{"id":18619,"date":"2022-12-14T12:51:05","date_gmt":"2022-12-14T15:51:05","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18619"},"modified":"2022-12-07T18:54:35","modified_gmt":"2022-12-07T21:54:35","slug":"think-tanks-organizacoes-por-tras-da-guinada-da-direita-na-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/12\/14\/think-tanks-organizacoes-por-tras-da-guinada-da-direita-na-america-latina\/","title":{"rendered":"&#8220;Think Tanks&#8221;: organiza\u00e7\u00f5es por tr\u00e1s da guinada da direita na Am\u00e9rica Latina"},"content":{"rendered":"<p><strong>Lee Fang &#8211;<\/strong> Como os libert\u00e1rios americanos est\u00e3o reinventando a pol\u00edtica latino-americana com interesses neoliberais.<\/p>\n<p>Para Alejandro Chafuen, a reuni\u00e3o desta primavera no Brick Hotel, em Buenos Aires, foi tanto uma volta para casa quanto uma volta ol\u00edmpica. Chafuen, um esguio argentino-americano, passou a vida adulta se dedicando a combater os movimentos sociais e governos de esquerda das Am\u00e9ricas do Sul e Central, substituindo-os por uma vers\u00e3o pr\u00f3-empresariado do libertarianismo.<\/p>\n<p>Ele lutou sozinho durante d\u00e9cadas, mas isso est\u00e1 mudando. Chafuen estava rodeado de amigos no Latin America Liberty Forum 2017. Essa reuni\u00e3o internacional de ativistas libert\u00e1rios foi patrocinada pela Atlas Economic Research Foundation, uma organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos conhecida como Atlas Network (Rede Atlas), que Chafuen dirige desde 1991. No Brick Hotel, ele festejou as vit\u00f3rias recentes; seus anos de trabalho estavam come\u00e7ando a render frutos \u2013 gra\u00e7as \u00e0s circunst\u00e2ncias pol\u00edticas e econ\u00f4micas e \u00e0 rede de ativistas que Chafuen se esfor\u00e7ou tanto para criar.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos 10 anos, os governos de esquerda usaram \u201cdinheiro para comprar votos, para redistribuir\u201d, diz Chaufen, confortavelmente sentado no sagu\u00e3o do hotel. Mas a recente queda do pre\u00e7o das\u00a0<em>commodities<\/em>, aliada a esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o, proporcionou uma oportunidade de a\u00e7\u00e3o para os grupos da Atlas Network. \u201cSurgiu uma abertura \u2013 uma crise \u2013 e uma demanda por mudan\u00e7as, e n\u00f3s t\u00ednhamos pessoas treinadas para pressionar por certas pol\u00edticas\u201d, observa Chafuen, parafraseando o falecido Milton Friedman. \u201cNo nosso caso, preferimos solu\u00e7\u00f5es privadas aos problemas p\u00fablicos\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>Chafuen cita diversos l\u00edderes ligados \u00e0 Atlas que conseguiram ganhar notoriedade: ministros do governo conservador argentino, senadores bolivianos e l\u00edderes do Movimento Brasil Livre (MBL), que ajudaram a derrubar a presidente Dilma Rousseff \u2013 um exemplo vivo dos frutos do trabalho da rede Atlas, que Chafuen testemunhou em primeira m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEstive nas manifesta\u00e7\u00f5es no Brasil e pensei: \u2018Nossa, aquele cara tinha uns 17 anos quando o conheci, e agora est\u00e1 ali no trio el\u00e9trico liderando o protesto. Incr\u00edvel!\u2019\u201d, diz, empolgado. \u00c9 a mesma anima\u00e7\u00e3o de membros da Atlas quando o encontram em Buenos Aires; a tietagem \u00e9 constante no sagu\u00e3o do hotel. Para muitos deles, Chafuen \u00e9 uma mistura de mentor, patrocinador fiscal e verdadeiro s\u00edmbolo da luta por um novo paradigma pol\u00edtico em seus pa\u00edses.<\/p>\n<p><strong>Uma guinada \u00e0 direita<\/strong>\u00a0est\u00e1 em marcha na pol\u00edtica latino-americana, destronando os governos socialistas que foram a marca do continente durante boa parte do s\u00e9culo XXI \u2013 de Cristina Kirchner, na Argentina, ao defensor da reforma agr\u00e1ria e populista Manuel Zelaya, em Honduras \u2013, que implementaram pol\u00edticas a favor dos pobres, nacionalizaram empresas e desafiaram a hegemonia dos EUA no continente.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cdn01.theintercept.com\/wp-uploads\/sites\/1\/2017\/08\/Atlas-sidebar_port25b-1502479499.png?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p>Essa altera\u00e7\u00e3o pode parecer apenas parte de um reequil\u00edbrio regional causado pela conjuntura econ\u00f4mica, por\u00e9m a Atlas Network parece estar sempre presente, tentando influenciar o curso das mudan\u00e7as pol\u00edticas.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da Atlas Network e seu profundo impacto na ideologia e no poder pol\u00edtico nunca foi contada na \u00edntegra. Mas os registros de suas atividades em tr\u00eas continentes, bem como as entrevistas com l\u00edderes libert\u00e1rios na Am\u00e9rica Latina, revelam o alcance de sua influ\u00eancia. A rede libert\u00e1ria, que conseguiu alterar o poder pol\u00edtico em diversos pa\u00edses, tamb\u00e9m \u00e9 uma extens\u00e3o t\u00e1cita da pol\u00edtica externa dos EUA \u2013 os\u00a0<em>think tanks<\/em>\u00a0associados \u00e0 Atlas s\u00e3o discretamente financiados pelo Departamento de Estado e o National Endowment for Democracy (Funda\u00e7\u00e3o Nacional para a Democracia \u2013 NED), bra\u00e7o crucial do\u00a0<em>soft power<\/em>\u00a0norte-americano.<\/p>\n<p>Embora an\u00e1lises recentes tenham revelado o papel de poderosos bilion\u00e1rios conservadores \u2013 como os irm\u00e3os Koch \u2013 no desenvolvimento de uma vers\u00e3o pr\u00f3-empresariado do libertarianismo, a Atlas Network \u2013 que tamb\u00e9m \u00e9 financiada pelas funda\u00e7\u00f5es Koch \u2013 tem usado m\u00e9todos criados no mundo desenvolvido, reproduzindo-os em pa\u00edses em desenvolvimento.<br \/>\nA rede \u00e9 extensa, contando atualmente com parcerias com 450\u00a0<em>think tanks<\/em>\u00a0em todo o mundo. A Atlas afirma ter gasto mais de US$ 5 milh\u00f5es com seus parceiros apenas em 2016.