{"id":18320,"date":"2022-09-25T12:33:00","date_gmt":"2022-09-25T15:33:00","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18320"},"modified":"2022-09-18T18:35:58","modified_gmt":"2022-09-18T21:35:58","slug":"e-tempo-de-esperancar-debate-sobre-uma-politica-de-defesa-nacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/09\/25\/e-tempo-de-esperancar-debate-sobre-uma-politica-de-defesa-nacional\/","title":{"rendered":"\u00c9 tempo de esperan\u00e7ar: debate sobre uma pol\u00edtica de defesa nacional"},"content":{"rendered":"<p><strong>Observat\u00f3rio da Defesa e Soberania<\/strong> &#8211; O Brasil \u00e9 um pa\u00eds baleia. Pa\u00edses baleia s\u00e3o aqueles que re\u00fanem grandes popula\u00e7\u00f5es em uma longa extens\u00e3o territorial. Esses atributos geogr\u00e1ficos est\u00e3o combinados com profundas desigualdades internas e uma economia dependente, o que torna o pa\u00eds \u201clento\u201d para exercer lideran\u00e7a estrat\u00e9gica, como uma baleia. Continuemos nas met\u00e1foras mar\u00edtimas. Entre os internacionalistas, \u00e9 comum que o seguinte dilema se apresente: o Brasil deve ser o rabo do tubar\u00e3o ou a cabe\u00e7a da sardinha? Aqueles que defendem que deve ser o \u201crabo\u201d, advogam pela ades\u00e3o aos projetos das grandes pot\u00eancias, mesmo que de forma subordinada. Aqueles que defendem a \u201ccabe\u00e7a\u201d, entendem que o Brasil pode liderar os pa\u00edses com menor peso geopol\u00edtico em negocia\u00e7\u00f5es coletivas, especialmente na \u00e1rea comercial, sendo poss\u00edvel se relacionar com o centro em melhores termos.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cQuem sempre espera na pura espera, vive um tempo de espera v\u00e3.<br \/>\nPor isso, enquanto te espero trabalharei os campos e conversarei com os homens\u201d.<br \/>\nCan\u00e7\u00e3o \u00d3bvia \u2013 Paulo Freire<\/p><\/blockquote>\n<p>Aqui, propomos que a tarefa dos lutadores e das lutadoras populares \u00e9, se necess\u00e1rio, inverter a corrente das mar\u00e9s. Por isso, ao discutir propostas para um governo de composi\u00e7\u00e3o popular, partiremos dessa utopia.<\/p>\n<p>Como navegadores, comecemos sentindo o ritmo das ondas. Os mares andam revoltos, numa combina\u00e7\u00e3o de pandemia, guerra e governo Bolsonaro. Mas essa \u00e9 a superf\u00edcie. No fundo do mar, placas tect\u00f4nicas se movem na disputa pela hegemonia global entre os EUA e a China. Se no longo prazo essas mudan\u00e7as s\u00e3o animadoras, no curto prazo, tendem a deixar ou deixam o mar revolto. Assim, um novo governo Lula n\u00e3o encontrar\u00e1 um cen\u00e1rio global similar ao que viveu, e essas elei\u00e7\u00f5es n\u00e3o se desenvolvem com a aparente normalidade de outros tempos. Abaixo propomos temas- b\u00fassolas para a travessia.<\/p>\n<p>Nossa primeira pergunta sempre tem que ser: o que queremos defender? Fronteiras? Ganhos da ind\u00fastria farmac\u00eautica? Uma ret\u00f3rica sobre a Amaz\u00f4nia abstrata, que percebe como inimigos ONGs, mas n\u00e3o grandes mineradoras? H\u00e1 diferentes entendimentos sobre quais s\u00e3o os interesses nacionais que devem ser objeto de prote\u00e7\u00e3o. Os movimentos populares trabalham com uma percep\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima da seguran\u00e7a humana, pensando a soberania alimentar, energ\u00e9tica, informacional; em suma, uma vida boa para todos como a principal quest\u00e3o a ser defendida pelo pa\u00eds. Os