{"id":18126,"date":"2022-08-04T12:00:29","date_gmt":"2022-08-04T15:00:29","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18126"},"modified":"2022-07-31T12:08:51","modified_gmt":"2022-07-31T15:08:51","slug":"no-brasil-da-fome-dispara-a-obesidade-infantil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/08\/04\/no-brasil-da-fome-dispara-a-obesidade-infantil\/","title":{"rendered":"No Brasil da fome, dispara a obesidade infantil"},"content":{"rendered":"<p><strong>Camille Lichotti\u00a0e\u00a0Rubens Valente<\/strong> &#8211;\u00a0De uma lista de 20 \u00edtens hiper inflacionados, 19 s\u00e3o de comida <i style=\"font-size: 16px;\">in natura<\/i><span style=\"font-size: 16px;\">. Dieta de ultraprocessados deixou uma em cada tr\u00eas crian\u00e7as obesa. Do outro lado, onde o IDH \u00e9 ainda pior, fome persistente reflete-se na magreza aguda e baixa estatura.<\/span><\/p>\n<p>Na porta de um pequeno mercado localizado entre dois terrenos baldios, em uma rua poeirenta do interior do Maranh\u00e3o, pacotes de salgadinho brilham sob o implac\u00e1vel sol das 10 horas da manh\u00e3. A temperatura passa dos 30\u00b0 C em Trizidela do Vale, regi\u00e3o central do estado, quando um menino de 11 anos, descal\u00e7o e vestindo apenas uma bermuda azul, entra na loja para comprar um ado\u00e7ante a pedido da m\u00e3e. Antes de pagar, agarra um dos pacotes brilhantes: um salgadinho de milho sabor calabresa acebolada \u2013 que de calabresa s\u00f3 tem o aroma artificial \u2013, vendido a 50 centavos. Uma banana custa 75 centavos, mas o garoto nem chega perto das frutas guardadas no refrigerador no corredor mais distante da porta. As prateleiras de destaque destinam-se aos salgadinhos de pacote. \u201c\u00c9 para chamar as crian\u00e7as\u201d, explica o atendente.<\/p>\n<p>O salgadinho de pacote \u00e9 ingrediente central do card\u00e1pio de m\u00e1 nutri\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as brasileiras. Mas n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico vil\u00e3o. A fome persistente convive com a crescente epidemia de obesidade, e os dois fen\u00f4menos atingem a popula\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel. Dados compilados pela piau\u00ed e pela ag\u00eancia de dados p\u00fablicos\u00a0<a href=\"https:\/\/fiquemsabendo.com.br\/\">Fiquem Sabendo<\/a><strong>,<\/strong>\u00a0com base no Sistema de Vigil\u00e2ncia Alimentar e Nutricional (Sisvan), do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, mostram que a propor\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as de 5 a 10 anos acima do peso explodiu nos \u00faltimos treze anos. A taxa de crian\u00e7as com obesidade subiu 70% de 2008 a 2021. Praticamente uma em cada cinco crian\u00e7as atendidas pelo sistema p\u00fablico de sa\u00fade est\u00e1 obesa.<\/p>\n<p>Crian\u00e7as obesas t\u00eam mais chance de se tornarem adultos obesos \u2013 e podem adquirir ao longo da vida uma s\u00e9rie de doen\u00e7as relacionadas ao excesso de peso, como hipertens\u00e3o, diabetes e problemas cardiovasculares. Enquanto a obesidade infantil traz uma nova carga de vulnerabilidade aos mais pobres, o Brasil caminha para ter uma popula\u00e7\u00e3o doente. \u201cA consequ\u00eancia disso \u00e9 a mortalidade prematura\u201d, explica a nutricionista Daniela Neri, do N\u00facleo de Pesquisas Epidemiol\u00f3gicas em Nutri\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade da USP.<img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3067632\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/07\/12130155\/Captura-de-tela-2022-07-12-130045.png?resize=640%2C637&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/07\/12130155\/Captura-de-tela-2022-07-12-130045.png 602w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/07\/12130155\/Captura-de-tela-2022-07-12-130045-300x300.png 300w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/07\/12130155\/Captura-de-tela-2022-07-12-130045-150x150.png 150w, \" alt=\"\" width=\"640\" height=\"637\" \/><\/p>\n<p>Do outro lado da balan\u00e7a, a taxa de crian\u00e7as abaixo do peso adequado para a idade parou de cair em 2021, interrompendo a tend\u00eancia de queda registrada desde 2008. Em nove estados, a taxa de crian\u00e7as de 5 a 10 anos em situa\u00e7\u00e3o de magreza ou magreza acentuada aumentou nos \u00faltimos dois anos. No caso do Distrito Federal, o salto na propor\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as abaixo do peso adequado foi de 23% \u2013 e o \u00edndice voltou