{"id":182,"date":"2016-05-10T09:50:19","date_gmt":"2016-05-10T12:50:19","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=182"},"modified":"2016-05-03T13:51:59","modified_gmt":"2016-05-03T16:51:59","slug":"livro-o-capital-no-seculo-21-revoluciona-ideias-sobre-desigualdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/05\/10\/livro-o-capital-no-seculo-21-revoluciona-ideias-sobre-desigualdade\/","title":{"rendered":"Livro &#8216;O Capital no S\u00e9culo 21&#8217; revoluciona ideias sobre desigualdade"},"content":{"rendered":"<p><b>PAUL KRUGMAN<\/b> &#8211; Thomas Piketty, professor na Escola de Economia de Paris, n\u00e3o \u00e9 um nome muito conhecido, ainda que isso possa mudar com a publica\u00e7\u00e3o em ingl\u00eas de sua abrangente e magn\u00edfica medita\u00e7\u00e3o sobre a desigualdade, &#8220;Capital in the Twenty-First Century&#8221;. Mas sua influ\u00eancia \u00e9 profunda. Tornou-se comum afirmar que estamos vivendo uma segunda Gilded Age [Era Dourada] &#8211; ou, nas palavras de Piketty, uma segunda Belle \u00c9poque -, definida pela incr\u00edvel ascens\u00e3o do &#8220;1%&#8221;. Mas essa afirma\u00e7\u00e3o s\u00f3 se tornou lugar comum gra\u00e7as ao trabalho de Piketty. Ele e alguns colegas (especialmente Anthony Atkinson, de Oxford, e Emmanuel Saez, de Berkeley) s\u00e3o, especialmente, respons\u00e1veis pelo desenvolvimento de t\u00e9cnicas estat\u00edsticas pioneiras que tornam poss\u00edvel rastrear a concentra\u00e7\u00e3o de renda e de riqueza no passado distante &#8211; at\u00e9 o come\u00e7o do s\u00e9culo 20, no Reino Unido e Estados Unidos, e at\u00e9 o final do s\u00e9culo 18 no caso da Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>O resultado foi uma revolu\u00e7\u00e3o em nossa compreens\u00e3o sobre as tend\u00eancias da desigualdade em longo prazo. Antes dessa revolu\u00e7\u00e3o, a maioria das discuss\u00f5es sobre a disparidade econ\u00f4mica mais ou menos desconsiderava os muito ricos. Alguns economistas (para n\u00e3o mencionar pol\u00edticos) tentavam sufocar aos gritos qualquer men\u00e7\u00e3o \u00e0 desigualdade: &#8220;De todas as tend\u00eancias prejudiciais a um estudo s\u00f3lido da Economia, a mais sedutora, e em minha opini\u00e3o mais venenosa, \u00e9 tomar por foco as quest\u00f5es de distribui\u00e7\u00e3o&#8221;, declarou Robert Lucas, da Universidade de Chicago, o mais influente macroeconomista de sua gera\u00e7\u00e3o, em 2004. Mas mesmo aqueles que se dispunham a discutir a desigualdade se concentravam, em geral, na disparidade entre os pobres da classe trabalhadora e as pessoas pr\u00f3speras, mas n\u00e3o mencionavam os verdadeiramente ricos &#8211; o foco eram os formandos universit\u00e1rios cuja renda superava a de trabalhadores com n\u00edvel mais baixo de educa\u00e7\u00e3o, ou a sorte comparativa dos 20% mais pr\u00f3speros da popula\u00e7\u00e3o ante os 80% menos afortunados, e n\u00e3o a r\u00e1pida ascens\u00e3o da renda dos executivos e banqueiros.<\/p>\n<p>Portanto, foi uma revela\u00e7\u00e3o quando Piketty e seus colegas demonstraram que as rendas do hoje famoso &#8220;1%&#8221;, e de grupos ainda mais estreitos, na realidade representavam a hist\u00f3ria mais importante na ascens\u00e3o da desigualdade. E essa descoberta surgiu acompanhada por uma segunda revela\u00e7\u00e3o: as men\u00e7\u00f5es a uma nova Gilded Age, que podiam parecer hiperb\u00f3licas, na verdade nada tinham de exagerado. Nos Estados Unidos, especialmente, a propor\u00e7\u00e3o da renda nacional reservada ao 1% mais rico da popula\u00e7\u00e3o seguiu uma curva em U. Antes da Primeira Guerra Mundial, o 1% mais rico detinha 20% da renda nacional, tanto nos Estados Unidos quanto no Reino Unido. Por volta de 1950, essa propor\u00e7\u00e3o havia sido reduzida a menos da metade. Mas de 1980 para c\u00e1 a parcela reservada ao 1% disparou de novo &#8211; e nos Estados Unidos ela retornou ao ponto em que estava um s\u00e9culo atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Ainda assim, a elite econ\u00f4mica atual \u00e9 muito diferente da elite do s\u00e9culo 19, n\u00e3o? Na \u00e9poca, as grandes fortunas tendiam a ser heredit\u00e1rias; a elite econ\u00f4mica atual n\u00e3o \u00e9 formada por pessoas que conquistaram suas posi\u00e7\u00f5es com base no m\u00e9rito? Bem, Piketty nos diz que isso n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o verdade quanto podemos imaginar, e que de qualquer forma esse estado de coisas pode se provar n\u00e3o mais duradouro do que a sociedade de classe m\u00e9dia que floresceu por uma gera\u00e7\u00e3o depois da Segunda Guerra Mundial. A grande ideia de &#8220;Capital in the Twenty-First Century&#8221; \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 a de que retornamos ao s\u00e9culo 19 em termos de desigualdade de renda como a de que estamos no caminho de volta ao &#8220;capitalismo patrimonial&#8221;, no qual os grandes p\u00edncaros da economia s\u00e3o ocupados n\u00e3o por indiv\u00edduos talentosos mas por dinastias familiares.