{"id":18256,"date":"2022-09-02T12:29:18","date_gmt":"2022-09-02T15:29:18","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18256"},"modified":"2022-08-29T16:32:51","modified_gmt":"2022-08-29T19:32:51","slug":"josue-de-castro-brasil-da-fome-ontem-e-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/09\/02\/josue-de-castro-brasil-da-fome-ontem-e-hoje\/","title":{"rendered":"Josu\u00e9 de Castro: Brasil da fome, ontem e hoje"},"content":{"rendered":"<p><strong>Renato Carvalheira do Nascimento<\/strong> &#8211; O flagelo retorna e j\u00e1 assola 58% dos lares brasileiros. Sete conceitos do pensador pernambucano \u2013 como a <i>ci\u00eancia engajada<\/i> \u2013 s\u00e3o pistas para super\u00e1-lo. Ser\u00e1 preciso entender complexa geografia das injusti\u00e7as e outro modelo de desenvolvimento.<\/p>\n<p class=\"has-background\">Este texto, originalmente intitulado \u201cSete chaves para pensar o atual cen\u00e1rio da fome no\u00a0Brasil: a contribui\u00e7\u00e3o de\u00a0Josu\u00e9 de Castro\u201d, integra o livro rec\u00e9m-lan\u00e7ado da Editora Elefante:\u00a0<strong><em><a href=\"https:\/\/elefanteeditora.com.br\/produto\/da-fome-a-fome\/\">Da fome \u00e0 fome: di\u00e1logos com Josu\u00e9 de Castro<\/a><\/em><\/strong>, organizado por Tereza Campello e Ana Paula Bortoletto. Quem apoia o jornalismo de Outras Palavras tem desconto de 25% na editora.\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outrosquinhentos\/?_ga=2.189351336.2089890963.1658934053-1955604116.1582955165\">Saiba mais<\/a><\/strong><\/p>\n<p>O te\u00f3rico pernambucano Josu\u00e9 de Castro se inscreve no rol de intelectuais que apresentaram formas originais de compreender a realidade brasileira. Com ele, veio abaixo a imagem de um Brasil generoso, de natureza colossal e exuberante, no qual supostamente n\u00e3o haveria escassez de alimentos. Por meio de sua extensa e profunda obra, Josu\u00e9 de Castro descortinou um Brasil que, de norte a sul, de forma direta ou indireta, estava marcado pelo problema da fome \u2014 n\u00e3o tanto devido \u00e0s condi\u00e7\u00f5es naturais, mas, sobretudo, por causa do pr\u00f3prio homem e da estrutura socioecon\u00f4mica implantada no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Os milh\u00f5es de brasileiros que passam fome<a id=\"sdfootnote1anc\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fdesigualdades-mundo%2Fjosue-de-castro-brasilda-fome-ontem-e-hoje%2F#sdfootnote1sym\"><sup>1<\/sup><\/a>\u00a0hoje sinalizam que a obra de Josu\u00e9 de Castro resiste \u00e0 prova do tempo e precisa ser revisitada. Com o atual cen\u00e1rio marcado por um modelo de desenvolvimento agroexportador, com forte e crescente presen\u00e7a de produtos aliment\u00edcios ultraprocessados e profundas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, uma nova geografia da fome vem se materializando.<\/p>\n<p>Este texto se prop\u00f5e a recolher os principais pontos da obra de Josu\u00e9 de Castro que estimulam o atual debate sobre a fome no Brasil. S\u00e3o sete ideias-for\u00e7as que sustentam a constru\u00e7\u00e3o de uma narrativa sobre esse fen\u00f4meno e contribuem para se pensar as profundas transforma\u00e7\u00f5es \u2014 e consequ\u00eancias \u2014 dos sistemas alimentares no Brasil entre 1946, quando\u00a0<em>Geografia da fome<\/em>\u00a0foi lan\u00e7ado, e os dias de hoje.