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cdn01.theintercept.com\/wp-uploads\/sites\/1\/2017\/08\/Atlas-sidebar_port24-1502477325-e1502478923994-1502479297.png?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p>Ao longo dos anos, a Atlas e suas funda\u00e7\u00f5es caritativas associadas realizaram centenas de doa\u00e7\u00f5es para\u00a0<em>think tanks<\/em>\u00a0conservadores e defensores do livre mercado na Am\u00e9rica Latina, inclusive a rede que apoiou o Movimento Brasil Livre (MBL) e organiza\u00e7\u00f5es que participaram da ofensiva libert\u00e1ria na Argentina, como a Funda\u00e7\u00e3o Pensar, um\u00a0<em>think tank<\/em>\u00a0da Atlas que se incorporou ao partido criado por Mauricio Macri, um homem de neg\u00f3cios e atual presidente do pa\u00eds. Os l\u00edderes do MBL e o fundador da Funda\u00e7\u00e3o El\u00e9utera \u2013 um<em>\u00a0think tank<\/em>\u00a0neoliberal extremamente influente no cen\u00e1rio p\u00f3s-golpe hondurenho \u2013 receberam financiamento da Atlas e fazem parte da nova gera\u00e7\u00e3o de atores pol\u00edticos que j\u00e1 passaram pelos seus semin\u00e1rios de treinamento.<\/p>\n<p>A Atlas Network conta com dezenas de\u00a0<em>think tanks<\/em>\u00a0na Am\u00e9rica Latina, inclusive grupos extremamente ativos no apoio \u00e0s for\u00e7as de oposi\u00e7\u00e3o na Venezuela e ao candidato de centro-direita \u00e0s elei\u00e7\u00f5es presidenciais chilenas, Sebasti\u00e1n Pi\u00f1era.<\/p>\n<p><strong>Em nenhum outro lugar<\/strong>\u00a0a estrat\u00e9gia da Atlas foi t\u00e3o bem sintetizada quanto na rec\u00e9m-formada rede brasileira de\u00a0<em>think tanks<\/em>\u00a0de defesa do livre mercado. Os novos institutos trabalham juntos para fomentar o descontentamento com as pol\u00edticas socialistas; alguns criam centros acad\u00eamicos enquanto outros treinam ativistas e travam uma guerra constante contra as ideias de esquerda na m\u00eddia brasileira.<\/p>\n<p>O esfor\u00e7o para direcionar a raiva da popula\u00e7\u00e3o contra a esquerda rendeu frutos para a direita brasileira no ano passado. Os jovens ativistas do MBL \u2013 muitos deles treinados em organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nos EUA \u2013 lideraram um movimento de massa para canalizar a o descontentamento popular com um grande esc\u00e2ndalo de corrup\u00e7\u00e3o para desestabilizar Dilma Rousseff, uma presidente de centro-esquerda. O esc\u00e2ndalo, investigado por uma opera\u00e7\u00e3o batizada de Lava-Jato, continua tendo desdobramentos, envolvendo l\u00edderes de todos os grandes partidos pol\u00edticos brasileiros, inclusive \u00e0 direita e centro-direita. Mas o MBL soube usar muito bem as redes sociais para direcionar a maior parte da revolta contra Dilma, exigindo o seu afastamento e o fim das pol\u00edticas de bem-estar social implementadas pelo Partido dos Trabalhadores (PT).<\/p>\n<p>A revolta \u2013 que foi comparada ao movimento Tea Party devido ao apoio t\u00e1cito dos conglomerados industriais locais e a uma nova rede de atores midi\u00e1ticos de extrema-direita e tend\u00eancias conspirat\u00f3rias \u2013 conseguiu interromper 13 anos de domina\u00e7\u00e3o do PT ao afastar Dilma do cargo por meio de um impeachment em 2016.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio pol\u00edtico do qual surgiu o MBL \u00e9 uma novidade no Brasil. Havia no m\u00e1ximo tr\u00eas\u00a0<em>think tanks<\/em>\u00a0libert\u00e1rios em atividade no pa\u00eds dez anos atr\u00e1s, segundo H\u00e9lio Beltr\u00e3o, um ex-executivo de um fundo de investimentos de alto risco que agora dirige o Instituto Mises, uma organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos que recebeu o nome do fil\u00f3sofo libert\u00e1rio Ludwig von Mises. Ele diz que, com o apoio da Atlas, agora existem cerca de 30 institutos agindo e colaborando entre si no Brasil, como o Estudantes pela Liberdade e o MBL.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 como um time de futebol; a defesa \u00e9 a academia, e os pol\u00edticos s\u00e3o os atacantes. E j\u00e1 marcamos alguns gols\u201d, diz Beltr\u00e3o, referindo-se ao impeachment de Dilma. O meio de campo seria \u201co pessoal da cultura\u201d, aqueles que formam a opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>Beltr\u00e3o explica que a rede de\u00a0<em>think tanks<\/em>\u00a0est\u00e1 pressionando pela privatiza\u00e7\u00e3o dos Correios, que ele descreve como \u201cuma fruta pronta para ser colhida\u201d e que pode conduzir a uma onda de reformas mais abrangentes em favor do livre mercado. Muitos partidos conservadores brasileiros acolheram os ativistas libert\u00e1rios quando estes demonstraram que eram capazes de mobilizar centenas de milhares de pessoas nos protestos contra Dilma, mas ainda n\u00e3o adotaram as teorias da \u201ceconomia do lado da oferta\u201d.<\/p>\n<p>Fernando Sch\u00fcler, acad\u00eamico e colunista associado ao Instituto Millenium \u2013 outro\u00a0<em>think tank<\/em>\u00a0da Atlas no Brasil \u2013 tem uma outra abordagem. \u201cO Brasil tem 17 mil sindicatos pagos com dinheiro p\u00fablico. Um dia de sal\u00e1rio por ano vai para os sindicatos, que s\u00e3o completamente controlados pela esquerda\u201d, diz. A \u00fanica maneira de reverter a tend\u00eancia socialista seria super\u00e1-la no jogo de manobras pol\u00edticas. \u201cCom a tecnologia, as pessoas poderiam participar diretamente, organizando \u2013 no WhatsApp, Facebook e YouTube \u2013 uma esp\u00e9cie de manifesta\u00e7\u00e3o p\u00fablica de baixo custo\u201d, acrescenta, descrevendo a forma de mobiliza\u00e7\u00e3o de protestos dos libert\u00e1rios contra pol\u00edticos de esquerda.