{"id":18345,"date":"2022-09-30T12:14:26","date_gmt":"2022-09-30T15:14:26","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18345"},"modified":"2022-09-30T08:57:51","modified_gmt":"2022-09-30T11:57:51","slug":"estaria-mesmo-a-humanidade-condenada-nossos-ancestrais-respondem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/09\/30\/estaria-mesmo-a-humanidade-condenada-nossos-ancestrais-respondem\/","title":{"rendered":"Estaria mesmo a humanidade condenada? Nossos ancestrais respondem"},"content":{"rendered":"<p><strong>Lynn Parramore<\/strong> &#8211; Evid\u00eancias revelam que nossos ancestrais n\u00e3o foram brutos, nem inocentes, mas seres complexos, cujas experi\u00eancias de vida t\u00eam muito a nos ensinar. S\u00e3o not\u00edcias animadoras diante do desastre que se aproxima em todas as dire\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>David Graeber, o eletrizante pensador social que ajudou a desencadear o\u00a0<a href=\"https:\/\/amzn.to\/3nycm48\">Movimento Occupy<\/a>\u00a0e desafiou nosso conformismo diante de\u00a0<a href=\"https:\/\/amzn.to\/3FAayxK\">d\u00edvidas\u00a0<\/a>paralisantes e \u201c<a href=\"https:\/\/amzn.to\/3Ieo7o2\" rel=\"noreferrer noopener\">empregos de merda<\/a>\u201c, morreu aos cinquenta e nove anos em 2020. Para nossa sorte, ele deixou um presente de despedida, conclu\u00eddo apenas tr\u00eas semanas antes de sua morte \u2014 algo t\u00e3o expansivo, fresco e revigorante quanto sua mente.<\/p>\n<p>Provocante e at\u00e9 emocionante,\u00a0<a href=\"https:\/\/amzn.to\/33s6Gl9\" rel=\"noreferrer noopener\">The Dawn of Everything: A New History of Humanity<\/a>, em co-autoria com o arque\u00f3logo David Wengrow, tece um conto da hist\u00f3ria humana diferente de tudo que voc\u00ea j\u00e1 leu antes. Erudito, espirituoso e rigoroso, o livro complica, se n\u00e3o esmaga completamente, o que pens\u00e1vamos saber sobre a jornada de 200.000 anos do\u00a0<em>Homo sapiens<\/em>\u00a0na Terra at\u00e9 agora. Este \u00e9 um livro que divertidamente nos faz girar com novas percep\u00e7\u00f5es at\u00e9 ficarmos tontos com as possibilidades.<\/p>\n<p>Enquanto ansiamos por algo \u2013 qualquer coisa \u2013 para nos livrar da tenebrosa suspeita de que a humanidade est\u00e1 destinada a queimar, quebrar ou desaparecer em uma devasta\u00e7\u00e3o solit\u00e1ria, Graeber preparou um suntuoso banquete para refletirmos. Vamos conferir.<\/p>\n<p><strong>Passado revisitado<\/strong><\/p>\n<p>Primeira considera\u00e7\u00e3o: n\u00e3o vemos os outros como s\u00e3o, mas os encaramos com nossas pr\u00f3prias suposi\u00e7\u00f5es, fantasias e preconceitos. Fazemos isso com nossos vizinhos e fazemos isso com nossos ancestrais humanos que n\u00e3o est\u00e3o por perto para discutir conosco \u2013 aquelas pessoas de apar\u00eancia engra\u00e7ada nos livros sobre civiliza\u00e7\u00f5es nas impress\u00f5es do ocidente, que supostamente marcham por est\u00e1gios ordenados de desenvolvimento, finalmente chegando ao que chamamos de \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d. Durante o\u00a0<strong>Iluminismo<\/strong>, essa abordagem da hist\u00f3ria em etapas tornou-se popular entre intelectuais como\u00a0<strong>Thomas Hobbes<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>Jean-Jacques Rousseau<\/strong>, cujas especula\u00e7\u00f5es fantasiosas sobre como chegamos onde estamos logo se tornaram fatos.