{"id":18381,"date":"2022-10-12T12:05:02","date_gmt":"2022-10-12T15:05:02","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18381"},"modified":"2022-10-09T15:11:01","modified_gmt":"2022-10-09T18:11:01","slug":"entrevista-com-raul-zibechi-autor-de-territorios-em-rebeldia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/10\/12\/entrevista-com-raul-zibechi-autor-de-territorios-em-rebeldia\/","title":{"rendered":"Entrevista com Ra\u00fal Zibechi, autor de Territ\u00f3rios em rebeldia"},"content":{"rendered":"<p><strong>Alana Moraes, Lucas Keese e Marcelo Hotimsky<\/strong> &#8211; Entrevista com Ra\u00fal Zibechi, autor de Territ\u00f3rios em rebeldia.<\/p>\n<p><strong>Zibechi, gostar\u00edamos de saber sobre a rela\u00e7\u00e3o entre seu percurso e o conjunto de suas reflex\u00f5es. Falando um pouco sobre sua trajet\u00f3ria, quais encontros provocaram em voc\u00ea mudan\u00e7as ou produziram deslocamentos de quest\u00f5es que at\u00e9 ent\u00e3o lhe eram caras? Nesse sentido, quais seriam os pontos de virada que voc\u00ea identifica em sua trajet\u00f3ria como militante? \u00c9 poss\u00edvel pensar em formas de conhecer e pesquisar que n\u00e3o estejam mais separadas dos pr\u00f3prios modos de fazer pol\u00edtica, dos modos de exist\u00eancia em luta?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ra\u00fal Zibechi<\/strong>\u00a0Houve dois ou tr\u00eas momentos de virada. No ex\u00edlio na Espanha, nos anos 1970, foi importante conhecer a primeira onda feminista. A verdade \u00e9 que, chegando da Am\u00e9rica Latina, isso foi um golpe duro para o ego masculino revolucion\u00e1rio, e a rea\u00e7\u00e3o inicial foi defensiva. Apesar do impacto, consegui questionar minha forma de pensar ligada naquele momento ao marxismo e ao leninismo, mas agora vejo que progressivamente o feminismo foi atravessando minhas convic\u00e7\u00f5es sobre a forma de compreender o poder, o Estado, o partido e a revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A segunda inflex\u00e3o foi o zapatismo. H\u00e1 anos vinha conhecendo comunidades ind\u00edgenas na regi\u00e3o andina, nos anos 1980, e isso me impactou muito, assim como a escrita de Jos\u00e9 Mar\u00eda Arguedas e de alguns pensadores peruanos, como Alberto Flores Galindo. Mas o zapatismo foi fundamental, j\u00e1 que provocou em mim um duplo impacto, pol\u00edtico e de pensamento, e ao mesmo tempo afetivo. Conviver com as comunidades e as bases de apoio muda sua forma de ver o mundo, de ver a si mesmo e p\u00f5e em xeque os modos de pensar e de fazer.<\/p>\n<p>Talvez exista uma terceira, mais recente, mas acredito que \u00e9 muito cedo para compreend\u00ea-la em profundidade. Ela se relaciona com a crise do progressismo iniciada em junho de 2013, o vazio deixado por ele e a emerg\u00eancia dos sujeitos coletivos de \u201cmais abaixo\u201d, como povos negros e amaz\u00f4nicos. Em dado momento, eu havia confiado nos governos progressistas, sobretudo no de Lula, que foi quase o primeiro, mas o entusiasmo durou bem pouco. Ent\u00e3o, junho de 2013 era, e de algum modo continua a ser, algo distinto, n\u00e3o tanto pelas ruas, que sempre s\u00e3o importantes, mas por dois motivos adicionais: mostrar os limites do progressismo e das esquerdas e ensinar que as coisas podem ir por outro caminho, pelas m\u00e3os de outros sujeitos.<\/p>\n<p>Jovens, mulheres e favelados t\u00eam exercido um papel mais importante do que parece. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ver tudo isso no momento seguinte a junho de 2013, mas vai saindo pouco a pouco da sombra. Sob a pandemia de covid-19, ficam completamente evidentes tanto a crise das esquerdas (do PT ao MST) quanto a recomposi\u00e7\u00e3o do campo popular. Nesse sentido, conhecer militantes em favelas como Mar\u00e9 e Alem\u00e3o, no Rio de Janeiro, me encheu de perguntas e me levou a buscas de outro tipo, de Abdias do Nascimento ao papel do teatro e da m\u00fasica na forma\u00e7\u00e3o de sujeitos coletivos negros.