimentos de extrema-direita do mundo todo tenham escolhido o M\u00e9xico para realizar a sua mais recente assembleia, ainda em novembro. A Confer\u00eancia Politica de A\u00e7\u00e3o Conservadora acaba de reunir-se no M\u00e9xico tutelados por Steve Bannon e reunindo lideres como Jos\u00e9 Kast, do Chile, Javier Milei, da Argentina, Santiago Abascal, da Espanha, Eduardo Bolsonaro, do Brasil, e Eduardo Ver\u00e1stegui, do pr\u00f3prio M\u00e9xico. Eles estiveram com ativistas cat\u00f3licos, antiabortistas, anti-feministas, e contr\u00e1rios aos direitos da popula\u00e7\u00e3o LGBT, al\u00e9m anti-comunistas. Os principais oradores foram Steve Bannon e Lech Walesa. Isso permite avaliar a extens\u00e3o desta onda que dever\u00e1 ser enfrentada na Am\u00e9rica Latina. Dever\u00e1 ser uma batalha longa e inusitada, porque a pr\u00f3pria esquerda latino-americana nunca combateu um inimigo desta natureza. Uma batalha pol\u00edtica e ideol\u00f3gica, uma guerra cultural entre a \u201cmodernidade iluminista\u201d, ou alguns de seus herdeiros cr\u00edticos, e esta \u201cp\u00f3s-modernidade medieval\u201d obscurantista, religiosa, fan\u00e1tica e admiradora da viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Quase diria que a esquerda ter\u00e1 que reler e repensar a mensagem cr\u00edtica de Paulo Freire para inventar novos caminhos de mobiliza\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o e conscientiza\u00e7\u00e3o coletiva e mesmo massiva. Por antigo que possa parecer, uma esp\u00e9cie de reinven\u00e7\u00e3o dos antigos centros de cultura, conscientiza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o popular dos anos 60, incluindo agora as redes de comunica\u00e7\u00e3o instant\u00e2neas postas \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da pedagogia da liberdade. Talvez n\u00e3o seja sem raz\u00e3o o \u00f3dio que t\u00eam de Paulo Freire, sem nunca t\u00ea-lo lido, figuras t\u00e3o brutas, toscas e ignorantes, quase analfabetos como a fam\u00edlia Bolsonaro, ou este General Heleno que esbraveja pelos cantos \u00e0 espera do esquecimento.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Fiori: o Brasil e Lula num mundo em transe | Combate Racismo Ambiental &#8211; https:\/\/racismoambiental.net.br\/2022\/12\/06\/fiori-o-brasil-e-lula-num-mundo-em-transe\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alberto Cantalice e Pedro Camar\u00e3o &#8211; Ordem global vive transi\u00e7\u00e3o turbulenta, ainda sem sa\u00edda \u00e0 vista. 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