{"id":18222,"date":"2022-08-22T12:32:01","date_gmt":"2022-08-22T15:32:01","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18222"},"modified":"2022-08-20T16:34:52","modified_gmt":"2022-08-20T19:34:52","slug":"a-falta-de-imaginacao-politica-da-esquerda-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/08\/22\/a-falta-de-imaginacao-politica-da-esquerda-brasileira\/","title":{"rendered":"A falta de imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da esquerda brasileira"},"content":{"rendered":"<p><strong>Igor Peres<\/strong> &#8211; Em seu primeiro livro,<a href=\"https:\/\/elefanteeditora.com.br\/produto\/alem-do-pt\/\">\u00a0<em>Al\u00e9m do PT: a crise da esquerda brasileira em perspectiva latino-americana<\/em>\u00a0<\/a>(Elefante, 2017), voc\u00ea argumenta que, para pensar o Partido dos Trabalhadores (PT), ele deve ser enquadrado em uma hist\u00f3ria dos impasses das propostas reformistas na Am\u00e9rica Latina. Voc\u00ea poderia aprofundar um pouco essa ideia?<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio enquadrar a forma\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento do PT em um contexto hist\u00f3rico mais amplo e dizer que o PT incorporou uma for\u00e7a e uma inten\u00e7\u00e3o pol\u00edtica mais ampla. Qual foi a sua aposta? O que se conhece como projeto democr\u00e1tico popular, que inclui uma t\u00e1tica, um m\u00e9todo, um caminho pol\u00edtico conhecido como \u201cteoria da pin\u00e7a\u201d: de um lado est\u00e1 a press\u00e3o dos movimentos populares na rua e do outro o Partido ocupando espa\u00e7os pol\u00edticos por meio de elei\u00e7\u00f5es. Dessa forma, produz-se um movimento, uma press\u00e3o popular, que leva a reformas democr\u00e1ticas e, em seu limite m\u00e1ximo, ao socialismo. De onde vem essa aposta?<\/p>\n<p>Devemos lembrar que o PT foi formado no final dos anos 1970, in\u00edcio dos anos 1980, em um contexto de derrota do movimento guerrilheiro, tanto no Brasil quanto em outras partes da Am\u00e9rica do Sul, e a ascens\u00e3o do eurocomunismo na Europa. \u00c9 um compromisso com uma rota que combina a press\u00e3o dos movimentos sociais dentro da ordem com a disputa pol\u00edtica institucional. Quero enfatizar que esse \u00e9 um compromisso muito mais amplo do que o PT: o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), as comunidades eclesiais de base, a Central \u00danica dos Trabalhadores (CUT) fazem parte desse campo popular mais amplo que encontra no PT seu instrumento pol\u00edtico por excel\u00eancia e encarnam essa aposta. A trajet\u00f3ria hist\u00f3rica do PT entre os anos 1980 e o presente \u00e9 uma esp\u00e9cie de prova viva dos limites dessa estrat\u00e9gia.<\/p>\n<p>Em termos te\u00f3ricos, isso j\u00e1 foi afirmado com muita clareza por Florestan Fernandes (1920-1995), talvez o mais importante soci\u00f3logo do Brasil, que, analisando e interpretando o golpe militar de 1964, concluiu que se tratava de uma revolu\u00e7\u00e3o burguesa brasileira. Sem entrar em detalhes, pois daria para toda uma aula, a ideia \u00e9 que o projeto dessa burguesia se consolide como uma contrarrevolu\u00e7\u00e3o permanente. Assim, o espa\u00e7o para reforma dentro da ordem se estreita brutalmente. N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o moral: a forma como os privil\u00e9gios internos s\u00e3o articulados com rela\u00e7\u00e3o ao capital externo produz um padr\u00e3o de luta