{"id":18314,"date":"2022-09-29T12:23:09","date_gmt":"2022-09-29T15:23:09","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18314"},"modified":"2022-09-26T13:25:23","modified_gmt":"2022-09-26T16:25:23","slug":"a-luta-de-classes-na-historia-economica-do-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/09\/29\/a-luta-de-classes-na-historia-economica-do-capitalismo\/","title":{"rendered":"A luta de classes na hist\u00f3ria econ\u00f4mica do capitalismo"},"content":{"rendered":"<div id=\"__reading__mode__header__container\">\n<div id=\"header_content_id\">\n<p id=\"mainContentTitle\"><strong>JOS\u00c9 MICAELSON LACERDA MORAIS<\/strong> &#8211; Enquanto negarmos a categoria luta de classes n\u00e3o poderemos avan\u00e7ar tamb\u00e9m na luta contra as for\u00e7as destrutivas dos imperativos do capital<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"__reading__mode__mainbody__id\" class=\"__reading__mode__mainbody\">\n<div id=\"mainContainer\" class=\"__reading__mode__extracted__article__body\">\n<div class=\"entry-content clearfix\">\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 preciso resgatar a concep\u00e7\u00e3o de sujeito social e de sociedade contidas na teoria econ\u00f4mica, desde a economia pol\u00edtica cl\u00e1ssica at\u00e9 o pensamento econ\u00f4mico contempor\u00e2neo dominante, para alcan\u00e7armos a real dimens\u00e3o do sistema econ\u00f4mico resultante e de suas implica\u00e7\u00f5es sobre a pr\u00f3pria vida (sociedade e natureza). Como economistas, enquanto negarmos a categoria luta de classes n\u00e3o poderemos avan\u00e7ar tamb\u00e9m na luta contra as for\u00e7as destrutivas dos imperativos do capital, j\u00e1 por demais evidentes e amplamente vividas (social, pol\u00edtica e ambientalmente falando) nessa quadra hist\u00f3rica do capitalismo; apesar de todo avan\u00e7o t\u00e9cnico e da ideologia t\u00e3o disseminada atualmente da tecnologia como nossa \u00fanica t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A luta de classes como chave do processo hist\u00f3rico<\/strong><\/p>\n<p>A luta de classes est\u00e1 inscrita no materialismo hist\u00f3rico. Neste, a concep\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria reside no desenvolvimento do processo real de produ\u00e7\u00e3o material da vida imediata e das formas de interc\u00e2mbio a ele associadas e por ele engendradas. Portanto, o fundamento da hist\u00f3ria assenta-se nos diferentes est\u00e1gios pelos quais passa a sociedade civil no \u201csuceder-se de gera\u00e7\u00f5es distintas\u201d, at\u00e9 a \u201chist\u00f3ria transformar-se em hist\u00f3ria mundial\u201d (MARX e ENGELS, 2007, p. 40). Dois poderes que s\u00e3o estranhos aos \u201cindiv\u00edduos singulares\u201d, passam a se apresentar como comandantes dos seus destinos, devido ao poder social neles contidos, poder edificado a partir de uma a\u00e7\u00e3o \u201cplenamente material\u201d. Em n\u00edvel nacional, o Estado, e em n\u00edvel mundial, o mercado mundial. Todavia, esses poderes apesar de aut\u00f4nomos n\u00e3o s\u00e3o independentes. A configura\u00e7\u00e3o e a amplitude de suas respectivas for\u00e7as dependem do est\u00e1gio de desenvolvimento do capital, determinante em \u00faltima inst\u00e2ncia, do poder social no modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p>O materialismo hist\u00f3rico trata dos aspectos da atividade humana como atos hist\u00f3ricos de duas formas a saber: \u201co trabalho dos homens sobre a natureza\u201d; e \u201co trabalho dos homens sobre os homens\u201d (MARX e ENGELS, 2007, p. 39). Portanto, os homens, na produ\u00e7\u00e3o de sua pr\u00f3pria vida material, sempre encontram \u201c[\u2026] diante de si uma natureza hist\u00f3rica e uma hist\u00f3ria natural [\u2026]\u201d (MARX e ENGELS, 2007, p. 31). Em suma, como formulada por Engels: \u201cA concep\u00e7\u00e3o materialista da hist\u00f3ria parte da tese de que a produ\u00e7\u00e3o, e com ela a troca dos produtos, \u00e9 a base de toda a ordem social; de que em todas as sociedades que desfilaram pela hist\u00f3ria, a distribui\u00e7\u00e3o dos produtos, e juntamente com ela a divis\u00e3o social dos homens em classes ou camadas, \u00e9 determinada pelo que a sociedade produz e como produz e pelo modo de trocar os seus produtos. De conformidade com isso, as causas profundas de todas as transforma\u00e7\u00f5es sociais e de todas as revolu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas n\u00e3o devem ser procuradas nas cabe\u00e7as dos homens nem na id\u00e9ia que eles fa\u00e7am da verdade eterna ou da eterna justi\u00e7a, mas nas transforma\u00e7\u00f5es operadas no modo de produ\u00e7\u00e3o e de troca\u201d (ENGELS, 2005, p. 69).<\/p>\n<p>Assim, a luta de classes apresenta-se como resultado dos pressupostos da exist\u00eancia humana e, por consequ\u00eancia, de toda a hist\u00f3ria. Esses pressupostos, \u201ctr\u00eas \u2018momentos\u2019 que coexistiram desde os prim\u00f3rdios da hist\u00f3ria e desde os primeiros homens\u201d, podem ser assim resumidos: (1) \u201cos homens t\u00eam de estar em condi\u00e7\u00f5es de viver para \u2018fazer hist\u00f3ria\u2019 [\u2026] a produ\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria vida material [\u2026] condi\u00e7\u00e3o fundamental de toda hist\u00f3ria\u201d; (2) \u201ca satisfa\u00e7\u00e3o dessa primeira necessidade, a a\u00e7\u00e3o de satisfaz\u00ea-la e o instrumento de satisfa\u00e7\u00e3o j\u00e1 adquirido conduzem a novas necessidades\u201d; e (3) \u201cos homens, que renovam diariamente sua pr\u00f3pria vida, come\u00e7am a criar outros homens, a procriar [\u2026] a fam\u00edlia [\u2026] de in\u00edcio a \u00fanica rela\u00e7\u00e3o social, torna-se mais tarde, quando as necessidades aumentadas [\u2026] novas rela\u00e7\u00f5es sociais\u201d (MARX e ENGELS, 2007, p. 33).