{"id":18449,"date":"2022-10-27T12:02:30","date_gmt":"2022-10-27T15:02:30","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18449"},"modified":"2022-10-25T21:04:27","modified_gmt":"2022-10-26T00:04:27","slug":"o-ultimo-trabalho-de-hobsbawm","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/10\/27\/o-ultimo-trabalho-de-hobsbawm\/","title":{"rendered":"O \u00faltimo trabalho de Hobsbawm"},"content":{"rendered":"<p><strong>MIKE BEGGS<\/strong> &#8211; Este m\u00eas completa 10 anos que o historiador socialista Eric Hobsbawm nos deixou. Aqui nos lembramos de seu \u00faltimo livro, <i>Como mudar o mundo<\/i>, que rev\u00ea a trajet\u00f3ria do marxismo &#8211; obra se tornou mais urgente em meio \u00e0 crise do capitalismo.<\/p>\n<p>H\u00e1 apenas um pouco de luz no final do pen\u00faltimo cap\u00edtulo \u2014 o mais sombrio de todos \u2014 da hist\u00f3ria do marxismo escrita por Eric Hobsbawm: talvez o fardo do \u201csocialismo realmente existente\u201d deixe de pesar sobre as costas das novas gera\u00e7\u00f5es e isso nos permita voltar a Marx. \u201cHoje, s\u00f3 quem tem mais de trinta anos guarda alguma lembran\u00e7a direta dos anos da Guerra Fria.\u201d<\/p>\n<p>A ideia de que Marx foi o \u201cinspirador do terror e do gulag, e os comunistas [\u2026] essencialmente defensores, sen\u00e3o protagonistas, do terror e da KGB\u201d n\u00e3o tem mais validade do que \u201ca tese de que todo o cristianismo deve levar l\u00f3gica e necessariamente ao absolutismo papal, ou todo o darwinismo para a glorifica\u00e7\u00e3o da livre competi\u00e7\u00e3o capitalista\u201d. A maioria dos \u201ccomunistas realmente existentes\u201d no Ocidente eram cr\u00edticos ao stalinismo desde 1956 (sim, diz Hobsbawm, que permaneceu no Partido Comunista Brit\u00e2nico at\u00e9 os anos 1980, alinhado \u201cimplicitamente\u201d com os partidos que defendiam a orienta\u00e7\u00e3o de Moscou). Mas os anticomunistas sempre acharam a ideia de que o socialismo significa Stalin e uma estrat\u00e9gia ret\u00f3rica eficaz. \u00c9 uma maneira de mudar o eixo toda vez que os socialistas iniciam uma conversa. Mas \u00e9 claro que, \u00e0 medida que a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e o Grande Salto Adiante retrocedem na hist\u00f3ria, as sombras que lan\u00e7am sobre a ideia de uma sociedade p\u00f3s-capitalista continuar\u00e3o a encolher.<\/p>\n<p>Hobsbawm n\u00e3o teve a mesma sorte. O\u00a0<em>Guardian\u00a0<\/em>decidiu ati\u00e7ar o apologista da Guerra do Iraque, Nick Cohen, contra\u00a0<em>Como mudar o mundo\u00a0<\/em>e o que conseguiu foi\u00a0<a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/books\/2011\/feb\/06\/eric-hobsbawm-marx-review-cohen\">um quarto de resenha cr\u00edtica<\/a>\u00a0e tr\u00eas quartos de linhas requentadas como: \u201cSe Hobsbawm tivesse seguido a l\u00f3gica de suas convic\u00e7\u00f5es e deixado a Alemanha nazista para buscar asilo na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica em vez da Gr\u00e3-Bretanha, suas chances de sobreviv\u00eancia teriam sido pequenas\u201d.<\/p>\n<p>Em uma \u201c<a href=\"https:\/\/www.themonthly.com.au\/how-change-world-tales-marx-and-marxism-eric-hobsbawm-john-keane-3071\">resenha<\/a>\u201d no\u00a0<em>Monthly\u00a0<\/em>australiano, John Keane menciona o livro de Hobsbawm tr\u00eas vezes, duas para reclamar de coisas que ele n\u00e3o escreveu, como \u201ca antiquada fixa\u00e7\u00e3o de Marx na conquista da natureza atrav\u00e9s do trabalho, sua incapacidade de compreender o papel constitutivo da linguagem nos assuntos humanos e sua afirma\u00e7\u00e3o equivocada de que o materialismo hist\u00f3rico era uma ci\u00eancia como a de Darwin\u201d, mais o \u201cfato de que Joseph Stalin sozinho matou mais comunistas do que todos os ditadores do s\u00e9culo XX juntos, ou que o marxismo levou pa\u00edses inteiros \u00e0 mis\u00e9ria\u201d.