{"id":18365,"date":"2022-10-06T12:22:44","date_gmt":"2022-10-06T15:22:44","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18365"},"modified":"2022-10-04T21:26:15","modified_gmt":"2022-10-05T00:26:15","slug":"um-guia-para-a-primeira-leitura-de-karl-marx","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/10\/06\/um-guia-para-a-primeira-leitura-de-karl-marx\/","title":{"rendered":"Um guia para a primeira leitura de Karl Marx"},"content":{"rendered":"<p><strong>MICHAEL LAZARUS<\/strong> &#8211; Com o aumento da desigualdade e das lutas de classe, h\u00e1 hoje mais interesse sobre o pensamento de Karl Marx como nunca houve em d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Neste dia, em 1867, foi publicado o primeiro volume do livro\u00a0<i>Capital: cr\u00edtica da economia pol\u00edtica<\/i>\u00a0de Karl Marx. Sabemos que a sua c\u00f3pia est\u00e1 na estante intocada h\u00e1 anos. \u00c9 tempo de mudar isso \u2014 e aqui te mostraremos como.<\/p>\n<p>Por vezes, apenas uma men\u00e7\u00e3o sobre Karl Marx \u00e9 o suficiente para gerar manchetes na m\u00eddia. Independentemente do que voc\u00ea acha sobre sua m\u00fasica, o fato de Grimes ter posado para um ensaio fotogr\u00e1fico segurando uma c\u00f3pia de\u00a0<em><a href=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2021\/02\/manifesto-comunista\/\">O Manifesto Comunista<\/a><\/em>\u00a0ap\u00f3s seu t\u00e9rmino com Elon Musk \u00e9 representativo. O movimento apontou o poder simb\u00f3lico do\u00a0<em>Manifesto<\/em>\u00a0contra o seu ex-namorado, uma das melhores personifica\u00e7\u00f5es do capital no s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Uma coisa \u00e9 mobilizar o panfleto revolucion\u00e1rio de Marx e Friederich Engels em uma guerra de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas entre megaricos. Outra completamente diferente \u00e9 ler Marx e usar seu pensamento para a cr\u00edtica da ordem existente. Esta tarefa tem sido cada vez mais urgente \u2014 com o aumento da desigualdade e das lutas de classe \u2014 h\u00e1 hoje mais interesse no pensamento de Marx do que j\u00e1 houve em d\u00e9cadas. Por\u00e9m, tanto para novos esquerdistas quanto para os mais \u00edntimos desse pensamento, pode ser um desafio se infiltrar na escrita de Marx. N\u00e3o ajuda o fato de ele ter uma obra extensa, especialmente para algu\u00e9m que morreu relativamente jovem aos\u00a0<a href=\"https:\/\/jacobin.com\/2021\/05\/birthday-old-man-karl-marx-later-years\">sessenta e quatro anos<\/a>. A vers\u00e3o inglesa da obra coletiva de Marx e Engels somam 55 volumes, mas mesmo tudo isso n\u00e3o resume suas obras\u00a0<em>completas<\/em>.<\/p>\n<p>A leitura de Marx, no entanto, \u00e9 divertida e n\u00e3o apenas por ser uma insuper\u00e1vel cr\u00edtica ao capitalismo. Seu pensamento \u00e9 fundamentalmente preocupado com a liberdade humana e seus escritos v\u00e3o muito al\u00e9m dos detalhes sobre a explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica sob o capital \u2014 eles desafiam todas as formas de\u00a0<a href=\"https:\/\/jacobin.com\/2021\/07\/karl-marx-capital-marxs-inferno-political-theory-anti-domination-william-clare-roberts-book-interview\">domina\u00e7\u00e3o social<\/a>. Ele era um escritor brilhante cuja obra se expande para o jornalismo pol\u00edtico, filosofia, hist\u00f3ria e economia pol\u00edtica. Seu interesse em literatura, linguistica, ci\u00eancia, matem\u00e1tica e antropologia contribu\u00edram para suas ideias mais potentes e enriqueceram sua escrita. Ainda que haja muitas formas de abordar Marx, uma an\u00e1lise sobre seus textos principais e o contexto intelectual, hist\u00f3rico e pol\u00edtico no qual foram escritos \u00e9 de grande ajuda.