<\/p>\n<p>Portanto, com a produ\u00e7\u00e3o desenvolve-se a divis\u00e3o do trabalho, a produtividade, novas necessidades e o aumento da produ\u00e7\u00e3o decorrente, ampliam de forma crescente a divis\u00e3o social do trabalho ao longo do tempo. Esta origina-se do ato sexual e, \u201cs\u00f3 se torna realmente divis\u00e3o a partir do momento em que surge uma divis\u00e3o entre trabalho material e [trabalho] espiritual\u201d (MARX e ENGELS, 2007, p. 35).<\/p>\n<p>A consci\u00eancia, como ato de entendimento individual e dos v\u00ednculos sociais experimentados, o trabalho espiritual, \u00e9, assim, tamb\u00e9m, um produto social. A primeira forma de contradi\u00e7\u00e3o humana apresenta-se posta quando relacionamos \u201ca for\u00e7a de produ\u00e7\u00e3o\u201d, \u201co estado social\u201d e \u201ca consci\u00eancia\u201d, ou seja, a separa\u00e7\u00e3o entre atividade material e atividade espiritual. A segunda contradi\u00e7\u00e3o, derivada da primeira e sua constituinte, base da luta de classes, relaciona-se ao embate entre interesse particular e interesse coletivo, sobre as classes j\u00e1 condicionadas pela divis\u00e3o do trabalho: \u201ctoda classe que almeje \u00e0 domina\u00e7\u00e3o [\u2026] deve primeiramente conquistar o poder pol\u00edtico, para apresentar seu interesse como interesse geral\u201d (MARX e ENGELS, 2007, p. 37).<\/p>\n<p>Interessa observar as implica\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas entre luta de classes e aliena\u00e7\u00e3o, pois o dom\u00ednio de uma classe sobre a outra, o \u201cpoder social\u201d, depende do convencimento da classe dominada, seja por meio da viol\u00eancia ou como: \u201cuma pot\u00eancia estranha, situada fora deles, sobre a qual n\u00e3o sabem de onde veio nem para onde vai, uma pot\u00eancia, portanto, que n\u00e3o podem mais controlar e que, pelo contr\u00e1rio, percorre agora uma sequ\u00eancia particular de fases e etapas de desenvolvimento, independente do querer e do agir dos homens e que at\u00e9 mesmo dirige esse querer e esse agir\u201d (MARX e ENGELS, 2007, p. 38).<\/p>\n<p>De acordo com o materialismo hist\u00f3rico o Estado aparece como \u201cexpress\u00e3o pr\u00e1tico-idealista\u201d de determinadas for\u00e7as de produ\u00e7\u00e3o que s\u00e3o utilizadas como condi\u00e7\u00e3o de domina\u00e7\u00e3o de uma classe sobre outra. Ou seja, a forma Estado, como poder social, derivou do pr\u00f3prio grau de riqueza material atingido por uma determinada sociedade. Dessa forma, chegamos as ideias de classe e de domina\u00e7\u00e3o de classe: \u201cas ideias da classe dominante s\u00e3o, em cada \u00e9poca, as ideias dominantes, isto \u00e9, a classe que \u00e9 a for\u00e7a material dominante da sociedade \u00e9, ao mesmo tempo, sua for\u00e7a espiritual dominante. A classe que tem \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o os meios de produ\u00e7\u00e3o material disp\u00f5e tamb\u00e9m dos meios da produ\u00e7\u00e3o espiritual, de modo que a ela est\u00e3o submetidos aproximadamente ao mesmo tempo os pensamentos daqueles aos quais faltam os meios de produ\u00e7\u00e3o espiritual. As ideias dominantes n\u00e3o s\u00e3o nada mais do que a express\u00e3o ideal das rela\u00e7\u00f5es materiais dominantes, s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es materiais dominantes apreendidas como ideais; portanto, s\u00e3o a express\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es que fazem de uma classe a classe dominante, s\u00e3o as ideias de sua domina\u00e7\u00e3o\u201d (MARX e ENGELS, 2007, p. 47).<\/p>\n<p>Na perspectiva do materialismo hist\u00f3rico a hist\u00f3ria \u00e9 o movimento das for\u00e7as produtivas atrav\u00e9s do desenvolvimento \u201cdas for\u00e7as dos pr\u00f3prios indiv\u00edduos\u201d, no interior da divis\u00e3o do trabalho. As rela\u00e7\u00f5es sociais derivadas desta \u00faltima se autonomizam e submetem os indiv\u00edduos \u201c\u00e0 mais completa depend\u00eancia uns em rela\u00e7\u00e3o aos outros\u201d. \u201c[\u2026] Por meio da divis\u00e3o do trabalho, j\u00e1 est\u00e1 dada desde o princ\u00edpio a divis\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho, das ferramentas e dos materiais, o que gera a fragmenta\u00e7\u00e3o do capital acumulado em diversos propriet\u00e1rios e, com isso, a fragmenta\u00e7\u00e3o entre capital e trabalho, assim como as diferentes formas de propriedade. Quanto mais se desenvolve a divis\u00e3o do trabalho e a acumula\u00e7\u00e3o aumenta, tanto mais aguda se torna essa fragmenta\u00e7\u00e3o. O pr\u00f3prio trabalho s\u00f3 pode subsistir sob o pressuposto dessa fragmenta\u00e7\u00e3o\u201d (MARX e ENGELS, 2007, p. 72).<\/p>\n<p>Faz-se interessante, a t\u00edtulo de ilustra\u00e7\u00e3o, observar o processo hist\u00f3rico de autonomiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais, do Estado e do mercado mundial. Conforme Marx e Engels (2007), essa autonomiza\u00e7\u00e3o pode ser entendida a partir do seguinte desenvolvimento hist\u00f3rico: (1) a separa\u00e7\u00e3o entre cidade e campo ou entre capital e propriedade da terra; (2) a necessidade da administra\u00e7\u00e3o, da pol\u00edcia, dos impostos etc, (pol\u00edtica em geral e do Estado); (3) a separa\u00e7\u00e3o entre a produ\u00e7\u00e3o e o com\u00e9rcio, a forma\u00e7\u00e3o de uma classe particular de comerciantes, e, uma consequente divis\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o entre diversas cidades, cada uma com um ramo industrial predominante; (4) a partir de (1) e (2) resultou o nascimento das manufaturas; 4) passagem do capital natural-estamental para o capital m\u00f3vel e sua consequente altera\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de propriedade e de produ\u00e7\u00e3o; (5) o extraordin\u00e1rio impulso das manufaturas a partir da expans\u00e3o comercial com a descoberta da Am\u00e9rica e da rota mar\u00edtima \u00e0s \u00cdndias Orientais; (6) cria\u00e7\u00e3o da grande burguesia pelo com\u00e9rcio e pela manufatura, passando essa classe a ter significado pol\u00edtico; (7) das condi\u00e7\u00f5es anteriores t\u00eam-se cria\u00e7\u00e3o da grande ind\u00fastria, a qual representou a maioridade do capitalismo.