{"id":18264,"date":"2022-09-05T12:02:42","date_gmt":"2022-09-05T15:02:42","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18264"},"modified":"2022-09-02T20:04:42","modified_gmt":"2022-09-02T23:04:42","slug":"a-luta-por-coracoes-e-mentes-na-guerra-fria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/09\/05\/a-luta-por-coracoes-e-mentes-na-guerra-fria\/","title":{"rendered":"A luta por cora\u00e7\u00f5es e mentes na Guerra Fria"},"content":{"rendered":"<p><strong>L\u00e9o Ramos Chaves<\/strong>\u2009-\u00a0<span style=\"font-size: 16px;\">Soci\u00f3logo lan\u00e7a livro sobre a atua\u00e7\u00e3o de intelectuais brasileiros durante o conflito pol\u00edtico-ideol\u00f3gico entre Estados Unidos e URSS.<\/span><\/p>\n<p>Depois de mais uma d\u00e9cada de pesquisa, com incurs\u00f5es em arquivos da Fran\u00e7a e dos Estados Unidos, o professor do Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas da Universidade Estadual de Campinas (IFCH-Unicamp) Marcelo Ridenti acaba de lan\u00e7ar O segredo das senhoras americanas: Intelectuais, internacionaliza\u00e7\u00e3o e financiamento na Guerra Fria cultural (Unesp).<\/p>\n<p>Inicialmente em d\u00favida entre Guerra Fria cultural: Passagens internacionais do (sub) desenvolvimento ou Revolu\u00e7\u00e3o, contrarrevolu\u00e7\u00e3o e dinheiro: Passagens da Guerra Fria cultural, o t\u00edtulo escolhido para o livro reflete o desejo do autor de ir al\u00e9m do ambiente universit\u00e1rio. \u201cO t\u00edtulo remete \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o de mist\u00e9rio que envolvia a Guerra Fria e tem a ver com meu objetivo de despertar a curiosidade dos leitores\u201d, explica. \u201cTrata-se, naturalmente, de uma obra acad\u00eamica, mas gostaria de discutir com um p\u00fablico mais amplo o tema da forma\u00e7\u00e3o de elites intelectuais e financiamento estrangeiro, inclusive para mostrar um aspecto raro dessa forma\u00e7\u00e3o no Brasil, geralmente apoiada com recursos do Estado.\u201d<\/p>\n<p>Acostumado a pesquisar principalmente a d\u00e9cada de 1960, nesse novo trabalho Ridenti retrocede aos anos 1950 para tratar da internacionaliza\u00e7\u00e3o de intelectuais \u2013 na obra entendidos em sentido amplo, incluindo certos artistas e estudantes \u2013 em um cen\u00e1rio de disputa entre os Estados Unidos e a Uni\u00e3o das Rep\u00fablicas Socialistas Sovi\u00e9ticas (URSS) pela hegemonia ideol\u00f3gica. Peso maior \u00e9 dado \u00e0 an\u00e1lise do lado ocidental n\u00e3o apenas porque a tem\u00e1tica comunista j\u00e1 foi objeto de outras obras suas, mas, sobretudo, \u201cporque a influ\u00eancia cultural, pol\u00edtica e econ\u00f4mica dos Estados Unidos foi e \u00e9 muito mais expressiva na sociedade brasileira\u201d, informa.<\/p>\n<p>Nesta entrevista, concedida por videoconfer\u00eancia, o soci\u00f3logo fala de suas fontes de pesquisa, conta como o livro foi estruturado e resume seus principais achados \u2013 o que incluiu o segredo das senhoras americanas.<\/p>\n<p><strong>O que o levou a escrever O segredo das senhoras americanas?<br \/>\n<\/strong>Busquei compreender como se deu a conquista de cora\u00e7\u00f5es e mentes de intelectuais brasileiros durante a Guerra Fria. O livro est\u00e1 estruturado em tr\u00eas cap\u00edtulos. O primeiro diz respeito ao empenho sovi\u00e9tico, por exemplo, em criar o Conselho Mundial da Paz, articulado em Moscou e Paris a partir de 1948 e sediado em Praga, na\u00a0 atual Rep\u00fablica Tcheca. Nesse cap\u00edtulo, trato do papel de Jorge Amado [1912-2001], que atuou como uma esp\u00e9cie de embaixador cultural da esquerda brasileira. Com a cassa\u00e7\u00e3o do Partido Comunista, o escritor, que havia sido deputado federal constituinte em 1946, se sentiu perseguido e foi para a Europa denunciar a situa\u00e7\u00e3o durante o governo Dutra [1946-1951]. L\u00e1, enfronhou-se no movimento cultural comunista internacional, que