<\/p>\n<p><strong>1) A fome \u00e9 multidisciplinar, com complexas dimens\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>O conceito de fome constru\u00eddo por Josu\u00e9 de Castro \u00e9 multifacetado, pois sua forma\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m o \u00e9. Diplomado como m\u00e9dico, ele nunca parou de estudar: interessou-se por v\u00e1rios temas e se envolveu com diferentes campos do conhecimento, como medicina, nutri\u00e7\u00e3o, geografia, antropologia, psicologia, sociologia, educa\u00e7\u00e3o, filosofia, artes, economia pol\u00edtica, ecologia, hist\u00f3ria e rela\u00e7\u00f5es internacionais. Da intera\u00e7\u00e3o entre tantas \u00e1reas de estudo, o intelectual pernambucano foi capaz de reunir m\u00faltiplos focos e olhares sobre o fen\u00f4meno da fome \u2014 o grande tema de sua trajet\u00f3ria, uma verdadeira miss\u00e3o a cumprir em vida.<\/p>\n<p>Se nas primeiras publica\u00e7\u00f5es, nos anos 1920, suas preocupa\u00e7\u00f5es eram mais ligadas \u00e0 \u00e1rea m\u00e9dico-nutricional, a partir dos anos 1940 as quest\u00f5es de cunho social, pol\u00edtico e econ\u00f4mico passam a ser cada vez mais incorporadas em sua obra (Magalh\u00e3es, 1997). A abordagem do te\u00f3rico parte dessa ampla forma\u00e7\u00e3o, e \u00e9 justamente nesse contexto que\u00a0<em>Geografia da fome<\/em>, um livro-s\u00edntese, nasce em 1946.<\/p>\n<p>Representando uma abordagem metodol\u00f3gica inovadora, sua obra retirou o tema da fome do enfoque parcial e miniaturizado em que se encontrava e o expandiu em diferentes \u00e2ngulos, detectando-o e articulando-o com a realidade do Brasil como pa\u00eds subdesenvolvido. Josu\u00e9 de Castro concebeu a quest\u00e3o da alimenta\u00e7\u00e3o como um complexo de manifesta\u00e7\u00f5es simultaneamente biol\u00f3gicas e sociais, e ensinou: a fome \u00e9 complexa, e complexos ser\u00e3o seu entendimento e sua solu\u00e7\u00e3o. Para compreender esse fen\u00f4meno<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>s\u00e3o precisos, de um lado, estudos aprofundados da fisiologia da nutri\u00e7\u00e3o, dos caracteres f\u00edsicos e morais do povo dessa regi\u00e3o, de sua evolu\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica, de sua capacidade e resist\u00eancia org\u00e2nica e, de outro lado, estudos das condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas do meio, das suas condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, da organiza\u00e7\u00e3o social e dos g\u00eaneros de vida dos seus habitantes. Abarca, assim, o estudo da alimenta\u00e7\u00e3o, cap\u00edtulos de biologia, de antropologia, f\u00edsica e cultural, de etnografia, de patologia, de sociologia, de economia pol\u00edtica e mesmo de hist\u00f3ria. (Castro, 1937, p.\u00a022-3)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>2) A fome como fen\u00f4meno social total<\/strong><\/p>\n<p>A no\u00e7\u00e3o de fome proposta por Josu\u00e9 de Castro pode ser explicada pelo conceito de fato social total ou fen\u00f4meno social total, inicialmente formulada pelo antrop\u00f3logo franc\u00eas Marcel Mauss no c\u00e9lebre\u00a0<em>Ensaio sobre a d\u00e1diva: forma e raz\u00e3o da troca nas sociedades arcaicas<\/em>,publicado em 1923. Trata-se de um conceito central nas ci\u00eancias sociais. No fato social total, exprimem-se, de uma s\u00f3 vez, as mais diversas institui\u00e7\u00f5es: religiosas, jur\u00eddicas, morais (pol\u00edticas e familiares) e econ\u00f4micas (Mauss, 2003, p.\u00a0187).