movimentos tamb\u00e9m s\u00e3o protagonistas na preocupa\u00e7\u00e3o com os recursos estrat\u00e9gicos, especialmente o meio ambiente, um dos principais interesses internacionais no Brasil para a acumula\u00e7\u00e3o de mais valia global. Levando em conta a maneira como as guerras n\u00e3o convencionais do presente s\u00e3o travadas (que alguns chamam de guerras h\u00edbridas), o principal objeto de defesa deve ser as fontes de percep\u00e7\u00e3o\/interpreta\u00e7\u00e3o do mundo que forjam a vontade popular (n\u00e3o apenas durante o processo decis\u00f3rio). Sem liberdade para pensar, formular e decidir, inclusive sobre a forma de manejo ecol\u00f3gico dos recursos estrat\u00e9gicos (n\u00e3o apenas naturais, como tamb\u00e9m culturais), n\u00e3o existe autonomia.<\/p>\n<p><strong>Do que defender?<\/strong><\/p>\n<p>Qualquer pequena a\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica que altere a posi\u00e7\u00e3o do Brasil na ordem hier\u00e1rquica internacional gera rea\u00e7\u00e3o. Pensar na liberta\u00e7\u00e3o nacional dos povos em Estados de periferia sem pensar como romper as rela\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o do centro com a periferia \u00e9 ilus\u00e3o. Os ambientes dom\u00e9stico e internacional s\u00e3o intimamente conectados. N\u00f3s, na base da pir\u00e2mide (e sem condi\u00e7\u00f5es nem para viajar de \u00f4nibus por causa do pre\u00e7o da gasolina) n\u00e3o percebemos isso, mas a classe dominante, mesmo em pa\u00edses perif\u00e9ricos, tem conex\u00f5es globais. No caso dos latino-americanos, \u00e9 preciso observar atentamente as movimenta\u00e7\u00f5es dos EUA. A ess\u00eancia da manuten\u00e7\u00e3o da hegemonia estadunidense n\u00e3o est\u00e1 no seu enorme aparato b\u00e9lico, muito superior aos demais pa\u00edses do globo reunidos.<\/p>\n<p>Est\u00e1 na capacidade de inspirar desejos, de emular e controlar vontades. Todos visualizam aquelas casas brancas com quintais verdinhos e churrascos e pensam: poxa, deve ser bacana ter quintal! Na realidade, sabemos que a grama \u00e9 de pl\u00e1stico e que n\u00e3o serve nem como casa para minhocas.<\/p>\n<p>Por isso, a primeira capacidade que precisamos buscar para sermos um pa\u00eds soberano \u00e9 a de autonomia no pensar. \u00c9 necess\u00e1rio desconfiar (MUITO!) sobre o que nos apresentam enquanto amea\u00e7as para o Brasil. Por exemplo, somos um povo formado por migrantes que vieram voluntariamente ou escravizados. Entender a migra\u00e7\u00e3o como uma amea\u00e7a \u00e9 desconhecer a forma\u00e7\u00e3o social do povo brasileiro. Seguran\u00e7a e inseguran\u00e7a s\u00e3o, assim, sentimentos relacionados. Em outros termos, o que eu percebo como amea\u00e7a pode n\u00e3o ser assim identificado por outros. Quem det\u00e9m a hegemonia na formula\u00e7\u00e3o das ideias det\u00e9m tamb\u00e9m a capacidade de escolher o que deve ser entendido enquanto uma amea\u00e7a. Isso impede que os pa\u00edses de periferia identifiquem o que de fato amea\u00e7a o bem-estar dos seus povos, e n\u00e3o apenas seus Estados. Na Am\u00e9rica Latina, o narcotr\u00e1fico (e outros crimes transnacionais) \u00e9 apresentado como a maior amea\u00e7a ao bem-estar dos povos. No globo em geral, esse lugar cabe ao terrorismo. Al\u00e9m disso, seguem no imagin\u00e1rio amea\u00e7as tradicionais, mas pouco realistas, como a fragmenta\u00e7\u00e3o territorial, que justifica a manuten\u00e7\u00e3o de organismos militares em regi\u00f5es de fronteira.