no Ocidente era arquitetado da Fran\u00e7a, sobretudo pelas revistas do Partido Comunista. O principal l\u00edder dessa articula\u00e7\u00e3o era o poeta Louis Aragon [1897-1982]. Com ele e outros, Jorge Amado e o poeta chileno Pablo Neruda [1904-1973] integraram a dire\u00e7\u00e3o do Conselho Mundial da Paz, passaram a viajar o mundo todo e foram imensamente projetados. Convocado para fazer o logotipo do congresso, Pablo Picasso [1881-1973] tamb\u00e9m se tornaria um amigo comum. Naquele momento, p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial, constitu\u00eda-se uma organiza\u00e7\u00e3o de intelectuais em torno de uma palavra de ordem: paz.<\/p>\n<p><strong>E a\u00ed vem a rea\u00e7\u00e3o ocidental, objeto do segundo cap\u00edtulo do livro.<br \/>\n<\/strong>O mundo estava saindo de duas guerras mundiais, da bomba de Hiroshima. A repercuss\u00e3o n\u00e3o era s\u00f3 entre os comunistas, era geral. O lado ocidental n\u00e3o demorou a perceber que esse movimento estava muito forte e tratou de responder com a organiza\u00e7\u00e3o do Congresso pela Liberdade da Cultura, o CLC, fundado em Berlim, na Alemanha, em 1950, mas logo transferido para Paris. O CLC teve escrit\u00f3rios em 35 pa\u00edses, organizou dezenas de revistas, inclusive Cadernos Brasileiros, sediada no Rio de Janeiro e que existiu entre 1959 e 1970. No segundo cap\u00edtulo do livro eu conto esse outro lado, de como o CLC atuou no Brasil, essencialmente por meio da revista. O que a pesquisa evidencia \u00e9 que se tratava de uma frente anticomunista que reunia setores conservadores, liberais, sociais-democratas e at\u00e9 mesmo alguns ex-trotskistas e anarquistas, todos contr\u00e1rios ao chamado totalitarismo, conceito que foi muito difundido internacionalmente por essas revistas. O CLC\u00a0 colocava-se como independente, em defesa da liberdade art\u00edstica e intelectual, mas em 1966 descobriu-se que era financiado secretamente pela CIA.<\/p>\n<p><strong>Nos dois primeiros cap\u00edtulos h\u00e1 uma esp\u00e9cie de intermedia\u00e7\u00e3o cultural que passa por Paris. Isso muda no terceiro.<br \/>\n<\/strong>No terceiro cap\u00edtulo n\u00e3o aparecem mais os franceses. Temos uma rela\u00e7\u00e3o clara com os Estados Unidos, o que evidencia um processo de perda de espa\u00e7o da Fran\u00e7a, com os norte-americanos assumindo o protagonismo para influenciar, no Brasil, a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica em geral e as ci\u00eancias humanas em particular. Nesse cap\u00edtulo, trato de um conv\u00eanio feito com a Universidade Harvard por interm\u00e9dio de algumas senhoras do alto c\u00edrculo do empresariado multinacional no Brasil, que criaram a Associa\u00e7\u00e3o Universit\u00e1ria Interamericana, a AUI.<\/p>\n<p><strong>O tal segredo das senhoras americanas. O que havia de secreto, afinal?<br \/>\n<\/strong>Havia uma trama por tr\u00e1s do conv\u00eanio acad\u00eamico que todo ano, entre 1962 e 1971, enviava gratuitamente em torno de 80 estudantes brasileiros aos Estados Unidos. Ap\u00f3s um processo de sele\u00e7\u00e3o em \u00e2mbito nacional, eles passavam uma semana em casas de fam\u00edlia e duas semanas frequentando um curso de ver\u00e3o na Universidade Harvard, com professores de alto n\u00edvel \u2013 o mais conhecido foi Henry Kissinger, que viria a ocupar, entre 1973 e 1977, o cargo de secret\u00e1rio de Estado nos governos de Richard Nixon [1913-1994] e Gerald Ford [1913-2006]. Terminado o curso, os estudantes viajavam para Washington e Nova York. O segredo das senhoras americanas passa pelo fato de que o financiamento vinha, sobretudo, do governo dos Estados Unidos. Cabia a elas, que no come\u00e7o dos anos 1960 viam os estudantes brasileiros seduzidos pelas propostas da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, cativ\u00e1-los. Essas senhoras queriam mostrar que os Estados Unidos eram um pa\u00eds mais interessante, n\u00e3o escondiam dos estudantes que parte dos recursos tinha origem em empresas multinacionais, mas ficaram bem quietinhas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 participa\u00e7\u00e3o do Departamento de Estado.