{"id":18318,"date":"2022-09-24T12:29:41","date_gmt":"2022-09-24T15:29:41","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18318"},"modified":"2022-09-18T18:32:33","modified_gmt":"2022-09-18T21:32:33","slug":"o-colapso-da-civilizacao-moderna-e-o-futuro-da-humanidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/09\/24\/o-colapso-da-civilizacao-moderna-e-o-futuro-da-humanidade\/","title":{"rendered":"O colapso da civiliza\u00e7\u00e3o moderna e o futuro da humanidade"},"content":{"rendered":"<p><strong>Michael Hudson<\/strong> &#8211; O maior desafio enfrentado pelas sociedades sempre foi como conduzir o com\u00e9rcio e o cr\u00e9dito sem permitir que comerciantes e credores ganhem dinheiro explorando seus clientes e devedores. Toda a Antiguidade reconhecia que o impulso para adquirir dinheiro \u00e9 compulsivo e tende a ser explorador e, portanto, socialmente prejudicial. Os valores morais da maioria das sociedades opunham-se ao ego\u00edsmo, sobretudo na forma de avareza e v\u00edcio em riqueza, que os gregos chamavam de philarguria \u2013 amor ao dinheiro, obsess\u00e3o pela prata. Indiv\u00edduos e fam\u00edlias que se entregavam ao consumo exagerado tendiam ao ostracismo, porque se reconhecia que a riqueza muitas vezes era obtida \u00e0 custa de outros, especialmente os fracos.<\/p>\n<p>O conceito grego de \u201chybris\u201d envolvia o comportamento ego\u00edsta causador de dano aos outros. A avareza e a gan\u00e2ncia seriam punidas pela deusa da justi\u00e7a Nemesis, que tinha muitos antecedentes do Oriente Pr\u00f3ximo, como Nanshe de Lagash na Sum\u00e9ria, protegendo os fracos contra os poderosos, os devedores contra os credores.<\/p>\n<p>Essa prote\u00e7\u00e3o \u00e9 o que os governantes deveriam prover, ao servir aos deuses. \u00c9 por isso que os governantes estavam imbu\u00eddos de poder suficiente para evitar que as popula\u00e7\u00f5es fossem reduzidas \u00e0 depend\u00eancia e subordina\u00e7\u00e3o \u00e0s d\u00edvidas. Chefes, reis e templos estavam encarregados de oferecer cr\u00e9dito e terras agr\u00edcolas aos pequenos propriet\u00e1rios em troca de servi\u00e7o militar e trabalho gratuito. Os governantes que se comportassem de forma ego\u00edsta estavam sujeitos a serem destitu\u00eddos, seus s\u00faditos poderiam fugir, ou apoiar l\u00edderes rebeldes ou invasores estrangeiros que prometessem cancelar d\u00edvidas e redistribuir terras de forma mais equitativa.<\/p>\n<p>A fun\u00e7\u00e3o mais b\u00e1sica da realeza do Oriente M\u00e9dio era proclamar a \u201cordem econ\u00f4mica\u201d e o cancelamento de d\u00edvidas, expresso por exemplo no Ano do Jubileu do Juda\u00edsmo. N\u00e3o havia \u201cdemocracia\u201d no sentido de os cidad\u00e3os elegerem seus l\u00edderes e administradores, mas a \u201crealeza divina\u201d era obrigada a alcan\u00e7ar o objetivo econ\u00f4mico impl\u00edcito da democracia: \u201cproteger os fracos dos poderosos\u201d.<\/p>\n<p>O poder real era apoiado por templos e sistemas \u00e9ticos ou religiosos. As principais religi\u00f5es que surgiram em meados do primeiro mil\u00eanio antes de Cristo, como as de Buda, Lao-Tzu e Zoroastro, sustentavam que os impulsos pessoais deveriam estar subordinados \u00e0 promo\u00e7\u00e3o do bem-estar geral e da ajuda m\u00fatua.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o parecia prov\u00e1vel h\u00e1 2.500 anos era que uma aristocracia de senhores da guerra conquistaria o mundo ocidental. Ao criar o que se tornou o Imp\u00e9rio Romano, uma oligarquia assumiu o controle da terra e, mais adiante, do sistema pol\u00edtico. Aboliu a autoridade real ou c\u00edvica, transferiu a carga fiscal para as classes mais baixas e endividou a popula\u00e7\u00e3o e os neg\u00f3cios.<\/p>\n<p>Isso foi feito em uma base puramente oportunista. N\u00e3o houve nenhuma tentativa de defender ideologicamente o processo. N\u00e3o havia ind\u00edcios de um Milton Friedman arcaico emergindo para popularizar uma nova ordem moral radical celebrando a avareza, alegando que a gan\u00e2ncia \u00e9 o que impulsiona as economias, convencendo a sociedade a deixar a distribui\u00e7\u00e3o de terra e dinheiro para \u201co mercado\u201d controlado por corpora\u00e7\u00f5es e agiotas em vez de regulamenta\u00e7\u00e3o comunalista por governantes e templos palacianos \u2013 ou, por extens\u00e3o contempor\u00e2nea, o socialismo. Pal\u00e1cios, templos e governos civis eram credores. Eles n\u00e3o eram for\u00e7ados a tomar empr\u00e9stimos para funcionar e, portanto, n\u00e3o eram submetidos \u00e0s demandas pol\u00edticas de uma classe de credores.<\/p>\n<p>Mas colocar a popula\u00e7\u00e3o, os neg\u00f3cios e at\u00e9 os governos em d\u00edvida com uma elite olig\u00e1rquica \u00e9 precisamente o que ocorreu no Ocidente, que agora est\u00e1 tentando impor a variante moderna desse regime econ\u00f4mico baseado na d\u00edvida \u2013 o capitalismo financeiro neoliberal centrado nos EUA \u2013 ao mundo inteiro. \u00c9 disso que trata a Nova Guerra Fria de hoje.<\/p>\n<p>Pela moralidade tradicional das primeiras sociedades, o Ocidente \u2013 a come\u00e7ar na Gr\u00e9cia cl\u00e1ssica e na It\u00e1lia por volta do s\u00e9culo VIII a.C. \u2013 era b\u00e1rbaro. O Ocidente estava de fato na periferia do mundo antigo quando comerciantes s\u00edrios e fen\u00edcios trouxeram a ideia de d\u00edvidas com juros do Oriente Pr\u00f3ximo para sociedades que n\u00e3o tinham tradi\u00e7\u00e3o real de cancelamentos peri\u00f3dicos de d\u00edvidas. A aus\u00eancia de um forte poder palaciano e da administra\u00e7\u00e3o do poder permitiu o surgimento de oligarquias credoras em todo o mundo mediterr\u00e2neo.<\/p>\n<p>A Gr\u00e9cia acabou sendo conquistada primeiro pela olig\u00e1rquica Esparta, depois pela Maced\u00f4nia e finalmente por Roma. \u00c9 o avarento sistema legal pr\u00f3-credor desta \u00faltima que moldou a civiliza\u00e7\u00e3o ocidental subsequente. Hoje, um sistema financeirizado de controle olig\u00e1rquico cujas ra\u00edzes remontam a Roma est\u00e1 sendo apoiado e, de fato, imposto pela diplomacia da Nova Guerra Fria dos EUA, for\u00e7a militar e san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas aos pa\u00edses que buscam resistir.