<\/p>\n<p><strong>Escritos pol\u00edticos<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">Muitos trabalhadores alem\u00e3es pediram para serem enterrados junto com o\u00a0<em>Manifesto Comunista<\/em>\u00a0antes da Primeira Guerra Mundial. Este compromisso \u00e9 o testamento da profunda import\u00e2ncia que o texto tinha para o movimento dos trabalhadores no in\u00edcio do s\u00e9culo XX. Exatamente por isso, o\u00a0<em>Manifesto Comunista<\/em>, publicado pela primeira vez em 1848, \u00e9 provavelmente o melhor lugar para os iniciantes na obra de Marx. Ajuda o fato de este ser um dos mais famosos e poderosos textos jamais produzidos.<\/p>\n<p>Partindo de rascunhos escritos em conjunto com seu amigo e parceiro de toda a vida Friederich Engels, Marx escreveu o texto em quest\u00e3o de semanas. A inten\u00e7\u00e3o era de ser uma declara\u00e7\u00e3o sobre a vis\u00e3o da Liga Comunista, um pequeno partido da classe trabalhadora que contava com ambos, Marx e Engels, entre seus membros. Apesar de curto, o texto tem v\u00e1rias camadas de interpreta\u00e7\u00e3o. Ele d\u00e1 sentido \u00e0s revolu\u00e7\u00f5es que varreram a Europa em 1848 e cont\u00e9m algumas das linhas mais famosas escritas por Marx, incluindo a famosa passagem de abertura do cap\u00edtulo \u201cBurgueses e Prolet\u00e1rios\u201d:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201cA hist\u00f3ria de todas as sociedades at\u00e9 hoje existentes \u00e9 a hist\u00f3ria das lutas de classes. Homem livre e escravo, patr\u00edcio e plebeu, senhor feudal e servo, mestre de corpora\u00e7\u00e3o e companheiro, em resumo, opressores e oprimidos, em constante oposi\u00e7\u00e3o, t\u00eam vindo numa guerra ininterrupta, ora franca, ora disfar\u00e7ada; uma guerra que terminou sempre ou por uma transforma\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria da sociedade inteira, ou pela destrui\u00e7\u00e3o das duas classes em conflito.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Eloquentemente, enquanto denuncia o capitalismo, o\u00a0<em>Manifesto Comunista<\/em>\u00a0explica o que h\u00e1 de mais essencial na teoria de Marx, incluindo sua an\u00e1lise sobre a luta de classes e a mudan\u00e7a hist\u00f3rica e seu argumento quanto \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da classe trabalhadora. O objetivo de Marx \u00e9 capturar a pol\u00edtica do presente e explicitar as din\u00e2micas sociais do mundo moderno. Por isso \u00e9 tamb\u00e9m importante revisit\u00e1-lo \u2014 cada leitura revela novas camadas do pensamento de Marx.<\/p>\n<p>Em 1872, Marx e Engels deram um novo pref\u00e1cio ao\u00a0<em>Manifesto Comunista<\/em>\u00a0ao qual fizeram uma grande adi\u00e7\u00e3o. Depois de observar cuidadosamente a\u00a0<a href=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2021\/03\/a-comuna-de-paris-ainda-e-uma-fonte-inesgotavel-para-transformacoes-radicais\/\">Comuna de Paris<\/a>\u00a0\u2014 uma insurrei\u00e7\u00e3o que capturou a capital francesa por quase tr\u00eas meses em 1871 \u2014 ambos se convenceram de que seria poss\u00edvel que a classe trabalhadora simplesmente tomasse o Estado e o utilizasse contra o capitalismo. Como resultado, em\u00a0<em>A Guerra Civil na Fran\u00e7a<\/em>, escrito pouco ap\u00f3s a supress\u00e3o da Comuna, Marx argumenta que apenas institui\u00e7\u00f5es