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso identificar com o povo aquilo que ele entende enquanto amea\u00e7a. Constataremos que muitas quest\u00f5es, como falta de sa\u00fade, alimenta\u00e7\u00e3o ou mesmo seguran\u00e7a, n\u00e3o tem nas armas uma resolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Como se defende?<\/strong><\/p>\n<p><strong>1. Autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos.<\/strong>\u00a0Construir um mundo de paz n\u00e3o significa aus\u00eancia de conflitos, mas que estes deixem de ser mediados por meio do uso (ou amea\u00e7a de uso) da for\u00e7a. Mesmo sabendo que um mundo de paz \u00e9 imposs\u00edvel enquanto o imperialismo \u2013 entendido como a forma atual do capitalismo \u2013 perdurar, a paz entre os povos deve ser constru\u00edda desde j\u00e1. A autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos \u00e9 ponto crucial, pois \u00e9 ela que confere aos povos o direito de autogoverno e de decidir livremente sobre a sua situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica num mundo que \u00e9 hierarquizado. No caso dos pa\u00edses de passado colonial, ela \u00e9 particularmente relevante, pois em nome de uma na\u00e7\u00e3o abstrata alimentada pela elite interna dependente, a decis\u00e3o popular \u00e9 deixada em segundo plano. A autodetermina\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser negociada inclusive em situa\u00e7\u00f5es que, hipoteticamente, ameacem os direitos humanos, como \u00e9 alegado no caso da Venezuela. Situa\u00e7\u00f5es de alto risco humanit\u00e1rio s\u00e3o causadas pelo capitalismo e imposs\u00edveis de serem resolvidas pela via militar que, ao contr\u00e1rio, as agrava. Isso se escancara em momentos de guerra, como vemos no tratamento diferenciado e racista que refugiados da Ucr\u00e2nia recebem diante de v\u00e1rios povos africanos ou mul\u00e7umanos na Europa.<\/p>\n<p><strong>2. Multilateralismo.<\/strong>\u00a0Os princ\u00edpios inscritos na carta de 1945 da ONU seguem importantes. Entretanto, a organiza\u00e7\u00e3o em si se mostra cada vez mais d\u00e9bil para cumprir as fun\u00e7\u00f5es a ela inicialmente atribu\u00eddas, e funcionais aos interesses hegem\u00f4nicos. Na Ucr\u00e2nia, a ONU se manifestou favoravelmente \u00e0 OTAN e se inviabilizou enquanto inst\u00e2ncia de di\u00e1logo para a resolu\u00e7\u00e3o deste conflito. Quais as implica\u00e7\u00f5es program\u00e1ticas dessa avalia\u00e7\u00e3o sobre a ONU? Segue pertinente a reivindica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica brasileira de reorganiza\u00e7\u00e3o dos mecanismos internacionais. O multilateralismo deve buscar quebrar os monop\u00f3lios em cinco \u00e1reas, como ensina o professor Samir Amin: ci\u00eancia e tecnologia, finan\u00e7as, controle sobre recursos naturais, armas e comunica\u00e7\u00f5es. Segue pertinente a necessidade de aderirmos \u00e0quelas alian\u00e7as que oferecem boas perspectivas para mudan\u00e7as globais, como os BRICS; e segue fundamental nos engajarmos na constru\u00e7\u00e3o de mecanismos na Am\u00e9rica do Sul, como a Unasul. Mas essas iniciativas encontrar\u00e3o um cen\u00e1rio mais dif\u00edcil p\u00f3s-guerra na Ucr\u00e2nia e pandemia, que fortalecem sentimentos chauvinistas nos Estados e uma busca continuada por autossufici\u00eancia em todos os campos. O surgimento de novas variantes do v\u00edrus no mundo serve de li\u00e7\u00e3o: problemas