{"id":18356,"date":"2022-10-04T12:51:51","date_gmt":"2022-10-04T15:51:51","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18356"},"modified":"2022-09-30T09:57:03","modified_gmt":"2022-09-30T12:57:03","slug":"bergman-e-o-nazismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/10\/04\/bergman-e-o-nazismo\/","title":{"rendered":"Bergman e o nazismo"},"content":{"rendered":"<div id=\"__reading__mode__header__container\" class=\"header_container\">\n<div id=\"header_content_id\" class=\"header_content\">\n<p id=\"mainContentTitle\" class=\"__reading__mode__extracted__title c0011\"><strong>Ingmar Bergman<\/strong> &#8211; No ver\u00e3o em que completei dezesseis anos fui mandado para a Alemanha como estudante de interc\u00e2mbio. Isso significava que permaneceria seis semanas na casa de uma fam\u00edlia alem\u00e3, junto com um garoto da minha idade. Quando suas f\u00e9rias de ver\u00e3o come\u00e7assem, ele me acompanharia \u00e0 Su\u00e9cia, onde ficaria durante o mesmo per\u00edodo.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"__reading__mode__mainbody__id\" class=\"__reading__mode__mainbody\">\n<div id=\"mainContainer\" class=\"__reading__mode__extracted__article__body\">\n<article id=\"post-33547\" class=\"post-33547 post type-post status-publish format-standard has-post-thumbnail hentry category-perfil-2 tag-adolf-hitler tag-alemanha tag-arte tag-cinema tag-critica tag-critica-de-cinema tag-filme tag-ingmar-bergman tag-juventude-hitlerista tag-minha-luta tag-nazismo tag-thuringen tag-weimar\">\n<div class=\"entry-content\">\n<p>Fui recebido pela fam\u00edlia de um pastor em Th\u00fcringen, numa pequena localidade que se chamava Haina, entre Weimar e Eisenach. A aldeia ficava em um vale e era cercada de belas constru\u00e7\u00f5es. Entre as casas insinuava-se um riacho indolente e turvo. Na aldeia havia uma igreja exageradamente grande, uma pra\u00e7a com um monumento de guerra e uma esta\u00e7\u00e3o de \u00f4nibus.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia era grande: seis filhos e tr\u00eas filhas, o pastor e sua mulher, al\u00e9m de uma parenta mais velha, que era diaconisa ou freira auxiliar. Ela tinha bigode, suava a c\u00e2ntaros e dirigia a fam\u00edlia com m\u00e3o de ferro. O pai era um homem esbelto, com barba de bode, olhos azuis carinhosos, chuma\u00e7os de algod\u00e3o nos ouvidos e uma boina preta bem puxada sobre a testa. Era lido e musical, tocava v\u00e1rios instrumentos e cantava com voz suave de tenor. A mulher era gorda, maltratada e submissa, ficava a maior parte do tempo na cozinha e me dava tapinhas t\u00edmidos na bochecha. Talvez estivesse pedindo desculpas pelo fato de a casa ser t\u00e3o pobre.<\/p>\n<p>Meu companheiro, Hannes, parecia recortado de um jornal de propaganda nacional-socialista: louro, esbelto e de olhos azuis, com um sorriso saud\u00e1vel, orelhas muito pequenas e uma barba incipiente. N\u00f3s nos esfor\u00e7\u00e1vamos para entender um ao outro, mas n\u00e3o era f\u00e1cil. Meu alem\u00e3o era o resultado do estudo de gram\u00e1tica daquele tempo: n\u00e3o estava no plano do curso que a l\u00edngua teria de ser falada.<\/p>\n<p>Os dias eram tristes. \u00c0s sete horas, as crian\u00e7as iam para a escola e eu era deixado sozinho com os mais velhos. Lia, perambulava, sentia saudade de casa. De prefer\u00eancia ficava no gabinete de trabalho do pastor ou o acompanhava nas visitas \u00e0s fam\u00edlias. Ele dirigia uma velha banheira de capota alta, levantando poeira pelas estradas, no calor im\u00f3vel; por toda parte desfilavam gansos gordos e zangados.