{"id":18353,"date":"2022-10-03T12:49:01","date_gmt":"2022-10-03T15:49:01","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18353"},"modified":"2022-09-30T09:51:35","modified_gmt":"2022-09-30T12:51:35","slug":"o-fascismo-por-ele-mesmo-benito-mussolini","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/10\/03\/o-fascismo-por-ele-mesmo-benito-mussolini\/","title":{"rendered":"O fascismo por ele mesmo: Benito Mussolini"},"content":{"rendered":"<p><strong>Opera Mundi<\/strong> publica, nesta semana, um especial sobre fascismo &#8211; contado pelos pr\u00f3prios fascistas. S\u00e3o discursos e entrevistas de Adolf Hitler (Alemanha), Ant\u00f3nio Salazar (Portugal), Francisco Franco (Espanha), Rafael Videla (Argentina), Benito Mussolini (It\u00e1lia), Em\u00edlio Garrastazu M\u00e9dici (Brasil) e Philippe P\u00e9tain (Fran\u00e7a) que mostram como estas figuras pensavam as sociedades que governavam e justificavam os atos de seus regimes.<\/p>\n<blockquote><p>Em entrevista concedida em 1932, questionado sobre se um ditador poderia ser amado, Mussolini disse: &#8216;Pode. Desde que as massas tamb\u00e9m o temam. O povo adora homens fortes. O povo \u00e9 como uma mulher.&#8217;<\/p><\/blockquote>\n<p>Benito Mussolini (1883-1945), o ditador italiano, nasceu na prov\u00edncia de Romagna. Cedo, tornou-se jornalista e respons\u00e1vel por uma publica\u00e7\u00e3o socialista, o Avanti. Depois de servir na Primeira Guerra Mundial, fundou um seman\u00e1rio de direita, o Popolo d\u2019Italia, e passou a dirigir o agrupamento dos Fascisti. Em 1921, foi eleito para o Parlamento e fundou o Partido Nacional Fascista. No ano seguinte, liderou os chamados camisas-negras na grande Marcha sobre Roma, que levou o rei Vittorio Emmanuel III a convid\u00e1-lo para formar o governo italiano. Em 1928, \u201cII Duce\u201d, como era conhecido, aboliu o Parlamento e, em 1929, decretou o Vaticano um Estado independente da It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Em 1940, a It\u00e1lia do Duce alinhou-se \u00e0 Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial. Teria in\u00edcio a\u00ed sua decad\u00eancia pol\u00edtica. As tropas italianas foram derrotadas na Gr\u00e9cia e no norte da \u00c1frica. Sua popularidade despencava \u00e0 medida que perdia as batalhas. O rei o dep\u00f4s e mandou aprision\u00e1-lo. Liberado pelos alem\u00e3es, Mussolini foi capturado pelos partisans, morto a tiros e exposto em pra\u00e7a p\u00fablica nas cidades de Como e Mil\u00e3o.<\/p>\n<p>Emil Ludwig (1881-1948), bi\u00f3grafo e jornalista alem\u00e3o, era filho de Hermann Cohn, professor de oftalmologia. Formado em direito pela Universidade de Heildelberg, depois da Primeira Guerra tornou-se representante de diversos peri\u00f3dicos dos pa\u00edses aliados \u00e0 Rep\u00fablica de Weimar.<\/p>\n<p>A entrevista \u201cteve lugar no Palazzo di Venezia, em Roma, entre 23 de mar\u00e7o e 4 de abril de 1932, com encontros di\u00e1rios de quase uma hora\u201d. Os dois homens falaram em italiano. Ludwig traduziu a conversa para o alem\u00e3o e Mussolini checou os originais nessa l\u00edngua. \u201cN\u00e3o havia secret\u00e1rio dele na sala tomando notas, ele n\u00e3o pediu revis\u00e3o dos originais. Tratava-se apenas de uma quest\u00e3o de confian\u00e7a m\u00fatua\u201d, disse o jornalista.<\/p>\n<hr \/>\n<p><em>Algu\u00e9m havia me presenteado com a \u00e9dition de luxe de Maquiavel, que a organiza\u00e7\u00e3o editorial do Estado fascista dedicou, com excesso de lisonjas, ao Duce. Mesmo assim, \u00e9 sem d\u00favida melhor que um governo ditatorial reconhe\u00e7a as pr\u00f3prias d\u00edvidas para com o instrutor dos ditadores do que agir secretamente de acordo com suas teorias, utilizando, entretanto, o termo maquiav\u00e9lico como abusivo. Quando Frederico, o Grande, ainda era pr\u00edncipe, escreveu o moralizante O anti-Maquiavel. Mais tarde, ele se tornou mais direto, governando abertamente de acordo com os princ\u00edpios de Maquiavel.<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cO senhor se familiarizou desde cedo com O Pr\u00edncipe de Maquiavel?\u201d, perguntei a Mussolini. \u201cMeu pai costumava ler o livro em voz alta \u00e0 noite, enquanto nos aquec\u00edamos perto do fogo da ferraria e beb\u00edamos o vin ordinaire produzido no nosso pr\u00f3prio vinhedo. O livro me impressionou muito. Quando, aos 40 anos, li Maquiavel outra vez, o efeito foi refor\u00e7ado.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201c\u00c9 estranho\u201d, eu disse, \u201ccomo um homem como Maquiavel teve seu trabalho reconhecido em uma certa \u00e9poca, depois foi esquecido e agora \u00e9 ressuscitado. Parece existir uma varia\u00e7\u00e3o peri\u00f3dica.