{"id":18393,"date":"2022-10-16T12:09:54","date_gmt":"2022-10-16T15:09:54","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18393"},"modified":"2022-10-10T22:12:58","modified_gmt":"2022-10-11T01:12:58","slug":"os-socialistas-nao-vao-ocupar-minha-casa-e-invadir-minha-fazenda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/10\/16\/os-socialistas-nao-vao-ocupar-minha-casa-e-invadir-minha-fazenda\/","title":{"rendered":"Os socialistas n\u00e3o v\u00e3o ocupar minha casa e invadir minha fazenda?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Pedro Rangel<\/strong> &#8211; \u201cO trabalho volunt\u00e1rio e dos movimentos sociais \u00e9 muito mais efetivo\u201d. Na pandemia, ambos os movimentos fizeram cozinhas solid\u00e1rias e distribu\u00edram comida. Pode ficar em paz. Movimentos de luta pela terra, como o MST, ou de luta por moradia, como o MTST, bem diferente do que a propaganda da direita quer passar, s\u00e3o os que mais lutam pelo direito de todos terem um teto e alimento para viver com dignidade.<\/p>\n<p>Historicamente, governos brasileiros de direita como o de Bolsonaro buscam, a todo custo, reverter conquistas hist\u00f3ricas da classe trabalhadora, frutos de uma \u00e1rdua luta coletiva que se desenvolve cotidianamente. Desde 2016, os ataques contra o\u00a0<a href=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2021\/06\/a-atualidade-da-reforma-agraria\/\">Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra<\/a>\u00a0(MST) e\u00a0<a href=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2022\/03\/o-que-aprendi-com-os-sem-teto\/\">Movimento dos Trabalhadores Sem Teto<\/a>\u00a0(MTST) se intensificaram.<\/p>\n<p>Escolhidos como inimigos preferenciais pelos conservadores e pela classe propriet\u00e1ria, s\u00e3o taxados como \u201cterroristas vermelhos\u201d e \u201cinvasores\u201d da propriedade alheia, buscando legitimar a viol\u00eancia dos patr\u00f5es e do Estado contra eles. A caracteriza\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es populares como \u201ccriminosas\u201d n\u00e3o \u00e9 apenas mera bravata que expressa acirramento da ofensiva ideol\u00f3gica reacion\u00e1ria, mas uma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria a dar forma \u00e0 pol\u00edtica pr\u00e1tica dos que visam aprofundar \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de terra arrasada para a popula\u00e7\u00e3o trabalhadora brasileira \u2014 e justificar a continuidade de uma verdadeira guerra aos pobres.<\/p>\n<p>Com o aprofundamento da crise social capitalista, escancarada com a chegada da pandemia de COVID-19, as contradi\u00e7\u00f5es do sistema de classes v\u00e3o se tornando cada vez mais n\u00edtidas. As elites se veem obrigadas a construir um consenso em torno da criminaliza\u00e7\u00e3o da luta popular. Qualquer protesto social militante \u00e9 condenado de partida como intoler\u00e1vel. Mesmo diante desse cen\u00e1rio, a resist\u00eancia do MST e MTST, principalmente ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o de Jair Bolsonaro em 2018, consegue p\u00f4r em quest\u00e3o esse consenso conservador, promovendo e expandindo suas lutas, suas alian\u00e7as com outros setores da sociedade, e educando tanto sua base quanto a popula\u00e7\u00e3o em geral acerca dos objetivos e estrat\u00e9gias de seus movimentos.<\/p>\n<p>Com esfor\u00e7o e criatividade, esses movimentos t\u00eam conseguido construir v\u00ednculos de solidariedade com amplas camadas do povo brasileiro e conquistar a simpatia de pessoas que n\u00e3o est\u00e3o ligadas a essas lutas espec\u00edficas. Se antes considerava-se normal esbravejar que movimentos invasores buscavam ilegalmente ocupar locais de \u201cpessoas comuns\u201d, as contradi\u00e7\u00f5es da rela\u00e7\u00e3o capital-trabalho fazem com que os trabalhadores \u2014 jogados novamente ao mapa da fome, desemprego e situa\u00e7\u00e3o de rua \u2014 compreendam qual a verdadeira amea\u00e7a para suas vidas. E ela tem nome: capitalismo.