{"id":18348,"date":"2022-10-01T12:41:14","date_gmt":"2022-10-01T15:41:14","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18348"},"modified":"2022-09-30T09:45:05","modified_gmt":"2022-09-30T12:45:05","slug":"num-condominio-so-existem-discussoes-entre-iguais-voce-nao-enfrenta-o-problema-do-outro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/10\/01\/num-condominio-so-existem-discussoes-entre-iguais-voce-nao-enfrenta-o-problema-do-outro\/","title":{"rendered":"\u201cNum condom\u00ednio, s\u00f3 existem discuss\u00f5es entre iguais, voc\u00ea n\u00e3o enfrenta o problema do outro\u201d"},"content":{"rendered":"<p><strong>Leonardo Neiva<\/strong> &#8211; Para a ge\u00f3grafa Maria Encarna\u00e7\u00e3o Sposito, a prolifera\u00e7\u00e3o de condom\u00ednios fechados e distantes dos centros urbanos tem intensificado o processo de segrega\u00e7\u00e3o nas cidades<\/p>\n<p>Hoje as cidades brasileiras vivem um novo processo de segrega\u00e7\u00e3o. Se no passado a divis\u00e3o entre ricos e pobres acontecia com os primeiros ocupando regi\u00f5es mais pr\u00f3ximas do centro e os segundos sendo relegados \u00e0s periferias, a dist\u00e2ncia das regi\u00f5es centrais virou regra inclusive para a elite. Entocadas atr\u00e1s de muros e protegidas por sistemas de vigil\u00e2ncia, as classes mais altas passaram a ocupar bairros long\u00ednquos como Alphaville ou Ch\u00e1cara Flora, no caso de S\u00e3o Paulo, o que tem criado uma segrega\u00e7\u00e3o ainda maior no uso do espa\u00e7o urbano, de acordo com a ge\u00f3grafa e professora da Unesp Maria Encarna\u00e7\u00e3o Sposito, especialista em geografia urbana. Ao mesmo tempo, o centro da cidade vem sendo tomado por pr\u00e9dios com apartamentos min\u00fasculos e \u00e1reas compartilhadas entre os moradores, o que tem provocado um adensamento populacional na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>A pesquisadora documentou esse processo, que vem ocorrendo nas grandes, m\u00e9dias e pequenas cidades brasileiras, no livro \u201cEspa\u00e7os Fechados e Cidades\u201d (Editora Unesp, 2013), escrito em parceria com a historiadora Eda Maria G\u00f3es. \u00c0 frente do projeto \u201cFragmenta\u00e7\u00e3o socioespacial e urbaniza\u00e7\u00e3o brasileira: escalas, vetores, ritmo, formas e conte\u00fados\u201d, Sposito tamb\u00e9m coordena a realiza\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de entrevistas com moradores desde bairros da periferia, como Cidade Tiradentes, no extremo leste da capital paulista, at\u00e9 habitantes de condom\u00ednios em diversas cidades do estado de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Segundo ela, quem vive num condom\u00ednio fechado justifica a escolha sempre com o argumento da busca pela seguran\u00e7a, mas acaba revelando outras motiva\u00e7\u00f5es ao longo das entrevistas. \u201cTamb\u00e9m acabam dizendo que n\u00e3o querem que seus filhos brinquem com qualquer pessoa e que preferem estar entre iguais\u201d, revela. Ao mesmo tempo, o processo de lan\u00e7amento e ocupa\u00e7\u00e3o de microapartamentos no centro seria resultado da tend\u00eancia a fam\u00edlias mais reduzidas e da busca por passar menos tempo em deslocamento nas grandes cidades.