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cdn01.theintercept.com\/wp-uploads\/sites\/1\/2017\/08\/Atlas-sidebar_port22-1502477314-e1502478957614-1502479292.png?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p>Os organizadores das manifesta\u00e7\u00f5es anti-Dilma produziram uma torrente di\u00e1ria de v\u00eddeos no YouTube para ridicularizar o governo do PT e criaram um placar interativo para incentivar os cidad\u00e3os a pressionarem seus deputados por votos de apoio ao impeachment.<\/p>\n<p>Sch\u00fcler notou que, embora o MBL e seu pr\u00f3prio<em>\u00a0think tank<\/em>\u00a0fossem apoiados por associa\u00e7\u00f5es industriais locais, o sucesso do movimento se devia parcialmente \u00e0 sua n\u00e3o identifica\u00e7\u00e3o com partidos pol\u00edticos tradicionais, em sua maioria vistos com maus olhos pela popula\u00e7\u00e3o. Ele argumenta que a \u00fanica forma de reformar radicalmente a sociedade e reverter o apoio popular ao Estado de bem-estar social \u00e9 travar uma guerra cultural permanente para confrontar os intelectuais e a m\u00eddia de esquerda.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cdn01.theintercept.com\/wp-uploads\/sites\/1\/2017\/08\/maxresdefault-1502212171-e1502229467213.jpg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><em>Fernando Sch\u00fcler<\/em><\/p>\n<p>Um dos fundadores do Instituto Millenium, o blogueiro Rodrigo Constantino, polariza a pol\u00edtica brasileira com uma ret\u00f3rica ultrassect\u00e1ria. Constantino, que j\u00e1 foi chamado de \u201co Breitbart brasileiro\u201d devido a suas teorias conspirat\u00f3rias e seus coment\u00e1rios de teor radicalmente direitistas, \u00e9 presidente do conselho deliberativo de outro think tank da Atlas \u2013 o Instituto Liberal. Ele enxerga uma tentativa velada de minar a democracia em cada movimento da esquerda brasileira, do uso da cor vermelha na logomarca da Copa do Mundo ao Bolsa Fam\u00edlia, um programa de transfer\u00eancia de renda.<\/p>\n<p>Constantino \u00e9 considerado o respons\u00e1vel pela populariza\u00e7\u00e3o de uma narrativa segundo a qual os defensores do PT seriam uma \u201cesquerda caviar\u201d, ricos hip\u00f3critas que abra\u00e7am o socialismo para se sentirem moralmente superiores, mas que na realidade desprezam as classes trabalhadoras que afirmam representar.<br \/>\nA \u201cbreitbartiza\u00e7\u00e3o\u201d do discurso \u00e9 apenas uma das muitas formas sutis pelas quais a Atlas Network tem influenciado o debate pol\u00edtico.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cdn01.theintercept.com\/wp-uploads\/sites\/1\/2017\/08\/Atlas-sidebar_port23-1502477318-e1502478707987-1502479295.png?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p>\u201cTemos um Estado muito paternalista. \u00c9 incr\u00edvel. H\u00e1 muito controle estatal, e mudar isso \u00e9 um desafio de longo prazo\u201d, diz Sch\u00fcler, acresentando que, apesar das vit\u00f3rias recentes, os libert\u00e1rios ainda t\u00eam um longo caminho pela frente no Brasil. Ele gostaria de copiar o modelo de Margaret Thatcher, que se apoiava em uma rede de\u00a0<em>think tanks<\/em>\u00a0libert\u00e1rios para implementar reformas impopulares. \u201cO sistema previdenci\u00e1rio \u00e9 absurdo, e eu privatizaria toda a educa\u00e7\u00e3o\u201d, diz Sch\u00fcler, pondo-se a recitar toda a litania de mudan\u00e7as que faria na sociedade, do corte do financiamento a sindicatos ao fim do voto obrigat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Mas a \u00fanica maneira de tornar tudo isso poss\u00edvel, segundo ele, seria a forma\u00e7\u00e3o de uma rede politicamente engajada de organiza\u00e7\u00f5es sem fins lucrativos para defender os objetivos libert\u00e1rios. Para Sch\u00fcler, o modelo atual \u2013 uma constela\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>think tanks<\/em>\u00a0em Washington sustentada por vultosas doa\u00e7\u00f5es \u2013 seria o \u00fanico caminho para o Brasil.<\/p>\n<p>E \u00e9 exatamente isso que a Atlas tem se esfor\u00e7ado para fazer. Ela oferece subven\u00e7\u00f5es a novos\u00a0<em>think tanks<\/em>\u00a0e cursos sobre gest\u00e3o pol\u00edtica e rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, patrocina eventos de networking no mundo todo e, nos \u00faltimos anos, tem estimulado libert\u00e1rios a tentar influenciar a opini\u00e3o p\u00fablica por meio das redes sociais e v\u00eddeos online.<\/p>\n<p>Uma competi\u00e7\u00e3o anual incentiva os membros da Atlas a produzir v\u00eddeos que viralizem no YouTube promovendo o\u00a0<em>laissez-faire<\/em>\u00a0e ridicularizando os defensores do Estado de bem-estar social. James O\u2019Keefe, provocador famoso por alfinetar o Partido Democrata americano com v\u00eddeos gravados em segredo, foi convidado pela Atlas para ensinar seus m\u00e9todos. No estado americano do Wisconsin, um grupo de produtores que publicava v\u00eddeos na internet para denegrir protestos de professores contra o ataque do governador Scott Walker aos sindicatos do setor p\u00fablico tamb\u00e9m compartilharam sua experi\u00eancia nos cursos da Atlas.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"414\" width=\"640\" decoding=\"async\" class=\"c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cdn01.theintercept.com\/wp-uploads\/sites\/1\/2017\/08\/GettyImages-148434571-edit-1502295208-1000x647.jpg?resize=640%2C414&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><em>Manifestantes queimam um boneco do presidente Hugo Ch\u00e1vez na Plaza Altamira, em protesto contra o governo<\/em><\/p>\n<p><strong>Em uma de suas \u00faltimas realiza\u00e7\u00f5es,<\/strong>\u00a0a Atlas influenciou uma das crises pol\u00edticas e humanit\u00e1rias mais graves da Am\u00e9rica Latina: a venezuelana. Documentos obtidos gra\u00e7as ao \u201cFreedom of Information Act\u201d (Lei da Livre Informa\u00e7\u00e3o, em tradu\u00e7\u00e3o livre) por simpatizantes do governo venezuelano \u2013 bem como certos telegramas do Departamento de Estado dos EUA vazados por Chelsea Manning \u2013 revelam uma complexo tentativa do governo americano de usar os\u00a0<em>think tanks<\/em>\u00a0da Atlas em uma campanha para desestabilizar o governo de Hugo Ch\u00e1vez.