<\/p>\n<p><strong>O assalto olig\u00e1rquico da antiguidade cl\u00e1ssica<\/strong><\/p>\n<p>Para entender como a civiliza\u00e7\u00e3o ocidental se desenvolveu de forma que continha as sementes fatais de sua pr\u00f3pria desigualdade econ\u00f4mica, decl\u00ednio e queda, \u00e9 necess\u00e1rio reconhecer que, quando a Gr\u00e9cia e Roma cl\u00e1ssicas aparecem no registro hist\u00f3rico, uma idade das trevas havia interrompido a vida econ\u00f4mica, do Oriente M\u00e9dio ao Mediterr\u00e2neo oriental, de 1200 a cerca de 750 a.C. Uma mudan\u00e7a clim\u00e1tica aparentemente causou um despovoamento severo, acabando com as economias da Era Mic\u00eanica, e a vida voltou \u00e0 dimens\u00e3o local durante esse per\u00edodo.<\/p>\n<p>Algumas fam\u00edlias criaram autocracias semelhantes \u00e0 m\u00e1fia, monopolizando a terra e vinculando o trabalho a ela por v\u00e1rias formas de clientela coercitiva e d\u00edvida. Acima de tudo estava o problema da d\u00edvida com juros, que os comerciantes do Oriente Pr\u00f3ximo trouxeram para as terras do Egeu e do Mediterr\u00e2neo \u2013 sem os cancelamentos de d\u00edvidas correspondentes.<\/p>\n<p>Desta situa\u00e7\u00e3o surgiram os \u201ctiranos\u201d reformadores gregos nos s\u00e9culos VII e VI a.C. de Esparta a Corinto, Atenas e as ilhas gregas. A dinastia de Cypselus em Corinto e novos l\u00edderes semelhantes em outras cidades teriam cancelado as d\u00edvidas que mantinham os devedores em servid\u00e3o na terra, redistribu\u00eddo os lotes para os cidad\u00e3os e realizado gastos de infraestrutura p\u00fablica para construir o com\u00e9rcio, abrindo caminho para o desenvolvimento da cidadania e para os rudimentos da democracia. Esparta promulgou as reformas de Licurgo contra o consumo consp\u00edcuo e o luxo. A poesia de Arqu\u00edloco na ilha de Paros e S\u00f3lon de Atenas denunciavam o desejo de riqueza pessoal como viciante, levando \u00e0 arrog\u00e2ncia e ferindo os outros \u2013 o que seria punido por N\u00eamesis, deusa da justi\u00e7a. Havia \u00e9ticas semelhantes nas civiliza\u00e7\u00f5es babil\u00f4nica, judaico e de outras religi\u00f5es.<\/p>\n<p>Roma teve sete reis lend\u00e1rios (753-509 a.C.), que teriam atra\u00eddo imigrantes e impedido uma oligarquia de explor\u00e1-los. Mas as fam\u00edlias ricas derrubaram o \u00faltimo rei. N\u00e3o havia nenhum l\u00edder religioso para verificar seu poder, pois as principais fam\u00edlias aristocr\u00e1ticas controlavam o sacerd\u00f3cio. N\u00e3o havia l\u00edderes que combinassem a reforma econ\u00f4mica dom\u00e9stica com uma escola religiosa, e n\u00e3o havia tradi\u00e7\u00e3o ocidental de cancelamento de d\u00edvidas, como Jesus defenderia ao tentar restaurar o Ano do Jubileu \u00e0 pr\u00e1tica judaica. Havia muitos fil\u00f3sofos estoicos, e locais religiosos anficti\u00f4nicos como Delfos e Delos, que expressavam uma religi\u00e3o de moralidade pessoal para evitar a arrog\u00e2ncia, ou hubris.<\/p>\n<p>Os aristocratas de Roma criaram uma Constitui\u00e7\u00e3o e um Senado antidemocr\u00e1ticos, e leis que tornaram a servid\u00e3o por d\u00edvida \u2013 e a consequente perda de terras \u2013 irrevers\u00edvel. Embora a \u00e9tica \u201cpoliticamente correta\u201d fosse evitar o com\u00e9rcio e o empr\u00e9stimo de dinheiro, ela n\u00e3o impediu que uma oligarquia surgisse para tomar a terra e reduzir grande parte da popula\u00e7\u00e3o \u00e0 escravid\u00e3o. Por volta do s\u00e9culo II a.C. Roma havia conquistado toda a regi\u00e3o do Mediterr\u00e2neo e da \u00c1sia Menor, e as maiores corpora\u00e7\u00f5es eram os publicanos cobradores de impostos, que teriam saqueado as prov\u00edncias de Roma.<\/p>\n<p>Sempre houve maneiras para os ricos agirem de forma hip\u00f3crita em harmonia com a \u00e9tica altru\u00edsta, evitando a gan\u00e2ncia comercial enquanto se enriquecem. Os ricos da antiguidade ocidental foram capazes de chegar a um acordo com essa \u00e9tica evitando empr\u00e9stimos diretos e com\u00e9rcio, atribuindo esse \u201ctrabalho sujo\u201d a seus escravos ou aos homens livres, e gastando a receita de tais atividades em filantropia (que se tornou um espet\u00e1culo esperado em campanhas eleitorais de Roma). E depois que o cristianismo se tornou a religi\u00e3o romana no s\u00e9culo IV d.C., o dinheiro foi capaz de comprar a absolvi\u00e7\u00e3o por meio de doa\u00e7\u00f5es generosas \u00e0 Igreja.<\/p>\n<p><strong>O legado de Roma e o imperialismo financeiro do Ocidente<\/strong><\/p>\n<p>O que distingue as economias ocidentais das sociedades anteriores do Oriente M\u00e9dio e da maior parte da \u00c1sia \u00e9 a aus\u00eancia de perd\u00e3o da d\u00edvida para restaurar o equil\u00edbrio de toda a economia. Todas as na\u00e7\u00f5es ocidentais herdaram de Roma a \u201csantidade\u201d pr\u00f3-credor dos princ\u00edpios da d\u00edvida que priorizam as exig\u00eancias dos credores e legitimam a transfer\u00eancia permanente, aos credores, das propriedades dos devedores inadimplentes. Da Roma antiga \u00e0 Espanha dos Habsburgos, \u00e0 Gr\u00e3-Bretanha imperial e aos Estados Unidos, as oligarquias ocidentais apropriaram-se da renda e da terra dos devedores, enquanto transferiam os impostos para o trabalho e ao neg\u00f3cios. Isso causou \u201causteridade\u201d dom\u00e9stica e levou as oligarquias a buscar a prosperidade por meio da conquista externa, para obter dos estrangeiros o que n\u00e3o era produzido pelas economias dom\u00e9sticas endividadas e sujeitas a princ\u00edpios legais sempre a favor dos credores.