globais precisam de solu\u00e7\u00f5es globais. Nos mecanismos multilaterais, deve-se priorizar a circula\u00e7\u00e3o de pessoas ou de possibilidades de melhorias na vida dessas pessoas, e n\u00e3o de mercadorias. Por outro lado, a crise da ONU deve suscitar outras reflex\u00f5es. Vale mesmo a pena se engajar em miss\u00f5es como a Minustah, no Haiti, em troca de um assento permanente no Conselho de Seguran\u00e7a da ONU? Faz sentido lutar por um banquinho numa ordem global que implode e que n\u00f3s mesmos queremos implodir? Por que as organiza\u00e7\u00f5es progressistas do mundo inteiro n\u00e3o pedem o fim da OTAN, uma alian\u00e7a militar ofensiva? Mais do que reformular o que j\u00e1 existe, \u00e9 preciso forjar institui\u00e7\u00f5es que expressem os interesses dos povos (e tamb\u00e9m dos Estados) perif\u00e9ricos.<\/p>\n<p><strong>3. Desmilitarizar a pol\u00edtica de defesa e de seguran\u00e7a p\u00fablica.<\/strong>\u00a0Interna e externamente, \u00e9 preciso desmilitarizar! O espa\u00e7o e a Ant\u00e1rtida devem ser mantidos livres de armas. \u00c9 fundamental limitar gastos com armas (sim, ainda mais em tempos de guerra!) e construir ou fortalecer mecanismos para a erradica\u00e7\u00e3o de armas qu\u00edmicas, biol\u00f3gicas e nucleares, incentivando a\u00e7\u00f5es como a de desminagem. Ter uma bomba nuclear n\u00e3o tornar\u00e1 o Brasil um pa\u00eds mais seguro; pelo contr\u00e1rio, tornaria toda a Am\u00e9rica Latina um continente mais inseguro. O dilema da seguran\u00e7a \u00e9 que quando um pa\u00eds compra armas, seus vizinhos tamb\u00e9m as compram, pois se sentem inseguros quanto \u00e0s inten\u00e7\u00f5es do primeiro. O resultado final s\u00e3o muitos pa\u00edses mais armados em geral, e tamb\u00e9m muito mais inseguros. Quebrar o dilema da seguran\u00e7a implica em, diante da escolha de investir recursos em armas ou em medidas que melhorem a vida do povo, como \u00e1gua e educa\u00e7\u00e3o, escolher o segundo, inclusive estrategicamente. Voltaremos a esse ponto. Desmilitarizar implica em muito mais que tirar os 8 mil militares do Executivo. \u00c9 preciso desmilitarizar todo o Estado, e principalmente a sociedade. Isso n\u00e3o significa deixar de ter um sistema de defesa ou desarmar o pa\u00eds. Implica em pensar a pol\u00edtica de defesa de um pa\u00eds de periferia de maneira desmilitarizada, voltada para a constru\u00e7\u00e3o da paz e com forte componente civil.<\/p>\n<p><strong>4. Construir o controle popular sobre os instrumentos de viol\u00eancia.<\/strong> O Brasil n\u00e3o \u00e9 parte ativa de nenhum conflito internacional (embora Bolsonaro tenha tentado bastante) e desenhou suas fronteiras com poucas guerras. S\u00f3 que essa paz em n\u00edvel internacional convive com um pa\u00eds recordista em viol\u00eancia interna. Para o destinat\u00e1rio central da bala (o corpo negro jovem, masculino e morador da periferia das grandes cidades) n\u00e3o faz muita diferen\u00e7a quem deu o tiro. Por isso, n\u00e3o \u00e9 suficiente falar em controle civil sobre as for\u00e7as armadas (FFAA), mesmo nas suas concep\u00e7\u00f5es mais avan\u00e7adas, que tratam do controle tamb\u00e9m sobre o que ocorre dentro dos quart\u00e9is. Ter um ministro civil \u00e0 frente do Minist\u00e9rio da Defesa \u00e9 o m\u00ednimo, assim como um corpo burocr\u00e1tico civil educado para a democratiza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de defesa; e n\u00e3o nos esque\u00e7amos de que as pol\u00edcias militares est\u00e3o hierarquicamente subordinadas \u00e0s FFAA. O controle popular diz respeito \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de mecanismos de participa\u00e7\u00e3o popular sobre a pol\u00edtica p\u00fablica, algo fundamental em democracias. E o controle deve ocorrer sobre os instrumentos de viol\u00eancia: armas (produ\u00e7\u00e3o, circula\u00e7\u00e3o e venda) e institui\u00e7\u00f5es (FFAA, pol\u00edcias, etc).