criadas e controladas pela classe trabalhadora poderiam encarnar uma pol\u00edtica alternativa ao capitalismo que fosse democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Escrito em Londres, onde Marx se exilou pela maior parte de sua vida,\u00a0<em>A Guerra Civil na Fran\u00e7a<\/em>\u00a0foi originalmente concebida como uma declara\u00e7\u00e3o p\u00fablica em nome da\u00a0<a href=\"https:\/\/jacobin.com\/2020\/09\/first-international-workingmens-association-marx\">Primeira Internacional<\/a>, uma rede de grupos e sindicatos socialistas de diversos pa\u00edses. Como resultado, inspirou socialistas ao redor do mundo demonstrando que a organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores poderia constituir seu poder pol\u00edtico de forma coletiva e democraticamente.\u00a0<em>A Guerra Civil na Fran\u00e7a<\/em>\u00a0\u00e9 um testemunho da ideia radical de Marx sobre organiza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e sua vis\u00e3o de emancipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"destaque-centro\">\u201cEle via o comunismo como um sistema radicalmente diferente no qual as nossas necessidades \u2014 potencialmente ilimitadas e individualmente variadas \u2014 deveriam ser prioridade.\u201d<\/p>\n<p>Se\u00a0<em>A Guerra Civil na Fran\u00e7a<\/em>\u00a0foi escrita para o p\u00fablico, sua obra\u00a0<em>Cr\u00edtica do Programa de Gotha<\/em>, de 1875, foi concebida como uma pol\u00eamica dentro do movimento socialista, dirigida especialmente ao rec\u00e9m formado Partido da Social Democracia da Alemanha. Neste pequeno texto, Marx \u00e9 taxativo na cr\u00edtica aos socialistas que se consideram marxistas, mas n\u00e3o entendem aspectos b\u00e1sicos de sua teoria. De fato, em\u00a0<em>Cr\u00edtica do Programa de Gotha<\/em>\u00a0vemos diversas ideias cruciais que Marx n\u00e3o aborda em outros lugares com a mesma profundidade. A mais famosa \u00e9 a discuss\u00e3o sobre a transi\u00e7\u00e3o do capitalismo ao comunismo, apontando para o fato de que socialismo e comunismo n\u00e3o devem ser vistos como dois est\u00e1gios distintos. Em vez disso, Marx v\u00ea socialismo e comunismo como diferentes \u201cfases\u201d no desenvolvimento de uma nova forma de sociedade p\u00f3s-capitalista.<\/p>\n<p>Isto nos ajuda a entender sua famosa frase ao descrever o comunismo: \u201cde cada um conforme suas habilidades, para cada um conforme suas necessidades\u201d. Marx prop\u00f5e uma forma de viver para al\u00e9m dos \u201chorizontes limitados do direito burgu\u00eas\u201d, onde a produ\u00e7\u00e3o \u00e9 reorganizada a partir de decis\u00f5es racionais e coletivas. Marx \u00e9 um cr\u00edtico de qualquer vis\u00e3o, socialista ou n\u00e3o, que defenda a igualdade apenas na forma de distribui\u00e7\u00e3o de riquezas. Ele via o comunismo como um sistema radicalmente diferente no qual as nossas necessidades \u2014 potencialmente ilimitadas e individualmente variadas \u2014 deveriam ser prioridade. A raz\u00e3o de ser do comunismo \u00e9 dar suporte a vidas onde somos livres para experimentar todo nosso potencial. Nesta vis\u00e3o, liberdade e democracia demandam por uma organiza\u00e7\u00e3o social que supera as formas capitalistas de trabalho.