{"id":18476,"date":"2022-11-04T12:47:31","date_gmt":"2022-11-04T15:47:31","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18476"},"modified":"2022-10-31T20:49:06","modified_gmt":"2022-10-31T23:49:06","slug":"teremos-que-nos-manter-mobilizados-para-superar-o-totalitarismo-neoliberal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/11\/04\/teremos-que-nos-manter-mobilizados-para-superar-o-totalitarismo-neoliberal\/","title":{"rendered":"Teremos que nos manter mobilizados para superar o totalitarismo neoliberal"},"content":{"rendered":"<div id=\"__reading__mode__header__container\" class=\"header_container\">\n<div id=\"header_content_id\" class=\"header_content\">\n<p id=\"mainContentTitle\" class=\"__reading__mode__extracted__title c0011\"><span style=\"font-size: 16px;\"><strong>NARA ROBERTA SILVA<\/strong> &#8211; O ex-presidente do Brasil e atual candidato \u00e0 presid\u00eancia Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores ( PT ), fala a apoiadores durante com\u00edcio em S\u00e3o Paulo, 24 de setembro de 2022.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"__reading__mode__mainbody__id\" class=\"__reading__mode__mainbody\">\n<div id=\"mainContainer\" class=\"__reading__mode__extracted__article__body\">\n<article class=\"normal\">\n<div class=\"post-header\">\n<p class=\"post-excerpt\">Os governos progressistas confrontaram o Consenso de Washington mas n\u00e3o foram capazes de superar o modelo exportador e enterrar a heran\u00e7a militar da ditadura. Em um novo mandato, Lula vai precisar manter os movimentos mobilizados para reverter os danos que o golpe e o governo Bolsonaro infligiram ao pa\u00eds.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"post-content\">\n<p class=\"has-drop-cap\">O dia 30 de outubro ser\u00e1 um momento decisivo na hist\u00f3ria do Brasil. Concorrendo \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o est\u00e1 o presidente em exerc\u00edcio de extrema direita Jair Bolsonaro; contra ele est\u00e1 Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, que serviu como presidente de 2003 a 2010. O pano de fundo \u00e9 a grave situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do Brasil, cen\u00e1rio pol\u00edtico ca\u00f3tico e um sentimento generalizado de desesperan\u00e7a sobre o futuro.<\/p>\n<p>O pa\u00eds testemunhou altos n\u00edveis de precariza\u00e7\u00e3o do trabalho e desemprego, al\u00e9m de uma infla\u00e7\u00e3o alt\u00edssima nos \u00faltimos anos. Os confrontos entre as esferas de governo e as \u201cfake news\u201d criaram um sentimento de desmoraliza\u00e7\u00e3o na popula\u00e7\u00e3o. A destrui\u00e7\u00e3o ambiental e os fiascos diplom\u00e1ticos isolaram o pa\u00eds internacionalmente. A m\u00e1 gest\u00e3o da pandemia, resultando em mais de 680.000 pessoas mortas, colocou o pa\u00eds de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.thenewhumanitarian.org\/news-feature\/2021\/7\/19\/pandemic-puts-brazil-back-on-the-world-hunger-map\">volta no mapa mundial da fome<\/a>.<\/p>\n<p class=\"destaque-centro\">\u201cAs fronteiras entre direitistas \u2018radicais\u2019 e \u2018sensatos\u2019 foram borradas nesta nova rodada de neoliberalismo.\u201d<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o contrasta fortemente com a primeira d\u00e9cada dos anos 2000, quando o Brasil tirou milh\u00f5es de pessoas da pobreza e se tornou protagonista da coopera\u00e7\u00e3o no Sul Global. O Brasil sob Bolsonaro ilustra claramente a forma como a agenda neoliberal evoluiu em meio a descontinuidades e reajustes no s\u00e9culo XXI \u2013 o que \u00e9 crucial para entender tanto as pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es quanto o que acontecer\u00e1 em seguida.