a um patamar semelhante ao de 13 anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p>O Sisvan registra peso e altura de crian\u00e7as que chegam \u00e0 rede de aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria do sistema p\u00fablico de sa\u00fade, a maioria atendida por programas sociais. Como os dados se referem prioritariamente a crian\u00e7as em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade social, o sistema serve de guia para todas as estrat\u00e9gias e a\u00e7\u00f5es do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade na \u00e1rea de alimenta\u00e7\u00e3o e nutri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No pa\u00eds onde 125 milh\u00f5es de pessoas n\u00e3o sabem se v\u00e3o conseguir se alimentar adequadamente todo dia \u2013 e das quais 33 milh\u00f5es passam fome, segundo\u00a0<a href=\"https:\/\/pesquisassan.net.br\/2o-inquerito-nacional-sobre-inseguranca-alimentar-no-contexto-da-pandemia-da-covid-19-no-brasil\/\">pesquisa da rede Penssan<\/a>\u00a0\u2013, a obesidade est\u00e1 conectada \u00e0 pobreza. Especialistas ouvidos pela piau\u00ed concordam que o aumento da obesidade infantil tamb\u00e9m \u00e9 produto do empobrecimento e da inseguran\u00e7a alimentar. \u201cA obesidade est\u00e1 se tornando uma marca da popula\u00e7\u00e3o mais pobre\u201d, diz a endocrinologista Maria Edna de Melo, professora da Universidade de S\u00e3o Paulo. Hoje quem tem dinheiro pode escolher com mais folga o tipo de alimento que vai comer e optar por pratos mais saud\u00e1veis e diversos. Quem n\u00e3o tem, come o mais barato \u2013 que quase sempre \u00e9 tamb\u00e9m o mais cal\u00f3rico ou de qualidade nutricional inferior.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.unicef.org\/brazil\/relatorios\/alimentacao-na-primeira-infancia\">Relat\u00f3rio<\/a>\u00a0publicado pelo Unicef no final de 2021 revelou um alto consumo de ultraprocessados entre crian\u00e7as integrantes do programa Bolsa Fam\u00edlia (substitu\u00eddo em novembro passado pelo Aux\u00edlio Brasil). Esses produtos s\u00e3o basicamente uma mistura de sal, a\u00e7\u00facar, gordura e conservantes e sequer s\u00e3o considerados comida de verdade. Recebem uma s\u00e9rie de aditivos industriais para alterar seu gosto e prazo de validade, o que os torna mais palat\u00e1veis, baratos, pr\u00e1ticos e acess\u00edveis \u2013 apesar de n\u00e3o terem valor nutricional. \u201cAs pessoas sentem uma falsa sensa\u00e7\u00e3o de saciedade porque na verdade n\u00e3o est\u00e3o se alimentando quando comem esses produtos\u201d, diz a endocrinologista Zuleika Halpern, membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).<\/p>\n<p>Em metade dos domic\u00edlios pesquisados pelo Unicef, as crian\u00e7as com menos de 6 anos consomem salgadinho de pacote, macarr\u00e3o instant\u00e2neo e refrigerante de uma a tr\u00eas vezes por semana. O estudo concluiu que a vulnerabilidade socioecon\u00f4mica das fam\u00edlias \u00e9 um fator que influencia no consumo de ultraprocessados, e a maior dificuldade para melhorar os h\u00e1bitos alimentares foi o alto custo dos alimentos saud\u00e1veis. \u201cO pre\u00e7o de uma salsicha pouco aumentou, enquanto o da cenoura disparou. As pessoas mais pobres est\u00e3o comendo comida de baixa qualidade porque \u00e9 mais barato\u201d, diz o economista Arnoldo de Campos, ex-secret\u00e1rio nacional de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional.\u00a0<a href=\"https:\/\/pp.nexojornal.com.br\/opiniao\/2022\/Aos-pobres-as-salsichas\">Um levantamento feito por ele<\/a>\u00a0mostra que, das 20 maiores altas de pre\u00e7os acumuladas este ano at\u00e9 o m\u00eas de abril, 19 foram de alimentos\u00a0<em>in natura<\/em>.<\/p>\n<p>Uma s\u00e9rie de estudos j\u00e1 investigou a rela\u00e7\u00e3o entre a falta de recursos para a compra de alimentos saud\u00e1veis e o ganho de peso. Algumas dessas pesquisas mostram que, por mais contraintuitivo que pare\u00e7a, a epidemia de obesidade no Brasil n\u00e3o \u00e9 oposta \u00e0 inseguran\u00e7a alimentar, mas uma consequ\u00eancia dela. \u201cAntes as crian\u00e7as pobres morriam porque n\u00e3o tinham acesso \u00e0 comida. Agora elas comem, mas v\u00e3o desenvolver uma s\u00e9rie de doen\u00e7as porque comem mal\u201d, diz Zuleika Halpern.