<\/p>\n<p>A grande ind\u00fastria revolucionou tanto o processo produtivo quanto autonomizou o capital e seu processo de acumula\u00e7\u00e3o. Esta autonomiza\u00e7\u00e3o, por seu turno, implica em subsumir os mercados de produtos e de fatores, o progresso t\u00e9cnico e a for\u00e7a de trabalho, unicamente, ao processo de acumula\u00e7\u00e3o de capital. De forma geral, como Marx e Engels (2007, p. 60-61), explicam, a grande ind\u00fastria: \u201cuniversalizou a concorr\u00eancia [\u2026] criou os meios de comunica\u00e7\u00e3o e o moderno mercado mundial, submeteu a si o com\u00e9rcio, transformou todo capital em capital industrial e gerou, com isso, a r\u00e1pida circula\u00e7\u00e3o (o desenvolvimento do sistema monet\u00e1rio) e a centraliza\u00e7\u00e3o dos capitais. Criou pela primeira vez a hist\u00f3ria mundial, ao tornar toda na\u00e7\u00e3o civilizada e cada indiv\u00edduo dentro dela dependentes do mundo inteiro para a satisfa\u00e7\u00e3o de suas necessidades, e suprimiu o anterior car\u00e1ter exclusivista e natural das na\u00e7\u00f5es singulares. Subsumiu a ci\u00eancia natural ao capital e tomou da divis\u00e3o do trabalho a sua \u00faltima apar\u00eancia de naturalidade. Destruiu, em geral, a naturalidade, na medida em que isso \u00e9 poss\u00edvel no interior do trabalho, e dissolveu todas as rela\u00e7\u00f5es naturais em rela\u00e7\u00f5es monet\u00e1rias. No lugar das cidades formadas naturalmente, criou as grandes cidades industriais modernas, nascidas da noite para o dia. Destruiu, onde quer que tenha penetrado, o artesanato e, em geral, todos os est\u00e1gios anteriores da ind\u00fastria. Completou a vit\u00f3ria [da cidade] comercial sobre o campo. Seu [pressuposto] \u00e9 o sistema autom\u00e1tico [\u2026] criou por toda parte as mesmas rela\u00e7\u00f5es entre as classes da sociedade e suprimiu por meio disso a particularidade das diversas nacionalidades. E finalmente, enquanto a burguesia de cada na\u00e7\u00e3o conserva ainda interesses nacionais \u00e0 parte, a grande ind\u00fastria criou uma classe que tem em todas as na\u00e7\u00f5es o mesmo interesse e na qual toda nacionalidade j\u00e1 est\u00e1 destru\u00edda; uma classe que, de fato, est\u00e1 livre de todo o mundo antigo e, ao mesmo tempo, com ele se defronta. A grande ind\u00fastria torna insuport\u00e1vel para o trabalhador n\u00e3o apenas a rela\u00e7\u00e3o com o capitalista, mas sim o pr\u00f3prio trabalho\u201d.<\/p>\n<p>Por seu turno, a classe burguesa nasceu das diversas burguesias locais de diversas cidades, a partir do v\u00ednculo que essas cidades estabeleceram entre si, gerando assim as condi\u00e7\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o de uma classe. Com base na divis\u00e3o do trabalho ela se dividiu em fra\u00e7\u00f5es distintas de acordo com seus respectivos capitais em fun\u00e7\u00e3o: mercantil, industrial, banc\u00e1rio. Para Marx e Engels (2007, p. 63), \u201cos indiv\u00edduos singulares formam uma classe somente na medida em que t\u00eam de promover uma luta contra outra classe; de resto, eles mesmos se posicionam uns contra os outros, como inimigos, na concorr\u00eancia [\u2026]\u201d. Na Idade M\u00e9dia, os burgueses se uniram como classe contra a nobreza feudal. No s\u00e9culo XVIII, \u201co s\u00e9culo do com\u00e9rcio\u201d, assistimos a luta entre o capital manufatureiro e o capital comercial. Por outro lado, o proletariado, como classe, a \u201cclasse revolucion\u00e1ria\u201d, j\u00e1 se defronta desde o in\u00edcio com a classe capitalista, assim, ela \u201csurge n\u00e3o como classe, mas sim como representante de toda a sociedade [\u2026] porque seu interesse [\u2026] coincide com o interesse coletivo de todas as demais classes n\u00e3o dominantes\u201d (MARX e ENGELS, 2007, p. 49).<\/p>\n<p><strong>A luta de classes na hist\u00f3ria econ\u00f4mica do capitalismo<\/strong><\/p>\n<p>Como Marx (2017) tomamos a era capitalista como tendo in\u00edcio no s\u00e9culo XVI. A ideia deste item \u00e9 apresentar o fen\u00f4meno da luta de classes e suas transforma\u00e7\u00f5es ao longo da hist\u00f3ria econ\u00f4mica do capitalismo. Nesse sentido, a nossa primeira tarefa diz respeito a estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o entre tipos de lutas de classes e per\u00edodos hist\u00f3ricos do desenvolvimento do capitalismo. A princ\u00edpio, parece haver duas din\u00e2micas espec\u00edficas relacionadas \u00e0s lutas de classes, uma antes da grande ind\u00fastria e, outra, ap\u00f3s. O que estamos afirmando \u00e9 que a pr\u00f3pria luta de classes se torna subsumida a autonomiza\u00e7\u00e3o do capital desde ent\u00e3o. Todavia, isso n\u00e3o significa a perda de seu car\u00e1ter revolucion\u00e1rio, porque enquanto houver conflito social em torno da parti\u00e7\u00e3o do excedente econ\u00f4mico, a luta de classes continuar\u00e1 atuando como elemento nuclear de transforma\u00e7\u00e3o dos processos sociais, bem como continuar\u00e1 sendo uma categoria central de an\u00e1lise econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Marx e Engels, cada um a seu modo, reconhecem claramente tal distin\u00e7\u00e3o. As obras hist\u00f3rico-pol\u00edtico de Marx refletem