<\/p>\n<p><strong>Neoliberalismo brasileiro\u00a0<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">O neoliberalismo \u00e9 um est\u00e1gio espec\u00edfico do capitalismo global em que o livre mercado e o livre com\u00e9rcio s\u00e3o apresentados como o bom funcionamento da economia, a iniciativa privada \u00e9 apontada como a solu\u00e7\u00e3o para as necessidades sociais e o Estado \u00e9 redistribu\u00eddo para impor coer\u00e7\u00e3o e repress\u00e3o.<\/p>\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, inclusive no Brasil, o neoliberalismo foi inicialmente proposto como um conjunto de reformas que englobava duas ideias principais: desregulamenta\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e abertura a investidores externos. Bolsonaro fez campanha e venceu em uma plataforma baseada em princ\u00edpios neoliberais, principalmente a redu\u00e7\u00e3o de direitos sociais e uma nova rodada de privatiza\u00e7\u00e3o de empresas estatais. Ele tem buscado completar o que o neoliberalismo deixou inacabado nos anos 1990 e in\u00edcio dos anos 2000 devido \u00e0 resist\u00eancia popular e aos governos de Lula e sua sucessora, Dilma Rousseff.<\/p>\n<p>Mas Bolsonaro n\u00e3o tem o ar cosmopolita que o neoliberalismo reivindicou anteriormente no Sul Global. Seu mandato faz parte da onda reacion\u00e1ria que vem crescendo no Brasil desde 2014. Intoler\u00e2ncia religiosa, homofobia, masculinidade t\u00f3xica, pap\u00e9is tradicionais de g\u00eanero e ret\u00f3rica anticient\u00edfica t\u00eam figurado com destaque nas propostas pol\u00edticas do governo, como novas investidas sobre a legisla\u00e7\u00e3o do aborto.<\/p>\n<p class=\"destaque-centro\">\u201cBolsonaro tem sido um ve\u00edculo eficaz para a consolida\u00e7\u00e3o de um cen\u00e1rio ideol\u00f3gico e cultural, definido pela dissemina\u00e7\u00e3o do ethos capitalista para al\u00e9m das classes dominantes.\u201d<\/p>\n<p>Muitos ainda acham incongruente ou mera coincid\u00eancia a coexist\u00eancia do que chamo de \u201cduas alas\u201d do governo Bolsonaro \u2013 seus valores reacion\u00e1rios e sua plataforma neoliberal. Mas esses valores reacion\u00e1rios n\u00e3o s\u00e3o uma cortina de fuma\u00e7a que distrai; eles s\u00e3o centrais para a implementa\u00e7\u00e3o de uma agenda neoliberal. O neoliberalismo exige uma cultura extremamente individualista, manifestada, por exemplo, na defesa do consumismo, da gest\u00e3o de si e do empreendedorismo. Bolsonaro tem sido um ve\u00edculo eficaz para a consolida\u00e7\u00e3o de um cen\u00e1rio ideol\u00f3gico e cultural, definido pela dissemina\u00e7\u00e3o do ethos capitalista para al\u00e9m das classes dominantes. Ele tamb\u00e9m promoveu o militarismo, e uma mentalidade de lei e ordem que apoia o uso da for\u00e7a extrajudicial. Tal cen\u00e1rio n\u00e3o desaparecer\u00e1 da noite para o dia, mesmo que Bolsonaro perca a reelei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por meio dos pronunciamentos p\u00fablicos aparentemente irracionais e do anti-intelectualismo do Bolsonaro, a ideia de p\u00fablico, no sentido de um povo inteiro, desaparece. E se o p\u00fablico desaparece, tamb\u00e9m desaparece a justificativa para a necessidade de qualquer coisa que se assemelhe a um Estado de bem-estar social. Embora Bolsonaro n\u00e3o tenha cumprido todas as reformas que prometeu em 2018 \u2013 como a\u00a0<a href=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2021\/08\/privatizando-os-lucros-publicos\/\">privatiza\u00e7\u00e3o dos correios<\/a>, setores do sistema prisional e o desmantelamento das carreiras no servi\u00e7o p\u00fablico \u2013 seu governo fez incurs\u00f5es nesse campo, principalmente por meio de uma reforma no sistema previdenci\u00e1rio e a\u00a0<a href=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2021\/06\/a-privatizacao-da-eletrobras-e-ruim-para-a-populacao-e-pessima-para-natureza\/\">privatiza\u00e7\u00e3o da maior empresa de energia el\u00e9trica do pa\u00eds<\/a>, a Eletrobras.