<\/p>\n<p>A pesquisadora afirma ainda que boa parte da inseguran\u00e7a que sentimos no contexto das cidades \u00e9 exagerada se comparada \u00e0 realidade, criando o medo em rela\u00e7\u00e3o ao outro, especialmente se for pobre e negro, e tornando restritos espa\u00e7os que deveriam ser p\u00fablicos. \u201cNum empreendimento, proibiram que os pedreiros dormissem debaixo de uma \u00e1rvore do lado de fora depois do almo\u00e7o. Interditaram o espa\u00e7o coletivo a esses trabalhadores. Chega a ser cruel, mas o que mais me toca \u00e9 que isso \u00e9 naturalizado.\u201d<\/p>\n<p>O paradoxo \u00e9 que esse autodistanciamento dos mais ricos acaba dificultando tamb\u00e9m para eles o acesso ao espa\u00e7o p\u00fablico, fazendo com que se tornem prisioneiros em suas pr\u00f3prias casas e condom\u00ednios de luxo. Por outro lado, na vis\u00e3o da ge\u00f3grafa, uma poss\u00edvel solu\u00e7\u00e3o para o problema seria as autoridades p\u00fablicas controlarem o crescimento descontrolado do per\u00edmetro urbano, uma tend\u00eancia que vem permitindo esse afastamento e o esvaziamento de espa\u00e7os centrais, onde pessoas de classes sociais diferentes deveriam convergir e compartilhar experi\u00eancias. \u201c\u00c9 preciso confrontar realidades diferentes da sua. Num condom\u00ednio, s\u00f3 existem discuss\u00f5es entre iguais, voc\u00ea n\u00e3o enfrenta o problema do outro.\u201d<\/p>\n<p>Em entrevista a Gama, Sposito fala ainda sobre a cidade como uma mercadoria cada vez mais cara, a necessidade de um transporte p\u00fablico melhor e mais abrangente e a import\u00e2ncia da sociedade civil para reverter a tend\u00eancia de segrega\u00e7\u00e3o e desenvolver um espa\u00e7o p\u00fablico mais compartilhado.<\/p>\n<p>G |Geralmente como e quando surge a fragmenta\u00e7\u00e3o e segrega\u00e7\u00e3o dentro de uma cidade?<\/p>\n<p>Maria Encarna\u00e7\u00e3o Sposito |<br \/>\nSob o capitalismo, todas as cidades t\u00eam diferen\u00e7as. As cidades antigas, medievais tamb\u00e9m tinham formas de separa\u00e7\u00e3o. O que h\u00e1 de espec\u00edfico na cidade capitalista \u00e9 que a l\u00f3gica que orienta essa separa\u00e7\u00e3o \u00e9 sobretudo econ\u00f4mica. Na Antiguidade, o pol\u00edtico predominava. Na Idade M\u00e9dia, a religi\u00e3o e outros fatores determinavam as formas de separa\u00e7\u00e3o. A cidade capitalista \u00e9 em si uma mercadoria e, conforme voc\u00ea produz essa cidade, ela vai valer mais ou menos. Alguns mecanismos de separa\u00e7\u00e3o s\u00e3o mais sofisticados, radicais e profundos, levam quase a uma cis\u00e3o social. O primeiro fator \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o social brasileira e latino-americana. S\u00e3o sociedades mais desiguais que a Europa Ocidental ou o Canad\u00e1. S\u00e3o lugares que inclusive tiveram escravid\u00e3o, onde faz parte da organiza\u00e7\u00e3o social separar. At\u00e9 30 anos atr\u00e1s, isso se dava a partir de uma l\u00f3gica espacial de centro-periferia, em que o centro era a \u00e1rea de maior import\u00e2ncia pol\u00edtica, de com\u00e9rcio e servi\u00e7os. Em volta, os bairros mais abastados e, conforme voc\u00ea se distanciava, as popula\u00e7\u00f5es mais pobres. Se voc\u00ea \u00e9 de S\u00e3o Paulo, vai pensar na Paulista, Higien\u00f3polis, os Jardins, todos em volta do centro, ocupados e produzidos pela elite no s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p>G |Como essa l\u00f3gica tem mudado?