{"id":18208,"date":"2022-08-18T12:43:50","date_gmt":"2022-08-18T15:43:50","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18208"},"modified":"2022-08-14T20:46:22","modified_gmt":"2022-08-14T23:46:22","slug":"francis-fukuyama-quem-diria-morreu-em-pequim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/08\/18\/francis-fukuyama-quem-diria-morreu-em-pequim\/","title":{"rendered":"Francis Fukuyama \u2014 quem diria \u2014 morreu em Pequim"},"content":{"rendered":"<p><strong>Fernando Marcelino<\/strong> &#8211; Vinte hip\u00f3teses sobre a trajet\u00f3ria do socialismo e o \u201cfim da Hist\u00f3ria\u201d. Em 1989, caiu o estatismo sovi\u00e9tico, mas n\u00e3o a esperan\u00e7a de superar o capitalismo. Ela reaparece na China \u2014 imperfeita, mas em claro desafio \u00e0 ordem neoliberal.<\/p>\n<ol>\n<li>\u00c9 bem conhecida a ideia promulgada pelo \u201cmarxismo ocidental\u201d de que atualmente \u00e9 mais f\u00e1cil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. O socialismo encabe\u00e7ado pela URSS acabou. Todos seus m\u00e9todos passaram a ser vistos como obsoletos. As alternativas socialistas s\u00f3 poderiam nos levar a uma sociedade cinzenta, tediosa e supercontrolada. Enquanto uns apontaram que era preciso liquidar o capitalismo imediatamente, outros passaram a defender a ideia de \u201cmudar o mundo sem tomar o poder\u201d. Ganharam for\u00e7a os \u00edmpetos de domesticar o capitalismo por meio da democracia liberal, com uma democracia mais participativa. Novas formas de lutar dentro do capitalismo liberal contra o capitalismo passaram a ser incentivadas. A tese exposta por Francis Fukuyama de que hav\u00edamos chegado ao \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d por n\u00e3o existir um sistema superior ao capitalismo liberal ganhou cora\u00e7\u00f5es e mentes por todo canto. At\u00e9 mesmo badalados cr\u00edticos marxistas passaram a enfatizar que os pa\u00edses remanescentes socialismo real como a China estavam desembocado em algo pior que o capitalismo ocidental, pois passaram a combinar um Estado forte e autorit\u00e1rio e com din\u00e2mica capitalista selvagem, sem contar o trabalho escravo e a viola\u00e7\u00e3o de direitos humanos.<\/li>\n<li>\u00c9 verdade que n\u00e3o existe um consenso geral sobre o que seja o socialismo, nem sequer entre aqueles que se consideram socialistas. Nunca o significado de socialismo foi o mesmo para aqueles que se identificam com o socialismo. Diante de tantas opini\u00f5es e diverg\u00eancias, vamos tomar como base a no\u00e7\u00e3o b\u00e1sica desenvolvida por Marx: o socialismo \u00e9 uma forma\u00e7\u00e3o social que deve superar o capitalismo no longo processo hist\u00f3rico por se tratar de um modo de produ\u00e7\u00e3o da vida social que atende as necessidades materiais e imateriais da humanidade.<\/li>\n<\/ol>\n<ol start=\"3\">\n<li>Marx concluiu que o sistema econ\u00f4mico e social capitalista gerava contradi\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias que deveriam transform\u00e1-lo, ao amadurecer, numa sociedade de novo tipo. Chamou-a socialismo (fase inicial) e comunismo (fase superior). S\u00e3o diferentes modos de produ\u00e7\u00e3o com correspond\u00eancias pr\u00f3prias entre uma estrutura econ\u00f4mica (for\u00e7as produtivas + rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o correspondentes), uma estrutura jur\u00eddico-pol\u00edtica (respons\u00e1vel por garantir a unidade da forma\u00e7\u00e3o social sob a domin\u00e2ncia desse modo de produ\u00e7\u00e3o produzindo as condi\u00e7\u00f5es de sua reprodu\u00e7\u00e3o) e uma estrutura ideol\u00f3gica que interpela os indiv\u00edduos como sujeitos do modo de produ\u00e7\u00e3o (engajando, pelo imagin\u00e1rio, os indiv\u00edduos em rela\u00e7\u00f5es sociais objetivas).<\/li>\n<\/ol>\n<ol start=\"4\">\n<li>Para Marx, o caminho do socialismo se abriria apenas quando as for\u00e7as produtivas atingissem um alto n\u00edvel de desenvolvimento capitalista e s\u00f3 poderia se desenvolver com uma economia planificada socialista. O desenvolvimento das for\u00e7as produtivas se chocaria com a estreiteza e a mesquinhez das rela\u00e7\u00f5es de propriedade, colocando-as em tens\u00e3o e for\u00e7ando sua transforma\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00f5es de novo tipo, em que a coopera\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o o conflito, deveria ser predominante. O socialismo seria, desse modo, uma cria\u00e7\u00e3o direta das contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo. Esta sociedade n\u00e3o desapareceria antes que se desenvolvessem todas as for\u00e7as produtivas que ela podia comportar. E jamais apareceriam rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o novas e mais elevadas antes que as condi\u00e7\u00f5es materiais para a sua exist\u00eancia houvessem brotado no seio da pr\u00f3pria sociedade capitalista. Nessas condi\u00e7\u00f5es, Inglaterra, Fran\u00e7a, Alemanha e Estados Unidos estavam fadados a vivenciar as primeiras revolu\u00e7\u00f5es socialistas.