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea interpreta essa omiss\u00e3o?<br \/>\n<\/strong>Depois do golpe de 1964, um dos grandes inimigos do movimento estudantil no Brasil eram os acordos MEC-Usaid, entre o ent\u00e3o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e Cultura e a Ag\u00eancia Internacional de Desenvolvimento dos Estados Unidos. Dificilmente algum estudante de esquerda aceitaria participar de um programa de interc\u00e2mbio se soubesse que a iniciativa envolvia recursos da Usaid. Ocorre que o interesse do conv\u00eanio, em chamar os melhores universit\u00e1rios do pa\u00eds, n\u00e3o era apenas acad\u00eamico. A ideia era conquistar cora\u00e7\u00f5es e mentes e atrair lideran\u00e7as, por isso uma grande parcela dos selecionados era de esquerda. Hoje se pode constatar que muitos deles tiveram destaque na sociedade. Os estudantes chegaram a ser recebidos na Casa Branca pelo presidente John Kennedy [1917-1963] e, entre 1962 e 1968, por seu irm\u00e3o Robert Kennedy [1925-1968].<\/p>\n<p><strong>Ao longo das 406 p\u00e1ginas do livro percebe-se sua preocupa\u00e7\u00e3o em evitar qualquer tipo de julgamento moral dos intelectuais envolvidos nessa guerra cultural.<br \/>\n<\/strong>Seria um equ\u00edvoco tratar os envolvidos como vendidos para Moscou ou para Washington. H\u00e1 outra no\u00e7\u00e3o disseminada, e igualmente question\u00e1vel, que sugere que os intelectuais seriam inocentes \u00fateis. Ora, eles n\u00e3o conhecem tudo, mas jogam o jogo. H\u00e1 uma passagem do livro em que cito uma entrevista de Louis Mercier-Vega [1914-1977], o anarquista que foi respons\u00e1vel pelo CLC na Am\u00e9rica Latina. Ao ser cobrado, anos depois, ele disse mais ou\u00a0 menos o seguinte: \u201cHavia coisas que eu desconhecia, n\u00e3o sabia que o CLC era financiado pela CIA. Mas, naquele contexto, tudo que n\u00f3s fiz\u00e9ssemos ia ser aproveitado na Guerra Fria por um lado ou por outro. Se fic\u00e1ssemos preocupados se ser\u00edamos ou n\u00e3o usados, n\u00e3o far\u00edamos nada. Ningu\u00e9m jogar\u00e1 o nosso jogo se n\u00e3o o jogarmos n\u00f3s mesmos\u201d. Isso se encaixa perfeitamente na minha hip\u00f3tese de pesquisa. Ou seja, ele estava jogando, tinha uma inten\u00e7\u00e3o, um projeto, e \u00e9 o que eu procuro mostrar. Isso vale para Jorge Amado, Neruda e para os estudantes recrutados pelas senhoras americanas. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que em certa medida eles foram usados, pois as duas pot\u00eancias tinham seus interesses. Mas eles tamb\u00e9m souberam aproveitar as circunst\u00e2ncias para construir suas carreiras, fazer pol\u00edtica e estabelecer redes.<\/p>\n<blockquote><p>Sempre fui cr\u00edtico \u00e0 ideia de tratar os envolvidos como vendidos para Moscou ou para Washington<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Outro aspecto que chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 o car\u00e1ter minucioso de sua pesquisa. Quais fontes e m\u00e9todos foram utilizados?<br \/>\n<\/strong>Al\u00e9m da pr\u00f3pria obra dos autores, tratei dos bastidores de sua produ\u00e7\u00e3o, de como se constru\u00edram as rela\u00e7\u00f5es de sociabilidade entre os intelectuais analisados. Para tanto, trabalhei com documentos em arquivos no Brasil, na Fran\u00e7a e especialmente nos Estados Unidos. Pesquisei registros oficiais, trocas de correspond\u00eancia, jornais e revistas da \u00e9poca, biografias, livros e mem\u00f3rias. Entrevistei v\u00e1rios sujeitos envolvidos, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o cientista pol\u00edtico Paulo S\u00e9rgio Pinheiro. Tamb\u00e9m analisei processos que tramitaram na Justi\u00e7a e filmes do per\u00edodo, no cap\u00edtulo sobre as senhoras americanas, pois obras de fic\u00e7\u00e3o podem atestar que estava em xeque a ideia de perfei\u00e7\u00e3o do American way of life que elas propagavam. Foi o tempo da Guerra do Vietn\u00e3 [1955-1975], do assassinato de l\u00edderes pol\u00edticos, de ascens\u00e3o do movimento negro, do movimento feminista e do modo de vida alternativo dos hippies.