<\/p>\n<p><strong>Obras Iniciais de Marx<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">Antes de 1848, a maioria dos trabalhos de Marx versavam sobre a filosofia. Ainda jovem, Marx fazia parte de um ambiente intelectual definido principalmente pelas ideias do fil\u00f3sofo alem\u00e3o\u00a0<a href=\"https:\/\/jacobin.com\/2016\/07\/hegel-bastille-day-burke-french-revolution\">G.W.F Hegel<\/a>. Como \u00e9 sabido, ap\u00f3s sua morte em 1831, os seguidores de Hegel se dividiram em duas correntes e ambas reivindicaram seu legado. Os \u201chegelianos de direita\u201d tipificavam uma filosofia conservadora e religiosa e apoiavam o Estado prussiano antidemocr\u00e1tico. Os \u201chegelianos de esquerda\u201d, por outro lado, preferiam uma vers\u00e3o anti-religiosa da filosofia de Hegel e defendiam reformas sociais e pol\u00edticas radicais. Apesar de Marx ser considerado um hegeliano de esquerda por sua cr\u00edtica radical \u00e0 religi\u00e3o e \u00e0 pol\u00edtica, ele nunca esteve estritamente neste campo. O fato \u00e9 que Marx realmente leu Hegel com devo\u00e7\u00e3o e profundidade e o autor permaneceu uma influencia intelectual fundamental no pensamento de Marx durante toda a sua vida.<\/p>\n<p>O resultado dessa influ\u00eancia nos \u201cprimeiros\u201d escritos de Marx \u2014 refer\u00eancia ao per\u00edodo entre 1839 e 1845 \u2014 \u00e9 a forma caracter\u00edstica da escrita de Hegel e sua dif\u00edcil terminologia. Soma-se a isto a extensiva polemiza\u00e7\u00e3o de Marx contra seus contempor\u00e2neos. Por este motivo, estes textos podem ser de dif\u00edcil abordagem. Contudo, \u00e9 nesses textos que se encontram suas teorias mais not\u00e1veis sobre a natureza e a atividade humanas e sobre a\u00a0<a href=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2022\/01\/para-marx-a-alienacao-era-central-para-a-compreensao-do-capitalismo\/\">aliena\u00e7\u00e3o do trabalho<\/a>. Uma forma mais f\u00e1cil de ler estes trabalhos \u00e9 atrav\u00e9s de uma boa sele\u00e7\u00e3o de qualidade. Duas excelentes obras s\u00e3o\u00a0<em>Karl Marx: Selected Writings\u00a0<\/em>(1977), editado por David McLellan e\u00a0<em>The Marx-Engels Reader\u00a0<\/em>(1978), editado por Robert C. Tucker. O entendimento dos primeiros trabalhos de Marx tamb\u00e9m pode se beneficiar da leitura de uma biografia de qualidade, como a escrita por Michael Heinrich,\u00a0<em>Karl Marx and the Birth of Modern Society\u00a0<\/em>(2019), ou de coment\u00e1rios sobre as ideias de Marx como o livro\u00a0<em>Marx\u2019s Concept of the Alternative to Capitalism\u00a0<\/em>(2012) de Peter Hudis.<\/p>\n<p>Talvez o melhor texto deste per\u00edodo seja\u00a0<em>Sobre a Quest\u00e3o Judaica<\/em>, escrito em 1843. Esta \u00e9 uma das mais importantes entre suas primeiras obras pois delineia uma cr\u00edtica \u00e0 pol\u00edtica moderna que at\u00e9 hoje \u00e9 poderosa. Neste pequeno artigo, Marx analisa o tipo de liberalismo que se foca nos direitos humanos e se tornou dominante ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa em 1789. Ele argumenta que a abordagem liberal da cidadania pol\u00edtica defende direitos iguais, mas ignora a concreta desigualdade produzida pelos mercados modernos. Segundo ele, existe uma dicotomia entre a vida pol\u00edtica dos cidad\u00e3os e a vida privada da economia. Apesar de a vida pol\u00edtica parecer livre, racional e igualit\u00e1ria, o poder do mercado e da propriedade privada a enfraquece ao dar poder real aos donos do capital. Marx diz que direitos pol\u00edticos s\u00e3o necess\u00e1rios, mas devem ser expandidos e tornados universais como a liberdade. Temos que vislumbrar a emancipa\u00e7\u00e3o humana para conquistar a liberdade.<\/p>\n<p class=\"destaque-centro\">\u201cSem teoria, a pr\u00e1tica \u00e9 cega e, sem pr\u00e1tica, a teoria \u00e9 impotente.