a luta de classes antes do advento da grande ind\u00fastria e, O capital, reflete a din\u00e2mica que a luta de classes assume com a implanta\u00e7\u00e3o daquela. Da mesma forma, ao escrever o pref\u00e1cio de\u00a0<em>Luta de classes na Fran\u00e7a<\/em>, na edi\u00e7\u00e3o de 1895, Engels contextualizou a luta de classes depois da revolu\u00e7\u00e3o de 1848 a partir de tr\u00eas aspectos: (1) de que as revolu\u00e7\u00f5es at\u00e9 aquele momento foram realizadas por \u201cpequenas minorias\u201d da classe dominante remodelando as institui\u00e7\u00f5es de acordo com o seu interesse; (2) da novidade representada pela participa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores nas institui\u00e7\u00f5es do Estado, via elei\u00e7\u00f5es; e (3) do monop\u00f3lio da viol\u00eancia pelo Estado, forma\u00e7\u00e3o das for\u00e7as armadas nacionais, proporcionado pelo pr\u00f3prio crescimento econ\u00f4mico. Os argumentos de cada um dos autores merecem algumas palavras a respeito.<\/p>\n<p>Comecemos por Engels. O primeiro argumento apresentado por ele \u00e9 o de que todas as revolu\u00e7\u00f5es at\u00e9 aquele momento foram revolu\u00e7\u00f5es burguesas. Para ele o desenvolvimento econ\u00f4mico da \u00e9poca ainda n\u00e3o havia proporcionado a maioridade do capitalismo nem completado a forma\u00e7\u00e3o do proletariado. Como informa Engels, a revolu\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica que instalou a grande ind\u00fastria em todo o continente estava ocorrendo justamente naquela quadra hist\u00f3rica. Foi somente a partir desse momento que se p\u00f4de falar de uma burguesia geral e de um proletariado real, ambos surgidos da grande ind\u00fastria, deslocando para primeiro plano a quest\u00e3o do \u201cdesenvolvimento social\u201d.<\/p>\n<p>\u201cTodas as revolu\u00e7\u00f5es desembocaram no afastamento de determinado dom\u00ednio classista por outro; por\u00e9m, todas as classes dominantes at\u00e9 aqui sempre constitu\u00edram pequenas minorias diante da massa dominada da popula\u00e7\u00e3o. Assim, uma minoria dominante foi derrubada e outra minoria tomou o leme do Estado e remodelou as institui\u00e7\u00f5es deste de acordo com os seus interesses. Tratava-se, em cada caso, do grupo minorit\u00e1rio que foi capacitado e chamado pelo estado do desenvolvimento econ\u00f4mico para exercer o dom\u00ednio, e foi justamente por isso e s\u00f3 por isso que a maioria dominada participou da revolu\u00e7\u00e3o a favor desse grupo ou aceitou-a tranquilamente. Por\u00e9m, se abstrairmos do conte\u00fado concreto de cada caso, a forma comum a todas essas revolu\u00e7\u00f5es \u00e9 a de que eram revolu\u00e7\u00f5es de minorias. Inclusive quando a maioria participou, isso aconteceu \u2012 conscientemente ou n\u00e3o \u2012 s\u00f3 a servi\u00e7o de uma minoria; esta, por\u00e9m, ganhou assim, ou j\u00e1 em virtude da atitude passiva da maioria que n\u00e3o ofereceu resist\u00eancia, a apar\u00eancia de ser representante de todo o povo\u201d (MARX, 2012, l. 164-168).<\/p>\n<p>Analisando a Revolu\u00e7\u00e3o de 1848 na Fran\u00e7a, Marx assim conclui: \u201cAp\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o de Julho [\u2026] quem reinou sob Lu\u00eds Filipe n\u00e3o foi a burguesia francesa, mas uma fac\u00e7\u00e3o dela: os banqueiros, os reis da bolsa, os reis das ferrovias, os donos de minas de carv\u00e3o e de ferro e os donos de florestas em conluio com uma parte da aristocracia propriet\u00e1ria de terras, a assim chamada aristocracia financeira. Ela ocupou o trono, ditou as leis nas c\u00e2maras, distribuiu os cargos p\u00fablicos desde o minist\u00e9rio at\u00e9 a ag\u00eancia do tabaco\u201d. (MARX, 2012, l. 466-471)<\/p>\n<p>Para Engels, as formas de luta de 1848, se tornaram antiquadas em todos os aspectos, pois todas as condi\u00e7\u00f5es sob as quais o proletariado tem de lutar foram revolucionadas. Todavia, como ele pr\u00f3prio reconhece, mesmo com a dissemina\u00e7\u00e3o do proletariado industrial por toda Europa, formando um grande \u201cex\u00e9rcito do proletariado\u201d, n\u00e3o era poss\u00edvel conquistar a vit\u00f3ria revolucion\u00e1ria com um s\u00f3 golpe. O proletariado foi \u201cobrigado a avan\u00e7ar lentamente de uma posi\u00e7\u00e3o para outra mediante a luta dura e renhida, isso demonstra de uma vez por todas como era imposs\u00edvel conquistar em 1848 a reorganiza\u00e7\u00e3o social por meio de um ataque surpresa\u201d. (MARX, 2012, l. 209)<\/p>\n<p>No entanto, o imperialismo que se instaura na Europa a partir de 1851, como analisado por Engels, inaugurou \u201cum per\u00edodo de revolu\u00e7\u00f5es vindas de cima\u201d, mas tamb\u00e9m proporcionou uma nova organiza\u00e7\u00e3o mais ampla do proletariado reunido na Internacional. Em 1871 a Fran\u00e7a reviveu a revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria atrav\u00e9s da Comuna de Paris. Todavia, mais uma vez, por raz\u00f5es que n\u00e3o cabe aqui analisar, mas que foram amplamente analisadas por Marx e Engels, o governo da classe trabalhadora se mostrou uma impossibilidade: \u201ct\u00e3o infecunda como o ataque repentino de 1848 permaneceu a vit\u00f3ria recebida em 1871\u201d (MARX, 2012, l. 237).<\/p>\n<p>O segundo aspecto destacado por Engels \u00e9 o seguinte: \u201cO proletariado descobriu que as institui\u00e7\u00f5es do Estado, nas quais se organiza o dom\u00ednio da burguesia, admitem ainda outros manuseios com os quais a classe trabalhadora pode combate-las. Ele participou das elei\u00e7\u00f5es para as assembleias estaduais, para os conselhos comunais, para as cortes profissionais, disputando com a burguesia cada posto em cuja ocupa\u00e7\u00e3o tinha direito \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o. E assim ocorreu que a burguesia e o governo passaram a temer mais a a\u00e7\u00e3o legal que a ilegal do partido dos trabalhadores, a temer mais o sucesso da elei\u00e7\u00e3o que os da rebeli\u00e3o\u201d (MARX, 2012, l. 286-290).