<\/p>\n<p>Esses ataques s\u00e3o irritantes no caso de Hobsbawm. As pessoas que leem uma hist\u00f3ria do marxismo com o maior interesse provavelmente t\u00eam certo compromisso e compartilham sua pol\u00edtica at\u00e9 certo ponto. Mas, como Perry Anderson apontou a prop\u00f3sito da autobiografia de Hobsbawm, desde\u00a0<em>A Era dos extremos\u00a0<\/em>o ingl\u00eas tende a escrever como se explicasse ou se desculpasse por sua pol\u00edtica para uma audi\u00eancia de\u00a0<em>establishment<\/em>. Hobsbawm sentia certo orgulho cada vez que a imprensa repetia seu discurso sobre \u201co retorno de Marx\u201d, sobre Marx prevendo a \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d, ou a crise financeira mundial, ou a queda do comunismo.<\/p>\n<p>De fato, o primeiro cap\u00edtulo de\u00a0<em>Como Mudar o Mundo\u00a0<\/em>\u00e9 baseado em um discurso de Hobsbawm gravado no\u00a0<em>New<\/em>\u00a0<em>Statesman<\/em>\u00a0em 2006 sob o t\u00edtulo \u201cThe New Globalization Guru?\u201d (O guru da nova globaliza\u00e7\u00e3o). Ele termina o ensaio final (originalmente uma palestra proferida em 1999) dizendo que tanto socialistas quanto neoliberais \u201ct\u00eam interesse em retornar a um pensador fundamental cuja ess\u00eancia \u00e9 a\u00a0<em>cr\u00edtica\u00a0<\/em>tanto do capitalismo quanto dos economistas que falharam em reconhecer aonde a globaliza\u00e7\u00e3o capitalista levaria\u201d. Mas os liberais s\u00e3o um p\u00fablico ingrato e pensam que as esperan\u00e7as pol\u00edticas que definiram a vida de Hobsbawm s\u00e3o est\u00fapidas, na melhor das hip\u00f3teses, e \u00e9 uma vergonha ajoelhar-se diante delas.<\/p>\n<p>Felizmente, na maioria dos ensaios deste livro, Hobsbawm tem em mente os marxistas e seus pares do passado e do futuro. \u00c9 at\u00e9 conceb\u00edvel que Hobsbawm tenha escrito em parte para n\u00f3s, a gera\u00e7\u00e3o que veio depois da Guerra Fria e que foi atra\u00edda por Marx e os diferentes tipos de marxismo sem nenhum compromisso com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, e que em nenhum caso poderia ser acusada de ter uma consci\u00eancia culpada em rela\u00e7\u00e3o a Stalin.<\/p>\n<p>Assim como Hobsbawm, nascido em 1917, se lembra com surpresa de ter conhecido Gorbachev em um an\u00fancio da Pizza Hut, experimentamos o fato de receber essa transmiss\u00e3o de algu\u00e9m que teve sua experi\u00eancia pol\u00edtica formadora em 1936 com a Frente Popular nas ruas de Paris. Mais velho de uma gera\u00e7\u00e3o inteira em rela\u00e7\u00e3o aos estudantes radicalizados da d\u00e9cada de 1960, Hobsbawm manteve uma dist\u00e2ncia muito maior da Nova Esquerda do que seus quase contempor\u00e2neos do marxismo brit\u00e2nico, E.P. Thompson e Raymond Williams, aos quais ele sobreviveu em muitos anos. Sua mensagem vem mais da velha esquerda, do classismo de 1936, mas tamb\u00e9m, paradoxalmente ou n\u00e3o, da ninhada dos anos 1980 do\u00a0<em>Marxism Today<\/em>, que criticava o trabalhismo de Tony Benn \u00e0 direita.