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/web.archive.org\/web\/20040705175825\/http:\/www.venezuelafoia.info:80\/NED\/CIPE-CEDICE\/CIPE-VZ-2003\/pages\/CIPE-05.htm\">Em 1998<\/a>, a CEDICE Libertad \u2013 principal organiza\u00e7\u00e3o afiliada \u00e0 Atlas em Caracas, capital da Venezuela \u2013 j\u00e1 recebia apoio financeiro do Center for International Private Enterprise (Centro para a Empresa Privada Internacional \u2013 CIPE). Em uma carta de financiamento do NED, os recursos s\u00e3o descritos como uma ajuda para \u201ca mudan\u00e7a de governo\u201d. O diretor da CEDICE foi um dos signat\u00e1rios do controverso \u201cDecreto Carmona\u201d em apoio ao malsucedido golpe militar contra Ch\u00e1vez em 2002.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cdn01.theintercept.com\/wp-uploads\/sites\/1\/2017\/08\/Atlas-sidebar_port26-1502477330-e1502478746909-1502479305.png?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p>Um telegrama de 2006 descrevia a estrat\u00e9gia do embaixador americano, William Brownfield, de financiar organiza\u00e7\u00f5es politicamente engajadas na Venezuela: \u201c1) Fortalecer institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas; 2) penetrar na base pol\u00edtica de Ch\u00e1vez; 3) dividir o chavismo; 4) proteger neg\u00f3cios vitais para os EUA, e 5) isolar Ch\u00e1vez internacionalmente.\u201d<\/p>\n<p>Na atual crise venezuelana, a CEDICE tem promovido a recente avalanche de protestos contra o presidente Nicol\u00e1s Maduro, o acossado sucessor de Ch\u00e1vez. A CEDICE est\u00e1 intimamente ligada \u00e0 figura da oposicionista Mar\u00eda Corina Machado, uma das l\u00edderes das manifesta\u00e7\u00f5es em massa contra o governo dos \u00faltimos meses. Machado j\u00e1 agradeceu publicamente \u00e0 Atlas pelo seu trabalho. Em um v\u00eddeo enviado ao grupo em 2014, ela diz: \u201cObrigada \u00e0 Atlas Network e a todos os que lutam pela liberdade.\u201d<\/p>\n<p><strong>No Latin America Liberty Forum,\u00a0<\/strong>organizado pela Atlas Network em Buenos Aires, jovens l\u00edderes compartilham ideias sobre como derrotar o socialismo em todos os lugares, dos debates em<em>\u00a0campi<\/em>\u00a0universit\u00e1rios a mobiliza\u00e7\u00f5es nacionais a favor de um impeachment.<\/p>\n<p>Em uma das atividades do f\u00f3rum, \u201cempreendedores\u201d pol\u00edticos de Peru, Rep\u00fablica Dominicana e Honduras competem em um formato parecido com o programa<em>\u00a0Shark Tank<\/em>, um reality show americano em que novas empresas tentam conquistar ricos e impiedosos investidores. Mas, em vez de buscar financiamento junto a um painel de capitalistas de risco, esses diretores de\u00a0<em>think tanks<\/em>\u00a0tentam vender suas ideias de marketing pol\u00edtico para conquistar um pr\u00eamio de US$ 5 mil. Em outro encontro, debatem-se estrat\u00e9gias para atrair o apoio do setor industrial \u00e0s reformas econ\u00f4micas. Em outra sala, ativistas pol\u00edticos discutem poss\u00edveis argumentos que os \u201camantes da liberdade\u201d podem usar para combater o crescimento do populismo e \u201ccanalizar o sentimento de injusti\u00e7a de muitos\u201d para atingir os objetivos do livre mercado.<\/p>\n<p>Um jovem l\u00edder da Cadal, um\u00a0<em>think tank<\/em>\u00a0de Buenos Aires, deu a ideia de classificar as prov\u00edncias argentinas de acordo com o que chamou de \u201c\u00edndice de liberdade econ\u00f4mica\u201d \u2013 levando em conta a carga tribut\u00e1ria e regulat\u00f3ria como crit\u00e9rios principais \u2013, o que segundo ela geraria um est\u00edmulo para a press\u00e3o popular por reformas de livre mercado. Tal ideia \u00e9 claramente baseada em estrat\u00e9gias similares aplicadas nos EUA, como o \u00cdndice de Liberdade Econ\u00f4mica da Heritage Foundation, que classifica os pa\u00edses de acordo com crit\u00e9rios como pol\u00edtica tribut\u00e1ria e barreiras regulat\u00f3rias aos neg\u00f3cios.<\/p>\n<p>Os\u00a0<em>think tanks<\/em>\u00a0s\u00e3o tradicionalmente vistos como institutos independentes que tentam desenvolver solu\u00e7\u00f5es n\u00e3o convencionais. Mas o modelo da Atlas se preocupa menos com a formula\u00e7\u00e3o de novas solu\u00e7\u00f5es e mais com o estabelecimento de organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas disfar\u00e7adas de institui\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas, em um esfor\u00e7o para conquistar a ades\u00e3o do p\u00fablico.<\/p>\n<p>As ideias de livre mercado \u2013 redu\u00e7\u00e3o de impostos sobre os mais ricos; enxugamento do setor p\u00fablico e privatiza\u00e7\u00f5es; liberaliza\u00e7\u00e3o das regras de com\u00e9rcio e restri\u00e7\u00f5es aos sindicatos \u2013 sempre tiveram um problema de popularidade. Os defensores dessa corrente de pensamento perceberam que o eleitorado costuma ver essas ideias como uma maneira de favorecer as camadas mais ricas. E reposicionar o libertarianismo econ\u00f4mico como uma ideologia de interesse p\u00fablico exige complexas estrat\u00e9gias de persuas\u00e3o em massa.<\/p>\n<p>Mas o modelo da Atlas, que est\u00e1 se espalhando rapidamente pela Am\u00e9rica Latina, baseia-se em um m\u00e9todo aperfei\u00e7oado durante d\u00e9cadas de embates nos EUA e no Reino Unido, onde os libert\u00e1rios se esfor\u00e7aram para conter o avan\u00e7o do Estado de bem-estar social do p\u00f3s-guerra.