<\/p>\n<p>O conceito estabelece dois princ\u00edpios essenciais. O primeiro prop\u00f5e que um fen\u00f4meno social \u00e9 sempre complexo e apresenta v\u00e1rias dimens\u00f5es; al\u00e9m disso, esses princ\u00edpios podem ser visualizados e entendidos a partir de diferentes \u00e2ngulos, que, por sua vez, t\u00eam a finalidade de acentuar uma ou v\u00e1rias das dimens\u00f5es existentes. \u00c9 uma atividade com implica\u00e7\u00f5es em toda a sociedade, como uma totalidade. A partir dele, \u00e9 poss\u00edvel interpretar v\u00e1rios aspectos de uma sociedade ao se estabelecer conex\u00f5es com outros fen\u00f4menos sociais, econ\u00f4micos ou culturais. O\u00a0segundo princ\u00edpio \u00e9 que todo comportamento se volta para a sociedade ou para o grupo e s\u00f3 pode ser considerado, em primeiro lugar, fen\u00f4meno social nesse contexto. Assim, esse comportamento s\u00f3 pode ser entendido e estudado a partir das rela\u00e7\u00f5es que estabelece com a sociedade. Casos individuais n\u00e3o s\u00e3o o foco dos fen\u00f4menos sociais.<\/p>\n<p>Era exatamente o que pensava Josu\u00e9 de Castro sobre o fen\u00f4meno da fome, quando aparece diretamente relacionado ao contexto de uma na\u00e7\u00e3o terceiro-mundista, de um capitalismo atrasado e perif\u00e9rico, ligado \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds escravocrata e agroexportador como o Brasil.<\/p>\n<p>Nos primeiros escritos, o jovem m\u00e9dico lan\u00e7a m\u00e3o de temas ausentes na discuss\u00e3o cl\u00ednica da nutri\u00e7\u00e3o, como ra\u00e7a, evolu\u00e7\u00e3o social e identidade nacional. A fome, enquanto fen\u00f4meno social total, perpassa, inclusive, nossa identidade como na\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, a ra\u00e7a n\u00e3o era explica\u00e7\u00e3o para os males do Brasil, e sim a fome, que grassa principalmente entre a classe trabalhadora e mais pobre do pa\u00eds:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Se a maioria dos mulatos se comp\u00f5e de seres estiolados, com d\u00e9ficit mental e incapacidade f\u00edsica, n\u00e3o \u00e9 por efeito duma tara racial, \u00e9 por causa do est\u00f4mago vazio. N\u00e3o \u00e9 mal de ra\u00e7a, \u00e9 mal de fome. \u00c9 a alimenta\u00e7\u00e3o insuficiente que n\u00e3o lhe permite um desenvolvimento completo e um funcionamento normal. [\u2026] Da\u00ed a import\u00e2ncia do estudo cient\u00edfico da alimenta\u00e7\u00e3o e o interesse dos verdadeiros soci\u00f3logos em conhecer os h\u00e1bitos alimentares de cada povo, para melhor esclarecimento de sua forma\u00e7\u00e3o e evolu\u00e7\u00e3o econ\u00f4mico-sociais. (Castro, 1968a, p.\u00a067-8)<\/p><\/blockquote>\n<p>Gradualmente, o conceito dessa calamidade social passa por um processo de conex\u00e3o entre o sistema natural e o sistema social. Em especial a partir da obra\u00a0<em>Geografia da fome<\/em>, o fen\u00f4meno ganha contornos n\u00e3o s\u00f3 m\u00e9dico-nutricionais, mas sociais, pol\u00edticos, econ\u00f4micos e hist\u00f3ricos.<\/p>\n<p><strong>3) A geografia como m\u00e9todo<\/strong><\/p>\n<p>A nova abordagem metodol\u00f3gica de Josu\u00e9 de Castro \u00e9 esbo\u00e7ada, a princ\u00edpio, em\u00a0<em>Alimenta\u00e7\u00e3o brasileira \u00e0 luz da geografia humana<\/em>\u00a0(1937) e depois concretizada em\u00a0<em>Geografia da fome<\/em>. Baseava-se na necessidade de se conhecer quantas e quais eram as pessoas que passavam fome nas diferentes partes do Brasil, bem como de determinar suas causas e consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>Para isso, o autor utilizou-se do geoprocessamento e da multidisciplinaridade como dois elementos basilares de sua metodologia. O primeiro consistia no mapeamento das calamidades sociais de um ponto de vista processual, isto \u00e9, um fen\u00f4meno que tem uma ou v\u00e1rias causas, um desenvolvimento e um ou mais resultados. J\u00e1 o uso da multidisciplinaridade teria fins de explicar seu principal objeto de estudo, a fome, por meio da combina\u00e7\u00e3o e da rela\u00e7\u00e3o dos diferentes conhecimentos cient\u00edficos, como j\u00e1 apontado.