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cO que o senhor disse \u00e9, com toda certeza, verdadeiro em se tratando de na\u00e7\u00f5es. Elas t\u00eam primaveras e invernos. Com o tempo, elas passam.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cComo as esta\u00e7\u00f5es na vida nacional se repetem, nunca fiquei muito alarmado com o inverno que domina a Alemanha no momento\u201d, eu disse. \u201cH\u00e1 mais de cem anos, quando a Alemanha passou por maus momentos, Goethe ridicularizou aqueles que falaram da nossa decad\u00eancia. O senhor j\u00e1 estudou qualquer um dos personagens importantes da nossa vida pol\u00edtica?\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cBismarck\u201d, respondeu de imediato. \u201cDo ponto de vista dos acontecimentos pol\u00edticos, ele foi o homem mais importante do seu s\u00e9culo. Nunca pensei nele meramente como a figura c\u00f4mica com tr\u00eas fios de cabelos na cabe\u00e7a e passos pesados. O livro escrito pelo senhor confirmou a minha impress\u00e3o do quanto ele era vers\u00e1til e complexo. Na Alemanha, as pessoas est\u00e3o bem informadas sobre Cavour?\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cN\u00e3o muito\u201d, respondi. \u201cElas sabem muito mais sobre Mazzini. H\u00e1 pouco tempo, li uma carta de Mazzini para Carlo Alberto, escrita, acho eu, em 1831 ou 1832; a s\u00faplica de um poeta a um pr\u00edncipe. O senhor concorda com o fato de Carlo Alberto ter dado ordens para a pris\u00e3o de Mazzini caso este cruzasse a fronteira?\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cA carta\u201d, disse Mussolini, \u201c\u00e9 um dos documentos mais espl\u00eandidos j\u00e1 escritos. A personalidade de Carlo Alberto ainda n\u00e3o se tornou muito clara para n\u00f3s italianos. Seu di\u00e1rio foi publicado h\u00e1 pouco tempo e \u00e9 bastante esclarecedor sobre a sua psicologia. \u00c9 claro que, no in\u00edcio, ele inclinou-se para o lado dos liberais. Quando em 1832 \u2013 n\u00e3o, em 1833 \u2013, o governo sardo sentenciou Mazzini \u00e0 morte in contumaciam, tal fato ocorreu em uma situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica peculiar.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>A resposta pareceu-me t\u00e3o cautelosa que, na minha determina\u00e7\u00e3o persistente, mas inconfessa, de comparar o presente ao passado, achei necess\u00e1rio falar com maior clareza.<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cNaqueles dias, A Jovem It\u00e1lia era publicado ilegalmente. O senhor n\u00e3o acha que esses peri\u00f3dicos surgem sob qualquer censura? O senhor teria prendido Mazzini?\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cClaro que n\u00e3o\u201d, respondeu. \u201cSe um homem tem ideias, que venha a mim e n\u00f3s vamos discuti-las. Mas, quando Mazzini escreveu aquela carta, ele estava mais tomado pelos sentimentos do que pela raz\u00e3o. Naquela \u00e9poca, o Piemonte tinha apenas quatro milh\u00f5es de habitantes e era imposs\u00edvel que formasse uma frente contra a poderosa \u00c1ustria com seus trinta milh\u00f5es.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cBem, Mazzini foi preso\u201d, recomecei. \u201cLogo depois, Garibaldi foi sentenciado \u00e0 morte. Duas gera\u00e7\u00f5es depois, o senhor foi preso. N\u00e3o dever\u00edamos concluir que um governante deve pensar duas vezes antes de punir seus advers\u00e1rios pol\u00edticos?\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cO senhor quer dizer que n\u00f3s n\u00e3o pensamos duas vezes aqui na It\u00e1lia?\u201d, perguntou com certa veem\u00eancia.<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cO senhor reintroduziu a pena de morte.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cH\u00e1 pena de morte em todos os pa\u00edses civilizados; na Alemanha, assim como na Fran\u00e7a e na Inglaterra.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cAinda assim, foi na It\u00e1lia\u201d, insisti, \u201cna mente de Beccaria, que a ideia da aboli\u00e7\u00e3o da pena de morte surgiu. Por que o senhor a reviveu?