<\/li>\n<\/ol>\n<ol start=\"5\">\n<li>Se Marx previu que a ocorr\u00eancia do socialismo s\u00f3 viria em est\u00e1gios avan\u00e7ados do capitalismo, o que fazer quando o proletariado se v\u00ea obrigado a fazer a revolu\u00e7\u00e3o social onde o capitalismo n\u00e3o esteja avan\u00e7ado, como aconteceu na R\u00fassia, China, Cuba e outros pa\u00edses? Durante o s\u00e9culo XX, o crescimento das lutas dos oper\u00e1rios, camponeses e outras camadas populares de pa\u00edses atrasados, assim como os conflitos de interesse entre camadas burguesas locais e as burguesias imperialistas, abriu um novo horizonte, fazendo com que a possibilidade de revolu\u00e7\u00f5es socialistas se transferisse dos pa\u00edses capitalistas avan\u00e7ados para os atrasados. \u00c9 evidente que esta situa\u00e7\u00e3o entrava em contradi\u00e7\u00e3o com as condi\u00e7\u00f5es materiais exigidas por Marx para o socialismo. Por\u00e9m, deveriam os socialistas no poder encaminhar at\u00e9 o final o desenvolvimento das for\u00e7as produtivas poss\u00edveis pelas rela\u00e7\u00f5es capitalistas de produ\u00e7\u00e3o ou devolver o poder \u00e0 burguesia para realizar o pleno desenvolvimento do capitalismo?<\/li>\n<\/ol>\n<ol start=\"6\">\n<li>A hist\u00f3ria do s\u00e9culo XX n\u00e3o seguiu a previs\u00e3o de Marx, pois as revolu\u00e7\u00f5es socialistas tiveram como palco central pa\u00edses atrasados. Outras experi\u00eancias socialistas haviam sido tentadas, como a de Robert Owen na Inglaterra e a Comuna de Paris em 1871, mas nenhuma delas sobreviveu ao cerco capitalista e nem conquistaram o poder estatal com a tarefa de eliminar o antigo sistema econ\u00f4mico e pol\u00edtico para construir um novo. A trajet\u00f3ria do socialismo real n\u00e3o come\u00e7a na Inglaterra ou na Fran\u00e7a, mas com a vit\u00f3ria dos bolcheviques na Revolu\u00e7\u00e3o Russa em 1917, o que transformou o pa\u00eds, renomeado de Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, no primeiro Estado socialista da Hist\u00f3ria. As mudan\u00e7as sociais e pol\u00edticas nem sempre esperam que o capitalismo esteja completamente maduro. Por isso mesmo, a constru\u00e7\u00e3o do socialismo sovi\u00e9tico n\u00e3o foi f\u00e1cil. Embora tenha come\u00e7ado sua caminhada com grandes promessas e esperan\u00e7as, a situa\u00e7\u00e3o real colocada em seus primeiros passos foram as brutais dificuldades de um pa\u00eds arrasado pela guerra, sem contar com o apoio do sucesso revolucion\u00e1rio em qualquer pa\u00eds avan\u00e7ado, confrontado com um forte bloqueio econ\u00f4mico de todos os pa\u00edses capitalistas, com uma guerra civil promovida pelas tropas fi\u00e9is do antigo regime e por for\u00e7as militares de treze pot\u00eancias estrangeiras, al\u00e9m de uma forte disputa interna sobre os caminhos a seguir ap\u00f3s a tomada do poder pol\u00edtico.<\/li>\n<\/ol>\n<ol start=\"7\">\n<li>A experi\u00eancia sovi\u00e9tica passou por diversas etapas. De 1917 at\u00e9 1921 o foco foi a consolida\u00e7\u00e3o do poder comunista, chamado de \u201ccomunismo de guerra\u201d. Era um programa emergencial para restabelecer a unidade e a defesa nacional, a consolida\u00e7\u00e3o do novo aparato estatal voltando para o combate contra a fome, a mis\u00e9ria e o desespero que assolava a R\u00fassia. A partir de 1921, os bolcheviques passaram a linha pol\u00edtica da NEP (Nova Pol\u00edtica Econ\u00f4mica). Com a proposta da NEP, L\u00eanin destacava a situa\u00e7\u00e3o contradit\u00f3ria de um Estado Socialista que se via obrigado a se apoiar em rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o capitalistas e, particularmente, no capitalismo de Estado para permitir a sobreviv\u00eancia da revolu\u00e7\u00e3o. Gra\u00e7as a esta nova pol\u00edtica os camponeses podiam vender seus produtos ao mercado e n\u00e3o somente ao Estado, com a iniciativa privada sendo tolerada em pequenas escalas. Isso levou L\u00eanin a dizer que \u201ca NEP era um capitalismo de Estado, com conte\u00fado socialista, sob o controle dos trabalhadores\u201d. A NEP permitiu um crescimento limitado do com\u00e9rcio e das concess\u00f5es estrangeiras ao lado dos setores econ\u00f4micos nacionalizados e controlados pelo Estado. Tamb\u00e9m estimulou o crescimento de uma classe de camponeses ricos e de uma burguesia comercial. Para os bolcheviques, tratava-se de um encorajamento das tend\u00eancias capitalistas, de um recuo estrat\u00e9gico em virtude do atraso da revolu\u00e7\u00e3o europeia e das condi\u00e7\u00f5es calamitosas de constru\u00e7\u00e3o do socialismo na R\u00fassia. Ao promover mecanismos de mercado, propriedade privada, competi\u00e7\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o na economia capitalista externa, a NEP evidenciou os problemas inerentes da constru\u00e7\u00e3o do socialismo numa regi\u00e3o atrasada, em guerra e onde o capitalismo tinha pouca perspectiva de se desenvolver. Isso para n\u00e3o falar do boicote comercial internacional. Na \u00e9poca, muitos foram aqueles descontentes com o recuo da NEP, apontando que a revolu\u00e7\u00e3o teria tra\u00eddo seus princ\u00edpios socialistas. De qualquer forma, trata-se da primeira experi\u00eancia concreta de \u201csocialismo de mercado\u201d, no sentido de ser uma etapa prim\u00e1ria do socialismo num pa\u00eds menos desenvolvido.