<\/p>\n<p>Terry Eagleton observou na\u00a0<em>London Review of Books\u00a0<\/em>que Hobsbawm escreve sobre a hist\u00f3ria do marxismo de forma t\u00e3o desapaixonada que seria dif\u00edcil descobrir pela leitura que ele era um defensor de sua pol\u00edtica. \u00c9 um b\u00f4nus: longe de ser uma celebra\u00e7\u00e3o,\u00a0<em>Como Mudar o Mundo\u00a0<\/em>\u00e9 uma tentativa honesta de avaliar as fraquezas e ganhos do marxismo. A esse respeito, conclui sem rodeios:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Os textos \u201ccl\u00e1ssicos\u201d n\u00e3o s\u00e3o facilmente utilizados como manuais de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, porque os movimentos marxistas de hoje \u2013 e provavelmente os do futuro \u2013 est\u00e3o em situa\u00e7\u00f5es que t\u00eam pouco em comum (exceto acidentes hist\u00f3ricos tempor\u00e1rios) com aqueles em que Marx, Engels e os movimentos socialistas e comunistas da primeira metade deste s\u00e9culo elaboraram suas t\u00e1ticas e estrat\u00e9gias.<\/p><\/blockquote>\n<p>A primeira metade do livro trata desses textos cl\u00e1ssicos e re\u00fane muitos dos ensaios que Hobsbawm escreveu entre os anos 1960 e 2000 sobre as obras de Marx e Engels. S\u00e3o textos com muita exegese, mas n\u00e3o do tipo inf\u00e9rtil que trata os textos como um universo em si, completo e autocontido. O objetivo \u00e9 sempre historicizar e contextualizar e, na medida do poss\u00edvel no saturado campo dos estudos marxistas, a an\u00e1lise traz novos insights. Por exemplo, num estudo sobre a influ\u00eancia dos socialistas ut\u00f3picos, ele argumenta que eles tiveram um impacto duradouro sobre a dupla, n\u00e3o abandonado ap\u00f3s a cr\u00edtica no\u00a0<em>Manifesto<\/em>, e de certa forma at\u00e9 aprofundado nos escritos maduros, com Fourier sendo uma presen\u00e7a importante na\u00a0<em>Origem da Fam\u00edlia, da Propriedade Privada e do Estado<\/em>\u00a0de Engels, e \u201co jovem Engels [\u2026] claramente muito menos impressionado com os saint-simonians do que no Engels maduro\u201d.<\/p>\n<p>Em um dos cap\u00edtulos mais fortes dessa parte, \u201cMarx, Engels e a pol\u00edtica\u201d (publicado originalmente em italiano em 1982), Hobswbawm enfatiza as mudan\u00e7as nas ideias de Marx e Engels ao longo do tempo e as mudan\u00e7as que trouxeram em suas estrat\u00e9gias pol\u00edticas: do otimismo das revolu\u00e7\u00f5es e contrarrevolu\u00e7\u00f5es de 1848, passando pelo pessimismo sobre as perspectivas imediatas da revolu\u00e7\u00e3o nos anos restantes da vida de Marx, especialmente depois de verificar que a crise de 1857 n\u00e3o havia desencadeado outra onda de revoltas, at\u00e9 o papel de Engels como personagem ilustre na nascente social-democracia alem\u00e3. Hobsbawm volta a fatos conhecidos, mas que vale a pena repetir: a aus\u00eancia de um dilema entre reforma e revolu\u00e7\u00e3o na perspectiva de Marx; a insist\u00eancia desde o\u00a0<em>Manifesto\u00a0<\/em>at\u00e9 a d\u00e9cada de 1870 de que os comunistas n\u00e3o deveriam formar seitas pol\u00edticas que os isolariam do movimento real da classe trabalhadora; e a antecipa\u00e7\u00e3o do longo processo de transforma\u00e7\u00e3o socialista que precederia ou seguiria qualquer revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria vitoriosa, dada a profunda distin\u00e7\u00e3o entre um\u00a0<em>Estado\u00a0<\/em>e uma\u00a0<em>sociedade<\/em>.