\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cPorque li Beccaria\u201d, respondeu Mussolini sem ironia. Continuou com a maior seriedade: \u201cO que Beccaria escreveu \u00e9 o oposto do que a maioria das pessoas acredita. Al\u00e9m disso, depois que a pena de morte foi abolida na It\u00e1lia, houve um terr\u00edvel aumento no n\u00famero de crimes graves. Se comparado \u00e0 Inglaterra, o total na It\u00e1lia era de cinco para um. Nesse assunto, leve em considera\u00e7\u00e3o apenas a quest\u00e3o social. N\u00e3o foi Santo Tom\u00e1s que disse que seria melhor decepar um bra\u00e7o gangrenado para que o resto do corpo pudesse ser salvo? De qualquer forma, procedo com a maior cautela. Apenas os casos de assassinato excepcionalmente brutal e confesso s\u00e3o punidos com a pena de morte. H\u00e1 pouco tempo, dois malandros violentaram e assassinaram um jovem. Os dois foram condenados \u00e0 morte. Acompanhei o julgamento com muita aten\u00e7\u00e3o. No \u00faltimo momento, a d\u00favida tornou-se persistente. Um dos acusados era um criminoso comum que havia confessado seu crime; o outro, um homem bem mais jovem, havia se declarado inocente, e n\u00e3o havia nenhuma acusa\u00e7\u00e3o anterior contra ele. Seis horas antes da execu\u00e7\u00e3o, suspendi a senten\u00e7a do mais novo.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cO senhor poderia colocar esse fato no cap\u00edtulo Vantagens de uma ditadura\u201d, disse. A resposta dele foi r\u00e1pida e feita em tom de zombaria:<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cA alternativa \u00e9 uma m\u00e1quina estatal que funcione sem que ningu\u00e9m tenha o poder de par\u00e1-la.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cO senhor gostaria de abandonar esse assunto controvertido e falar sobre Napole\u00e3o?\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cContinue.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cApesar da nossa conversa anterior, n\u00e3o sei se o senhor o considera um modelo ou um aviso.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>Ele reclinou-se na cadeira sombrio e disse em tom comedido:<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cUm aviso. Nunca tive em Napole\u00e3o um exemplo, j\u00e1 que n\u00e3o posso ser comparado a ele em nenhum aspecto. As atividades dele diferiam muito das minhas. Ele acabou com uma revolu\u00e7\u00e3o enquanto eu comecei uma. A hist\u00f3ria da vida de Napole\u00e3o me fez perceber erros que n\u00e3o s\u00e3o f\u00e1ceis de evitar.\u201d Mussolini enumerou-os com os dedos: \u201cO nepotismo. Uma disputa com o papado. A falta de compreens\u00e3o da vida financeira e econ\u00f4mica. Ele n\u00e3o via nada al\u00e9m do aumento dos t\u00edtulos p\u00fablicos ap\u00f3s as suas vit\u00f3rias.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cO que determinou o seu fracasso? Os especialistas dizem que ele naufragou ao chocar-se contra os ingleses.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cIsso \u00e9 bobagem\u201d, respondeu Mussolini. \u201cNapole\u00e3o fracassou, como o senhor mesmo disse, por causa das contradi\u00e7\u00f5es da sua personalidade. No final, isso \u00e9 o que leva um homem \u00e0 ru\u00edna. Ele queria usar a coroa imperial! Queria fundar uma dinastia! Como primeiro-c\u00f4nsul, estava no auge da pr\u00f3pria grandeza. O decl\u00ednio teve in\u00edcio com o estabelecimento do imp\u00e9rio. Beethoven estava certo quando retirou a dedicat\u00f3ria da Eroica. Foi o uso da coroa que envolveu o corso em cont\u00ednuas guerras. Compare-o a Cromwell. Este teve uma ideia espl\u00eandida: poder supremo sobre o Estado sem guerra!\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>Tinha levado Mussolini a um tema de import\u00e2ncia extraordin\u00e1ria. \u201cPode ent\u00e3o haver imperialismo sem imp\u00e9rio?\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cH\u00e1 meia d\u00fazia de tipos diferentes de imp\u00e9rio. N\u00e3o h\u00e1 necessidade dos bras\u00f5es do imp\u00e9rio. Na verdade, eles s\u00e3o perigosos. Quanto mais vasto for o imp\u00e9rio, mais ele perder\u00e1 sua energia org\u00e2nica. Apesar de tudo, a tend\u00eancia ao imperialismo \u00e9 uma das inclina\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas da natureza humana, uma express\u00e3o do desejo de poder. Hoje, vemos o imperialismo do d\u00f3lar. H\u00e1 tamb\u00e9m o imperialismo religioso e o art\u00edstico. De qualquer forma, eles s\u00e3o ind\u00edcios da energia vital humana. Enquanto um homem viver, ele ser\u00e1 um imperialista. Quando morrer, o imperialismo estar\u00e1 terminado para ele.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>Nesse momento, Mussolini pareceu extraordinariamente napole\u00f4nico, lembrando-me a gravura de Lef\u00e8vre de 1815. Ent\u00e3o a tens\u00e3o de seus tra\u00e7os foi relaxada e, em tom mais tranquilo, ele continuou: \u201c\u00c9 claro que todo imp\u00e9rio tem seu apogeu. Como ele \u00e9 sempre a cria\u00e7\u00e3o de um homem excepcional, carrega dentro de si a semente da pr\u00f3pria decad\u00eancia. Como tudo que \u00e9 excepcional, ele tem elementos ef\u00eameros. Pode durar um ou dois s\u00e9culos, ou menos de dez anos. O desejo de poder.