<\/p>\n<p>\u00c9 uma afirma\u00e7\u00e3o not\u00e1vel &#8211; e \u00e9 precisamente por ser t\u00e3o not\u00e1vel que ela precisa ser examinada de maneira cr\u00edtica e cuidadosa. Antes que eu trate desse assunto, por\u00e9m, permita-me afirmar j\u00e1 de sa\u00edda que Piketty escreveu um livro verdadeiramente soberbo. O trabalho combina grande abrang\u00eancia hist\u00f3rica &#8211; quando foi a \u00faltima vez que voc\u00ea ouviu um economista invocar Jane Austen e Balzac? &#8211; com an\u00e1lise minuciosa de dados. E ainda que Piketty zombe dos economistas, como profiss\u00e3o, por sua &#8220;paix\u00e3o infantil pela matem\u00e1tica&#8221;, a base de sua argumenta\u00e7\u00e3o \u00e9 um tour de force de modelagem econ\u00f4mica, uma abordagem que integra a an\u00e1lise do crescimento econ\u00f4mico \u00e0 da distribui\u00e7\u00e3o de renda e riqueza. Esse \u00e9 um livro que mudar\u00e1 a maneira pela qual pensamos sobre a sociedade e pela qual concebemos a economia.<\/p>\n<p>1. O que sabemos sobre a desigualdade econ\u00f4mica, e sobre os momentos espec\u00edficos nos quais adquirimos conhecimento sobre ela? At\u00e9 que a revolu\u00e7\u00e3o de Piketty varresse o campo, a maior parte do que sab\u00edamos sobre desigualdade de renda e riqueza vinha de pesquisas nas quais domic\u00edlios escolhidos aleatoriamente s\u00e3o convidados a preencher um question\u00e1rio, e suas respostas s\u00e3o computadas a fim de produzir um retrato estat\u00edstico do todo. O padr\u00e3o internacional para essas pesquisas \u00e9 o levantamento anual conduzido pelo Servi\u00e7o de Recenseamento dos Estados Unidos. O Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) tamb\u00e9m conduz uma pesquisa trienal sobre a distribui\u00e7\u00e3o de riqueza.<\/p>\n<p>As duas pesquisas s\u00e3o um guia essencial quanto \u00e0 mudan\u00e7a da forma da sociedade dos Estados Unidos. Entre outras coisas, elas apontam para uma virada dram\u00e1tica no processo de crescimento econ\u00f4mico norte-americano, iniciada por volta de 1980. Antes disso, fam\u00edlias de todos os n\u00edveis viam suas rendas crescerem mais ou menos em linha com o ritmo de crescimento da economia como um todo. Depois de 1980, por\u00e9m, a parte do le\u00e3o dos ganhos passou a caber ao topo da escala de renda, e as fam\u00edlias na metade inferior ficaram muito para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Historicamente, outros pa\u00edses n\u00e3o mostravam igual efici\u00eancia em rastrear quem fica com o que; mas a situa\u00e7\u00e3o mudou ao longo do tempo, em larga medida devido ao Estudo de Renda do Luxemburgo (do qual em breve farei parte). E a crescente disponibilidade de dados de pesquisa que podem ser comparados entre diferentes pa\u00edses resultou em novas percep\u00e7\u00f5es importantes. Sabemos agora, especialmente, tanto que os Estados Unidos t\u00eam uma distribui\u00e7\u00e3o de renda muito mais desigual que a das economias avan\u00e7adas da Europa quanto que boa parte dessa diferen\u00e7a pode ser atribu\u00edda diretamente a a\u00e7\u00f5es do governo. As na\u00e7\u00f5es europeias em geral t\u00eam rendas altamente desiguais como resultado das atividades de mercado, como os Estados Unidos, ainda que talvez n\u00e3o na mesma extens\u00e3o. Mas conduzem redistribui\u00e7\u00e3o muito maior por meio de taxas e transfer\u00eancias do que os Estados Unidos fazem, o que resulta em desigualdade muito menor em termos de renda dispon\u00edvel.<\/p>\n<p>No entanto, apesar de toda a sua utilidade, os dados dessas pesquisas t\u00eam limita\u00e7\u00f5es importantes. Tendem a subestimar, ou desconsiderar de todo, a renda que cabe ao punhado de indiv\u00edduos que ocupam o verdadeiro topo da escala de renda. Tamb\u00e9m apresentam profundidade hist\u00f3rica limitada. Os dados de pesquisa norte-americanos, por exemplo, remontam a apenas 1947.