<\/li>\n<\/ol>\n<ol start=\"8\">\n<li>A NEP foi uma curta experi\u00eancia no socialismo sovi\u00e9tico. Em 1928, \u00a0as empresas comerciais e industriais foram estatizados independentemente do seu tamanho e se iniciaram grandes empreendimentos de infraestrutura (transportes, gera\u00e7\u00e3o de energia, minas, etc.) e de bens de capital (m\u00e1quinas, ferramentas, etc.) com os capitais obtidos pela expropria\u00e7\u00e3o de milh\u00f5es de camponeses e pequenos comerciantes. Aquilo que muitas vezes se entende como \u201cmodelo socialista sovi\u00e9tico\u201d \u00e9 o modelo p\u00f3s-NEP, cuja principal marca foi a estatiza\u00e7\u00e3o completa dos meios de produ\u00e7\u00e3o, com a concentra\u00e7\u00e3o no Estado de todos os recursos dispon\u00edveis e sua aloca\u00e7\u00e3o de acordo com um planejamento centralizado. Al\u00e9m disso, ao inv\u00e9s de aprofundar a reforma agr\u00e1ria democr\u00e1tico-burguesa, o Estado sovi\u00e9tico realizou um processo de coletiviza\u00e7\u00e3o for\u00e7ada como forma de expropria\u00e7\u00e3o do campesinato e sua transforma\u00e7\u00e3o em for\u00e7a de trabalho industrial. No final dos anos 1920, Stalin e os novos dirigentes sovi\u00e9ticos conclu\u00edram que as premissas materiais para construir o socialismo j\u00e1 haviam sido constru\u00eddas e passaram a restringir as concess\u00f5es aos capitalistas, adotadas pela NEP. Isso ocorreu paralelamente \u00e0 ascens\u00e3o do fascismo, ao agravamento da situa\u00e7\u00e3o internacional e \u00e0s amea\u00e7as de uma nova guerra mundial imperialista. Stalin e muitos outros achavam que o ritmo da NEP n\u00e3o permitiria \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica industrializar-se na rapidez necess\u00e1ria para enfrentar essa amea\u00e7a externa. N\u00e3o haveria a paz necess\u00e1ria para o desenvolvimento de longo prazo da NEP sovi\u00e9tica. A explica\u00e7\u00e3o de que a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica precisava de tempo para preparar-se contra a invas\u00e3o alem\u00e3 n\u00e3o foi suficiente para evitar que Stalin fosse considerado traidor da causa da revolu\u00e7\u00e3o. Essa situa\u00e7\u00e3o s\u00f3 mudou, em parte, ap\u00f3s a invas\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica pelas tropas nazistas e ap\u00f3s a virada da batalha de Stalingrado, quando os sovi\u00e9ticos passaram da defensiva \u00e0 ofensiva e os ventos da guerra mudaram definitivamente. Apesar das perdas terr\u00edveis, calculadas em mais de 30 milh\u00f5es de sovi\u00e9ticos mortos durante o conflito, a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica emergiu da guerra como grande pot\u00eancia socialista.<\/li>\n<\/ol>\n<ol start=\"9\">\n<li>No final da Segunda Guerra Mundial em 1945, o \u201cmodelo sovi\u00e9tico\u201d chega ao seu apogeu. Forma-se uma URSS com 15 rep\u00fablicas\u00a0sovi\u00e9ticas. No continente europeu, R\u00fassia, Est\u00f4nia, Let\u00f4nia, Litu\u00e2nia, Belarus, Ucr\u00e2nia, Mold\u00e1via, Ge\u00f3rgia, Arm\u00eania e Azerbaij\u00e3o. No continente asi\u00e1tico, parte da R\u00fassia, Cazaquist\u00e3o, Quirguist\u00e3o, Uzbequist\u00e3o, Tadjiquist\u00e3o e Turcomenist\u00e3o compuseram o territ\u00f3rio sovi\u00e9tico. Seu apogeu representava n\u00e3o somente a possibilidade de constru\u00e7\u00e3o de sociedades socialistas em pa\u00edses atrasados e isolados em meio a uma maioria de pa\u00edses capitalistas, mas tamb\u00e9m a possibilidade de realizar a industrializa\u00e7\u00e3o acelerada atrav\u00e9s da a\u00e7\u00e3o exclusiva do Estado. Todos os pa\u00edses teriam condi\u00e7\u00f5es de evitar os males da participa\u00e7\u00e3o do capital no desenvolvimento das for\u00e7as produtivas. As antigas d\u00favidas sobre a necessidade ou n\u00e3o de competir no mercado internacional dominado pelo capital, abolir ou n\u00e3o a propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o, e extinguir ou n\u00e3o a sociedade do trabalho e o mercado, pareciam resolvidas pela curta hist\u00f3ria de sucesso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. \u00c0 medida que o poder sovi\u00e9tico se consolidou e superou a breve experi\u00eancia da NEP, ingressando num gigantesco processo de industrializa\u00e7\u00e3o para fazer frente \u00e0 amea\u00e7a de uma nova guerra imperialista, o m\u00e9todo de industrializa\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica tamb\u00e9m passou a ser disseminado como \u00fanico modelo que poderia ser seguido por todos os pa\u00edses atrasados para construir o socialismo. Al\u00e9m disso, a centraliza\u00e7\u00e3o estatal permitiu uma distribui\u00e7\u00e3o mais equitativa da renda e um contingenciamento mais eficaz das desigualdades sociais, em especial atrav\u00e9s do pleno emprego.<\/li>\n<\/ol>\n<ol start=\"10\">\n<li>Nas d\u00e9cadas de 1950 e 1960 ocorreram novas experi\u00eancias socialistas no Leste Europeu, na China, Coreia, Cuba, em condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e sociais completamente distintas das da URSS. Surgem tentativas de transi\u00e7\u00e3o ao socialismo no Oriente M\u00e9dio e na \u00c1frica, como no caso da Arg\u00e9lia, Angola, Mo\u00e7ambique, Camboja, Tanz\u00e2nia e Eti\u00f3pia. O processo de expans\u00e3o mundial do socialismo criou diversas formas e experi\u00eancias de transi\u00e7\u00e3o. Seja em virtude das classes sociais formadas historicamente ou porque o capitalismo se desenvolveu de forma desigual em cada um desses povos, o socialismo realmente existente sempre ocorre com caracter\u00edsticas nacionais. Afinal, a for\u00e7a social dos trabalhadores, camponeses e outras camadas populares em diferentes pa\u00edses t\u00eam disposi\u00e7\u00f5es e problemas diferentes e pr\u00f3prios. Por isso, o socialismo se renova cada vez que \u00e9 capaz de guardar suas caracter\u00edsticas pr\u00f3prias, nacionais. Guardadas as diferen\u00e7as nacionais, a grande maioria dessas experi\u00eancias socialistas ocorreu em pa\u00edses atrasados do ponto de vista do desenvolvimento capitalista (inclu\u00eddas as ci\u00eancias e as tecnologias, da for\u00e7a e da divis\u00e3o social do trabalho, e das rela\u00e7\u00f5es entre os propriet\u00e1rios do capital e os produtores reais), pa\u00edses onde o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista mal se desenvolvera ou estava muito longe de estar plenamente desenvolvidas. Na falta de indica\u00e7\u00f5es mais precisas sobre a transi\u00e7\u00e3o socialista de sociedades atrasadas, algumas revolu\u00e7\u00f5es seguiram o modelo sovi\u00e9tico a por meio da estatiza\u00e7\u00e3o total dos meios de produ\u00e7\u00e3o, desconsiderando seu atraso do ponto de vista capitalista.