<\/p>\n<p><strong>5. Separar rigorosamente defesa e seguran\u00e7a.<\/strong>\u00a0Se na ponta da bala a percep\u00e7\u00e3o institucional \u00e9 a mesma, a formula\u00e7\u00e3o e a gest\u00e3o das duas \u00e1reas precisam ser rigorosamente distintas. A seguran\u00e7a p\u00fablica que, ao menos em teoria, deveria proteger a vida antes da propriedade, lida no pior dos casos com cidad\u00e3os em conflito com a lei. Nesses casos, cabe a pris\u00e3o e julgamento pelas leis nacionais. A defesa nacional lida com o potencial inimigo externo, cujo destino \u00e9, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a elimina\u00e7\u00e3o. Policializar as for\u00e7as armadas e militarizar as pol\u00edcias \u00e9 a proposta dos EUA para a Am\u00e9rica Latina e a pr\u00e1tica corrente no Brasil desde sempre, quando o inimigo principal era (e continua sendo) identificado dentro das fronteiras nacionais. Assim, \u00e9 preciso separar e diferenciar a seguran\u00e7a cidad\u00e3 da defesa nacional, inclusive nos documentos orientadores nacionais, a come\u00e7ar pela Constitui\u00e7\u00e3o, que permite o emprego interno, brecha utilizada para a instaura\u00e7\u00e3o de opera\u00e7\u00f5es de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) e outros tipos de amea\u00e7as pol\u00edticas dom\u00e9sticas. \u00c9 tamb\u00e9m necess\u00e1ria uma revis\u00e3o na \u00e1rea de seguran\u00e7a p\u00fablica, que torne as pol\u00edcias cada vez mais cidad\u00e3s e menos militares, o que ser\u00e1 objeto para outro texto.<\/p>\n<p><strong>6. Rever a concep\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica brasileira.<\/strong>\u00a0Ter as FFAA voltadas para o enfrentamento de um inimigo externo costuma levar imediatamente a duas reflex\u00f5es: 1) o Brasil \u00e9 fr\u00e1gil militarmente; 2) precisamos gastar mais dinheiro com armas e homens. \u00c9 preciso questionar esse racioc\u00ednio. O Brasil \u00e9 dependente em termos de formula\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, pois copiou a resposta estadunidense \u00e0 pergunta \u2018como se defender\u2019. A resposta: com muitas armas de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o. Essa receita n\u00e3o \u00e9 \u00fatil para pa\u00edses de periferia, com tantas urg\u00eancias demandando gastos p\u00fablicos. \u00c9 preciso investir numa estrat\u00e9gia de defesa cuja principal base seja a pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o o investimento intensivo de capitais (tecnologia militar de ponta). Quem defende um pa\u00eds \u00e9 o seu povo. Apenas eventualmente as FFAA. O povo s\u00f3 defende aquilo que entende como seu, aquilo que acredita que lhe faz bem. Da\u00ed que construir um Brasil justo, que educar o povo, que construir a reforma agr\u00e1ria, urbana, s\u00e3o medidas que fortalecem a defesa nacional, pois aumentam a coes\u00e3o social, a perten\u00e7a e o engajamento do povo brasileiro na defesa do seu pr\u00f3prio territ\u00f3rio.