<\/p>\n<p><strong>O MST n\u00e3o quer roubar seu s\u00edtio ou sua fazenda<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">Como presidente, Jair Bolsonaro amea\u00e7ou classificar as ocupa\u00e7\u00f5es do MST como \u201cterrorismo\u201d. Assim como seus pares na extrema direita, Bolsonaro n\u00e3o aceita os mais b\u00e1sicos direitos sociais estabelecidos pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1988. A reforma agr\u00e1ria, objetivo principal do movimento, \u00e9, pelo menos no papel, uma pol\u00edtica do Estado brasileiro desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O MST, uma das maiores e mais articuladas organiza\u00e7\u00f5es de luta social da Am\u00e9rica Latina, foi fundado em 1984 com o objetivo hist\u00f3rico de erguer a bandeira da luta por uma reforma agr\u00e1ria no pa\u00eds \u2013 respondendo ao problema objetivo da brutal concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria no campo brasileiro. O esfor\u00e7o do MST j\u00e1 deu muitos frutos concretos, contribuindo diretamente para o assentamento de mais de 400 mil fam\u00edlias. Outras 120 mil continuam \u00e0 espera de um peda\u00e7o de ch\u00e3o, nos acampamentos organizados pelo movimento.<\/p>\n<p class=\"destaque-centro\">\u201cRealizar a reforma agr\u00e1ria, longe de ser uma demanda subversiva, \u00e9 apenas uma exig\u00eancia constitucional. \u2018Criminoso\u2019, portanto, n\u00e3o \u00e9 o movimento, mas o latif\u00fandio.\u201d<\/p>\n<p>O MST luta por um direito, reconhecido expressamente na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988. O artigo 186 afirma que a desapropria\u00e7\u00e3o de terras n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 permitida como recomendada quando uma propriedade n\u00e3o cumpre sua fun\u00e7\u00e3o social e n\u00e3o atende a uma s\u00e9rie de requisitos, sendo eles: \u201caproveitamento racional e adequado; utiliza\u00e7\u00e3o adequada dos recursos naturais dispon\u00edveis e preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente; observ\u00e2ncia das disposi\u00e7\u00f5es que regulam as rela\u00e7\u00f5es de trabalho; explora\u00e7\u00e3o que favore\u00e7a o bem-estar dos propriet\u00e1rios e dos trabalhadores.\u201d Realizar a reforma agr\u00e1ria, longe de ser uma demanda subversiva, \u00e9 apenas uma exig\u00eancia constitucional. O que o MST e outros movimentos do campo reclamam \u00e9 que se cumpra o que o pr\u00f3prio ordenamento jur\u00eddico democr\u00e1tico brasileiro j\u00e1 estabelece. \u201cCriminoso\u201d, portanto, n\u00e3o \u00e9 o movimento, mas o latif\u00fandio.<\/p>\n<p>Toda terra deve cumprir uma fun\u00e7\u00e3o social, ou seja, ter sua utiliza\u00e7\u00e3o correta, condizente com o bem-estar social coletivo. O Estado, portanto, pode intervir no t\u00edtulo de tal propriedade privada caso ela n\u00e3o esteja cumprindo sua devida fun\u00e7\u00e3o. O que acontece \u00e9 que muitas terras, concentradas na m\u00e3o de latifundi\u00e1rios que promovem a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, s\u00e3o improdutivas justamente para que a riqueza dos propriet\u00e1rios aumente cada vez mais, \u00e0s custas de priva\u00e7\u00f5es e sofrimentos para as fam\u00edlias trabalhadoras.