\u201d<\/p>\n<p>Ao chegar a esta conclus\u00e3o, Marx dedicou sua aten\u00e7\u00e3o cada vez mais ao entendimento de como o capitalismo organiza a produ\u00e7\u00e3o e o trabalho. Assim como inspirado pela ideia de\u00a0<a href=\"https:\/\/jacobin.com\/2021\/12\/alienation-reification-commodity-fetishism-philosophy-capitalism\">aliena\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0de Hegel para entender como surgem as fortunas, ele tamb\u00e9m leu os primeiros economistas como Adam Smith e David Ricardo. No curso destes estudos, Marx fez anota\u00e7\u00f5es que o ajudavam a esclarecer seus pensamentos. Estas anota\u00e7\u00f5es foram redescobertas em 1930 e se tornaram os\u00a0<em>Manuscritos Economico-filos\u00f3ficos de 1844.<\/em><\/p>\n<p>Os escritos de 1844 de Marx cont\u00e9m a primeira grande cr\u00edtica \u00e0 economia pol\u00edtica burguesa. Marx est\u00e1 preocupado em perceber a natureza do ser humano sob o capitalismo, que a ele se apresenta como \u201calienado\u201d e \u201cdistante\u201d. O capitalismo n\u00e3o apenas nos tira o controle sobre nossa pr\u00f3pria produtividade e consci\u00eancia ativa, segundo Marx, como tamb\u00e9m nos nega as recompensas por nossas capacidades de trabalho coletivas e individuais. Quando vendemos nosso trabalho por um sal\u00e1rio a um empregador, perdemos o controle sobre o que fazemos, sobre o que produzimos e sobre o contexto social e ambiental de nosso trabalho.<\/p>\n<p>Os primeiros escritos de Marx s\u00e3o frequentemente compilados em\u00a0<em>Teses sobre Feuerbach.<\/em>\u00a0Este pequeno texto inclui as amplamente citadas onze teses: \u201cFil\u00f3sofos apenas\u00a0<em>interpretaram<\/em>\u00a0o mundo de diferentes formas; o objetivo \u00e9\u00a0<em>transform\u00e1-lo<\/em>\u201d. Esta \u00e9 provavelmente a frase mais famosa que fluiu da caneta de Marx e encapsula a contradi\u00e7\u00e3o entre teoria e pr\u00e1tica que Marx se dedicou a suplantar. Seu ponto, no entanto, se perdeu devido a tantas interpreta\u00e7\u00f5es. Muitos marxistas mais pr\u00e1ticos se apegam \u00e0 primeira parte da frase para argumentar que a filosofia n\u00e3o \u00e9 mais necess\u00e1ria e que, em vez disso, devemos focar em a\u00e7\u00f5es para mudan\u00e7a. Ao mesmo tempo, leitores mais acad\u00eamicos exploram a signific\u00e2ncia te\u00f3rica da ideia de pr\u00e1tica de Marx se esquecendo de que ele estava justamente tentando desenvolver uma teoria capaz de ajudar para o sucesso da revolu\u00e7\u00e3o. Mais claramente, o objetivo de Marx com suas onze teses \u00e9 que teoria e pr\u00e1tica precisam uma da outra. Sem teoria, a pr\u00e1tica \u00e9 cega e, sem pr\u00e1tica, a teoria \u00e9 impotente.<\/p>\n<p><strong><em>O Capital<\/em><\/strong><br \/>\nAbordar\u00a0<em>O Capital<\/em>, a obra-prima de Marx, pode ser desafiador \u2014 mas \u00e9 um esfor\u00e7o que vale a pena. Se Marx escreveu\u00a0<em>O Manifesto Comunista<\/em>\u00a0muito r\u00e1pido,\u00a0<em>O Capital<\/em>\u00a0foi o projeto mais lento de sua vida. Inicialmente, ele havia planejado seis volumes, por\u00e9m com o avan\u00e7o da idade e o decl\u00ednio de sua sa\u00fade, acabou revisando o plano e englobando quatro volumes. Apenas o primeiro foi publicado em vida, em 1867. No entanto, devido \u00e0s v\u00e1rias anota\u00e7\u00f5es e notas deixadas, Engels pode editar e publicar outros dois volumes ap\u00f3s a morte de Marx. Seus manuscritos do quarto volume, uma cr\u00edtica hist\u00f3rica \u00e0 teoria econ\u00f4mica, foram publicados depois como\u00a0<em>Teorias da Mais-Valia<\/em>. Longe de conter todas as respostas, assim como o marxismo como um todo,\u00a0<em>O Capital<\/em>\u00a0permanece inacabado.