de classes que n\u00e3o d\u00e1 margem a reformas. \u00c9 uma burguesia que se assume como antipopular, antidemocr\u00e1tica e antinacional. Assim, os governos petistas, especialmente o primeiro de Lula, v\u00e3o recuperar a ideia de desenvolvimento nacional, formando uma esp\u00e9cie de nova encarna\u00e7\u00e3o daquela burguesia, que \u00e9 conhecida como \u201ccampe\u00e3 nacional\u201d e cuja orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 neodesenvolvimentista. \u00c9 um pouco como a ideia de \u201ccapitalismo a s\u00e9rio\u201d na Argentina. A reencarna\u00e7\u00e3o de uma aposta que nasceu naquele contexto espec\u00edfico \u2013 a expans\u00e3o capitalista do p\u00f3s-guerra \u2013 que teoricamente j\u00e1 tinha uma elabora\u00e7\u00e3o indicando os limites concretos (sociais, econ\u00f4micos etc.) dessa aposta, mas o PT \u00e9 a prova pr\u00e1tica desses limites.<\/p>\n<p><strong>No n\u00edvel interno, voc\u00ea caracteriza os governos Lula como uma forma de regular os conflitos sociais, com base em concess\u00f5es espec\u00edficas e sustentado por um modo de acumula\u00e7\u00e3o financeirizado. Ao mesmo tempo, com base nesse funcionamento interno do PT, voc\u00ea reflete sobre sua implanta\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o. Como essa configura\u00e7\u00e3o interna se articula com o projeto externo, regional?<\/strong><\/p>\n<p>A ideia do modelo lulista de regula\u00e7\u00e3o do conflito social, que \u00e9 uma ideia do soci\u00f3logo e colega Ruy Braga, \u00e9 uma articula\u00e7\u00e3o entre melhorias discretas para os mais pobres \u2013 como aumento do sal\u00e1rio m\u00ednimo e pol\u00edticas de transfer\u00eancia de renda condicionada, como foi o programa Bolsa Fam\u00edlia \u2013 e a continuidade dos neg\u00f3cios como de costume (<em>business as usual<\/em>). E o neg\u00f3cio usual no Brasil, desde as d\u00e9cadas de 1980 e 1990, \u00e9 o extrativismo e a financeiriza\u00e7\u00e3o. Esse modelo se desenvolve no contexto regional do boom das commodities, que permite o ganha-ganha em que se ancora a pax lulista. Isso come\u00e7a a desmoronar em junho de 2013, com a conjun\u00e7\u00e3o de uma crise econ\u00f4mica, pol\u00edtica e social. Por isso acho que a chave mais adequada para entender o processo de impeachment de Dilma Roussef \u00e9 o esgotamento desse modo de regula\u00e7\u00e3o do conflito social.<\/p>\n<p>Por outro lado, h\u00e1 o projeto regional. A ideia de um neodesenvolvimentismo est\u00e1 ancorada em uma integra\u00e7\u00e3o regional da Am\u00e9rica do Sul \u2014 n\u00e3o como equipe, mas como proje\u00e7\u00e3o da lideran\u00e7a do Brasil. Isso explica por que Brasil e Argentina (com Kirchner e Cristina Fern\u00e1ndez) apoiaram a constitui\u00e7\u00e3o da Unasul, em vez de aderir \u00e0 Alba, proposta por Venezuela e Cuba. E qual \u00e9 a ideia brasileira? A amplia\u00e7\u00e3o dos neg\u00f3cios com empresas conhecidas como \u201ccampe\u00e3s nacionais\u201d, que s\u00e3o efetivamente exploradoras de recursos prim\u00e1rios, de carnes a hidrocarbonetos, como a Petrobras, ou construtoras. H\u00e1 uma expans\u00e3o desses neg\u00f3cios na regi\u00e3o. E como \u00e9 essa pol\u00edtica?