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"409\" width=\"640\" decoding=\"async\" class=\"c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cdn01.theintercept.com\/wp-uploads\/sites\/1\/2017\/08\/map8-portugese-1502476828-1000x639.jpg?resize=640%2C409&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><em>Mapa das organiza\u00e7\u00f5es da rede Atlas na Am\u00e9rica do Sul<\/em><\/p>\n<p><strong>Antony Fisher,<\/strong>\u00a0empreendedor brit\u00e2nico e fundador da Atlas Network, \u00e9 um pioneiro na venda do libertarianismo econ\u00f4mico \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica. A estrat\u00e9gia era simples: nas palavras de um colega de Fisher, a miss\u00e3o era \u201cencher o mundo de\u00a0<em>think tanks<\/em>\u00a0que defendam o livre mercado\u201d.<\/p>\n<p>A base das ideias de Fisher v\u00eam de Friedrich Hayek, um dos pais da defesa do Estado m\u00ednimo. Em 1946, depois de ler um resumo do livro seminal de Hayek,\u00a0<em>O Caminho da Servid\u00e3o<\/em>, Fisher quis se encontrar com o economista austr\u00edaco em Londres. Segundo seu colega John Blundell, Fisher sugeriu que Hayek entrasse para a pol\u00edtica. Mas Hayek se recusou, dizendo que uma abordagem de baixo para cima tinha mais chances de alterar a opini\u00e3o p\u00fablica e reformar a sociedade.<\/p>\n<p>Enquanto isso, nos Estados Unidos, outro ide\u00f3logo do livre mercado, Leonard Read, chegava a conclus\u00f5es parecidas depois de ter dirigido a C\u00e2mara de Com\u00e9rcio de Los Angeles, onde batera de frente com o sindicalismo. Para deter o crescimento do Estado de bem-estar social, seria necess\u00e1ria uma a\u00e7\u00e3o mais elaborada no sentido de influenciar o debate p\u00fablico sobre os destinos da sociedade, mas sem revelar a liga\u00e7\u00e3o de tal estrat\u00e9gia com os interesses do capital.<\/p>\n<p>Fisher animou-se com uma visita \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o rec\u00e9m-fundada por Read, a Foundation for Economic Education (Funda\u00e7\u00e3o para a Educa\u00e7\u00e3o Econ\u00f4mica \u2013 FEE), em Nova York, criada para patrocinar e promover as ideias liberais. Nesse encontro, o economista libert\u00e1rio F.A. Harper, que trabalhava na FEE \u00e0 epoca, orientou Fisher sobre como abrir a sua pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos no Reino Unido.<\/p>\n<p>Durante a viagem, Fisher e Harper foram \u00e0 Cornell University para conhecer a \u00faltima novidade da ind\u00fastria animal: 15 mil galinhas armazenadas em uma \u00fanica estrutura. Fisher decidiu levar o invento para o Reino Unido. Sua f\u00e1brica, a Buxted Chickens, logo prosperou e trouxe grande fortuna para Fisher. Uma parte dos lucros foi direcionada \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de outro objetivo surgido durante a viagem a Nova York \u2013 em 1955, Fisher funda o Institute of Economic Affairs (Instituto de Assuntos Econ\u00f4micos \u2013 IEA).<\/p>\n<p>O IEA ajudou a popularizar os at\u00e9 ent\u00e3o obscuros economistas ligados \u00e0s ideias de Hayek. O instituto era um baluarte de oposi\u00e7\u00e3o ao crescente Estado de bem-estar social brit\u00e2nico, colocando jornalistas em contato com acad\u00eamicos defensores do livre mercado e disseminando cr\u00edticas constantes sob a forma de artigos de opini\u00e3o, entrevistas de r\u00e1dio e confer\u00eancias.<\/p>\n<p>A maior parte do financiamento do IEA vinha de empresas privadas, como os gigantes do setor banc\u00e1rio e industrial Barclays e British Petroleum, que contribu\u00edam anualmente. No livro\u00a0<em>Making Thatcher\u2019s Britain<\/em>\u00a0(A Constru\u00e7\u00e3o da Gr\u00e3-Bretanha de Thatcher, em tradu\u00e7\u00e3o livre), dos historiadores Ben Jackson e Robert Saunders, um magnata dos transportes afirma que, assim como as universidades forneciam muni\u00e7\u00e3o para os sindicatos, o IEA era uma importante fonte de poder de fogo para os empres\u00e1rios.<\/p>\n<p>Quando a desacelera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e o aumento da infla\u00e7\u00e3o dos anos 1970 abalou os fundamentos da sociedade brit\u00e2nica, pol\u00edticos conservadores come\u00e7aram a se aproximar do IEA como fonte de uma vis\u00e3o alternativa. O instituto aproveitou a oportunidade e passou a oferecer plataformas para que os pol\u00edticos pudessem levar os conceitos do livre mercado para a opini\u00e3o p\u00fablica. A Atlas Network afirma orgulhosamente que o IEA \u201cestabeleceu as bases intelectuais do que viria a ser a revolu\u00e7\u00e3o de Thatcher nos anos 1980\u201d. A equipe do instituto escrevia discursos para Margaret Thatcher; fornecia material de campanha na forma de artigos sobre temas como sindicalismo e controle de pre\u00e7os; e rebatia as cr\u00edticas \u00e0 Dama de Ferro na m\u00eddia inglesa. Em uma carta a Fisher depois de vencer as elei\u00e7\u00f5es de 1979, Thatcher afirmou que o IEA havia criado, na opini\u00e3o p\u00fablica, \u201co ambiente prop\u00edcio para a nossa vit\u00f3ria\u201d.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que tivemos um grande avan\u00e7o na Gr\u00e3-Bretanha. O IEA, fundado por Antony Fisher, fez toda a diferen\u00e7a\u201d,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=El0V2_LeW9A\">disse<\/a>\u00a0Milton Friedman uma vez. \u201cEle possibilitou o governo de Margaret Thatcher \u2013 n\u00e3o a sua elei\u00e7\u00e3o como primeira-ministra, e sim as pol\u00edticas postas em pr\u00e1tica por ela. Da mesma forma, o desenvolvimento desse tipo de pensamento nos EUA possibilitou o a implementa\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas de Ronald Reagan\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>O IEA fechava um ciclo. Hayek havia criado um seleto grupo de economistas defensores do livre mercado chamado Sociedade Mont P\u00e8lerin. Um de seus membros, Ed Feulner, ajudou o fundar o\u00a0<em>think tank<\/em>\u00a0conservador Heritage Foundation, em Washington, inspirando-se no trabalho de Fisher. Outro membro da Sociedade, Ed Crane, fundou o Cato Institute, o mais influente\u00a0<em>think tank<\/em>\u00a0libert\u00e1rio dos Estados Unidos.