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, uma parte do latif\u00fandio improdutivo tem se convertido em agroneg\u00f3cio, e embora isso tenha se mostrado um grande neg\u00f3cio para os donos de terra, o mesmo n\u00e3o pode ser dito para os despossu\u00eddos. Como sempre, os lucros s\u00e3o privatizados, mas os preju\u00edzos recaem nas costas dos que n\u00e3o tem nada: desmatamento e destrui\u00e7\u00e3o do solo, envenenamento por agrot\u00f3xicos, grilagem e expuls\u00e3o de camponeses de suas terras, invas\u00e3o de territ\u00f3rios ind\u00edgenas. O capital avan\u00e7a pelo campo, e o remodela a sua pr\u00f3pria imagem, destruindo formas tradicionais de vida comunit\u00e1ria, proletarizando o campesinato e devastando o meio ambiente.<\/p>\n<p>A alian\u00e7a entre fazendeiros, capital financeiro internacional, grandes projetos de energia e minera\u00e7\u00e3o, produz uma moderniza\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 muito mal distribu\u00edda como furiosamente violenta, enriquecendo uns poucos e empobrecendo as duas fontes originais de toda a riqueza: o trabalhador e a terra. Mas esses interesses s\u00e3o poderosos o bastante para capturar o poder pol\u00edtico, da\u00ed a for\u00e7a da \u201cbancada do boi\u201d e sua influ\u00eancia nas decis\u00f5es do executivo (basta olhar para o or\u00e7amento). Diante do abandono do Estado em rela\u00e7\u00e3o aos mais pobres, n\u00e3o resta outra alternativa \u00e0 popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o a organiza\u00e7\u00e3o militante, a a\u00e7\u00e3o coletiva e a luta confrontacional por direitos.<\/p>\n<p><strong>A luta pr\u00e1tica em meio ao limite institucional<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">No Brasil, sob o infort\u00fanio de contar com uma classe dominante particularmente autorit\u00e1ria e conservadora, estar na lei n\u00e3o significa que ser\u00e1 aplicado. Apesar da letra da Constitui\u00e7\u00e3o, a concentra\u00e7\u00e3o de terras cresce e o n\u00famero de desapropria\u00e7\u00f5es diminui. Em virtude da for\u00e7a do poder do dinheiro, o agroneg\u00f3cio \u00e9 dono do pa\u00eds \u2014 n\u00e3o s\u00f3 dono das terras, como do parlamento. A propriedade privada, n\u00e3o a lei (para nem falar do povo), \u00e9 quem reina soberana. Em 2010, latif\u00fandios representavam 40% das grandes propriedades rurais brasileiras. Em 2015, aproximadamente 228 milh\u00f5es de hectares estavam abandonados ou fora da sua fun\u00e7\u00e3o social, logo, aptos para a desapropria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"destaque-centro\">\u201cA d\u00edvida do setor com o Estado brasileiro chegou a mais de R$ 700 bilh\u00f5es em 2022, totalizando 22,4% do PIB nacional (R$ 1,5 trilh\u00e3o).\u201d<\/p>\n<p>Para quem \u00e9 descrito como o \u201cmotor da economia brasileira\u201d por empres\u00e1rios do campo e parte da m\u00eddia brasileira, o agroneg\u00f3cio exibe uma pot\u00eancia decepcionante. \u00c9 muita propaganda para pouco vigor. Para al\u00e9m das regalias do financiamento estatal a juros baix\u00edssimos, o agroneg\u00f3cio sequer consegue pagar suas d\u00edvidas, que sempre precisam ser renegociadas com uma boa dose de subs\u00eddio p\u00fablico, alongamento de prazos, amplia\u00e7\u00e3o de benef\u00edcios e coisas tais. A d\u00edvida do setor com o Estado brasileiro chegou a mais de R$ 700 bilh\u00f5es em 2022, totalizando 22,4% do PIB nacional (R$ 1,5 trilh\u00e3o), segundo a pr\u00f3pria Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Defesa dos Agricultores (Andaterra). Tampouco o agroneg\u00f3cio gera empregos. O censo agropecu\u00e1rio de 2017 feito pelo IBGE tamb\u00e9m registra que apesar de ocupar 77% da \u00e1rea de todos os estabelecimentos agropecu\u00e1rios brasileiros, o agroneg\u00f3cio emprega apenas 33% dos trabalhadores do setor, enquanto a grande maioria (67%) trabalha na agricultura familiar.