<\/p>\n<p>MES |<br \/>\nEla est\u00e1 sendo mesclada. A nova l\u00f3gica \u00e9 criar produtos imobili\u00e1rios de alto valor em \u00e1reas externas da cidade. No caso de S\u00e3o Paulo, o aparecimento de Alphaville, da Ch\u00e1cara Flora, de investimentos al\u00e9m das marginais voltados para os mais abastados. Isso n\u00e3o acontece s\u00f3 em S\u00e3o Paulo. Se voc\u00ea vai a Londrina ou Presidente Prudente, onde eu moro, essa l\u00f3gica est\u00e1 sendo implantada. Quando a dist\u00e2ncia n\u00e3o separa mais as classes sociais, chegam os muros e sistemas de vigil\u00e2ncia, alicer\u00e7ados na ideia de que vivemos numa cidade violenta, o que justificaria todas as formas de fechamento. No grupo de pesquisa, entrevistamos moradores desses lugares. Embora sempre respondam que moram l\u00e1 por quest\u00e3o de seguran\u00e7a, tamb\u00e9m acabam dizendo que n\u00e3o querem que seus filhos brinquem com qualquer pessoa ou que preferem estar entre iguais. Ent\u00e3o a l\u00f3gica da separa\u00e7\u00e3o est\u00e1 socialmente estabelecida e \u00e9 justificada por essa ideia de cidade violenta. S\u00e3o Paulo n\u00e3o \u00e9 mais violenta do que 40 anos atr\u00e1s. Presidente Prudente n\u00e3o \u00e9 violenta, mas tem mais de 30 espa\u00e7os residenciais fechados. Ribeir\u00e3o Preto j\u00e1 tem quase uma cidade dentro da cidade, toda murada. As l\u00f3gicas de separa\u00e7\u00e3o s\u00e3o mais radicais e materiais, com muros e port\u00f5es, mas tamb\u00e9m imateriais, porque se voc\u00ea for pobre, pedreiro ou empregada dom\u00e9stica, vai ser revistado e controlado na entrada desses espa\u00e7os.<\/p>\n<p>G |Quais as consequ\u00eancias dessa realidade?<\/p>\n<p>MES |<br \/>\nVoc\u00ea passa a desenvolver processos de estigmatiza\u00e7\u00e3o, em que aqui dentro tudo \u00e9 perfeito e somos n\u00f3s que temos o direito, porque l\u00e1 fora \u00e9 muito violento e \u00e9 onde est\u00e3o os outros. Isso reproduz uma l\u00f3gica de que o marginal \u00e9 o pobre. Se for preto ent\u00e3o, \u00e9 mais perigoso ainda. S\u00f3 falo em segrega\u00e7\u00e3o quando existem mecanismos de separa\u00e7\u00e3o que cortam o di\u00e1logo, o que significa que a cidade n\u00e3o \u00e9 mais para todo mundo. Ou melhor, \u00e9 para todo mundo, mas eu aqui e voc\u00eas l\u00e1, sem compartilhar os mesmos espa\u00e7os. Tenho 66 anos e nasci e cresci em S\u00e3o Paulo. Quando era adolescente, o centro comercial da cidade era para todas as classes sociais. Todo mundo ia ver o Papai Noel e fazer compras de Natal, mesmo depois que apareceu o primeiro shopping center. No centro estavam a Sears, o Mappin, as lojas de maior prest\u00edgio. N\u00e3o quer dizer que todo mundo comprava nas mesmas lojas, mas as pessoas compartilhavam o espa\u00e7o p\u00fablico. Quero chamar a aten\u00e7\u00e3o para o esvaziamento de parte desse espa\u00e7o, que n\u00e3o \u00e9 mais compartilhado por classes sociais diferentes. \u00c9 um retrocesso na hist\u00f3ria urbana e vai gerando mecanismos que t\u00eam origem nos interesses econ\u00f4micos, mas depois se transformam em pol\u00edticos. Quando diz que aquela pessoa n\u00e3o pode entrar, voc\u00ea d\u00e1 um passo atr\u00e1s na democracia. Deixa de existir a cidade como lugar de anonimato, para todos, como foi pensada na passagem do feudalismo para o capitalismo. A ideia de estar fora do poder do senhor feudal foi essencial para a modernidade, mas est\u00e1 sendo desgastada. Isso nunca acontece de modo completo, porque o espa\u00e7o p\u00fablico tem v\u00e1rios usos, as pessoas se reinventam, os jovens ocupam. H\u00e1 muitas coisas interessantes acontecendo, mas resta essa tens\u00e3o.<\/p>\n<p>G |\u00c9 poss\u00edvel reverter parte desse processo com o desenho urbano?