<\/p>\n<p>Voc\u00ea deveria escolher um time \u2013 ou o time de Hobbes (tudo era brutal e desagrad\u00e1vel at\u00e9 que reis e policiais nos derrotassem at\u00e9 a submiss\u00e3o) ou o time de Rousseau (fomos inocentes felizes at\u00e9 que a Revolu\u00e7\u00e3o Agr\u00edcola nos sobrecarregasse com as tristes, mas inevit\u00e1veis, propriedade e desigualdade). Da\u00ed voc\u00ea poderia montar o tipo de narrativa de Ci\u00eancias Sociais que tem dominado nosso pensamento de uma forma ou de outra desde ent\u00e3o, mais recentemente no grande sucesso de Noah Harari, \u201c<a href=\"https:\/\/amzn.to\/3KhiTtz\">Sapiens<\/a>\u201d (do time de Rousseau).<\/p>\n<p>Como todas as hist\u00f3rias de origem, esses contos alojados em nossas psiques coletivas nos explicam a n\u00f3s mesmos. E como todas as hist\u00f3rias de origem, elas escondem tanto quanto revelam.<\/p>\n<p><strong>Napole\u00e3o Bonaparte<\/strong>\u00a0perguntou: \u201cO que \u00e9 a hist\u00f3ria sen\u00e3o uma f\u00e1bula com a qual todos concordam?\u201d, Graeber e Wengrow v\u00eam para sacudir o feiti\u00e7o das f\u00e1bulas predominantes \u2013 n\u00e3o como te\u00f3ricos de poltrona pegando ideias do nada, mas como revisores e sintetizadores de uma infinidade de descobertas recentes tentadoras, juntamente com o trabalho de pensadores negligenciados (ol\u00e1, acad\u00eamicas feministas) que chamaram a aten\u00e7\u00e3o para inconsist\u00eancias gritantes nas narrativas estabelecidas. Ao faz\u00ea-lo, recuperam marcos de como os povos antigos vivenciavam seu mundo que nos ajudam a ver que poder\u00edamos estar nos organizando \u2013 social, econ\u00f4mica, politicamente \u2013 em princ\u00edpios muito diferentes daqueles que parecem inevit\u00e1veis \u200b\u200bhoje. Isso \u00e9 animador.<\/p>\n<p>Entre as proposi\u00e7\u00f5es de Graeber e Wengrow est\u00e3o estas:<\/p>\n<ul>\n<li>Mal temos a linguagem para expressar o que nossos ancestrais eram at\u00e9 95% do tempo.<\/li>\n<li>A Revolu\u00e7\u00e3o Agr\u00edcola n\u00e3o foi uma revolu\u00e7\u00e3o. A hist\u00f3ria real \u00e9 muito mais complexa \u2013 e interessante.<\/li>\n<li>Os povos antigos viviam com uma rica variedade de estruturas sociais e pol\u00edticas, variando at\u00e9 mesmo de acordo com a \u00e9poca. (Muito flex\u00edveis, essas pessoas).<\/li>\n<li>Os humanos n\u00e3o s\u00e3o apenas pe\u00f5es em um tabuleiro de xadrez de condi\u00e7\u00f5es materiais. Temos experi\u00eancias ativas desde o in\u00edcio.<\/li>\n<li>A desigualdade em comunidades humanas em grande escala n\u00e3o \u00e9 inevit\u00e1vel, nem \u00e9 um produto da agricultura. Idem, patriarcado.<\/li>\n<li>As sociedades do passado que valorizavam as mulheres eram lugares mais felizes para se viver. (Como esperado.)<\/li>\n<li>Podemos fazer melhor. Temos feito melhor.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Os autores come\u00e7am apontando que as teorias da hist\u00f3ria humana do s\u00e9culo XVIII foram, em parte, uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0s cr\u00edticas sobre a sociedade europeia feitas por observadores ind\u00edgenas. Considere Kandiaronk, um chefe de Hur\u00f5es t\u00e3o habilidoso no debate que poderia facilmente calar um jesu\u00edta, o que surpreendeu os ouvintes com percep\u00e7\u00f5es penetrantes sobre autoridade, dec\u00eancia, responsabilidade social e, acima de tudo, liberdade. As cr\u00edticas de Kandiaronk, apresentadas em forma de di\u00e1logo pelo Bar\u00e3o de Lahontan em 1703, desencadearam todo um g\u00eanero de livros expressando cr\u00edticas de um estranho \u201cprimitivo\u201d. Graeber e Wengrow iluminam o qu\u00e3o profundamente esses produtos influenciaram o pensamento iluminista e ajudaram a dar origem a experimentos sociais e pol\u00edticos (incluindo a Constitui\u00e7\u00e3o dos EUA), bem como estrat\u00e9gias defensivas para descartar tais perspectivas (incluindo tamb\u00e9m a Constitui\u00e7\u00e3o dos EUA).