<\/p>\n<p>Em meio a uma crise econ\u00f4mica sem precedentes, e as porteiras generosamente abertas para deixar passar uma boiada de pol\u00edticas econ\u00f4micas neoliberais passando, a infla\u00e7\u00e3o vai esvaziando o prato de comida na mesa das fam\u00edlias trabalhadoras: j\u00e1 s\u00e3o perto de 20 milh\u00f5es de brasileiros atingidos pela fome, e cerca de 55,2% da popula\u00e7\u00e3o em estado de inseguran\u00e7a alimentar (de acordo com o Inqu\u00e9rito Nacional sobre Seguran\u00e7a Alimentar no Contexto da Pandemia, da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional). A desapropria\u00e7\u00e3o de terras improdutivas, o assentamento de fam\u00edlias e a disponibiliza\u00e7\u00e3o de recursos para a produ\u00e7\u00e3o agroecol\u00f3gica e forma\u00e7\u00e3o de cooperativas no campo s\u00e3o todos elementos cruciais para o fortalecimento da agricultura familiar e, consequentemente, para a erradica\u00e7\u00e3o da fome no pa\u00eds novamente.<\/p>\n<p>A defesa de movimentos como o MST \u00e9 uma pauta fundamental de todo socialista. Deslocar o centro do debate para a quest\u00e3o da soberania alimentar, e do direito universal \u00e0 comida de qualidade, significa n\u00e3o apenas fortalecer a luta contra as mazelas do agroneg\u00f3cio, mas garantir a sobreviv\u00eancia material dos trabalhadores pobres, para que possam seguir lutando por dias melhores. Agindo no limite do institucional, o movimento trava o bom combate pela conquista do devido e adequado uso social da terra. O j\u00e1 famoso bon\u00e9 vermelho, que traz um casal campon\u00eas com o punho ao alto e os contornos do Brasil ao fundo, \u00e9 emblem\u00e1tico como imagem do pa\u00eds que podemos ser, mas \u00e9 tamb\u00e9m uma quest\u00e3o de urg\u00eancia pr\u00e1tica para todos que querem ver uma classe trabalhadora forte e confiante, disposta a disputar e conquistar o poder pol\u00edtico.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o, o MTST n\u00e3o vai ocupar sua casa ou apartamento<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">A fun\u00e7\u00e3o social n\u00e3o apenas se estende para as propriedades rurais, mas tamb\u00e9m urbanas. A regulamenta\u00e7\u00e3o se d\u00e1 principalmente atrav\u00e9s do Estatuto da Cidade, que determina pol\u00edticas de desenvolvimento urbano para promo\u00e7\u00e3o do desenvolvimento das fun\u00e7\u00f5es sociais da cidade. Mas para al\u00e9m de qualquer l\u00f3gica de direitos e bem estar coletivo, o mercado imobili\u00e1rio se mostra um protagonista feroz, e nada \u201curbano\u201d, na disputa pelo destino dos territ\u00f3rios e pela pr\u00f3pria conforma\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico, deformando a cara das nossas cidades.<\/p>\n<p>O centro da cidade de S\u00e3o Paulo, a cidade mais rica do pa\u00eds, \u00e9 uma das \u00e1reas onde tal processo de gentrifica\u00e7\u00e3o se torna mais n\u00edtido, por ser um dos locais com maior concentra\u00e7\u00e3o de pr\u00e9dios abandonados no Brasil. Enquanto isso, a popula\u00e7\u00e3o de rua na cidade aumentou em cerca de 31,4% no ano de 2021.<\/p>\n<p class=\"destaque-centro\">\u201cA maneira eficaz que o povo trabalhador encontrou para fazer valer seus direitos \u00e9 ocupando \u2018im\u00f3veis vazios e abandonados de grandes propriet\u00e1rios, em geral com d\u00edvidas milion\u00e1rias com o Poder P\u00fablico\u2019.