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cEle s\u00f3 pode ser levado adiante por meio da guerra?\u201d, perguntei.<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cN\u00e3o\u201d, respondeu. \u201cN\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas sobre isso.\u201d Ele se tornou um tanto did\u00e1tico. \u201cOs tronos precisam de guerras para se manter, mas as ditaduras \u00e0s vezes podem sobreviver sem elas. O poder sobre uma na\u00e7\u00e3o \u00e9 o resultado de in\u00fameros elementos, e eles n\u00e3o s\u00e3o apenas militares. Ainda assim, devo admitir que, at\u00e9 agora, na opini\u00e3o geral, a posi\u00e7\u00e3o de uma na\u00e7\u00e3o dependeu da sua for\u00e7a militar. As pessoas consideram a capacidade para a guerra como a s\u00edntese de todas as energias nacionais.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cAt\u00e9 o momento\u201d, interrompi. \u201cMas e de agora em diante?\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cDe agora em diante?\u201d, reiterou com ceticismo. \u201c\u00c9 verdade que a capacidade para a guerra n\u00e3o \u00e9 mais um crit\u00e9rio seguro de poder. Em rela\u00e7\u00e3o ao futuro, portanto, existe a necessidade de algum tipo de autoridade internacional. Pelo menos, da unifica\u00e7\u00e3o de um continente. Agora que a unidade dos Estados foi atingida, ser\u00e1 feita uma tentativa de unifica\u00e7\u00e3o do continente. Mas no que se refere \u00e0 Europa, isso ser\u00e1 muito dif\u00edcil, j\u00e1 que cada na\u00e7\u00e3o tem suas pr\u00f3prias caracter\u00edsticas, costumes, s\u00edmbolos e l\u00edngua. Para cada na\u00e7\u00e3o, uma certa porcentagem dessas caracter\u00edsticas (digamos, x por cento) permanece imut\u00e1vel, e isso induz \u00e0 resist\u00eancia a qualquer tipo de fus\u00e3o. Nos Estados Unidos, sem d\u00favida, as coisas s\u00e3o mais f\u00e1ceis. H\u00e1 48 Estados, de mesma l\u00edngua e hist\u00f3ria muito breve, que podem manter a uni\u00e3o.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cMas, com certeza\u201d, interrompi, \u201ccada na\u00e7\u00e3o possui y por cento de caracter\u00edsticas que s\u00e3o puramente europeias.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cEssas caracter\u00edsticas ficam de fora do poder de cada na\u00e7\u00e3o. Napole\u00e3o queria estabelecer a unidade na Europa. A unifica\u00e7\u00e3o da Europa era sua principal ambi\u00e7\u00e3o. Hoje em dia, essa unifica\u00e7\u00e3o talvez tenha se tornado poss\u00edvel, mas mesmo naquela \u00e9poca, ela s\u00f3 era poss\u00edvel no plano ideal, como Carlos Magno ou Charles V tentaram fazer do oceano Atl\u00e2ntico aos Urais.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cOu, talvez, s\u00f3 at\u00e9 o V\u00edstula?\u201d \u201c\u00c9, talvez, s\u00f3 at\u00e9 o V\u00edstula.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cA sua ideia \u00e9 que essa Europa poderia ficar sob a lideran\u00e7a fascista?\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cO que \u00e9 lideran\u00e7a?\u201d, objetou. \u201cAqui na It\u00e1lia, o nosso fascismo \u00e9 o que \u00e9. Talvez ele tenha alguns elementos que outros pa\u00edses possam adotar.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cSempre acho o senhor mais moderado do que a maioria dos fascistas\u201d, eu disse. \u201cO senhor ficaria surpreso se soubesse o que um estrangeiro \u00e9 obrigado a ouvir em Roma. Talvez tenha ocorrido a mesma coisa no auge da carreira de Napole\u00e3o. A prop\u00f3sito, o senhor poderia me explicar por que o imperador nunca se uniu \u00e0 sua pr\u00f3pria capital, Paris, por que se limitou ao noivado, sem com ela contrair casamento?\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>Mussolini sorriu e come\u00e7ou a responder em franc\u00eas:<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cSes mani\u00e8res n\u2019\u00e9taient pas tr\u00e8s parisiennes. Talvez houvesse uma violenta tens\u00e3o sobre ele. Al\u00e9m disso, ele tinha muitos advers\u00e1rios. Os jacobinos se colocaram contra ele porque ele esmagou a revolu\u00e7\u00e3o, aqueles que eram voltados para a religi\u00e3o, por causa de sua disputa com o papado. S\u00f3 as pessoas comuns gostavam dele. Eles tinham muita comida durante o governo de Napole\u00e3o e se impressionam mais com a fama do que aqueles que pertencem \u00e0s classes educadas. O senhor n\u00e3o deve esquecer que a fama n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de l\u00f3gica, mas de sentimento.