<\/p>\n<p>Sobre as formas de conhecer, pensar e pesquisar, \u00e9 evidente que, com a ruptura dessas esquerdas, tamb\u00e9m desmorona o papel do indiv\u00edduo branco, acad\u00eamico ou escritor e militante. Estamos diante de outra realidade. O pensamento cr\u00edtico deixa de estar centrado na escrita, no livro, e se diversifica nas produ\u00e7\u00f5es do mundo popular, como na dan\u00e7a, na ritualidade, na atua\u00e7\u00e3o e nos movimentos corporais. Quero dizer que meu papel como pessoa branca adulta tamb\u00e9m \u00e9 questionado pela emerg\u00eancia desses sujeitos coletivos, em particular feministas e jovens negros, no caso do Brasil. \u00c9 o momento de pensar: o que vem depois?<\/p>\n<p>Como voc\u00eas podem imaginar, n\u00e3o tenho a resposta. Seria muito egoc\u00eantrico pensar que eu, como indiv\u00edduo, vou t\u00ea-la a partir de uma racionalidade urbana ocidental. O que vem a seguir \u00e9 um trabalho intenso, individual e coletivo, antipatriarcal, anticolonial e antieuroc\u00eantrico. Tudo isso implica um trabalho sobre o ego branco masculino. N\u00e3o pensem que vou me suicidar. N\u00e3o por enquanto, mas o momento \u00e9 de nos repensar, de trabalhar com outros e outras e, sobretudo, cada vez mais distante do centro, nas margens. Sob a pandemia, tenho tentado ser apenas o fio transmissor do que os povos est\u00e3o fazendo, porque s\u00e3o eles os que nos ensinam, e n\u00f3s somos apenas seus alunos. Os zapatistas t\u00eam dito isso h\u00e1 anos, mas \u00e0s vezes pens\u00e1vamos ser apenas ret\u00f3rica.<\/p>\n<p>Em resumo, temos de nos repensar desde quem fala, a partir dos territ\u00f3rios dos quais se emite um discurso, o que sup\u00f5e nos colocarmos em quest\u00e3o, em debate, e aceitar que n\u00e3o somos centro de nada, mas apenas uma dobradi\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Desde que come\u00e7amos a organizar este livro, muitos eventos pol\u00edticos importantes ocorreram na Am\u00e9rica Latina e no mundo. Houve a derrota eleitoral do primeiro ciclo de governos progressistas ao mesmo tempo que l\u00edderes pol\u00edticos de extrema direita se fortaleceram com grande apoio popular e chegaram ao poder. Mais recentemente, surge um novo f\u00f4lego eleitoral com uma renovada onda de governos progressistas, mas, ainda assim, a extrema direita segue conquistando espa\u00e7os importantes na sociedade. Em seus textos, voc\u00ea destaca a quest\u00e3o do modelo econ\u00f4mico extrativista na Am\u00e9rica Latina no contexto da acumula\u00e7\u00e3o por despossess\u00e3o ou Quarta Guerra Mundial,<sup>1<\/sup>\u00a0nos termos zapatistas, que seriam modos pol\u00edtico-econ\u00f4micos presentes inclusive nos governos progressistas da regi\u00e3o. Seria poss\u00edvel pensar que o avan\u00e7o da extrema direita seja a express\u00e3o mais bem acabada desse projeto extrativista e possa enterrar de vez as expectativas por \u201cinclus\u00e3o social\u201d e formas mais negociadas de gest\u00e3o da pobreza? Ou estar\u00edamos vendo um projeto de outra natureza em curso? Como voc\u00ea entende a emerg\u00eancia desse cen\u00e1rio no contexto latino-americano diante da chamada crise dos progressismos e o que as lutas por autonomia, t\u00e3o caras \u00e0 sua obra, podem nos apontar neste momento?<\/strong><\/p>\n<p><strong>RZ<\/strong>\u00a0Acredito que os governos de extrema direita n\u00e3o t\u00eam necessariamente um projeto definido, mas provavelmente sejam a express\u00e3o da crise, uma resposta a partir das classes dominantes e m\u00e9dias, mas tamb\u00e9m das institui\u00e7\u00f5es que sentem que essa crise \u00e9 algo novo e diferente, que pode varr\u00ea-las. Se nossos projetos estrat\u00e9gicos t\u00eam sido desbaratados pela realidade, podemos pensar que acontece algo similar com as direitas. Acredito que a \u00fanica institui\u00e7\u00e3o que continue de p\u00e9, e seguir\u00e1 durante muito tempo, s\u00e3o as For\u00e7as Armadas. N\u00e3o \u00e9 nenhum acaso que, em plena crise no Brasil, elas tenham dado um passo \u00e0 frente, ocupando espa\u00e7os cruciais do poder.