<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, por meio de cr\u00e9dito do Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social (BNDES). E, em segundo lugar, da diplomacia do Pal\u00e1cio do Itamaraty, sede do Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores do Brasil. H\u00e1 uma pol\u00edtica de expans\u00e3o muito ativa com a ideia de projetar a influ\u00eancia econ\u00f4mica brasileira. E isso foi um pilar para a proje\u00e7\u00e3o pol\u00edtica internacional. Em outras palavras, a lideran\u00e7a brasileira na regi\u00e3o transforma o Brasil em um player global. Desse ponto de vista, a pol\u00edtica venezuelana \u00e9 vista como uma competi\u00e7\u00e3o, al\u00e9m das apar\u00eancias ou da simpatia pessoal entre Ch\u00e1vez e Lula. Por isso o Brasil n\u00e3o quis fazer parte, por exemplo, da Telesur, e n\u00e3o apoiou nenhuma iniciativa venezuelana naquele per\u00edodo.<\/p>\n<p>Tanto interna quanto externamente, essa estrat\u00e9gia teve sucesso no in\u00edcio, at\u00e9 que estourou a crise de 2013 com seus tr\u00eas componentes: econ\u00f4mico, pol\u00edtico e social. O componente social \u00e9 a revolta de junho de 2013, que, a meu ver, como j\u00e1 disse, expressa o esgotamento do modo lulista de regula\u00e7\u00e3o do conflito social. O componente pol\u00edtico s\u00e3o as den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o, retratadas como espet\u00e1culo midi\u00e1tico, transformando ju\u00edzes em popstars. Ao mesmo tempo, a crise econ\u00f4mica eclodiu em 2014 e no final do ano come\u00e7ou uma recess\u00e3o que continuou em 2015, 2016. A conjun\u00e7\u00e3o entre os tr\u00eas elementos expressa o esgotamento do modelo lulista e \u00e9 em resposta a esse esgotamento que as classes dominantes brasileiras mudam de estrat\u00e9gia. Com o colapso desse projeto, a dimens\u00e3o da integra\u00e7\u00e3o regional tamb\u00e9m \u00e9 jogada por terra. Isso fica mais evidente no caso peruano, com os esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o da Odebrecht, com tantos presidentes envolvidos e at\u00e9 presos. Essa arquitetura que ligava neg\u00f3cios e proje\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ruiu e derrubou a Odebrecht, mas tamb\u00e9m a Unasul.<\/p>\n<p><strong>Sobre junho de 2013, h\u00e1 uma interpreta\u00e7\u00e3o que circulou em muitos espa\u00e7os acad\u00eamicos e que voc\u00ea discute. Essa interpreta\u00e7\u00e3o sustenta que se tratou de uma luta intraclasse, onde uma certa classe m\u00e9dia com comportamento ressentido teria se\u00a0<\/strong><strong>incomodado<\/strong><strong>\u00a0com a ascens\u00e3o daqueles que at\u00e9 ent\u00e3o ocupavam os segmentos mais baixos da pir\u00e2mide social. Voc\u00ea prop\u00f5e outra interpreta\u00e7\u00e3o<\/strong><strong>,<\/strong><strong>\u00a0e at\u00e9 diferencia junho de 2013 de suas derivas em 2015 e 2016.<\/strong><\/p>\n<p>A resposta requer uma estrutura mais ampla. Minha interpreta\u00e7\u00e3o retrospectiva \u00e9 que naquele momento, mais do que o esgotamento do PT, assist\u00edamos ao esgotamento do que chamamos de Nova Rep\u00fablica. \u00c9 o per\u00edodo pol\u00edtico que se instaurou ap\u00f3s a ditadura e que tem como refer\u00eancia fundamental a Constitui\u00e7\u00e3o Cidad\u00e3 de 1988. Naquele momento, havia um horizonte de esperan\u00e7a e expectativa de inclus\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o a uma cidadania salarial: direitos sociais, por um lado; emprego est\u00e1vel, do outro. Mas ent\u00e3o veio o neoliberalismo e uma primeira frustra\u00e7\u00e3o. O partido que se identificou com essa agenda, o PSDB, com Fernando Henrique Cardoso como figura mais conhecida, se esgotou de tal forma que n\u00e3o ganhou mais nenhuma elei\u00e7\u00e3o presidencial. Depois v\u00eam os governos do PT com a esperan\u00e7a de retomar esse horizonte cidad\u00e3o. Parece-me ent\u00e3o que junho de 2013 \u00e9 uma frustra\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a essa expectativa de inclus\u00e3o.