<\/p>\n<p>\u00c9 a\u00ed que entram Piketty e seus colegas, que se voltaram a uma fonte de dados inteiramente diferente: os registros tribut\u00e1rios. Essa ideia n\u00e3o \u00e9 novidade. De fato, as an\u00e1lises iniciais de distribui\u00e7\u00e3o de renda dependiam de dados tribut\u00e1rios, porque n\u00e3o havia muitos outros dados com que pudessem contar. Piketty e seus colaboradores, por\u00e9m, encontraram maneiras de combinar dados tribut\u00e1rios e outras fontes a fim de produzir informa\u00e7\u00f5es que complementam de maneira crucial os dados das pesquisas. E as estimativas baseadas nos impostos podem recuar muito mais ao passado. Os Estados Unidos t\u00eam um imposto sobre a renda em vigor desde 1913; no Reino Unido, ele surgiu em 1909; a Fran\u00e7a, gra\u00e7as aos seus registros elaborados de coleta de impostos sobre propriedades e aos seus hist\u00f3ricos detalhados, tem dados sobre patrim\u00f4nio que remontam ao final do s\u00e9culo 18.<\/p>\n<p>Explorar esses dados n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Mas usando todos os truques da profiss\u00e3o, e alguns palpites bem informados, Piketty consegue produzir um sum\u00e1rio da queda e ascens\u00e3o da desigualdade extrema ao longo dos \u00faltimos 100 anos.<\/p>\n<p>Como eu disse, descrever nossa era como uma nova Gilded Age ou Belle \u00c9poque n\u00e3o \u00e9 simples hip\u00e9rbole; \u00e9 a verdade pura e simples. Mas como foi que isso aconteceu?<\/p>\n<p>Piketty lan\u00e7a um repto intelectual imediato, por meio do t\u00edtulo do seu livro: &#8220;Capital no S\u00e9culo 21&#8221;. Economistas ainda podem falar assim?<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 apenas a alus\u00e3o evidente a Marx que torna o t\u00edtulo t\u00e3o surpreendente. Ao invocar o capital desde o come\u00e7o, Piketty abandona as discuss\u00f5es mais modernas sobre a desigualdade e retorna a uma tradi\u00e7\u00e3o mais antiga.<\/p>\n<p>A suposi\u00e7\u00e3o geral da maior parte dos pesquisadores sobre a desigualdade era a de que a renda auferida, em geral na forma de sal\u00e1rio, \u00e9 o aspecto mais importante, e que a renda gerada pelo capital n\u00e3o \u00e9 nem importante e nem interessante. Piketty demonstra, por\u00e9m, que mesmo hoje \u00e9 a receita do capital, e n\u00e3o a renda do trabalho, que predomina no topo da distribui\u00e7\u00e3o de renda. Ele tamb\u00e9m demonstra que, no passado &#8211; durante a Belle \u00c9poque europeia e, em menor escala, a Gilded Age norte-americana [per\u00edodo de grande expans\u00e3o econ\u00f4mica entre 1870 e 1900]- a propriedade desigual de ativos, e n\u00e3o o sal\u00e1rio desigual, foi o principal propulsor da disparidade de renda. E ele argumenta que estamos no caminho de volta \u00e0quela esp\u00e9cie de sociedade. E n\u00e3o se trata de especula\u00e7\u00e3o casual de sua parte. &#8220;Capital in the Twenty-First Century&#8221;, afinal, \u00e9 um trabalho que respeita os princ\u00edpios do empirismo, e \u00e9 propelido por um arcabou\u00e7o te\u00f3rico que busca unificar a discuss\u00e3o do crescimento econ\u00f4mico e da distribui\u00e7\u00e3o tanto de renda quanto de riqueza. Piketty basicamente v\u00ea a hist\u00f3ria econ\u00f4mica como a hist\u00f3ria de uma corrida entre a acumula\u00e7\u00e3o de capital e os demais fatores que propelem o crescimento, como o crescimento populacional e o progresso tecnol\u00f3gico.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que essa \u00e9 uma corrida que n\u00e3o pode ter vencedor permanente. Em prazo muito longo, o estoque de capital e a renda total precisam crescer mais ou menos no mesmo ritmo. Mas um lado ou outro pode permanecer d\u00e9cadas ininterruptas em vantagem. Na v\u00e9spera da Primeira Guerra Mundial, a Europa havia acumulado capital seis ou sete vezes maior que a renda nacional de cada pa\u00eds. Ao longo das quatro d\u00e9cadas seguintes, por\u00e9m, uma combina\u00e7\u00e3o de destrui\u00e7\u00e3o f\u00edsica e de desvio de poupan\u00e7a para esfor\u00e7os de guerra reduziu essa propor\u00e7\u00e3o \u00e0 metade. A acumula\u00e7\u00e3o de capital foi retomada depois da Segunda Guerra Mundial, mas o per\u00edodo registrou crescimento econ\u00f4mico espetacular &#8211; os &#8220;Trente Glorieuses&#8221;, ou &#8220;30 anos gloriosos&#8221;. Por isso, a raz\u00e3o entre capital e renda permaneceu baixa. Desde os anos 70, por\u00e9m, a desacelera\u00e7\u00e3o do crescimento implicou em alta na raz\u00e3o entre capital e renda, de modo que o capital e a riqueza v\u00eam caminhando de volta aos n\u00edveis que detinham na Belle \u00c9poque. E essa acumula\u00e7\u00e3o de capital, diz Piketty, terminar\u00e1 por recriar desigualdade ao estilo da Belle \u00c9poque, a menos que seja combatida por tributa\u00e7\u00e3o progressiva.