<\/p>\n<p>Minha impress\u00e3o \u00e9 a de que as classes dominantes t\u00eam apenas um projeto: continuar no topo, continuar dominantes. O restante, elas improvisam. Enquanto isso, apelam ao Estado para resolver as urg\u00eancias. \u00c9 um erro pensar que a economia, o lucro, \u00e9 o aspecto primordial para elas. O capitalismo n\u00e3o \u00e9 uma economia, e nesse ponto sigo Abdullah \u00d6calan, \u00e9 um projeto de poder, um tipo de poder tecido em torno da domina\u00e7\u00e3o das mulheres e dos povos origin\u00e1rios e negros. \u00c9 uma utopia, portanto, pensar que seja poss\u00edvel tomar o controle do Estado, porque \u00e9 o Estado deles, uma ferramenta criada pela burguesia para servi-la.<\/p>\n<p>Creio, assim, que o problema est\u00e1 do nosso lado: dois s\u00e9culos de estadocentrismo levaram a pol\u00edtica emancipat\u00f3ria \u00e0 fal\u00eancia. Essa \u00e9 uma conclus\u00e3o baseada na experi\u00eancia, n\u00e3o tem nada a ver com as ideologias, nem com o marxismo ou o anarquismo. Mas sejamos francos: n\u00e3o existe uma alternativa j\u00e1 preparada para substituir uma pol\u00edtica ancorada na tomada do Estado.<\/p>\n<p>No pensamento cr\u00edtico, existe um problema maior. Se a acumula\u00e7\u00e3o por reprodu\u00e7\u00e3o ampliada do capital, o capitalismo industrial, correspondeu no Primeiro Mundo ao Estado de bem-estar social, ou a formas menos acabadas de negocia\u00e7\u00e3o entre sindicatos, Estado e empresas, como na Am\u00e9rica Latina, devemos analisar que tipo de Estado corresponde ao per\u00edodo da acumula\u00e7\u00e3o por despossess\u00e3o, no Sul do mundo e nas zonas do n\u00e3o ser.<\/p>\n<p>\u00c9 a\u00ed que ganha vigor o conceito de Quarta Guerra Mundial do zapatismo. Uma guerra permanente de usurpa\u00e7\u00e3o para retirar as pessoas dos territ\u00f3rios, apropriar-se deles e redesenh\u00e1-los conforme sua conveni\u00eancia. Isso \u00e9 o que acontece nas \u00e1reas de expans\u00e3o do agroneg\u00f3cio na Amaz\u00f4nia, da minera\u00e7\u00e3o e das monoculturas em todo o continente, mas tamb\u00e9m do extrativismo urbano nas grandes cidades. As Olimp\u00edadas e a Copa do Mundo foram a desculpa para desalojar centenas de milhares de pessoas de suas moradias, como aconteceu com a Vila Aut\u00f3dromo, no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>O tipo de Estado que corresponde a essa forma brutal de acumula\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser a democracia. A ocupa\u00e7\u00e3o militar nas favelas, a guerra contra os pobres em todo o continente s\u00e3o o modo de domina\u00e7\u00e3o que torna poss\u00edvel a espolia\u00e7\u00e3o. A esquerda n\u00e3o quer entrar nesse debate e acredita que, se cair Bolsonaro, tudo voltaria a ser \u201cpaz e amor\u201d. Imposs\u00edvel. O Brasil n\u00e3o vai voltar ao ciclo FHC e Lula, a menos que ocorra uma revolta popular muito potente, muito al\u00e9m de junho de 2013.<\/p>\n<p><strong>Antes da pandemia de covid-19, a Am\u00e9rica do Sul come\u00e7ava a experimentar um novo ciclo de lutas contra os consensos neoliberais, como na Col\u00f4mbia, no Equador, no Peru e no Chile. No contexto internacional da crise relacionada \u00e0 pandemia e seus efeitos vindouros, entretanto, h\u00e1 um claro discurso de fortalecimento do Estado como \u201cprotetor\u201d e administrador da vida dos corpos. Novas tecnologias de vigil\u00e2ncia e biovigil\u00e2ncia parecem ter legitimidade inclusive dentro de setores que se identificam como progressistas. Al\u00e9m disso, vale lembrar que, s\u00f3 em S\u00e3o Paulo, 373 pessoas foram mortas pela pol\u00edcia nos quatro primeiros meses de 2020. No m\u00eas de abril, um m\u00eas crucial de cont\u00e1gio, S\u00e3o Paulo registrou o maior \u00edndice de letalidade policial desde 2001. O horizonte de fortalecimento do Estado n\u00e3o seria uma proposta de volta \u00e0s condi\u00e7\u00f5es anteriores \u00e0 derrocada dos \u201cgovernos progressistas\u201d que de certa forma ajudaram a produzir a situa\u00e7\u00e3o atual? O que h\u00e1 hoje de experi\u00eancias aut\u00f4nomas (e o que pode haver) de autodefesa e de cuidados coletivos, mesmo em termos de autonomia t\u00e9cnica para sustentar a vida em comum diante do fortalecimento de uma cultura imunit\u00e1ria, securit\u00e1ria, vigilante e racista?