<\/p>\n<p>O m\u00e9todo do geoprocessamento se diferenciou um pouco do que era empregado nas d\u00e9cadas de 1930 e 1940, concebido somente em termos econ\u00f4mico-estat\u00edsticos, utilizando-se muito da m\u00e9dia para analisar uma sociedade: m\u00e9dia do pib<em>\u00a0per capita<\/em>, m\u00e9dia de idade da popula\u00e7\u00e3o e outras m\u00e9dias que figuravam nos argumentos a favor da teoria do progresso a todo custo. Para Josu\u00e9 de Castro, esse instrumento estat\u00edstico mascarava uma realidade heterog\u00eanea, desigual e injusta como a brasileira, o que obviamente n\u00e3o explicava, por si s\u00f3, a natureza dos fen\u00f4menos sociais.<\/p>\n<p>Para sua melhor compreens\u00e3o, de acordo com o intelectual pernambucano, a fome precisava ser analisada por meio do estudo de sua distribui\u00e7\u00e3o em diferentes regi\u00f5es do Brasil e do mundo, compondo um mosaico que revelasse suas diferentes express\u00f5es. Para tanto, o te\u00f3rico lan\u00e7a m\u00e3o do uso moderno da geografia:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>S\u00f3 a Geografia, que considera a terra como um todo e que ensina a saber ver os fen\u00f4menos que se passam em sua superf\u00edcie, a observ\u00e1-los, agrup\u00e1-los e classific\u00e1-los, tendo em vista a sua localiza\u00e7\u00e3o, extens\u00e3o, coordena\u00e7\u00e3o e causalidade, pode orientar o esp\u00edrito humano na an\u00e1lise do vasto problema da alimenta\u00e7\u00e3o. (Castro, 1937, p.\u00a025-6)<\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9 a partir do m\u00e9todo geogr\u00e1fico, particularmente dos mapeamentos das calamidades sociais, que Josu\u00e9 de Castro p\u00f4de entender melhor a fome, manifestada e evidenciada de maneiras diferentes em cada regi\u00e3o, mas com algumas caracter\u00edsticas comuns a todas elas. Esse perfil geogr\u00e1fico e populacional dos esfomeados, tra\u00e7ado inicialmente pelo te\u00f3rico, \u00e9 extremamente atual.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-center\">Mapa da fome de Josu\u00e9 de Castro\u00a0<em>Geografia da fome<\/em>\u00a0(1946)<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3068303\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/07\/26170228\/MAPA-551x1024.png?resize=640%2C1189&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/07\/26170228\/MAPA-551x1024.png 551w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/07\/26170228\/MAPA-161x300.png 161w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/07\/26170228\/MAPA.png 736w, \" alt=\"\" width=\"640\" height=\"1189\" \/><\/figure>\n<\/div>\n<p><strong>4) A quest\u00e3o do subdesenvolvimento<\/strong><\/p>\n<p>Em Josu\u00e9 de Castro, ap\u00f3s os anos 1940, a fome \u00e9 discutida tendo como pano de fundo a tem\u00e1tica do (sub)desenvolvimento. Segundo o autor, a fome, em suas diferentes formas \u2014 quantitativa e qualitativamente \u2014, \u00e9 sempre produto direto do subdesenvolvimento, que, por si, n\u00e3o seria um fatalismo, mas um acidente hist\u00f3rico provocado por for\u00e7a das circunst\u00e2ncias (Castro, 1996, p.\u00a039).<\/p>\n<p>Ao apontar a rela\u00e7\u00e3o direta entre fome e desenvolvimento, mais precisamente a fome como resultado imediato do subdesenvolvimento, e as graves consequ\u00eancias dessa condi\u00e7\u00e3o para a popula\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses mais pobres, o autor reivindica o direito dos pa\u00edses do Terceiro Mundo de ter as mesmas condi\u00e7\u00f5es de vida que os pa\u00edses do Norte. Devido a essa posi\u00e7\u00e3o reivindicat\u00f3ria e alarmista, Josu\u00e9 de Castro passa a ser conhecido como advogado do Terceiro Mundo.