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cO senhor fala de Napole\u00e3o com simpatia! Parece que o seu respeito por ele n\u00e3o diminuiu durante o seu pr\u00f3prio controle do poder, o que o tornou capaz de compreender a situa\u00e7\u00e3o dele a partir da experi\u00eancia pessoal.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cPelo contr\u00e1rio, meu respeito por ele aumentou.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cQuando ainda era um jovem general, ele disse que sempre se sentia tentado a ocupar um trono vazio. O que o senhor acha disso?\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>Mussolini arregalou os olhos, como sempre faz quando se torna ir\u00f4nico, mas, ao mesmo tempo, sorriu.<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cDesde o tempo em que Napole\u00e3o era imperador\u201d, disse, \u201cos tronos se tornaram bem menos tentadores.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201c\u00c9 verdade\u201d, respondi. \u201cNingu\u00e9m quer ser rei hoje em dia. Quando, h\u00e1 algum tempo, disse ao rei Fuad do Egito: \u2018Os reis devem ser amados, mas os ditadores, temidos\u2019, ele exclamou: \u2018Como eu queria ser um ditador!\u2019 A hist\u00f3ria tem registros de algum usurpador que tenha sido amado?\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>Mussolini, cujas mudan\u00e7as de express\u00e3o sempre s\u00e3o um pren\u00fancio das respostas (a n\u00e3o ser que ele queira esconder seus pensamentos), ficou s\u00e9rio mais uma vez. A express\u00e3o de energia constante foi relaxada, o que fez com que ele parecesse mais jovem do que costuma aparentar. Ap\u00f3s uma pausa, e mesmo assim com hesita\u00e7\u00e3o, ele continuou:<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cTalvez J\u00falio C\u00e9sar. O assassinato de C\u00e9sar foi uma desgra\u00e7a para a humanidade\u201d, e acrescentou em voz baixa: \u201cAdoro C\u00e9sar. Ele era \u00fanico na maneira de combinar a for\u00e7a de vontade de um guerreiro com a genialidade de um fil\u00f3sofo. No fundo, ele era um fil\u00f3sofo que via tudo sub specie eternitatis. \u00c9 verdade que ele tinha paix\u00e3o pela fama, mas a ambi\u00e7\u00e3o n\u00e3o o isolou da humanidade.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cEnt\u00e3o, apesar de tudo, um ditador pode ser amado?\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cPode\u201d, respondeu Mussolini com determina\u00e7\u00e3o renovada. \u201cDesde que as massas tamb\u00e9m o temam. O povo adora homens fortes. O povo \u00e9 como uma mulher.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cNos meus estudos sobre as grandes carreiras\u201d, comecei, \u201csempre me preocupei em anotar um aspecto em particular do comportamento dos homens que deixaram o c\u00edrculo em que cresceram: como se comportaram, por um lado, nas rela\u00e7\u00f5es com os velhos amigos e, por outro, na solid\u00e3o que a nova posi\u00e7\u00e3o imp\u00f4s aos mesmos. \u00c9 a\u00ed que se revela a personalidade, ou parte dela. O que o homem faz em um conflito como esse entre a bondade humana e a autoridade? N\u00e3o \u00e9 natural que ele v\u00e1 de um extremo a outro? Diga o que acontece quando um dos seus camaradas entra nessa sala! Como o senhor muda sem retomar uma das velhas discuss\u00f5es? Uma vez, o senhor escreveu (e essa \u00e9 uma boa frase): \u2018Somos fortes porque n\u00e3o temos amigos\u2019.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>Quando se sentou \u00e0 minha frente, Mussolini n\u00e3o fez nenhum gesto ou movimento, mas havia algo incomum, quase infantil, na express\u00e3o dele que me revelou que o assunto que eu havia abordado causara-lhe profunda agita\u00e7\u00e3o. Quando, por fim, ele respondeu, ficou claro que as suas palavras eram mais frias do que os seus sentimentos, e que ele n\u00e3o estava revelando todas as suas emo\u00e7\u00f5es e pensamentos.<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cN\u00e3o posso ter amigos. N\u00e3o tenho amigos. Primeiro, por causa do meu temperamento, segundo, por causa da minha vis\u00e3o dos seres humanos. \u00c9 por isso que evito tanto a intimidade quanto as discuss\u00f5es. Se um velho amigo me procura, o encontro \u00e9 constrangedor para ambos e n\u00e3o dura muito. S\u00f3 \u00e0 dist\u00e2ncia acompanho as carreiras dos meus antigos camaradas.