<\/p>\n<p>Esse segundo aspecto j\u00e1 estava inclusive presente no\u00a0<em>Manifesto Comunista<\/em>, quando os autores proclamaram como uma das \u201cprimeiras e mais importantes tarefas do proletariado militante\u201d a conquista do direito de voto universal. No entanto, cabe observar a introdu\u00e7\u00e3o do voto universal tamb\u00e9m como arma da burguesia. Na Alemanha, em 1866, por exemplo, o voto universal foi institu\u00eddo \u201c[\u2026] quando Bismarck se viu for\u00e7ado a instituir esse direito de voto como \u00fanico meio de interessar as massas populares pelos seus planos\u201d (MARX, 2012, l. 270).<\/p>\n<p>O terceiro e \u00faltimo aspecto destacado por Engels diz respeito ao crescimento das for\u00e7as armadas defensoras do Estado: \u201c[\u2026] se as grandes cidades se tornaram consideravelmente maiores, proporcionalmente ainda maiores se tornaram os ex\u00e9rcitos\u201d (MARX, 2012, l. 324). Engels, ent\u00e3o, faz uma compara\u00e7\u00e3o entre a situa\u00e7\u00e3o dos militares e a situa\u00e7\u00e3o dos insurgentes.<\/p>\n<p>\u201cCom o aux\u00edlio das ferrovias, essas guarni\u00e7\u00f5es podem ser mais que duplicadas em 24 horas e, em 48 horas, transformar-se em gigantescos ex\u00e9rcitos. O armamento [\u2026] tornou-se incomparavelmente mais eficaz [\u2026] hoje h\u00e1 as granadas de percuss\u00e3o, bastando uma delas para estra\u00e7alhar a barricada mais bem feita [\u2026] Do lado dos insurgentes, em contraposi\u00e7\u00e3o, todas as condi\u00e7\u00f5es pioraram. Dificilmente se conseguir\u00e1 de novo uma revolta com a qual todos os estratos populares simpatizem; na luta de classes, decerto todos os estratos m\u00e9dios jamais se agrupar\u00e3o em torno do proletariado de maneira t\u00e3o exclusiva que, em compara\u00e7\u00e3o, o partido da rea\u00e7\u00e3o aglomerado em torno da burguesia praticamente desaparece.\u201d (MARX, 2012, l. 324-328-331-335).<\/p>\n<p>Isso \u00e9 tudo sobre a an\u00e1lise de Engels com respeito a luta de classes. Marx, por seu turno, nos oferece a luta de classes como categoria de an\u00e1lise econ\u00f4mica no livro I de\u00a0<em>O capital<\/em>. Ele come\u00e7a com a an\u00e1lise da mercadoria e suas contradi\u00e7\u00f5es. A mercadoria \u00e9 apresentada como c\u00e9lula da riqueza capitalista e o conjunto de mercadorias como o total da riqueza. A subst\u00e2ncia dessa riqueza \u00e9 apresentada como o trabalho, mais especificamente o disp\u00eandio de for\u00e7a de trabalho quantificada na categoria tempo de trabalho socialmente necess\u00e1rio. Da rela\u00e7\u00e3o entre for\u00e7a de trabalho e mercadoria \u00e9 derivada a categoria valor. Logo, em qualquer per\u00edodo hist\u00f3rico o valor \u00e9 transforma\u00e7\u00e3o. Mas, no capitalismo al\u00e9m de transforma\u00e7\u00e3o ele se torna objeto de acumula\u00e7\u00e3o, pois ele se desmaterializa. Ele se separa da mercadoria pelo processo de generaliza\u00e7\u00e3o das trocas, passando a ser representado por um equivalente universal que lhe \u00e9 totalmente estranho, o dinheiro.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a an\u00e1lise da mercadoria Marx apresenta a an\u00e1lise da produ\u00e7\u00e3o da mercadoria. Nesse ponto a apresenta\u00e7\u00e3o \u00e9 realizada considerando os indiv\u00edduos singulares nas figuras do capitalista e do trabalhador assalariado. No cap\u00edtulo 4, \u201cA transforma\u00e7\u00e3o do dinheiro em capital\u201d, Marx tem diante de si a revela\u00e7\u00e3o de um segredo. Ele nos revela que a cria\u00e7\u00e3o de valor no capitalismo \u00e9 ao mesmo tempo um processo de explora\u00e7\u00e3o e de expropria\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho. Ele nos revela que os ideais de igualdade e liberdade entre os homens, estabelecidos na forma de uma declara\u00e7\u00e3o, n\u00e3o passam de uma \u201cfic\u00e7\u00e3o jur\u00eddica\u201d. Est\u00e1 posta assim a teoria da explora\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da categoria mais-valia ou mais-valor, como queiram se referir. Temos, ent\u00e3o, revelado at\u00e9 aqui como se d\u00e1 a produ\u00e7\u00e3o de excedente econ\u00f4mico no capitalismo e a forma de sua apropria\u00e7\u00e3o (a especifica\u00e7\u00f5es do mais-valor, em suas formas absoluta e relativa, s\u00e3o realizadas nas sess\u00f5es III, IV e V, que contemplam os cap\u00edtulos do 5 ao16).<\/p>\n<p>No final do cap\u00edtulo quatro Marx anuncia uma mudan\u00e7a nas\u00a0<em>dramatis personae<\/em>\u00a0[personagens teatrais], a partir do momento em que o capital mercantil penetra \u00e0 produ\u00e7\u00e3o e o capital produtivo passa a dominar o primeiro. O possuidor de dinheiro se transforma em capitalista e o possuidor de for\u00e7a de trabalho, o seu trabalhador. Est\u00e1 aberta a passagem de uma an\u00e1lise centrada nos agentes singulares para uma an\u00e1lise centrada em classes sociais, introduzida no emblem\u00e1tico cap\u00edtulo 8, \u201cA jornada de trabalho\u201d: \u201c[\u2026] uma luta entre o conjunto dos capitalistas, i.e., a classe capitalista, e o conjunto dos trabalhadores, i.e., a classe trabalhadora\u201d (MARX, 2017, p. 309).