{"id":18226,"date":"2022-08-24T12:02:09","date_gmt":"2022-08-24T15:02:09","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18226"},"modified":"2022-08-21T22:05:47","modified_gmt":"2022-08-22T01:05:47","slug":"a-nova-batalha-de-xango-contra-a-intolerancia-religiosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/08\/24\/a-nova-batalha-de-xango-contra-a-intolerancia-religiosa\/","title":{"rendered":"A nova batalha de Xang\u00f4 contra a intoler\u00e2ncia religiosa"},"content":{"rendered":"<p><strong>M\u00e1rcia Maria Cruz<\/strong> &#8211; No terreiro de Pai Duda, em Cachoeira (BA), drones de vigia precederam os ataques. Vieram ent\u00e3o as caminhonetes com as multid\u00f5es ferozes. Nos \u00faltimos 30 anos, viol\u00eancia contra religi\u00f5es de matriz afro disparou. Em 2021, foram 581 ataques.<\/p>\n<p>O terreiro de candombl\u00e9 Il\u00ea As\u00e9 Oy\u00e1 L\u2019ad\u00ea Inan, em Alagoinhas, cidade a cerca de 120 km de Salvador, \u00e9 consagrado a Oy\u00e1, uma das divindades das religi\u00f5es de matriz africana, senhora dos ventos e da tempestade. Quem comanda o local desde a sua funda\u00e7\u00e3o, h\u00e1 treze anos, \u00e9 a ialorix\u00e1 (m\u00e3e de santo) Roselina Barbosa, de 63 anos. Conhecida como M\u00e3e Rosa, ela mora no terreiro em uma casa confort\u00e1vel, onde criou seus tr\u00eas filhos, todos formados em artes c\u00eanicas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Al\u00e9m de cuidar de sua casa e do terreiro, dirigindo os ritos de sua religi\u00e3o, ela atende, na condi\u00e7\u00e3o de m\u00e3e grande, as pessoas que buscam ajuda espiritual naquele ambiente calmo e buc\u00f3lico.<\/p>\n<p>Em seu jardim repleto de plantas, algumas t\u00eam fun\u00e7\u00e3o sagrada, como a espada-de-oy\u00e1 (tamb\u00e9m chamada espada-de-santa-b\u00e1rbara), as folhas de Oxum (o boldo, a camomila, a erva-cidreira) e o acoc\u00f4 de Xang\u00f4. O cuidado com a vida vegetal e a natureza \u00e9 um fundamento da cren\u00e7a de M\u00e3e Rosa, como ensina um verso para Ossain, o orix\u00e1 das matas que promove a cura por meio de plantas tidas como sagradas: \u201cSem folha, sem orix\u00e1.\u201d<\/p>\n<p>A vida e o trabalho tranquilos de M\u00e3e Rosa s\u00e3o, no entanto, apenas uma parte de sua hist\u00f3ria. Quando sai \u00e0s ruas de Alagoinhas, ela se depara frequentemente com alguma hostilidade. Em suas idas \u00e0 feira da cidade, \u00e0s sextas-feiras, dia em que se veste inteiramente de branco como manda a sua religi\u00e3o, ela j\u00e1 cansou de ouvir frases provocativas como \u201cJesus te ama\u201d e \u201cEst\u00e1 amarrado em nome de Jesus\u201d \u2013 esta \u00faltima usada por alguns evang\u00e9licos para dizer que o Diabo n\u00e3o pode agir, pois est\u00e1 preso. Coisa parecida ocorre quando M\u00e3e Rosa vai ao supermercado, \u00e0 cl\u00ednica m\u00e9dica, \u00e0 padaria, \u00e0 farm\u00e1cia e a outros locais. O ass\u00e9dio tamb\u00e9m atinge sua primog\u00eanita, Fernanda J\u00falia Barbosa, de 42 anos, que desde a adolesc\u00eancia \u00e9 apontada como \u201cfilha da macumbeira\u201d. No terreiro, ela \u00e9 chamada de Onisaj\u00e9 (\u201cdivindade que sabe aguardar\u201d) e \u00e9 m\u00e3e pequena, a segunda na hierarquia, autorizada a conduzir as liturgias na aus\u00eancia da m\u00e3e grande.<\/p>\n<p>M\u00e3e Rosa conta que, certa vez, levou duas seguidoras a um ribeir\u00e3o para lavar seus cabelos na \u00e1gua corrente e passar um eb\u00f3, ritual de limpeza espiritual que naquele dia ela fez com uma mistura de milho branco cozido. \u201cColoquei o p\u00e9 na \u00e1gua. Peguei as duas e comecei a pedir a b\u00ean\u00e7\u00e3o a Oxum, a senhora dona das \u00e1guas. Nisso, ouvi um \u2018tinnn\u2019 dentro d\u2019\u00e1gua, bem pertinho do meu p\u00e9. Por pouco n\u00e3o pegou em mim\u201d, recorda. Era o disparo de uma arma de fogo feito por um grupo de jovens. Ela se aproximou do grupo para saber o que pretendiam com aquilo. Os jovens chamaram a oferenda dela de \u201cporcaria\u201d.<\/p>\n<p>Em outra ocasi\u00e3o, quando caminhava na rua em companhia de sacerdotes e sacerdotisas do candombl\u00e9, uma mulher postou-se \u00e0 sua frente, segurando um peda\u00e7o de pau, e amea\u00e7ou abertamente: \u201cAqui voc\u00eas n\u00e3o passam. Est\u00e1 amarrado. Sai Satan\u00e1s.\u201d M\u00e3e Rosa tentou argumentar, mas lhe disseram que ela estava vestida \u201ccom roupas do Demo\u201d. A ialorix\u00e1 usava um cafet\u00e3 com estampas \u00e9tnicas e, no pesco\u00e7o, trazia os fios de contas ou guias \u2013 colares consagrados aos orix\u00e1s que conferem energia e prote\u00e7\u00e3o aos filhos de santo. A mulher seguiu falando que o deus dela acabaria com aquela \u201cra\u00e7a de Satan\u00e1s\u201d.<\/p>\n<p>O dia 28 de maio de 2019 foi o pior de todos. \u00c0s 23h40, M\u00e3e Rosa e sua irm\u00e3 Mariza Barbosa, de 62 anos, come\u00e7aram a ouvir gritos no port\u00e3o de entrada do terreiro. Imaginaram que fosse uma briga, mas logo perceberam que o vozerio era de gente hostil. \u201cOuvi um monte de vozes. Eles batiam os p\u00e9s no ch\u00e3o, batiam as m\u00e3os na B\u00edblia, batiam, batiam, e diziam: \u2018Sai Satan\u00e1s\u2019, \u2018N\u00f3s vamos lhe derrubar\u2019\u201d, descreve M\u00e3e Rosa. At\u00f4nitas, as duas mulheres ficaram com medo de sair da casa. \u201cPela quantidade de pisadas e vozes, tinha mais de vinte pessoas. Comecei a passar mal de ver a viol\u00eancia l\u00e1 fora. Se eu abrisse a porta, podiam fazer algo comigo e com minha irm\u00e3\u201d, ela diz. O bailarino e filho de santo Ivan Bina, que mora perto dali, registrou em um v\u00eddeo os agressores, que ficaram na frente do terreiro por intermin\u00e1veis 25 minutos. Ele enviou as imagens para os filhos de M\u00e3e Rosa e outros frequentadores do terreiro, que vieram logo em socorro. Mas, ao chegarem l\u00e1, os agressores j\u00e1 tinham ido embora.