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-24497 lazyload c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/jacobin.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/FcnvVxqWIAE9plg.jpeg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p><em>O primeiro volume do livro \u201cCapital: Cr\u00edtica da Economia Pol\u00edtica\u201d de Karl Marx foi publicado em 14 de setembro de 1867.<\/em><\/p>\n<p>Apesar da m\u00e1 fama de um trabalho mon\u00f3tono sobre economia, a prosa de Marx em\u00a0<em>O Capital<\/em>\u00a0\u00e9 frequentemente excitante (pelo menos no Volume 1) e seus argumentos s\u00e3o claros e bem estruturados. Mas, mais importante,\u00a0<em>O Capital<\/em>\u00a0\u00e9 exitoso pois cont\u00e9m a descri\u00e7\u00e3o dos conceitos necess\u00e1rios para come\u00e7armos a entender o capitalismo como uma forma de vida social e uma s\u00e9rie hist\u00f3rica de rela\u00e7\u00f5es sociais. Mesmo que essas rela\u00e7\u00f5es sociais estruturem as nossas vidas, elas n\u00e3o s\u00e3o naturais, mas produto de um sistema hist\u00f3rico e econ\u00f4mico espec\u00edfico.<\/p>\n<p>No primeiro cap\u00edtulo de\u00a0<em>O Capital<\/em>, Marx argumenta que o capitalismo \u00e9 fundamentalmente definido como a produ\u00e7\u00e3o e troca de mercadorias. Mercadorias, ele explica, t\u00eam um \u201cuso-valor\u201d, o que \u00e9 o mesmo que dizer que, para que algo seja uma mercadoria, algu\u00e9m tem que acreditar que ela seja \u00fatil para suprir alguma necessidade. Ainda, mercadorias n\u00e3o s\u00e3o definidas ou avaliadas por seu valor intr\u00ednseco, mas por sua venda no mercado enquanto mercadoria. Por exemplo, uma refei\u00e7\u00e3o preparada por amigos certamente supre uma necessidade humana \u2014 mas n\u00e3o \u00e9 uma mercadoria. Antes, mercadorias possuem \u201cvalor de troca\u201d que \u00e9 definido em pre\u00e7os.<\/p>\n<p>Para entender isto, Marx se pergunta por que a riqueza surge no capitalismo sob a forma de valor, uma rela\u00e7\u00e3o social expressa pelo dinheiro e como \u00e9 constitu\u00eddo este valor. Parte de sua resposta \u00e9 que o capitalismo trata a capacidade laboral humana como uma mercadoria. A troca de valor para a capacidade laboral \u00e9 medida em sal\u00e1rios. Enquanto isso, o valor do trabalho \u00e9 consumido durante o dia de trabalho para a produ\u00e7\u00e3o de mercadorias que ser\u00e3o vendidas no mercado. Esta conclus\u00e3o \u00e9 crucial e cont\u00e9m a chave para a teoria da explora\u00e7\u00e3o de Marx. Enquanto trabalhamos, nosso trabalho produz mais valor do que nos \u00e9 pago em sal\u00e1rio por nossa capacidade laboral. Este \u201cvalor a mais\u201d vai para o bolso dos capitalistas que det\u00e9m o maquin\u00e1rio, a terra e as mat\u00e9rias-primas necess\u00e1rias para a produ\u00e7\u00e3o. Com este processo em mente, \u00e9 mais f\u00e1cil entender que a competi\u00e7\u00e3o entre capitalistas n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de cobi\u00e7a, mas uma implac\u00e1vel necessidade de acumular que est\u00e1 embutida na forma capitalista de valor.<\/p>\n<p>Crucial para o argumento de Marx \u00e9 que o valor n\u00e3o surge distintamente de cada ato de trabalho fisiol\u00f3gico, mas de um processo social que equivale o trabalho humano a um \u201ctempo de trabalho socialmente necess\u00e1rio\u201d e torna a atividade de trabalho abstrata e as mercadorias uniformes como valores.