{"id":18451,"date":"2022-10-28T12:04:56","date_gmt":"2022-10-28T15:04:56","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18451"},"modified":"2022-10-25T21:09:03","modified_gmt":"2022-10-26T00:09:03","slug":"democratizacao-da-comunicacao-em-colapso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/10\/28\/democratizacao-da-comunicacao-em-colapso\/","title":{"rendered":"Democratiza\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o em colapso"},"content":{"rendered":"<div id=\"__reading__mode__header__container\" class=\"header_container\">\n<div id=\"header_content_id\" class=\"header_content\">\n<p id=\"mainContentTitle\" class=\"__reading__mode__extracted__title c0011\"><span style=\"font-size: 16px;\"><strong>Pedro Ekman &#8211; <\/strong>Sustentar a luta por uma comunica\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica nesta quadra hist\u00f3rica nos obriga a olhar tamb\u00e9m para o espec\u00edfico e n\u00e3o apenas para caminhos universalizantes.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"__reading__mode__mainbody__id\" class=\"__reading__mode__mainbody\">\n<div id=\"mainContainer\" class=\"__reading__mode__extracted__article__body\">\n<div class=\"container\">\n<article class=\"article\">\n<div class=\"entry-content\">\n<p>Com o surgimento do\u00a0<a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/radiografia-de-uma-revolucao-colorida\/\">r\u00e1dio<\/a>, acreditou-se que a comunica\u00e7\u00e3o social at\u00e9 ent\u00e3o dominada pelos meios escritos e impressos sofreria uma transforma\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica radical. Acreditava-se que, finalmente, a informa\u00e7\u00e3o poderia chegar a muitos indiv\u00edduos ao mesmo tempo, atravessando longas dist\u00e2ncias. Uma revolu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica que abria um portal para o novo mundo. O conte\u00fado falado iria circular por um campo extremamente vasto, ampliando o debate para al\u00e9m dos poucos letrados que habitavam esse mundo.<\/p>\n<p>Entretanto, o r\u00e1dio n\u00e3o alterava, ele apenas amplificava o mesmo desenho tecnopol\u00edtico de concentra\u00e7\u00e3o existente na imprensa, pois mantinha linhas de difus\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o unidirecionais ponto-massa. O\u00a0<a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/as-doencas-do-capitalismo-e-a-luta-contra-o-agronegocio\/\">capitalismo<\/a>\u00a0se encarregou de que essa estrutura de concentra\u00e7\u00e3o se estabelecesse nas camadas econ\u00f4micas e de poder. Assim, a sociedade impulsionada pela TV e pelo r\u00e1dio foi aquela onde muitos escutam e poucos falam. Uma democracia com os contornos de seus donos. Um sistema pol\u00edtico violento, de \u00f3dio aos pobres, persecut\u00f3ria das dissid\u00eancias sexuais, sexista e racista. Minha gera\u00e7\u00e3o cresceu nesse mundo em boa parte apresentado pela TV.<\/p>\n<p>Com a chegada da internet, a cren\u00e7a na virada pol\u00edtica pela virada tecnol\u00f3gica foi exatamente a mesma. A nova tecnologia viria destruir a concentra\u00e7\u00e3o de poder medi\u00e1tico existente na radiodifus\u00e3o ao possibilitar que todos os indiv\u00edduos conectados em rede pudessem livremente gerir o envio e recebimento de informa\u00e7\u00f5es, sem precisar depender das grandes estruturas tecnol\u00f3gicas concentradas nas m\u00e3os de poucos. Assim como no r\u00e1dio, o desenho t\u00e9cnico da difus\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es foi alterando em escala, e desta vez, tamb\u00e9m na forma. O meio agora n\u00e3o era mais unidirecional e de difus\u00e3o ponto-massa, mas sim uma rede que permitia interatividade conectando ponto-massa, massa-ponto e ponto-ponto, o que mudaria o tabuleiro abrindo novas possibilidades. Tal como aconteceu com o r\u00e1dio, o capitalismo tamb\u00e9m se encarregou de frustrar as expectativas. As plataformas intermedi\u00e1rias entre os pontos de troca se tornaram os novos concentradores de poder, assumindo um controle jamais visto em escala global.