<\/p>\n<p>Mais importante ainda, o governo de Bolsonaro minou o aparato estatal de um jeito nunca visto antes, com enormes implica\u00e7\u00f5es para a pol\u00edtica p\u00fablico no pa\u00eds avan\u00e7ar.<\/p>\n<p><strong>Destruindo o p\u00fablico\u00a0<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">O Brasil \u00e9 um pa\u00eds em que o n\u00edvel federal da administra\u00e7\u00e3o se destaca em abrang\u00eancia e escala. Um governo federal forte \u00e9 o que permite ao Brasil oferecer direitos como assist\u00eancia m\u00e9dica universal gratuita e educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica gratuita do jardim de inf\u00e2ncia ao doutorado. Mas Bolsonaro corroeu a capacidade do governo federal de funcionar ao longo de seus quatro anos no poder.<\/p>\n<p>Por um lado, o atual governo cortou o or\u00e7amento ou restringiu o poder de v\u00e1rias ag\u00eancias reguladoras. O \u00f3rg\u00e3o respons\u00e1vel pelos assuntos das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, e o \u00f3rg\u00e3o respons\u00e1vel pela sele\u00e7\u00e3o de estudantes para universidades p\u00fablicas, por exemplo, agora n\u00e3o t\u00eam meios para cumprir suas atribui\u00e7\u00f5es. Tais medidas enfraquecem os servi\u00e7os e responsabilidades do Estado e tamb\u00e9m servem como uma entrada para a privatiza\u00e7\u00e3o, inclusive por meio de organiza\u00e7\u00f5es sem fins lucrativos.<\/p>\n<p class=\"destaque-centro\">\u201cOs confrontos entre Bolsonaro e Jo\u00e3o Doria e Sergio Moro, pareciam uma amea\u00e7a ao bolsonarismo, mas eram principalmente confrontos de personalidade, sem diverg\u00eancias pol\u00edticas.\u201d<\/p>\n<p>Por outro lado, Bolsonaro modificou as pr\u00e1ticas fiscais do pa\u00eds e delegou o or\u00e7amento dos gastos federais aos parlamentares do Centr\u00e3o. Em troca, esses pol\u00edticos, espalhados por v\u00e1rios partidos autoproclamados de centro ou de direita, concordaram tacitamente em compor a base de Bolsonaro no Congresso. Ao longo de seu governo, Bolsonaro respondeu ao potencial isolamento pol\u00edtico consolidando uma alian\u00e7a com pol\u00edticos tradicionais, que agora t\u00eam seu poder mais arraigado localmente e podem contar com dinheiro do Estado para executar manobras pol\u00edticas para manter o status quo e suas pr\u00f3prias posi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, os confrontos entre Bolsonaro e algumas figuras proeminentes da direita, como o ex-governador de S\u00e3o Paulo Jo\u00e3o Doria, e o ex-ministro Sergio Moro, pareciam uma amea\u00e7a para Bolsonaro. Mas eram principalmente confrontos de personalidade, sem diverg\u00eancias em torno das pol\u00edticas centrais. As fronteiras entre direitistas \u201cradicais\u201d e \u201csensatos\u201d foram borradas nesta nova rodada de neoliberalismo.<\/p>\n<p>Bolsonaro planeja empurrar tudo isso em um novo mandato. Sua campanha claramente associa o \u201cempreendedorismo\u201d com a cria\u00e7\u00e3o de empregos e dignidade \u2013 sem nenhuma men\u00e7\u00e3o ao combate \u00e0s desigualdades. A eros\u00e3o da capacidade do Estado de fornecer bens e servi\u00e7os p\u00fablicos ser\u00e1 perseguida por meio de mais privatiza\u00e7\u00f5es. Diz-se que o acesso privado a armas contribui para a seguran\u00e7a p\u00fablica e, sem surpresa, o voluntarismo \u00e9 amplamente mencionado em materiais de campanha. Apresentando a fam\u00edlia como \u201cponto de partida\u201d e \u201cponto de chegada\u201d de todas as a\u00e7\u00f5es do governo, Bolsonaro articula o que chama de \u201ccaminho da prosperidade\u201d, uma suposta estrat\u00e9gia para o desenvolvimento do pa\u00eds, que se colocaria, diz ele, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 o \u201cciclo da pobreza\u201d criado pelo PT de Lula.