<\/p>\n<p>As pessoas que atacaram o Il\u00ea As\u00e9 Oy\u00e1 L\u2019ad\u00ea Inan n\u00e3o esperavam a repercuss\u00e3o causada pela viol\u00eancia nem a mobiliza\u00e7\u00e3o da sociedade em defesa do terreiro. O Minist\u00e9rio P\u00fablico e a pol\u00edcia passaram a investigar o caso, e M\u00e3e Rosa recebeu apoio de diferentes l\u00edderes religiosos, inclusive pastores evang\u00e9licos. Em 30 de julho de 2019, foi feito um ato de desagravo a ela na Assembleia Legislativa da Bahia. Com o tempo, por\u00e9m, a repercuss\u00e3o arrefeceu e, passados mais de tr\u00eas anos, a Pol\u00edcia Civil ainda n\u00e3o chegou \u00e0 conclus\u00e3o alguma sobre o que houve. \u201cNa verdade, a pol\u00edcia n\u00e3o investigou. A pol\u00edcia quis apaziguar\u201d, diz Luiz Fernando J\u00falio Barbosa, de 38 anos, filho do meio de M\u00e3e Rosa, tamb\u00e9m iniciado no candombl\u00e9, no qual \u00e9 chamado de Legbarinan (\u201co poder do fogo\u201d). Sua irm\u00e3 mais nova, Fab\u00edola J\u00falia Barbosa, de 35 anos, \u00e9 Nansur\u00ea (\u201ca m\u00e3e que aben\u00e7oa os filhos\u201d), uma das damas dos orix\u00e1s que zelam pelo terreiro.<\/p>\n<p>A cidade de Alagoinhas tem 153 mil habitantes. De acordo com o Censo de 2010, 53% da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 formada por cat\u00f3licos, 22% por evang\u00e9licos e apenas 0,58% seguem religi\u00f5es de matriz africana. Em 2004, quando M\u00e3e Rosa e seus tr\u00eas filhos se mudaram para o bairro Ferro A\u00e7o, onde fica o terreiro, existia ali somente uma igreja evang\u00e9lica. Em 2021, havia nove templos de diferentes denomina\u00e7\u00f5es evang\u00e9licas num raio de 500 metros em torno do Il\u00ea As\u00e9 Oy\u00e1 L\u2019ad\u00ea Inan (que significa \u201ccasa de for\u00e7a de Oy\u00e1, cuja coroa \u00e9 de fogo\u201d, na tradu\u00e7\u00e3o do iorub\u00e1 feita por M\u00e3e Rosa).<\/p>\n<p>Ialorix\u00e1 h\u00e1 trinta anos, M\u00e3e Rosa \u00e9 uma pessoa serena, bem diferente do que se poderia esperar de uma filha da senhora das tempestades, Oy\u00e1, tamb\u00e9m chamada de Ians\u00e3 \u2013 uma divindade que adora o vermelho, o marrom e o rosa clarinho. Numa tarde ensolarada de outubro, enquanto conversava com a piau\u00ed em uma rua do bairro Ferro A\u00e7o, ela avistou restos de uma fogueira e, em meio \u00e0s cinzas, um vaso de comigo-ningu\u00e9m-pode que sobreviveu \u00e0s chamas. Apanhou e levou para o terreiro.<\/p>\n<p>Por causa de Oy\u00e1, o rei Xang\u00f4 e o guerreiro Ogum entraram em disputa. Eles lutaram para saber quem seria digno do amor da mais poderosa guerreira africana. Xang\u00f4 venceu e partiu com ela para Oy\u00f3, a capital do imp\u00e9rio iorub\u00e1 (na Nig\u00e9ria), onde se tornou o quarto soberano da cidade, fazendo de Oy\u00e1 sua rainha e inaugurando uma dinastia. Depois de sua morte, Xang\u00f4 passou a ser cultuado como orix\u00e1 da justi\u00e7a. Hoje, no Brasil, ele enfrenta uma nova batalha: contra a intoler\u00e2ncia religiosa.<\/p>\n<p>Os povos africanos, entre eles os iorub\u00e1s, lan\u00e7aram aqui bases do candombl\u00e9, religi\u00e3o que se mostrou essencial para manter a unidade entre os escravizados no pa\u00eds, ao longo de mais de trezentos anos. No in\u00edcio do s\u00e9culo XX, elementos do candombl\u00e9 se somaram a aspectos do catolicismo, de cren\u00e7as ind\u00edgenas e do kardecismo para fundar a umbanda. Quando a liberdade religiosa foi contemplada na Constitui\u00e7\u00e3o de 1946, os credos de matriz africana, embora contassem com a prote\u00e7\u00e3o da lei, em maior ou menor grau continuaram a ser alvo de persegui\u00e7\u00e3o. Nos \u00faltimos anos, o n\u00famero de agress\u00f5es aumentou \u2013 assustadoramente.<\/p>\n<p>Em 2021, houve 581 den\u00fancias de ataques \u00e0 liberdade religiosa, segundo a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, ligada ao Minist\u00e9rio da Mulher, da Fam\u00edlia e dos Direitos Humanos \u2013 um aumento de 140% em rela\u00e7\u00e3o a 2020, quando ocorreram 242. Na contabilidade das v\u00edtimas de agress\u00e3o no ano passado, a umbanda aparece em primeiro lugar, com 65 den\u00fancias, seguida do candombl\u00e9, com 58. O estado do Rio de Janeiro liderava o n\u00famero de den\u00fancias no ano (138), seguido por S\u00e3o Paulo (109), Minas Gerais (52), Bahia (50) e Rio Grande do Sul (45). Do total de den\u00fancias, 115 agress\u00f5es foram atribu\u00eddas a evang\u00e9licos, 54 a cat\u00f3licos e 27 a praticantes das pr\u00f3prias religi\u00f5es afro-brasileiras. As agress\u00f5es foram cometidas mais por homens (311 den\u00fancias) do que por mulheres (217), e mais por pessoas brancas (200) do que pardas (133) ou pretas (66).<\/p>\n<p>Os dados referentes a 2020 e 2021 foram consultados pela piau\u00ed em 8 de dezembro do ano passado no site do minist\u00e9rio. Depois dessa data, algumas informa\u00e7\u00f5es, como a indica\u00e7\u00e3o das religi\u00f5es das v\u00edtimas e dos suspeitos, foram retiradas da p\u00e1gina. Em nota \u00e0 revista, a pasta disse que isso foi feito pela \u00e1rea t\u00e9cnica da Ouvidoria de Direitos Humanos para \u201cotimizar o tempo e a qualidade do atendimento por parte da central de atendimento\u201d. E completou: \u201cEssas informa\u00e7\u00f5es s\u00f3 ser\u00e3o coletadas quando tiverem rela\u00e7\u00e3o com o motivo ou agravamento da viola\u00e7\u00e3o.\u201d At\u00e9 mar\u00e7o deste ano, o minist\u00e9rio foi comandado pela advogada Damares Alves, que \u00e9 evang\u00e9lica.<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, os casos triplicaram em cinco anos. Os boletins de ocorr\u00eancia com den\u00fancias de intoler\u00e2ncia religiosa passaram de 5 214, em 2016, para 15 296, em 2021, segundo dados da Secretaria da Seguran\u00e7a P\u00fablica. No estado do Rio de Janeiro, em 2021 foram registradas 47 den\u00fancias de agress\u00e3o e intoler\u00e2ncia, sendo que 43 das den\u00fancias foram feitas por religi\u00f5es de matriz africana, 3 por judeus e 1 por cat\u00f3lico, de acordo com o Observat\u00f3rio de Liberdade Religiosa. Em Salvador, o Centro de Refer\u00eancia de Combate ao Racismo e \u00e0 Intoler\u00e2ncia Religiosa Nelson Mandela recebeu 37 den\u00fancias no ano passado. Neste ano, apenas at\u00e9 31 de maio passado, haviam sido feitas 29. Desde a cria\u00e7\u00e3o do centro, h\u00e1 nove anos, os n\u00fameros t\u00eam crescido.