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>O que caracteriza por excel\u00eancia o subdesenvolvimento \u00e9 o desn\u00edvel, \u00e9 a disparidade entre os n\u00edveis de produ\u00e7\u00e3o, de renda e de capacidade de consumo entre diferentes camadas sociais e entre diferentes regi\u00f5es que comp\u00f5em o espa\u00e7o sociogeogr\u00e1fico da na\u00e7\u00e3o. (Castro, 1968b, p.\u00a066)<\/p><\/blockquote>\n<p>Para Josu\u00e9 de Castro, promover o desenvolvimento econ\u00f4mico e social significava atenuar esses desn\u00edveis. Sua luta era por uma nova concep\u00e7\u00e3o de desenvolvimento que levasse em conta os fatores humanos e que tornasse a alimenta\u00e7\u00e3o uma prioridade (Taranto, 1993). O atraso do setor rural, percebido por Josu\u00e9 de Castro como uma das principais causas do subdesenvolvimento no Brasil, era fruto, em grande medida, do \u201carca\u00edsmo das estruturas agr\u00e1rias\u201d existentes desde os tempos da Col\u00f4nia. Para superar esse problema, era necess\u00e1ria uma mudan\u00e7a radical a partir da implementa\u00e7\u00e3o de uma verdadeira reforma agr\u00e1ria.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e0 toa, Josu\u00e9 de Castro se elege deputado federal em 1954 apoiado pelo l\u00edder campon\u00eas Francisco Juli\u00e3o, com a bandeira da reforma agr\u00e1ria e da valoriza\u00e7\u00e3o da agricultura que ele chamava de sustenta\u00e7\u00e3o, compreendida hoje como agricultura familiar (Schappo, 2008).<\/p>\n<p><strong>5) A ecologia como novo par\u00e2metro civilizat\u00f3rio<\/strong><\/p>\n<p>A quest\u00e3o ambiental e ecol\u00f3gica em Josu\u00e9 de Castro est\u00e1 diretamente relacionada com a multidisciplinaridade de seu m\u00e9todo e com o conceito de fen\u00f4meno social total j\u00e1 mencionados. O conceito de meio ambiente n\u00e3o \u00e9 tomado isoladamente, como ele indica no artigo \u201cSubdesenvolvimento: causa primeira de polui\u00e7\u00e3o\u201d, de 1973:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Uma an\u00e1lise correta do meio deve abarcar o impacto total do homem e de sua cultura sobre os elementos restantes do contorno, e o impacto dos fatores ambientais sobre a vida do grupo humano considerado como uma totalidade. Desse ponto de vista, o meio abrange aspectos biol\u00f3gicos, fisiol\u00f3gicos, econ\u00f4micos e culturais, todos combinados na mesma trama de uma din\u00e2mica ecol\u00f3gica em transforma\u00e7\u00e3o permanente. (<em>apud<\/em>\u00a0Castro, 1996, p.\u00a0110)<\/p><\/blockquote>\n<p>O pernambucano alertava para a crise ecol\u00f3gica j\u00e1 nos anos 1970. Afirmava ser invi\u00e1vel a manuten\u00e7\u00e3o do ent\u00e3o modelo de crescimento e propunha uma solu\u00e7\u00e3o que considerasse a realidade dos pa\u00edses subdesenvolvidos e os fatores que determinavam o crescimento, como as estruturas econ\u00f4micas, sociais e pol\u00edticas, sem omitir o homem e sua cultura (Castro, 1996).<\/p>\n<p>A cr\u00edtica de Josu\u00e9 de Castro inscreve-se na solu\u00e7\u00e3o te\u00f3rica oferecida pelo economista polon\u00eas Ignacy Sachs, o ecodesenvolvimento, que desloca o problema do aspecto puramente quantitativo \u2014 crescer ou n\u00e3o \u2014 para o exame da qualidade do crescimento. Como afirma o te\u00f3rico da fome:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Crescer \u00e9 uma coisa, desenvolver, outra. Crescer \u00e9, em linhas gerais, f\u00e1cil. Desenvolver equilibradamente, dif\u00edcil. T\u00e3o dif\u00edcil que nenhum pa\u00eds do mundo conseguiu ainda. Dessa perspectiva, o mundo todo continua mais ou menos subdesenvolvido. (<em>apud<\/em>\u00a0Castro, 1996, p.