<\/p>\n<p>MES |<br \/>\nO desenho urbano pode ajudar, mas mais importante do que ele \u00e9 ter pol\u00edticas que favore\u00e7am o uso do espa\u00e7o p\u00fablico e freiem a expans\u00e3o exacerbada da cidade. A separa\u00e7\u00e3o \u00e9 acentuada pelo aumento da malha urbana mais rapidamente do que o da popula\u00e7\u00e3o. Hoje vivemos isso no Brasil. O crescimento populacional est\u00e1 parando, mas a cidade continua se estendendo territorialmente. A pol\u00edtica p\u00fablica, a lei de uso e ocupa\u00e7\u00e3o do solo e o Plano Diretor t\u00eam que reter esse processo, impedindo a expans\u00e3o do per\u00edmetro urbano, o loteamento de \u00e1reas novas, estimulando o adensamento. \u00c9 preciso tirar da cabe\u00e7a exemplos de um urbanismo pouco adequado, como a necessidade de um distanciamento de quatro metros da cal\u00e7ada dos im\u00f3veis residenciais, o que est\u00e1 na lei brasileira. Pelo contr\u00e1rio, deveriam obrigar uma aproxima\u00e7\u00e3o maior da cal\u00e7ada, com ruas mais largas, pois isso gera encontros e uma maior articula\u00e7\u00e3o entre casa e rua. Em S\u00e3o Paulo, existe uma legisla\u00e7\u00e3o muito bacana que obriga quem constr\u00f3i edifica\u00e7\u00f5es a oferecer im\u00f3veis de mais de um tamanho, para misturar fam\u00edlias jovens e com mais idade. Mas as construtoras fazem no mesmo andar apartamentos de tr\u00eas, dois e um dormit\u00f3rio, obrigando a pessoa a comprar os de um e dois dormit\u00f3rios juntos, para depois anexar as unidades. \u00c9 uma maquiagem. Na Fran\u00e7a, gosto de uma lei que reserva os andares de baixo para apartamentos populares e os de cima para classes mais elevadas. Num mesmo pr\u00e9dio, mescla empreendimento privado e pol\u00edtica social. As pessoas s\u00e3o obrigadas a compartilhar o elevador, a assembleia, dividir decis\u00f5es. \u00c9 preciso confrontar realidades diferentes da sua. Num condom\u00ednio, s\u00f3 existem discuss\u00f5es entre iguais, voc\u00ea n\u00e3o enfrenta o problema do outro. Isso poderia ser corrigido com pol\u00edticas p\u00fablicas. Parques sem grades, com mais programa\u00e7\u00e3o esportiva e cultural, para realmente levar as pessoas \u00e0s ruas e dar sentido \u00e0 ideia de que compartilhamos o mesmo territ\u00f3rio, uma constru\u00e7\u00e3o de identidade a partir do compartilhamento do espa\u00e7o.<\/p>\n<p>G |Falando em parques e pra\u00e7as, a gente nota uma diferen\u00e7a muito grande entre eles em regi\u00f5es mais pobres e nobres de grandes cidades. \u00c9 muito dif\u00edcil tornar esses espa\u00e7os mais igualit\u00e1rios?<\/p>\n<p>MES |<br \/>\nD\u00e1 para criar dispositivos baseados em justi\u00e7a territorial. \u00c9 um conceito em que cabe ao poder p\u00fablico gastar mais onde est\u00e3o segmentos de menor poder aquisitivo. A l\u00f3gica brasileira \u00e9 ao contr\u00e1rio. Os melhores parques e pra\u00e7as est\u00e3o nas \u00e1reas mais abastadas. H\u00e1 exce\u00e7\u00f5es. A Marta Suplicy fez os CEUs (Centros de Educa\u00e7\u00e3o Unificada) na periferia com muita qualidade. Precisaria ter mais investimentos desse g\u00eanero. Em Barcelona, a prefeita est\u00e1 fazendo um urbanismo t\u00e1tico. Fecha algumas ruas e deixa todo mundo usar aqueles espa\u00e7os, sem fazer muito investimento. \u00c9 a ideia de ter a 15 minutos de casa todas as coisas de que a pessoa precisa. Tem adeptos, mas cr\u00edticas tamb\u00e9m, porque pode gerar ilhas, com as pessoas fazendo tudo em seus pr\u00f3prios bairros e estimulando a separa\u00e7\u00e3o. At\u00e9 porque eu moro onde consigo pagar. Se os mais pobres est\u00e3o distantes, com urbanismo t\u00e1tico poderiam ficar ainda mais restritos a essas regi\u00f5es.