<\/p>\n<p>A Espanha do s\u00e9culo XVI saqueou grandes carregamentos de prata e ouro do Novo Mundo, mas essa riqueza n\u00e3o parou em suas m\u00e3os, dissipada na guerra em vez de ser investida na economia dom\u00e9stica. Deixados com uma economia fortemente desigual e polarizada, al\u00e9m profundamente endividada, os Habsburgos perderam sua antiga possess\u00e3o, a Rep\u00fablica Holandesa, que prosperou como uma sociedade menos olig\u00e1rquica e com mais poder como credora do que como devedora.<\/p>\n<p>A Gr\u00e3-Bretanha seguiu uma ascens\u00e3o e queda semelhantes. A I Guerra Mundial deixou-a com pesadas d\u00edvidas b\u00e9licas devidas \u00e0 sua pr\u00f3pria ex-col\u00f4nia, os Estados Unidos. Impondo austeridade anti-trabalhista internamente, na tentativa de pagar essas d\u00edvidas, a \u00e1rea de influ\u00eancia da libra esterlina brit\u00e2nica posteriormente tornou-se sat\u00e9lite do d\u00f3lar americano sob os termos do Lend-Lease na Segunda Guerra Mundial e do British Loan de 1946. As pol\u00edticas neoliberais de Margaret Thatcher e Tony Blair aumentaram drasticamente o custo de vida ao privatizar e monopolizar a habita\u00e7\u00e3o e a infraestrutura p\u00fablicas, acabando com a antiga competitividade industrial da Gr\u00e3-Bretanha ao elevar o custo de vida e, portanto, os n\u00edveis salariais.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos seguiram uma trajet\u00f3ria semelhante de supera\u00e7\u00e3o imperial \u00e0s custas de sua economia dom\u00e9stica. Seus gastos militares no exterior a partir de 1950 for\u00e7aram a desvincula\u00e7\u00e3o entre o d\u00f3lar e o ouro, em 1971. Essa mudan\u00e7a teve o benef\u00edcio inesperado de inaugurar um \u201cpadr\u00e3o do d\u00f3lar\u201d que permitiu \u00e0 economia dos EUA e sua diplomacia militar obter uma carta branca do resto do mundo, acumulando d\u00edvidas em d\u00f3lares com os bancos centrais de outras na\u00e7\u00f5es sem qualquer restri\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>A coloniza\u00e7\u00e3o financeira da p\u00f3s-Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica nos anos 1990 por meio da \u201cterapia de choque\u201d da privatiza\u00e7\u00e3o, seguida pela admiss\u00e3o da China na Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio em 2001 \u2013 com a expectativa de que este pa\u00eds, como a R\u00fassia de Yeltsin, se tornasse uma col\u00f4nia financeira dos EUA \u2013 levou a economia dos Estados Unidos a se desindustrializar, transferindo o emprego para a \u00c1sia. A tentativa de for\u00e7ar a submiss\u00e3o aos EUA, que inaugurou a atual Nova Guerra Fria levou a R\u00fassia, a China e outros pa\u00edses a romper com o sistema de com\u00e9rcio e investimento dolarizado, deixando os Estados Unidos e os pa\u00edses europeus da OTAN sob o tac\u00e3o da austeridade e aprofundando a desigualdade \u00e0 medida que os \u00edndices de d\u00edvida s\u00e3o crescentexs para indiv\u00edduos, corpora\u00e7\u00f5es e \u00f3rg\u00e3os governamentais.<\/p>\n<p>Faz apenas uma d\u00e9cada que o senador John McCain e o presidente Barack Obama caracterizaram a R\u00fassia como apenas um posto de gasolina com bombas at\u00f4micas. O mesmo poderia ser dito agora dos Estados Unidos, baseando seu poder econ\u00f4mico mundial no controle do com\u00e9rcio de petr\u00f3leo do Ocidente, enquanto seus principais excedentes de exporta\u00e7\u00e3o s\u00e3o colheitas agr\u00edcolas e armas. A combina\u00e7\u00e3o de alavancagem da d\u00edvida financeira e privatiza\u00e7\u00e3o tornou os Estados Unidos uma economia de alto custo, perdendo sua antiga lideran\u00e7a industrial, assim como a Gr\u00e3-Bretanha. Os Estados Unidos est\u00e3o agora tentando viver principalmente de ganhos financeiros (juros, lucros sobre investimentos estrangeiros e cria\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito do banco central para inflacionar ganhos de capital), em vez de criar riqueza por meio de seu pr\u00f3prio trabalho e ind\u00fastria. Seus aliados ocidentais procuram fazer o mesmo. Eles tratam esse sistema dominado pelos EUA como \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d, mas \u00e9 simplesmente uma forma financeira de colonialismo \u2013 apoiada com a habitual amea\u00e7a militar de for\u00e7a e \u201cregime change\u201d encoberta para impedir que os pa\u00edses se retirem do sistema.<\/p>\n<p>Este sistema imperial baseado nos EUA e na OTAN procura endividar os pa\u00edses mais fracos e for\u00e7\u00e1-los a entregar o controle de suas pol\u00edticas ao Fundo Monet\u00e1rio Internacional e ao Banco Mundial. Obedecer ao \u201cconselho\u201d neoliberal antitrabalhista dessas institui\u00e7\u00f5es leva a uma crise da d\u00edvida que for\u00e7a a deprecia\u00e7\u00e3o da taxa de c\u00e2mbio do pa\u00eds devedor. O FMI ent\u00e3o os \u201cresgata\u201d da insolv\u00eancia com a \u201ccondicionalidade\u201d de vender os bens p\u00fablicos e transferir o peso impostos, dos ricos (especialmente investidores estrangeiros) para os trabalhadores.<\/p>\n<p>A oligarquia e a d\u00edvida s\u00e3o as caracter\u00edsticas definidoras das economias ocidentais. Os gastos militares estrangeiros dos Estados Unidos e as guerras quase constantes deixaram seu pr\u00f3prio Tesouro profundamente endividado com governos estrangeiros e seus bancos centrais. Os Estados Unidos est\u00e3o, portanto, seguindo o mesmo caminho pelo qual o imperialismo espanhol deixou a dinastia dos Habsburgos em d\u00edvida com os banqueiros europeus, e a participa\u00e7\u00e3o da Gr\u00e3-Bretanha em duas guerras mundiais na esperan\u00e7a de manter sua posi\u00e7\u00e3o mundial dominante a deixou endividada e acabou com sua antiga vantagem industrial. A crescente d\u00edvida externa dos Estados Unidos tem sido sustentada por seu privil\u00e9gio de \u201cmoeda-chave\u201d de emitir sua pr\u00f3pria d\u00edvida em d\u00f3lar sob o \u201cpadr\u00e3o do d\u00f3lar\u201d sem que outros pa\u00edses tenham qualquer expectativa razo\u00e1vel de serem pagos \u2013 exceto em ainda mais \u201cd\u00f3lares de papel\u201d.