\u00a0111)<\/p><\/blockquote>\n<p>De acordo com Sachs, a atualidade de\u00a0<em>Geografia da fome<\/em>\u00a0repousa na dupla sensibilidade social e ecol\u00f3gica, sendo o conceito de ecodesenvolvimento \u2014 a tentativa de definir estrat\u00e9gias de desenvolvimento socialmente \u00fateis, ecologicamente sustent\u00e1veis e economicamente vi\u00e1veis \u2014 fruto direto da preocupa\u00e7\u00e3o de Josu\u00e9 de Castro (Minayo, 1985). Cabe afirmar, portanto, que Josu\u00e9 de Castro \u00e9 um dos precursores do conceito de desenvolvimento sustent\u00e1vel. Para ele, a quest\u00e3o ambiental representava um novo marco civilizat\u00f3rio.<\/p>\n<p><strong>6) Ci\u00eancia engajada, ci\u00eancia comprometida<\/strong><\/p>\n<p>Josu\u00e9 de Castro concebe a ci\u00eancia de maneira anticl\u00e1ssica e antiacad\u00eamica. \u00c9 o que se depreende da introdu\u00e7\u00e3o ao livro\u00a0<em>Sete palmos de terra e um caix\u00e3o<\/em>, de 1965. Ao falar sobre o estudo, ele faz uma ressalva que nos ajuda a explicar essa concep\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>N\u00e3o \u00e9 este um ensaio de Sociologia cl\u00e1ssica. De uma Sociologia acad\u00eamica [\u2026]. O nosso estudo sociol\u00f3gico \u00e9 o oposto deste g\u00eanero de ensaio. \u00c9 um estudo de Sociologia participante ou comprometida. De uma Sociologia que n\u00e3o teme interferir no processo da mudan\u00e7a social com os seus achados e, por isso mesmo, n\u00e3o tem o menor interesse em encobrir os tra\u00e7os de uma realidade social, cuja revela\u00e7\u00e3o possa acarretar preju\u00edzos a determinados grupos ou classes dominantes. (Castro, 1969, p.\u00a015)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>7) A representa\u00e7\u00e3o social da popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de fome<\/strong><\/p>\n<p>Quando se aproximou da antropologia, na d\u00e9cada de 1930, Josu\u00e9 de Castro percebeu a import\u00e2ncia do fator cultural para o entendimento da sociedade brasileira. No que se refere \u00e0 quest\u00e3o alimentar, o soci\u00f3logo da fome passa a olhar n\u00e3o s\u00f3 para a estrutura socioecon\u00f4mica do pa\u00eds, como tamb\u00e9m identifica e caracteriza as receitas, os modos de comer, os hor\u00e1rios das alimenta\u00e7\u00f5es e uma s\u00e9rie de h\u00e1bitos e costumes que o ajudam a analisar a fome em cada regi\u00e3o brasileira:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>N\u00e3o temos a pretens\u00e3o de investigar a fundo, numa sondagem definitiva, a influ\u00eancia de todos os fatores dessa categoria \u2014 ra\u00e7a, clima, meio bi\u00f3tico etc. \u2014 que constituem a base org\u00e2nica da estrutura social dos nossos grupos humanos. Estudando, por\u00e9m, os recursos e os h\u00e1bitos alimentares de v\u00e1rias regi\u00f5es, teremos for\u00e7osamente que levar em considera\u00e7\u00e3o todos esses fatores ecol\u00f3gicos que participam ativamente na intera\u00e7\u00e3o do elemento humano e dos quadros geogr\u00e1ficos brasileiros. (Castro, 1992, p.