<\/p>\n<p>O cap\u00edtulo 8 introduz, portanto, a luta de classes como uma categoria de an\u00e1lise econ\u00f4mica. Ela servir\u00e1 como elemento de an\u00e1lise no processo de passagem da manufatura para a grande ind\u00fastria. Primeiro atrav\u00e9s da luta entre os capitalistas e as corpora\u00e7\u00f5es, depois pela luta intercapitalista entre os v\u00e1rios capitais em fun\u00e7\u00e3o (capital mercantil\u00a0<em>versus<\/em>\u00a0capital produtivo, capital produtivo\u00a0<em>versus<\/em>\u00a0capital produtivo), e, ainda, entre capital e trabalho. Esta \u00faltima rela\u00e7\u00e3o somente \u00e9 desenvolvida no cap\u00edtulo 23, \u201cA lei geral da acumula\u00e7\u00e3o capitalista\u201d, quando Marx examina os efeitos do progresso t\u00e9cnico sobre a classe trabalhadora.<\/p>\n<p>Marx poderia ter fechado o cap\u00edtulo 23 com o item \u201cTend\u00eancia hist\u00f3rica da acumula\u00e7\u00e3o capitalista\u201d, do final do cap\u00edtulo 24 intitulado \u201cA assim chamada acumula\u00e7\u00e3o primitiva\u201d. Todavia, parece que ele fez quest\u00e3o de mostrar, tanto do ponto de vista l\u00f3gico (cap\u00edtulos 1 ao 23), quanto do ponto de vista hist\u00f3rico (cap\u00edtulo 24), que o sistema capitalista \u00e9 simplesmente indefens\u00e1vel, por constituir um sistema de explora\u00e7\u00e3o e de expropria\u00e7\u00e3o permanente entre sujeitos sociais. Pois, se a lei geral da acumula\u00e7\u00e3o capitalista \u00e9 produzir de um lado, capitalistas, e, de outro, trabalhadores assalariados, a tend\u00eancia hist\u00f3rica da acumula\u00e7\u00e3o capitalista \u00e9 elevar a contradi\u00e7\u00e3o fundamental desse sistema a um n\u00edvel insuport\u00e1vel. A sua supera\u00e7\u00e3o enquanto sistema hist\u00f3rico se dar\u00e1 tamb\u00e9m pela luta de classes.<\/p>\n<p>No entanto, essa amplitude da luta de classes n\u00e3o \u00e9 reconhecida por alguns marxistas. A interpreta\u00e7\u00e3o de Moishe Postone, por exemplo, \u00e9 de negar a import\u00e2ncia da luta de classes como instrumento de supera\u00e7\u00e3o do capitalismo. Ele chega a afirmar que a \u201c[\u2026] concep\u00e7\u00e3o de Marx do socialismo n\u00e3o envolve a realiza\u00e7\u00e3o do proletariado\u201d (POSTONE, 2014, p. 378). Mas, como ele chegou a tal conclus\u00e3o?<\/p>\n<p>Moishe Postone em\u00a0<em>Tempo, trabalho e domina\u00e7\u00e3o social: uma reinterpreta\u00e7\u00e3o da teoria cr\u00edtica de Marx<\/em>, de 1993, fez importantes considera\u00e7\u00f5es sobre a categoria trabalho. Principalmente ao formular sua fun\u00e7\u00e3o como a \u201c[\u2026] de uma media\u00e7\u00e3o direcionalmente din\u00e2mica, totalizante e historicamente espec\u00edfica [\u2026]\u201d (POSTONE, 2014, p. 463). Todavia, quando trata da luta de classes, o seu ponto de partida \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio objeto de an\u00e1lise do capital: a explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho a partir da rela\u00e7\u00e3o capital. Pois, afirma ele que \u201cas formas objetivadas de media\u00e7\u00e3o social\u201d, \u201cexpressadas pelas categorias de valor e mais-valor\u201d, \u201c[\u2026] n\u00e3o podem ser compreendidas apenas em termos de rela\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o de classe [\u2026]\u201d (POSTONE, 2014, p. 364). Para ele, o car\u00e1ter te\u00f3rico das rela\u00e7\u00f5es de classe n\u00e3o \u00e9 nada \u00f3bvio no desenvolvimento feito por Marx, quando da apresenta\u00e7\u00e3o e a an\u00e1lise da categoria mais-valor.<\/p>\n<p>Ora, demonstramos justamente o contr\u00e1rio alguns par\u00e1grafos acima. A sua confus\u00e3o parece residir na separa\u00e7\u00e3o \u201c[\u2026] entre a classe e o car\u00e1ter espec\u00edfico da media\u00e7\u00e3o social no capitalismo (POSTONE, 2014, p. 366). Pois, sua intepreta\u00e7\u00e3o \u00e9 que para Marx a media\u00e7\u00e3o constitutiva da sociedade capitalista (as formas sociais da mercadoria e do capital) n\u00e3o pode ser expressa simplesmente pela luta de classes. Mas, tamb\u00e9m, como mostramos acima essa separa\u00e7\u00e3o se mostra falsa.<\/p>\n<p>\u00c9 que mesmo a subsun\u00e7\u00e3o completa da luta de classes pela autonomiza\u00e7\u00e3o do capital, ou seja, a internaliza\u00e7\u00e3o da luta de classes como um processo \u201cnormal\u201d e legal de resolu\u00e7\u00f5es de conflito entre capital e trabalho, n\u00e3o autoriza Moishe Postone a negar a an\u00e1lise de Marx do proletariado como for\u00e7a revolucion\u00e1ria. Muito menos a afirmar que Marx queria concluir outra coisa diferente de que a luta de classes \u201c\u00e9 a hist\u00f3ria de todas as sociedades at\u00e9 hoje existentes\u201d. Que a forma-mercadoria atua como media\u00e7\u00e3o social entre capitalistas e trabalhadores assalariados, isso n\u00e3o \u00e9 nenhuma novidade, est\u00e1 l\u00e1 em\u00a0<em>O capital<\/em>, perpassando os cap\u00edtulos de 9 a 23.<\/p>\n<p>Que a luta de classes n\u00e3o representa uma perturba\u00e7\u00e3o do sistema, como afirma Moishe Postone, n\u00e3o podemos aceitar. Pois, Marx demonstrou claramente que dada a lei geral da acumula\u00e7\u00e3o capitalista a sua tend\u00eancia hist\u00f3rica seria inevitavelmente o conflito de classes que resultaria na \u201cexpropria\u00e7\u00e3o dos expropriadores\u201d. Se o desenvolvimento hist\u00f3rico do capitalismo contornou ou inviabilizou, por sua extrema elasticidade, esse desfecho, isso n\u00e3o autoriza Moishe Postone a negar a luta de classes como forma de supera\u00e7\u00e3o do modo capitalista de produ\u00e7\u00e3o. Principalmente, \u201cque a supera\u00e7\u00e3o do capitalismo n\u00e3o envolve a autopercep\u00e7\u00e3o do proletariado [e que] a l\u00f3gica de Marx n\u00e3o defende a no\u00e7\u00e3o de que o proletariado \u00e9 o sujeito revolucion\u00e1rio\u201d (POSTONE, 2014, p. 376).