<\/p>\n<p>Por qu\u00ea? \u00c9 tudo uma quest\u00e3o de r vs. g &#8211; a taxa de retorno sobre o capital (r) versus o ritmo de crescimento econ\u00f4mico (g).<\/p>\n<p>Quase todos os modelos econ\u00f4micos nos dizem que, caso g caia &#8211; o que vem acontecendo desde os anos 70, um decl\u00ednio que deve continuar devido ao crescimento menor da popula\u00e7\u00e3o em idade de trabalho e ao progresso tecnol\u00f3gico mais lento -, r tamb\u00e9m cair\u00e1. Mas Piketty assevera que r cair\u00e1 menos que g. Isso n\u00e3o tem necessariamente de ser verdade. Mas se for suficientemente f\u00e1cil substituir trabalhadores por m\u00e1quinas &#8211; se, para usarmos o jarg\u00e3o t\u00e9cnico, a elasticidade de substitui\u00e7\u00e3o entre capital e trabalho for superior a um -, o crescimento lento, e a alta consequente na raz\u00e3o entre capital e renda, de fato ampliar\u00e3o a disparidade entre r e g. E Piketty argumenta que \u00e9 isso que os registros hist\u00f3ricos provam acontecer\u00e1.<\/p>\n<p>Se ele estiver certo, uma consequ\u00eancia imediata ser\u00e1 uma redistribui\u00e7\u00e3o da renda, dos trabalhadores para os detentores de capital. A sabedoria dominante foi sempre a de que n\u00e3o precis\u00e1vamos nos preocupar que isso acontecesse, e que as parcelas respectivas do capital e do trabalho na renda total se provam fortemente est\u00e1veis ao longo do tempo. Em prazo muito longo, por\u00e9m, h\u00e1 prova de que isso n\u00e3o seja verdade. No Reino Unido, por exemplo, a parcela do capital na renda &#8211; quer em forma de lucros empresariais, dividendos, renda fixa ou vendas de propriedades, por exemplo &#8211; caiu de cerca de cerca de 40% antes da Primeira Guerra Mundial para pouco mais de 20% em 1971, e de l\u00e1 para c\u00e1 recuperou cerca de metade do terreno perdido. Nos Estados Unidos, esse arco hist\u00f3rico \u00e9 menos claro, mas aqui tamb\u00e9m a redistribui\u00e7\u00e3o em favor do capital est\u00e1 em curso. \u00c9 especialmente importante apontar que os lucros das empresas dispararam desde o come\u00e7o da crise financeira, enquanto os sal\u00e1rios &#8211; incluindo os sal\u00e1rios das pessoas com n\u00edvel mais elevado de educa\u00e7\u00e3o &#8211; se estagnavam.<\/p>\n<p>Uma parcela maior para o capital, por sua vez, eleva diretamente a desigualdade, porque a propriedade do capital \u00e9 sempre distribu\u00edda de modo mais desigual do que a renda do trabalho. Mas os efeitos n\u00e3o se limitam a isso, porque, quando o ritmo de retorno sobre o capital excede fortemente o ritmo de crescimento econ\u00f4mico, &#8220;o passado tende a devorar o futuro&#8221;: a sociedade tende inexoravelmente a ser dominada pela riqueza heredit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Considere como esse processo transcorreu na Europa da Belle \u00c9poque. Na \u00e9poca, os propriet\u00e1rios de capital podiam esperar retornos de 4% a 5% sobre seus investimentos, com tributa\u00e7\u00e3o m\u00ednima; enquanto isso o crescimento econ\u00f4mico era de apenas cerca de 1% ao ano. Assim, os indiv\u00edduos ricos podiam facilmente reinvestir parte suficiente de sua renda para garantir que sua riqueza, e com ela sua renda, crescesse mais r\u00e1pido que a economia, o que refor\u00e7ava seu dom\u00ednio econ\u00f4mico, e ao mesmo tempo gastar o suficiente para levar vidas de grande luxo.<\/p>\n<p>E o que acontecia quanto esses indiv\u00edduos ricos morriam? Sua riqueza era legada aos seus herdeiros &#8211; uma vez mais, com tributa\u00e7\u00e3o m\u00ednima. Dinheiro transferido \u00e0 gera\u00e7\u00e3o seguinte respondia por entre 20% e 25% da renda anual; a maior propor\u00e7\u00e3o das riquezas &#8211; cerca de 90% &#8211; era herdada e n\u00e3o auferida com a renda do trabalho. E essa riqueza heredit\u00e1ria se concentrava nas m\u00e3os de minorias muito pequenas. Em 1910, o 1% mais rico da popula\u00e7\u00e3o controlava 60% da riqueza da Fran\u00e7a; na Gr\u00e3-Bretanha a propor\u00e7\u00e3o era de 70%.