<\/strong><\/p>\n<p><strong>RZ<\/strong>\u00a0Acredito que, com a crise de 2008, junho de 2013 e a queda do PT, encerra-se um ciclo de democracias p\u00f3s-ditaduras. No plano concreto, deixa de haver governabilidade, hegemonia e certo consenso, para se instalar a domina\u00e7\u00e3o pura e simples e uma crise prolongada da governabilidade, no sentido dado por Foucault, n\u00e3o tanto de consenso, mas de t\u00e9cnicas de governo capazes de criar as condi\u00e7\u00f5es para fazer o sistema funcionar.<\/p>\n<p>Para os movimentos, o desafio consiste em se desprender da velha estrat\u00e9gia em dois passos (como analisa o soci\u00f3logo Immanuel Wallerstein) para se concentrar em outras formas de fazer pol\u00edtica, que n\u00e3o excluem a rela\u00e7\u00e3o com o Estado e os governos, mas que n\u00e3o se organizam em torno disso. A quest\u00e3o \u00e9: ent\u00e3o qual o caminho? \u00c9 preciso invent\u00e1-lo, por\u00e9m n\u00e3o com a simples imagina\u00e7\u00e3o, mas com base no que foi feito e no que tem sido feito pelos povos nesses anos.<\/p>\n<p>Observemos o que acontece no \u00e2mbito da pandemia no sul da Col\u00f4mbia, no Cauca, entre os povos Nasa, Misak e Kokonuco, ligados ao Cric (Consejo Regional Ind\u00edgena del Cauca [Conselho regional ind\u00edgena do Cauca]). Realizaram uma\u00a0<em>minga hacia adentro<\/em>\u00a0[mutir\u00e3o no plano interno], que consiste em um processo de harmoniza\u00e7\u00e3o coletiva nas comunidades e entre elas e a natureza. Re\u00fanem-se em torno de fogueiras, fazem defuma\u00e7\u00f5es com plantas curativas e m\u00e9dicos tradicionais perto das lagoas e dos locais sagrados. A comunidade \u00e9 um princ\u00edpio curativo e de\u00a0 cuidados. Al\u00e9m disso, intensificam e diversificam cultivos, enviam alimentos a ind\u00edgenas urbanos, trocando-os por produtos de higiene. Realizam trocas entre produtores de terras quentes e frias, sem dinheiro, com base nas necessidades.<\/p>\n<p>Todo o processo \u00e9 protegido por sete mil guardas ind\u00edgenas \u201carmados\u201d com bast\u00f5es de mando, que vigiam setenta pontos de entrada e sa\u00edda dos\u00a0<em>resguardos<\/em>, ou territ\u00f3rios ind\u00edgenas. Em todo o continente, existe uma enorme variedade de iniciativas de autodefesa: guardas ind\u00edgenas nasa do Cric, que agora est\u00e3o sendo adotados pelos povos negros como os\u00a0<em>guardias cimarrones<\/em>\u00a0e os trabalhadores sem-terra como os\u00a0<em>guardias campesinas<\/em>; pol\u00edcia aut\u00f4noma em Guerrero, no M\u00e9xico, al\u00e9m do EZLN (Ej\u00e9rcito zapatista de liberaci\u00f3n nacional [Ex\u00e9rcito zapatista de liberta\u00e7\u00e3o nacional]);\u00a0<em>rondas campesinas<\/em>\u00a0[patrulhas dos trabalhadores rurais] no Peru, que j\u00e1 t\u00eam cinquenta anos, e nos lugares em que existe minera\u00e7\u00e3o se transformam em\u00a0<em>Guardianes de las Lagunas<\/em>\u00a0[Guardi\u00f5es das lagoas]; autodefesas em muitos bairros perif\u00e9ricos. Agora surgiu a\u00a0<em>guardia washek<\/em>, no norte da Argentina, no Chaco.<\/p>\n<p>Em estreita rela\u00e7\u00e3o com as autodefesas, as autonomias se multiplicam. No norte do Peru, temos h\u00e1 quatro anos o Gobierno Territorial Aut\u00f3nomo de la Naci\u00f3n Wampis [Governo territorial aut\u00f4nomo da na\u00e7\u00e3o wampis], caminho seguido por outros tr\u00eas povos amaz\u00f4nicos. Al\u00e9m disso, h\u00e1 muitas autonomias de fato que n\u00e3o se definem desse modo, mas funcionam. Como determinar o que acontece entre os Munduruku ou entre os Tupinamb\u00e1 da Serra do Padeiro, na Bahia? Ou em v\u00e1rios quilombos e em todo o continente? \u00c0 medida que avan\u00e7am a espolia\u00e7\u00e3o e a ultradireita, os povos intensificam sua inflex\u00e3o aut\u00f4noma. Simplesmente porque eles n\u00e3o t\u00eam outro caminho para se defender e continuar a ser povos.