<\/p>\n<p>Perguntei ao pastor se devia estender a m\u00e3o e dizer\u00a0<em>Heil Hitler<\/em>\u00a0como todas as outras pessoas. Ele respondeu: \u201cMeu caro Ingmar, isso seria considerado mais do que mera educa\u00e7\u00e3o\u201d. Levantei a m\u00e3o e disse\u00a0<em>Heil Hitler<\/em>, foi engra\u00e7ado.<\/p>\n<p>Depois, Hannes sugeriu que eu o acompanhasse \u00e0 escola e \u00e0s aulas. Dada a escolha entre a peste e a c\u00f3lera, escolhi a escola, que ficava numa localidade maior, a alguns quil\u00f4metros, de bicicleta, de Haina. Fui recebido com efusiva cordialidade e me sentei ao lado de Hannes. A sala de aula era espa\u00e7osa, maltratada e fria pela umidade, apesar do calor de ver\u00e3o do lado de fora da alta janela. O assunto era religi\u00e3o, mas\u00a0<em>Mein Kampf<\/em>\u00a0[<em>Minha Luta<\/em>], de Hitler, estava sobre as carteiras. O professor leu algo de um jornal que se chamava\u00a0<em>Der St\u00fcrmer<\/em>. S\u00f3 me lembro de uma frase, que me pareceu estranha. Ele repetia insistentemente, em tom objetivo: \u201cenvenenado pelos Judeus\u201d. Perguntei mais tarde de que se tratava. Hannes riu: \u201cIngmar, tudo isso n\u00e3o \u00e9 para estrangeiros\u201d.<\/p>\n<p>No domingo a fam\u00edlia ia ao culto solene. O serm\u00e3o do pastor era surpreendente: ele n\u00e3o falava baseado nos evangelhos, e sim no\u00a0<em>Mein Kampf<\/em>. Depois da igreja havia o caf\u00e9 no sal\u00e3o da par\u00f3quia. Muitos usavam uniformes e eu tive numerosas oportunidades de levantar a m\u00e3o e dizer\u00a0<em>Heil Hitler<\/em>.<\/p>\n<p>Todos os jovens da casa pertenciam a alguma organiza\u00e7\u00e3o, os meninos \u00e0 Juventude Hitlerista, as meninas \u00e0 Juventude Feminina Alem\u00e3. \u00c0 tarde fazia-se exerc\u00edcio com espada em vez de rev\u00f3lver ou se praticava esporte nas quadras; \u00e0 noite assist\u00edamos a confer\u00eancias com exibi\u00e7\u00e3o de filmes ou cant\u00e1vamos e dan\u00e7\u00e1vamos. Com dificuldade nos banh\u00e1vamos no riacho, cujo fundo era puro lodo e cuja \u00e1gua cheirava mal. Os panos de menstrua\u00e7\u00e3o das mo\u00e7as, tecidos de algod\u00e3o grosso, estavam pendurados na lavanderia primitiva, sem \u00e1gua quente ou outras comodidades.<\/p>\n<p>Era dia de parada em Weimar, uma gigantesca marcha com Hitler \u00e0 frente. Na casa paroquial havia pressa, camisas eram lavadas e passadas, botas e cintur\u00f5es lustrados, os jovens partiram ao amanhecer. Eu e a fam\u00edlia do pastor seguir\u00edamos depois, no carro. A fam\u00edlia mencionava com certa \u00eanfase que havia conseguido lugares perto da tribuna de honra. Algu\u00e9m brincou dizendo que minha presen\u00e7a era o motivo da localiza\u00e7\u00e3o vantajosa.<\/p>\n<p>Nessa manh\u00e3 irrequieta, o telefone tocou, era uma liga\u00e7\u00e3o de casa. Muito longe escutei a bonita voz de tia Anna, pois sua imensa riqueza lhe permitia fazer essa liga\u00e7\u00e3o t\u00e3o cara. Ela nem sequer se incomodava em se apressar, s\u00f3 aos poucos chegava perto de seu objetivo principal. Mencionou uma amiga que vivia em Weimar e era casada com um diretor de banco: ela soubera por interm\u00e9dio de minha m\u00e3e que eu me encontrava perto e logo telefonara \u00e0 sua amiga sugerindo que eu fosse visitar sua fam\u00edlia. Depois, tia Anna falou com o pastor em alem\u00e3o fluente, voltou a falar comigo e mostrou seu contentamento em saber que eu me encontraria com sua amiga e suas lindas crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Chegamos a Weimar por volta do meio-dia. A parada e o discurso de Hitler come\u00e7ariam \u00e0s