<\/p>\n<p>Essa aflu\u00eancia monet\u00e1ria permitiu que a elite gerencial de Wall Street aumentasse as despesas rentistas dos Estados Unidos pela financeiriza\u00e7\u00e3o e privatiza\u00e7\u00e3o, aumentando o custo de vida e dos neg\u00f3cios, como ocorreu na Gr\u00e3-Bretanha sob as pol\u00edticas neoliberais de Margaret Thatcher e Tony Blair. As companhias industriais responderam mudando suas f\u00e1bricas para economias de baixos sal\u00e1rios para maximizar os lucros. Mas \u00e0 medida que a Am\u00e9rica se desindustrializa com a crescente depend\u00eancia de importa\u00e7\u00f5es da \u00c1sia, a diplomacia dos EUA est\u00e1 buscando uma Nova Guerra Fria que est\u00e1 levando as economias mais produtivas do mundo a se desvincularem da \u00f3rbita econ\u00f4mica dos EUA.<\/p>\n<p>O aumento da d\u00edvida destr\u00f3i as economias quando n\u00e3o est\u00e1 sendo usado para financiar novos investimentos de capital em meios de produ\u00e7\u00e3o. A maior parte do cr\u00e9dito ocidental hoje \u00e9 criado para inflar os pre\u00e7os de a\u00e7\u00f5es, t\u00edtulos e im\u00f3veis, n\u00e3o para restaurar a capacidade industrial. Como resultado dessa abordagem de d\u00edvida sem produ\u00e7\u00e3o, a economia dom\u00e9stica dos EUA foi sobrecarregada por d\u00edvidas devidas \u00e0 sua pr\u00f3pria oligarquia financeira. Apesar do \u201calmo\u00e7o gr\u00e1tis\u201d da economia americana na forma de aumento cont\u00ednuo de sua d\u00edvida oficial com bancos centrais estrangeiros \u2013 sem perspectiva vis\u00edvel de pagamento de sua d\u00edvida internacional ou dom\u00e9stica \u2013 sua d\u00edvida continua a se expandir e a economia se tornou ainda mais nivelada no d\u00e9bito. Os EUA polarizaram-se com uma riqueza extrema concentrada no topo, enquanto a maior parte da economia est\u00e1 profundamente endividada.<\/p>\n<p>O fracasso das democracias olig\u00e1rquicas em proteger a popula\u00e7\u00e3o endividada em geral<br \/>\nO que tornou as economias ocidentais olig\u00e1rquicas \u00e9 o fracasso em proteger os cidad\u00e3os de serem levados \u00e0 depend\u00eancia de uma classe credora propriet\u00e1ria de propriedades. Essas economias mantiveram as leis de d\u00edvida baseadas em credores de Roma, principalmente a prioridade das reivindica\u00e7\u00f5es dos credores sobre a propriedade dos devedores. O 1% credor tornou-se uma oligarquia politicamente poderosa, apesar das reformas pol\u00edticas democr\u00e1ticas nominais que expandem os direitos de voto. As ag\u00eancias reguladoras governamentais foram capturadas e o poder tribut\u00e1rio tornou-se regressivo, deixando o controle econ\u00f4mico e o planejamento nas m\u00e3os de uma elite rentista.<\/p>\n<p>Roma nunca foi uma democracia. E de qualquer forma, Arist\u00f3teles reconheceu que as democracias evoluiriam mais ou menos naturalmente para oligarquias \u2013 que afirmam ser democr\u00e1ticas para fins de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas enquanto fingem que sua concentra\u00e7\u00e3o de riqueza cada vez mais forte \u00e9 o melhor. A ret\u00f3rica do trickle-down de hoje retrata os bancos e os gerentes financeiros direcionando a poupan\u00e7a da maneira mais eficiente para produzir prosperidade para toda a economia, n\u00e3o apenas para eles mesmos.<\/p>\n<p>O presidente Biden e seus neoliberais do Departamento de Estado acusam a China e qualquer outro pa\u00eds que busca manter sua independ\u00eancia econ\u00f4mica e autoconfian\u00e7a de serem \u201cautocr\u00e1ticos\u201d. Seu truque ret\u00f3rico justap\u00f5e a democracia \u00e0 autocracia. O que eles chamam de \u201cautocracia\u201d \u00e9 um governo forte o suficiente para evitar que uma oligarquia financeira orientada para o Ocidente endivide a popula\u00e7\u00e3o para si mesma \u2013 para ent\u00e3o arrancar suas terras e outras propriedades para suas pr\u00f3prias m\u00e3os e as de seus patrocinadores americanos e outros estrangeiros.<\/p>\n<p>O duplipensar orwelliano de chamar as oligarquias de \u201cdemocracias\u201d \u00e9 seguido pela defini\u00e7\u00e3o de um mercado livre como aquele que \u00e9 livre para a busca de renda financeira. A diplomacia apoiada pelos EUA tem endividado os pa\u00edses, for\u00e7ando-os a vender o controle de sua infraestrutura p\u00fablica e transformar as \u201calturas de comando\u201d de sua economia em oportunidades para extrair renda de monop\u00f3lio.<\/p>\n<p>Essa ret\u00f3rica da autocracia versus democracia \u00e9 semelhante \u00e0 ret\u00f3rica que as oligarquias gregas e romanas usaram quando acusaram os reformadores democr\u00e1ticos de buscarem \u201ctirania\u201d (na Gr\u00e9cia) ou \u201crealeza\u201d (em Roma). Foram os \u201ctiranos\u201d gregos que derrubaram as autocracias mafiosas nos s\u00e9culos VII e VI a.C., abrindo caminho para as decolagens econ\u00f4micas e protodemocr\u00e1ticas de Esparta, Corinto e Atenas. E foram os reis de Roma que constru\u00edram sua cidade-estado oferecendo aos cidad\u00e3os a posse da terra por conta pr\u00f3pria. Essa pol\u00edtica atraiu imigrantes de cidades-estados italianas vizinhas cujas popula\u00e7\u00f5es estavam sendo for\u00e7adas \u00e0 servid\u00e3o por d\u00edvida.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que as democracias ocidentais n\u00e3o se mostraram h\u00e1beis em impedir o surgimento de oligarquias e a polariza\u00e7\u00e3o da distribui\u00e7\u00e3o de renda e riqueza. Desde Roma, as \u201cdemocracias\u201d olig\u00e1rquicas n\u00e3o protegem seus cidad\u00e3os dos credores que buscam se apropriar da terra, de seu rendimento e do dom\u00ednio p\u00fablico.<\/p>\n<p>Se perguntarmos quem hoje est\u00e1 decretando e aplicando pol\u00edticas que buscam controlar a oligarquia para proteger a subsist\u00eancia dos cidad\u00e3os, a resposta \u00e9 que isso \u00e9 feito por estados socialistas. Somente um Estado forte tem o poder de controlar uma oligarquia financeira e de busca de renda. A embaixada chinesa na Am\u00e9rica demonstrou isso em sua resposta \u00e0 descri\u00e7\u00e3o do presidente Biden da China como uma autocracia:<\/p>\n<p>Apegados \u00e0 mentalidade da Guerra Fria e \u00e0 l\u00f3gica hegem\u00f4nica, os EUA perseguem a pol\u00edtica do bloco, inventam a narrativa \u201cdemocracia versus autoritarismo\u201d [\u2026] e intensificam alian\u00e7as militares bilaterais, em uma clara tentativa de combater a China.