<\/p>\n<p>O esgotamento do PT no poder \u00e9, ao mesmo tempo, o esgotamento da esperan\u00e7a na Nova Rep\u00fablica. Isso nos ajuda a entender os rumos da pol\u00edtica brasileira ap\u00f3s esse contexto. Vejamos: os tucanos conspiraram para tirar Dilma e logo depois, quando j\u00e1 era tarde demais, demonstraram certo arrependimento. Com a sa\u00edda do PT da cadeira presidencial, o que afunda \u00e9 a Nova Rep\u00fablica, que se identifica com os dois partidos. Assim como os partidos Democrata e Republicano nos Estados Unidos, PT e PSDB s\u00e3o opostos, mas n\u00e3o contr\u00e1rios. Isso ajuda a entender por que, para as elei\u00e7\u00f5es de outubro de 2022, Lula constr\u00f3i a f\u00f3rmula com Geraldo Alckmin, uma das figuras hist\u00f3ricas mais importantes dos tucanos com passado de oposi\u00e7\u00e3o a Lula (embora Alckmin seja atualmente filiado ao PSB). Agora eles est\u00e3o juntos em uma tentativa imposs\u00edvel de ressuscitar a Nova Rep\u00fablica e os partidos que a lideraram. Da\u00ed o messianismo que caracteriza a candidatura de Lula.<\/p>\n<p>As interpreta\u00e7\u00f5es que voc\u00ea mencionou, que tra\u00e7avam uma suposta continuidade entre 2013 e os protestos contra Dilma, n\u00e3o se sustentam; as investiga\u00e7\u00f5es de campo mostram o contr\u00e1rio. Os perfis das pessoas que protestaram, em um caso e no outro, foram totalmente diferentes. H\u00e1 uma narrativa de que houve uma ascens\u00e3o social, que se formou uma nova classe m\u00e9dia e que depois houve uma esp\u00e9cie de ingratid\u00e3o quando ela n\u00e3o p\u00f4de continuar ascendendo. \u00c9 a mesma narrativa \u00e0 qual Garc\u00eda Linera recorreu para interpretar a situa\u00e7\u00e3o na Bol\u00edvia em 2019. O progressismo na Am\u00e9rica do Sul compartilha muitas estrat\u00e9gias narrativas nas quais o papel dos Estados Unidos nessas crises \u00e9 supervalorizado. \u00c9 uma maneira de sair do gancho, de coloc\u00e1-lo na classe m\u00e9dia. \u00c9 tamb\u00e9m uma forma de polarizar para produzir mobiliza\u00e7\u00e3o. Mas \u00e9 uma mobiliza\u00e7\u00e3o que convoca sentimentos, ou instintos, e \u00e9 inimiga do pensamento cr\u00edtico. E aqui h\u00e1 um ponto de contato \u00f3bvio \u2013 e \u00e9 uma das raz\u00f5es pelas quais afirmamos que o lulismo \u00e9 oposto, mas n\u00e3o contr\u00e1rio ao bolsonarismo.<\/p>\n<p><strong>No que diz respeito ao esgotamento da Nova Rep\u00fablica, essa ideia poderia ser estendida para atingir o horizonte civilizat\u00f3rio, ou seja, um achatamento do horizonte de expectativas; o que, por sua vez, impacta a maneira como o progressismo latino-americano pensa para tr\u00e1s e para frente. Neste mesmo livro,\u00a0<\/strong><strong><em>O m\u00e9dico e o monstro<\/em><\/strong><strong>, Daniel Feldmann e voc\u00ea trabalham com a ideia de\u00a0<em>buying time<\/em>\u00a0de Wolfgang Streeck: o capitalismo entra em uma fase depressiva na qual n\u00e3o tem nada a oferecer al\u00e9m de receitas de ajuste e op\u00e7\u00f5es eleitorais neofascistas. Voc\u00ea usa essa ideia tamb\u00e9m para caracterizar os limites do progressismo em termos de imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Especificamente, voc\u00ea est\u00e1 trabalhando uma ideia\u00a0<\/strong><strong>de<\/strong><strong>\u00a0conten\u00e7\u00e3o aceleracionista<\/strong><strong>. V<\/strong><strong>oc\u00ea poderia explic\u00e1-la?