tr\u00eas. A cidade fervilhava numa excita\u00e7\u00e3o festiva, com as pessoas passando pelas ruas em seus trajes domingueiros ou em uniformes. Por toda parte orquestras tocavam, as casas estavam cobertas de guirlandas de flores e bandeirolas. Os sinos das igrejas tocavam, tanto os sombrios tons protestantes como os alegres tons cat\u00f3licos. Um grande parque de divers\u00f5es tinha surgido numa das velhas pra\u00e7as. No Opera House anunciava-se\u00a0<em>Rienzi<\/em>, de Wagner, apresenta\u00e7\u00e3o que seria seguida de fogos de artif\u00edcio, \u00e0 noite.<\/p>\n<p>Eu e a fam\u00edlia do pastor ficamos pr\u00f3ximos \u00e0 tribuna de honra. Enquanto esper\u00e1vamos na soalheira pesada que anunciava um temporal, bebemos cerveja e comemos sandu\u00edches de um embrulho engordurado que a mulher do pastor, durante a viagem, trouxera apertado contra o seu peito inchado.<\/p>\n<p>\u00c0s tr\u00eas em ponto ouviu-se alguma coisa parecendo um furac\u00e3o que se aproximava. O ru\u00eddo surdo e amedrontador se espalhou pelas ruas e foi de encontro \u00e0s paredes das casas. L\u00e1 longe, no prolongamento da pra\u00e7a, avan\u00e7ava devagar um cortejo de carros pretos abertos. O barulho cresceu e se sobrep\u00f4s aos trov\u00f5es, que se desencadeavam; a chuva caiu como uma cortina transparente, enquanto os estrondos se precipitavam sobre o local da festa.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m se importou com a tempestade; toda a aten\u00e7\u00e3o, todo o \u00eaxtase, toda a gl\u00f3ria se concentravam numa s\u00f3 figura. Ele estava de p\u00e9, im\u00f3vel, no enorme autom\u00f3vel preto que contornou a pra\u00e7a lentamente. Voltou-se e olhou para todas aquelas pessoas possu\u00eddas, gritando e chorando. A chuva banhava seu rosto e o uniforme, que a \u00e1gua embeb\u00eda, estava escuro. A\u00ed ele saltou devagar, pisou o tapete vermelho e desfilou sozinho at\u00e9 a tribuna de honra. Seus seguidores se mantiveram a dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>De repente, tudo ficou em sil\u00eancio, somente a chuva tamborilava nas pedras das ruas e nas balaustradas. O\u00a0<em>F\u00fchrer<\/em>\u00a0falava. Foi um discurso curto. N\u00e3o entendi muito, por\u00e9m a voz era \u00e0s vezes solene, \u00e0s vezes burlona, os gestos sincronizados e bem ajustados. Quando o discurso acabou, todos gritaram seus\u00a0<em>Heil<\/em>, o temporal cessou e a luz quente irrompeu por entre as forma\u00e7\u00f5es de nuvens negro-azuladas. Uma enorme orquestra tocava e a parada surgiu das ruas laterais em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 pra\u00e7a, passou pela tribuna de honra e, depois, em frente ao teatro e \u00e0 catedral.<\/p>\n<p>Eu nunca, jamais, tinha visto algo parecido com aquele arrebatamento, tal manifesta\u00e7\u00e3o de for\u00e7a. Gritei como todos os outros, estendi a m\u00e3o como todos os outros, bradei como todos os outros, amei como todos os outros.<\/p>\n<p>Em nossas conversas noturnas, Hannes explicara a guerra da Abiss\u00ednia, como fora importante que Mussolini finalmente cuidasse dos ind\u00edgenas que viviam na escurid\u00e3o e com m\u00e3os generosas lhes transmitisse a milenar cultura italiana. Tinha dito tamb\u00e9m que n\u00f3s, l\u00e1 longe na Escandin\u00e1via, n\u00e3o entend\u00edamos como os judeus, ap\u00f3s o colapso, tinham explorado o povo alem\u00e3o. Esclareceu que os alem\u00e3es constru\u00edram um baluarte contra o comunismo, que fora consequentemente sabotado pelos judeus, e afirmou que todos n\u00f3s dev\u00edamos amar o homem que formara nosso destino comum, e com decis\u00e3o nos unira para juntos sermos uma vontade, uma for\u00e7a, um povo.