<\/p>\n<p><strong>Lula em um novo Brasil\u00a0<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">Compare a plataforma de Bolsonaro com a de Lula. Atualmente o favorito, Lula fala em restabelecer o modelo social e econ\u00f4mico de seus mandatos anteriores, clamando pela reconstru\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o do Brasil. Ele ressalta que o governo de Bolsonaro significou a revoga\u00e7\u00e3o do que o pa\u00eds conquistou nos anos de governo do PT e prop\u00f5e uma combina\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es emergenciais e pol\u00edticas estruturais para reverter tais danos.<\/p>\n<p>O primeiro incluiria o combate \u00e0 infla\u00e7\u00e3o, a renegocia\u00e7\u00e3o da d\u00edvida privada (agora em n\u00edveis escandalosos) e medidas para combater a fome generalizada. No n\u00edvel estrutural, Lula menciona a reindustrializa\u00e7\u00e3o, o investimento em infraestrutura e habita\u00e7\u00e3o, a eleva\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo e a retomada de seu principal programa social, o Bolsa Fam\u00edlia (extirpado pelo atual governo). O comprometimento do PT em aumentar o sal\u00e1rio m\u00ednimo surgiu por press\u00e3o dos movimentos sociais,\u00a0 durante o segundo ano de Lula na presid\u00eancia em 2004 e \u00e9 a chave para explicar a transforma\u00e7\u00e3o da vida de tantos brasileiros naqueles anos.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio, Lula procurou construir alian\u00e7as e imprimir um car\u00e1ter de unidade nacional em sua candidatura ao terceiro mandato. Seu companheiro de chapa \u00e9 um velho advers\u00e1rio pol\u00edtico, Geraldo Alckmin, que liderou o Estado de S\u00e3o Paulo durante v\u00e1rios anos de pol\u00edticas de austeridade. Nas \u00faltimas semanas, a campanha de Lula intensificou as reivindica\u00e7\u00f5es de que os comprometidos com a democracia devem unir esfor\u00e7os e garantir sua vit\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"destaque-centro\">\u201cA \u2018mar\u00e9 rosa\u2019 nunca rejeitou o mercado e os governos progressistas trabalharam diligentemente para se posicionar suas economias nacionais dentro da economia capitalista global.\u201d<\/p>\n<p>Mas \u00e9 crucial considerar que Lula e sua equipe n\u00e3o t\u00eam clareza sobre as possibilidades de reimplementar uma f\u00f3rmula antiga. A campanha tem um apelo \u201cde volta ao passado glorioso\u201d \u2013 sem considerar as falhas do modelo social e econ\u00f4mico do PT.<\/p>\n<p>O Brasil de Lula e Dilma Rousseff foi um dos principais pa\u00edses da chamada \u201cmar\u00e9 rosa\u201d,\u00a0que inundou a Am\u00e9rica Latina na primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI. Como governos de esquerda e centro-esquerda, a\u00a0<a href=\"https:\/\/jacobin.com\/issue\/by-taking-power\">\u201cmar\u00e9 rosa\u201d se posicionou<\/a>\u00a0contra a receita do\u00a0<a href=\"https:\/\/inthesetimes.com\/article\/toward-a-new-washington-consensus\">Consenso de Washington<\/a>\u00a0de direita. Mas sua rela\u00e7\u00e3o com o neoliberalismo era mais complicada.<\/p>\n<p>Professando a cidadania inclusiva, esses governos foram capazes de decretar mudan\u00e7as tang\u00edveis. Por exemplo, no Brasil, a desigualdade entre negros e brancos diminuiu devido \u00e0s pol\u00edticas realizadas pelo PT. Mas a \u201cmar\u00e9 rosa\u201d nunca foi sobre rejeitar o mercado e esses governos progressistas trabalharam diligentemente para posicionar favoravelmente suas economias nacionais dentro da economia capitalista global.