<\/p>\n<p>Se na era da radiodifus\u00e3o grandes monop\u00f3lios nacionais privados definiam o que entrava no debate p\u00fablico e o que ficava de fora, com a internet, cicl\u00f3picas corpora\u00e7\u00f5es transnacionais v\u00e3o se tornando propriet\u00e1rias e controladoras da circula\u00e7\u00e3o de praticamente todo tipo de informa\u00e7\u00e3o e em uma velocidade avassaladora. Nos caminhos que poderiam ser livres e desimpedidos, rapidamente se instalam catracas de controle total. Elas definem as regras de funcionamento, julgam e executam.<\/p>\n<p>Uma produ\u00e7\u00e3o exorbitante de dados sobre tudo e todos se constitui como um grande ativo econ\u00f4mico, de tal maneira que se torna praticamente inexistente a fronteira entre a comunica\u00e7\u00e3o e a economia propriamente dita. O controle dos meios de comunica\u00e7\u00e3o sempre representou um controle sobre as sociedades de suas \u00e9pocas, foi assim das primeiras estradas ao algoritmo, passando pelas rotas transoce\u00e2nicas coloniais. Hoje, os meios de comunica\u00e7\u00e3o possuem uma concentra\u00e7\u00e3o de poder extremamente alta, um alcance hiperabrangente e uma parcela de participa\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o dos modos de vida que tende a totalidade nos grandes centros urbanos. A chamada sociedade do controle est\u00e1 em curso, n\u00e3o apenas pelos sofisticados empreendimentos de vigil\u00e2ncia em massa, mas tamb\u00e9m pela gest\u00e3o ininterrupta da produ\u00e7\u00e3o de subjetividade. O desejo parece ter sido capturado pela tela.<\/p>\n<h4>O feiti\u00e7o moderno<\/h4>\n<p>Os movimentos que lutam pela democratiza\u00e7\u00e3o das comunica\u00e7\u00f5es no Brasil foram forjados no contexto de defesa da Constitui\u00e7\u00e3o cidad\u00e3 de 1988. Focaram energias em tentar produzir um ambiente regulat\u00f3rio atrav\u00e9s da disputa por pol\u00edticas p\u00fablicas e encamparam batalhas legislativas que fossem capaz de criar o equil\u00edbrio dos sistemas p\u00fablico, privado e estatal, previstos na Constitui\u00e7\u00e3o Federal.<\/p>\n<p>A luta era conduzida em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 difus\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es mais plural e diversa poss\u00edvel, na contram\u00e3o da concentra\u00e7\u00e3o em monop\u00f3lios produzida pelo capitalismo brasileiro. O cen\u00e1rio regulat\u00f3rio da radiodifus\u00e3o permaneceu est\u00e1vel por d\u00e9cadas, sem grandes saltos tecnol\u00f3gicos que mudassem significativamente as quest\u00f5es colocadas. E mesmo nesse longo tempo, n\u00e3o foi poss\u00edvel produzir vit\u00f3rias que transformassem estruturalmente o cen\u00e1rio de concentra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Atualmente, o cen\u00e1rio de converg\u00eancia digital n\u00e3o leva sequer uma d\u00e9cada para apresentar novos desafios extremamente complexos de serem resolvidos por uma regra universal. O tempo da formula\u00e7\u00e3o leis e da elabora\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es judiciais parece estar em total descompasso em rela\u00e7\u00e3o ao tempo dos problemas digitais. Da mesma forma, diferente do contexto de quatro d\u00e9cadas atr\u00e1s, o capitalismo em seu est\u00e1gio atual reservou um papel lateral aos Estados Nacionais no tabuleiro de regras de desenvolvimento. A batalha por pol\u00edticas p\u00fablicas e elabora\u00e7\u00f5es legislativas em curto espa\u00e7o de tempo e no enfrentamento de desafios e interesses cada vez maiores tem se resumido a tentativas de conten\u00e7\u00e3o de dano. O inimigo a ser derrotado parece ter crescido exponencialmente de tamanho e as ferramentas que conhec\u00edamos para combater o inimigo anterior j\u00e1 n\u00e3o produziram \u00eaxito satisfat\u00f3rio. Mesmo importantes vit\u00f3rias s\u00e3o ignoradas ou jogadas contra quem as produziu.