<\/p>\n<p>O romance epistolar de Madame de Graffigny de 1747, \u201cCartas de uma mulher peruana\u201d conta a hist\u00f3ria de uma princesa inca que protesta contra a desigualdade que observa na sociedade francesa \u2013 particularmente os maus-tratos das mulheres. Este volume, por sua vez, ajudou a moldar o pensamento do economista ARJ Turgot, que respondeu insistindo que a desigualdade era inevit\u00e1vel. Ele delineou uma teoria da evolu\u00e7\u00e3o social postulada como um progresso de ca\u00e7adores para pastoreio, agricultura e civiliza\u00e7\u00e3o comercial urbana que colocava qualquer um que n\u00e3o estivesse no \u201cest\u00e1gio final\u201d como uma forma de vida vestigial e que seria melhor aceitar ser absorvida pela l\u00f3gica desse suposto \u00faltimo est\u00e1gio. O esquema de evolu\u00e7\u00e3o social de Turgot come\u00e7ou a aparecer em palestras de seu amigo Adam Smith em Glasgow e, eventualmente, chegou \u00e0s teorias gerais da hist\u00f3ria humana propostas por v\u00e1rios colegas influentes de Smith, como Adam Ferguson.<\/p>\n<p>O novo paradigma padr\u00e3o formou a lente atrav\u00e9s da qual os europeus viam os povos ind\u00edgenas em todo o mundo; nomeadamente como inocentes infantis ou selvagens brutais que vivem em condi\u00e7\u00f5es permanentes deplor\u00e1veis. Todos deveriam ser classificados de acordo com a forma como adquiriam comida, com sociedades igualit\u00e1rias de ca\u00e7a e coleta banidas para o fundo da escada. As observa\u00e7\u00f5es de Kandiaronk, que causaram ansiedade ao apontar as condi\u00e7\u00f5es grotescas da chamada civiliza\u00e7\u00e3o \u2013 do grande n\u00famero de pessoas famintas \u00e0 necessidade de duas horas para um franc\u00eas se vestir \u2013, agora podem ser descartadas. Essa mentalidade tornou-se predominante no campo emergente da Arqueologia, em que os praticantes produziam interpreta\u00e7\u00f5es tendenciosas de sociedades antigas, tornando-as inofensivas ao modo de vida moderno e capitalista.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria teleol\u00f3gica era o nome do jogo. E os estudiosos jogavam sem parar.<\/p>\n<p>Arque\u00f3logos se fixaram no que parecia \u201ccivilizado\u201d para eles \u2013 principalmente sociedades grandes e estratificadas como Egito fara\u00f4nico, Roma Imperial, M\u00e9xico asteca, China Han ou Gr\u00e9cia antiga \u2013 os tipos de lugares onde voc\u00ea encontra grandes monumentos (arque\u00f3logos podem estud\u00e1-los facilmente), governantes autorit\u00e1rios e muita viol\u00eancia, geralmente acompanhada pela subordina\u00e7\u00e3o das mulheres. Essa constru\u00e7\u00e3o de civiliza\u00e7\u00e3o se baseia na ideia de sacrif\u00edcio: devemos abrir m\u00e3o de liberdades b\u00e1sicas, como a liberdade de se opor a ordens sem sentido, se quisermos os benef\u00edcios anunciados. Talvez dev\u00eassemos at\u00e9 desistir da pr\u00f3pria vida se os deuses ou os governantes disserem que assim deve ser. Podemos ver isso hoje em nossa pr\u00f3pria sociedade, como trabalhadores que aceitam o rebaixamento de seus sal\u00e1rios e perda de direitos trabalhistas, esperando que seu sacrif\u00edcio resultar\u00e1 na melhora do humor do deus do mercado. (As f\u00eameas s\u00e3o consideradas ofertas especialmente adequadas.)<\/p>\n<p>Definitivamente, h\u00e1 algo errado nesse panorama. Seja voc\u00ea uma jovem escolhida para servir a um imperador asteca ou uma mulher que \u00e9 reduzida a uma m\u00e1quina de reprodu\u00e7\u00e3o por pol\u00edticos texanos, a \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d n\u00e3o est\u00e1 realmente funcionando para voc\u00ea.