<\/p>\n<p>A obesidade j\u00e1 vinha avan\u00e7ando entre as crian\u00e7as vulner\u00e1veis de todos os estados brasileiros e, com o in\u00edcio da pandemia, teve um salto em 2020 em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior. Os casos mais cr\u00edticos s\u00e3o os estados do Rio Grande do Sul, onde um quarto das crian\u00e7as de 5 a 10 anos eram obesas (25% dos pesados), Cear\u00e1 (23%) e Rio Grande do Norte (23%). O problema atinge estados com perfis socioecon\u00f4micos diferentes. No Rio, que tem o segundo maior produto interno bruto (PIB) do pa\u00eds, a obesidade infantil subiu de 11% em 2008 para 18% em 2021. Mas o aumento mais acentuado aconteceu em Rond\u00f4nia, que tem um dos menores PIBs, saltando de 7% para 15%. A obesidade infantil aumentou em todos grupos raciais, mas as crian\u00e7as brancas apresentaram o \u00edndice mais alto em 2021 \u2013 21% delas tinha obesidade ou obesidade grave, ante 18% entre crian\u00e7as pretas e 16% entre pardas, que por sua vez tiveram \u00edndices maiores de magreza e magreza acentuada.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3067633\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/07\/12133218\/WhatsApp-Image-2022-07-05-at-17.46.01-1024x663-1.jpeg?resize=640%2C414&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/07\/12133218\/WhatsApp-Image-2022-07-05-at-17.46.01-1024x663-1.jpeg 1024w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/07\/12133218\/WhatsApp-Image-2022-07-05-at-17.46.01-1024x663-1-300x194.jpeg 300w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/07\/12133218\/WhatsApp-Image-2022-07-05-at-17.46.01-1024x663-1-768x497.jpeg 768w, \" alt=\"\" width=\"640\" height=\"414\" \/><\/p>\n<p>A propor\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as com obesidade grave pode crescer ainda mais nos pr\u00f3ximos anos, j\u00e1 que tamb\u00e9m tem aumentado a taxa de sobrepeso na faixa et\u00e1ria de 5 a 10 anos de idade \u2013 16% dos pesados em 2021, ante 14% no in\u00edcio da s\u00e9rie hist\u00f3rica. Somando com os obesos, pode-se dizer que cerca de um ter\u00e7o das crian\u00e7as acompanhadas pela pesquisa no Brasil estava com excesso de peso em 2021 \u2013 taxa que, em alguns estados, como o Rio Grande do Sul, chegava a quase metade das crian\u00e7as pesadas.<\/p>\n<p>Os dados do Sisvan tamb\u00e9m mostram a consequ\u00eancia direta da m\u00e1 alimenta\u00e7\u00e3o ao longo dos anos. Mais de 8% das crian\u00e7as de 5 a 10 anos t\u00eam altura baixa ou muito baixa para a idade. O crescimento infantil \u00e9 usado como um indicador de sa\u00fade das crian\u00e7as. At\u00e9 os 5 anos de idade, se as necessidades de sa\u00fade e nutri\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as s\u00e3o atendidas, o padr\u00e3o de crescimento m\u00e9dio \u00e9 semelhante. O d\u00e9ficit na altura \u00e9 a caracter\u00edstica mais representativa do quadro de desnutri\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica no Brasil. Enquanto o baixo peso \u00e9 um problema que pode ser revertido, o potencial de crescimento perdido na inf\u00e2ncia n\u00e3o pode ser recuperado. A propor\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as abaixo da altura ideal vinha caindo e atingiu o menor \u00edndice da s\u00e9rie hist\u00f3rica em 2019 \u2013 8% das crian\u00e7as de 5 a 10 anos medidas \u2013 mas voltou a subir no ano seguinte.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3067635\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/07\/12133333\/Captura-de-tela-2022-07-12-133251.png?resize=640%2C550&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/07\/12133333\/Captura-de-tela-2022-07-12-133251.png 663w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/07\/12133333\/Captura-de-tela-2022-07-12-133251-300x258.png 300w, \" alt=\"\" width=\"640\" height=\"550\" \/><\/p>\n<p>\u201cA defici\u00eancia de estatura \u00e9 muito mais preocupante do que a do peso. \u00c9 o que se chama fome cr\u00f4nica, quando a crian\u00e7a cresce menos do que deveria porque n\u00e3o se alimentou direito\u201d, diz o professor Rodrigo Vianna, do departamento de Nutri\u00e7\u00e3o da Universidade Federal da Para\u00edba (UFPB). \u201c No caso da estatura, quem comeu menos e ficou magro come\u00e7a a crescer menos. A magreza \u00e9 r\u00e1pida, tempor\u00e1ria e pode ser revertida. J\u00e1 a estatura \u00e9 a fome cr\u00f4nica, \u00e9 ela que mostra o grande atraso do desenvolvimento do pa\u00eds\u201d.