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cO que acontece quando aqueles que foram amigos tornam-se advers\u00e1rios e o caluniam?\u201d, perguntei, relembrando minhas experi\u00eancias pessoais. \u201cQual dos seus velhos amigos permaneceu mais fiel ao senhor? H\u00e1 algum antigo amigo cujo ataque violento ainda constrange o senhor?\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>Ele permaneceu im\u00f3vel.<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cSe aqueles que um dia foram meus amigos tornaram-se inimigos, o que me interessa saber \u00e9 se s\u00e3o inimigos na vida p\u00fablica. Se forem, eu os combato. Se n\u00e3o forem, eles n\u00e3o me interessam. Quando alguns antigos colaboradores me atacaram na imprensa, declarando que eu havia me apropriado de dinheiro pertencente a Fiume, isso, \u00e9 claro, aumentou minha misantropia. Os meus amigos mais fi\u00e9is, eu guardo no fundo do cora\u00e7\u00e3o, mas, em geral, eles mant\u00eam dist\u00e2ncia. Justamente porque s\u00e3o leais! S\u00e3o pessoas que n\u00e3o buscam lucro ou ascens\u00e3o e que, apenas em raras ocasi\u00f5es, me fazem r\u00e1pidas visitas.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cO senhor confiaria a sua vida a eles ou a qualquer outro?\u201d, perguntei. \u201cO senhor tornou alguns deles membros do Gran Consiglio?\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cTr\u00eas, e apenas por tr\u00eas anos\u201d, disse ele secamente.<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cSendo essa a sua posi\u00e7\u00e3o, sou levado a perguntar quando o senhor sentiu-se mais solit\u00e1rio. Foi na juventude, como no caso de D\u2019Annunzio, quando estava fora em contato direto com os camaradas de partido, ou hoje em dia?\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cHoje em dia\u201d, respondeu sem um momento de hesita\u00e7\u00e3o. \u201cMas\u201d, continuou ap\u00f3s uma pausa, \u201cmesmo no in\u00edcio, ningu\u00e9m exercia qualquer influ\u00eancia sobre mim. Basicamente, eu sempre fui sozinho. Al\u00e9m disso, agora, embora n\u00e3o esteja preso, sou um prisioneiro de qualquer forma.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cComo o senhor pode dizer isso?\u201d, perguntei com consider\u00e1vel agita\u00e7\u00e3o. \u201cNingu\u00e9m no mundo tem menos raz\u00f5es para fazer uma declara\u00e7\u00e3o dessas!\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cPor qu\u00ea?\u201d, perguntou, tendo a aten\u00e7\u00e3o concentrada na minha agita\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cPorque ningu\u00e9m no mundo pode agir com tanta liberdade quanto o senhor!\u201d, continuei. Ele fez um gesto conciliat\u00f3rio e respondeu:<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cPor favor, n\u00e3o pense que eu estou inclinando a lutar contra o meu destino. Ainda assim, at\u00e9 certo ponto, defendo o que acabo de dizer. O contato com assuntos comuns, uma vida espont\u00e2nea no meio da multid\u00e3o \u2013 para mim, na minha posi\u00e7\u00e3o, essas coisas s\u00e3o proibidas.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cO senhor s\u00f3 precisa sair para um passeio!\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cEu teria que usar uma m\u00e1scara\u201d, respondeu. \u201cUma vez, quando, sem m\u00e1scara seguia pela via Tritone, fui rapidamente cercado por uma multid\u00e3o de trezentas pessoas, por isso n\u00e3o consegui dar um passo. Mas n\u00e3o acho minha solid\u00e3o ma\u00e7ante.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cSe a solid\u00e3o lhe agrada\u201d, eu disse, \u201ccomo o senhor pode suportar os v\u00e1rios rostos que tem que ver aqui todo dia?\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cPercebendo apenas o que eles me dizem. N\u00e3o deixo que entrem em contato com o meu interior. N\u00e3o me emociono mais com eles do que com esta mesa e os pap\u00e9is que est\u00e3o sobre ela. No meio deles, conservo minha solid\u00e3o intocada.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cNesse caso\u201d, eu disse, \u201co senhor n\u00e3o tem medo de perder o equil\u00edbrio mental? O senhor lembra como C\u00e9sar, quando retornava de uma vit\u00f3ria no F\u00f3rum, trazia com ele na biga um escravo, cuja fun\u00e7\u00e3o era lembr\u00e1-lo continuamente da nulidade de todas as coisas?\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cClaro que lembro. O rapaz tinha de lembrar o imperador do fato de que ele era um homem e n\u00e3o um deus. Mas, hoje em dia, esse tipo de coisa \u00e9 desnecess\u00e1rio. Da minha parte, de qual- quer maneira, nunca tive nenhuma inclina\u00e7\u00e3o para imaginar-me um deus, sempre tive profunda consci\u00eancia de que sou apenas um mortal, com todas as fraquezas e paix\u00f5es da mortalidade.