<\/p>\n<p><strong>A reflex\u00e3o sobre os movimentos e as revoltas associados a povos ind\u00edgenas \u00e9 muito importante em sua obra. O que para voc\u00ea parece singular na experi\u00eancia n\u00e3o s\u00f3 dos povos ind\u00edgenas, mas de todos os povos que se diferenciam de modo mais destacado ao que chamamos de Ocidente, e o que nessas experi\u00eancias pode apontar para um alargamento dos modos de pensar e fazer pol\u00edtica? Quais os di\u00e1logos e os encontros desej\u00e1veis entre essas formas de luta e a tradi\u00e7\u00e3o dos movimentos de esquerda de origem europeia diante da profunda corros\u00e3o das formas democr\u00e1ticas que hoje nos atravessa na Am\u00e9rica Latina e no mundo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>RZ<\/strong>\u00a0Os territ\u00f3rios, a territorializa\u00e7\u00e3o de povos, classes, cores de pele e g\u00eaneros. Diria que sem territ\u00f3rios n\u00e3o somos nada, n\u00e3o conseguimos nos ancorar como sujeitos coletivos e nos desmanchamos no ar, como dizia Marx. A classe oper\u00e1ria foi derrotada quando conseguiram neutralizar seus espa\u00e7os, como as tabernas, e quando desterritorializam a f\u00e1brica, fragmentando o processo produtivo. A for\u00e7a oper\u00e1ria nunca esteve apenas na f\u00e1brica. Sem o bairro oper\u00e1rio, sem a sociabilidade densa entre fam\u00edlias, nunca teria acontecido algo que chamamos de poder oper\u00e1rio. Os sovietes eram territoriais, correspondiam a uma regi\u00e3o oper\u00e1ria, como os Cordones Industriales,<sup>2<\/sup>\u00a0no Chile de Salvador Allende, ou o ABC paulista durante a \u00faltima ditadura.<\/p>\n<p>Existe uma fantasia que situa os sindicatos como chave da luta de classes, algo n\u00e3o demonstrado pelas pesquisas emp\u00edricas sobre a classe oper\u00e1ria. A pot\u00eancia da classe foi constitu\u00edda pelas comunidades em seus territ\u00f3rios, muitos deles ao redor ou pr\u00f3ximos das f\u00e1bricas. Ali\u00e1s, os sindicatos continuam a existir, mas, se n\u00e3o h\u00e1 comunidades oper\u00e1rias, eles n\u00e3o t\u00eam a menor for\u00e7a, nem mesmo representatividade. Estudei durante sete anos em uma comunidade oper\u00e1ria em uma pequena cidade que girava em torno de duas f\u00e1bricas, as maiores de seu ramo no Uruguai (Zibechi, 2006). Consultei arquivos sindicais de trinta anos e pude ver como o sindicato era uma casca, que se dedicava a negociar com a entidade patronal quando os oper\u00e1rios e as oper\u00e1rias das camadas mais baixas colocavam a f\u00e1brica de pernas para o ar com greves selvagens, enfrentando o despotismo dos capatazes. As pessoas n\u00e3o se levantam contra um sistema, ao menos n\u00e3o inicialmente, mas contra a opress\u00e3o concreta: dos capatazes, dos policiais, como agora nos Estados Unidos, dos machos alfa, do poder direto que as oprime. N\u00e3o existe uma luta contra o patriarcado ou contra o capitalismo em abstrato, a n\u00e3o ser na cabe\u00e7a de alguns intelectuais de esquerda. Uma das conclus\u00f5es a que cheguei \u00e9 que a luta era mais potente quando os oper\u00e1rios eram uma multid\u00e3o (organizada informalmente em suas redes de amizades \u201cnaturais\u201d) do que quando se transformam em \u201cclasse\u201d hierarquizada e institucionalizada no sindicato.<\/p>\n<p>Depois de toda essa volta, vejo que agora na Europa come\u00e7am a existir movimentos territoriais, sobretudo depois da crise de 2008. Hortas urbanas e, especificamente nas periferias, espa\u00e7os p\u00fablicos resgatados pelos vizinhos para um lazer n\u00e3o mercantil, al\u00e9m de edif\u00edcios autogeridos, f\u00e1bricas e fazendas recuperadas e at\u00e9 um bairro inteiro Errekaleor, em Vitoria-Gaistez, no Pa\u00eds Basco, uma experi\u00eancia magn\u00edfica. Vi isso apenas na It\u00e1lia, na Gr\u00e9cia e no Estado espanhol, mas antes essas iniciativas n\u00e3o existiam.