<\/p>\n<p>Na base de dados do Sisvan, o sudoeste do Amazonas aparece como a pior mesorregi\u00e3o do pa\u00eds em termos de estatura abaixo do esperado entre crian\u00e7as dos 5 aos 10 anos de idade. A inseguran\u00e7a alimentar na regi\u00e3o desafia o senso comum de que na Amaz\u00f4nia n\u00e3o se passa fome porque os recursos naturais s\u00e3o abundantes. O munic\u00edpio de Atalaia do Norte (AM), perto da fronteira com a Col\u00f4mbia \u2013 que ganhou notoriedade nas \u00faltimas semanas ap\u00f3s o assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista brit\u00e2nico Dom Phillips \u2013 det\u00e9m o mais baixo IDH (\u00cdndice de Desenvolvimento Humano) entre os 62 munic\u00edpios do estado do Amazonas, segundo os dados de 2010. De um total de 1.027 crian\u00e7as de 0 a 5 anos pesadas em Atalaia em 2021, 89 tinham \u201cmagreza acentuada\u201d (5% do total, portanto acima dos 3% da m\u00e9dia nacional no per\u00edodo) ou \u201cmagreza\u201d ( 4%, tamb\u00e9m acima dos 3,4% da m\u00e9dia nacional).<\/p>\n<p>Estado brasileiro com maior propor\u00e7\u00e3o de pobres, o Maranh\u00e3o \u00e9 um exemplo da dupla carga de m\u00e1 alimenta\u00e7\u00e3o que atinge o Brasil. Tem taxas acima da m\u00e9dia nacional de crian\u00e7as abaixo do peso e tamb\u00e9m abaixo da altura esperada para a idade. Enquanto isso, a propor\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as acima do peso \u2013 embora n\u00e3o seja a mais alta no pa\u00eds \u2013 cresce ano a ano. Em Trizidela do Vale, onde os salgadinhos de pacote brilham sob o sol nos mercadinhos, o \u00edndice de obesidade (somando a moderada e a grave) mais do que triplicou: subiu de 4% em 2008 para 16% em 2021 entre as crian\u00e7as de 5 a 10 anos. J\u00e1 o \u00edndice de crian\u00e7as abaixo do peso, que vinha caindo nos \u00faltimos anos, voltou em 2021 ao mesmo patamar de 2008. Ou seja: levando em conta o in\u00edcio da s\u00e9rie hist\u00f3rica de dados do Sisvan e a situa\u00e7\u00e3o atual, a desnutri\u00e7\u00e3o deixou de ser o principal problema nutricional em Trizidela do Vale \u2013 mas n\u00e3o porque deixou de existir. Agora desnutri\u00e7\u00e3o e a obesidade s\u00e3o problemas que se somam.<\/p>\n<p>Na pen\u00faltima semana de junho, Anajara Guimar\u00e3es levou o filho ca\u00e7ula, Marcos, de 6 anos, a uma consulta m\u00e9dica. Era uma campanha da igreja do bairro Aeroporto, regi\u00e3o afastada do centro de Trizidela do Vale, onde a paisagem j\u00e1 come\u00e7a a ganhar caracter\u00edsticas rurais. No projeto social, as crian\u00e7as s\u00e3o pesadas, medidas e os volunt\u00e1rios calculam o \u00cdndice de Massa Corporal (IMC) usando um programa de computador. Marcos estava pesando 15 kg. Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade, o peso ideal para um menino da sua idade \u00e9 de 20 a 23 kg. Al\u00e9m do baixo peso, que, de acordo com os crit\u00e9rios do projeto da igreja, configura um quadro de desnutri\u00e7\u00e3o, os exames do garoto tamb\u00e9m mostraram uma anemia severa. \u201cNesse dia eu voltei para casa chorando igual crian\u00e7a\u201d, lembra a m\u00e3e, que passou a tomar rem\u00e9dios para conseguir dormir.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3067636\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/07\/12133356\/Anajara-Guimaraes-1024x768-1.jpg?w=640&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/07\/12133356\/Anajara-Guimaraes-1024x768-1.jpg 1024w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/07\/12133356\/Anajara-Guimaraes-1024x768-1-300x225.jpg 300w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/07\/12133356\/Anajara-Guimaraes-1024x768-1-768x576.jpg 768w, \" alt=\"\" \/><\/p>\n<p><em>Anajara Guimar\u00e3es com o filho Marcos, de 6 anos, desnutrido. O garoto pesa 15 kg e est\u00e1 abaixo do peso considerado adequado para a idade \u2013 Foto: Camille Lichotti<\/em><\/p>\n<p>A casa que Anajara Guimar\u00e3es divide com os tr\u00eas filhos fica escondida num matagal do bairro. \u00c9 uma constru\u00e7\u00e3o de pau a pique, na qual o \u00fanico v\u00e3o foi dividido em dois quartos, separados por len\u00e7\u00f3is, sala e cozinha. Como ela est\u00e1 desempregada, o \u00fanico dinheiro que entra regularmente na casa s\u00e3o os 400 reais do Aux\u00edlio Brasil. Mas o valor n\u00e3o \u00e9 suficiente para garantir a alimenta\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, especialmente com a alta do pre\u00e7o dos alimentos. No fim de junho passado, por exemplo, s\u00f3 havia \u00e1gua na geladeira. No arm\u00e1rio, meio saco de arroz e um punhado de feij\u00e3o. \u201cN\u00e3o resta quase nada para comer\u201d, diz Guimar\u00e3es, apontando para o pequeno arm\u00e1rio instalado na parede. Ela calcula que a fam\u00edlia n\u00e3o come carne de gado h\u00e1 cerca de seis meses. As compras do m\u00eas costumam durar duas semanas \u2013 nas outras duas, \u00e9 preciso \u201cdar um jeito\u201d. Guimar\u00e3es conta que, quando ningu\u00e9m aparece para ajudar, ela passa dias sem comer para garantir a acanhada alimenta\u00e7\u00e3o dos filhos.