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 esse mapa de desigualdade que explica o aparecimento de movimentos como o MTST, que travam o combate por moradia digna, pressionando o Estado a cumprir as leis de fun\u00e7\u00e3o social e destinar \u00e1reas ociosas para a moradia social. Esses movimentos n\u00e3o \u201croubam\u201d a casa de ningu\u00e9m \u2014 \u201cao contr\u00e1rio, o Movimento conquista casas para pessoas que n\u00e3o t\u00eam\u201d. A maneira eficaz que o povo trabalhador encontrou para fazer valer seus direitos \u00e9 ocupando \u201cim\u00f3veis vazios e abandonados de grandes propriet\u00e1rios, em geral com d\u00edvidas milion\u00e1rias com o Poder P\u00fablico\u201d. Nada mais justo, j\u00e1 que \u201cesses im\u00f3veis ocupados est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o ilegal, por n\u00e3o cumprirem a fun\u00e7\u00e3o social exigida pela Constitui\u00e7\u00e3o e o Estatuto das Cidades\u201d,\u00a0<a href=\"https:\/\/iree.org.br\/entenda-o-que-e-o-mtst-eles-nao-vao-invadir-sua-casa\/\">diz Guilherme Boulos<\/a>, coordenador do MTST, sobre a falsa concep\u00e7\u00e3o de que o movimento quer \u201cinvadir a casa da gente\u201d.<\/p>\n<p><strong>Do projeto \u00e0 vit\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ocupar: o MTST acompanha de perto as iniciativas de moradia estatal e faz quest\u00e3o de lutar por melhorias em cada projeto. Como muitas vezes cabe a construtoras definir o local de novas constru\u00e7\u00f5es de moradias populares, o movimento permanece atento para que as moradias sejam feitas com a melhor qualidade poss\u00edvel e tamanho digno para uma vida de boa qualidade \u2013 e isso envolve a luta para al\u00e9m do projeto, mapeando terrenos e supervisionando obras.<\/p>\n<p>O Brasil possui um dos maiores n\u00fameros de trabalhadores do continente, com 80% da popula\u00e7\u00e3o habitando cidades metropolitanas. Logo, capitais urbanas s\u00e3o a maior express\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es da luta de classes. O d\u00e9ficit habitacional no pa\u00eds, segundo o Instituto Jo\u00e3o Pinheiro, \u00e9 de 5,8 milh\u00f5es. N\u00fameros de 2018 mostram, em contraste, que mais de 6 milh\u00f5es de im\u00f3veis encontram-se desocupados ao redor do pa\u00eds. H\u00e1, portanto, mais moradias vazias do que pessoas morando nas ruas. \u00c9 neste contexto que o MTST aplica sua t\u00e1tica de ocupa\u00e7\u00f5es pontuais e planejadas.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do discurso da extrema direita, as ocupa\u00e7\u00f5es dos trabalhadores sem-teto n\u00e3o s\u00e3o obras de vagabundos, ou tramadas por indiv\u00edduos desocupados. Os n\u00fameros do p\u00f3s-pandemia n\u00e3o mentem: milhares perderam suas casas em todo territ\u00f3rio brasileiro porque n\u00e3o conseguem conciliar as despesas habitacionais com o custo de vida por causa dos baixos sal\u00e1rios \u2014 e s\u00e3o justamente essas pessoas que v\u00e3o engrossar as fileiras do movimento. Como os sal\u00e1rios t\u00eam estagnado, e a renda das fam\u00edlias trabalhadoras diminu\u00eddo, mas os pre\u00e7os dos bens necess\u00e1rios para viver continuar a aumentar, muitas vezes essas fam\u00edlias se v\u00eaem for\u00e7adas a escolher entre pagar o teto ou a comida. As pol\u00edticas econ\u00f4micas preferidas pela classe propriet\u00e1ria, e intensificadas desde o golpe de 2016, tornam insustent\u00e1vel que um trabalhador que receba o sal\u00e1rio m\u00ednimo, de pouco mais de R$ 1.000, consiga arcar com as despesas necess\u00e1rias para manter as despesas da casa \u2014 \u00e1gua, luz, g\u00e1s, aluguel.<\/p>\n<p class=\"destaque-centro\">\u201cA agudiza\u00e7\u00e3o da luta de classes nas principais capitais do pa\u00eds explicita o car\u00e1ter de urg\u00eancia de movimentos como o MTST.