<\/strong><\/p>\n<p>Se olharmos a onda progressista em um quadro mais amplo, pensando na crise estrutural do capital a partir da d\u00e9cada de 1970; se entendermos que a ideia de cidadania salarial com estabilidade no emprego e direitos sociais est\u00e1 se desgastando em todo o mundo e o neoliberalismo a acelera, podemos entender o progressismo latino-americano e o PT como o cap\u00edtulo brasileiro da tentativa de conter a crise. O drama \u00e9 que as pol\u00edticas e dispositivos para conter a crise tamb\u00e9m aceleram essa mesma crise. Isso tem a ver com uma forma social e n\u00e3o com as inten\u00e7\u00f5es de seus dirigentes. Dou tr\u00eas exemplos do Brasil para ver se consigo ilustrar a ideia.<\/p>\n<p>A primeira \u00e9 quando Lula vence as elei\u00e7\u00f5es de 2002 e convoca para presidente do Banco Central um deputado tucano, do partido da oposi\u00e7\u00e3o, que havia sido presidente mundial do Bank Boston. Ele renuncia \u00e0 sua bancada de suplente e vai presidir o Banco Central pelos oito anos seguintes. Por qu\u00ea? Porque havia uma amea\u00e7a de fuga de capitais. Em outras palavras, uma concess\u00e3o baseada na garantia de que a agenda de austeridade indicada pela ortodoxia financeira seria respeitada. Essa figura, Henrique Meirelles, acabou sendo o ministro da Economia de Michel Temer e ent\u00e3o candidato \u00e0 presid\u00eancia pelo partido do ex-presidente golpista, o MDB. Qual \u00e9 o ponto? Meirelles entra no governo para conter uma amea\u00e7a de crise, mas em um segundo momento a estrat\u00e9gia de conten\u00e7\u00e3o empoderou um agente crucial na acelera\u00e7\u00e3o da crise.<\/p>\n<p>Um segundo exemplo, que deve ser pensado em termos pol\u00edticos, \u00e9 a entrada do pr\u00f3prio Michel Temer no governo petista. Como isso aconteceu? Em 2005 houve um esc\u00e2ndalo de corrup\u00e7\u00e3o muito importante conhecido como mensal\u00e3o, porque foram feitos pagamentos mensais a diferentes deputados para apoiar o governo. Como o PT reagiu \u00e0 crise? Ampliando o espa\u00e7o pol\u00edtico de apoio ao governo para o ent\u00e3o PMDB, partido de Temer, partido de direita que se apresenta como centro, partido sem ideologia, mas com muita capilaridade nos territ\u00f3rios, com muitos votos. Com o apoio do PMDB, o PT consolidou a estabilidade pol\u00edtica. Em troca disso, Temer acaba sendo duas vezes vice-presidente. Mais uma vez: para conter a crise pol\u00edtica, a resposta, a estrat\u00e9gia, acaba fortalecendo os atores sociais e as for\u00e7as pol\u00edticas que em outro momento ser\u00e3o fundamentais para acelerar a crise.<\/p>\n<p>Por fim, poder\u00edamos fazer esse mesmo racioc\u00ednio para pensar o fortalecimento do poder pol\u00edtico dos militares durante o governo petista. Em 2004, o PT envia soldados ao Haiti para comandar a interven\u00e7\u00e3o internacional da ONU. Ao retornarem, empoderados, tornaram-se um ator pol\u00edtico fundamental e ocupam cargos-chave no governo Bolsonaro.