<\/p>\n<p>Graeber e Wengrow tentam se livrar dos maus h\u00e1bitos de seus colegas, apresentando retratos multidimensionais de povos antigos, que remontam \u00e0 Idade da Pedra, que os fazem parecer menos ex\u00f3ticos e mais fi\u00e9is \u00e0 vida. N\u00f3s os vemos brincando, se arrumando, trabalhando e discutindo uns com os outros. Eles constroem e cometem erros. Eles tentam coisas novas, depois as jogam de lado. Alguns criam sociedades justas e generosas, outros, dominadoras e violentas. Todos est\u00e3o tentando descobrir como viver melhor, e muitas vezes estragam tudo. A nova narrativa que surge mostra que a flexibilidade, a experimenta\u00e7\u00e3o e o desejo de viver com dignidade e alegria s\u00e3o uma parte maior de nossa heran\u00e7a humana do que jamais imaginamos.<\/p>\n<p>Graeber e Wengrow postulam que certas liberdades b\u00e1sicas, como a liberdade de se afastar de uma sociedade que n\u00e3o combina com voc\u00ea, ou de desobedecer a ordens, eram vistas como preciosas em muitas sociedades antigas \u2013 particularmente aquelas que os arque\u00f3logos n\u00e3o sabiam como categorizar. E esses valores n\u00e3o desapareceram na primeira vez que algu\u00e9m plantou uma safra. Os autores fornecem evid\u00eancias abundantes de que apenas porque uma sociedade se alimenta de uma maneira, n\u00e3o significa que uma determinada organiza\u00e7\u00e3o ou orienta\u00e7\u00e3o social a siga automaticamente.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria familiar da evolu\u00e7\u00e3o social humana sustenta que as sociedades de subsist\u00eancia foram pouco mais do que o prel\u00fadio da Revolu\u00e7\u00e3o Agr\u00edcola, que supostamente mudou tudo. A imagem deveria ser assim: Os ca\u00e7adores-coletores eram n\u00f4mades; agricultores eram sedent\u00e1rios. Os ca\u00e7adores-coletores consumiam os recursos que achavam; agricultores os produziam. Os ca\u00e7adores-coletores n\u00e3o tinham propriedade privada; agricultores tinham. Os ca\u00e7adores-coletores eram inatamente igualit\u00e1rios; agricultores eram estratificados. Se os cientistas sociais encontrassem evid\u00eancias de pessoas que n\u00e3o viviam da agricultura se comportando de maneira diferente dessa f\u00f3rmula, elas eram descritas como \u201cemergentes\u201d ou \u201cdesviantes\u201d.<\/p>\n<p>Mas Graeber e Wengrow defendem fortemente que nada disso \u00e9 realmente apoiado pelas evid\u00eancias. Eles destacam como no Crescente F\u00e9rtil do Oriente M\u00e9dio, por exemplo, nunca houve qualquer \u201cmudan\u00e7a\u201d de ca\u00e7a-coleta paleol\u00edtica para agricultora neol\u00edtica. A transi\u00e7\u00e3o de viver principalmente de recursos selvagens para uma vida baseada na produ\u00e7\u00e3o de alimentos, na verdade, ocorreu ao longo de 3.000 anos \u2013 dificilmente um per\u00edodo revolucion\u00e1rio. E, enquanto os autores reconhecem que a agricultura permitiu a possibilidade de concentra\u00e7\u00f5es mais desiguais de riqueza, na maioria dos casos isso s\u00f3 come\u00e7ou a acontecer mil\u00eanios depois que a agricultura come\u00e7ou. Nos s\u00e9culos anteriores, as pessoas estavam efetivamente experimentando a agricultura, alternando entre os modos de produ\u00e7\u00e3o, ca\u00e7ando um pouco aqui, crescendo um pouco ali. Mudando as coisas \u00e0 medida que novas condi\u00e7\u00f5es surgiam. Concentra\u00e7\u00f5es de riqueza \u00e0s vezes ocorriam, mas outras vezes n\u00e3o.<\/p>\n<p>O que parecia uma imagem est\u00e1tica do passado come\u00e7a a se transformar em um caleidosc\u00f3pio colorido.