<\/p>\n<p>\u00c9 \u00f3bvio que Hobsbawm pretende tirar conclus\u00f5es que sirvam \u00e0s estrat\u00e9gias atuais, embora tamb\u00e9m fa\u00e7a um grande esfor\u00e7o para destacar a dist\u00e2ncia que nos separa da situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da \u00faltima metade do s\u00e9culo XIX e, consequentemente, qu\u00e3o est\u00fapido seria tentar recriar as estrat\u00e9gias de Marx e Engels. Mais importante ainda \u00e9 o fato de que Marx e Engels n\u00e3o tiveram a experi\u00eancia do sufr\u00e1gio universal e n\u00e3o puderam prever como a estrutura de conflito e acordo pol\u00edticos evoluiria a partir disso. (Isso tamb\u00e9m revela o anacronismo do ataque de John Keane no\u00a0<em>Monthly<\/em>, sua acusa\u00e7\u00e3o rid\u00edcula de que o ardente defensor dos cartistas via a democracia parlamentar como \u201cperfumaria burguesa\u201d, e que o veterano de 1848, exilado pela rea\u00e7\u00e3o do continente, estava cego para os \u201cpotenciais males e abusos\u201d do \u201cpoder concentrado\u201d). Se h\u00e1 uma ideia b\u00e1sica que separa a estrat\u00e9gia marxista da liberal ou da ut\u00f3pica, sugere Hobsbawm, \u00e9 precisamente o reconhecimento da import\u00e2ncia do contexto hist\u00f3rico e a rejei\u00e7\u00e3o do voluntarismo, a cren\u00e7a de que a sociedade pode ser mudada simplesmente pela moralidade ou pela for\u00e7a de vontade.<\/p>\n<p>Os cap\u00edtulos subsequentes tratam da recep\u00e7\u00e3o de Marx e Engels: um trata das rea\u00e7\u00f5es vitorianas (mais medidas e calmas em uma \u00e9poca de confian\u00e7a burguesa), e outro da hist\u00f3ria de publica\u00e7\u00e3o de suas obras. Todos sabem que Marx n\u00e3o terminou\u00a0<em>O capital<\/em>, que os \u00faltimos livros foram produzidos por Engels e Kautsky a partir de rascunhos, e que os\u00a0<em>Manuscritos Econ\u00f4micos e Filos\u00f3ficos de 1844<\/em>\u00a0e os\u00a0<em>Grundrisse\u00a0<\/em>foram artefatos do s\u00e9culo XX, acess\u00edveis a muito poucas pessoas at\u00e9 alguns anos ap\u00f3s o fim da Segunda Guerra Mundial. Mas Hobsbawm faz um excelente trabalho em retra\u00e7ar que sentido esse corpo mut\u00e1vel de \u201ccl\u00e1ssicos\u201d teve para o movimento, tanto como causa quanto como efeito das mudan\u00e7as e rupturas pelas quais o \u201cmarxismo\u201d passou: textos reprimidos, textos esquecidos, textos redescobertos e usados \u200b\u200bcomo armas ret\u00f3ricas.<\/p>\n<p>Esses cap\u00edtulos funcionam como uma ponte para a segunda parte do livro, que trata da hist\u00f3ria do marxismo do ano 1880 ao ano 2000. Exceto por uma lacuna infeliz \u2013 os anos cr\u00edticos de 1914 a 1929 \u2013, trata-se de uma hist\u00f3ria relativamente unificada. Tr\u00eas desses ensaios foram escritos no \u00e2mbito do mesmo projeto italiano de trinta anos atr\u00e1s e outro ent\u00e3o rec\u00e9m-escrito para completar a hist\u00f3ria at\u00e9 a virada do mil\u00eanio. No entanto, \u00e9 importante notar o que o texto\u00a0<em>n\u00e3o \u00e9<\/em>: uma hist\u00f3ria abrangente do marxismo como um movimento. Em vez disso, \u00e9 uma hist\u00f3ria da\u00a0<em>influ\u00eancia\u00a0<\/em>do marxismo, na qual o movimento aparece principalmente como um meio pelo qual as ideias se espalham (embora as fortunas e os problemas do movimento tamb\u00e9m tenham mudado o curso dessas ideias).<\/p>\n<p>Nesta parte do livro, Hobsbawm n\u00e3o est\u00e1 especialmente interessado no \u201ccomunismo oficial\u201d do tipo chin\u00eas ou sovi\u00e9tico, principalmente depois de 1945, provavelmente por consider\u00e1-lo est\u00e9ril, uma esp\u00e9cie de t\u00famulo do pensamento marxista. Trata-se sobretudo de uma hist\u00f3ria do marxismo no Ocidente, embora Hobsbawm n\u00e3o analise exclusivamente a Europa ou o campo do \u201cmarxismo ocidental\u201d de fil\u00f3sofos e cr\u00edticos liter\u00e1rios. O espectro hist\u00f3rico e geogr\u00e1fico coberto por esses pequenos ensaios \u00e9 amplo em detrimento da profundidade do conte\u00fado: s\u00e3o esbo\u00e7os descritivos e n\u00e3o genealogias detalhadas, embora certas formas revelem seus contornos mais claramente quando vistos de longe.