<\/p>\n<p>A igreja forneceu algumas vitaminas e sulfato ferroso para tratar a anemia do filho mais novo, mas nenhum comprimido substitui a comida. E \u00e9 justamente ela, a comida, que est\u00e1 em falta. A alimenta\u00e7\u00e3o de Marcos \u00e9 basicamente leite em p\u00f3 e bolacha recheada, diz a m\u00e3e. Ele n\u00e3o come arroz e feij\u00e3o, que \u00e9 o que sobra no fim do m\u00eas, e na escola s\u00f3 toma sopa (a outra op\u00e7\u00e3o \u00e9 arroz com sardinha, que ele n\u00e3o come). O menino gosta mesmo \u00e9 das frutas: ma\u00e7\u00e3, banana, mam\u00e3o. Mas elas est\u00e3o caras demais e a m\u00e3e deixou de compr\u00e1-las. \u201cAqui a gente mal tem o b\u00e1sico\u201d, explica, resignada.<\/p>\n<p>A poucos minutos dali, num outro bairro pobre da mesma Trizidela do Vale, Maria de F\u00e1tima Nery, de 27 anos, mora com as tr\u00eas filhas, o namorado e a m\u00e3e. Ela diz se lembrar at\u00e9 hoje de quando a filha Maria Clara, de 6 anos, comeu o primeiro pacote de macarr\u00e3o instant\u00e2neo, aos 9 meses de idade. Assim que terminou a refei\u00e7\u00e3o ultraprocessada, come\u00e7ou a ter febre e convuls\u00f5es que duraram vinte dias. Hoje o macarr\u00e3o instant\u00e2neo \u00e9 uma de suas comidas favoritas. \u201cN\u00e3o sei que gosto tem, s\u00f3 sei que \u00e9 bom\u201d, explica a menina. Na \u00faltima vez em que foi pesada, Maria Clara \u2013 que tem a mesma idade de Marcos \u2013, estava com 45 kg. Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade, o peso ideal para meninas nessa idade \u00e9 de 20 a 23 kg.<\/p>\n<p>Quando recebe algum dinheiro dos pais ou da av\u00f3, Maria Clara percorre os mercadinhos pr\u00f3ximos \u00e0 sua casa atr\u00e1s dos pacotes de salgadinhos de milho, doces e biscoitos recheados \u2013 4 reais garantem uma farra. Dentro de casa, a alimenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o costuma ser melhor. Verduras e legumes, j\u00e1 escassos, s\u00e3o os primeiros a desaparecer quando o or\u00e7amento aperta. Maria Clara n\u00e3o sabe, por exemplo, o que \u00e9 couve. \u201c\u00c9 uma folha parecida com alface\u201d, disse a m\u00e3e ao seu lado, ensaiando uma explica\u00e7\u00e3o. A menina tamb\u00e9m nunca comeu inhame ou beterraba. \u201c\u00c9 aquela vermelhinha\u201d, a m\u00e3e teve que explicar mais uma vez.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3067637\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/07\/12133511\/teste_1-768x518-1.jpg?w=640&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/07\/12133511\/teste_1-768x518-1.jpg 768w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/07\/12133511\/teste_1-768x518-1-300x202.jpg 300w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/07\/12133511\/teste_1-768x518-1-272x182.jpg 272w, \" alt=\"\" \/><\/p>\n<p><em>Maria de F\u00e1tima Nery com a filha Maria Clara, de 6 anos, e, abaixo, um dos mercados onde as crian\u00e7as de Trizidela do Vale compram salgadinhos<\/em><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3067638\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/07\/12133529\/40-1-1024x683-1.jpg?w=640&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/07\/12133529\/40-1-1024x683-1.jpg 1024w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/07\/12133529\/40-1-1024x683-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/07\/12133529\/40-1-1024x683-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/07\/12133529\/40-1-1024x683-1-272x182.jpg 272w, \" alt=\"\" \/><\/p>\n<p>A fam\u00edlia recebe 400 reais por m\u00eas do Aux\u00edlio Brasil. S\u00f3 o aluguel da casa onde moram custa 250 reais, e a conta de luz fica em torno de 150 reais por m\u00eas. \u201cPara comer, a gente vai se ajeitando como d\u00e1\u201d, conta a dona de casa. Nery n\u00e3o consegue planejar a alimenta\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as porque n\u00e3o faz compras de m\u00eas \u2013 vai comprando a comida conforme o namorado, ajudante de pedreiro, recebe dinheiro. \u00c0s vezes o pai das duas filhas mais velhas paga a pens\u00e3o de 150 reais ou a av\u00f3 das meninas manda algum alimento. Mas quando manda, \u00e9 sempre algo do agrado das netas: pacotes de macarr\u00e3o instant\u00e2neo ou biscoitos recheados. A carne sumiu do prato. Para substituir, Nery agora compra salsicha \u2013 uma prote\u00edna ultraprocessada com alto teor de gordura \u2013, ovo ou alguma outra mistura. \u201cEstamos acostumados a comer o que aparecer\u201d, diz.