<\/p>\n<p>Os autores argumentam que, em vez de uma Revolu\u00e7\u00e3o Agr\u00edcola, nossos ancestrais se envolveram em um processo longo e complexo que n\u00e3o levou a categorias n\u00edtidas de estruturas sociais e pol\u00edticas. Eles apontam que, no Crescente F\u00e9rtil, grupos que n\u00e3o dependiam da agricultura podiam ser bastante estratificados e violentos, enquanto outros nas \u00e1reas agr\u00edcolas vizinhas parecem muito mais igualit\u00e1rios, com as mulheres desfrutando de elevada visibilidade social e econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o, dizem os autores, para supor que a agricultura em per\u00edodos remotos significava propriedade privada da terra, territorialidade ou uma passagem sem volta para arranjos hier\u00e1rquicos.<\/p>\n<p>Eles apontam para a Amaz\u00f4nia durante o per\u00edodo Holoceno, onde uma \u201ctradi\u00e7\u00e3o l\u00fadica\u201d de agricultura significava que as pessoas passavam a esta\u00e7\u00e3o chuvosa nas aldeias cultivando coisas de maneira bastante aleat\u00f3ria e vivendo em comunidade, e depois abandonavam suas casas durante a esta\u00e7\u00e3o seca para ca\u00e7ar e pescar, sob uma estrutura autocr\u00e1tica, apenas para come\u00e7ar tudo de novo em outro lugar no ano seguinte. N\u00e3o havia uma linha clara entre animais dom\u00e9sticos e n\u00e3o dom\u00e9sticos, mas algo mais como zool\u00f3gicos itinerantes de criaturas domesticadas da floresta que acompanhavam humanos para o passeio. Em vez de ref\u00fagio de povos solit\u00e1rios, a Amaz\u00f4nia surge como lar de pessoas com redes amplas e intrincadas em grandes dist\u00e2ncias e arranjos flex\u00edveis, que s\u00e3o dif\u00edceis de estudar porque n\u00e3o deixaram registros fiscais e monumentos. Os amaz\u00f4nicos n\u00e3o fizeram agricultura da maneira que a narrativa padr\u00e3o diz que deveriam por uma raz\u00e3o simples: eles n\u00e3o precisavam. A comida era abundante o suficiente e as estrat\u00e9gias para acess\u00e1-la eram inteligentes o suficiente para que n\u00e3o houvesse motivo para pegar uma enxada ou se limitar a um lugar.<\/p>\n<p>\u201cA agricultura\u201d, argumentam Graeber e Wengrow, \u201cmuitas vezes come\u00e7ou como uma economia de priva\u00e7\u00e3o; e \u00e9 por isso que tendia a acontecer primeiro em \u00e1reas onde os recursos selvagens eram mais escassos no solo.\u201d Em outras palavras, a agricultura foi a estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia de pessoas cujo modo de vida n\u00e3o foi o padr\u00e3o durante grande parte da hist\u00f3ria humana. Seus praticantes parecem ser muito mais comuns no passado porque constru\u00edram casas de barro e permaneceram no local, deixando para tr\u00e1s sinais mais vis\u00edveis.<\/p>\n<p>Graeber e Wengrow apontam que levou muito tempo para os estudiosos entenderem \u2013 vamos encarar, principalmente brancos, homens, estudiosos ocidentais \u2013 as evid\u00eancias debaixo de seus narizes porque eles n\u00e3o podiam deixar de projetar a si pr\u00f3prios em tempos passados. Eles olharam para um mural de parede maia e viram uma confus\u00e3o de criaturas fant\u00e1sticas em vez de uma maneira de contar hist\u00f3rias, e com informa\u00e7\u00f5es detalhadas, no lugar da escrita. Contemplaram figuras femininas curvil\u00edneas e imaginaram que tais corpos s\u00f3 poderiam ser valorizados por sua fertilidade, em vez de entenderem que aquelas curvas eram seios ca\u00eddos e volumes de gordura, representando os corpos de mulheres mais velhas em altos cargos pol\u00edticos. Como \u201cescrever\u201d por meio de pinturas de feras fant\u00e1sticas e valorizar mulheres mais velhas com autoridade eram conceitos estranhos, os estudiosos apenas inventavam coisas para se encaixar em seus pr\u00f3prios preconceitos.