<\/p>\n<p>Mais importante \u00e9 a grande lacuna que Hobsbawm tra\u00e7a entre o marxismo antes da Segunda Guerra Mundial e o marxismo das d\u00e9cadas de 1950 e 1960. Na d\u00e9cada de 1930, o marxismo tendia a ser fundado em um pequeno c\u00e2none de textos cl\u00e1ssicos: Marx, Engels, Lenin e uma sele\u00e7\u00e3o da Segunda Internacional. Foi quase totalmente exclu\u00eddo da universidade e desenvolvido principalmente no \u00e2mbito de partidos comunistas intelectualmente autossuficientes. Muitos intelectuais ocidentais se juntaram a grupos marxistas dissidentes, especialmente os trotskistas, \u201cmas esses grupos eram t\u00e3o pequenos em termos num\u00e9ricos comparados aos partidos comunistas que eram quantitativamente insignificantes\u201d. De qualquer forma, quando Hobsbawm estava estabelecendo sua carreira como historiador ap\u00f3s a guerra, quase n\u00e3o havia alguns trabalhos \u201cmarxistas ou quase marxistas\u201d sobre hist\u00f3ria escritos em ingl\u00eas. Na d\u00e9cada de 1960, o mundo era muito diferente:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>A partir da d\u00e9cada de 1960, os marxistas intelectuais mergulharam em um oceano de literatura e debate marxistas. Eles acessaram algo como um enorme supermercado de marxismos e autores marxistas, e o fato de que em cada caso a escolha da maioria de um pa\u00eds pudesse ser determinada pela hist\u00f3ria, pela situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e pela moda n\u00e3o os impedia de conhecer a enorme variedade de op\u00e7\u00f5es que eles tinham. Isso cresceu ainda mais desde que o marxismo, novamente a partir da d\u00e9cada de 1960, come\u00e7ou a se integrar cada vez mais ao conte\u00fado do ensino superior formal, pelo menos nas ci\u00eancias humanas e sociais.<\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9 claro que Hobsbawm esteve na vanguarda dessa entrada nas institui\u00e7\u00f5es e foi um dos historiadores que mais contribuiu para o florescimento das abordagens marxistas em sua disciplina. Mas, como seria de esperar de algu\u00e9m que ficou no partido depois de 1956, quando a maioria de seus companheiros estava abandonando o navio, ele \u00e9 altamente ambivalente quanto a essa evolu\u00e7\u00e3o do movimento. Seu cap\u00edtulo de 1945-1983 retrata o per\u00edodo como um grande florescimento e o amadurecimento do marxismo como for\u00e7a intelectual (embora tamb\u00e9m reconhe\u00e7a que marcou o ponto de partida de seu decl\u00ednio pol\u00edtico). A d\u00e9cada de 1960 multiplicou consumidores e produtores de literatura marxista a uma taxa \u201cespetacular\u201d, e na d\u00e9cada de 1970 o marxismo emergiu como uma for\u00e7a dentro da maioria das ci\u00eancias sociais acad\u00eamicas. Hobsbawm compara esse crescimento radical a 1848: surgiu do nada e desapareceu quase instantaneamente, mas deixou para tr\u00e1s muito mais do que parecia. A base social do marxismo no Ocidente era agora prioritariamente intelectual, e a base da classe trabalhadora, onde existia, estava desaparecendo.