<\/li>\n<\/ol>\n<ol start=\"11\">\n<li>Em todo o per\u00edodo ap\u00f3s a NEP, era dominante no Partido Comunista Sovi\u00e9tico o entendimento de que os pa\u00edses socialistas dispunham de todos os recursos que necessitavam para seu desenvolvimento econ\u00f4mico, n\u00e3o precisando dos pa\u00edses capitalistas para nada. Essa cren\u00e7a isolou a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, n\u00e3o apenas do fluxo internacional de capitais e de com\u00e9rcio, mas tamb\u00e9m do fluxo de tecnologias de produtos e de processos, e da eleva\u00e7\u00e3o dos padr\u00f5es de produtividade e competitividade que, num mercado mundial, s\u00e3o determinantes no estabelecimento dos valores das mercadorias e, portanto, dos pre\u00e7os e sal\u00e1rios. O isolamento da competi\u00e7\u00e3o capitalista mundial, ao inv\u00e9s de proteger a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica dos efeitos mal\u00e9ficos da a\u00e7\u00e3o do capital, representou uma trava poderosa no desenvolvimento de suas for\u00e7as produtivas. Outras experi\u00eancias socialistas, mesmo sob a press\u00e3o do \u201cmodelo sovi\u00e9tico\u201d de estatiza\u00e7\u00e3o total, levaram em conta tamb\u00e9m a experi\u00eancia da NEP que unia formas capitalistas com novas formas sociais de propriedade, sendo considerada uma tentativa consistente de resolver o problema da constru\u00e7\u00e3o do socialismo em pa\u00edses capitalistas atrasados que haviam realizado revolu\u00e7\u00f5es.<\/li>\n<\/ol>\n<ol start=\"12\">\n<li>Em 1956, Nikita Krushov publica o \u201crelat\u00f3rio secreto\u201d em que joga sobre Stalin toda a responsabilidade dos problemas existentes na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, anunciando um vasto programa de reformas administrativas, econ\u00f4micas e educacionais. Em 1959-1960, o governo sovi\u00e9tico decidiu anunciar um plano para superar a produ\u00e7\u00e3o industrial e a renda per capita dos Estados Unidos em sete anos, assim como um novo programa de edifica\u00e7\u00e3o do comunismo. Realizou uma reforma rumo ao processo de descentraliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, na qual a execu\u00e7\u00e3o dos planos passava para as rep\u00fablicas. Tamb\u00e9m foram criadas novas rela\u00e7\u00f5es comerciais que aumentaram o acesso da popula\u00e7\u00e3o aos bens de consumo, permitindo uma melhora nos padr\u00f5es de vida. Krushov defendeu a concorr\u00eancia com o Ocidente e a coexist\u00eancia pac\u00edfica entre os dois sistemas, mas n\u00e3o contava que os Estados Unidos apostavam na Guerra Fria para cercar e sabotar a URSS, for\u00e7ando o aumento dos gastos militares e do desequil\u00edbrio econ\u00f4mico. Ela inclu\u00eda a r\u00e1pida recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da Europa Ocidental e do Jap\u00e3o, o aux\u00edlio econ\u00f4mico e militar a todos os pa\u00edses que se dispusessem a participar da cruzada anticomunista, a interven\u00e7\u00e3o militar onde fosse necess\u00e1rio, e a amea\u00e7a do uso de armas nucleares, cuja tecnologia era monopolizada pelos norte-americanos. O plano de Krushov sofreu um duro golpe com a crise agr\u00edcola de 1962 e 1963, obrigando a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica a se transformar de exportadora de trigo, em importadora, especialmente do Canad\u00e1 e da Austr\u00e1lia. Com isso, aumentaram os desequil\u00edbrios entre os diversos departamentos econ\u00f4micos e, em especial, entre a ind\u00fastria pesada, a ind\u00fastria de bens de consumo e a agricultura. Ap\u00f3s a cis\u00e3o sino-sovi\u00e9tica em 1960, a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.newworldencyclopedia.org\/entry\/People's_Republic_of_China\">Rep\u00fablica Popular da China<\/a>\u00a0alegaram ser as verdadeiras herdeiras intelectuais do marxismo-leninismo e os chineses foram especialmente cr\u00edticos da lideran\u00e7a p\u00f3s-Stalin na URSS, come\u00e7ando com Nikita Krushov. Nos governos posteriores de Leonid Brejnev (1964-1982), Yuri Andropov (1982-1984) e Konstantin Chernenko (1984-1985), a URSS ingressou num processo crescente de estagna\u00e7\u00e3o, impossibilitando-a de consolidar as condi\u00e7\u00f5es para a efetiva constru\u00e7\u00e3o socialista. Como uma experi\u00eancia sitiada, o capitalismo dominante encabe\u00e7ado pela OTAN apostava que o socialismo da URSS n\u00e3o conseguiria se sustentar por meio de sua economia, produzindo escassez e inefici\u00eancia. Nos anos 1970, j\u00e1 se apresentavam sinais das dificuldades de desenvolver suas for\u00e7as produtivas. Mesmo assim, a URSS tinha que manter a guerra econ\u00f4mica, militar e tecnol\u00f3gica contra os EUA, sem a possibilidade de uma gradual e lenta reforma capaz de se desenvolver com novas formas de propriedade e de com\u00e9rcio exterior. Diante do impasse com a URSS, os Estados Unidos aumentam a aposta, aumentando seus gastos militares e isolando ainda mais o socialismo sovi\u00e9tico. Assim, apesar de todas as reformas anunciadas e, supostamente, voltadas para superar os problemas da \u00e9poca de Stalin, o sistema de planejamento centralizado continuava o mesmo, assim como permanecia inalterada a total prioridade \u00e0 ind\u00fastria pesada, como suporte da ind\u00fastria b\u00e9lica. Mesmo as experi\u00eancias conturbadas de abertura para o mercado na Hungria e na Iugosl\u00e1via, na d\u00e9cada de 1970, n\u00e3o conseguiram levar adiante a renova\u00e7\u00e3o do sistema. Na d\u00e9cada de 1980, ficou claro que havia um atraso tecnol\u00f3gico em todos os segmentos, resultado de anos de pr\u00e1ticas em que as empresas estatais n\u00e3o sofriam concorr\u00eancia do capital privado.