<\/p>\n<p>A cegueira para as contribui\u00e7\u00f5es das mulheres tem sido um problema particular em nossa capacidade de ver a hist\u00f3ria humana com clareza. Como as autoras observam (e muitas acad\u00eamicas feministas poderiam ter dito a voc\u00ea), cientistas sociais que analisam as primeiras cidades e \u201cmega-s\u00edtios\u201d tendem a concentrar tipos espec\u00edficos de desenvolvimento cultural, como o conhecimento facilmente vis\u00edvel de construir pir\u00e2mides ou coletar impostos. Mas o conhecimento de culin\u00e1ria e cura, muito menos vis\u00edvel (embora muito mais cr\u00edtico para a sobreviv\u00eancia), associado \u00e0s atividades das mulheres, foi rebaixado a algo menor do que a viol\u00eancia da guerra. Sociedades mais pac\u00edficas, que enfatizavam a primeira, foram incompreendidas e ignoradas.<\/p>\n<p>Graeber e Wengrow mostram que, se olharmos com novos olhos, podemos ver cidades antigas onde mesmo os governantes mais autocr\u00e1ticos s\u00e3o respons\u00e1veis \u200b\u200bpor conselhos e assembleias municipais, muitos deles concedendo \u00e0s mulheres\u00a0<em>status<\/em>\u00a0igual. A democracia, em sua narrativa, n\u00e3o \u00e9 algo que surgiu e se desenvolveu na Gr\u00e9cia antiga, como em Atena, mas parte de uma heran\u00e7a de ideias de governan\u00e7a em linhas igualit\u00e1rias que apareceram repetidamente entre os povos antigos. Algumas cidades antigas desenvolveram um\u00a0<em>ethos<\/em>\u00a0aristocr\u00e1tico e favoreceram figuras de autoridade carism\u00e1ticas, mas outras n\u00e3o, mesmo as muito grandes. Curiosamente, o que eles se referem ao tipo \u201cheroico\u201d de assentamentos, que se organizam em torno de governantes poderosos e carism\u00e1ticos, parece vir depois, e em rea\u00e7\u00e3o \u00e0s cidades mais igualit\u00e1rias.<\/p>\n<p>Graeber e Wengrow sugerem que foi por esse processo de cismog\u00eanese que conseguimos cidades governadas por reis em vez de conselhos: \u201cAs aristocracias, talvez a pr\u00f3pria monarquia, surgiram pela primeira vez em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s cidades igualit\u00e1rias das plan\u00edcies mesopot\u00e2micas\u201d, escrevem eles.<\/p>\n<p>O caso de Teotihuacan \u00e9 um dos exemplos mais v\u00edvidos de como as coisas parecem diferentes quando os estudiosos colocam os velhos h\u00e1bitos de lado. O maior centro urbano da Mesoam\u00e9rica antes dos astecas, que chegou a cerca de 100.000 pessoas, Teotihuacan, tinha senhores autocr\u00e1ticos \u2013 mas depois se livrou deles. O que inicialmente parecia aos estudiosos uma cidade est\u00e1tica, dominada por edif\u00edcios monumentais e sacrif\u00edcio humano (uma indica\u00e7\u00e3o de governantes poderosos e estratifica\u00e7\u00e3o) acaba por abandonar essa estrutura para se concentrar em governan\u00e7a compartilhada e habita\u00e7\u00e3o p\u00fablica de alta qualidade, possivelmente ap\u00f3s algum tipo de revolu\u00e7\u00e3o. No in\u00edcio, os arque\u00f3logos consideraram os apartamentos chiques de Teotihuacan como pal\u00e1cios, mas agora est\u00e1 claro que a maioria dos moradores da cidade vivia em escava\u00e7\u00f5es com instala\u00e7\u00f5es de drenagem, pisos e paredes lindamente rebocados, e atraentes espa\u00e7os comuns decorados com murais. Evid\u00eancias de dietas indicam que quase todo mundo estava comendo bem. Mas como os Teotihuacans n\u00e3o deixaram evid\u00eancias escritas, levou muito tempo para os estudiosos imaginarem uma cidade provavelmente organizada por assembleias locais, que respondem a um conselho de governo \u2013 onde todos esperavam viver bem.