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cdn01.theintercept.com\/wp-uploads\/sites\/1\/2017\/08\/GettyImages-83460849-1502214536.jpg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p><em>O fil\u00f3sofo e economista anglo-austr\u00edaco Friedrich Hayek com um grupo de alunos na London School of Economics, em 1948<\/em><\/p>\n<p><strong>Em\u00a01981,<\/strong>\u00a0Fisher, que havia se mudado para San Francisco, come\u00e7ou a desenvolver a Atlas Economic Research Foundation por sugest\u00e3o de Hayek. Fisher havia aproveitado o sucesso do IEA para conseguir doa\u00e7\u00f5es de empresas para seu projeto de cria\u00e7\u00e3o de uma rede regional de\u00a0<em>think tanks<\/em>\u00a0em Nova York, Canad\u00e1, Calif\u00f3rnia e Texas, entre outros. Mas o novo empreendimento de Fisher viria a ter uma dimens\u00e3o global: uma organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos dedicada a levar sua miss\u00e3o adiante por meio da cria\u00e7\u00e3o de postos avan\u00e7ados do libertarianismo em todos os pa\u00edses do mundo. \u201cQuanto mais institutos existirem no mundo, mais oportunidade teremos para resolver problemas que precisam de uma solu\u00e7\u00e3o urgente\u201d, declarou.<\/p>\n<p>Fisher come\u00e7ou a levantar fundos junto a empresas com a ajuda de cartas de recomenda\u00e7\u00e3o de Hayek, Thatcher e Friedman, instando os potenciais doadores a ajudarem a reproduzir o sucesso do IEA atrav\u00e9s da Atlas. Hayek escreveu que o modelo do IEA \u201cdeveria ser usado para criar institutos similares em todo o mundo\u201d. E acrescentou: \u201cSe consegu\u00edssemos financiar essa iniciativa conjunta, seria um dinheiro muito bem gasto.\u201d<\/p>\n<p>A proposta foi enviada para uma lista de executivos importantes, e o dinheiro logo come\u00e7ou a fluir dos cofres das empresas e dos grandes financiadores do Partido Republicano, como Richard Mellon Scaife. Empresas como a Pfizer, Procter &amp; Gamble e Shell ajudaram a financiar a Atlas. Mas a contribui\u00e7\u00e3o delas teria que ser secreta para que o projeto pudesse funcionar, acreditava Fisher. \u201cPara influenciar a opini\u00e3o p\u00fablica, \u00e9 necess\u00e1rio evitar qualquer ind\u00edcio de interesses corporativos ou tentativa de doutrina\u00e7\u00e3o\u201d, escreveu Fisher na descri\u00e7\u00e3o do projeto, acrescentando que o sucesso do IEA estava baseado na percep\u00e7\u00e3o p\u00fablica do car\u00e1ter acad\u00eamico e imparcial do instituto.<\/p>\n<p>A Atlas cresceu rapidamente. Em 1985, a rede contava com 27 institui\u00e7\u00f5es em 17 pa\u00edses, inclusive organiza\u00e7\u00f5es sem fins lucrativos na It\u00e1lia, M\u00e9xico, Austr\u00e1lia e Peru.<\/p>\n<p>E o\u00a0<em>timing<\/em>\u00a0n\u00e3o podia ser melhor: a expans\u00e3o internacional da Atlas coincidiu com a pol\u00edtica externa agressiva de Ronald Reagan contra governos de esquerda mundo afora.<\/p>\n<p>Embora a Atlas declarasse publicamente que n\u00e3o recebia recursos p\u00fablicos (Fisher caracterizava as ajudas internacionais como uma forma de \u201csuborno\u201d que distorcia as for\u00e7as do mercado), h\u00e1 registros da tentativa silenciosa da rede de canalizar dinheiro p\u00fablico para sua lista cada vez maior de parceiros internacionais.<\/p>\n<p>Em 1982, em uma carta da Ag\u00eancia de Comunica\u00e7\u00e3o Internacional dos EUA \u2013 um pequeno \u00f3rg\u00e3o federal destinado a promover os interesses americanos no exterior \u2013, um funcion\u00e1rio do Escrit\u00f3rio de Programas do Setor Privado escreveu a Fisher em resposta a um pedido de financiamento federal. O funcion\u00e1rio diz n\u00e3o poder dar dinheiro \u201cdiretamente a organiza\u00e7\u00f5es estrangeiras\u201d, mas que seria poss\u00edvel copatrocinar \u201cconfer\u00eancias ou interc\u00e2mbios com organiza\u00e7\u00f5es\u201d de grupos como a Atlas, e sugere que Fisher envie um projeto. A carta, enviada um ano depois da funda\u00e7\u00e3o da Atlas, foi o primeiro ind\u00edcio de que a rede viria a ser uma parceira secreta da pol\u00edtica externa norte-americana.<\/p>\n<p>Memorandos e outros documentos de Fisher mostram que, em 1986, a Atlas j\u00e1 havia ajudado a organizar encontros com executivos para tentar direcionar fundos americanos para sua rede de\u00a0<em>think tanks<\/em>. Em uma ocasi\u00e3o, um funcion\u00e1rio da Ag\u00eancia dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), o principal bra\u00e7o de financiamento internacional do governo dos EUA, recomendou que o diretor da filial da Coca-Cola no Panam\u00e1 colaborasse com a Atlas para a cria\u00e7\u00e3o de um\u00a0<em>think tank<\/em>\u00a0nos moldes do IEA no pa\u00eds. A Atlas tamb\u00e9m recebeu fundos da Funda\u00e7\u00e3o Nacional para a Democracia (NED), uma organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos fundada em 1983 e patrocinada em grande parte pelo Departamento de Estado e a USAID cujo objetivo \u00e9 fomentar a cria\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis aos EUA nos pa\u00edses em desenvolvimento.<\/p>\n<p><strong>Financiada generosamente<\/strong>\u00a0por empresas e pelo governo americano, a Atlas deu outro golpe de sorte em 1985 com a chegada de Alejandro Chafuen. Linda Whetstone, filha de Fisher, conta um epis\u00f3dio ocorrido naquele ano, quando um jovem Chafuen, que ainda vivia em Oakland, teria aparecido no escrit\u00f3rio da Atlas em San Francisco \u201cdisposto a trabalhar de gra\u00e7a\u201d.