<\/p>\n<p>Em Belo Horizonte, o Centro Nacional de Africanidade e Resist\u00eancia Afro-Brasileira (Cenarab) recebe diariamente den\u00fancias de intoler\u00e2ncia contra as religi\u00f5es afro-brasileiras. \u201cVivemos uma conjuntura em nosso pa\u00eds que facilita o \u00f3dio, o preconceito acirrado. \u00c9 como se houvesse autoriza\u00e7\u00e3o impl\u00edcita para que as pessoas pudessem despejar o \u00f3dio contra as religi\u00f5es e as tradi\u00e7\u00f5es de matriz africana\u201d, diz C\u00e9lia Gon\u00e7alves Souza, coordenadora nacional do Cenarab e defensora aguerrida dos povos de terreiro. Ela est\u00e1 se referindo ao racismo e ao contexto pol\u00edtico criado por um governo de extrema direita. Na sua avalia\u00e7\u00e3o, embora o princ\u00edpio de laicidade esteja expresso na Constitui\u00e7\u00e3o, o Estado n\u00e3o tem garantido a isonomia entre todas as religi\u00f5es.<\/p>\n<p>Souza enfrenta na pr\u00f3pria pele o racismo e j\u00e1 perdeu a conta das vezes que foi xingada por usar roupas que fazem refer\u00eancia aos cultos africanos. \u201cA gente vive situa\u00e7\u00f5es de racismo religioso todos os dias, como o olhar assustado das pessoas quando nos veem com nossas roupas. Lembro que, certa vez, eu estava usando uma camisa de terreiro, de orix\u00e1, e algu\u00e9m gritou na rua: \u2018Olha o Capeta.\u2019\u201d<\/p>\n<p>Pesquisadores da intoler\u00e2ncia religiosa no Brasil dizem que o aumento dos ataques tamb\u00e9m est\u00e1 relacionado \u00e0 expans\u00e3o dos evang\u00e9licos no pa\u00eds. \u201cA partir dos anos 1970, com o crescimento dos neopentecostais, essa pr\u00e1tica de perseguir o candombl\u00e9 e a umbanda sai das m\u00e3os do Estado e passa a ser uma campanha sistem\u00e1tica na sociedade, de demoniza\u00e7\u00e3o das religi\u00f5es de matriz africana, feita principalmente por segmentos religiosos que dispunham de canais de tev\u00ea\u201d, diz o historiador Ivanir dos Santos, babala\u00f4 que \u00e9 interlocutor da Comiss\u00e3o de Combate \u00e0 Intoler\u00e2ncia Religiosa (CCIR), da Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional Rio de Janeiro (OAB\/RJ). O historiador ressalta que, com as persegui\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m aumentou a rea\u00e7\u00e3o das pessoas ligadas ao candombl\u00e9 e \u00e0 umbanda, que passaram a recorrer \u00e0 Justi\u00e7a para se defender. \u201cHoje h\u00e1 uma amea\u00e7a enorme \u00e0 democracia, \u00e0s liberdades e ao Estado laico, mas n\u00e3o estamos mais calados.\u201d<\/p>\n<p>Em 1970, os evang\u00e9licos representavam 5,2% da popula\u00e7\u00e3o brasileira. Em 2000, passaram a 15,4%. Em 2010, chegaram a 22,2%, ou 42,3 milh\u00f5es de pessoas, de acordo com o Censo. Nesse mesmo ano, os seguidores das religi\u00f5es afro-brasileiras \u2013 sobretudo o candombl\u00e9, a umbanda e o tambor de mina \u2013, representavam 0,6% da popula\u00e7\u00e3o (ou 1,2 milh\u00e3o de pessoas). Estima-se que, em 2032, o n\u00famero de evang\u00e9licos chegue a 39,8%, superando pela primeira vez os cat\u00f3licos, que hoje s\u00e3o 61% da popula\u00e7\u00e3o e cairiam para 38,6%.<\/p>\n<p>No livro\u00a0<em>Intoler\u00e2ncia Religiosa<\/em>, o linguista e babalorix\u00e1 Sidnei Barreto Nogueira desenvolve a tese de que a repuls\u00e3o aos cultos africanos est\u00e1 relacionada n\u00e3o apenas ao crescimento da popula\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica, mas tamb\u00e9m ao desmonte do mito da democracia racial brasileira por pesquisadores e l\u00edderes do movimento negro. \u201cTemos desvendado as discuss\u00f5es no Brasil sobre racismo, e em alguma medida desfeito o mito da democracia racial. Os racistas est\u00e3o incomodados, est\u00e3o contra-atacando\u201d, diz ele.<\/p>\n<p>Nogueira tra\u00e7a dois perfis de pessoas que cometem os crimes de intoler\u00e2ncia religiosa. Um deles \u00e9 o das pessoas vulner\u00e1veis e com baixa escolaridade que t\u00eam na religi\u00e3o o \u00fanico lugar de prest\u00edgio, de exerc\u00edcio de poder e de visibilidade \u2013 um grupo inclinado ao fanatismo. O outro \u00e9 formado por lideran\u00e7as pol\u00edticas e religiosas que buscam eleitores e seguidores recorrendo \u00e0 \u201ccolheita de\u00a0<em>likes<\/em>\u201d como estrat\u00e9gia de autopublicidade. \u201cOdiar \u00e9 um imperativo, a bola da vez para conseguir\u00a0<em>likes<\/em>\u201d, diz Nogueira. O pesquisador ressalta que n\u00e3o apenas pessoas brancas cometem atos de intoler\u00e2ncia religiosa. \u201cAt\u00e9 as pessoas pretas acabam criando um personagem crist\u00e3o para si, para vender seus produtos. Isso alimenta o mercado da intoler\u00e2ncia religiosa, da persegui\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 uma guerra cultural no pa\u00eds, que muito em breve se tornar\u00e1 conflito religioso em fun\u00e7\u00e3o do racismo religioso\u201d, diz o advogado H\u00e9dio Silva Junior, um dos principais defensores das religi\u00f5es de matriz africana nos tribunais. Ele tamb\u00e9m \u00e9 ex-secret\u00e1rio da Justi\u00e7a e da Cidadania do estado de S\u00e3o Paulo e fundador do Instituto de Defesa dos Direitos das Religi\u00f5es Afro-Brasileiras, que presta assessoria \u00e0s v\u00edtimas da intoler\u00e2ncia religiosa. Para o advogado, \u201cos seguidores dessas religi\u00f5es est\u00e3o sujeitos diariamente a todo tipo de ultraje, aviltamento, viol\u00eancia moral e f\u00edsica\u201d. Mas o advogado acredita que o motivo das agress\u00f5es \u201cn\u00e3o \u00e9 acabar com a macumba\u201d, porque \u201cseus detratores perderiam um dos alvos principais de seu proselitismo\u201d. O objetivo \u00e9 aumentar o pr\u00f3prio rebanho hostilizando os seguidores de religi\u00f5es afro-brasileiras.