<\/p>\n<p>O Marco Civil da Internet, uma lei brasileira reconhecida internacionalmente pelo seus avan\u00e7os e ineditismo, define em seu artigo nono que a rede deve ser neutra. No entanto, quase que concomitante a sua implementa\u00e7\u00e3o, as corpora\u00e7\u00f5es transnacionais conseguiram normalizar um modelo de neg\u00f3cio que oferta gratuitamente suas aplica\u00e7\u00f5es para os usu\u00e1rios na rede m\u00f3vel, pr\u00e1tica conhecida como zero-rating, em detrimento de outras aplica\u00e7\u00f5es que consomem os planos de dados dos usu\u00e1rios. A oferta de Facebook, Whatsapp e Instagram \u201cde gra\u00e7a\u201d moldou o consumo da internet no Brasil, consagrando determinados usos e bloqueando inova\u00e7\u00f5es poss\u00edveis que nunca conseguiriam vencer esse tipo de concorr\u00eancia. As corpora\u00e7\u00f5es transnacionais de tecnologia tragaram a navega\u00e7\u00e3o da rede para dentro de muros. A internet virou um grande calabou\u00e7o colorido.<\/p>\n<p>O texto inovador do Marco Civil da Internet impede que isso aconte\u00e7a, mas acontece \u00e0 luz do dia e aos olhos de todos. A Lei Geral de Prote\u00e7\u00e3o de Dados, outra ferramenta importante constru\u00edda para se garantir minimamente a privacidade diante de um cen\u00e1rio colossal de extra\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o de dados, hoje \u00e9 utilizada contra a Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o para se evitar a transpar\u00eancia de informa\u00e7\u00f5es do Estado, que deveriam ser p\u00fablicas e acess\u00edveis. Um jogo m\u00f3rbido que estamos condenados a jogar sem nunca de fato poder vencer.<\/p>\n<p>A cren\u00e7a de que uma nova ferramenta como o r\u00e1dio ou a internet por si s\u00f3 produziria um novo mundo necessariamente mais livre parece estar dentro do contexto que Gilbert Simondon chamou de \u201cfeiti\u00e7o moderno\u201d. Invocar algumas ideias deste fil\u00f3sofo da t\u00e9cnica nos ajuda a pensar sobre o percurso que nos trouxe at\u00e9 o estado atual das coisas. Ele coloca que:<\/p>\n<p><em>\u201cO desejo de poder consagra a m\u00e1quina como meio de supremacia e faz dela o feiti\u00e7o moderno. O homem que quer dominar seus semelhantes invoca a m\u00e1quina androide. Ent\u00e3o abdica diante dela e lhe delega sua humanidade. Procura construir a m\u00e1quina de pensar, sonha poder construir a m\u00e1quina de querer, a m\u00e1quina de viver, para permanecer atr\u00e1s dela sem ang\u00fastia, livre de todo o perigo, isento de qualquer sentimento de fraqueza, triunfando indiretamente atrav\u00e9s daquilo que inventou. (\u2026) A m\u00e1quina \u00e9 apenas um meio. O fim \u00e9 a conquista da natureza, a domestica\u00e7\u00e3o das for\u00e7as naturais por meio de uma primeira subjuga\u00e7\u00e3o: a m\u00e1quina \u00e9 um escravo que serve para fazer outros escravos. Essa inspira\u00e7\u00e3o dominadora e escravagista pode chocar-se com uma busca de liberdade pela humanidade. Mas \u00e9 dif\u00edcil libertar-se transferindo a escravid\u00e3o para outros seres, sejam homens, animais ou m\u00e1quinas; reinar sobre uma popula\u00e7\u00e3o de m\u00e1quinas, escravizando o mundo inteiro, ainda \u00e9 reinar, e todo reinado pressup\u00f5e a aceita\u00e7\u00e3o de esquemas de escraviza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Para Simondon, a t\u00e9cnica \u00e9 um meio e uma express\u00e3o de desejo da rela\u00e7\u00e3o entre a humanidade e o mundo, n\u00e3o apenas do que desejamos, mas fundamentalmente de como desejamos. O empreendimento colonial desde que atracou neste continente seguiu seu curso sem se deter at\u00e9 os dias de hoje, se instalou como t\u00e9cnica de exterm\u00ednio de qualquer rela\u00e7\u00e3o tecnopol\u00edtica que recuse a inspira\u00e7\u00e3o dominadora e escravagista de conquista do que