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes o que aparece \u00e0 noite \u00e9 o macarr\u00e3o instant\u00e2neo. Maria Clara, a filha mais nova, prepara a refei\u00e7\u00e3o ultraprocessada sozinha e come assistindo televis\u00e3o com a irm\u00e3. Tamb\u00e9m gosta de abrir algum pacote de salgadinho para beliscar enquanto assiste a v\u00eddeos no TikTok \u2013 fica acordada at\u00e9 quase 2 horas da manh\u00e3, diz a m\u00e3e. A exposi\u00e7\u00e3o a telas, especialmente as digitais, durante as refei\u00e7\u00f5es \u00e9 um dos piores h\u00e1bitos alimentares dessa gera\u00e7\u00e3o \u2013 e tamb\u00e9m est\u00e1 relacionada ao sedentarismo e aumento dos n\u00edveis de obesidade entre as crian\u00e7as. Maria Clara n\u00e3o costuma passar por exames de rotina, mas a m\u00e3e percebe que ela est\u00e1 ficando cada vez mais cansada e \u00e0s vezes reclama de fadiga quando sai para brincar. \u201cN\u00e3o considero nossa alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel porque a gente s\u00f3 vive comendo salsicha, macarr\u00e3o, essas coisas. Eu nem gosto muito, mas a gente tem que fazer como d\u00e1. E n\u00e3o tem outra op\u00e7\u00e3o. Ou come isso, ou\u2026\u201d, diz Nery, sem completar a frase.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3067639\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/07\/12133547\/WhatsApp-Image-2022-07-05-at-17.48.40-1024x1007-1.jpeg?resize=640%2C629&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/07\/12133547\/WhatsApp-Image-2022-07-05-at-17.48.40-1024x1007-1.jpeg 1024w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/07\/12133547\/WhatsApp-Image-2022-07-05-at-17.48.40-1024x1007-1-300x295.jpeg 300w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/07\/12133547\/WhatsApp-Image-2022-07-05-at-17.48.40-1024x1007-1-768x755.jpeg 768w, \" alt=\"\" width=\"640\" height=\"629\" \/><\/p>\n<p>A endocrinologista Maria Edna de Melo acompanha de perto a transi\u00e7\u00e3o nutricional no Brasil. Desde 2007 ela chefia a Liga de Obesidade Infantil da Faculdade de Medicina da USP, um grupo que acompanha pacientes da institui\u00e7\u00e3o ou casos indicados por outros especialistas. Nos \u00faltimos anos, Melo come\u00e7ou a notar uma diferen\u00e7a no padr\u00e3o de atendimento de crian\u00e7as com obesidade: elas chegam ao hospital mais jovens e com quadros cada vez mais graves. H\u00e1 pouco tempo atendeu um menino de 7 anos que sentava no ch\u00e3o porque n\u00e3o conseguia subir na cadeira e tinha dificuldade at\u00e9 para se locomover. Tamb\u00e9m se tornou assustadoramente comum atender meninas e meninos que t\u00eam colesterol alto, hipertens\u00e3o e diabetes antes de chegar \u00e0 adolesc\u00eancia. \u201cEu nunca tinha visto isso antes\u201d, diz a especialista.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das doen\u00e7as cr\u00f4nicas relacionadas ao excesso de peso, muitas crian\u00e7as com obesidade \u2013 incluindo os n\u00edveis mais severos \u2013 n\u00e3o escapam da desnutri\u00e7\u00e3o. N\u00e3o porque elas n\u00e3o t\u00eam o que comer, mas porque suas dietas costumam ser pobres em nutrientes essenciais. Assim como dividem o mesmo pa\u00eds, desnutri\u00e7\u00e3o e obesidade podem dividir a mesma cidade, a mesma casa e at\u00e9 o mesmo corpo. Exames de sangue dos pacientes atendidos no ambulat\u00f3rio da USP mostram defici\u00eancias de todos os tipos: de ferro, de vitaminas, de minerais. \u201cAt\u00e9 a d\u00e9cada de 1990, a fome era nossa principal preocupa\u00e7\u00e3o quando fal\u00e1vamos sobre sa\u00fade nutricional das crian\u00e7as. Mas agora temos esse outro problema\u201d, explica Melo. Para ela, a tend\u00eancia \u00e9 que aumente o n\u00famero de pessoas com excesso de peso, mas desnutridas, gra\u00e7as \u00e0 m\u00e1 qualidade dos alimentos ingeridos. \u201cHoje n\u00e3o vejo luz no fim desse t\u00fanel\u201d, diz.