<\/p>\n<p>Deixando de lado algumas diferen\u00e7as nas respectivas abordagens dos pa\u00edses, a participa\u00e7\u00e3o na economia global se deu principalmente por meio da exporta\u00e7\u00e3o de bens prim\u00e1rios para pa\u00edses mais ricos como os EUA, mantendo assim o car\u00e1ter dependente (e altamente vulner\u00e1vel) das economias nacionais da Am\u00e9rica Latina. Particularmente no Brasil, o investimento estatal apoiando \u201ccampe\u00f5es nacionais\u201d resultou em conglomerados de produ\u00e7\u00e3o aliment\u00edcia, como JBS Foods \u2013 a maior empresa de processamento de carne do mundo \u2013 cujas atividades financeiras representam uma parte crucial de seus lucros corporativos. Os bancos viram suas margens crescerem fabulosamente durante a era petista e a mobilidade social ent\u00e3o vista no pa\u00eds tamb\u00e9m fez com que os mais ricos subissem ainda mais.<\/p>\n<p>Lula e sua equipe est\u00e3o empenhados em revitalizar o n\u00edvel federal, insistindo que o Brasil deve explorar seu maior potencial: seu mercado interno, uma fonte de produ\u00e7\u00e3o e consumo em massa. Mas o mundo de hoje n\u00e3o \u00e9 o mesmo em que ele subiu ao poder. Ningu\u00e9m pode realmente dizer se o padr\u00e3o de desenvolvimento adotado anteriormente \u2013 ou seja, usar o crescimento econ\u00f4mico para construir receitas do Estado para programas sociais e sustentar o sal\u00e1rio m\u00ednimo mais alto \u2013 gerar\u00e1 os mesmos frutos. Al\u00e9m disso, o enfraquecimento do Estado por Bolsonaro provavelmente restringir\u00e1 um novo governo Lula, exigindo uma s\u00e9rie de negocia\u00e7\u00f5es (e concess\u00f5es) com parlamentares mais empoderados e em um cen\u00e1rio mais desafiador.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio prec\u00e1rio, a esquerda foi convidada a dar um salto de f\u00e9 no apoio a Lula.<\/p>\n<p><strong>A luta n\u00e3o ir\u00e1 acabar<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">\u00a0A situa\u00e7\u00e3o encapsula os dilemas dos movimentos sociais no pa\u00eds nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas. Apesar de algumas contradi\u00e7\u00f5es, os governos do PT (e da \u201cmar\u00e9 rosa\u201d em geral) obtiveram ganhos reais. Mas seus anos no poder tamb\u00e9m significaram a completa desorganiza\u00e7\u00e3o da esquerda atrav\u00e9s da integra\u00e7\u00e3o de l\u00edderes do movimento no governo, o enfraquecimento das bases do movimento e o desaparecimento de novas lideran\u00e7as nos movimentos.<\/p>\n<p>O estado dram\u00e1tico da esquerda se resume ao desacordo e \u00e0 confus\u00e3o em torno do equil\u00edbrio de mudan\u00e7as incrementais e estruturais \u2013 tornando a esquerda mais ampla e radical subordinada aos movimentos do PT, enfraquecendo sua capacidade de resistir a ataques e reagir. A ascens\u00e3o de Bolsonaro acrescentou mais elementos neste preju\u00edzo.<\/p>\n<p>Como o governo Bolsonaro promoveu a pulveriza\u00e7\u00e3o do modesto Estado de bem-estar social brasileiro, a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de que a casa inteira est\u00e1 pegando fogo. Mas a esquerda tem sido reativa em vez de proativa, aproveitando a indigna\u00e7\u00e3o, mas incapaz de construir campanhas substancialmente mais radicais.<\/p>\n<p>Bolsonaro deixou claro que o desafio da esquerda \u00e9 combinar tarefas cujos os ritmos n\u00e3o coincidem. Por um lado, parar Bolsonaro e seu projeto neoliberal destrutivo \u00e9 urgente. Por outro lado, \u00e9 crucial combater a ideologia fortalecida ao longo e atrav\u00e9s de seu governo e forjar uma alternativa real ao neoliberalismo. Mas esse \u00e9 um processo que leva tempo.<\/p>\n<p>A fr\u00e1gil posi\u00e7\u00e3o da esquerda fica evidente no\u00a0<a href=\"https:\/\/jacobin.com\/2022\/09\/jair-bolsonaro-far-right-coup-brazil-lula-presidential-election\">perigo de um golpe<\/a>\u00a0ou de alguma interrup\u00e7\u00e3o no processo eleitoral por parte dos militares e Bolsonaro. Enquanto ele est\u00e1 fazendo tentativas finais para conquistar setores da classe empresarial e melhorar sua posi\u00e7\u00e3o entre as mulheres, ele tamb\u00e9m usou seus \u00faltimos dias de campanha para aumentar sua ret\u00f3rica sobre fraude eleitoral, com o objetivo de minar a confian\u00e7a do p\u00fablico na democracia.