seria o mundo natural, a natureza. Para o colonizador, tudo ao alcance da sua t\u00e9cnica \u00e9 recurso explor\u00e1vel, min\u00e9rios, plantas e animais humanos ou n\u00e3o. Imediatamente toda media\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica com o mundo que n\u00e3o se estabele\u00e7a entre \u201cdominantes e dominados\u201d \u00e9 identificada como obsoleta, como primitiva, e o progresso \u00e9 o movimento que supera o obsoleto, que elimina sua exist\u00eancia. Os bandeirantes abriram suas estradas em meio a mata eliminando e escravizando os povos que negavam e resistiam a esse mundo invasor, devorador de outros mundos. A radiodifus\u00e3o e a internet n\u00e3o s\u00e3o estradas muito diferentes das abertas pelos bandeirantes. Os mecanismos de domina\u00e7\u00e3o e controle est\u00e3o todos l\u00e1 e nem o capitalismo, nem os Estados, t\u00eam qualquer receio em utilizar.<\/p>\n<p>O massacre n\u00e3o \u00e9 um desvio da hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 um excesso cometido ou um erro. Ele \u00e9 parte da estrutura que constr\u00f3i e sustenta a civiliza\u00e7\u00e3o. O massacre faz parte da t\u00e9cnica.\u00a0<em>\u201cEstamos condenados \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o. Ou progredimos ou desaparecemos\u201d<\/em>, anuncia Euclides da Cunha ao falar do massacre de Canudos, evento inaugural da Rep\u00fablica.\u00a0<em>Exterminate All the Brutes<\/em>\u00a0nas palavras e imagens do cineasta haitiano Raoul Peck. Canudos n\u00e3o tinha permiss\u00e3o para existir na Rep\u00fablica, eram dois mundos incompat\u00edveis. Pouco tempo depois da promulga\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, o massacre do Carandiru nos lembra que o contrato que segue vigente \u00e9 o colonial e foi esse mesmo contrato que levou tropas militares ao Haiti, mesmo em governos de for\u00e7as pol\u00edticas que sempre defenderam o contr\u00e1rio. Um governo progressista ainda \u00e9 um governo da ordem e do progresso.<\/p>\n<h4>Tentemos de tudo<\/h4>\n<p>Os zapatistas descrevem o contexto atual como o de uma quarta guerra mundial, uma guerra de usurpa\u00e7\u00e3o contra os povos em seus territ\u00f3rios. Uma guerra de mundos, onde o mundo colonial s\u00f3 pode existir exterminando todos os outros. N\u00e3o se trata mais de mudar o mundo, mas de lutar por um mundo onde caibam muitos mundos, pela resist\u00eancia desses mundos que se quer exterminar.<\/p>\n<p>Estamos diante de dispositivos comunicacionais geradores de um controle jamais visto. A tecnologia que prometia conectar a todos o fez da forma mais individualizante poss\u00edvel. Estamos todos em rede, mas cada um por si. A economia da captura de aten\u00e7\u00e3o de maneira eficiente nos transforma nas pilhas humanas retratadas nas mais dist\u00f3picas fic\u00e7\u00f5es cient\u00edficas da literatura e do cinema. Amigos de um Comit\u00ea Invis\u00edvel nos lembram que \u201ctodas as raz\u00f5es para fazer uma revolu\u00e7\u00e3o est\u00e3o a\u00ed. N\u00e3o falta nenhuma. Mas n\u00e3o s\u00e3o as raz\u00f5es que fazem as revolu\u00e7\u00f5es, s\u00e3o os corpos. E os corpos est\u00e3o diante das telas\u201d.<\/p>\n<p>Enquanto nas cidades todos pedem por conex\u00e3o de internet cada vez mais veloz, o povo Guarani Mbya, em S\u00e3o Paulo, estuda como construir ferramentas coletivas de controle sobre a conex\u00e3o de internet, a fim de diminuir sua acelera\u00e7\u00e3o sobre a vida e se defender da captura ininterrupta de aten\u00e7\u00e3o que corr\u00f3i a vida comunit\u00e1ria. Eles querem mediar a participa\u00e7\u00e3o que a internet ter\u00e1 na vida, um movimento de esquiva que os manteve vivos at\u00e9 aqui escapando dos efeitos das mais variadas tecnologias coloniais.