\u00a0O monop\u00f3lio estatal criou uma situa\u00e7\u00e3o economicamente insustent\u00e1vel. No plano externo, a crise converge com a sua maior derrota militar na Guerra do Afeganist\u00e3o (1979-1989), uma guerra demasiadamente longa e cara para a URSS. Os cidad\u00e3os sovi\u00e9ticos tornaram-se descontentes com a guerra, que se arrastou sem sucesso. Logo ap\u00f3s a derrocada sovi\u00e9tica no Afeganist\u00e3o, a sustenta\u00e7\u00e3o do socialismo sovi\u00e9tico era invi\u00e1vel. Nos anos 1980, a apresenta\u00e7\u00e3o e execu\u00e7\u00e3o dos planos de abertura pol\u00edtica (<em>Glasnost<\/em>) e reforma econ\u00f4mica (<em>Perestroika<\/em>), apenas apressou a fal\u00eancia da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, no in\u00edcio dos anos 1990. A escassez de bens \u2013 inclusive alimentos \u2013 se tornou o principal foco do crescente descontentamento social, ao mesmo tempo em que o sistema sovi\u00e9tico apresentava crescentes sinais de fadiga e fraturas, com o surgimento de m\u00e1fias que traficavam os bens escassos e \u00e0s quais estavam ligados dirigentes de empresas estatais, do Estado e do partido comunista. Com uma estagna\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica, a legitimidade do Partido Comunista foi se perdendo rapidamente, at\u00e9 o fim do bloco socialista das rep\u00fablicas sovi\u00e9ticas em 1991, culminando na fragmenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do pa\u00eds.<\/li>\n<\/ol>\n<ol start=\"13\">\n<li>Em 1989, Francis Fukuyama publicou artigo intitulado \u201cO Fim da Hist\u00f3ria?\u201d\u00a0sobre o decl\u00ednio do comunismo e o triunfo do Ocidente. O esgotamento da experi\u00eancia sovi\u00e9tica seria o esgotamento do pr\u00f3prio socialismo como alternativa ao capitalismo. O capitalismo liderado pelos EUA ganhou e o socialismo liderado pela URSS perdeu. O capitalismo liberal passaria a ser inexor\u00e1vel. Sem a estrela-guia sovi\u00e9tica, as experi\u00eancias socialistas estariam fadadas ao fracasso. Os desdobramentos imediatos da crise sovi\u00e9tica pareciam atestar esta tese. Tudo apontava para que o efeito em cadeia fosse completo. Entre\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/1989\">1989<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/1992\">1992<\/a>\u00a0deixou de existir a grande maioria dos estados que se denominaram socialistas do mundo. A\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Pol%C3%B4nia\">Rep\u00fablica Popular Polonesa<\/a>\u00a0voltou ao\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Multipartidismo\">multipartidismo<\/a>\u00a0e ao capitalismo de mercado em\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/1990\">1990<\/a>. A\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Rep%C3%BAblica_Democr%C3%A1tica_Alem%C3%A3\">Rep\u00fablica Democr\u00e1tica Alem\u00e3<\/a>\u00a0foi absorvida pela\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Rep%C3%BAblica_Federal_Alem%C3%A3\">Rep\u00fablica Federal Alem\u00e3<\/a>. Os conflitos nacionalistas acabaram com a\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Rep%C3%BAblica_Socialista_Federal_da_Iugosl%C3%A1via\">Rep\u00fablica Socialista Federal da Iugosl\u00e1via<\/a>. Com a queda das rep\u00fablicas sociais da URSS, outros pa\u00edses socialistas tamb\u00e9m mudaram de regime. Em 1990, abandonam o marxismo-leninismo Arg\u00e9lia (rep\u00fablica socialista apoiada pelos sovi\u00e9ticos desde 1962), Benin (que era Estado Socialista desde 1975), Mo\u00e7ambique (que desde 1975 havia adotado o governo socialista). Em 1991, o mesmo acontece no Congo (que teve um estado socialista desde 1970 sob o governo do Partido Trabalhista congol\u00eas), Guin\u00e9-Bissau (que seguia o modelo sovi\u00e9tico desde 1974), Eti\u00f3pia, Som\u00e1lia e Mali. Em 1992, Mong\u00f3lia abandona a Rep\u00fablica Popular, criada em 1924. Ainda em 1992, Angola passa por reformas. Com a derrocada da \u201cnave-m\u00e3e\u201d, era apenas uma quest\u00e3o de tempo para que os governos socialistas \u201csat\u00e9lites\u201d seguissem o mesmo caminho. E para os socialistas no resto do mundo, o recado estava dado: era melhor nem tentar mais porque seu fracasso seria inevit\u00e1vel. Busquem outro caminho dentro do capitalismo liberal, porque o socialismo real acabou.<\/li>\n<\/ol>\n<ol start=\"14\">\n<li>Em 1989, talvez Fukuyama estivesse certo ao apontar o colapso inevit\u00e1vel de experi\u00eancias socialistas que buscam estatizar completamente a economia por longo prazo, mas n\u00e3o percebeu que as promessas do capitalismo liberal n\u00e3o est\u00e3o conseguindo se manter em p\u00e9. Trinta anos depois, em entrevista de 2019, o pr\u00f3prio Fukuyama reconhece que \u201cos Estados Unidos, a Gr\u00e3-Bretanha e outros pa\u00edses ocidentais passaram por esse per\u00edodo do que \u00e0s vezes \u00e9 chamado de neoliberalismo, em que os indiv\u00edduos s\u00e3o elevados, realmente colocados acima do estado, e o estado \u00e9 considerado uma fonte de inefici\u00eancia e tirania potencial contra indiv\u00edduos.