<\/p>\n<p>Silva Junior fez a defesa das pessoas de ax\u00e9 de imolarem animais em oferenda aos orix\u00e1s. A a\u00e7\u00e3o contra o abate de animais partiu do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Estado do Rio Grande do Sul, em 2004, e catorze anos depois chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF). Em 9 de agosto de 2018, o advogado defendeu no STF que o questionamento da pr\u00e1tica das oferendas estava relacionado ao racismo: \u201cN\u00e3o vejo institui\u00e7\u00e3o jur\u00eddica entrar com medida judicial para evitar a chacina de jovens negros, mortos como c\u00e3es na periferia, mas a galinha da macumba\u2026 Parece que a vida da galinha da macumba vale mais do que a vida de milhares de jovens negros.\u201d O STF acatou os argumentos do advogado quanto \u00e0 dimens\u00e3o racista da a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No mesmo ano em que o advogado apresentou essa defesa hist\u00f3rica, um grupo de v\u00e2ndalos despejou 100 kg de sal na Pedra de Xang\u00f4, em Cajazeiras 10, bairro de Salvador, tr\u00eas dias antes do R\u00e9veillon. Local sagrado para as religi\u00f5es de matriz africana, a Pedra de Xang\u00f4 \u00e9 um rochedo com dois blocos, cercado por vegeta\u00e7\u00e3o, que representa a morada do senhor da justi\u00e7a para as pessoas de ax\u00e9. Ali, acontecem rituais e festas do povo de santo. O ataque com sal \u2013 produto que na crendice popular espanta maus esp\u00edritos \u2013 levou a comunidade a pedir ao Minist\u00e9rio P\u00fablico do Estado da Bahia que apurasse o motivo da depreda\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o. Como forma de coibir os ataques, o MP prop\u00f4s a cria\u00e7\u00e3o do Parque Pedra de Xang\u00f4, que foi inaugurado em maio passado.<\/p>\n<p>Os povos de terreiro procuram se organizar para responder ao aumento da intoler\u00e2ncia religiosa. Entre 2 e 5 do m\u00eas passado, o II \u00c8gb\u00e9 \u2013 Parte de N\u00f3s \u2013 2\u00ba Encontro Nacional de Povos de Terreiro reuniu em Belo Horizonte cerca de quatrocentas lideran\u00e7as negras com o objetivo de honrar seus ancestrais, rezar e unir for\u00e7as para enfrentar as agress\u00f5es. \u00c8gb\u00e9s s\u00e3o divindades \u00e0s quais o povo iorub\u00e1 apelava para afastar tudo que obstru\u00eda sua vida. \u201cN\u00f3s n\u00e3o queremos um Estado que reze, mas exigimos um Estado que nos permita rezar\u201d, disse C\u00e9lia Gon\u00e7alves Souza, do Cenarab, entidade que organizou o encontro.<\/p>\n<p>O ex-presidente Lula foi convidado, mas n\u00e3o compareceu \u2013 mandou apenas uma mensagem. A ialorix\u00e1 maranhense J\u00f4 Brand\u00e3o reclamou: \u201cN\u00f3s, povos de terreiro, quer\u00edamos ver Lula aqui. Sabe por qu\u00ea? Quando ele foi atacado, quando foi preso, n\u00f3s rezamos, fizemos eb\u00f3. E n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que se coloque numa balan\u00e7a que o voto do crente \u00e9 mais importante do que o do macumbeiro.\u201d<\/p>\n<p>Uma das conclus\u00f5es do \u00c8gb\u00e9 \u2013 Parte de N\u00f3s \u00e9 que a viol\u00eancia contra os povos de terreiro se ampliou no governo Bolsonaro e est\u00e1 relacionada ao enfraquecimento da democracia no pa\u00eds. A ex-ministra Nilma Lino Gomes, que ocupou a pasta das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos no governo Dilma Rousseff, defendeu que as lideran\u00e7as dos terreiros ocupem espa\u00e7os pol\u00edticos para enfrentar a crescente influ\u00eancia do fundamentalismo religioso nas casas do Legislativo brasileiro, tanto em \u00e2mbito local quanto federal. Ela disse \u00e0 piau\u00ed que os ataques atuais s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es de racismo e defendeu a judicializa\u00e7\u00e3o dos casos de agress\u00e3o. \u201cO agravamento da intoler\u00e2ncia religiosa no Brasil j\u00e1 extrapolou e virou viol\u00eancia racial. A Justi\u00e7a precisa resolv\u00ea-los. N\u00e3o adianta que fiquem como casos isolados que s\u00f3 inspiram indigna\u00e7\u00e3o, acompanhada por in\u00e9rcia. Nossa luta \u00e9 pela desnaturaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia religiosa\u201d, disse. \u201cN\u00f3s estamos em guerra. \u00c9 a guerra que n\u00f3s queremos vencer pela paz, pela toler\u00e2ncia e pelo amor, e n\u00e3o pelo \u00f3dio e pela viol\u00eancia.\u201d<\/p>\n<p>O antrop\u00f3logo brasileiro-congol\u00eas Kabengele Munanga tamb\u00e9m defendeu a interven\u00e7\u00e3o do Estado para evitar as agress\u00f5es ao povo dos terreiros. \u201cN\u00e3o vejo possibilidade de conviv\u00eancia pac\u00edfica. Por isso, \u00e9 preciso que o Estado intervenha. Cada um com sua religi\u00e3o, cada um com sua vida. As de matriz africana n\u00e3o est\u00e3o criticando nenhuma religi\u00e3o.\u201d O advogado H\u00e9dio Silva Junior, que compareceu ao \u00c8gb\u00e9, lembrou que os seguidores da umbanda e do candombl\u00e9 n\u00e3o s\u00e3o os \u00fanicos a sofrer discrimina\u00e7\u00e3o. H\u00e1 os adventistas, criticados porque guardam o s\u00e1bado e n\u00e3o o domingo como dia sagrado, as testemunhas de Jeov\u00e1, que enfrentam problemas com preceitos religiosos que v\u00e3o contra a ci\u00eancia (como a interdi\u00e7\u00e3o da transfus\u00e3o de sangue), e mesmo os ateus. Para o advogado, entretanto, o discurso de \u00f3dio racial propriamente dito tem um alvo \u00fanico: as religi\u00f5es afro-brasileiras.