\u00a0 Na trilha do soci\u00f3logo e cr\u00edtico liter\u00e1rio Raymond Williams [1921-1988], busco compreender a cultura n\u00e3o como fen\u00f4meno secund\u00e1rio, mero reflexo superestrutural das determina\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, mas constituinte da pr\u00f3pria estrutura\u00e7\u00e3o da sociedade. As constri\u00e7\u00f5es sociais exercem press\u00e3o e imp\u00f5em limites \u00e0 a\u00e7\u00e3o dos sujeitos, que entretanto t\u00eam margem para dar respostas diferenciadas a elas, como as analisadas no livro.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 um trecho do seu livro em que voc\u00ea trata da ideia de que produzir conhecimento cient\u00edfico para superar os problemas sociais seria uma necessidade no processo de desenvolvimento nacional. Poderia falar um pouco sobre isso?<br \/>\n<\/strong>Veja o caso do Mercier-Vega. Qual era o jogo dele? Ajudar a montar uma rede intelectual na Am\u00e9rica Latina por interm\u00e9dio de revistas. Ent\u00e3o ele fundou a Aportes e essa revista publicou ao longo do tempo, por exemplo, Fernando Henrique Cardoso, Florestan Fernandes [1920-1995] e Gilberto Freyre [1900-1987]. Deu espa\u00e7o para as diferentes correntes nas ci\u00eancias sociais que floresciam, tendo em comum o desejo de profissionaliza\u00e7\u00e3o e de pesquisar de modo objetivo, recorrendo a m\u00e9todos cient\u00edficos de investiga\u00e7\u00e3o para o conhecimento da realidade. Todas irmanadas na cren\u00e7a, apesar de suas discord\u00e2ncias, de que a constru\u00e7\u00e3o institucional da pesquisa na universidade e a montagem de um sistema integrado de ci\u00eancia e tecnologia seriam decisivas ao desenvolvimento nacional. Mercier n\u00e3o exclu\u00eda nenhuma vertente, apostava na cria\u00e7\u00e3o de uma rede intelectual que ajudaria a resolver os problemas sociais pela an\u00e1lise objetiva das ci\u00eancias sociais. Essa era a utopia dele. Quando em 1966 houve a revela\u00e7\u00e3o de que a CIA estava por tr\u00e1s do CLC, isso n\u00e3o teve, supreendentemente no caso da Cadernos Brasileiros, uma grande repercuss\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>E como se explica isso?<br \/>\n<\/strong>Primeiro porque a revista era sombreada por outras mais cr\u00edticas, como a Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira. Depois porque na ocasi\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o eram ag\u00eancias de fachada da CIA que financiavam o CLC, mas sim a respeit\u00e1vel Funda\u00e7\u00e3o Ford. A raz\u00e3o principal \u00e9 que Cadernos Brasileiros abria espa\u00e7o para intelectuais e artistas com posi\u00e7\u00f5es mais liberais ou mais \u00e0 esquerda, articulando uma esp\u00e9cie de consenso pela ci\u00eancia e pela cultura. Havia empenho em debater e descobrir a objetividade da organiza\u00e7\u00e3o da sociedade. A l\u00f3gica da revista envolvia a defesa da liberdade da cultura e a propaga\u00e7\u00e3o das ci\u00eancias sociais em diversas vertentes, ainda que os principais mentores pertencessem \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o funcionalista da sociologia norte-americana, imaginando que haveria solu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas para quest\u00f5es pol\u00edticas. Houve um n\u00famero dedicado ao movimento negro, outro aos estudantes e um terceiro ao catolicismo de esquerda. Tamb\u00e9m eram promovidos debates plurais em atividades paralelas e mostras de artes no Rio de Janeiro, na galeria Goeldi, ligada ao CLC. Al\u00e9m do mais, a partir de 1966, a revista estava na frente cr\u00edtica \u00e0 perman\u00eancia dos militares no governo, cujos ataques ao meio art\u00edstico e intelectual confrontavam os princ\u00edpios do CLC.