<\/p>\n<p>Realmente, como evidencia Moishe Postone, a luta de classes tem sido tomada \u201ccomo uma descri\u00e7\u00e3o dos agrupamentos sociais na sociedade capitalista\u201d, como \u201cuma descri\u00e7\u00e3o de uma tend\u00eancia hist\u00f3rica da popula\u00e7\u00e3o de polarizar-se em dois grandes grupos sociais\u201d e, ainda, como uma forma de \u2018acumula\u00e7\u00e3o circulat\u00f3rio-administrativa\u2019 (enfatizado pelo crescimento da classe m\u00e9dia). Mas, pelo exposto at\u00e9 aqui a luta de classes \u00e9 muito mais que isso. Ela \u00e9 a categoria de an\u00e1lise econ\u00f4mica que acompanha o racioc\u00ednio de Marx do cap\u00edtulo 8 ao 23 de\u00a0<em>O capital<\/em>. Ela deu forma ao capitalismo, possibilitou explicar o seu desenvolvimento hist\u00f3rico e anunciar a sua supera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Portanto, em Marx, a categoria luta de classes apresenta duas conota\u00e7\u00f5es distintas (por\u00e9m inter-relacionadas). Ela \u00e9 tanto uma categoria de an\u00e1lise hist\u00f3rico-pol\u00edtica quanto uma categoria de an\u00e1lise econ\u00f4mica. Esta \u00faltima, de forma dominante, \u00e9 apresentada e discutida no livro I de\u00a0<em>O capital<\/em>, do cap\u00edtulo 8 ao 23. Como categoria de an\u00e1lise pol\u00edtica reflete a necessidade de uma revolu\u00e7\u00e3o social, para al\u00e9m dos limites da legalidade institu\u00edda (cap\u00edtulo 24 do livro I). Como categoria de an\u00e1lise econ\u00f4mica reflete tanto o processo de explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho quanto uma luta \u201clegal\u201d em torno dos limites da jornada de trabalho (cap\u00edtulo 8 do livro I).<\/p>\n<p>Pois, como o pr\u00f3prio Marx esclarece, estamos diante de uma antinomia: \u201cum direito contra outro direito, ambos apoiados na troca de mercadorias. Entre direitos iguais quem decide \u00e9 a for\u00e7a. E assim a regulamenta\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho se apresenta, na hist\u00f3ria da produ\u00e7\u00e3o capitalista, como uma luta em torno dos limites da jornada de trabalho \u2012 uma luta entre o conjunto dos capitalistas,\u00a0<em>i.e.<\/em>, a classe capitalista, e o conjunto dos trabalhadores,\u00a0<em>i.e<\/em>., a classe trabalhadora\u201d (MARX, 2017, p. 309).<\/p>\n<p>Em s\u00edntese, a luta de classes, como categoria de an\u00e1lise econ\u00f4mica, foi tamb\u00e9m tratada por Marx dentro dos limites da legalidade capitalista para explicar a luta da classe trabalhadora no contexto da autonomiza\u00e7\u00e3o do capital. A partir das conclus\u00f5es alcan\u00e7adas pela luta de classes como categoria de an\u00e1lise econ\u00f4mica, na qual a reprodu\u00e7\u00e3o social no capitalismo ocorre sempre produzindo de um lado capitalistas e de outro trabalhadores assalariados, conforme conclus\u00e3o do cap\u00edtulo 23 (\u201cA lei geral da acumula\u00e7\u00e3o capitalista\u201d), alcan\u00e7amos seu \u00faltimo sentido pol\u00edtico no final do cap\u00edtulo 24. Esse \u00faltimo sentido aparece como conclus\u00e3o l\u00f3gica da an\u00e1lise desenvolvida ao longo do livro I, sendo apresentada como \u201cA tend\u00eancia hist\u00f3rica da acumula\u00e7\u00e3o capitalista\u201d, sintetizada na f\u00f3rmula: \u201ca expropria\u00e7\u00e3o dos expropriadores pelos expropriados\u201d.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A luta de classes foi vigorosamente anunciada no\u00a0<em>Manifesto Comunista<\/em>, j\u00e1 demonstrando, ent\u00e3o, toda sua for\u00e7a enquanto categoria de an\u00e1lise hist\u00f3rica: \u201cA hist\u00f3ria de todas as sociedades at\u00e9 agora tem sido a hist\u00f3ria das lutas de classe\u201d.<\/p>\n<p>Se a luta de classes termina sempre em revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 uma outra hist\u00f3ria, um outro mal-entendido. Uma revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 uma transforma\u00e7\u00e3o que ocorre devido a uma combina\u00e7\u00e3o multifacetada de fatores e que muda uma forma de sociabilidade, n\u00e3o \u00e9 uma ruptura instant\u00e2nea, mas um processo social que ocorre num determinado per\u00edodo de tempo. Ao tratar da Revolu\u00e7\u00e3o industrial inglesa, por exemplo, Eric Hobsbawm (2009), \u00e9 bastante elucidativo: \u201ca Revolu\u00e7\u00e3o Industrial n\u00e3o foi uma mera acelera\u00e7\u00e3o do crescimento econ\u00f4mico, mas uma acelera\u00e7\u00e3o de crescimento em virtude da transforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social \u2012 e atrav\u00e9s dela [\u2026] ocorreu numa economia capitalista e atrav\u00e9s dela [\u2026] mediante revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e transforma\u00e7\u00e3o social perp\u00e9tuas\u201d (HOBSBAWM, 2009, p. 33-34).<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o Industrial Inglesa \u00e9 certamente resultado de um objetivo de classe. Para consolidar seu objetivo o capitalista industrial, teve de se estabelecer como classe dominante em rela\u00e7\u00e3o as outras classes, como as oligarquias agr\u00e1rias e mercantis, por exemplo. A associa\u00e7\u00e3o entre lucro e progresso t\u00e9cnico reflete o car\u00e1ter econ\u00f4mico na base de tal revolu\u00e7\u00e3o: \u201c[\u2026] temos que explicar porque a busca do lucro privado levou \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, e n\u00e3o \u00e9 absolutamente \u00f3bvio que isso aconte\u00e7a automaticamente\u201d (HOBSBAWM, 2009, p. 33).