<\/p>\n<p>Guiado por uma filosofia centrada no povo, desde o dia em que foi fundado [\u2026] o Partido tem trabalhado incansavelmente pelo interesse do povo, e tem se dedicado a realizar as aspira\u00e7\u00f5es do povo por uma vida melhor. A China vem promovendo a democracia popular em todo o processo, promovendo a salvaguarda legal dos direitos humanos e defendendo a equidade e a justi\u00e7a sociais. O povo chin\u00eas agora desfruta de direitos democr\u00e1ticos mais amplos e abrangentes.<\/p>\n<p>Quase todas as primeiras sociedades n\u00e3o-ocidentais tinham prote\u00e7\u00f5es contra o surgimento de oligarquias mercantis e rentistas. \u00c9 por isso que \u00e9 t\u00e3o importante reconhecer que o que se tornou a civiliza\u00e7\u00e3o ocidental representa uma ruptura com o Oriente Pr\u00f3ximo, Sul e Leste da \u00c1sia. Cada uma dessas regi\u00f5es tinha seu pr\u00f3prio sistema de administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica para salvar seu equil\u00edbrio social da riqueza comercial e monet\u00e1ria que amea\u00e7ava destruir o equil\u00edbrio econ\u00f4mico se n\u00e3o fosse controlada. Mas o car\u00e1ter econ\u00f4mico do Ocidente foi moldado pelas oligarquias rentistas. A Rep\u00fablica de Roma enriqueceu sua oligarquia despojando a riqueza das regi\u00f5es que conquistou, deixando-as empobrecidas. Essa continua sendo a estrat\u00e9gia extrativista do colonialismo europeu subsequente e, mais recentemente, da globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal centrada nos EUA. O objetivo sempre foi o de \u201clibertar\u201d as oligarquias das restri\u00e7\u00f5es ao seu ego\u00edsmo.<\/p>\n<p>A grande quest\u00e3o \u00e9, \u201cliberdade\u201d para quem? A economia pol\u00edtica cl\u00e1ssica definiu um mercado livre como aquele livre de renda n\u00e3o adquirida, encabe\u00e7ado pela renda da terra e outras rendas de recursos naturais, renda de monop\u00f3lio, juros financeiros e privil\u00e9gios de credores relacionados. Mas no final do s\u00e9culo XIX a oligarquia rentista patrocinou uma contrarrevolu\u00e7\u00e3o fiscal e ideol\u00f3gica, redefinindo um mercado livre como livre para os rentistas extra\u00edrem renda econ\u00f4mica \u2013 renda n\u00e3o merecida.<\/p>\n<p>Essa rejei\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica cl\u00e1ssica da renda dos rentistas foi acompanhada pela redefini\u00e7\u00e3o da \u201cdemocracia\u201d para exigir um \u201clivre mercado\u201d de variedade rentista olig\u00e1rquica anticl\u00e1ssica. Em vez de o governo ser o regulador econ\u00f4mico do interesse p\u00fablico, a regula\u00e7\u00e3o p\u00fablica do cr\u00e9dito e dos monop\u00f3lios \u00e9 desmantelada. Isso permite que as empresas cobrem o que quiserem pelo cr\u00e9dito que fornecem e pelos produtos que vendem. Privatizar o privil\u00e9gio de criar dinheiro de cr\u00e9dito permite que o setor financeiro assuma o papel de alocar a titularidade da propriedade.<\/p>\n<p>O resultado foi centralizar o planejamento econ\u00f4mico em Wall Street, na City de Londres, na Bolsa de Paris e em outros centros financeiros imperiais. \u00c9 exatamente disso que se trata na Nova Guerra Fria de hoje: proteger esse sistema de capitalismo financeiro neoliberal centrado nos EUA, destruindo ou isolando os sistemas alternativos da China, da R\u00fassia e de seus aliados, enquanto busca financiar ainda mais o antigo sistema colonialista patrocinando o poder credor em lugar de proteger os devedores, impondo austeridade alicer\u00e7ada na d\u00edvida em vez de crescimento, e tornando irrevers\u00edvel a perda de propriedade por meio de execu\u00e7\u00e3o hipotec\u00e1ria ou venda for\u00e7ada.<\/p>\n<p>A civiliza\u00e7\u00e3o ocidental \u00e9 um longo desvio de onde a Antiguidade parecia estar indo?<br \/>\nO que \u00e9 t\u00e3o importante na polariza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e no colapso de Roma que resultou da din\u00e2mica da d\u00edvida com juros nas m\u00e3os gananciosas de sua classe credora \u00e9 qu\u00e3o radicalmente seu sistema legal pr\u00f3-credor olig\u00e1rquico diferia das leis de sociedades anteriores que controlavam os credores e a prolifera\u00e7\u00e3o de d\u00edvidas. A ascens\u00e3o de uma oligarquia credora que usou sua riqueza para monopolizar a terra e assumir o governo e os tribunais (sem hesitar em usar a for\u00e7a e assassinatos pol\u00edticos contra aspirantes a reformadores) foi impedida por milhares de anos em todo o Oriente Pr\u00f3ximo e outros pa\u00edses das terras asi\u00e1ticas. Mas a periferia do mar Egeu e do Mediterr\u00e2neo carecia dos freios e contrapesos econ\u00f4micos que haviam proporcionado resili\u00eancia em outras partes do Oriente Pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Todas as economias antigas operavam a cr\u00e9dito, acumulando d\u00edvidas rurais durante o ano agr\u00edcola. Guerras, secas ou inunda\u00e7\u00f5es, doen\u00e7as e outras perturba\u00e7\u00f5es muitas vezes impediam o pagamento de d\u00edvidas. Mas os governantes do Oriente Pr\u00f3ximo cancelavam d\u00edvidas sob essas condi\u00e7\u00f5es. Isso evitou que seus cidad\u00e3os-soldados e trabalhadores for\u00e7ados perdessem suas terras de autossustento para os credores, que eram reconhecidos como um poder rival em potencial do pal\u00e1cio. Em meados do primeiro mil\u00eanio a.C., a servid\u00e3o por d\u00edvida havia se reduzido a apenas um fen\u00f4meno marginal na Babil\u00f4nia, P\u00e9rsia e outros reinos do Oriente Pr\u00f3ximo. Mas a Gr\u00e9cia e Roma estavam imersas em um meio-mil\u00eanio de revoltas populares exigindo o cancelamento da d\u00edvida e a liberdade da servid\u00e3o por d\u00edvida e a perda de terras autossustent\u00e1veis.