<\/p>\n<blockquote><p>Entre 1964 e 1968 os estudantes foram o setor mais expressivo do movimento social brasileiro<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Voc\u00ea dedica um espa\u00e7o relevante \u00e0 reflex\u00e3o sobre o estudantado, especialmente no terceiro cap\u00edtulo de sua obra. Por qu\u00ea?<br \/>\n<\/strong>Entre 1964 e 1968 os estudantes foram o setor mais expressivo do movimento social brasileiro. Depois do golpe militar houve uma repress\u00e3o brutal contra o movimento dos trabalhadores rurais e urbanos, mas como o golpe foi apoiado pelas classes m\u00e9dias houve certa toler\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 movimenta\u00e7\u00e3o estudantil e ao mundo cultural \u2013 que seria duramente combatida a partir de 1968. H\u00e1 um exemplo que ilustra bem essa toler\u00e2ncia e tamb\u00e9m as ambiguidades envolvidas. Durante uma manifesta\u00e7\u00e3o em Porto Alegre, alguns estudantes queimaram uma bandeira dos Estados Unidos, fato informado pela pol\u00edcia \u00e0s autoridades daquele pa\u00eds, que a princ\u00edpio decidiram que eles n\u00e3o estariam autorizados a viajar pelo programa das senhoras americanas. Rapidamente os estudantes ga\u00fachos de esquerda, que haviam sido selecionados pela AUI, reagiram: \u201cSe eles n\u00e3o forem, ningu\u00e9m mais vai\u201d. Para evitar uma desist\u00eancia em massa, uma das senhoras americanas articulou um acordo e todos os selecionados acabaram embarcando.<\/p>\n<p><strong>Ao t\u00e9rmino do seu livro emerge com for\u00e7a a complexidade envolvendo escolhas individuais no contexto da Guerra Fria e as m\u00faltiplas implica\u00e7\u00f5es para os intelectuais.<br \/>\n<\/strong>De fato, as implica\u00e7\u00f5es foram muitas e no cap\u00edtulo final eu trato do c\u00e9u e do inferno do lado norte-americano. H\u00e1 um exemplo bem emblem\u00e1tico dessa realidade, que \u00e9 o caso registrado por Fl\u00e1vio Tavares em seu livro de mem\u00f3rias. O jornalista conta que um r\u00e1dio foi adaptado para fazer as vezes de manivela da m\u00e1quina que lhe aplicava choques el\u00e9tricos, nas sess\u00f5es de tortura a que foi submetido durante a ditadura militar. E no r\u00e1dio estava o s\u00edmbolo da Alian\u00e7a para o Progresso, o conv\u00eanio que os Estados Unidos estabeleceram para apoiar o desenvolvimento da Am\u00e9rica Latina. Ou seja, o r\u00e1dio doado para atividade de assist\u00eancia e convencimento foi convertido em instrumento de supl\u00edcio. Nesse cap\u00edtulo eu analiso tr\u00eas epis\u00f3dios de morte e os casos de cerca de duas dezenas de estudantes que participaram do interc\u00e2mbio e, por raz\u00f5es outras, acabaram processados na Justi\u00e7a Militar. Alguns intelectuais souberam jogar e ganhar para as suas carreiras, para os seus interesses pol\u00edticos, n\u00e3o s\u00f3 individuais, mas tamb\u00e9m coletivos. Isso implicou riscos, inclusive de vida. Cruzando para a fronteira da fic\u00e7\u00e3o, esse n\u00e3o deixa de ser um tema de meu romance hist\u00f3rico no prelo da editora Boitempo.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Marcelo Ridenti: A luta por cora\u00e7\u00f5es e mentes na Guerra Fria : Revista Pesquisa Fapesp &#8211; https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/marcelo-ridenti-a-luta-por-coracoes-e-mentes-na-guerra-fria\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>L\u00e9o Ramos Chaves\u2009-\u00a0Soci\u00f3logo lan\u00e7a livro sobre a atua\u00e7\u00e3o de intelectuais brasileiros durante o conflito pol\u00edtico-ideol\u00f3gico entre Estados Unidos e URSS. 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