<\/p>\n<p>Podemos dizer que a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial Inglesa \u00e9 resultado de uma outra revolu\u00e7\u00e3o, a Revolu\u00e7\u00e3o gloriosa, a revolu\u00e7\u00e3o burguesa inglesa. Mas, para tanto, precisar\u00edamos estabelecer um conjunto de media\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas que percorre o per\u00edodo de tempo, entre os dois eventos. De qualquer forma uma revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 resultado direto da luta de classes, seja ela uma revolu\u00e7\u00e3o social (como o estabelecimento do pr\u00f3prio capitalismo), seja ela uma revolu\u00e7\u00e3o industrial (transforma\u00e7\u00e3o do regime de acumula\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Para Marx e Engels, \u00e9 verdade que a luta de classes, como processo hist\u00f3rico, levar\u00e1 a revolu\u00e7\u00e3o socialista, mas um amplo conjunto de media\u00e7\u00f5es precisa existir entre esses dois eventos. E, a certeza, de que o capitalismo \u00e9 uma etapa hist\u00f3rica do desenvolvimento econ\u00f4mico autoriza Marx e Engels a afirmarem que o resultado da luta de classes \u00e9 o socialismo. Todavia, a subsun\u00e7\u00e3o da luta de classes ao processo de acumula\u00e7\u00e3o de capital (processo de reifica\u00e7\u00e3o analisado por Luk\u00e1cs de forma t\u00e3o brilhante), pode tornar t\u00e3o el\u00e1stica a contradi\u00e7\u00e3o fundamental do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista que pode fazer perder de vista a dimens\u00e3o da luta de classes como \u00fanica forma poss\u00edvel de supera\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio sistema.<\/p>\n<p>Outro desfecho deveras assustador foi posto pelas novas tecnologias que possibilitaram o desenvolvimento de um capitalismo com domin\u00e2ncia financeira. Que nada mais \u00e9 que um sofisticado sistema global de agiotagem, expropria\u00e7\u00e3o de rendas, apropria\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Estado, de preda\u00e7\u00e3o criminosa dos recursos naturais, de precariza\u00e7\u00e3o do trabalho e domina\u00e7\u00e3o total sobre a classe trabalhadora; o que coloca em risco a pr\u00f3pria vida e seus conte\u00fados (sociedade e natureza).<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>ENGELS, Friedrich.\u00a0<em>Anti-D\u00fchring: a revolu\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia segundo o senhor Eugen D\u00fchring<\/em>. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2015.<\/p>\n<p>________.\u00a0<em>Do socialismo ut\u00f3pico ao socialismo cient\u00edfico<\/em>. S\u00e3o Paulo: Centauro, 2005.<\/p>\n<p>HOBSBAWM. Eric J.\u00a0<em>Da revolu\u00e7\u00e3o industrial inglesa ao imperialismo<\/em>. Rio de Janeiro: Forense Universit\u00e1ria, 2009.<\/p>\n<p>LUK\u00c1CS, Georg.\u00a0<em>Hist\u00f3ria e consci\u00eancia de classe: estudos sobre a dial\u00e9tica marxista<\/em>. S\u00e3o Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.<\/p>\n<p>MARX, Karl; ENGELS, Friedrich.\u00a0<em>Manifesto do partido comunista<\/em>. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2010a.<\/p>\n<p>________.\u00a0<em>Lutas de classes na Alemanha<\/em>. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2010b.<\/p>\n<p>________.\u00a0<em>A ideologia Alem\u00e3: cr\u00edtica da mais recente filosofia alem\u00e3 em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stirner, e do socialismo alem\u00e3o em seus diferentes profetas (1845-1846)<\/em>. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2007.<\/p>\n<p>MARX, Karl.\u00a0<em>Manuscritos econ\u00f4micos-filos\u00f3ficos<\/em>. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2008.<\/p>\n<p>________.\u00a0<em>As lutas de classes na Fran\u00e7a<\/em>. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2012. (Cole\u00e7\u00e3o Marx-Engels). Formato Kindle.<\/p>\n<p>________.\u00a0<em>Mis\u00e9ria da filosofia: resposta \u00e0 filosofia da mis\u00e9ria, do sr. Proudhon<\/em>. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular, 2009.<\/p>\n<p>________.\u00a0<em>Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 cr\u00edtica da economia pol\u00edtica<\/em>. S\u00e3o Paulo: Editora Express\u00e3o Popular, 2008a.<\/p>\n<p>________.\u00a0<em>\u00daltimos escritos econ\u00f4micos<\/em>. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2020.<\/p>\n<p>________.\u00a0<em>Cr\u00edtica da filosofia do direito de Hegel<\/em>. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2010d.<\/p>\n<p>________.<em>\u00a0O Capital: cr\u00edtica da economia pol\u00edtica<\/em>. Livro I: o processo de produ\u00e7\u00e3o do capital. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2017.<\/p>\n<p>________.\u00a0<em>Cr\u00edtica do programa de Gotha<\/em>. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2012a.<\/p>\n<p>________.\u00a0<em>O 18 de brum\u00e1rio de Lu\u00eds Bonaparte<\/em>. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2011.<\/p>\n<p>POSTONE, Moishe.\u00a0<em>Tempo, trabalho e domina\u00e7\u00e3o social: uma reinterpreta\u00e7\u00e3o da teoria cr\u00edtica de Marx<\/em>. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2014.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: A luta de classes na hist\u00f3ria econ\u00f4mica do capitalismo &#8211; A TERRA \u00c9 REDONDA &#8211; https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-luta-de-classes-na-historia-economica-do-capitalismo\/<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>JOS\u00c9 MICAELSON LACERDA MORAIS &#8211; Enquanto negarmos a categoria luta de classes n\u00e3o poderemos avan\u00e7ar tamb\u00e9m na luta contra as for\u00e7as destrutivas dos imperativos do capital Introdu\u00e7\u00e3o \u00c9 preciso resgatar a concep\u00e7\u00e3o de sujeito social e de sociedade contidas na teoria econ\u00f4mica, desde a economia pol\u00edtica cl\u00e1ssica at\u00e9 o pensamento econ\u00f4mico contempor\u00e2neo dominante, para alcan\u00e7armos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":9723,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[2],"tags":[57],"class_list":["post-18314","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-politica","tag-capitalismo"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - 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