<\/p>\n<p><strong>T\u00e1, e da\u00ed?<\/strong><\/p>\n<p>Se formos realmente honestos, o que passa por civiliza\u00e7\u00e3o hoje \u00e9 frequentemente um sistema de domina\u00e7\u00e3o e priva\u00e7\u00e3o para a maioria das pessoas, e um sistema que teria repelido muitos de nossos ancestrais. Longe de viver em condi\u00e7\u00f5es que maximizem nossa liberdade e bem-estar, lutamos contra a desigualdade, a desconfian\u00e7a, a impot\u00eancia e a desilus\u00e3o. No pa\u00eds mais rico do mundo, muitos de n\u00f3s n\u00e3o podemos nem pagar um m\u00e9dico quando estamos doentes.<\/p>\n<p>Graeber e Wengrow definem o Estado moderno, no qual a maioria de n\u00f3s vive, como uma estrutura pol\u00edtica que combina pelo menos duas formas comuns de domina\u00e7\u00e3o: controle da viol\u00eancia, controle da informa\u00e7\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o via carisma pessoal (ver: elei\u00e7\u00f5es estadunidenses). S\u00e3o sociedades onde o poder n\u00e3o \u00e9 amplamente compartilhado e nas quais os valores de cuidado e coopera\u00e7\u00e3o s\u00e3o enfatizados muito menos do que os de competi\u00e7\u00e3o e de possuir mais do que seu vizinho.<\/p>\n<p>As muitas formas de liberdade e prazer que os primeiros humanos obviamente consideravam essenciais \u00e0 vida n\u00e3o s\u00e3o acess\u00edveis \u00e0 grande maioria. Quem pode viajar livremente com tempo m\u00ednimo de f\u00e9rias e economias insuficientes? Quem pode rejeitar livremente as condi\u00e7\u00f5es que n\u00e3o lhe conv\u00e9m? Quem pode recusar os comandos arbitr\u00e1rios que nos bombardeiam diariamente (pague por esse servi\u00e7o de merda, aceite esse trabalho de merda, fa\u00e7a o que esse policial racista manda)? Ningu\u00e9m, al\u00e9m dos muito ricos.<\/p>\n<p>\u00c9 realmente dif\u00edcil imaginar que possa ser de outra forma, porque nos \u00faltimos dois mil anos a maioria de n\u00f3s viveu sob reis ou imperadores ou, onde n\u00e3o existiam, patriarcado ou outras formas de domina\u00e7\u00e3o violenta. Graeber e Wengrow reconhecem que, uma vez estabelecidas, essas estruturas s\u00e3o dif\u00edceis de se livrar \u2013 especialmente em nossos h\u00e1bitos mentais.<\/p>\n<p>Mas um olhar mais atento \u00e0 diversidade e riqueza de nossa hist\u00f3ria humana deve nos ajudar a reunir coragem para reinventar como a vida pode ser melhor e colocar essas vis\u00f5es em a\u00e7\u00e3o. Insinua\u00e7\u00f5es de possibilidades sociais trazidas do passado remoto podem nos inspirar com o conhecimento de que n\u00e3o temos que aceitar ser intimidados por tiranos ou plutocratas. Ao trazer o l\u00e1 e o depois para o aqui e agora, podemos considerar que as sociedades desiguais, guerreiras e patriarcais n\u00e3o s\u00e3o a norma humana e est\u00e3o longe de serem normais. Assim, como nossos antepassados, podemos fazer escolhas.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Estaria mesmo a humanidade condenada? Nossos ancestrais respondem &#8211; https:\/\/avoyager.net\/sociedade\/estaria-mesmo-a-humanidade-condenada\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lynn Parramore &#8211; Evid\u00eancias revelam que nossos ancestrais n\u00e3o foram brutos, nem inocentes, mas seres complexos, cujas experi\u00eancias de vida t\u00eam muito a nos ensinar. S\u00e3o not\u00edcias animadoras diante do desastre que se aproxima em todas as dire\u00e7\u00f5es. 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