<br \/>\nNascido em Buenos Aires, Chafuen vinha do que ele chamava \u201cuma fam\u00edlia anti-Peronista\u201d. Embora tenha crescido em uma \u00e9poca de grande agita\u00e7\u00e3o na Argentina, Chafuen vivia uma vida relativamente privilegiada, tendo passado a adolesc\u00eancia jogando t\u00eanis e sonhando em se tornar atleta profissional.<\/p>\n<p>Ele atribui suas escolhas ideol\u00f3gicas a seu apetite por textos libert\u00e1rios, de Ayn Rand a livretos publicados pela FEE, a organiza\u00e7\u00e3o de Leonard Read que havia inspirado Antony Fisher. Depois de estudar no Grove City College, uma escola de artes profundamente conservadora e crist\u00e3 no estado americano da Pensilv\u00e2nia, onde foi presidente do clube de estudantes libert\u00e1rios, Chafuen voltou ao pa\u00eds de nascen\u00e7a. Os militares haviam tomado o poder, alegando estar reagindo a uma suposta amea\u00e7a comunista. Milhares de estudantes e ativistas seriam torturados e mortos durante a repress\u00e3o \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o de esquerda no per\u00edodo que se seguiu ao golpe de Estado.<\/p>\n<p>Chafuen recorda essa \u00e9poca de maneira mais positiva do que negativa. Ele viria a escrever que os militares haviam sido obrigados a agir para evitar que os comunistas \u201ctomassem o poder no pa\u00eds\u201d. Durante sua carreira como professor, Chafuen diz ter conhecido \u201ctotalit\u00e1rios de todo tipo\u201d no mundo acad\u00eamico. Segundo ele, depois do golpe militar seus professores \u201cabrandaram-se\u201d, apesar das diferen\u00e7as ideol\u00f3gicas entre eles.<\/p>\n<p>Em outros pa\u00edses latino-americanos, o libertarianismo tamb\u00e9m encontrara uma audi\u00eancia receptiva nos governos militares. No Chile, depois da derrubada do governo democraticamente eleito de Salvador Allende, os economistas da Sociedade Mont P\u00e8lerin acorreram ao pa\u00eds para preparar profundas reformas liberais, como a privatiza\u00e7\u00e3o de ind\u00fastrias e da Previd\u00eancia. Em toda a regi\u00e3o, sob a prote\u00e7\u00e3o de l\u00edderes militares levados ao poder pela for\u00e7a, as pol\u00edticas econ\u00f4micas libert\u00e1rias come\u00e7aram a se enraizar.<\/p>\n<p>J\u00e1 o zelo ideol\u00f3gico de Chafuen come\u00e7ou a se manifestar em 1979, quando ele publicou um ensaio para a FEE intitulado \u201cWar Without End\u201d (Guerra Sem Fim). Nele, Chafuen descreve horrores do terrorismo de esquerda \u201ccomo a fam\u00edlia Manson, ou, de forma organizada, os guerrilheiros do Oriente M\u00e9dio, \u00c1frica e Am\u00e9rica do Sul\u201d. Haveria uma necessidade, segundo ele, de uma rea\u00e7\u00e3o das \u201cfor\u00e7as da liberdade individual e da propriedade privada\u201d.<\/p>\n<p>Seu entusiasmo atraiu a aten\u00e7\u00e3o de muita gente. Em 1980, aos 26 anos, Chafuen foi convidado a se tornar o membro mais jovem da Sociedade Mont P\u00e8lerin. Ele foi at\u00e9 Stanford, tendo a oportunidade de conhecer Read, Hayek e outros expoentes libert\u00e1rios. Cinco anos depois, Chafuen havia se casado com uma americana e estava morando em Oakland. E come\u00e7ou a fazer contato com membros da Mont P\u00e8lerin na \u00e1rea da Ba\u00eda de San Francisco \u2013 como Fisher.<\/p>\n<p>De acordo com as atas das reuni\u00f5es do conselho da Atlas, Fisher disse aos colegas que havia feito um pagamento ex gratia no valor de US$ 500 para Chafuen no Natal de 1985, declarando que gostaria de contratar o economista para trabalhar em tempo integral no desenvolvimento dos\u00a0<em>think tanks<\/em>\u00a0da rede na Am\u00e9rica Latina. No ano seguinte, Chafuen organizou a primeira c\u00fapula de\u00a0<em>think tanks<\/em>\u00a0latino-americanos, na Jamaica.<\/p>\n<p><strong>Chafuen compreendera o modelo da Atlas<\/strong>\u00a0e trabalhava incansavelmente para expandir a rede, ajudando a criar\u00a0<em>think tanks<\/em>\u00a0na \u00c1frica e na Europa, embora seu foco continuasse sendo a Am\u00e9rica Latina. Em uma palestra sobre como atrair financiadores, Chafuen afirmou que os doadores n\u00e3o podiam financiar publicamente pesquisas, sob o risco de perda de credibilidade. \u201cA Pfizer n\u00e3o patrocinaria uma pesquisa sobre quest\u00f5es de sa\u00fade, e a Exxon n\u00e3o financiaria uma enquete sobre quest\u00f5es ambientais\u201d, observou. Mas os\u00a0<em>think tanks<\/em>\u00a0libert\u00e1rios \u2013 como os da Atlas Network \u2013n\u00e3o s\u00f3 poderiam apresentar as mesmas pesquisas sob um manto de credibilidade como tamb\u00e9m poderiam atrair uma cobertura maior da m\u00eddia.<\/p>\n<p>\u201cOs jornalistas gostam muito de tudo o que \u00e9 novo e f\u00e1cil de noticiar\u201d, disse Chafuen. Segundo ele, a imprensa n\u00e3o tem interesse em citar o pensamento dos fil\u00f3sofos libert\u00e1rios, mas pesquisas produzidas por um\u00a0<em>think tank<\/em>\u00a0s\u00e3o mais facilmente reproduzidas. \u201cE os financiadores veem isso\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>Em 1991, tr\u00eas anos depois da morte de Fisher, Chafuen assumiu a dire\u00e7\u00e3o da Atlas \u2013 e p\u00f4s-se a falar sobre o trabalho da Atlas para potenciais doadores. E logo come\u00e7ou a conquistar novos financiadores. A Philip Morris deu repetidas contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 Atlas, inclusive uma doa\u00e7\u00e3o de US$ 50 mil em 1994, revelada anos depois. Documentos mostram que a gigante do tabaco considerava a Atlas uma aliada em disputas jur\u00eddicas internacionais.<\/p>\n<p>Mas alguns jornalistas chilenos descobriram que\u00a0<em>think tanks<\/em>\u00a0patrocinados pela Atlas haviam feito press\u00e3o por tr\u00e1s dos panos contra a legisla\u00e7\u00e3o antitabagista sem revelar que estavam sendo financiadas por empresas de tabaco \u2013 uma estrat\u00e9gia praticada por\u00a0<em>think tanks<\/em>\u00a0em todo o mundo.