<\/p>\n<p>Silva Junior enfatizou que ocorre hoje no Brasil uma tentativa de apagamento da cultura negra. Ele deu como exemplo a atitude de segmentos evang\u00e9licos de se apropriar do acaraj\u00e9, uma comida de orix\u00e1s, transformando-o em \u201cacaraj\u00e9 de Jesus\u201d. \u201cO discurso do \u00f3dio \u00e9 direcionado a todo o patrim\u00f4nio civilizat\u00f3rio africano que marca a sociedade brasileira, e n\u00f3s somos uma sociedade racializada, africanizada\u201d, disse. \u201cSer macumbeiro no Brasil \u00e9 em si um ato de resist\u00eancia, de revolu\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o pelo enfrentamento e pela dor, \u00e0 humilha\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>O \u00c8gb\u00e9 \u2013 Parte de N\u00f3s aconteceu no Sesc Venda Nova, misto de clube e hotel com 462 mil metros de vegeta\u00e7\u00e3o, a cerca de 16 km do Centro de Belo Horizonte. A abertura teve a execu\u00e7\u00e3o do Hino Nacional, compassado pelo toque de atabaques e interpretado pelo cantor carioca Igbonan Ant\u00f4nio Rocha dos Santos Filho, de 62 anos, um militante dos movimentos negro e gay com poderosa voz de bar\u00edtono. Ele fez sua inicia\u00e7\u00e3o no candombl\u00e9 h\u00e1 quarenta anos e tornou-se Omo Igbonan, \u201co filho da quentura\u201d. Depois de um processo judicial de retifica\u00e7\u00e3o de registro, em 2021 incorporou Igbonan como prenome.<\/p>\n<p>Para cantar o hino, Igbonan Rocha vestiu bata e cal\u00e7a verdes com detalhes dourados, trazidas por um amigo da cidade nigeriana de Ibadan e que saem do seu guarda-roupa somente em ocasi\u00f5es especiais. A escolha da cor, parecida com a da bandeira brasileira, foi para o cantor um gesto pol\u00edtico. \u201cTemos que nos apropriar dos nossos s\u00edmbolos. A bandeira \u00e9 do povo brasileiro. A gente n\u00e3o est\u00e1 aqui para brigar, mas para que a Constitui\u00e7\u00e3o seja respeitada\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Muitos convidados vestiam branco na noite de abertura. Mulheres trajavam saias de renda\u00a0<em>richelieu<\/em>, turbantes, braceletes e colares dourados. Os homens capricharam nas rendas africanas e nos paramentos na cabe\u00e7a. Na tradi\u00e7\u00e3o afro-brasileira, qualquer cerim\u00f4nia come\u00e7a com o pedido de licen\u00e7a a Exu, o senhor da comunica\u00e7\u00e3o, que, portanto, foi saudado por todos. Como o in\u00edcio dos trabalhos caiu em uma quinta-feira, dia da semana dedicado a Ox\u00f3ssi, o senhor das florestas tamb\u00e9m foi aclamado.<\/p>\n<p>Com um vestido de renda branca e detalhes dourados, C\u00e9lia Souza, do Cenarab, soprou em cada um dos presentes a pemba de Oxal\u00e1, um pozinho branco de alfazema, canela e noz-moscada de aroma adocicado, para purificar o corpo. A fim de garantir prote\u00e7\u00e3o, foi dado a todos os presentes a guia de Oxal\u00e1, um colar de contas brancas. \u201cO peso que n\u00f3s carregamos \u00e9 o peso dessa conta. Ela \u00e9 linda e maravilhosa, e n\u00f3s a amamos, mas sabemos o peso que \u00e9 ser macumbeiro neste pa\u00eds\u201d, disse Souza, na primeira mesa de debates.<\/p>\n<p>O \u00c8gb\u00e9 foi uma oportunidade para antigos amigos se reverem e confraternizarem, ap\u00f3s a longa separa\u00e7\u00e3o causada pela Covid. A ex-ministra Nilma Lino Gomes encontrou-se, depois de tr\u00eas anos, com Kabengele Munanga, que foi seu orientador no doutorado em antropologia social na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). O advogado Silva Junior dan\u00e7ou animadamente com a ialorix\u00e1 J\u00f4 Brand\u00e3o e com o babalorix\u00e1 Sidnei Nogueira.<\/p>\n<p>V\u00edtimas da viol\u00eancia deram depoimentos no encontro em Belo Horizonte. Uma pessoa de Campo dos Goytacazes, no Rio de Janeiro (que pediu para n\u00e3o ser identificada na reportagem por medo de repres\u00e1lias), emocionou-se ao contar sobre o medo que sentiu quando traficantes a botaram para correr da comunidade. Ela n\u00e3o teve tempo nem mesmo de recolher os itens sagrados do terreiro de umbanda pelo qual zelava.<\/p>\n<p>A agress\u00e3o partiu de um traficante, sobrinho de um pastor, e foi antecedida por avisos dados por terceiros. Primeiro, o traficante exigiu que o terreiro n\u00e3o tocasse atabaque. Em seguida, que ningu\u00e9m usasse roupas de santo. Depois que os recados cessaram, homens invadiram o local e o destru\u00edram. N\u00e3o restou uma parede sequer da casa. \u201cQuando o tr\u00e1fico chega, ele n\u00e3o te pede: ele te manda sair e n\u00e3o tem como entrar na Justi\u00e7a para recobrar o direito de um bem que voc\u00ea perdeu. Nesse momento, \u00e9 ter sabedoria, ir embora e n\u00e3o olhar para tr\u00e1s\u201d, disse a pessoa \u00e0 piau\u00ed. \u201cMinha dor maior foi n\u00e3o ter podido levar minhas hist\u00f3rias e heran\u00e7as. S\u00f3 sobraram as minhas mem\u00f3rias.\u201d<\/p>\n<p>Xang\u00f4 \u00e9 o orix\u00e1 consagrado no terreiro Il\u00ea Ax\u00e9 Icimim\u00f3 Aganju Did\u00e8 (em portugu\u00eas, \u201ccasa forte de Xang\u00f4 onde se faz o bem\u201d), no povoado de Terra Vermelha, em Cachoeira, cidade a 120 km de Salvador. O local \u00e9 vizinho de outros terreiros de candombl\u00e9 (o Loba\u2019Nekun e o Asep\u00f2 Er\u00e1n Op\u00e9 Ol\u00f9wa \u2013 Terreiro Viva Deus), todos eles declarados patrim\u00f4nio cultural imaterial da Bahia em 2014.<\/p>\n<p>Quem dirige o terreiro dedicado a Xang\u00f4 \u00e9 o babalax\u00e9 (ou babalorix\u00e1) Ant\u00f4nio dos Santos Silva, o Pai Duda de Candola, de 42 anos, que decidiu buscar apoio das autoridades para proteger o local, depois de ter sido alvo de tr\u00eas ataques \u2013 em 27 de fevereiro de 2019, em 9 de junho de 2020 e em 8 de julho de 2021. As investidas contra o terreiro o levaram a recorrer ao Minist\u00e9rio P\u00fablico, que, em mar\u00e7o de 2019, expediu uma recomenda\u00e7\u00e3o para que o local fosse protegido pela Pol\u00edcia Militar e ajuizou em fevereiro deste ano uma a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica contra os supostos agressores. Em 13 de maio de 2020, o Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional (Iphan) fez o tombamento provis\u00f3rio e emergencial do terreiro, que aguarda o tombamento definitivo, ainda em processo.