<\/p>\n<p>E os exemplos poderiam continuar, podemos pensar em construtoras ou igrejas evang\u00e9licas, a estrutura \u00e9 sempre a mesma. Da\u00ed a ideia de que a conten\u00e7\u00e3o acaba provocando ou fortalecendo os agentes de acelera\u00e7\u00e3o. Desse ponto de vista, o processo de impeachment aberto pelo Senado em 2016 contra Dilma Rousseff e sua destitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o devem ser entendidos como um giro de 180 graus, como uma mudan\u00e7a na dire\u00e7\u00e3o oposta \u2013 algo parecido ao papel de Pinochet no golpe de Estado de 1973 no Chile. N\u00e3o tem nada a ver. Para melhor entend\u00ea-lo, poder\u00edamos usar a imagem de uma met\u00e1stase: todos esses interesses, for\u00e7as, atores corrosivos, mas que pareciam satisfeitos com a pol\u00edtica do PT, em um segundo momento avan\u00e7am incontrolavelmente pelo tecido social. Nesse sentido falo de uma conten\u00e7\u00e3o que depois se acelera. Existem outros exemplos na Am\u00e9rica Latina, mas o caso brasileiro \u00e9 muito claro.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 interessante como voc\u00ea argumenta que o que parece novo com Jair Bolsonaro j\u00e1 estava contido no processo anterior. Mas, ent\u00e3o, qual seria a diferen\u00e7a espec\u00edfica entre o bolsonarismo e os governos Lula? \u00c9 feito de material pr\u00f3prio ou tudo o que desdobra se refere aos governos petistas?<\/strong><\/p>\n<p>Fa\u00e7amos um esclarecimento: \u00e9 evidente que PT e bolsonarismo n\u00e3o s\u00e3o a mesma coisa. Se a pol\u00edtica do PT \u00e9 de conten\u00e7\u00e3o, a do bolsonarismo \u00e9 de acelera\u00e7\u00e3o. Mas o problema \u00e9 que a conten\u00e7\u00e3o n\u00e3o impede a acelera\u00e7\u00e3o, apesar de sua inten\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 importante. N\u00e3o \u00e9 uma cr\u00edtica moral ao PT: estamos falando de processos hist\u00f3ricos que est\u00e3o al\u00e9m das vontades ou interesses dos agentes individuais. Assim como a conten\u00e7\u00e3o n\u00e3o impede a acelera\u00e7\u00e3o e acaba por caus\u00e1-la, a acelera\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m exigir\u00e1 a conten\u00e7\u00e3o, que \u00e9 outra ideia que desenvolvemos no livro. O PT est\u00e1 administrando a crise, enquanto o bolsonarismo governa pela crise: h\u00e1 uma diferen\u00e7a importante. Como exemplo podemos pensar na atua\u00e7\u00e3o de cada for\u00e7a no contexto de uma pandemia. O que o PT faria? Uma importante tentativa de salvar vidas, respeitando a austeridade fiscal. Como combinar isso de forma mais inteligente, com tecnologias sociais e econ\u00f4micas? Os petistas s\u00e3o muito competentes nisso, tanto que exportaram suas pol\u00edticas para muitas partes da Am\u00e9rica Latina. Mas s\u00e3o tecnologias para administrar uma situa\u00e7\u00e3o cujas causas estruturais n\u00e3o s\u00e3o contestadas. A ideia do PT a princ\u00edpio \u00e9 muito sensata. Num pa\u00eds grande e desigual como o Brasil, a ideia \u00e9 que muito pode ser feito sem enfrentar lutas estruturais. Em teoria, funciona, mas Florestan Fernandes est\u00e1 a\u00ed para explicar por que \u00e9 invi\u00e1vel.