<\/p>\n<p>N\u00e3o admira, portanto, que os romancistas do s\u00e9culo 19 fossem obcecados por heran\u00e7as. Piketty discute extensamente os conselhos do canalha Vautrin a Rastignac em &#8220;Pai Goriot&#8221;, de Balzac, que podem ser resumidos na afirma\u00e7\u00e3o de que nem mesmo a mais bem sucedida das carreiras poderia resultar em mais que uma fra\u00e7\u00e3o da fortuna que Rastignac seria capaz de adquirir de um golpe ao se casar com a filha de um homem rico. E a verdade \u00e9 que Vautrin estava certo: ser parte do 1% mais rico dos herdeiros do s\u00e9culo 19 conferia a algu\u00e9m um padr\u00e3o de vida cerca de 2,5 vezes superior ao que essa pessoa poderia atingir por meio de esfor\u00e7o que a conduzisse ao 1% mais bem pago dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Seria tentador dizer que a sociedade moderna em nada se parece com isso. Na realidade, por\u00e9m, tanto a renda do capital quanto a riqueza heredit\u00e1ria, ainda que menos importantes do que na Belle \u00c9poque, continuam a ser poderosos propulsores da desigualdade &#8211; e sua import\u00e2ncia est\u00e1 crescendo. Na Fran\u00e7a, demonstra Piketty, a parcela heredit\u00e1ria da riqueza total caiu acentuadamente na era das guerras e no p\u00f3s-guerra; por volta de 1970, ela era de menos de 50%. Mas agora retornou aos 70% e continua a crescer.<\/p>\n<p>Da mesma forma, houve primeiro queda e depois nova alta na import\u00e2ncia das heran\u00e7as no que tange a fazer de algu\u00e9m parte da elite. O padr\u00e3o de vida do 1% de herdeiros mais ricos caiu abaixo do 1% de trabalhadores mais bem pagos, entre 1910 e 1950, mas voltou a crescer depois de 1970. Ainda n\u00e3o estamos plenamente de volta ao padr\u00e3o de Rastignac, mas uma vez mais se tornou mais valioso ter os pais certos (ou escolher os sogros certos ao casar) do que ter o emprego certo.<\/p>\n<p>E isso pode ser apenas o come\u00e7o. As estimativas de Piketty sobre o r e g mundiais em longo prazo sugerem que a era da equaliza\u00e7\u00e3o ficou no passado e que as condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o agora prop\u00edcias ao restabelecimento do capitalismo patrimonial.<\/p>\n<p>Dado esse quadro, por que a riqueza heredit\u00e1ria desempenha papel t\u00e3o pequeno quanto de fato faz no discurso pol\u00edtico moderno? Piketty sugere que as dimens\u00f5es das fortunas heredit\u00e1rias, por serem t\u00e3o vastas, as tornam invis\u00edveis, de certa forma: &#8220;A riqueza \u00e9 t\u00e3o concentrada que um grande segmento da sociedade literalmente n\u00e3o tem consci\u00eancia de sua exist\u00eancia, de forma que algumas pessoas imaginam que perten\u00e7a a entidades surreais ou misteriosas&#8221;. \u00c9 um argumento muito bom. Mas certamente n\u00e3o constitui a explica\u00e7\u00e3o completa. Pois o fato \u00e9 que o exemplo mais consp\u00edcuo de uma disparada na desigualdade no mundo moderno &#8211; a ascens\u00e3o do 1% de muito ricos no mundo anglo-sax\u00e3o, especialmente nos Estados Unidos, n\u00e3o tem muito a ver com ac\u00famulo de capital, pelo menos por enquanto. Tem mais a ver com remunera\u00e7\u00e3o e renda salarial excepcionalmente altas.<\/p>\n<p>&#8220;Capital in the Twenty-First Century&#8221;, como espero ter deixado claro, \u00e9 um trabalho excelente. Em um momento no qual a concentra\u00e7\u00e3o de renda e riqueza nas m\u00e3os de uns poucos ressurgiu como quest\u00e3o pol\u00edtica central, Piketty n\u00e3o oferece apenas documenta\u00e7\u00e3o inestim\u00e1vel sobre o que est\u00e1 acontecendo, e com profundidade hist\u00f3rica incompar\u00e1vel. Tamb\u00e9m oferece o que podemos descrever como uma teoria do campo unificado para a desigualdade, integrando crescimento econ\u00f4mico, a distribui\u00e7\u00e3o de renda entre o capital e o trabalho e a distribui\u00e7\u00e3o de renda e riqueza entre os indiv\u00edduos em um s\u00f3 arcabou\u00e7o.<\/p>\n<p>E no entanto h\u00e1 uma coisa que subtrai algum m\u00e9rito a essa realiza\u00e7\u00e3o &#8211; uma esp\u00e9cie de prestidigita\u00e7\u00e3o intelectual, se bem que ela n\u00e3o envolva nenhuma trapa\u00e7a ou falsidade da parte de Piketty. Mesmo assim, eis: O principal motivo para que houvesse necessidade de um livro como esse \u00e9 a ascens\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 do 1% mas do 1% dos Estados Unidos, especificamente. Mas essa ascens\u00e3o, como se pode verificar, aconteceu por motivos que n\u00e3o fazem parte do escopo da grande tese de Piketty.