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>Ele falou com \u00f3bvia emo\u00e7\u00e3o e depois continuou em tom mais calmo:<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cO senhor est\u00e1 sempre preocupado com o perigo que pode resultar da falta de oposi\u00e7\u00e3o. Esse perigo seria real se viv\u00eassemos tempos tranquilos. Mas, hoje em dia, a oposi\u00e7\u00e3o \u00e9 representada pelos problemas que t\u00eam de ser resolvidos, pelos problemas econ\u00f4micos e morais que sempre pedem uma solu\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 o suficiente para n\u00e3o permitir que um governante durma! Al\u00e9m disso, criei uma oposi\u00e7\u00e3o dentro de mim mesmo!\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cParece que estou ouvindo Lord Byron\u201d, eu disse.<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cCom frequ\u00eancia eu leio tanto Byron quanto Leopardi. E quando me canso dos seres humanos, eu viajo. Se pudesse fazer tudo o que quisesse, eu estaria sempre no mar. Quando isso \u00e9 imposs\u00edvel, contento-me com os animais. A atividade mental deles se aproxima da humana, e, mesmo assim, eles n\u00e3o querem nada de n\u00f3s: os cavalos, os c\u00e3es e o meu favorito, o gato. Ou, ent\u00e3o, eu observo os animais selvagens. Eles personificam as for\u00e7as b\u00e1sicas da natureza!\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>Essa confiss\u00e3o me pareceu t\u00e3o misantr\u00f3pica que perguntei a Mussolini se ele achava que um governante precisava se inspirar no desprezo pela humanidade e n\u00e3o nos sentimentos generosos.<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cPelo contr\u00e1rio\u201d, disse enf\u00e1tico. \u201cUma pessoa precisa de 99% de generosidade e apenas 1% de desprezo.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>Partindo dele, a declara\u00e7\u00e3o me surpreendeu e, para certificar-me de ter entendido bem, perguntei-lhe mais uma vez: \u201cO senhor realmente acha, ent\u00e3o, que os seres humanos merecem mais compreens\u00e3o do que desprezo?\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>Ele olhou-me com sua habitual express\u00e3o inescrut\u00e1vel e disse em voz baixa: \u201cMais compreens\u00e3o e compaix\u00e3o, muito mais compaix\u00e3o.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>Essa declara\u00e7\u00e3o lembrou-me que, quando lia os discursos de Mussolini, fui surpreendido v\u00e1rias vezes pelo que parecia ser uma exibi\u00e7\u00e3o de altru\u00edsmo. Por que ele, o condottiere, se referia com tanta insist\u00eancia aos interesses da comunidade? Fui levado a perguntar-lhe:<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cRepetidas vezes, em frases excessivamente graciosas, o senhor declarou que um aperfei\u00e7oamento da sua pr\u00f3pria personalidade era a meta da sua vida, dizendo: \u2018Quero fazer da minha vida uma obra-prima\u2019, ou \u2018Quero tornar minha vida muito eficiente\u2019. Algumas vezes, o senhor citou a m\u00e1xima de Nietzsche: \u2018Viva perigosamente!\u2019 Como pode ent\u00e3o um homem de natureza t\u00e3o orgulhosa escrever: \u2018Minha principal meta \u00e9 a promo\u00e7\u00e3o do interesse p\u00fablico\u2019? N\u00e3o existe, a\u00ed, uma contradi\u00e7\u00e3o?\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>Ele ficou impass\u00edvel.<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cN\u00e3o vejo nenhuma contradi\u00e7\u00e3o\u201d, respondeu. \u201c\u00c9 perfeitamente l\u00f3gico. O interesse da comunidade \u00e9 um assunto comovente. Estando a servi\u00e7o dele, enrique\u00e7o minha pr\u00f3pria vida.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>Fui pego de surpresa e n\u00e3o pude encontrar uma resposta efetiva, mas citei as pr\u00f3prias palavras do ditador: \u201cSempre tive uma perspectiva altru\u00edsta da vida.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cSem d\u00favida\u201d, disse ele. \u201cNingu\u00e9m pode isolar-se da humanidade. A\u00ed temos algo de concreto \u2013 a humanidade da ra\u00e7a a qual perten\u00e7o.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cA ra\u00e7a latina\u201d, interrompi, \u201cnela incluem-se os franceses.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cJ\u00e1 declarei, ao longo de uma destas conversas, que n\u00e3o existe uma ra\u00e7a pura! A cren\u00e7a de que ela existe \u00e9 uma ilus\u00e3o da mente, um sentimento. Mas essa cren\u00e7a deixa de existir s\u00f3 por ser uma ilus\u00e3o?