\u201d<\/p>\n<p>Frequentemente, restam duas op\u00e7\u00f5es: se endividar com empr\u00e9stimos banc\u00e1rios ou n\u00e3o pagar as contas. Em virtude do desemprego desenfreado no p\u00f3s-pandemia, o MTST lan\u00e7ou a\u00a0<a href=\"https:\/\/contratequemluta.com\/\">campanha \u201cContrate Quem Luta\u201d<\/a>, uma a\u00e7\u00e3o realizada para facilitar a contrata\u00e7\u00e3o de membros do movimento nos mais diversos tipos de servi\u00e7o. A campanha n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 inspiradora no \u00e2mbito da luta popular, mas faz algo esquecido por parte da esquerda h\u00e1 um tempo: o aproveitamento das ferramentas tecnol\u00f3gicas de massa. Entrando em contato com um n\u00famero disponibilizado pelo grupo, o receptor recebe um cat\u00e1logo com todas as profiss\u00f5es realizadas pelos militantes. Em entrevista \u00e0 imprensa, diversos trabalhadores engajados no movimento afirmaram s\u00f3 conseguirem organizar suas contas ap\u00f3s o projeto.<\/p>\n<p>A opress\u00e3o contra os trabalhadores sem-teto n\u00e3o para nas medidas econ\u00f4micas, mas se estende a persegui\u00e7\u00f5es, amea\u00e7as, ataques f\u00edsicos e desapiedada repress\u00e3o estatal. Em um trecho de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Por-que-ocupamos-introdu%C3%A7%C3%A3o-sem-teto-ebook\/dp\/B07DTJG46G\/ref=cm_cr_arp_d_product_top?ie=UTF8\">seu livro<\/a>, Boulos descreve um relato de viol\u00eancia policial em uma ocupa\u00e7\u00e3o em Osasco. A \u00e1rea havia sido ocupada um ano antes e era cercada de pr\u00e9dios abandonados, sem qualquer fun\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201cO major respons\u00e1vel pela opera\u00e7\u00e3o disse secamente que era um despejo. \u2018Mas n\u00e3o fomos notificados, major!\u2019. \u2018N\u00e3o importa. Voc\u00eas t\u00eam dez minutos\u2019. E assim foi. Em dez minutos, a tropa avan\u00e7ou pelo terreno e come\u00e7ou a arrombar a porta dos barracos. Pedi um tempo ao major para fazer uma reuni\u00e3o com os moradores e explicar o que estava acontecendo. Ele deu o tempo. Mas, quando mal t\u00ednhamos feito uma roda e come\u00e7ado a falar, jogaram uma bomba de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo em cima das pessoas. Idosos, gr\u00e1vidas, crian\u00e7as de colo\u2026 todos correram tentando se proteger. Era apenas o come\u00e7o de um dia de terror.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Todas as conquistas do MTST s\u00e3o parte de uma luta quase secular envolvendo ocupa\u00e7\u00f5es, manifesta\u00e7\u00f5es, assembleias e reuni\u00f5es de negocia\u00e7\u00e3o com \u00f3rg\u00e3os de Estado e privados. Diante dos ataques sofridos \u00e0s ocupa\u00e7\u00f5es e militantes, o preconceito joga a favor do grupo social minorit\u00e1rio que deseja maximizar seus lucros, mesmo que isso signifique que a maioria das pessoas n\u00e3o tenha um teto para morar. Fortalecer o MTST e os movimentos de lutas populares por moradia e direito \u00e0 cidade \u00e9 uma responsabilidade de todo socialista. A agudiza\u00e7\u00e3o da luta de classes nas principais capitais do pa\u00eds explicita o car\u00e1ter de urg\u00eancia de movimentos como o MTST. S\u00f3 a luta muda a vida. Sem o MTST, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas, a tarefa seria bem mais dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Os socialistas n\u00e3o v\u00e3o ocupar minha casa e invadir minha fazenda? &#8211; https:\/\/jacobin.com.br\/2022\/10\/os-socialistas-nao-vao-ocupar-minha-casa-e-invadir-meu-sitio\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pedro Rangel &#8211; \u201cO trabalho volunt\u00e1rio e dos movimentos sociais \u00e9 muito mais efetivo\u201d. Na pandemia, ambos os movimentos fizeram cozinhas solid\u00e1rias e distribu\u00edram comida. Pode ficar em paz. 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