<\/p>\n<p>Ele \u00e9 um economista bom e honesto demais, \u00e9 claro, para tentar enrolar com rela\u00e7\u00e3o a fatos inconvenientes. &#8220;A desigualdade nos Estados Unidos em 2010&#8221;, afirma, &#8220;\u00e9 quantitativamente t\u00e3o extrema quanto na velha Europa da primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo 20, mas a estrutura dessa desigualdade \u00e9 &#8211; muito claramente &#8211; distinta&#8221;. De fato, o que vimos nos Estados Unidos e estamos come\u00e7ando a ver em outros lugares \u00e9 algo de &#8220;radicalmente novo&#8221;: a ascens\u00e3o dos &#8220;supersal\u00e1rios&#8221;.<\/p>\n<p>O capital ainda importa. Nos escal\u00f5es mais elevados da sociedade, a renda do capital ainda excede a renda dos sal\u00e1rios e bonifica\u00e7\u00f5es. Piketty estima que a desigualdade aumentada da renda do capital responda por cerca de um ter\u00e7o do aumento da desigualdade nos Estados Unidos. Mas a renda salarial no topo tamb\u00e9m disparou. Os sal\u00e1rios reais da maioria dos trabalhadores dos Estados Unidos cresceram pouco, se alguma coisa, do come\u00e7o dos anos 70 para c\u00e1, mas os sal\u00e1rios do 1% de trabalhadores mais bem pagos subiram em 165%, e os do 0,1% mais bem pago em 362%. Se Rastignac estivesse vivo hoje, Vautrin talvez reconhecesse que ele poderia se sair t\u00e3o bem arrumando emprego como administrador de um fundo de hedge quanto se arrumasse um casamento rico.<\/p>\n<p>O que explica essa ascens\u00e3o dram\u00e1tica na desigualdade de renda, com a parte do le\u00e3o dos ganhos reservada \u00e0s pessoas no topo da escala? Alguns economistas dos Estados Unidos sugerem que a tend\u00eancia seja propelida por mudan\u00e7as na tecnologia. Em um famoso estudo publicado em 1981, intitulado &#8220;A Economia dos Superastros&#8221;, Sherwin Rosen, economista de Chicago, argumentava que a moderna tecnologia de comunica\u00e7\u00e3o, ao estender o alcance dos indiv\u00edduos talentosos, criava mercados nos quais todas as recompensas cabiam aos vencedores, mesmo que eles fossem apenas modestamente melhores naquilo que fazem do que rivais menos bem pagos.<\/p>\n<p>Piketty n\u00e3o aceita essa teoria. Ele aponta que economistas conservadores adoram falar sobre os altos sal\u00e1rios de astros de uma ou outra ordem, como os de cinema ou do esporte, como maneira de sugerir que as altas rendas s\u00e3o realmente merecidas. Mas esse tipo de pessoa forma uma fra\u00e7\u00e3o muito pequena da elite da renda. O que encontramos, em lugar disso, s\u00e3o principalmente executivos de uma ou outra ordem &#8211; pessoas cujo desempenho \u00e9, de fato, muito dif\u00edcil de avaliar ou de definir em termos de valor monet\u00e1rio.<\/p>\n<p>O que determina o valor de um presidente-executivo em uma grande companhia? Bem, existe um comit\u00ea de remunera\u00e7\u00e3o, indicado pelo presidente-executivo mesmo. Na pr\u00e1tica, argumenta Piketty, os executivos de alto n\u00edvel ditam sua remunera\u00e7\u00e3o, restringidos apenas pelas normas sociais e n\u00e3o por qualquer forma de disciplina de mercado. E ele atribui a disparada nos sal\u00e1rios a uma eros\u00e3o das normas sociais. Na pr\u00e1tica, ele atribui a disparada na renda salarial entre os mais bem pagos a for\u00e7as sociais e pol\u00edticas, e n\u00e3o estritamente econ\u00f4micas.<\/p>\n<p>\u00c9 justo apontar que ele oferece uma poss\u00edvel an\u00e1lise econ\u00f4mica sobre essa mudan\u00e7a de normas, argumentando que a queda das al\u00edquotas tribut\u00e1rias para os ricos na verdade fez com que a elite salarial ganhasse em ousadia. Quando um importante executivo retinha apenas uma pequena fra\u00e7\u00e3o da renda que poderia receber violando as normas sociais e estabelecendo para si mesmo um sal\u00e1rio muito alto, ele talvez decidisse que o opr\u00f3brio que sofreria n\u00e3o valeria a pena. Mas o corte dr\u00e1stico de sua al\u00edquota tribut\u00e1ria pode levar uma pessoa como essa a se comportar diferentemente. E quanto mais os titulares de supersal\u00e1rios violarem as normas, mais essas normas mesmas mudar\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 muito a elogiar nesse diagn\u00f3stico, mas lhe falta claramente o rigor e a universidade da an\u00e1lise de Piketty sobre a distribui\u00e7\u00e3o e retornos da riqueza. Al\u00e9m disso, n\u00e3o acho que &#8220;Capital in the Twenty-First Century&#8221; rebata adequadamente a cr\u00edtica mais reveladora quanto \u00e0 hip\u00f3tese sobre o poder dos executivos: a concentra\u00e7\u00e3o de rendas muito altas nas finan\u00e7as, onde \u00e9 poss\u00edvel, em certa medida, avaliar desempenhos. N\u00e3o mencionei administradores de fundo de hedges irrefletidamente. Pessoas como eles s\u00e3o pagas com base em sua capacidade de atrair clientes e obter retornos sobre seus investimentos. Pode-se questionar o valor social das finan\u00e7as modernas, mas os Gordon Gekkos do mercado s\u00e3o claramente bons em alguma coisa, e sua ascens\u00e3o n\u00e3o pode ser atribu\u00edda apenas a rela\u00e7\u00f5es de poder, ainda que eu imagine que seja poss\u00edvel argumentar que a disposi\u00e7\u00e3o de se envolver em transa\u00e7\u00f5es financeiras d\u00fabias, assim como a disposi\u00e7\u00e3o de violar as normas sociais quanto aos sal\u00e1rios, \u00e9 incentivada pelos impostos baixos.