<\/p>\n<p>Com essa territorializa\u00e7\u00e3o, o v\u00ednculo entre movimentos da Europa e da Am\u00e9rica Latina come\u00e7a a mudar. Antes a rela\u00e7\u00e3o era de solidariedade daqueles conosco, que se mant\u00e9m, mas sempre unilateral e monet\u00e1ria, o que provoca situa\u00e7\u00f5es horr\u00edveis nas quais algumas pessoas se aproveitam e muitas ficam \u00e0 margem. Essa \u00e9 uma das raz\u00f5es que levaram os zapatistas a criar as Juntas de Buen Gobierno [Conselhos de bom governo], para superar a sacrossanta solidariedade entre esquerdas institucionais e ONGs. Agora come\u00e7amos a fazer coisas mais interessantes, trocar experi\u00eancias, aprender como fazem em cada local para superar as dificuldades, ou seja, come\u00e7amos a nos irmanar, um tipo de v\u00ednculo muito mais profundo e criativo.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea costuma colocar em suas an\u00e1lises que a quest\u00e3o do territ\u00f3rio \u00e9 central para a exist\u00eancia dos movimentos aut\u00f4nomos. Em alguns momentos voc\u00ea formula essa quest\u00e3o utilizando a met\u00e1fora dos territ\u00f3rios como \u201carcas\u201d, espa\u00e7o para os povos se protegerem do dil\u00favio capitalista. Ao mesmo tempo que essa imagem dialoga com a crise clim\u00e1tica, ela abre espa\u00e7o para uma leitura de descren\u00e7a nas disputas que possam alterar a produ\u00e7\u00e3o desse cataclismo. Davi Kopenawa Yanomami vem afirmando que o aumento desenfreado da destrui\u00e7\u00e3o produzida pelo capitalismo faz com que n\u00e3o haja nenhum lugar seguro para se refugiar. Seja nas cidades ou nas florestas, o c\u00e9u cair\u00e1 sobre a cabe\u00e7a de todos. Desse modo, seria poss\u00edvel pensar a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas produzidas por esses territ\u00f3rios-ref\u00fagios que apontem para al\u00e9m de si mesmos? A\u00e7\u00f5es com pot\u00eancia de intervir sobre esse mundo, o qual caminha para uma iminente queda do c\u00e9u?<\/strong><\/p>\n<p><strong>RZ<\/strong>\u00a0\u00c9 evidente que os povos sabem muito mais do que n\u00f3s. O que \u00e9 dito por Davi \u00e9 absolutamente correto. J\u00e1 n\u00e3o existe algo externo ao material. Al\u00e9m disso, e isso \u00e9 terr\u00edvel, a destrui\u00e7\u00e3o n\u00e3o depende mais apenas do capital, mas daquilo que perturbava Pasolini: a muta\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica implicada pelo consumismo. Pretender evitar o colapso \u00e9 in\u00fatil, porque dever\u00edamos convencer a maioria qualificada da popula\u00e7\u00e3o mundial a tomar outro rumo. Imposs\u00edvel. A degrada\u00e7\u00e3o do ser humano \u00e9 demasiada para que se mudem os modos de vida sem uma cat\u00e1strofe. Mais ainda, duvido que uma cat\u00e1strofe possa nos mudar. Nesse sentido, parece-me que pensamentos como os de Slavoj \u017di\u017eek n\u00e3o levam a nada, porque n\u00e3o est\u00e3o amparados na realidade. Refiro-me \u00e0quela afirma\u00e7\u00e3o de que agora as pessoas v\u00e3o compreender que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel continuar assim. N\u00e3o, isso n\u00e3o funciona porque o sistema nos confinou, mas nos deu uma janela diab\u00f3lica: a internet.<\/p>\n<p>\u00c9 a maior droga j\u00e1 inventada. Os que est\u00e3o fazendo algo diferente s\u00e3o, justamente, os povos que t\u00eam \u201ccar\u00eancia\u201d de internet, os que n\u00e3o dependem dela porque t\u00eam uma conex\u00e3o p\u00e9ssima ou inexistente ou porque vivem na natureza, muito superior \u00e0 tela por nos conectar a n\u00f3s mesmos, a nossos amigos e companheiros e a todo o mundo, a partir do cora\u00e7\u00e3o e das emo\u00e7\u00f5es. A emo\u00e7\u00e3o\/natureza, bem como a emo\u00e7\u00e3o\/amor, \u00e9 insubstitu\u00edvel, e apenas quando nos amputamos dessa dimens\u00e3o podemos nos transformar em prisioneiros de algo t\u00e3o pobre como uma tela.