<\/p>\n<p><strong>7. Rediscutir o or\u00e7amento e reorientar os gastos de defesa.<\/strong>\u00a0Os dois terremos em que a guerra vem ocorrendo s\u00e3o a economia (san\u00e7\u00f5es) e comunica\u00e7\u00f5es. Em ambos, os mais atingidos s\u00e3o civis. Rediscutir o or\u00e7amento permite redirecionar gastos militares para diminuir outras vulnerabilidades nacionais. Permite tamb\u00e9m redirecionar gastos em \u00e1reas como assist\u00eancia social ou esportes, atualmente executados por militares, para as suas pastas de origem. Por sua vez, a revis\u00e3o estrat\u00e9gica possibilita a reorienta\u00e7\u00e3o dos gastos de fato em defesa. Por exemplo, a redu\u00e7\u00e3o do efetivo permanente libera uma parcela maior para investimentos em equipamentos. Uma vez que o objeto principal a ser defendido no Brasil \u00e9 a vontade do povo, \u00e9 isso que deve determinar as prioridades para a base industrial de defesa: \u00e1reas aeroespacial e cibern\u00e9tica, ambas voltadas para as comunica\u00e7\u00f5es. Em geral, as discuss\u00f5es ficam restritas ao como produzir armamentos, tendo seu auge na decis\u00e3o sobre como fazer compras com transfer\u00eancia de tecnologia e produzir materiais de uso dual \u2013 civil e militar. \u00c9 preciso rediscutir o que produzir em primeiro lugar. Paralelamente, \u00e9 preciso interromper as compras de equipamentos que, ao inv\u00e9s de aumentar nossa autonomia, transferem recursos do povo para os potenciais advers\u00e1rios, notadamente os EUA, al\u00e9m de incrementarem nossa depend\u00eancia e endividamento externo. Os pa\u00edses hegem\u00f4nicos apenas no discurso transferem tecnologia. Na pr\u00e1tica, transferem para os pa\u00edses perif\u00e9ricos sucata e vendem a assist\u00eancia t\u00e9cnica para manter a pr\u00f3pria sucata em funcionamento. Por fim, \u00e9 preciso enfrentar o lobby das empresas de armamentos, nas quais militares da reserva s\u00e3o beneficiados pela porta girat\u00f3ria FFAA \u2013 empresa \u2013 governo.<\/p>\n<p><strong>Quem defende?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Rediscutir para que servem as FFAA.<\/strong>\u00a0No Brasil, militares s\u00e3o empregados basicamente em atividades de ordem interna (que por si s\u00f3 j\u00e1 \u00e9 injusta) e na defesa de fronteiras contra delitos transnacionais. Vivem numa situa\u00e7\u00e3o oportunista orientada pela estrat\u00e9gia de aferirem maiores ganhos para si mesmos e variando entre serem pol\u00edticos, policiais, militares, gestores, assistentes sociais. Sua percep\u00e7\u00e3o positiva pelo povo brasileiro n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o com as atividades de defesa, mas com as atribui\u00e7\u00f5es subsidi\u00e1rias que elas cumprem utilizando recursos desviados de outras ag\u00eancias civis respons\u00e1veis pelas atividades a serem desempenhadas. As FFAA devem ser empregadas nas atividades de defesa nacional e, ocasionalmente, em outras, como desastres. \u00c9 preciso profissionalizar e modernizar as FFAA, repensando contingente, distribui\u00e7\u00e3o do efetivo, recrutamento universal, interoperabilidade, em fun\u00e7\u00e3o da discuss\u00e3o do que se defende e como se defende.<\/p>\n<p><strong>Romper com a autonomia militar.