\u00a0E acho que isso foi simplesmente levado longe demais, ent\u00e3o acho que uma das coisas que vai acontecer \u00e9 que na maioria dos pa\u00edses ocidentais, o neoliberalismo, nesse sentido, morreu e as pessoas v\u00e3o voltar a um tipo diferente de liberalismo em que acreditavam nas d\u00e9cadas de 1930 e 1940.\u00a0Queremos proteger os direitos individuais, mas o estado tem um papel importante na prote\u00e7\u00e3o das pessoas e na cria\u00e7\u00e3o de prote\u00e7\u00f5es sociais na cria\u00e7\u00e3o de sistemas de sa\u00fade e pens\u00f5es e outras coisas desse tipo\u201d. E, pelo menos desde 2016, Fukuyama vem apontando que a China \u00e9 provavelmente a \u00fanica alternativa realmente plaus\u00edvel ao estilo de democracia liberal ocidental. A China, conforme Fukuyama, concluiu um per\u00edodo prolongado de crescimento econ\u00f4mico sem precedentes, baseado principalmente na ampla mobiliza\u00e7\u00e3o de m\u00e3o-de-obra e manufatura para exporta\u00e7\u00e3o, incorpora\u00e7\u00e3o de tecnologias e novas formas administrativas, e est\u00e1 mudando para um per\u00edodo mais fortemente baseado em servi\u00e7os, demanda interna e aumento da produtividade.\u00a0Em outra entrevista de 2019, Fukuyama apontou que, se Pequim conseguir controlar as tens\u00f5es sociais e manter a estabilidade econ\u00f4mica, a China pode se apresentar como um sistema superior ao capitalismo ocidental, economicamente recessivo e politicamente imerso numa severa crise democr\u00e1tica com o aumento do populismo de direita, exemplificado pela elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, Brexit no Reino Unido, partidos populistas na Europa, Bolsonaro no Brasil.<\/li>\n<\/ol>\n<ol start=\"15\">\n<li>O que passou despercebido na vis\u00e3o do \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d em 1989 \u2013 que inclusive conquistou diversos setores da esquerda ocidental \u2013 \u00e9 que outras formas de socialismo daquele praticado na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, apesar de ainda prematuras, j\u00e1 estavam em marcha na China, Vietn\u00e3 e Laos. Um novo modo de produ\u00e7\u00e3o (econ\u00f4mico, pol\u00edtico, cultural e social) j\u00e1 estava em gesta\u00e7\u00e3o. Quando acabou a URSS em 1991, o Partido Comunista da China j\u00e1 estava implementando, por mais de uma d\u00e9cada, profundas reformas econ\u00f4micas e institucionais, num ambiente de abertura e reforma. Esse caminho das reformas da China influenciou o Vietn\u00e3 e o Laos, que passaram a adotar pol\u00edticas semelhantes a partir de 1986. Ainda durante a d\u00e9cada de 1980, a China passou a ser reconhecida por estar se integrando ao capitalismo, com maior inser\u00e7\u00e3o nas cadeias produtivas internacionais, zonas industriais para exporta\u00e7\u00e3o que passaram a beneficiar a acumula\u00e7\u00e3o de capital estrangeiro excedente, obtendo altas e consistentes taxas de crescimento. Assim, quando a onda pelo fim do socialismo tamb\u00e9m apareceu na China, especialmente nos incidentes da Pra\u00e7a Tianamenn em 1989, a a\u00e7\u00e3o do partido para manter o sistema socialista teve legitimidade pelos resultados que estavam sendo alcan\u00e7ados pelo processo de reformas de mercado. Ap\u00f3s um per\u00edodo de turbul\u00eancia e maior instabilidade entre 1988 e 1992, a China manteve firmemente seu processo de desenvolvimento ancorado no socialismo de mercado, fazendo gradualmente reformas visando a melhor organiza\u00e7\u00e3o das for\u00e7as produtivas, especialmente as estatais, o sistema financeiro e de defesa nacional. Manteve seu crescimento em n\u00edvel quantitativo e acelerado, vislumbrando as metas definidas para o fim do s\u00e9culo. Enquanto isso, Fukuyama e muitos outros torciam para que as reformas dessem errado (colapso iminente) ou que levassem a reconvers\u00e3o total ao capitalismo. Dos outros dois pa\u00edses remanescentes do socialismo real, a Coreia do Norte se manteve na linha sovi\u00e9tica diante do persistente impasse militar com a Coreia do Sul e o Jap\u00e3o. E Cuba iniciou reformas, mas o estrangulamento e o bloqueio liderado pelos EUA se tornou ainda mais acirrado, dificultando ao m\u00e1ximo qualquer processo de abertura. Mesmo assim, com a manuten\u00e7\u00e3o do socialismo de mercado na China, Vietn\u00e3 e Laos, ap\u00f3s o fim da URSS, o esperado \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d, na realidade, n\u00e3o aconteceu.<\/li>\n<\/ol>\n<ol start=\"16\">\n<li>Diante deste novo cen\u00e1rio global e ainda devoto das virtudes do capitalismo liberal, Fukuyama aponta sua cr\u00edtica ao sistema pol\u00edtico chin\u00eas. Em entrevista de 2019, diz que \u201co problema na China \u00e9 realmente causado por excessiva autoridade estatal que muitas vezes leva a tiranias, a resultados muito ruins.