<\/p>\n<p>Foram apenas os reis romanos e os tiranos gregos que, por um tempo, conseguiram proteger seus s\u00faditos da servid\u00e3o por d\u00edvida. Mas eles acabaram perdendo para as oligarquias credoras dos senhores da guerra. A li\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria \u00e9, portanto, que um forte poder regulador do governo \u00e9 necess\u00e1rio para impedir que as oligarquias surjam e usem as reivindica\u00e7\u00f5es dos credores e a apropria\u00e7\u00e3o de terras para transformar os cidad\u00e3os em devedores, locat\u00e1rios, clientes e, finalmente, servos.<\/p>\n<p>A ascens\u00e3o do controle dos credores sobre os governos modernos<br \/>\nPal\u00e1cios e templos em todo o mundo antigo eram credores. Somente no Ocidente surgiu uma classe de credores privados. Um mil\u00eanio ap\u00f3s a queda de Roma, uma nova classe banc\u00e1ria obrigou os reinos medievais a se endividarem. Fam\u00edlias banc\u00e1rias internacionais usaram seu poder de credor para obter o controle de monop\u00f3lios p\u00fablicos e recursos naturais, assim como os credores conquistaram o controle de terras individuais na antiguidade cl\u00e1ssica.<\/p>\n<p>A Primeira Guerra Mundial viu as economias ocidentais atingirem uma crise sem precedentes como resultado de d\u00edvidas entre aliados e das repara\u00e7\u00f5es alem\u00e3s. O com\u00e9rcio entrou em colapso e as economias ocidentais ca\u00edram em depress\u00e3o. O que os resgatou foi a Segunda Guerra Mundial e, desta vez, nenhuma repara\u00e7\u00e3o foi imposta ap\u00f3s o fim da guerra. No lugar das d\u00edvidas de guerra, a Inglaterra simplesmente foi obrigada a abrir sua \u00e1rea monet\u00e1ria aos exportadores norte-americanos e abster-se de reavivar seus mercados industriais desvalorizando a libra esterlina, sob os termos do Lend-Lease e do British Loan de 1946, conforme observado acima.<\/p>\n<p>O Ocidente emergiu da Segunda Guerra Mundial relativamente livre de d\u00edvidas privadas \u2013 e completamente sob o dom\u00ednio dos EUA. Mas desde 1945, o volume da d\u00edvida se expandiu exponencialmente, atingindo propor\u00e7\u00f5es de crise em 2008, quando a bolha das hipotecas de alto risco, a fraude banc\u00e1ria maci\u00e7a e a pir\u00e2mide da d\u00edvida financeira explodiram, sobrecarregando os EUA, bem como as economias da Europa e do Sul Global.<\/p>\n<p>O Federal Reserve dos EUA monetizou US$ 8 trilh\u00f5es para salvar as a\u00e7\u00f5es, t\u00edtulos e hipotecas imobili\u00e1rias da elite financeira, em vez de resgatar as v\u00edtimas do subprime e pa\u00edses estrangeiros superendividados. O Banco Central Europeu fez a mesma coisa para evitar que os europeus mais ricos perdessem o valor de mercado de sua riqueza financeira.<\/p>\n<p>Mas era tarde demais para salvar as economias dos EUA e da Europa. O longo ac\u00famulo de d\u00edvidas p\u00f3s-1945 chegou ao fim. A economia dos EUA foi desindustrializada, sua infraestrutura est\u00e1 entrando em colapso e sua popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o endividada que resta pouca renda dispon\u00edvel para sustentar os padr\u00f5es de vida. Assim como ocorreu com o Imp\u00e9rio de Roma, a resposta americana \u00e9 tentar manter a prosperidade de sua pr\u00f3pria elite financeira explorando pa\u00edses estrangeiros. Esse \u00e9 o objetivo da atual diplomacia da Nova Guerra Fria. Envolve extrair tributo econ\u00f4mico empurrando as economias estrangeiras ainda mais para a d\u00edvida dolarizada, a ser paga impondo depress\u00e3o e austeridade a si mesmas.<\/p>\n<p>Essa subjuga\u00e7\u00e3o \u00e9 descrita pelos economistas tradicionais como uma lei da natureza e, portanto, como uma forma inevit\u00e1vel de equil\u00edbrio, na qual a economia de cada na\u00e7\u00e3o recebe \u201co que vale\u201d. Os modelos econ\u00f4micos dominantes de hoje s\u00e3o baseados na suposi\u00e7\u00e3o irreal de que todas as d\u00edvidas podem ser pagas, sem polarizar renda e riqueza. Todos os problemas econ\u00f4micos s\u00e3o considerados resolvidos pela \u201cmagia do mercado\u201d, sem qualquer necessidade de interven\u00e7\u00e3o da autoridade c\u00edvica. A regulamenta\u00e7\u00e3o governamental \u00e9 considerada ineficiente e ineficaz e, portanto, desnecess\u00e1ria. Isso deixa credores, grileiros e privatizadores com liberdade para privar outros de sua liberdade. Isso \u00e9 descrito como o destino final da globaliza\u00e7\u00e3o de hoje e da pr\u00f3pria hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O fim da hist\u00f3ria? Ou apenas da financeiriza\u00e7\u00e3o e privatiza\u00e7\u00e3o do Ocidente?<br \/>\nA pretens\u00e3o neoliberal \u00e9 que privatizar o dom\u00ednio p\u00fablico e deixar o setor financeiro assumir o planejamento econ\u00f4mico e social nos pa\u00edses-alvo trar\u00e1 prosperidade mutuamente ben\u00e9fica. Isso deveria tornar volunt\u00e1ria a submiss\u00e3o estrangeira \u00e0 ordem mundial centrada nos EUA. Mas o efeito real da pol\u00edtica neoliberal foi polarizar as economias do Sul Global e sujeit\u00e1-las \u00e0 austeridade amarrada \u00e0 d\u00edvida.<\/p>\n<p>O neoliberalismo americano afirma que a privatiza\u00e7\u00e3o, a financeiriza\u00e7\u00e3o e a mudan\u00e7a do planejamento econ\u00f4mico da Am\u00e9rica do governo para Wall Street e outros centros financeiros \u00e9 o resultado de uma vit\u00f3ria darwiniana alcan\u00e7ando tal perfei\u00e7\u00e3o que \u00e9 \u201co fim da hist\u00f3ria\u201d. \u00c9 como se o resto do mundo n\u00e3o tivesse alternativa a n\u00e3o ser aceitar o controle dos EUA do sistema financeiro global (isto \u00e9, neocolonial), do com\u00e9rcio e da organiza\u00e7\u00e3o social. E s\u00f3 para garantir, a diplomacia dos EUA procura respaldar seu controle financeiro e diplom\u00e1tico pela for\u00e7a militar.