<\/strong>\u00a0A tutela militar \u00e9 um componente geral da pol\u00edtica brasileira, sendo o per\u00edodo Bolsonaro uma express\u00e3o mais aguda disso. Para romper de fato com a autonomia, \u00e9 preciso acabar com as tr\u00eas \u00e1reas de reserva de dom\u00ednio que a institui\u00e7\u00e3o manteve mesmo com a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988: educa\u00e7\u00e3o, justi\u00e7a e intelig\u00eancia. Esse legado \u00e9 mais danoso do que a puni\u00e7\u00e3o individual a torturadores da ditadura militar. Aqui, cabem medidas como a revis\u00e3o do Artigo 142, acabar com a porta girat\u00f3ria legislativo \u2013 FFAA, reestruturar o Minist\u00e9rio da Defesa, impor medidas de respeito \u00e0 diversidade social e cultural brasileira (mulheres, quest\u00e3o racial, LGBTs), etc.<\/p>\n<p><strong>Como levar a cabo tudo isso?<\/strong><\/p>\n<p>A tarefa n\u00famero um de todos os lutadores e lutadoras do povo nesse momento \u00e9 a elei\u00e7\u00e3o de Lula. Por\u00e9m, \u00e9 preciso aproveitar o processo eleitoral para discutir a quest\u00e3o militar e da defesa dentro da esquerda, contribuindo para dar fim ao medo ou ao idealismo que envolvem o tema.<\/p>\n<p>Para isso, precisa romper com o elitismo, construindo for\u00e7a social. FFAA gozam de alto prest\u00edgio e n\u00e3o ter\u00e3o a iniciativa para nenhuma das mudan\u00e7as aqui sugeridas; pelo contr\u00e1rio, impor\u00e3o forte resist\u00eancia e, por isso, mudan\u00e7as precisam ser constru\u00eddas de fora para dentro. As discuss\u00f5es das rela\u00e7\u00f5es internacionais s\u00e3o elitistas, tanto a condu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica externa quanto a pol\u00edtica de defesa. S\u00e3o comuns coment\u00e1rios como o \u201cpovo n\u00e3o sabe,\u201d \u201cn\u00e3o tem vis\u00e3o de longo prazo\u201d, \u201cn\u00e3o tem interesse\u201d. Da\u00ed a esquerda alimentar dois tipos de expectativas: temos que acabar com as FFAA, pois ela \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o que maneja a viol\u00eancia fora do controle popular; ou seu inverso: na aus\u00eancia de for\u00e7a de sustenta\u00e7\u00e3o social, buscar um seguro militar, procurando \u201cum general para chamar de seu\u201d. Sem for\u00e7a social, \u00e9 irreal pensar a revers\u00e3o de processos como a entrega da Base de Alc\u00e2ntara. \u00c9 necess\u00e1rio trazer os princ\u00edpios da democracia e da participa\u00e7\u00e3o popular para a gest\u00e3o tamb\u00e9m das rela\u00e7\u00f5es internacionais do Estado, fazendo com que o \u201cbra\u00e7o forte e a m\u00e3o amiga\u201d n\u00e3o caminhem de forma paralela, mas sim subordinada a um projeto popular de pa\u00eds. Para isso, s\u00e3o necess\u00e1rias medidas concretas como: cria\u00e7\u00e3o de conselhos, realiza\u00e7\u00e3o de confer\u00eancias, discuss\u00e3o coletiva dos documentos orientadores de defesa nacional, pr\u00e1tica permanente da educa\u00e7\u00e3o popular em defesa, traduzindo esses temas para o cotidiano das pessoas.<\/p>\n<p>A tarefa do momento \u00e9 organizar a esperan\u00e7a, construindo for\u00e7a para alterar a corrente das mar\u00e9s.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: \u00c9 tempo de esperan\u00e7ar: debate sobre uma pol\u00edtica de defesa nacional &#8211; https:\/\/thetricontinental.org\/pt-pt\/brasil\/e-tempo-de-esperancar-debate-sobre-uma-politica-de-defesa-nacional\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Observat\u00f3rio da Defesa e Soberania &#8211; O Brasil \u00e9 um pa\u00eds baleia. Pa\u00edses baleia s\u00e3o aqueles que re\u00fanem grandes popula\u00e7\u00f5es em uma longa extens\u00e3o territorial. 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