<\/p>\n<p>Quando o programa Fome Zero foi criado pelo governo federal em 2003, no primeiro ano do primeiro mandato do ent\u00e3o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (PT), o principal desafio do Brasil no campo da nutri\u00e7\u00e3o era acabar com a fome. Depois da implementa\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de programas, a desnutri\u00e7\u00e3o entre crian\u00e7as caiu\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/brasil\/ult96u639016.shtml\">mais de 70%<\/a>, a mortalidade infantil despencou e o pa\u00eds finalmente saiu do Mapa da Fome. O passo seguinte era avaliar a popula\u00e7\u00e3o de forma mais detalhada e organizar a\u00e7\u00f5es espec\u00edficas para resolver problemas pontuais e mais complexos.<\/p>\n<p>Em 2013, na gest\u00e3o de Dilma Rousseff (PT), o governo federal come\u00e7ou a desenhar o programa Brasil Saud\u00e1vel e Sustent\u00e1vel, uma iniciativa da C\u00e2mara Interministerial de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional (Caisan), no guarda-chuva do Sistema Nacional de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional (Sisan). O objetivo era articular pol\u00edticas p\u00fablicas para enfrentamento do sobrepeso e obesidade. \u201cHoje nem se fala mais nesse programa, est\u00e1 abandonado\u201d, diz a economista Tereza Campello, ministra do Desenvolvimento Social e Combate \u00e0 Fome durante o governo de Dilma Rousseff, de 2011 a 2016.<\/p>\n<p>O problema da fome entre os povos ind\u00edgenas era outro passo a ser dado. \u201cEssa situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se resolve com Bolsa Fam\u00edlia, tem que ter um conjunto de pol\u00edticas espec\u00edficas\u201d, defende Campello. Os ind\u00edgenas no Rio Grande do Sul, por exemplo, s\u00e3o completamente diferentes de povos mais distantes dos centros urbanos da regi\u00e3o Norte. Certas comunidades t\u00eam problemas grav\u00edssimos de car\u00eancia de vitamina A \u2013 o que n\u00e3o significa que o governo precise distribuir vitamina A a toda a popula\u00e7\u00e3o. \u201cA gente j\u00e1 estava chegando nesse n\u00edvel de detalhamento, de fazer busca ativa em contextos espec\u00edficos\u201d, lembra Campello. \u201cAgora n\u00e3o, agora voltamos a ter uma coisa massiva, uma Inglaterra inteira passando fome\u201d. Com o retrocesso no quadro da fome, o Brasil precisa novamente apagar um inc\u00eandio de propor\u00e7\u00f5es gigantescas \u2013 mas dessa vez, com o Sistema Nacional de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional desmantelado.<\/p>\n<p>Em seu primeiro dia de governo, o presidente Jair Bolsonaro extinguiu o Conselho Nacional de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional (Consea), comit\u00ea que reunia representantes da sociedade civil e da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica para pautar e monitorar as pol\u00edticas de seguran\u00e7a alimentar e nutricional. O conselho era a cabe\u00e7a do sistema de seguran\u00e7a alimentar no Brasil. Do dia para a noite, a \u00e1rea ficou ac\u00e9fala. \u201cO Sisan ainda era um embri\u00e3o, toda a articula\u00e7\u00e3o entre os programas ainda estava sendo constru\u00edda, mas o processo foi minado na origem\u201d, explica Campello. \u201c\u00c9 como se tivessem destru\u00eddo o SUS em 1990.\u201d<\/p>\n<p>Como o sistema \u00e9 transversal e n\u00e3o se restringe a um minist\u00e9rio, h\u00e1 iniciativas em v\u00e1rios bra\u00e7os do governo. O Programa Nacional de Alimenta\u00e7\u00e3o Escolar (PNAE), um dos mais importantes para a seguran\u00e7a alimentar do pa\u00eds, \u00e9 responsabilidade do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o. Durante a pandemia, o PNAE ficou \u00e0 deriva, o Programa de Aquisi\u00e7\u00e3o de Alimentos da Agricultura Familiar (PAA) foi esvaziado e substitu\u00eddo pelo Alimenta Brasil, que teve o\u00a0<a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/politica\/ultimas-noticias\/2022\/06\/06\/com-escalada-de-fome-no-brasil-governo-destroi-programa-alimentar.htm\">or\u00e7amento quase zerado<\/a>\u00a0em 2021. O Programa de Cisternas\u00a0<a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/diante-do-acude-sem-agua-na-torneira\/\">tamb\u00e9m foi praticamente extinto<\/a>. O Brasil passou pela maior crise sanit\u00e1ria do s\u00e9culo \u2013 justamente os anos em que aumentaram a fome e a obesidade infantil \u2013 sem um Plano Nacional de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional. At\u00e9 hoje, o governo Bolsonaro n\u00e3o apresentou o documento que deveria orientar as pol\u00edticas nutricionais entre os anos de 2020 e 2023. E n\u00e3o existe mais Consea para cobr\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Para Ana Maria Segall, m\u00e9dica epidemiologista e especialista em sa\u00fade coletiva, o pa\u00eds est\u00e1 perdendo a lideran\u00e7a