<\/p>\n<p>Esse esfor\u00e7o espec\u00edfico de desinforma\u00e7\u00e3o est\u00e1 em andamento h\u00e1 mais de um ano \u2013 de fato, as tentativas de desacreditar as elei\u00e7\u00f5es nos Estados Unidos forneceram um modelo para Bolsonaro. No entanto, a capacidade de resist\u00eancia popular, caso Bolsonaro decida dar seguimento \u00e0s suas amea\u00e7as de rejeitar a legitimidade de uma derrota eleitoral, \u00e9 dif\u00edcil de medir. Ao longo de seu mandato, Bolsonaro consolidou um ter\u00e7o do eleitorado. Com o aumento da posse de armas, n\u00e3o \u00e9 segredo que seus apoiadores podem ir al\u00e9m dos casos de viol\u00eancia f\u00edsica, j\u00e1 vistos neste ciclo eleitoral. Mas como a principal estrat\u00e9gia de Bolsonaro tem sido colocar em d\u00favida as urnas eletr\u00f4nicas, qualquer forma de usurpa\u00e7\u00e3o de poder, caso aconte\u00e7a, provavelmente se basear\u00e1 em alega\u00e7\u00f5es de m\u00e1 conduta eleitoral.<\/p>\n<p class=\"destaque-centro\">\u201cOs militares ecoam a tese de que as urnas n\u00e3o s\u00e3o confi\u00e1veis e assumiram a tarefa de auditar os votos \u2013 a primeira vez que as For\u00e7as Armadas participar\u00e3o do processo eleitoral desde o fim da ditadura.\u201d<\/p>\n<p>Tal empreitada encontra resson\u00e2ncia entre os mais importantes aliados de Bolsonaro neste momento hist\u00f3rico tenso: os militares. Desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o no final da d\u00e9cada de 1980, as For\u00e7as Armadas se redefiniram, afirmando ser especialistas em gest\u00e3o e log\u00edstica e o segmento mais eficiente do pa\u00eds. Por meio de tal cobertura, os militares aos poucos conquistaram cargos em governos democraticamente eleitos, desde o de Fernando Henrique Cardoso nos anos 1990, at\u00e9 o de Dilma Rousseff em 2010.<\/p>\n<p>Com Bolsonaro, o n\u00famero de militares no governo aumentou dramaticamente, inclusive em cargos-chave, avan\u00e7ando assim a ideia de que os civis n\u00e3o est\u00e3o aptos para governar e que a democracia, no final, n\u00e3o funciona. Os militares agora ecoam a tese de que as urnas n\u00e3o s\u00e3o confi\u00e1veis e assumiram a tarefa de auditar os sistemas de contagem de votos \u2013 a primeira vez que as For\u00e7as Armadas participar\u00e3o t\u00e3o profundamente do processo eleitoral desde o fim da ditadura.<\/p>\n<p>Votar em Lula \u00e9 uma escolha consequente nesta encruzilhada da hist\u00f3ria. As chances de ele vencer no a elei\u00e7\u00e3o s\u00e3o favor\u00e1veis, assumindo nenhuma interfer\u00eancia, e um terceiro mandato dele deve ser comemorado pela esquerda, especialmente considerando os anos de feroz discurso antipetista e anti-esquerda ap\u00f3s o golpe contra Dilma Rousseff. Mas mesmo que Lula ven\u00e7a, as perspectivas ainda n\u00e3o s\u00e3o boas. A luta para reconstruir o Brasil vai ser dura e vamos precisar de muita mobiliza\u00e7\u00e3o para superar todos esses impasses.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Teremos que nos manter mobilizados para superar o totalitarismo neoliberal &#8211; https:\/\/jacobin.com.br\/2022\/10\/teremos-que-nos-manter-mobilizados-para-superar-o-totalitarismo-neoliberal\/<\/p>\n<\/div>\n<\/article>\n<\/div>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>NARA ROBERTA SILVA &#8211; O ex-presidente do Brasil e atual candidato \u00e0 presid\u00eancia Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores ( PT ), fala a apoiadores durante com\u00edcio em S\u00e3o Paulo, 24 de setembro de 2022. 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