<\/p>\n<p>O segundo ataque, de 9 de junho de 2020, parece aquela sequ\u00eancia do filme\u00a0<em>Bacurau<\/em>\u00a0em que um grupo de fac\u00ednoras estrangeiros vigia com drones uma comunidade no interior de Pernambuco, antes de invadi-la. Quando chegava de moto ao terreiro, Pai Duda avistou um drone sobrevoando a \u00e1rea. Pouco depois, chegaram caminhonetes com cerca de quarenta homens, todos \u201cfortemente armados\u201d, segundo o caseiro Ant\u00f4nio de Freitas Cerqueira, que testemunhou o ataque.<\/p>\n<p>Pai Duda se escondeu no mato, de onde viu os homens iniciarem a destrui\u00e7\u00e3o, inclusive dos assentamentos \u2013 onde \u00e9 depositado o ax\u00e9 (a energia dos orix\u00e1s), o que torna aquela parte da terra um local sagrado. \u201cMexeram no terreiro do dono da justi\u00e7a, Xang\u00f4. Atacaram os pontos sagrados, derrubaram as cercas que protegiam toda \u00e1rea, as folhas, os animais. Quebraram todos os assentamentos\u201d, descreve o sacerdote.<\/p>\n<p>Apesar de temer os homens armados, o babalax\u00e9 foi conversar com eles, tendo como \u00fanica prote\u00e7\u00e3o os fios de conta de Xang\u00f4. \u201cEu pedi que n\u00e3o mexessem nessa casinha de barro, o barrac\u00e3o principal do terreiro, que tinha valor para a sociedade, para a humanidade, pelo servi\u00e7o prestado. N\u00e3o bulam, n\u00e3o. Mas eles ousadamente quebraram toda a cerca e os assentamentos ancestrais nossos\u201d, conta.<\/p>\n<p>Em outubro do ano passado, quando a piau\u00ed visitou o terreiro, uma \u00e1rvore ainda estava envolta por um la\u00e7o de fita de tecido, simbolizando as vestes de Exu, e no entorno dela permaneciam os rastros do ataque, como o alguidar de barro quebrado, garrafas espalhadas e as ferramentas da divindade destru\u00eddas. \u201c\u00c9 como se eles estivessem acabando com o nosso pai, av\u00f4, bisav\u00f4. Eu nasci neste terreiro, nesta terra, e estou aqui at\u00e9 hoje. \u00c9 um ataque \u00e0 ancestralidade, \u00e0 religi\u00e3o\u201d, diz Pai Duda.<\/p>\n<p>A investida mais recente, de julho do ano passado, ocorreu quando era feita uma obriga\u00e7\u00e3o para Obaluai\u00ea, o orix\u00e1 da cura. Homens armados se aproximaram, e os filhos do terreiro deixaram o barrac\u00e3o \u00e0s pressas, com medo de que fosse incendiado. Todas as agress\u00f5es ocorreram \u00e0 luz do dia e foram fotografadas pelos filhos de santo. As imagens est\u00e3o anexadas no processo de investiga\u00e7\u00e3o que corre em segredo de Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Pai Duda relaciona as agress\u00f5es \u00e0 intoler\u00e2ncia religiosa, porque seus alvos foram os assentamentos para Exu, que na vis\u00e3o n\u00e3o manique\u00edsta das religi\u00f5es afro-brasileiras tem o atributo de \u201cabrir os caminhos\u201d. Por ser um orix\u00e1 sagaz e libert\u00e1rio, que impulsiona as energias para o prazer, o amor, a mudan\u00e7a e a vida em geral, Exu foi tomado pelos crist\u00e3os desde o in\u00edcio da coloniza\u00e7\u00e3o europeia da \u00c1frica com uma entidade imoral, que praticava o mal, como o Diabo (que inexiste nas religi\u00f5es de matriz africana). No \u00faltimo Carnaval, a escolha desse orix\u00e1 como tema da Escola de Samba Acad\u00eamicos do Grande Rio \u2013 vencedora da disputa carioca \u2013 gerou v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es de repulsa da parte de evang\u00e9licos, com palavras agressivas dirigidas contra a divindade.<\/p>\n<p>(Em julho do ano passado, causou furor e foi motivo de celebra\u00e7\u00e3o nas redes sociais a narra\u00e7\u00e3o de Gustavo Villani, do Sportv, quando o atacante Paulinho marcou gol na vit\u00f3ria do Brasil contra a Alemanha, na estreia nos Jogos Ol\u00edmpicos de T\u00f3quio. \u201cGoooooooooool\u2026 pra Exu aplaudir!\u201d, disse Villani. Paulinho \u00e9 do candombl\u00e9 e j\u00e1 havia dito: \u201cRezo todos os dias para que Exu ilumine o Brasil e os nossos caminhos.\u201d Na comemora\u00e7\u00e3o, o jogador simulou o gesto de lan\u00e7ar a flecha em refer\u00eancia a Ox\u00f3ssi, senhor das florestas, um ca\u00e7ador com arco e flecha.)<\/p>\n<p>Fora a hip\u00f3tese de Pai Duda para as agress\u00f5es, pesa ainda a suspeita de que elas estejam relacionadas a uma disputa por terras. A \u00e1rea \u00e9 reivindicada tanto pelo terreiro quanto pelo Grupo Penha, ind\u00fastria de papel e celulose. A empresa disse \u00e0 piau\u00ed ter firmado em 7 de mar\u00e7o de 2019 um acordo extrajudicial com o Minist\u00e9rio P\u00fablico da Bahia para que o terreiro usufru\u00edsse de uma parte do terreno, mas que a institui\u00e7\u00e3o religiosa desrespeitou a demarca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O MP n\u00e3o confirmou o acordo e afirmou ter expedido, naquele mesmo ano, uma recomenda\u00e7\u00e3o aos funcion\u00e1rios da empresa para que eles se abstivessem de entrar no im\u00f3vel, em especial se \u201cmunidos de ferramentas, maquin\u00e1rio, ve\u00edculos, ou qualquer outro instrumento que venha a alterar, extrair, queimar, mutilar, modificar qualquer bem, local, recurso natural ou cultural, da fauna, flora ou h\u00eddrico\u201d. No documento, os promotores dizem que o terreiro possui provas de propriedade do im\u00f3vel. Em fevereiro de 2022, o promotor Ernesto Cabral de Medeiros entrou com uma a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica pedindo \u00e0 Justi\u00e7a que pro\u00edba a entrada dos funcion\u00e1rios no terreiro. Ele afirma que o Grupo Penha destruiu \u201cobjetos e s\u00edtios tidos como sagrados pela comunidade de santo e inerentes ao exerc\u00edcio das atividades do terreiro\u201d.