<\/p>\n<p>Encontramos uma caricatura muitas vezes injusta das v\u00edtimas da moda te\u00f3rica da Nova Esquerda dos anos 1970, e Hobsbawm cita as frases mais ultrajantes de alguns althusserianos \u2013 ou seja, \u201co estudo da hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 apenas cientificamente, mas tamb\u00e9m politicamente, in\u00fatil\u201d \u2013 enquanto no mais das vezes ignorava seus pares como E.P. Thompson, Raymond Williams e Perry Anderson, que combinaram pesquisas s\u00e9rias com o compromisso de abrir espa\u00e7os pol\u00edticos fora dos partidos comunista e trabalhista. No entanto, ele n\u00e3o deixa d\u00favidas quanto ao fato de que o marxismo oficial estava intelectualmente atrofiado e n\u00e3o havia como voltar atr\u00e1s:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Ele tendia a ser reduzido a alguns elementos simples, quase slogans: a import\u00e2ncia fundamental da luta de classes, a explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, os camponeses do terceiro mundo, a rejei\u00e7\u00e3o ao capitalismo ou ao imperialismo, a necessidade da revolu\u00e7\u00e3o e da luta revolucion\u00e1ria (incluindo a luta armada), a condena\u00e7\u00e3o ao \u201creformismo\u201d e ao \u201crevisionismo\u201d, a indispensabilidade de uma \u201cvanguarda\u201d e outras coisas desse tipo. Essas simplifica\u00e7\u00f5es permitiram libertar o marxismo de todo contato com as complexidades do mundo real, j\u00e1 que a an\u00e1lise se destinava a demonstrar as verdades anunciadas em sua forma pura. Portanto, essas verdades poderiam ser combinadas com estrat\u00e9gias de puro voluntarismo ou qualquer outra que os militantes preferissem.<\/p><\/blockquote>\n<p>Em \u00faltima an\u00e1lise, o destino do marxismo dependia menos, sugere Hobsbawm, dos elementos intr\u00ednsecos ao seu pensamento do que do decl\u00ednio do movimento oper\u00e1rio: condi\u00e7\u00f5es que n\u00e3o dependiam das decis\u00f5es dos marxistas. O \u00faltimo cap\u00edtulo retoma o balan\u00e7o da hist\u00f3ria intelectual para discutir a rela\u00e7\u00e3o entre o marxismo e o movimento oper\u00e1rio ao longo do s\u00e9culo XX. Marx e Engels nunca previram que o movimento pudesse ser integrado ao quadro pol\u00edtico capitalista de forma est\u00e1vel, mas isso faz muito sentido em uma perspectiva materialista.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Em suma, os pa\u00edses (constitucionais) do capitalismo desenvolvido, em que as revolu\u00e7\u00f5es n\u00e3o estavam na agenda [\u2026] tiveram a presen\u00e7a de revolucion\u00e1rios dentro ou fora dos movimentos trabalhistas, mas a maioria dos trabalhadores organizados, mesmo os mais conscientes, eles normalmente n\u00e3o eram revolucion\u00e1rios, mesmo quando seus pr\u00f3prios partidos estavam comprometidos com o socialismo [\u2026]. Portanto, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, nada nos estados mais importantes do capitalismo desenvolvido parecia impedir a simbiose entre trabalho e um sistema econ\u00f4mico pr\u00f3spero.<\/p><\/blockquote>\n<p>Os comunistas sempre cumpriram mais o papel de cr\u00edticos internos do movimento trabalhista do que de l\u00edderes. O ano de 1917 parecia introduzir a revolu\u00e7\u00e3o no reino do poss\u00edvel (e surpreendeu at\u00e9 mesmo os fabianos), mas de uma forma que teve consequ\u00eancias dram\u00e1ticas para o marxismo ocidental: o comunismo tornou-se para sempre associado \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Antes que o velho marinheiro o atingisse com sua besta, o albatroz era um sinal de boa sorte, e o \u201csocialismo realmente existente\u201d veio primeiro como uma revela\u00e7\u00e3o. Mas de repente o comunismo tornou-se uma sociedade estrangeira, com problemas \u00f3bvios, e deixou de ser uma promessa de desenvolvimento doloroso mas org\u00e2nico de um capitalismo mortalmente ferido.