<\/p>\n<p>No meu anivers\u00e1rio, ganhei um presente da fam\u00edlia: uma fotografia de Hitler. Hannes pendurou-a sobre a minha cama para que \u201csempre tivesse esse homem diante dos olhos\u201d, para que aprendesse a am\u00e1-lo da mesma forma que Hannes e a fam\u00edlia Haid o amavam.<\/p>\n<p>Eu o amei tamb\u00e9m. Durante muitos anos estive do lado de Hitler, alegrando-me com suas vit\u00f3rias e me entristecendo com as derrotas.<\/p>\n<p>Meu irm\u00e3o foi um dos diretores e organizadores do partido nacional-socialista sueco; meu pai votou diversas vezes nos nacional-socialistas. Nosso professor de hist\u00f3ria tinha entusiasmo pela \u201cvelha Alemanha\u201d, o professor de gin\u00e1stica viajava todo ver\u00e3o para os encontros de oficiais na Baviera, alguns pastores da par\u00f3quia eram criptonazistas, amigos pr\u00f3ximos da fam\u00edlia expressavam forte simpatia pela \u201cnova Alemanha\u201d.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-center\">***<\/p>\n<p>Quando as declara\u00e7\u00f5es das testemunhas dos campos de concentra\u00e7\u00e3o me alcan\u00e7aram, n\u00e3o compreendi e n\u00e3o aceitei o que meus olhos registravam. Como muitos outros, chamava as fotos de montagens propagand\u00edsticas mentirosas. Quando a verdade finalmente venceu minha resist\u00eancia, fui tomado de desespero, e o desprezo por mim mesmo, que j\u00e1 era uma carga pesada, cresceu at\u00e9 os limites do insuport\u00e1vel. N\u00e3o percebi sen\u00e3o muito mais tarde que apesar de tudo era inocente.<\/p>\n<p>Como estudante de interc\u00e2mbio, n\u00e3o vacinado, despreparado, mergulhei de cabe\u00e7a numa realidade reluzente de idealismo e culto ao her\u00f3i. Al\u00e9m de tudo, estava entregue, indefeso, a uma agressividade que em grande parte coincidia com a minha. O brilho exterior me ofuscou. N\u00e3o enxerguei o escuro.<\/p>\n<p>Quando, no ano seguinte, com o fim da guerra, cheguei ao Teatro Municipal de G\u00f6teborg, havia um corte profundo e sangrento dividindo o\u00a0<em>foyer<\/em>\u00a0dos artistas. L\u00e1 estavam o locutor do cinejornal da UFA, os produtores de filmes de propaganda nacionalista e seus partid\u00e1rios incondicionais de sempre, de um lado. Do outro lado: os judeus, os seguidores de Segerstedt, atores com amigos noruegueses e dinamarqueses. Todos estavam l\u00e1 sentados, mastigando seus sandu\u00edches trazidos de casa, tomando a repugnante bebida da cantina. O \u00f3dio era vis\u00edvel, palp\u00e1vel.<\/p>\n<p>Quando soava a campainha, entrava em cena e se apresentava a melhor companhia de teatro do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Eu me calava sobre os meus extravios e meu desespero. Uma estranha resolu\u00e7\u00e3o amadurecia devagar. Pol\u00edtica nunca mais! Naturalmente, deveria ter tomado uma decis\u00e3o bem diferente.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Bergman e o nazismo &#8211; https:\/\/palavrasdecinema.com\/2022\/09\/04\/bergman-nazismo\/<\/p>\n<\/div>\n<\/article>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ingmar Bergman &#8211; No ver\u00e3o em que completei dezesseis anos fui mandado para a Alemanha como estudante de interc\u00e2mbio. Isso significava que permaneceria seis semanas na casa de uma fam\u00edlia alem\u00e3, junto com um garoto da minha idade. Quando suas f\u00e9rias de ver\u00e3o come\u00e7assem, ele me acompanharia \u00e0 Su\u00e9cia, onde ficaria durante o mesmo per\u00edodo. 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