<\/p>\n<p>A empresa refuta a acusa\u00e7\u00e3o de intoler\u00e2ncia religiosa. \u201cToda e qualquer acusa\u00e7\u00e3o de parte contr\u00e1ria, em face do Grupo Penha, relativa \u00e0 intoler\u00e2ncia religiosa \u00e9 recha\u00e7ada veementemente por n\u00f3s por n\u00e3o representar a verdade dos fatos que est\u00e3o em discuss\u00e3o judicial\u201d, declarou, em nota enviada \u00e0 piau\u00ed. A Pol\u00edcia Civil n\u00e3o revela detalhes sobre as apura\u00e7\u00f5es alegando que a divulga\u00e7\u00e3o pode interferir no andamento das investiga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>No fim do s\u00e9culo XVII, havia em Cachoeira \u2013 cidade onde fica o terreiro de Pai Duda \u2013 cerca de duzentos engenhos, que tinham em m\u00e9dia trezentos escravizados cada um. Esse munic\u00edpio localizado \u00e0s margens do Rio Paragua\u00e7u foi um dos mais importantes para a economia colonial, por sua atividade agr\u00edcola (sobretudo a\u00e7\u00facar e fumo) e por seu porto, que permitia tanto o avan\u00e7o de expedi\u00e7\u00f5es rumo ao sert\u00e3o como o escoamento da produ\u00e7\u00e3o do interior da Bahia com destino a Salvador.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a negra, bem como a ind\u00edgena, deixou marcas fortes na cidade, como se constata nos tra\u00e7os f\u00edsicos e na religiosidade da popula\u00e7\u00e3o. \u201cOnde quer que voc\u00ea v\u00e1, encontra um eb\u00f3 ou uma cruz\u201d, diz Davi Rodrigues, ex-secret\u00e1rio municipal de Cultura e Turismo. Hoje, no munic\u00edpio de cerca de 33 mil habitantes, 51% da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 cat\u00f3lica, 21% \u00e9 evang\u00e9lica, e 4,3%, seguidora de religi\u00f5es de matriz africana, segundo o Censo de 2010.<\/p>\n<p>B\u00e1rbara Cristina Silva dos Santos, de 24 anos, foi criada no candombl\u00e9 e \u00e9 m\u00e3e pequena do terreiro Il\u00ea Ax\u00e9 Ogum Megeg\u00ea e Ox\u00f3ssi Guerreiro, situado no bairro Pitanga. Indamai\u00e1 dos Santos Moreira, de 42 anos, nasceu em uma fam\u00edlia de umbandistas, mas, h\u00e1 catorze anos, \u201caceitou Jesus\u201d, como ela diz, tornando-se membro da Igreja Batista Betel, de Cachoeira. As duas s\u00e3o amigas h\u00e1 tr\u00eas anos, respeitam a cren\u00e7a uma da outra e, quando a piau\u00ed as encontrou, elas conversavam descontra\u00eddas em um restaurante \u00e0s margens do Rio Paragua\u00e7u.<\/p>\n<p>Santos foi iniciada no candombl\u00e9 ainda menina e enfrentou forte bullying na escola, por causa das roupas brancas, do cabelo raspado e do \u201cpano de cabe\u00e7a\u201d que precisava usar. \u201cOlha a menina do Diabo\u201d, diziam alguns de seus colegas. Ela ressalta que as pessoas a associavam ao Diabo devido ao culto a Exu nas religi\u00f5es de matriz africana. \u201cMas Exu n\u00e3o \u00e9 o Coisa-Ruim. \u00c9 um orix\u00e1 que faz coisas para o bem e para o mal. Se voc\u00ea pedir o bem, ele vai fazer o bem. Se voc\u00ea pedir o mal, ele vai fazer o mal.\u201d<\/p>\n<p>Moreira, que virou evang\u00e9lica, mora com a m\u00e3e, que \u00e9 ialorix\u00e1 (m\u00e3e de santo) e lhe deu o prenome Indamai\u00e1 em homenagem a uma entidade ind\u00edgena da umbanda. Ela reconhece que muitos evang\u00e9licos discriminam os seguidores de religi\u00f5es de matriz africana, mas acredita que o inverso tamb\u00e9m \u00e9 verdade, mesmo que em menor propor\u00e7\u00e3o. \u201cCada um de n\u00f3s tem que passar o amor e acolher. Assim como sou acolhida por B\u00e1rbara, minha amiga, que me acolhe muito, me ouve\u201d, diz. Ela acredita que Cachoeira, que j\u00e1 foi reconhecida como um dos ber\u00e7os do candombl\u00e9, hoje \u00e9 uma cidade evang\u00e9lica.<\/p>\n<p>Na inf\u00e2ncia, as duas viveram bem pr\u00f3ximas de terreiros de candombl\u00e9, mas isso \u00e9 hoje motivo para que as fam\u00edlias percam a guarda de seus filhos. Uma reportagem publicada pelo site\u00a0<em>The Intercept Brasil<\/em>\u00a0em 2 de maio passado indicou que tem aumentado em v\u00e1rios estados do pa\u00eds o n\u00famero de pedidos de suspens\u00e3o ou perda do poder familiar sobre crian\u00e7as e adolescentes que est\u00e3o em contato com as religi\u00f5es de matriz africana. Segundo a reportagem, o advogado H\u00e9dio Silva Junior havia atuado em um \u00fanico caso desse tipo at\u00e9 2019. A partir daquele ano, j\u00e1 atuou em tr\u00eas casos, \u201cal\u00e9m de outros tr\u00eas de que tomou conhecimento por parte de colegas\u201d. A advogada Patricia Zapponi, que foi vice-presidente da Comiss\u00e3o de Liberdade Religiosa da OAB do Distrito Federal, disse ao\u00a0<em>The Intercept Brasil<\/em>\u00a0que \u201cdentro do direito de fam\u00edlia, n\u00e3o se tinha tanta ocorr\u00eancia com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 religi\u00e3o. Hoje, voc\u00ea j\u00e1 v\u00ea contendas gigantes postuladas em cima disso\u201d.<\/p>\n<p>Engenho Velho da Federa\u00e7\u00e3o \u00e9 conhecido por ser o bairro de Salvador onde se encontra o maior n\u00famero de terreiros de candombl\u00e9. S\u00e3o dezenove, de acordo com informa\u00e7\u00f5es da Funda\u00e7\u00e3o Greg\u00f3rio de Mattos, \u00f3rg\u00e3o vinculado \u00e0 prefeitura. A Bahia \u00e9 o quarto estado com maior n\u00famero de seguidores de religi\u00f5es de matriz africana, depois do Rio Grande do Sul, em primeiro lugar, do Rio de Janeiro e de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>O mais antigo terreiro com registro na Bahia \u00e9 o Il\u00ea Ax\u00e9 Iy\u00e1 Nass\u00f4 Ok\u00e1 (\u201ccasa da M\u00e3e Nass\u00f4 Ok\u00e1\u201d), tamb\u00e9m chamado de Casa Branca do Engenho Velho, fundado em 1830 e tombado duplamente: pelo patrim\u00f4nio hist\u00f3rico de Salvador, em 1982, e pelo Iphan, em 1986. Ocupa uma \u00e1rea de 6,8 mil m<sup>2<\/sup>\u00a0que \u00e9 tamb\u00e9m um espa\u00e7o de preserva\u00e7\u00e3o cultural e paisag\u00edstica de Salvador. Em vista da quantidade de \u00e1rvores e plantas, parece um jardim bot\u00e2nico.