\u00a040)<\/p><\/blockquote>\n<p>Com base na intera\u00e7\u00e3o homem\/natureza, Josu\u00e9 de Castro deixou algumas pistas para se pensar a fome por meio da representa\u00e7\u00e3o social da popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria (Nascimento, 2002): o que pensam, como agem, o que sentem e quais as estrat\u00e9gias de sobreviv\u00eancia das pessoas que passam fome? Por esse caminho, percebia o grau de adapta\u00e7\u00e3o e ajustamento do homem aos variados ecossistemas das regi\u00f5es de fome no Brasil, como bem demonstrou em seu reconhecido ensaio \u201cCiclo do caranguejo\u201d, publicado em 1937.<\/p>\n<p>Modernamente, os homens-caranguejo foram substitu\u00eddos pelo homens-gabiru de que fala Tarciana Portella, coautora de\u00a0<em>Homem-gabiru: cataloga\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie<\/em>:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>O homem-gabiru \u00e9 o homem comido pela fome. Ele pode estar na cidade, nas metr\u00f3poles, ele pode estar no sert\u00e3o, ele pode estar em todo lugar. A gente fez um paralelo com o rato, porque \u00e9 um bicho que se prolifera sem controle. \u00c9 um bicho que d\u00e1 nojo, \u00e9 um bicho que se quer exterminar, que causa p\u00e2nico, que causa pavor, que causa doen\u00e7as, porque tamb\u00e9m essas s\u00e3o as sensa\u00e7\u00f5es que os seres famintos causam nos cidad\u00e3os que comem todos os dias. (Portella, Aamot &amp; Passavante, 1992, p.\u00a011)<\/p><\/blockquote>\n<p>Dos homens-caranguejo aos homens-gabiru, as t\u00e1ticas de sobreviv\u00eancia mudaram, mas a fome permanece. Segundo o recente inqu\u00e9rito da Rede Penssan (2022), o retrato da fome hoje \u00e9 composto principalmente por gente do sexo feminino, moradora da periferia ou do meio rural, com baixa escolaridade ou analfabeta, pobre, negra, quilombola, ind\u00edgena. A fome tem g\u00eanero, cor, endere\u00e7o e grau de escolaridade. A\u00a0fome, portanto, tem cara: essa \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o de que falava Josu\u00e9 de Castro; essas s\u00e3o as pessoas a quem ele dedicou a vida e as quais p\u00f4s no centro da responsabilidade social do mundo.<\/p>\n<p>Esses s\u00e3o sete conceitos que nos auxiliam a entender o Brasil atual, que nos d\u00e3o chaves de conhecimento para compreender a fome num pa\u00eds t\u00e3o rico. A percep\u00e7\u00e3o de que a fome \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o humana contra a pr\u00f3pria humanidade \u2014 e que, portanto, pode ser desconstru\u00edda \u2014 foi, sem d\u00favida, a grande contribui\u00e7\u00e3o de Josu\u00e9 de Castro para a ci\u00eancia.<\/p>\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>CASTRO, Anna Maria de (org.).\u00a0<em>Fome, um tema proibido: \u00faltimos escritos de Josu\u00e9 de Castro<\/em>.\u00a03<sup><u>a<\/u><\/sup>\u00a0ed. Recife: Instituto de Planejamento de Pernambuco\/Companhia Editora de Pernambuco, 1996.<\/p>\n<p>CASTRO, Josu\u00e9 de.\u00a0<em>Alimenta\u00e7\u00e3o e ra\u00e7a<\/em>. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1936.<\/p>\n<p>CASTRO, Josu\u00e9 de.\u00a0<em>A alimenta\u00e7\u00e3o brasileira \u00e0 luz da geografia humana<\/em>. Rio de Janeiro: Globo, 1937.<\/p>\n<p>CASTRO, Josu\u00e9 de.\u00a0<em>Document\u00e1rio do Nordeste<\/em>.\u00a04<sup><u>a<\/u><\/sup>\u00a0ed. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1968a.<\/p>\n<p>CASTRO, Josu\u00e9 de.\u00a0<em>Geopol\u00edtica da fome<\/em>.\u00a08<sup><u>a<\/u><\/sup>\u00a0ed. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1968b.<\/p>\n<p>CASTRO, Josu\u00e9 de.\u00a0<em>Sete palmos de terra e um caix\u00e3o<\/em>.\u00a03<sup><u>a<\/u><\/sup>\u00a0ed. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1969.<\/p>\n<p>CASTRO, Josu\u00e9 de.\u00a0<em>Geografia da fome<\/em>.\u00a011<sup><u>a<\/u><\/sup>\u00a0ed. Rio de Janeiro: Gryphus, 1992.<\/p>\n<p>MAGALH\u00c3ES, Rosana.