<\/p>\n<p>A ironia \u00e9 que a pr\u00f3pria diplomacia dos EUA ajudou a acelerar uma resposta internacional ao neoliberalismo, for\u00e7ando governos fortes o suficiente para recuperar a longa tend\u00eancia da hist\u00f3ria que v\u00ea governos capacitados para impedir que din\u00e2micas olig\u00e1rquicas corrosivas descarrilhem o progresso da civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O s\u00e9culo XXI come\u00e7ou com os neoliberais americanos imaginando que sua financeiriza\u00e7\u00e3o e privatiza\u00e7\u00e3o alavancadas pela d\u00edvida coroariam a longa ascens\u00e3o da hist\u00f3ria humana como o legado da Gr\u00e9cia e Roma cl\u00e1ssicas. A vis\u00e3o neoliberal da hist\u00f3ria antiga ecoa a das oligarquias da antiguidade, enxovalhando os reis de Roma e os reformadores-tiranos da Gr\u00e9cia como aqueles que amea\u00e7avam uma interven\u00e7\u00e3o p\u00fablica forte demais quando visavam manter os cidad\u00e3os livres da servid\u00e3o por d\u00edvida e garantir a posse da terra autossustent\u00e1vel. O que \u00e9 visto como o ponto de partida decisivo \u00e9 a \u201cseguran\u00e7a dos contratos\u201d da oligarquia, dando aos credores o direito de expropriar os devedores. Isso, de fato, permaneceu como uma caracter\u00edstica definidora dos sistemas jur\u00eddicos ocidentais nos \u00faltimos 2 mil anos.<\/p>\n<p>Um fim real da hist\u00f3ria significaria que a reforma pararia em todos os pa\u00edses. Esse sonho parecia pr\u00f3ximo quando os neoliberais dos EUA receberam carta branca para remodelar a R\u00fassia e outros estados p\u00f3s-sovi\u00e9ticos depois que a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica se dissolveu em 1991, come\u00e7ando com a terapia de choque privatizando recursos naturais e outros bens p\u00fablicos nas m\u00e3os de cleptocratas ocidentais a registrar a riqueza p\u00fablica em seus pr\u00f3prios nomes \u2013 e monetizando na venda seus ganhos para os EUA e outros investidores ocidentais.<\/p>\n<p>O fim da hist\u00f3ria da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica deveria consolidar o fim da hist\u00f3ria da Am\u00e9rica, mostrando como seria f\u00fatil para as na\u00e7\u00f5es tentarem criar uma ordem econ\u00f4mica alternativa baseada no controle p\u00fablico do dinheiro e dos bancos, sa\u00fade p\u00fablica, educa\u00e7\u00e3o gratuita e outros subs\u00eddios de necessidades b\u00e1sicas, livres de financiamento de d\u00edvidas. A admiss\u00e3o da China na Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio em 2001 foi vista como uma confirma\u00e7\u00e3o da afirma\u00e7\u00e3o de Margaret Thatcher de que \u201cn\u00e3o h\u00e1 alternativa\u201d (There Is No Alternative \u2013 TINA) \u00e0 nova ordem neoliberal patrocinada pela diplomacia dos EUA.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma alternativa econ\u00f4mica, \u00e9 claro. Observando a extens\u00e3o da hist\u00f3ria antiga, podemos ver que o principal objetivo dos antigos governantes da Babil\u00f4nia ao sul e ao leste da \u00c1sia era impedir que uma oligarquia mercantil e credora reduzisse a popula\u00e7\u00e3o em geral \u00e0 clientela, \u00e0 servid\u00e3o por d\u00edvida e \u00e0 escravid\u00e3o. Se o mundo eurasiano n\u00e3o norte-americano agora seguir esse objetivo b\u00e1sico, seria restaurar o fluxo da hist\u00f3ria ao seu curso pr\u00e9-ocidental. Isso n\u00e3o seria o fim da hist\u00f3ria, mas retornaria aos ideais b\u00e1sicos do mundo n\u00e3o-ocidental de equil\u00edbrio econ\u00f4mico, justi\u00e7a e equidade.<\/p>\n<p>Hoje, China, \u00cdndia, Ir\u00e3 e outras economias da Eur\u00e1sia deram o primeiro passo como pr\u00e9-condi\u00e7\u00e3o para um mundo multipolar, rejeitando a insist\u00eancia dos Estados Unidos em faz\u00ea-los aderir \u00e0s suas san\u00e7\u00f5es comerciais e financeiras contra a R\u00fassia. Esses pa\u00edses percebem que, se os Estados Unidos pudessem destruir a economia da R\u00fassia e substituir seu governo por seus \u201cprocuradores\u201d (proxies) semelhantes a Yeltsin, os demais pa\u00edses da Eur\u00e1sia seriam os pr\u00f3ximos da fila.<\/p>\n<p>A \u00fanica maneira poss\u00edvel de a hist\u00f3ria realmente terminar seria os militares americanos destruirem todas as na\u00e7\u00f5es que buscam uma alternativa \u00e0 privatiza\u00e7\u00e3o e financeiriza\u00e7\u00e3o neoliberais. A diplomacia dos EUA insiste que a hist\u00f3ria n\u00e3o deve seguir nenhum caminho que n\u00e3o culmine em seu pr\u00f3prio imp\u00e9rio financeiro sendo governado por oligarquias clientes. Os diplomatas americanos esperam que suas amea\u00e7as militares e apoio a ex\u00e9rcitos por procura\u00e7\u00e3o forcem outros pa\u00edses a se submeterem \u00e0s demandas neoliberais \u2013 para evitar serem bombardeados ou sofrerem \u201crevolu\u00e7\u00f5es coloridas\u201d, assassinatos pol\u00edticos e golpes do ex\u00e9rcito, ao estilo Pinochet. Mas a \u00fanica maneira real de acabar com a hist\u00f3ria \u00e9 pela guerra at\u00f4mica para acabar com a vida humana neste planeta.<\/p>\n<p>A Nova Guerra Fria est\u00e1 dividindo o mundo em dois sistemas econ\u00f4micos contrastantes<br \/>\nA guerra por procura\u00e7\u00e3o da OTAN na Ucr\u00e2nia contra a R\u00fassia \u00e9 o catalisador que divide o mundo em duas esferas opostas com filosofias econ\u00f4micas incompat\u00edveis. A China, o pa\u00eds que cresce mais rapidamente, trata o dinheiro e o cr\u00e9dito como uma utilidade p\u00fablica alocada pelo governo em vez de permitir que o privil\u00e9gio monopolista da cria\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito seja privatizado pelos bancos, levando-os a deslocar o governo como planejador econ\u00f4mico e social. Essa independ\u00eancia monet\u00e1ria, contando com sua pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o de dinheiro dom\u00e9stico em vez de emprestar d\u00f3lares eletr\u00f4nicos dos EUA, e denominando com\u00e9rcio exterior e investimento em sua pr\u00f3pria moeda em vez de d\u00f3lares, \u00e9 vista como uma amea\u00e7a existencial ao controle americano da economia global.