<\/p>\n<p>Gersonice Azevedo Brand\u00e3o, conhecida como Ekedy Sinh\u00e1, de 75 anos, guarda ali o legado de Iy\u00e1 Nass\u00f4 Ok\u00e1, segundo ela uma rainha nigeriana que veio para o Brasil e foi uma das tr\u00eas sacerdotisas que fundaram o terreiro. Tudo ali \u00e9 sagrado, da terra onde se pisa \u00e0s edifica\u00e7\u00f5es, al\u00e9m das \u00e1rvores, que s\u00e3o as moradas dos orix\u00e1s e n\u00e3o podem ser cortadas sem que se pe\u00e7a autoriza\u00e7\u00e3o a eles. Apesar disso, esse espa\u00e7o considerado \u201ca m\u00e3e de todos os terreiros de Salvador\u201d, enfrenta desde o s\u00e9culo XIX a intoler\u00e2ncia religiosa, que se ampliou nos \u00faltimos tempos. Ekedy Sinh\u00e1 conta que h\u00e1 alguns anos um grupo de evang\u00e9licos invadiu a Pra\u00e7a de Oxum, que faz parte do terreiro. Os agressores jogaram sal na pra\u00e7a, atiraram pedras no telhado de cer\u00e2mica, de estilo colonial, e disseram que o local daria uma \u201cboa casa de ora\u00e7\u00e3o\u201d. Ela respondeu que ali j\u00e1 era \u201cuma casa de ora\u00e7\u00e3o, onde os filhos rezam cantando, dan\u00e7ando e comendo, na vida e na morte\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA intoler\u00e2ncia religiosa est\u00e1 maior. J\u00e1 houve antes, mas a gente justificava como sendo por falta de conhecimento, pela ignor\u00e2ncia sobre o que \u00e9 a religi\u00e3o do outro. Mas hoje n\u00e3o se admite mais, em pleno s\u00e9culo XXI, que as pessoas n\u00e3o saibam que \u00e9 preciso respeitar o outro e sua f\u00e9\u201d, diz Ekedy Sinh\u00e1. A despeito dos ataques que sofreu ao longo de quase dois s\u00e9culos, o terreiro permanece firme, \u201cpor causa da sabedoria dos mais velhos e da paix\u00e3o dos mais jovens que seguem na tradi\u00e7\u00e3o\u201d, segundo ela. Para garantir que o Terreiro Casa Branca do Engenho Velho se mantenha como um territ\u00f3rio de ax\u00e9, as lideran\u00e7as buscam estrat\u00e9gias tanto no plano espiritual como no material, cogitando at\u00e9 abrir processos jur\u00eddicos.<\/p>\n<p>Logo na entrada do terreiro, v\u00ea-se o Barco de Oxum, pintado de branco e azul, uma refer\u00eancia aos navios que trouxeram os ancestrais da \u00c1frica ao Brasil. Subindo por uma escada, alcan\u00e7a-se o barrac\u00e3o central, a Casa de Xang\u00f4, onde s\u00e3o realizadas as cerim\u00f4nias p\u00fablicas. O espa\u00e7oso terreno tamb\u00e9m abriga as casas de Exu, Ogum, Ox\u00f3ssi, Obaluai\u00ea e Nan\u00e3 e, perto da casa de ax\u00e9, as moradias de nove fam\u00edlias quilombolas.<\/p>\n<p>Os membros mais jovens dessas fam\u00edlias nem sempre seguem a cren\u00e7a dos pais e, no \u00faltimo ano, integrantes de uma delas se tornaram evang\u00e9licos. Essa diferen\u00e7a de religiosidade provocou uma situa\u00e7\u00e3o delicada no terreiro. Para Ekedy Sinh\u00e1, o desconforto n\u00e3o \u00e9 ter que conviver com pessoas de outras religi\u00f5es, mas com aquelas que n\u00e3o respeitam a sua.<\/p>\n<p>No Terreiro Casa Branca, a piau\u00ed foi convidada a assistir \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o do Amal\u00e1 de Xang\u00f4, um rito de fortalecimento espiritual dos filhos de santo, em que se serve o amal\u00e1, o prato preferido do rei de Oy\u00f3. \u00c9 preparado com quiabo, p\u00f3 de camar\u00e3o e azeite de dend\u00ea. A refei\u00e7\u00e3o do orix\u00e1 se completa com o aca\u00e7\u00e1 \u2013 outra iguaria ritual, feita de milho branco, que fica de molho de um dia para o outro, \u00e9 mo\u00eddo e envolto em folhas de bananeira.<\/p>\n<p>A festa estava marcada para as 19 horas, e o pesquisador Fernando Batista dos Santos, doutorando em cultura e sociedade na Universidade Federal da Bahia, alertou que ningu\u00e9m deveria se atrasar: todos precisavam estar no terreiro antes da chegada de Nancy de Souza e Silva, ou Cici de Oxal\u00e1, do terreiro Il\u00ea Ax\u00e9 Op\u00f4 Aganju. Batista \u00e9 amigo e escudeiro de M\u00e3e Cici, que \u00e9 tamb\u00e9m guardi\u00e3 da Funda\u00e7\u00e3o Pierre Verger, respons\u00e1vel por zelar pelo acervo do fot\u00f3grafo e etn\u00f3logo franc\u00eas que estudou e retratou o candombl\u00e9, adotando-o tamb\u00e9m como sua religi\u00e3o.<\/p>\n<p>Na entrada do barrac\u00e3o, o Barco de Oxum recebeu m\u00e1scaras geled\u00e9s \u2013 da cultura iorub\u00e1 \u2013 em ladrilho. Foram enviadas por Manny Vega, artista norte-americano de origem porto-riquenha e filho de Ox\u00f3ssi, iniciado por M\u00e3e Menininha do Gantois, a mais famosa ialorix\u00e1 da hist\u00f3ria do candombl\u00e9 no Brasil. O piso de pedra do barrac\u00e3o estava coberto por folhas de acoc\u00f4, que indicam prosperidade.<\/p>\n<p>Cheguei pontualmente e pude me sentar logo atr\u00e1s das autoridades da religi\u00e3o e ao lado dos og\u00e3s, que tocam os tambores \u2013 todos n\u00f3s em frente \u00e0 gigante Coroa de Xang\u00f4, feita de madeira e pedraria, disposta sobre os pilares do trono do orix\u00e1, um tablado no centro da sala. Perto da coroa fica a cadeira da m\u00e3e de santo da casa, Neuza de Xang\u00f4 Aganju.<\/p>\n<p>A percuss\u00e3o dos og\u00e3s marca cada momento lit\u00fargico e o ritmo da cerim\u00f4nia, durante a qual n\u00e3o h\u00e1 fala alguma. As mulheres vestem saias rodadas, a maior parte delas branca. Algumas dan\u00e7am no c\u00edrculo que se forma em volta do trono de Xang\u00f4. As filhas do orix\u00e1 sa\u00fadam a imagem e trazem o amal\u00e1, que \u00e9 apresentado \u00e0s esposas de Xang\u00f4 \u2013 Oy\u00e1 ou Ians\u00e3, Iemanj\u00e1, Ob\u00e1 e Oxum \u2013 antes de ser colocado aos p\u00e9s do orix\u00e1.<\/p>\n<p>Casa Branca \u00e9 um terreiro matriarcal, onde somente as mulheres podem conduzir a liturgia. O momento mais esperado da noite \u00e9 a chegada de Xang\u00f4, manifestado em M\u00e3e Neuza, que se tornou l\u00edder da casa em dezembro de 2020. Naquela noite, saboreei o prato generosamente servido, cantei, rezei e agradeci a Xang\u00f4 pelo banquete.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: A nova batalha de Xang\u00f4 contra a intoler\u00e2ncia religiosa &#8211; Outras Palavras &#8211; https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/a-nova-batalha-de-xango-contra-a-intolerancia-religiosa\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00e1rcia Maria Cruz &#8211; No terreiro de Pai Duda, em Cachoeira (BA), drones de vigia precederam os ataques. 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