\u00a0<em>Fome: uma (re)leitura de Josu\u00e9 de Castro<\/em>. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1997.<\/p>\n<p>MAUSS, Marcel. \u201cEnsaio sobre a d\u00e1diva: forma e raz\u00e3o da troca nas sociedades arcaicas\u201d.\u00a0<em>In<\/em>: mauss, Marcel.\u00a0<em>Sociologia e antropologia<\/em>. Trad. Paulo Neves. S\u00e3o Paulo: Cosac Naify, 2003.<\/p>\n<p>MINAYO, Maria Cec\u00edlia de Souza (org.).\u00a0<em>Ra\u00edzes da fome<\/em>. Petr\u00f3polis: Vozes\/fase, 1985.<\/p>\n<p>NASCIMENTO, Renato Carvalheira do.\u00a0<em>Josu\u00e9 de Castro: o soci\u00f3logo da fome<\/em>. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Sociologia) \u2014 Instituto de Ci\u00eancias Sociais, Universidade de Bras\u00edlia, Bras\u00edlia, 2002.<\/p>\n<p>NASCIMENTO, Renato Carvalheira do. \u201cA contribui\u00e7\u00e3o de Josu\u00e9 de Castro para o sistema e a pol\u00edtica nacional de seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional\u201d.\u00a0<em>In<\/em>: silva, T\u00e2nia Elias Magno (org.).\u00a0<em>Josu\u00e9 de Castro<\/em>. Rio de Janeiro: Funda\u00e7\u00e3o Miguel de Cervantes\/Biblioteca Nacional, 2012.<\/p>\n<p>PORTELLA, Tarciana; aamot, Daniel; passavante, Z\u00e9lito.\u00a0<em>Homem-gabiru: cataloga\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie<\/em>. S\u00e3o Paulo: Hucitec, 1992.<\/p>\n<p>REDE BRASILEIRA DE PESQUISA EM SOBERANIA E SEGURAN\u00c7A ALIMENTAR (REDE PENSSAN). ii Inqu\u00e9rito Nacional sobre Inseguran\u00e7a Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil \u2013 ii Vigisan. Relat\u00f3rio Final. S\u00e3o Paulo, 2022.<\/p>\n<p>SCHAPPO, Sirlandia.\u00a0<em>Josu\u00e9 de Castro por uma agricultura de sustenta\u00e7\u00e3o<\/em>. Tese (Doutorado em Sociologia) \u2014 Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2008.<\/p>\n<p>SILVA, T\u00e2nia Elias Magno da.\u00a0<em>Josu\u00e9 de Castro: para uma po\u00e9tica da fome<\/em>. Curitiba: crv, 2020.<\/p>\n<p>TARANTO, Giuseppe Di.\u00a0<em>Sociedade e subdesenvolvimento na obra de Josu\u00e9 de Castro<\/em>. Bel\u00e9m: Cejup, 1993.<\/p>\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n<p><a id=\"sdfootnote1sym\" href=\"read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fdesigualdades-mundo%2Fjosue-de-castro-brasilda-fome-ontem-e-hoje%2F#sdfootnote1anc\">1<\/a>\u2002Uma pesquisa da Rede Penssan (2022) revela que a fome, a forma mais grave da inseguran\u00e7a alimentar, era de 15,5% entre o fim de 2021 e o in\u00edcio de 2022, quando foram coletados os dados. Isso representa 33,1 milh\u00f5es de brasileiros. 58,7% dos lares entrevistados tinham seus moradores e moradoras em situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar (leve, moderada ou grave), o que representa 125,2 milh\u00f5es de pessoas que passaram pela incerteza quanto \u00e0 obten\u00e7\u00e3o de alimentos no futuro pr\u00f3ximo, limita\u00e7\u00e3o na qualidade de sua dieta e\/ou restri\u00e7\u00e3o de quantidade de alimentos.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Josu\u00e9 de Castro: Brasil da fome, ontem e hoje &#8211; Outras Palavras &#8211; https:\/\/outraspalavras.net\/desigualdades-mundo\/josue-de-castro-brasilda-fome-ontem-e-hoje\/<\/p>\n<div id=\"__reading__mode__content_end_mark_container_id\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Renato Carvalheira do Nascimento &#8211; O flagelo retorna e j\u00e1 assola 58% dos lares brasileiros. Sete conceitos do pensador pernambucano \u2013 como a ci\u00eancia engajada \u2013 s\u00e3o pistas para super\u00e1-lo. 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