<\/p>\n<p>G |Essa quest\u00e3o da dist\u00e2ncia passa tamb\u00e9m pela nossa dificuldade com transporte p\u00fablico\u2026<\/p>\n<p>MES |<br \/>\nEstamos longe de atingir um transporte p\u00fablico de qualidade. Precisar\u00edamos de uma malha de trilhos muito mais densa. Moscou ou Paris s\u00e3o \u00e1reas metropolitanas menores do que S\u00e3o Paulo, mas com uma cobertura por trilhos impressionante. Em Paris, todo mundo est\u00e1 a pelo menos 500 metros de uma linha de transporte p\u00fablico. Um dos meus entrevistados de Cidade Tiradentes leva quatro horas para chegar ao trabalho. Ent\u00e3o a pessoa at\u00e9 pode ter acesso a uma universidade p\u00fablica, mas n\u00e3o vai porque n\u00e3o d\u00e1 tempo de se deslocar. Um sistema de transporte d\u00e1 fluidez espacial. O pessoal da periferia diz que adoraria ir mais vezes \u00e0 avenida Paulista no domingo, quando a avenida est\u00e1 fechada. O transporte \u00e9 que permite essa op\u00e7\u00e3o. Para muita gente, n\u00e3o existe escolha. O paradoxo \u00e9 que \u00e9 um problema tamb\u00e9m para a elite. Se voc\u00ea mora em Alphaville ou em outro condom\u00ednio da capital, n\u00e3o chega r\u00e1pido nos lugares. O ge\u00f3grafo Milton Santos dizia que as pessoas ficavam prisioneiras do espa\u00e7o onde moram. \u00c9 dif\u00edcil, devido ao tempo e ao custo.<\/p>\n<p>G |A partir tamb\u00e9m do Plano Diretor, t\u00eam aumentado no centro de S\u00e3o Paulo os pr\u00e9dios com apartamentos min\u00fasculos, com \u00e1reas comuns e at\u00e9 c\u00f4modos como lavanderia compartilhados. Essa tend\u00eancia pode ser vista como positiva ou negativa em termos de ocupa\u00e7\u00e3o e compartilhamento da cidade? Ela deve se intensificar?<\/p>\n<p>MES |<br \/>\n\u00c9 uma tend\u00eancia que veio para ficar porque corresponde a um maior n\u00famero de pessoas que decidiram n\u00e3o se casar ou casais sem filhos, que podem acomodar suas vidas num espa\u00e7o menor. J\u00e1 que o tempo de deslocamento nas grandes metr\u00f3poles tamb\u00e9m \u00e9 alto, as pessoas tendem a buscar uma moradia central. Como a \u00e1rea \u00e9 pequena, pode-se vender a um pre\u00e7o acess\u00edvel. No entanto, quanto menor o espa\u00e7o, mais alto \u00e9 o pre\u00e7o do metro quadrado, o que faz com que uma unidade de 20 m\u00b2 saia proporcionalmente mais cara que uma de 120 m\u00b2 no mesmo bairro. O argumento \u00e9 que existe todo um espa\u00e7o compartilhado, lavanderia, \u00e1rea gourmet e sal\u00e3o de festas embutidos no pre\u00e7o. Num mesmo terreno d\u00e1 para construir mais unidades com o valor do metro quadrado bastante vantajoso para as construtoras. Vejo como uma tend\u00eancia positiva, j\u00e1 que \u00e9 um contramovimento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 expans\u00e3o do tecido urbano. Ele leva a um adensamento de \u00e1reas que j\u00e1 s\u00e3o servidas por equipamentos, infraestrutura e servi\u00e7os. Mas tamb\u00e9m \u00e9 bastante surpreendente que as pessoas passem a viver em 18 metros quadrados, um espa\u00e7o bastante ex\u00edguo e que restringe o ambiente de vida.<\/p>\n<p>G |A l\u00f3gica das dificuldades urbanas \u00e9 diferente para cidades grandes e m\u00e9dias?