<\/p>\n<p>No geral, a explica\u00e7\u00e3o de Piketty sobre a alta na desigualdade salarial me parece convincente, ainda que o fato de que n\u00e3o inclua a desregulamenta\u00e7\u00e3o no quadro anal\u00edtico seja um desapontamento significativo. Mas, como afirmei, a an\u00e1lise dele quanto a isso carece do rigor de sua an\u00e1lise sobre o capital, para n\u00e3o mencionar sua imensa e inspiradora eleg\u00e2ncia intelectual.<\/p>\n<p>No entanto, n\u00e3o devemos exagerar em nossa rea\u00e7\u00e3o a isso. Mesmo que a disparada na desigualdade norte-americana at\u00e9 o momento tenha sido propelida principalmente por renda salarial, o capital ainda assim exerceu papel significativo. E de qualquer jeito, a hist\u00f3ria no futuro deve se provar bastante diferente. A atual gera\u00e7\u00e3o de norte-americanos muito ricos pode consistir em larga medida de executivos e n\u00e3o rentiers, ou seja, pessoas que vivem de capitais acumulados. Mas esses executivos t\u00eam herdeiros. E dentro de duas d\u00e9cadas os Estados Unidos podem ser uma sociedade dominada pelos rentiers, com desigualdade ainda maior do que a da Europa na Belle \u00c9poque.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o significa que isso precise inevitavelmente acontecer.<\/p>\n<p>H\u00e1 momentos em que Piketty parece oferecer uma vis\u00e3o determinista da Hist\u00f3ria, sob a qual tudo deriva do ritmo de crescimento populacional e de progresso tecnol\u00f3gico. N a realidade, por\u00e9m, &#8220;Capital in the Twenty-First Century&#8221; deixa claro que a pol\u00edtica p\u00fablica pode fazer imensa diferen\u00e7a, que mesmo se as condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas subjacentes apontarem para desigualdade extrema, aquilo que Piketty define como &#8220;deriva em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 oligarquia&#8221; pode ser detido e at\u00e9 revertido, se o organismo pol\u00edtico assim decidir.<\/p>\n<p>O ponto chave \u00e9 que, quando fazemos a compara\u00e7\u00e3o crucial entre a taxa de retorno sobre a riqueza e a taxa de crescimento econ\u00f4mico, o que importa \u00e9 o retorno obtido pela riqueza ap\u00f3s os impostos. Assim, uma estrutura de taxa\u00e7\u00e3o progressiva &#8211; especialmente a tributa\u00e7\u00e3o da riqueza e das heran\u00e7as &#8211; pode se tornar uma for\u00e7a poderosa de limita\u00e7\u00e3o da desigualdade. Piketty conclui sua obra-prima, de fato, como um apelo por uma forma de tributa\u00e7\u00e3o como essa. Infelizmente, a hist\u00f3ria que ele mesmo cobre em seu livro n\u00e3o oferece motivos para otimismo.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que, por boa parte do s\u00e9culo 20, uma forte tributa\u00e7\u00e3o progressiva ajudou a reduzir a concentra\u00e7\u00e3o de renda e riqueza, e voc\u00ea poderia imaginar que uma alta tributa\u00e7\u00e3o para as rendas mais elevadas seja o desfecho pol\u00edtico natural quanto uma democracia precisa enfrentar desigualdades extremas. Mas Piketty rejeita essa conclus\u00e3o: o triunfo da tributa\u00e7\u00e3o progressiva durante o s\u00e9culo 20, ele argumenta, foi apenas &#8220;o ef\u00eamero produto do caos&#8221;. Se n\u00e3o tivessem acontecido as guerras e os tumultos da moderna guerra dos 30 anos europeia, ele sugere, nenhuma tend\u00eancia parecida teria surgido.<\/p>\n<p>Como provas, ele oferece o exemplo da Terceira Rep\u00fablica francesa [1870-1940]. A ideologia oficial da rep\u00fablica era altamente igualit\u00e1ria. Mas a riqueza e a renda eram quase t\u00e3o concentradas, os privil\u00e9gios econ\u00f4micos quase t\u00e3o dominados pelas heran\u00e7as, quanto na monarquia constitucional brit\u00e2nica do lado de l\u00e1 do Canal da Mancha. E a pol\u00edtica p\u00fablica quase nada fazia para se opor ao dom\u00ednio econ\u00f4mico dos rentiers: os impostos sobre as heran\u00e7as, especialmente, eram quase ridiculamente baixos.