<\/p>\n<p>Durante mais de 25 anos, os zapatistas tentaram fazer isso que voc\u00eas dizem: juntar-se a outros para fazer alguma interven\u00e7\u00e3o no cen\u00e1rio pol\u00edtico. O resultado, como sabem, \u00e9 muito pobre. Aqui quero propor algo distinto ao que Davi diz: \u00e9 certo que j\u00e1 n\u00e3o existem lugares seguros, mas podemos cri\u00e1-los. Se n\u00e3o o fizermos, desapareceremos como esp\u00e9cie, pelo menos como tem sido a comunidade de seres humanos at\u00e9 n\u00e3o muito tempo atr\u00e1s. Quero dizer que o governo wampis, os territ\u00f3rios da Serra do Padeiro, as autonomias nasa e zapatistas s\u00e3o cria\u00e7\u00f5es das tr\u00eas \u00faltimas d\u00e9cadas, espa\u00e7os e territ\u00f3rios que n\u00e3o existiam previamente.<\/p>\n<p>Pelo que posso intuir, apenas v\u00e1rias interven\u00e7\u00f5es nessa dire\u00e7\u00e3o podem criar um conjunto de espa\u00e7os que ser\u00e3o seguros n\u00e3o por raz\u00f5es t\u00e9cnicas, mas pol\u00edticas, pelos la\u00e7os de confian\u00e7a e de comunidade que somos capazes de criar. As arcas n\u00e3o s\u00e3o constru\u00e7\u00f5es fortes, com materiais \u00e0 prova de bombas ou tsunamis, mas v\u00ednculos s\u00f3lidos para resolver os problemas entre aqueles que est\u00e3o no territ\u00f3rio que resiste.<\/p>\n<p><strong>Persistem no campo das esquerdas na Am\u00e9rica Latina diversos movimentos e tend\u00eancias que, a despeito de diverg\u00eancias t\u00e1ticas e estrat\u00e9gicas, t\u00eam em comum a rejei\u00e7\u00e3o ou a incapacidade de atuar por meio de formas pol\u00edticas que n\u00e3o desejam unificar, homogeneizar, reduzir as diferen\u00e7as. Em muitos movimentos sociais, as imagens de \u201cpolitiza\u00e7\u00e3o\u201d t\u00eam a ver com o processo levado a cabo por for\u00e7as centr\u00edpetas externas que seriam capazes de integrar \u201cpartes\u201d ao \u201ctodo\u201d, fazendo com que indiv\u00edduos aparentemente desorganizados, demasiado conectados com a \u201cexperi\u00eancia\u201d e as \u201cnecessidades\u201d, superem sua suposta disfuncionalidade pol\u00edtica para assim se tornarem \u201cmaiorias\u201d. Em seus textos, entretanto, voc\u00ea chama a aten\u00e7\u00e3o para a exist\u00eancia de outro modo de pensar e fazer pol\u00edtica que passa n\u00e3o por essa rever\u00eancia ao ideal do \u201cUm\u201d, como aponta Pierre Clastres, mas pela pot\u00eancia de ser outro, de produzir diferen\u00e7as: \u201cum mundo onde caibam muitos mundos\u201d, como dizem os zapatistas. Seriam, assim, modos de agir politicamente que n\u00e3o est\u00e3o apartados do cotidiano, ao contr\u00e1rio, s\u00e3o feitos por meio dele, uma pol\u00edtica que n\u00e3o op\u00f5e os imperativos da luta \u00e0 pot\u00eancia de diferencia\u00e7\u00e3o da vida, mas faz dessa rela\u00e7\u00e3o sua maior for\u00e7a.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Seria poss\u00edvel pensar esse como um dos mais significativos contrastes nas imagina\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias hoje? Quais seriam os \u00eaxitos mais destacados dos movimentos que n\u00e3o se deixam sequestrar pelo ideal do \u201cUm\u201d, pela necessidade de ser Estado, e poderiam expandir a imagina\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria da esquerda, atualmente t\u00e3o empobrecida?<\/strong><\/p>\n<p><strong>RZ<\/strong>\u00a0Al\u00e9m de evitar cair no conceito de \u201cUm\u201d, Estado, partido ou ex\u00e9rcito revolucion\u00e1rio, acredito que devemos recusar a ideia de \u201cUma\u201d sociedade. As duas ideias deveriam caminhar juntas. Recusar a unidade e a homogeneiza\u00e7\u00e3o \u2014 ambas v\u00e3o de m\u00e3os dadas \u2014 implica apostar na diversidade e em um conceito de totalidade diferente do herdado por n\u00f3s da Europa. S\u00e3o os temas de An\u00edbal Quijano, que nos fala sobre uma totalidade integrada por partes que n\u00e3o s\u00e3o id\u00eanticas, mas heterog\u00eaneas. Aqui o conceito de heterogeneidade \u00e9 t\u00e3o importante quanto o de totalidade.