<\/p>\n<p>Precisamos conseguir combinar m\u00faltiplas estrat\u00e9gias de luta. Ainda que tentar descolonizar o Estado seja equivalente a tentar despatriarcalizar o patriarcado, nas palavras do jornalista uruguaio Ra\u00fal Zibechi, manter as armas que se conhece no campo de batalha \u00e9 necess\u00e1rio para, ao menos, tentar frear o rolo compressor e domar minimamente o Estado. Temos que come\u00e7ar a elaborar estrat\u00e9gias que levem em considera\u00e7\u00e3o esta realidade apocal\u00edptica de fim de mundo e para isso temos que convocar a experi\u00eancia e o conhecimento t\u00e9cnico dos especialistas em fins de mundo, dos povos que tiveram seus mundos terminados pelo projeto colonial e ainda assim est\u00e3o de p\u00e9 resistindo por s\u00e9culos contra um inimigo cicl\u00f3pico e incans\u00e1vel. Povos ind\u00edgenas e quilombolas foram capazes de produzir tecnologias de resist\u00eancia capazes de resistir ao maior holocausto j\u00e1 produzido na hist\u00f3ria da humanidade. Essas tecnologias s\u00e3o frequentemente negligenciadas e desacreditadas pelo feiti\u00e7o moderno que as considera primitivas, mas foram fundamentais na resist\u00eancia e s\u00e3o fontes preciosas para a elabora\u00e7\u00e3o de novas estrat\u00e9gias diante de um fim de mundo que chega agora para todos os povos.<\/p>\n<p>Sustentar a luta por uma comunica\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica nesta quadra hist\u00f3rica nos obriga olhar tamb\u00e9m para o espec\u00edfico e n\u00e3o apenas para caminhos universalizantes que se imponham sobre todos os territ\u00f3rios, bem como aprender com experi\u00eancias que estruturam solu\u00e7\u00f5es coletivas para ataques individualizantes. N\u00e3o podemos ficar presos na armadilha da disputa entre a atua\u00e7\u00e3o da \u201cgrande pol\u00edtica\u201d, de quest\u00f5es nacionais e internacionais, e a da \u201cmicro-pol\u00edtica\u201d, territorializada, que supostamente n\u00e3o acumularia para uma mudan\u00e7a estrutural. O zapatismo se desfaz dessa armadilha se definindo como um movimento territorial ind\u00edgena, como um ex\u00e9rcito de liberta\u00e7\u00e3o nacional e como um movimento anticapitalista internacionalista, um exemplo de que n\u00e3o h\u00e1 contradi\u00e7\u00e3o em sustentar estrat\u00e9gias em esferas distintas.<\/p>\n<p>O l\u00edder curdo Abudullah \u00d6calan define o capitalismo n\u00e3o como um sistema econ\u00f4mico, mas como um sistema de poder, um projeto de domina\u00e7\u00e3o sobre as mulheres, negros e povos origin\u00e1rios. Pensando por esse \u00e2ngulo, \u00e9 importante que para al\u00e9m das disputas do poder consigamos aprender tamb\u00e9m como come\u00e7ar a recusar o poder. Diversos territ\u00f3rios em rebeldia ao redor do mundo recusam o que o capitalismo lhes reserva para sustentar um mundo sem massacres, sem pris\u00f5es, sem pol\u00edcia, sem governantes e sem governados.<\/p>\n<p>Democratizar a comunica\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds implica em implementar estrat\u00e9gias internacionais, em criar prot\u00f3tipos da comunica\u00e7\u00e3o que queremos. Depende de fazermos aqui e agora com nossos pr\u00f3prios corpos essa realidade sonhada e desejada. Nada est\u00e1 garantido, tentemos de tudo.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Democratiza\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o em colapso &#8211; https:\/\/diplomatique.org.br\/democratizacao-da-comunicacao-em-colapso\/<\/p>\n<\/div>\n<\/article>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pedro Ekman &#8211; Sustentar a luta por uma comunica\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica nesta quadra hist\u00f3rica nos obriga a olhar tamb\u00e9m para o espec\u00edfico e n\u00e3o apenas para caminhos universalizantes. Com o surgimento do\u00a0r\u00e1dio, acreditou-se que a comunica\u00e7\u00e3o social at\u00e9 ent\u00e3o dominada pelos meios escritos e impressos sofreria uma transforma\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica radical. 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