<\/p>\n<p>Por que os cidad\u00e3os franceses, dotados do sufr\u00e1gio universal, n\u00e3o votavam em pol\u00edticos que assumissem o compromisso de enfrentar a classe dos rentiers? Bem, ent\u00e3o, como agora, a riqueza comprava muita influ\u00eancia &#8211; n\u00e3o apenas sobre a pol\u00edtica, mas sobre o discurso p\u00fablico. O escritor norte-americano Upton Sinclair, em uma cita\u00e7\u00e3o que se tornou famosa, disse que &#8220;\u00e9 dif\u00edcil fazer com que um homem compreenda alguma coisa quando seu sal\u00e1rio depende de que ele n\u00e3o a compreenda&#8221;. Piketty, contemplando a hist\u00f3ria de seu pa\u00eds, chega a uma observa\u00e7\u00e3o semelhante: &#8220;A experi\u00eancia da Fran\u00e7a na Belle \u00c9poque prova, se \u00e9 que provas s\u00e3o necess\u00e1rias, que nenhuma hipocrisia \u00e9 grande demais quando as elites econ\u00f4micas e financeiras se veem obrigadas a defender seus interesses&#8221;.<\/p>\n<p>O mesmo fen\u00f4meno \u00e9 vis\u00edvel hoje. Na verdade, um aspecto curioso do cen\u00e1rio norte-americano \u00e9 que a pol\u00edtica da desigualdade parece estar caminhando at\u00e9 \u00e0 frente da realidade. Como vimos, a essa altura as elites econ\u00f4micas dos Estados Unidos ainda devem seu status principalmente aos sal\u00e1rios, e n\u00e3o \u00e0 renda do capital.<\/p>\n<p>Mesmo assim, a ret\u00f3rica econ\u00f4mica conservadora j\u00e1 enfatiza e celebra o capital, de prefer\u00eancia ao trabalho &#8211; os &#8220;criadores de empregos&#8221;, n\u00e3o os trabalhadores.<\/p>\n<p>Em 2012, Eric Cantor, l\u00edder da maioria republicana na C\u00e2mara dos Deputados, optou por celebrar o Dia do Trabalho &#8211; o Dia do Trabalho! &#8211; com uma mensagem no Twitter em honra dos donos de empresas: &#8220;Hoje celebramos aqueles que assumiram riscos, trabalharam duro, constru\u00edram um neg\u00f3cio e mereceram o sucesso que t\u00eam&#8221;.<\/p>\n<p>Talvez abalado pela rea\u00e7\u00e3o adversa, ele teria supostamente sentido a necessidade de lembrar aos colegas de partido, em um evento posterior dos republicanos, que a maioria das pessoas n\u00e3o \u00e9 dona de empresas &#8211; mas isso basta, em si, para mostrar at\u00e9 que ponto o Partido Republicano se identifica com o capital, virtualmente excluindo o trabalho.<\/p>\n<p>E essa orienta\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel ao capital tampouco \u00e9 apenas ret\u00f3rica. A carga tribut\u00e1ria sobre os norte-americanos de alta renda vem caindo de forma generalizada desde os anos 70, mas as maiores redu\u00e7\u00f5es aconteceram nos impostos sobre a renda gerada pelo capital &#8211; o que inclui uma forte queda nos impostos das empresas, o que indiretamente beneficia seus acionistas &#8211; e nos impostos sobre heran\u00e7as. \u00c0s vezes, parece que por\u00e7\u00e3o substancial de nossa classe pol\u00edtica est\u00e1 trabalhando ativamente para restaurar o capitalismo patrimonial que Piketty descreve. E se observarmos as fontes de doa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, essa possibilidade parece muito menos absurda do que poderia ser.<\/p>\n<p>Piketty conclui &#8220;Capital in the Twenty-First Century&#8221; com um chamado \u00e0s armas &#8211; um apelo, especialmente, por impostos sobre a riqueza, se poss\u00edvel em escala mundial, a fim de restringir o crescente poder da riqueza heredit\u00e1ria. \u00c9 f\u00e1cil ser c\u00ednico sobre as perspectivas de sucesso dessa empreitada. Mas certamente o magistral diagn\u00f3stico de Piketty sobre a situa\u00e7\u00e3o em que estamos e a situa\u00e7\u00e3o a que estamos nos encaminhando torna o \u00eaxito consideravelmente mais prov\u00e1vel. Por isso, &#8220;Capital in the Twenty-First Century&#8221; \u00e9 um livro extremamente importante em todas as frentes. Piketty transformou nosso discurso econ\u00f4mico; jamais voltaremos a falar sobre renda e desigualdade da maneira que faz\u00edamos.<\/p>\n<p>http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2014\/04\/1445830-livro-o-capital-no-seculo-21-revoluciona-ideias-sobre-desigualdade.shtml<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PAUL KRUGMAN &#8211; Thomas Piketty, professor na Escola de Economia de Paris, n\u00e3o \u00e9 um nome muito conhecido, ainda que isso possa mudar com a publica\u00e7\u00e3o em ingl\u00eas de sua abrangente e magn\u00edfica medita\u00e7\u00e3o sobre a desigualdade, &#8220;Capital in the Twenty-First Century&#8221;. Mas sua influ\u00eancia \u00e9 profunda. 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