<\/p>\n<p>Em vez disso, o bolsonarismo \u00e9 acelera\u00e7\u00e3o e na pandemia governa aproveitando a crise. Mas, qual \u00e9 o ponto em comum do bolsonarismo com outras formas de pol\u00edtica de \u00f3dio no mundo? Muito se fala sobre os votos da extrema direita, da classe m\u00e9dia que saiu \u00e0s ruas, conte\u00fados que foram reprimidos e sa\u00edram como monstros. Mas devemos lembrar que muitos votaram em Bolsonaro n\u00e3o porque ele \u00e9 fascista, mas porque o percebem como um antissistema. Algu\u00e9m que vive dizendo que quer fechar o Congresso, que \u00e9 contra a Globo. Historicamente s\u00e3o bandeiras ou ideias de esquerda. Por que destaco esse aspecto? Mostrar que o que est\u00e1 afundando novamente \u00e9 a esperan\u00e7a da Nova Rep\u00fablica. N\u00e3o s\u00e3o apenas os fascistas ou a nova direita. Isso tamb\u00e9m explica por que uma porcentagem significativa dos eleitores de Lula votou posteriormente em Bolsonaro.<\/p>\n<p><strong>A \u00faltima\u00a0<\/strong><strong>e<\/strong><strong>\u00a0fundamental quest\u00e3o seria o que fazemos com a sociedade que se apresenta diante de nossos olhos nos \u00faltimos anos no Brasil; uma sociedade onde o que prevalece \u00e9 um tecido emocional negativo, violento, agressivo, com la\u00e7os que se baseiam mais no medo e na raiva do que na solidariedade. Como pensamos uma pol\u00edtica a partir da\u00ed? Acrescento mais uma coisa: o bolsonarismo tamb\u00e9m mostrou que temos uma d\u00edvida com nosso passado colonial e escravocrata que n\u00e3o foi paga.<\/strong><\/p>\n<p>Tr\u00eas coment\u00e1rios: primeiro, o bolsonarismo tamb\u00e9m nos ensina que h\u00e1 potencial para uma pol\u00edtica radical e popular. Inicialmente, Lula baseou-se em pesquisas que indicavam que o povo acreditava que o Estado deveria intervir nas quest\u00f5es sociais e econ\u00f4micas, mas sem rupturas radicais. Essa foi a justificativa para a elabora\u00e7\u00e3o mais sofisticada do que se conhece como lulismo. O ponto para o qual quero chamar a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 que o bolsonarismo est\u00e1 mobilizando popula\u00e7\u00f5es com uma agenda radical. O problema n\u00e3o \u00e9 o radicalismo; a chave \u00e9 como esse radicalismo se conecta com a realidade das pessoas. Existe um potencial a\u00ed.<\/p>\n<p>Segundo coment\u00e1rio: as recentes rebeli\u00f5es na Am\u00e9rica do Sul, inclusive em junho de 2013, nos apontam para um dilema: tivemos rebeli\u00f5es muito radicais na Col\u00f4mbia, no Peru, no Chile, at\u00e9 mesmo no Paraguai durante a pandemia, que tamb\u00e9m s\u00e3o rebeli\u00f5es contra as formas pol\u00edticas de progressismo. Isso nos ajuda a entender por que Ver\u00f3nika Mendoza n\u00e3o venceu no Peru, por exemplo. Mas o drama \u00e9 que, quando as ruas voltam a se esvaziar, a melhor ideia pol\u00edtica que temos hoje no continente \u00e9 convocar uma Constituinte e eleger outro presidente. H\u00e1 uma falta de imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica coletiva. N\u00e3o \u00e9 o problema de um determinado pa\u00eds, ou de uma pessoa espec\u00edfica. Se no s\u00e9culo XX t\u00ednhamos como horizonte a revolu\u00e7\u00e3o para a tomada do Estado, a transi\u00e7\u00e3o do capitalismo para o comunismo, que seria o socialismo, hoje esse imagin\u00e1rio n\u00e3o mobiliza mais as massas, porque j\u00e1 se tornou conhecido todo o problema do socialismo estatista etc. Mas a quest\u00e3o permanece em aberto quanto ao que colocamos em seu lugar. Se isso n\u00e3o foi bom como um sonho, se mesmo o stalinismo foi para muitos um pesadelo, o que colocamos no lugar do sonho? \u00c9 um drama mundial. As rebeli\u00f5es est\u00e3o l\u00e1, a raiva est\u00e1 l\u00e1, as pessoas saem, a indigna\u00e7\u00e3o continua. Temos o exemplo argentino do\u00a0<em>\u00a1Qu\u00e9 se vayan todos!