<\/p>\n<p>Grandes corpora\u00e7\u00f5es como ExxonMobil e MasterCard j\u00e1 financiaram a Atlas. Mas o grupo tamb\u00e9m atrai grandes figuras do libertarianismo, como as funda\u00e7\u00f5es do investidor John Templeton e dos irm\u00e3os bilion\u00e1rios Charles e David Koch, que cobriam a Atlas e seus parceiros de generosas e frequentes doa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cdn01.theintercept.com\/wp-uploads\/sites\/1\/2017\/08\/Atlas-sidebar_port27-1502477332-e1502478864652-1502479309.png?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p>A habilidade de Chafuen para levantar fundos resultou em um aumento do n\u00famero de pr\u00f3speras funda\u00e7\u00f5es conservadoras. Ele \u00e9 membro-fundador do Donors Trust, um discreto fundo orientado ao financiamento de organiza\u00e7\u00f5es sem fins lucrativos que j\u00e1 transferiu mais de US$ 400 milh\u00f5es a entidades libert\u00e1rias, incluindo membros da Atlas Network. Chafuen tamb\u00e9m \u00e9 membro do conselho diretor da Chase Foundation of Virginia, outra entidade financiadora da Atlas, fundada por um membro da Sociedade Mont P\u00e8lerin.<\/p>\n<p>Outra grande fonte de dinheiro \u00e9 o governo americano. A princ\u00edpio, a Funda\u00e7\u00e3o Nacional para a Democracia encontrou dificuldades para criar entidades favor\u00e1veis aos interesses americanos no exterior. Gerardo Bongiovanni, presidente da Fundaci\u00f3n Libertad, um<em>\u00a0think tank<\/em>\u00a0da Atlas em Rosario, na Argentina, afirmou durante uma palestra de Chafuen que a inje\u00e7\u00e3o de capital do Center for International Private Enterprise \u2013 parceiro do NED no ramo de subven\u00e7\u00f5es \u2013 fora de apenas US$ 1 milh\u00e3o entre 1985 e 1987. Os\u00a0<em>think tanks<\/em>\u00a0que receberam esse capital inicial logo fecharam as portas, alegando falta de treinamento em gest\u00e3o, segundo Bongiovanni.<\/p>\n<p>No entanto, a Atlas acabou conseguindo canalizar os fundos que vinham do NED e do CIPE, transformando o dinheiro do contribuinte americano em uma importante fonte de financiamento para uma rede cada vez maior. Os recursos ajudavam a manter\u00a0<em>think tanks<\/em>\u00a0na Europa do Leste, ap\u00f3s a queda da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, e, mais tarde, para promover os interesses dos EUA no Oriente M\u00e9dio. Entre os beneficiados com dinheiro do CIPE est\u00e1 a CEDICE Libertad, a entidade a que l\u00edder opositora venezuelana Mar\u00eda Corina Machado fez quest\u00e3o de agradecer.<\/p>\n<p><strong>No Brick Hotel<\/strong>, em Buenos Aires, Chafuen reflete sobre as tr\u00eas \u00faltimas d\u00e9cadas. \u201cFisher ficaria satisfeito; ele n\u00e3o acreditaria em quanto nossa rede cresceu\u201d, afirma, observando que talvez o fundador da Atlas ficasse surpreso com o atual grau de envolvimento pol\u00edtico do grupo.<\/p>\n<p>Chafuen se animou com a elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump para a presid\u00eancia dos EUA. Ele \u00e9 s\u00f3 elogios para a equipe do presidente. O que n\u00e3o \u00e9 nenhuma surpresa, pois o governo Trump est\u00e1 cheio de amigos e membros de grupos ligados \u00e0 Atlas. Sebastian Gorka, o islamof\u00f3bico assessor de contraterrorismo de Trump, dirigiu um\u00a0<em>think tank<\/em>\u00a0patrocinado pela Atlas na Hungria. O vice-presidente Mike Pence compareceu a um encontro da Atlas e teceu elogios ao grupo. A secret\u00e1ria de Educa\u00e7\u00e3o Betsy DeVos trabalhou com Chafuen no Acton Institute, um\u00a0<em>think tank<\/em>\u00a0de Michigan que usa argumentos religiosos a favor das pol\u00edticas libert\u00e1rias \u2013 e que agora tem uma entidade subsidi\u00e1ria no Brasil, o Centro Interdisciplinar de \u00c9tica e Economia Personalista.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cdn01.theintercept.com\/wp-uploads\/sites\/1\/2017\/08\/Atlas-sidebar_port2-1502477311-e1502478976241-1502479289.png?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p>Mas talvez a figura mais admirada por Chafuen no governo dos EUA seja Judy Shelton, uma economista e velha companheira da Atlas Network. Depois da vit\u00f3ria de Trump, Shelton foi nomeada presidente da NED. Ela havia sido assessora de Trump durante a campanha e o per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o. Chafuen fica radiante ao falar sobre o assunto: \u201cE agora tem gente da Atlas na presid\u00eancia da Funda\u00e7\u00e3o Nacional para a Democracia (NED)\u201d, comemora.<\/p>\n<p>Antes de encerrar a entrevista, Chafuen sugere que ainda vem mais por a\u00ed: mais\u00a0<em>think tanks<\/em>, mais tentativas de derrubar governos de esquerda, e mais pessoas ligadas \u00e0 Atlas nos cargos mais altos de governos ao redor do mundo. \u201c\u00c9 um trabalho cont\u00ednuo\u201d, diz.<\/p>\n<p>Mais tarde, Chafuen compareceu ao jantar de gala do Latin America Liberty Forum. Ao lado de um painel de especialistas da Atlas, ele discutiu a necessidade de refor\u00e7ar os movimentos de oposi\u00e7\u00e3o libert\u00e1ria no Equador e na Venezuela.<\/p>\n<p><em>(*) Danielle Mackey contribuiu na pesquisa para essa mat\u00e9ria.<\/em><\/p>\n<p><em>(**) Tradu\u00e7\u00e3o: Bernardo Tonasse<\/em><\/p>\n<p class=\"editor\">Fonte da mat\u00e9ria: &#8220;Think Tanks&#8221;: organiza\u00e7\u00f5es por tr\u00e1s da guinada da | Internacional &#8211; https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2017\/08\/14\/think-tanks-organizacoes-por-tras-da-guinada-da-direita-na-america-latina<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/article>\n<\/div>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lee Fang &#8211; Como os libert\u00e1rios americanos est\u00e3o reinventando a pol\u00edtica latino-americana com interesses neoliberais. Para Alejandro Chafuen, a reuni\u00e3o desta primavera no Brick Hotel, em Buenos Aires, foi tanto uma volta para casa quanto uma volta ol\u00edmpica. 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