<\/p>\n<p class=\"destaque-centro\">\u201cMarx demonstra que o capitalismo \u00e9 propenso a crises e rupturas. Isto significa que a transforma\u00e7\u00e3o social tanto \u00e9 poss\u00edvel quanto necess\u00e1ria.\u201d<\/p>\n<p>Marx descreve como mercadorias, dinheiro e capital servem como momentos distintos na constitui\u00e7\u00e3o do valor. Estas formas econ\u00f4micas s\u00e3o todas rela\u00e7\u00f5es sociais que, para Marx, dependem da atividade laboral alienada das pessoas que as vendem por um sal\u00e1rio. Como resultado, os produtos do trabalho humano s\u00e3o colocados acima das pessoas que os executam, surgindo como separados e independentes de n\u00f3s. O mercado reduz os seres humanos simplesmente \u00e0s suas fun\u00e7\u00f5es como compradores e vendedores de mercadorias. O termo de Marx para este fen\u00f4meno em\u00a0<em>O Capital<\/em>\u00a0\u00e9 \u201cfetichismo\u201d e se aplica \u00e0 sua an\u00e1lise sobre mercadorias, dinheiro e capital. Estas formas sociais s\u00e3o poderosas como rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o, impessoais e onipresentes sob o regime capitalista.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 importante ressaltar que\u00a0<em>O Capital<\/em>\u00a0\u00e9 uma cr\u00edtica \u00e0 teoria econ\u00f4mica como um todo. O desafio de Marx \u00e9 mostrar que o valor em si \u00e9 uma forma de vida hist\u00f3rica e, como resultado, pode ser transformada. Mostrando que as rela\u00e7\u00f5es sociais capitalistas s\u00e3o artificiais e n\u00e3o produto da hist\u00f3ria, ele demonstra que o capitalismo \u00e9 propenso a crises e rupturas. Isto significa que a transforma\u00e7\u00e3o social tanto \u00e9 poss\u00edvel quanto necess\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>Leia Marx com seus camaradas<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">Ler Marx com outras pessoas \u00e9 sempre gratificante e abordar seu pensamento junto com camaradas, colegas, amigos ou fazendo parte de um grupo de leitura pode ajudar. Entender a escrita de Marx n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil quanto pode parecer a princ\u00edpio, mas como qualquer grande pensador, o esfor\u00e7o \u00e9 recompensador. Como o pr\u00f3prio Marx avisa aos leitores em\u00a0<em>O Capital<\/em>, \u201cN\u00e3o h\u00e1 estrada real para a ci\u00eancia e s\u00f3 t\u00eam possibilidade de chegar aos seus luminosos cumes aqueles que n\u00e3o temem fatigar-se a escalar as suas veredas escarpadas\u201d.<\/p>\n<p>Contudo, s\u00e3o precisamente estes cumes alcan\u00e7ados atrav\u00e9s da leitura de Marx que nos ajudam a analisar o que est\u00e1 errado com o mundo moderno. Gra\u00e7as ao compromisso permanente de Marx com a liberdade e a emancipa\u00e7\u00e3o humana, sua vis\u00e3o ilumina nosso caminho em dire\u00e7\u00e3o a sua transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"__reading__mode__content_end_mark_container_id\">Fonte da mat\u00e9ria: Um guia para a primeira leitura de Karl Marx &#8211; https:\/\/jacobin.com.br\/2022\/09\/um-guia-para-a-primeira-leitura-de-karl-marx\/<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MICHAEL LAZARUS &#8211; Com o aumento da desigualdade e das lutas de classe, h\u00e1 hoje mais interesse sobre o pensamento de Karl Marx como nunca houve em d\u00e9cadas. Neste dia, em 1867, foi publicado o primeiro volume do livro\u00a0Capital: cr\u00edtica da economia pol\u00edtica\u00a0de Karl Marx. 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