<\/em>. Quando todos forem embora, o que vamos fazer no dia seguinte? Temos que pensar, temos que inventar.<\/p>\n<p>Terceiro coment\u00e1rio: o diagn\u00f3stico \u00e9 que o Brasil e o continente t\u00eam c\u00e2ncer, que \u00e9 uma doen\u00e7a muito grave. E o progressismo \u2013 ou petismo, no caso brasileiro \u2013 oferece uma aspirina: matiza efeitos e pode ser bem-vindo, o que \u00e9 melhor do que algu\u00e9m bater em voc\u00ea \u2013 como faz o Bolsonaro, acelerando a doen\u00e7a. Mas os problemas causados pela doen\u00e7a n\u00e3o s\u00e3o resolvidos. N\u00e3o conhecemos a vacina contra o c\u00e2ncer e esse \u00e9 o desafio a ser enfrentado como planeta. E a\u00ed \u00e9 fundamental estar atento a tudo que confronta a l\u00f3gica das mercadorias, que s\u00e3o como laborat\u00f3rios: as ocupa\u00e7\u00f5es ou movimentos \u2013 como em junho de 2013 \u2013 pelo transporte p\u00fablico gratuito colocam o usufruto (ou o valor de uso) antes da mercadoria (valor de troca). Tamb\u00e9m aqueles que enfrentam a l\u00f3gica da individualidade e n\u00e3o do pensamento. Porque a atual polariza\u00e7\u00e3o no Brasil entre lulismo e bolsonarismo \u00e9 funcional de um lado e de outro. A oposi\u00e7\u00e3o entre Coca-Cola e Pepsi n\u00e3o tinha como objetivo que a pessoa consumisse uma ou outra. O objetivo era acabar com as alternativas. \u00c9 polarizado de forma messi\u00e2nica e certas figuras s\u00e3o projetadas como super-her\u00f3is, o que \u00e9 uma forma de infantilizar o povo brasileiro, mas tamb\u00e9m de preparar futuras frustra\u00e7\u00f5es. Em que se traduzia o peso da frustra\u00e7\u00e3o com o petismo? Na frustra\u00e7\u00e3o da Nova Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>A pergunta que eu deixo \u00e9: se Lula vencer, o que acontecer\u00e1 com o Brasil em quatro ou cinco anos, quando se descobrir que seu governo n\u00e3o conseguiu resolver nenhum dos problemas importantes da popula\u00e7\u00e3o? Mas a espiral continua. O Brasil de 2023 \u00e9 muito diferente do de 2003, quando Lula venceu pela primeira vez. Podemos tomar aspirina, mas temos que trabalhar duro pela vacina. A vacina exige a supera\u00e7\u00e3o dessa forma social produzida pelo Bolsonaro.<\/p>\n<p>Esta entrevista foi realizada no \u00e2mbito do projeto \u201cA situa\u00e7\u00e3o brasileira entre o passado e o futuro\u201d, promovido pelo Centro Cultural de Coopera\u00e7\u00e3o Floreal Gorini, em Buenos Aires, em junho de 2022.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: A falta de imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da esquerda brasileira &#8211; Editora Elefante &#8211; https:\/\/elefanteeditora.com.br\/a-falta-de-imaginacao-politica-da-esquerda-brasileira\/?ct=t%28DAREDACAO_breno%2311_Tira%2323_Retratos_20201025_COPY_%29&amp;mc_cid=f22babec81&amp;mc_eid=0ac7cd7efd<\/p>\n<div id=\"__reading__mode__content_end_mark_container_id\"><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Igor Peres &#8211; Em seu primeiro livro,\u00a0Al\u00e9m do PT: a crise da esquerda brasileira em perspectiva latino-americana\u00a0(Elefante, 2017), voc\u00ea argumenta que, para pensar o Partido dos Trabalhadores (PT), ele deve ser enquadrado em uma hist\u00f3ria dos impasses das propostas reformistas na Am\u00e9rica Latina. 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