<\/p>\n<p>Os comunistas come\u00e7aram a se preocupar tanto com a geopol\u00edtica quanto com as perspectivas nacionais de seus movimentos trabalhistas, e essas preocupa\u00e7\u00f5es muitas vezes se contradiziam. A Grande Depress\u00e3o chegou com a era heroica da Frente Popular, mas sua gl\u00f3ria diminuiu com o pacto Molotov-Ribbentrop. Ap\u00f3s a guerra, tudo o que veio depois de 1917 acabou sendo um desvio tempor\u00e1rio de uma tend\u00eancia de longo prazo: a transforma\u00e7\u00e3o do trabalhismo em elemento funcional da sociedade capitalista e dos socialistas \u2013 aliados ou n\u00e3o da URSS \u2013 em cr\u00edticos atuantes nas margens, ou mesmo fora, do movimento.<\/p>\n<p>Nessa perspectiva, o decl\u00ednio do Partido Trabalhista desde a d\u00e9cada de 1970 foi um golpe muito mais decisivo para o marxismo no Ocidente do que a queda da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, porque a maioria das ilus\u00f5es do \u201csocialismo realmente existente\u201d foi deixada para tr\u00e1s d\u00e9cadas antes. Hobsbawm n\u00e3o tem uma explica\u00e7\u00e3o muito elaborada para essa mudan\u00e7a para o \u201cneoliberalismo\u201d, mas suas consequ\u00eancias s\u00e3o claras: quando mesmo as reformas mais modestas do capitalismo tornam-se propostas marginais, o socialismo converte-se na margem da margem e perde oxig\u00eanio.<\/p>\n<p>Hobsbawm acha que o marxismo tem futuro? Em certo sentido, sua sobreviv\u00eancia \u00e9 garantida como uma parte substantiva da tradi\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica das ci\u00eancias sociais acad\u00eamicas. A ci\u00eancia social especificamente \u201cmarxista\u201d dissolveu amplamente suas fronteiras com outras correntes, que se mostraram tanto receptivas \u00e0s ideias marxistas quanto capazes de torn\u00e1-las mais produtivas. N\u00e3o haver\u00e1, e de fato n\u00e3o deveria haver, um retorno ao marxismo \u201ccl\u00e1ssico\u201d, que os bons materialistas hist\u00f3ricos teriam que analisar como um produto de seu tempo:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Mesmo que ressurgisse um consenso sobre o que constitui a corrente principal (ou as correntes) do marxismo, \u00e9 prov\u00e1vel que ele opere a uma dist\u00e2ncia muito maior dos textos originais dos \u201ccl\u00e1ssicos\u201d do que no passado. \u00c9 improv\u00e1vel que esses textos voltem a ser referidos, como eram no passado, como um corpo coerente de teoria e doutrina intrinsecamente consistentes, como uma descri\u00e7\u00e3o \u00fatil das economias e sociedades atuais, ou como um guia direto para a a\u00e7\u00e3o atual dos marxistas. A ruptura na continuidade da tradi\u00e7\u00e3o marxista provavelmente n\u00e3o ser\u00e1 completamente repar\u00e1vel.<\/p><\/blockquote>\n<p>A sobreviv\u00eancia acad\u00eamica, claramente, n\u00e3o \u00e9 um consolo. O marxismo tem futuro pol\u00edtico? Hobsbawm definitivamente n\u00e3o \u00e9 otimista. Mas, ao mesmo tempo, deixa a impress\u00e3o de que, por mais dif\u00edcil que seja imaginar a supera\u00e7\u00e3o do capitalismo no curto prazo, \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o pensar que o socialismo n\u00e3o estar\u00e1 na ordem do dia no longo prazo. Hobsbawm ainda pensa que Marx estava basicamente certo sobre a l\u00f3gica do capitalismo: crescente centraliza\u00e7\u00e3o e at\u00e9 socializa\u00e7\u00e3o na organiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o combinada com crises recorrentes. Ele s\u00f3 pensa que Marx estava errado quando afirmou que o proletariado era o coveiro do capitalismo, e deixa essa posi\u00e7\u00e3o vaga.