<\/p>\n<p>MES |<br \/>\nUma diferen\u00e7a significativa \u00e9 que, em S\u00e3o Paulo ou no Rio, o custo para morar \u00e9 muito alto. Isso faz com que a classe m\u00e9dia n\u00e3o tenha poder aquisitivo para estar nos espa\u00e7os da elite. Por isso, h\u00e1 uma parcela da classe m\u00e9dia que defende uma cidade melhor, com parques, pra\u00e7as p\u00fablicas, porque a vida para eles n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples. Nas cidades m\u00e9dias, a classe m\u00e9dia encosta na elite. Elas s\u00e3o s\u00f3cias dos mesmos clubes, os filhos estudam nas mesmas escolas, frequentam os mesmos restaurantes, participam da ma\u00e7onaria e do Rotary Club. Ali a classe m\u00e9dia est\u00e1 de costas para a cidade e tende \u00e0 separa\u00e7\u00e3o. Quem mora nesses condom\u00ednios? Gente como eu, professores de universidades, gerentes de banco, donos de pequenos com\u00e9rcios, m\u00e9dicos, que podem estar at\u00e9 pagando o financiamento da casa. S\u00f3 que, ao estar ali, assumem essa separa\u00e7\u00e3o social. A\u00ed v\u00e3o numa assembleia e votam contra manter um alojamento, transporte para as empregadas dom\u00e9sticas ou a favor de revist\u00e1-las na entrada. \u00c9 gente que vai assumindo uma posi\u00e7\u00e3o de estranhamento e medo em rela\u00e7\u00e3o aos outros. Num empreendimento, proibiram que os pedreiros dormissem debaixo de uma \u00e1rvore do lado de fora depois do almo\u00e7o. Interditaram o espa\u00e7o coletivo a esses trabalhadores. Chega a ser cruel, mas o que mais me toca \u00e9 que isso \u00e9 naturalizado. A pessoa me conta isso e diz que tem que ser assim, porque gosta da empregada, mas n\u00e3o sabe muito sobre ela. Essa estigmatiza\u00e7\u00e3o \u00e9 dizer que o outro a princ\u00edpio \u00e9 suspeito ou culpado, e isso vem se naturalizando na nossa sociedade.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o as cidades que s\u00e3o violentas, s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es entre as pessoas que carregam essa viol\u00eancia<\/p>\n<p>G |A viol\u00eancia urbana e at\u00e9 um ambiente mais hostil politicamente tamb\u00e9m s\u00e3o fatores que restringem a circula\u00e7\u00e3o entre grupos mais vulner\u00e1veis, como mulheres e pessoas LGBTQIA+?<\/p>\n<p>MES |<br \/>\nEssas quest\u00f5es se acentuaram no Brasil nos \u00faltimos anos. O pa\u00eds ficou dividido. Venceu o discurso de que se pode andar armado, que refor\u00e7a a discrimina\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos homoafetivos ou grupos que n\u00e3o s\u00e3o considerados normais. Isso tudo aparece na cidade. Como sociedade, n\u00e3o existimos sem espa\u00e7o. \u00c0s vezes valorizamos demais o tempo e nos esquecemos do espa\u00e7o. Com nosso corpo, definimos um conte\u00fado, aglutinamos ou separamos. Se existe um discurso de que estar perto \u00e9 perigoso e violento, ele vai alimentar todas as formas de separa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o estou dizendo que nas cidades brasileiras n\u00e3o haja perigos. Carros s\u00e3o roubados e pessoas assaltadas. Minha colega Eda G\u00f3es, com quem escrevi o livro \u201cEspa\u00e7os Fechados e Cidades\u201d, diz que existe a viol\u00eancia de fato e a representada, que \u00e9 muito maior. N\u00e3o s\u00e3o as cidades que s\u00e3o violentas. Na verdade, s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es entre as pessoas que carregam essa viol\u00eancia. Se temos um discurso de separa\u00e7\u00e3o, que hoje se resume a ser de esquerda ou de direita, ele refor\u00e7a uma tend\u00eancia que j\u00e1 existia e que a gente n\u00e3o imaginava que era t\u00e3o forte.