no combate \u00e0 fome porque as coisas est\u00e3o sendo feitas \u201cde forma improvisada\u201d. \u201cN\u00f3s entramos numa situa\u00e7\u00e3o terr\u00edvel de retrocesso das pol\u00edticas sociais e agora estamos no pior dos mundos\u201d, diz ela, que foi membro do extinto Consea at\u00e9 2014. Na avalia\u00e7\u00e3o da ex-ministra Tereza Campello, o enfraquecimento da rede assistencial e a perda de direitos trabalhistas tamb\u00e9m contribu\u00edram para a volta da inseguran\u00e7a alimentar. \u201cPara fome n\u00e3o h\u00e1 vacina. Se a popula\u00e7\u00e3o perde renda, a fome volta\u201d, resume. \u201cSe as pessoas n\u00e3o t\u00eam acesso \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel, pode n\u00e3o voltar a fome, mas vai voltar a desnutri\u00e7\u00e3o. E logo em seguida tamb\u00e9m volta a mortalidade infantil. \u00c9 um esc\u00e2ndalo.\u201d<\/p>\n<p>As duas faces da m\u00e1 alimenta\u00e7\u00e3o no Brasil entraram no radar das organiza\u00e7\u00f5es internacionais que h\u00e1 anos atuam no combate \u00e0 fome. O Programa Mundial de Alimentos (WFP, na sigla em ingl\u00eas), ag\u00eancia humanit\u00e1ria ligada \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas, j\u00e1 considera o duplo fardo da desnutri\u00e7\u00e3o como um desafio sem precedentes. A \u201cfome oculta\u201d \u2013 ou seja, a defici\u00eancia de vitaminas e minerais \u2013, a obesidade e a desnutri\u00e7\u00e3o andam juntos. E embora aparentemente n\u00e3o relacionados, \u201cesses problemas t\u00eam as mesmas causas: pobreza, desigualdade e dietas pobres\u201d, diz o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.wfp.org\/nutrition\">site<\/a>\u00a0da WFP. \u201cO que as crian\u00e7as comem precisa ser suficiente para uma vida saud\u00e1vel, para que elas possam se desenvolver\u201d, afirma Daniel Balaban, representante da ag\u00eancia no Brasil e diretor do Centro de Excel\u00eancia Contra a Fome. \u201cN\u00e3o basta s\u00f3 dar comida. Para zerar a fome precisamos pensar tamb\u00e9m no tipo de comida que chega para as crian\u00e7as.\u201d<\/p>\n<p>Balaban acompanhou de uma posi\u00e7\u00e3o privilegiada a infame trajet\u00f3ria do Brasil, que deixou de ser exemplo para o mundo para se tornar o caso a n\u00e3o ser seguido. Como diretor do Centro de Excel\u00eancia Contra a Fome, ele estava acostumado a receber comitivas internacionais para tratar de boas not\u00edcias. Seu trabalho era justamente ensinar outros pa\u00edses a combaterem a fome tomando como exemplo as a\u00e7\u00f5es brasileiras. \u201cNosso escrit\u00f3rio recebeu mais de cinquenta pa\u00edses diferentes, ajudamos mais de trinta na\u00e7\u00f5es a criarem pol\u00edticas\u00a0<em>in loco<\/em>. Levamos a ideia do Consea a esses pa\u00edses, as pol\u00edticas p\u00fablicas, tudo\u201d, lembra Balaban. Agora, quando recebe visitas internacionais, o economista se v\u00ea numa saia justa diplom\u00e1tica. Todos perguntam o que aconteceu com o Brasil, e ele diz que fica at\u00e9 sem gra\u00e7a: \u201cEsse sempre \u00e9 o momento mais triste.\u201d<\/p>\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n<p>As planilhas com os dados usados nesta reportagem est\u00e3o dispon\u00edveis\u00a0<a href=\"https:\/\/drive.google.com\/drive\/folders\/1HstSn37ap_DFVONp_KdkXDoGc7Ts34-4?usp=sharing\">aqui<\/a>.<\/p>\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n<p><em>Esta \u00e9 a reportagem de apresenta\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie\u00a0<\/em>M\u00e1 alimenta\u00e7\u00e3o \u00e0 brasileira<em>, sobre a fome e a epidemia de obesidade que afetam a popula\u00e7\u00e3o mais pobre do pa\u00eds. Participaram Camille Lichotti e Rubens Valente (reportagem), Pl\u00ednio Lopes (checagem), Fernanda da Esc\u00f3ssia (edi\u00e7\u00e3o) e Jos\u00e9 Roberto de Toledo (coordena\u00e7\u00e3o).<\/em><\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: No Brasil da fome, dispara a obesidade infantil &#8211; Outras Palavras &#8211; https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/no-brasil-da-fome-dispara-a-obesidade-infantil\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Camille Lichotti\u00a0e\u00a0Rubens Valente &#8211;\u00a0De uma lista de 20 \u00edtens hiper inflacionados, 19 s\u00e3o de comida in natura. Dieta de ultraprocessados deixou uma em cada tr\u00eas crian\u00e7as obesa. Do outro lado, onde o IDH \u00e9 ainda pior, fome persistente reflete-se na magreza aguda e baixa estatura. 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