<\/p>\n<p>\u00c9 inevit\u00e1vel que aqueles entre n\u00f3s que chegaram t\u00e3o atrasados na festa, por assim dizer, tenham uma perspectiva diferente. Descobrimos Marx muito depois que os fracassos do marxismo e do \u201csocialismo realmente existente\u201d se tornaram aparentes, em um per\u00edodo de regress\u00e3o prolongada no movimento trabalhista. E, no entanto, ainda encontramos algo valioso. Muitos de n\u00f3s, talvez a maioria, aprenderam muito com nosso Marx na faculdade, profundamente perturbados pelo florescimento intelectual da d\u00e9cada de 1970 que Hobsbawm define como o ponto alto do movimento.<\/p>\n<p>O curso de sua vida passou por ascens\u00e3o e queda \u00e9picas que naturalmente deram forma a suas conclus\u00f5es. Temos muito mais futuro. Hobsbawm est\u00e1 certo ao dizer que o marxismo \u00e9 acad\u00eamico sem um movimento trabalhista com margens para perseguir. Mas \u00e9 dif\u00edcil convencer-se de que o movimento trabalhista esteja morto, mesmo nos pa\u00edses ricos do Ocidente. \u00c9 surpreendente notar que neste livro a express\u00e3o \u201cclasse trabalhadora\u201d \u00e9 quase sempre acompanhada pelo adjetivo \u201cindustrial\u201d e, de fato, \u00e9 improv\u00e1vel que os futuros movimentos trabalhistas sejam dominados por trabalhadores fabris. Mas em um sentido amplo, no sentido marxista, o proletariado inclui qualquer um que tenha que trabalhar para viver. Esses prolet\u00e1rios continuam entre n\u00f3s e muitos chegam a frequentar a universidade.<\/p>\n<p>As reformas ter\u00e3o que renascer antes que haja pessoas a quem possamos falar da revolu\u00e7\u00e3o novamente. Mas o ponto que Hobsbawm considera o cerne da abordagem marxista da pol\u00edtica nunca perder\u00e1 sua relev\u00e2ncia: a estrat\u00e9gia pol\u00edtica funciona dentro de uma estrutura de for\u00e7as sociais que nenhum impulso moral voluntarioso pode superar. Esta tese admite m\u00faltiplas leituras, e no passado Hobsbawm optou por uma t\u00e3o errada quanto a dos comunistas de direita da d\u00e9cada de 1980, que tentaram salvar os trabalhistas brit\u00e2nicos de um Tony Benn ineleg\u00edvel (como se os trabalhistas precisassem de marxistas para cuidar de seus interesses eleitorais)\u2026 Mas isso n\u00e3o significa que n\u00e3o podemos l\u00ea-la corretamente.<\/p>\n<p>Os ut\u00f3picos ing\u00eanuos de nossos dias est\u00e3o ocupados escrevendo artigos apartid\u00e1rios que prop\u00f5em reformas racionais ou regulamenta\u00e7\u00f5es financeiras e defendem a redu\u00e7\u00e3o das desigualdades porque estas s\u00e3o prejudiciais ao tecido social, \u00e0 sa\u00fade e \u00e0 seguran\u00e7a. Mas n\u00e3o h\u00e1 um caminho genu\u00edno que n\u00e3o leve \u00e0 polariza\u00e7\u00e3o dos interesses de classe e \u00e0 eclos\u00e3o de um movimento, e se temos algo a aprender com a pol\u00edtica das \u00faltimas d\u00e9cadas \u00e9 que n\u00e3o haver\u00e1 ganhos duradouros se eles n\u00e3o atingirem fundamentalmente os ricos e o seu poder.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: O \u00faltimo trabalho de Hobsbawm &#8211; https:\/\/jacobin.com.br\/2022\/10\/o-ultimo-trabalho-de-hobsbawm\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MIKE BEGGS &#8211; Este m\u00eas completa 10 anos que o historiador socialista Eric Hobsbawm nos deixou. Aqui nos lembramos de seu \u00faltimo livro, Como mudar o mundo, que rev\u00ea a trajet\u00f3ria do marxismo &#8211; obra se tornou mais urgente em meio \u00e0 crise do capitalismo. 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