<\/p>\n<p>G |Como voc\u00ea avalia o Plano Diretor de uma cidade como S\u00e3o Paulo?<\/p>\n<p>MES |<br \/>\nNo geral, temos boas leis. O Estatuto da Cidade, se fosse adequadamente promovido em Planos Diretores, garantiria uma cidade mais justa. S\u00f3 que a luta para aprovar uma lei municipal \u00e9 muito grande, pois envolve os interesses de propriet\u00e1rios de terras, de grandes e pequenas incorporadoras e corretores. Eles elegem vereadores, fazem seus lobbies. Normalmente, essas leis que come\u00e7am bastante inspiradas no Estatuto da Cidade v\u00e3o sendo ceifadas ou redigidas de forma a permitir ajustes ou dupla interpreta\u00e7\u00e3o. Se existisse uma sequ\u00eancia de prefeitos ou coaliz\u00e3o de for\u00e7as que garantisse uma lei com maior justi\u00e7a espacial, seria poss\u00edvel fazer mudan\u00e7as. S\u00f3 que em S\u00e3o Paulo h\u00e1 uma altern\u00e2ncia muito r\u00e1pida no poder. Um grupo luta anos para aprovar uma lei, a\u00ed muda o prefeito e ocorrem retrocessos. O Estatuto da Cidade vem l\u00e1 da luta pela reforma urbana nos anos 1970. Ele seria um conjunto de princ\u00edpios que cada munic\u00edpio teria liberdade para aplicar. Mas isso n\u00e3o tem dado muito certo. Houve experi\u00eancias interessantes, como o or\u00e7amento participativo, porque obrigou as pessoas a conversarem para decidir como gastar o dinheiro. S\u00f3 que na maior parte das cidades brasileiras nos \u00faltimos anos tivemos retrocessos.<\/p>\n<p>G |Quais os caminhos para mudar o processo de separa\u00e7\u00e3o em curso nas cidades?<\/p>\n<p>MES |<br \/>\nUm caminho \u00e9 a maior participa\u00e7\u00e3o da sociedade civil. Hoje os jovens t\u00eam muito poder, s\u00e3o capazes de criar movimentos, ocupar espa\u00e7os, promover transforma\u00e7\u00e3o. Isso tudo pode obrigar o poder p\u00fablico a se posicionar ou pelo menos aceitar parte dessas a\u00e7\u00f5es. Voc\u00ea teria um terceiro poder al\u00e9m da iniciativa privada ou poder p\u00fablico. N\u00e3o somos vereadores, prefeitos ou donos de incorporadoras, mas queremos participar das decis\u00f5es sobre a cidade. Isso desde coisas mais simples como fazer uma horta urbana no bairro at\u00e9 acompanhar vota\u00e7\u00f5es na C\u00e2mara Municipal. Essas iniciativas criam consci\u00eancia sobre a vida urbana, uma no\u00e7\u00e3o de pertencimento. E, se eu perten\u00e7o, isso me interessa. Os jovens t\u00eam criado estrat\u00e9gias, solu\u00e7\u00f5es, constru\u00eddo ideias e consci\u00eancia. A periferia hoje \u00e9 menos envergonhada do que 30 anos atr\u00e1s. Alguns jovens que entrevistamos dizem: meus pais tinham vergonha de contar que moravam aqui, hoje n\u00f3s queremos mudar isso.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: A import\u00e2ncia de um espa\u00e7o p\u00fablico mais compartilhado \u2014 Gama Revista &#8211; https:\/\/gamarevista.uol.com.br\/semana\/voce-sabe-dividir\/a-importancia-de-um-espaco-publico-mais-compartilhado\/?utm_source=NexoNL&amp;utm_medium=Email&amp;utm_campaign=OQEL<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leonardo Neiva &#8211; Para a ge\u00f3grafa Maria Encarna\u00e7\u00e3o Sposito, a prolifera\u00e7\u00e3o de condom\u00ednios fechados e distantes dos centros urbanos tem intensificado o processo de segrega\u00e7\u00e3o nas cidades Hoje as cidades brasileiras vivem um novo processo de segrega\u00e7\u00e3o. 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