\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cSendo assim\u201d, eu disse, \u201cum homem pode escolher a ra\u00e7a a que deseja pertencer.\u201d \u201cClaro.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cBem, escolhi ser mediterr\u00e2neo e, nesse ponto, tenho um aliado formid\u00e1vel em Nietzsche.\u201d O nome despertou na mente de Mussolini uma associa\u00e7\u00e3o e, em alem\u00e3o ele citou uma das declara\u00e7\u00f5es mais orgulhosas de Nietzsche: \u201cPare\u00e7o esfor\u00e7ar-me para ser feliz? Eu me esfor\u00e7o no interesse do meu trabalho!\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>Chamei a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que aquela ideia, na verdade, se originara de Goethe e perguntei se ele concordava com a opini\u00e3o de Goethe de que o car\u00e1ter \u00e9 moldado pelos revezes do destino.<\/em><\/p>\n<p><em>Ele concordou com a cabe\u00e7a: \u201cDevo o que sou \u00e0s crises que tive que superar e \u00e0s dificuldades que tive que vencer. Portanto, todos devem correr riscos.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cPor isso o senhor p\u00f5e em jogo o seu trabalho e a si, correndo riscos desnecess\u00e1rios.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cA vida tem seu pre\u00e7o\u201d, respondeu. \u201cN\u00e3o se pode viver sem correr riscos. Hoje mesmo participei de uma luta mais uma vez.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cSe a sua vis\u00e3o fosse coerente, o senhor n\u00e3o tentaria se proteger\u201d, eu disse. \u201cEu n\u00e3o tento\u201d, respondeu.<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cO qu\u00ea!\u201d, exclamei. \u201cO senhor n\u00e3o reconhece que v\u00e1rias vezes algum dos seus inimigos arrisca a pr\u00f3pria vida na esperan\u00e7a de priv\u00e1-lo da sua?\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cEu entendo aonde o senhor est\u00e1 querendo chegar. Tamb\u00e9m sei dos rumores que correm. Dizem que sou vigiado por mil policiais e que toda noite durmo em um lugar diferente. Na realidade, durmo toda noite na Villa Torlonia e dirijo ou ando a cavalo quando e para onde quiser. Se tivesse de pensar constantemente na minha pr\u00f3pria seguran\u00e7a, me sentiria humilhado.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cDiga-me\u201d, falei para concluir, \u201cqual a import\u00e2ncia da fama na sua vida? N\u00e3o \u00e9 essa a motiva\u00e7\u00e3o mais forte para um governante? A fama n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica maneira de escapar da morte? Ela n\u00e3o \u00e9 a sua principal meta desde que o senhor era um menino? Todo o seu trabalho n\u00e3o \u00e9 movido pelo desejo de se tornar famoso?\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>Mussolini permaneceu imperturb\u00e1vel.<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cA fama n\u00e3o me atra\u00eda quando eu era menino\u201d, disse, \u201ce n\u00e3o concordo que o desejo de se tornar famoso seja a mais forte das motiva\u00e7\u00f5es. No que se refere \u00e0 morte, o senhor tem raz\u00e3o; existe um certo consolo em saber que n\u00e3o se est\u00e1 completamente morto quando se \u00e9 famoso. Mas meu trabalho nunca foi exclusivamente direcionado pelo desejo da fama. A imortalidade \u00e9 garantida pela fama.\u201d Ele fez um gesto largo em dire\u00e7\u00e3o a um futuro remoto e incontrol\u00e1vel e acrescentou:<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cMas ela vem \u2013 mais tarde.\u201d<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p><em>(*) Esta entrevista foi publicada no livro\u00a0<a href=\"https:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/produto\/a-arte-da-entrevista-107\">&#8216;A Arte da entrevista&#8217; (Editora Boitempo, 2004)<\/a>, organizado por F\u00e1bio Altman e com ilustra\u00e7\u00f5es de C\u00e1ssio Loredano. As tradu\u00e7\u00f5es s\u00e3o de In\u00eas Antonia Lohbauer, Maria dos Anjos Santos Rouch e Rosanne Pousada. O texto se encontra entre as p\u00e1ginas 135 e 143.<\/em><\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Opera Mundi: O fascismo por ele mesmo: Benito Mussolini &#8211; https:\/\/operamundi.uol.com.br\/memoria\/54338\/o-fascismo-por-ele-mesmo-benito-mussolini<\/p>\n<div id=\"__reading__mode__content_end_mark_container_id\"><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Opera Mundi publica, nesta semana, um especial sobre fascismo &#8211; contado pelos pr\u00f3prios fascistas. 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