\u00a0Nesse sentido, \u00e9 poss\u00edvel respeitar a China pelas coisas que ela faz bem, mas tamb\u00e9m \u00e9 muito importante ser cr\u00edtico da China quando ela ultrapassa as fronteiras do que considero um regime bom e equilibrado\u201d. Este progn\u00f3stico deve levar Fukuyama novamente ao erro. Em primeiro lugar, porque o Estado Socialista deveria recuar de seu poder em implementar as reformas se est\u00e1 sendo bem sucedido? Porque um sistema multipartid\u00e1rio e de elei\u00e7\u00f5es livres asseguraria para a China a continuidade do processo de reformas? O Socialismo de Mercado \u00e9 uma nova forma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mico-pol\u00edtico-social baseada nas formula\u00e7\u00f5es de Deng Xiaoping. N\u00e3o foi a economia liberal que transformou a China numa pot\u00eancia global, mas o socialismo com uma economia mista, onde concorrem e cooperam \u2013 sob a media\u00e7\u00e3o do Estado liderado pelo Partido Comunista \u2013 diferentes formas e rela\u00e7\u00f5es de propriedade. Seu socialismo realista incorpora o capitalismo como for\u00e7a produtiva, mantendo o Estado na vanguarda da constru\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica com a propriedade social paralelamente \u00e0 propriedade privada. Neste modo de produ\u00e7\u00e3o de transi\u00e7\u00e3o ao socialismo, cooperam e concorrem formas e rela\u00e7\u00f5es de propriedade capitalista com formas e rela\u00e7\u00f5es de propriedade social e estatal, assim como formas de propriedade coletiva, mista e estatal entre si. Tudo de modo a evitar a burocratiza\u00e7\u00e3o, criar uma governan\u00e7a mais eficiente e leg\u00edtima do pa\u00eds, desenvolver as for\u00e7as produtivas e preparar as condi\u00e7\u00f5es objetivas para extinguir a propriedade privada quando o desenvolvimento das for\u00e7as produtivas puder atender a todas as necessidades sociais. Quem garante este macroarranjo s\u00e3o os sistemas pol\u00edticos adotados pelo Partido Comunista Chin\u00eas, com sua rigorosa forma\u00e7\u00e3o de quadros com base no centralismo democr\u00e1tico, no marxismo e no socialismo.<\/li>\n<\/ol>\n<ol start=\"17\">\n<li>Fukuyama tamb\u00e9m enfatiza: \u201cn\u00e3o acho que o modelo da China possa ser facilmente exportado para outros pa\u00edses que n\u00e3o t\u00eam as tradi\u00e7\u00f5es culturais da China.\u00a0As tradi\u00e7\u00f5es mais antigas da China t\u00eam a ver com meritocracia, com educa\u00e7\u00e3o, com uma burocracia que \u00e9 escolhida com base no m\u00e9rito, e \u00e9 uma forma de governo muito autodisciplinada, da qual o Partido Comunista tem uma vers\u00e3o. E eu acho que \u00e9 extremamente dif\u00edcil estabelecer esse tipo de modelo em pa\u00edses que n\u00e3o t\u00eam as tradi\u00e7\u00f5es confucionistas que a China tem.\u00a0Se voc\u00ea levar isso para a Am\u00e9rica Latina ou para a \u00c1frica Subsaariana, onde realmente n\u00e3o h\u00e1 tradi\u00e7\u00e3o de estado compar\u00e1vel \u00e0 da China, isso apenas se torna uma desculpa para um tipo de governo autorit\u00e1rio desagrad\u00e1vel e ineficaz\u201d. \u00c9 verdade que um \u201cmodelo chin\u00eas\u201d n\u00e3o \u00e9 export\u00e1vel. Nenhum pa\u00eds tem a popula\u00e7\u00e3o e a hist\u00f3ria da China. O confucionismo \u00e9 integrado \u00e0 pr\u00e1tica do socialismo chin\u00eas sem contar outras caracter\u00edsticas espec\u00edficas que criam uma singular sinergia, mas \u00e9 pura especula\u00e7\u00e3o que o socialismo de mercado n\u00e3o possa ser aplicado em qualquer pa\u00eds, independentemente de suas caracter\u00edsticas hist\u00f3ricas e culturais. O socialismo de mercado ganhou espa\u00e7o na \u00c1sia com a condu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do socialismo no Vietn\u00e3 e no Laos a partir de 1986. O Laos funde marxismo com budismo. E o socialismo de mercado tamb\u00e9m v\u00eam sendo adaptado \u00e0s condi\u00e7\u00f5es nacionais em Cuba e na Nam\u00edbia.<\/li>\n<\/ol>\n<ol start=\"18\">\n<li>Apesar da breve experi\u00eancia da NEP na R\u00fassia durante a d\u00e9cada de 1920 e das tentativas de introduzir o mercado no sistema sovi\u00e9tico, especialmente na Hungria e Iugosl\u00e1via durante os anos 1970, foi com as experi\u00eancias socialistas na China e no Vietn\u00e3 que o \u201csocialismo de mercado\u201d vem ganhando mais for\u00e7a e melhor forma, com a dura\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica necess\u00e1ria para romper o subdesenvolvimento combinando o modo de produ\u00e7\u00e3o campon\u00eas e o modo de produ\u00e7\u00e3o socialista com o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, num tipo de economia denominada de \u201csocialismo de mercado\u201d. O mundo de paz e\u00a0 prosperidade, prometido pela propaganda capitalista, especialmente ap\u00f3s o fim da URSS e do socialismo do Leste Europeu, vem se transformando rapidamente n\u00e3o s\u00f3 num mundo c\u00ednico e perigoso, mas tamb\u00e9m de desemprego, pobreza e desesperan\u00e7a nos pa\u00edses que antes se arrogavam os centros desenvolvidos e ricos do planeta. Enquanto isso, a experi\u00eancia da China, e tamb\u00e9m de Vietn\u00e3 e Laos, nas \u00faltimas d\u00e9cadas demonstra que, para desenvolver as for\u00e7as produtivas com estabilidade pol\u00edtica, o sistema socialista possui aspectos realmente superiores ao capitalismo ocidental dominante.<\/li>\n<\/ol>\n<ol start=\"19\">\n<li>\u00a0Algumas vezes o socialismo \u00e9 apresentado como algo ultrapassado e com pouca relev\u00e2ncia na hist\u00f3ria, mas o marxismo, comunismo e socialismo n\u00e3o podem ser banidos enquanto o capitalismo existir. Por isso, aqueles que t\u00eam medo de perder seus privil\u00e9gios econ\u00f4micos e pol\u00edticos no sistema capitalista procuram desacreditar o socialismo, pois sabem que \u00e9 o movimento que pode subordinar os interesses privados \u00e0s grandes necessidades do povo. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que os capitalistas desencadeiam permanentemente uma ofensiva pol\u00edtica e ideol\u00f3gica no sentido de consolidar a sua hegemonia sobre o povo com o objetivo de banir as ideias e pr\u00e1ticas socialistas. No caso da China, isso \u00e9 evidente. Dif\u00edcil imaginar um pa\u00eds que tenha sua realidade t\u00e3o deturpada como a China. Apesar da propaganda, a China vem provendo, segundo alguns estudiosos, a \u201cmaior transforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica dos \u00faltimos 250 anos\u201d da hist\u00f3ria mundial, com relativo sucesso no que tange \u00e0 melhora das condi\u00e7\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o. A novidade deste modo de produ\u00e7\u00e3o emergente \u00e9 sua capacidade de contribuir para o desenvolvimento das for\u00e7as produtivas e se subordinar a um processo de constante redistribui\u00e7\u00e3o de renda, de presen\u00e7a da sociedade e do Estado na economia atrav\u00e9s de empresas de propriedade cooperativa, p\u00fablica, estatal e mista. Ao inv\u00e9s de adotar a cartilha neoliberal, a China modernizou e refor\u00e7ou suas empresas estatais. Manteve o monop\u00f3lio sobre os ramos econ\u00f4micos estrat\u00e9gicos (financeiro, petr\u00f3leo, energia, etc.), mas com a novidade de colocar as diversas estatais em concorr\u00eancia, evitando a burocratiza\u00e7\u00e3o e promovendo o desenvolvimento cient\u00edfico. As estatais tamb\u00e9m concorrem com as empresas privadas, obrigando-as a elevar a produtividade, baixar custos e pre\u00e7os. A China tamb\u00e9m aproveitou os excedentes de capitais dos pa\u00edses em desenvolvimento com programas espec\u00edficos e controlados para atrair investimentos diretos e plantas industriais, de modo que superem as lacunas de suas cadeias produtivas e introduzam tecnologias avan\u00e7adas em suas empresas estatais. Com as estatais concorrendo entre si e com o mercado para desenvolver a produtividade ficou bem f\u00e1cil \u00a0encontrar solu\u00e7\u00f5es combinando propriedades sociais e propriedades privadas, algo extremamente complexo em pa\u00edses capitalistas pouco desenvolvidos. Este caminho vem se consolidando pelo r\u00e1pido crescimento industrial e agr\u00edcola e aumento da gera\u00e7\u00e3o de riqueza, o que permite uma redistribui\u00e7\u00e3o constante da renda, embora com desigualdade. A renda das camadas mais pobres est\u00e1 sendo elevada, de modo a tornar o mercado dom\u00e9stico o principal foco da produ\u00e7\u00e3o industrial e os servi\u00e7os p\u00fablicos est\u00e3o em processo de universaliza\u00e7\u00e3o. O socialismo de mercado, mais bem expressado pela experi\u00eancia chinesa atual, n\u00e3o \u00e9 uma ideia abstrata, mas a\u00e7\u00e3o mobilizadora social de milh\u00f5es de pessoas sob a lideran\u00e7a do Partido Comunista com o objetivo de desenvolver as for\u00e7as produtivas e populares, enfrentar as contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo e substitu\u00ed-lo por uma nova forma\u00e7\u00e3o social. \u00c9 claro que n\u00e3o se trata de um sistema perfeito e imune a defeitos, retrocessos e derrotas, mas um sistema que mant\u00e9m o Estado Socialista com uma mistura de v\u00e1rios sistemas econ\u00f4micos, em que os meios de produ\u00e7\u00e3o b\u00e1sicos s\u00e3o de propriedade estatal e\/ou cooperativa, sendo operados de forma socialmente como uma economia de mercado. Os lucros gerados por empresas estatais s\u00e3o alocados para a remunera\u00e7\u00e3o direta dos empregados, ou acumulados em uma forma de financiamento p\u00fablico. A na\u00e7\u00e3o se desenvolve de forma acelerada rompendo as amarras do subdesenvolvimento. Diante de tantas transforma\u00e7\u00f5es, tendo como n\u00facleo a China, estaria emergindo um novo modo de produ\u00e7\u00e3o socialista de mercado superior ao capitalismo em crise cr\u00f4nica?<\/li>\n<\/ol>\n<ol start=\"20\">\n<li>\u00c9 verdade que, com o fim da URSS e a desintegra\u00e7\u00e3o do campo socialista, a presen\u00e7a de China, Vietn\u00e3 e Laos n\u00e3o consegue construir um contrapeso efetivo \u00e0s tend\u00eancias mais destrutivas do capitalismo. Mas \u00e9 verdade tamb\u00e9m que estes pa\u00edses mant\u00eam o socialismo (com mercado) como uma grande marcha de desenvolvimento que est\u00e1 produzindo, especialmente depois da crise de 2008 e a crise do coronav\u00edrus desde 2020, impactos profundos no capitalismo liberal-keynesiano ocidental. Ainda existe um longo caminho para o processo de desenvolvimento socialista com mercado nestes pa\u00edses, por\u00e9m, pode ser que um socialismo que conjugue desenvolvimento nacional, com estabilidade pol\u00edtica e crescimento econ\u00f4mico \u2013 como o socialismo de mercado \u2013 venha a despontar durante o s\u00e9culo XXI como um sistema social mais din\u00e2mico, eficaz e justo que o capitalismo. E assim, a teoria do fracasso comunista se transforma em fracasso neoliberal. Mas este processo ainda deve durar muitas d\u00e9cadas.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Francis Fukuyama &#8211; quem diria &#8211; morreu em Pequim &#8211; Outras Palavras &#8211; https:\/\/outraspalavras.net\/historia-e-memoria\/francis-fukuyama-quem-diria-morreu-em-pequim\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fernando Marcelino &#8211; Vinte hip\u00f3teses sobre a trajet\u00f3ria do socialismo e o \u201cfim da Hist\u00f3ria\u201d. 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