<\/p>\n<p>Me explico melhor com exemplos. Em sociedades homog\u00eaneas, a totalidade se imp\u00f5e sobre as partes porque existe apenas uma l\u00f3gica, pois as partes t\u00eam caracter\u00edsticas similares ao todo, a ponto de o todo estar nas partes, e estas s\u00e3o partes da totalidade. Mas na nossa Am\u00e9rica Latina, onde temos enorme heterogeneidade hist\u00f3rica (povos oriundos de v\u00e1rios continentes, com hist\u00f3rias diversas) somada \u00e0 heterogeneidade estrutural (cinco rela\u00e7\u00f5es de trabalho, quatro delas n\u00e3o salariais), a totalidade n\u00e3o \u00e9 capaz de refletir essa diversidade. Nem mesmo os Estados plurinacionais, que est\u00e3o armados sobre a matriz estatal, adornada com cores diversas.<\/p>\n<p>Por isso, como afirma Quijano, a revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode consistir na sa\u00edda de uma totalidade (capitalismo) do cen\u00e1rio social para dar lugar a outra totalidade (socialismo, digamos). Isso n\u00e3o funciona, nem pode funcionar. \u201cOs processos de mudan\u00e7a n\u00e3o podem consistir na transforma\u00e7\u00e3o de uma totalidade historicamente homog\u00eanea em outra equivalente, seja gradual ou continuamente, seja por saltos e rupturas\u201d, diz o soci\u00f3logo peruano.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 o que vemos nos feminismos e o que vivi em Chiapas. \u00c9 evidente que o mundo das mulheres muda, mas de maneira muito heterog\u00eanea. \u00c9 imposs\u00edvel que todas as mulheres, de todos os setores sociais, geogr\u00e1ficos, de faixas et\u00e1rias e dos diversos povos, movam-se para a mesma dire\u00e7\u00e3o. Seria preciso impor a mudan\u00e7a, como foi feito na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. As mulheres mapuche t\u00eam uma hist\u00f3ria, e as oper\u00e1rias, outra, com rela\u00e7\u00f5es familiares muito diferentes, e rela\u00e7\u00f5es sociais e com o meio bastante distintas e at\u00e9 contradit\u00f3rias.<\/p>\n<p>Nas comunidades zapatistas, predomina a heterogeneidade. \u00c9 muito dif\u00edcil encontrar uma comunidade em que todas as fam\u00edlias sejam zapatistas. Ali a quest\u00e3o \u00e9 como se relacionam com os que s\u00e3o pr\u00f3-governo ou indiferentes, ou evang\u00e9licos, ou seja o que for. Al\u00e9m disso, cada povo maia, em cada geografia, encara as coisas de modo distinto, mesmo que seja zapatista.<\/p>\n<p>Em s\u00edntese: continuamos a ser demasiado euroc\u00eantricos, demasiado \u201cUm\u201d, pensando ser ainda poss\u00edvel falar na Am\u00e9rica Latina como uma sociedade da qual todos nos sentimos parte. Que isso aconte\u00e7a depois de cinco s\u00e9culos pode ser desmoralizante, triste ou o que queiram, mas a realidade \u00e9 irredut\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancia<\/strong><br \/>\nZibechi, Ra\u00fal.\u00a0<em>De multitud a clase: formaci\u00f3n y crisis de una comunidad obrera<\/em>,\u00a0<em>Juan Lacaze<\/em>\u00a0(1905-2005). Montevid\u00e9u: Ediciones Ideas, 2006.<\/p>\n<p>1 O jornal mexicano\u00a0<em>La Jornada<\/em>\u00a0publicou em 2001 fragmentos do discurso do subcomandante Marcos que detalham a vis\u00e3o dos zapatistas sobre o tema. Ap\u00f3s a Terceira Guerra Mundial (a Guerra Fria), a lideran\u00e7a zapatista afirma que a Quarta Guerra busca tomar territ\u00f3rios para impor a globaliza\u00e7\u00e3o, vista aqui como universaliza\u00e7\u00e3o do mercado. (Subcomandante insurgente Marcos, \u201cLa Quarta Guerra Mundial\u201d, La Jornada, 23 out. 2001) [n.t.]<\/p>\n<p>2 \u00d3rg\u00e3os que administravam f\u00e1bricas com autogest\u00e3o dos oper\u00e1rios durante o governo de Salvador Allende (1970-1973). [n.t.]<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Entrevista com Ra\u00fal Zibechi, autor de Territ\u00f3rios em rebeldia &#8211; Editora Elefante &#8211; https:\/\/elefanteeditora.com.br\/entrevista-com-raul-zibechi-autor-de-territorios-em-rebeldia\/?ct=t%28DAREDACAO_breno%2311_Tira%2323_Retratos_20201025_COPY_%29&amp;mc_cid=2c7b4779ed&amp;mc_eid=0ac7cd7efd<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alana Moraes, Lucas Keese e Marcelo Hotimsky &#8211; Entrevista com Ra\u00fal Zibechi, autor de Territ\u00f3rios em rebeldia. Zibechi, gostar\u00edamos de saber sobre a rela\u00e7\u00e3o entre seu percurso e o conjunto de suas reflex\u00f5es. 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