<\/p>\n<p>A doutrina neoliberal dos EUA pede que a hist\u00f3ria termine \u201clibertando\u201d as classes ricas de um governo forte o suficiente para impedir a polariza\u00e7\u00e3o da riqueza e o decl\u00ednio e queda final. A imposi\u00e7\u00e3o de san\u00e7\u00f5es comerciais e financeiras contra a R\u00fassia, Ir\u00e3, Venezuela e outros pa\u00edses que resistem \u00e0 diplomacia dos EUA e, finalmente, ao confronto militar, \u00e9 como os Estados Unidos pretendem \u201cespalhar a democracia\u201d pela OTAN na Ucr\u00e2nia at\u00e9 os mares da China.<\/p>\n<p>O Ocidente, em seu avatar neoliberal dos EUA, parece estar repetindo o padr\u00e3o de decl\u00ednio e queda de Roma. Concentrar a riqueza nas m\u00e3os do 1% sempre foi a trajet\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental. \u00c9 o resultado da antiguidade cl\u00e1ssica ter tomado um caminho errado quando Gr\u00e9cia e Roma permitiram o crescimento inexor\u00e1vel da d\u00edvida, levando \u00e0 expropria\u00e7\u00e3o de grande parte dos cidad\u00e3os e reduzindo-a \u00e0 servid\u00e3o a uma oligarquia credora propriet\u00e1ria de terras. Essa \u00e9 a din\u00e2mica embutida no DNA do que \u00e9 chamado de Ocidente e sua \u201cseguran\u00e7a de contratos\u201d sem qualquer supervis\u00e3o governamental do interesse p\u00fablico. Ao eliminar a prosperidade em casa, essa din\u00e2mica exige um esfor\u00e7o constante para extrair uma riqueza econ\u00f4mica (literalmente um \u201cfluxo\u201d) \u00e0s custas de col\u00f4nias ou pa\u00edses devedores.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos, por meio de sua Nova Guerra Fria, pretendem garantir precisamente esse tributo econ\u00f4mico de outros pa\u00edses. O conflito vindouro pode durar talvez 20 anos e determinar\u00e1 que tipo de sistema pol\u00edtico e econ\u00f4mico o mundo ter\u00e1. Em pauta est\u00e1 mais do que apenas a hegemonia dos EUA e seu controle dolarizado das finan\u00e7as internacionais e da cria\u00e7\u00e3o de dinheiro. Politicamente est\u00e1 em quest\u00e3o a ideia de \u201cdemocracia\u201d, que se tornou um eufemismo para uma oligarquia financeira agressiva que busca se impor globalmente pelo controle financeiro, econ\u00f4mico e pol\u00edtico predat\u00f3rio apoiado pela for\u00e7a militar.<\/p>\n<p>Como procurei enfatizar, o controle olig\u00e1rquico do governo tem sido uma importante caracter\u00edstica distintiva da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental desde a antiguidade cl\u00e1ssica. E a chave para esse controle tem sido a oposi\u00e7\u00e3o a um governo forte \u2013 isto \u00e9, um governo civil forte o suficiente para impedir que uma oligarquia credora emerja e monopolize o controle da terra e da riqueza, tornando-se uma aristocracia heredit\u00e1ria, uma classe rentista que vive das rendas da terra, juros e privil\u00e9gios de monop\u00f3lio que reduzem a popula\u00e7\u00e3o em geral \u00e0 austeridade.<\/p>\n<p>A ordem unipolar centrada nos EUA na esperan\u00e7a de \u201cacabar com a hist\u00f3ria\u201d refletiu uma din\u00e2mica econ\u00f4mica e pol\u00edtica b\u00e1sica que tem sido uma caracter\u00edstica da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental desde que a Gr\u00e9cia e Roma cl\u00e1ssicas partiram por um caminho diferente da matriz do Oriente Pr\u00f3ximo no primeiro mil\u00eanio antes de Cristo.<\/p>\n<p>Para evitar ser arrastado para o redemoinho de destrui\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica que agora envolve o Ocidente, os pa\u00edses do n\u00facleo eurasiano em r\u00e1pido crescimento do mundo est\u00e3o desenvolvendo novas institui\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas baseadas em uma filosofia social e econ\u00f4mica alternativa. Com a China sendo a maior e mais r\u00e1pida economia da regi\u00e3o, suas pol\u00edticas socialistas provavelmente ser\u00e3o influentes na forma\u00e7\u00e3o desse emergente sistema financeiro e comercial n\u00e3o-ocidental.<\/p>\n<p>Em vez da privatiza\u00e7\u00e3o ocidental da infraestrutura econ\u00f4mica b\u00e1sica para criar fortunas privadas por meio da extra\u00e7\u00e3o de renda monopolista, a China mant\u00e9m essa infraestrutura em m\u00e3os p\u00fablicas. Sua grande vantagem sobre o Ocidente \u00e9 que trata o dinheiro e o cr\u00e9dito como uma utilidade p\u00fablica, a ser alocada pelo governo em vez de permitir que os bancos privados criem cr\u00e9dito, com a d\u00edvida crescendo sem expandir a produ\u00e7\u00e3o para elevar os padr\u00f5es de vida. A China tamb\u00e9m est\u00e1 mantendo a sa\u00fade e a educa\u00e7\u00e3o, o transporte e as comunica\u00e7\u00f5es em m\u00e3os p\u00fablicas, como direitos humanos b\u00e1sicos.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica socialista da China \u00e9, em muitos aspectos, um retorno \u00e0s ideias b\u00e1sicas de resili\u00eancia que caracterizaram a maioria das civiliza\u00e7\u00f5es antes da Gr\u00e9cia e Roma cl\u00e1ssicas. Criou um Estado forte o suficiente para resistir ao surgimento de uma oligarquia financeira que ganha o controle da terra e dos ativos rent\u00e1veis. Em contraste, as economias ocidentais de hoje est\u00e3o repetindo precisamente aquele impulso olig\u00e1rquico que polarizou e destruiu as economias da Gr\u00e9cia e Roma cl\u00e1ssicas, com os Estados Unidos servindo como o an\u00e1logo moderno de Roma.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Michael Hudson: O colapso da civiliza\u00e7\u00e3o moderna e o futuro da humanidade \u2190 ORIENTE m\u00eddia &#8211; http:\/\/www.orientemidia.org\/michael-hudson-o-colapso-da-civilizacao-moderna-e-o-futuro-da-humanidade\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Michael Hudson &#8211; O maior desafio enfrentado pelas sociedades sempre foi como conduzir o com\u00e9rcio e o cr\u00e9dito sem permitir que comerciantes e credores ganhem dinheiro explorando seus clientes e devedores. Toda a Antiguidade reconhecia que o impulso para adquirir dinheiro \u00e9 compulsivo e tende a ser explorador e, portanto, socialmente prejudicial. 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