{"id":18088,"date":"2022-07-25T12:28:12","date_gmt":"2022-07-25T15:28:12","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18088"},"modified":"2022-07-18T19:30:25","modified_gmt":"2022-07-18T22:30:25","slug":"maldade-se-banalizou-no-brasil-de-bolsonaro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/07\/25\/maldade-se-banalizou-no-brasil-de-bolsonaro\/","title":{"rendered":"Maldade se banalizou no Brasil de Bolsonaro"},"content":{"rendered":"<p><strong>Maria Rita Kehl<\/strong> &#8211; No Brasil de Bolsonaro, o mal se banalizou. N\u00e3o emprego esse termo no sentido atribu\u00eddo por Hanna Arendt \u00e0 express\u00e3o\u00a0banalidade do mal. Esta foi criada pela autora para qualificar o argumento do nazista Eichmann<a style=\"font-size: 16px;\" title=\"\" href=\"https:\/\/mail.google.com\/mail\/u\/0\/#m_-8191850978604187684__ftn1\" name=\"m_-8191850978604187684__ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><span style=\"font-size: 16px;\">, ao ser julgado pelos crimes que praticou contra os judeus: estaria apenas \u201ccumprindo ordens\u201d. Com isso, o algoz procurou eximir-se da responsabilidade pelas centenas de v\u00edtimas que enviara para a morte. Segundo Hanna Arendt, que assistiu ao julgamento de Eichmann ap\u00f3s o fim da 2\u00aa guerra, a\u00a0<\/span><i style=\"font-size: 16px;\">banalidade do mal\u00a0<\/i><span style=\"font-size: 16px;\">seria a falta de implica\u00e7\u00e3o moral de algu\u00e9m que n\u00e3o op\u00f5e resist\u00eancia ante os crimes que lhe ordenam cometer. Obedecer a ordens criminosas com a consci\u00eancia limpa: eis a banaliza\u00e7\u00e3o do mal.<\/span><\/p>\n<p>Mas \u00e9 evidente que, para obter tal \u201cleveza\u201d dos carrascos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas que encaminhavam para a morte, uma forte estrutura burocr\u00e1tica precisou ser montada, al\u00e9m de uma consistente rede de escusas ideol\u00f3gicas ter sido ativada: \u201cEra a\u00a0<i>Realpolitik\u00a0<\/i>sem tons maquiav\u00e9licos, e seus perigos vieram a luz depois, quando eclodiu a guerra, quando esses contatos di\u00e1rios entre as organiza\u00e7\u00f5es judaicas e a burocracia nazista tornaram t\u00e3o f\u00e1cil para os funcion\u00e1rios judeus atravessar o abismo entre ajudar os judeus a escapar ou ajudar os nazistas a deport\u00e1-los<a title=\"\" href=\"https:\/\/mail.google.com\/mail\/u\/0\/#m_-8191850978604187684__ftn2\" name=\"m_-8191850978604187684__ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>\u201d.<\/p>\n<p>Sim, a burocracia. Ela cria uma tal rede de pequenas atividades \u2013 assinar pap\u00e9is, carimbar selos, consultar mapas\u2026 \u2013 entre a captura de um judeu inocente e sua execu\u00e7\u00e3o, que nenhum dos sujeitos envolvidos a cada etapa sente-se respons\u00e1vel pelo crime que ajudou a ser cometido.\u00a0 Como pode um funcion\u00e1rio n\u00e3o cumprir uma ordem ou executar um protocolo? Como pode um guarda n\u00e3o abrir a porta da cela para enfiar ali seu prisioneiro, culpado ou inocente, e como poderia n\u00e3o trancafiar o sujeito depois? Como pode um carrasco n\u00e3o continuar torturando um homem amarrado e pendurado de ponta cabe\u00e7a, depois de ter lhe dado\u00a0<i>apenas\u00a0<\/i>alguns choques el\u00e9tricos para que ele denunciasse seus companheiros? Que culpa poderia se atribuir se, por azar ou por fraqueza, o sujeito morresse?<\/p>\n<p>Acontece que, sim, o funcion\u00e1rio e o carrasco sempre tiveram a escolha de n\u00e3o trancafiar um inocente, de n\u00e3o torturar um semelhante. Cumprir ordens pode ser apenas um pretexto para exercer sua pr\u00f3pria maldade, travestida de covardia. Atos assim caracterizam a\u00a0<i>banalidade do mal<\/i>, t\u00e3o mal compreendida at\u00e9 por alguns leitores de Arendt.<\/p>\n<p>Ciente de ter deslocado a express\u00e3o de Arendt do contexto em que foi criada, insisto em resgat\u00e1-la aqui para qualificar, com outro sentido, a leviandade com que muitas pessoas se sentem autorizadas a praticar ruindades contra indiv\u00edduos vulner\u00e1veis. Ou a indiferen\u00e7a com que se eximem de qualquer gesto de solidariedade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 multid\u00e3o de miser\u00e1veis que aumenta a cada dia em todas as cidades do pa\u00eds. \u201cVagabundos\u201d? Este, ali\u00e1s, tamb\u00e9m \u00e9 um qualificativo utilizado pelo presidente para se referir a qualquer um que o critique.<\/p>\n<p>A lei que rege, desde o inconsciente, as vias pelas quais se expressa a maldade \u00e9 a mesma que rege nossa moral corriqueira e ben\u00e9vola do dia a dia. Ao regular aquilo que n\u00e3o devemos e n\u00e3o\u00a0<i>podemos\u00a0<\/i>fazer, essa mesma lei estipula que\u2026 se voc\u00ea pode fazer algo, voc\u00ea\u00a0<i>deve<\/i>. Em certos casos, isso vale para atos de bondade e caridade. Em outros, autoriza a barb\u00e1rie. N\u00e3o se prive de um gozo que est\u00e1 a seu alcance, por mais escandalosos que sejam seus caminhos. N\u00e3o perca essa oportunidade de gozar mais! Para Lacan, a mesma lei que diz \u201cn\u00e3o goze\u201d (por exemplo, de seus impulsos s\u00e1dicos) exige: \u201cGoza!\u201d.<\/p>\n<p>A pol\u00edcia brasileira tem, desde a ditadura, licen\u00e7a para matar. Assim\u2026 s<i>e voc\u00ea\u00a0<\/i>(policial)\u00a0<i>pode, voc\u00ea deve.\u00a0<\/i>Como haveria de se privar desse dever que, ainda por cima, oferece um adicional de gozo? Depois que o presidente revelou se reger por este mesmo imperativo, os casos de gozos s\u00e1dicos t\u00eam se multiplicado na sociedade brasileira.<\/p>\n<p>O\u00a0<em>lockdown<\/em>, imprescind\u00edvel para conter o avan\u00e7o das contamina\u00e7\u00f5es pela covid-19, favorece a desastrosa diminui\u00e7\u00e3o da empatia para com as v\u00edtimas da desigualdade que tamb\u00e9m se alastrou como uma epidemia. Na medida em que somos obrigados a nos acomodar dentro de casa (em fam\u00edlias onde isto seja poss\u00edvel) diminu\u00edmos nossa participa\u00e7\u00e3o, tanto f\u00edsica quanto simb\u00f3lica, na esfera p\u00fablica.<\/p>\n<p>Muitos de n\u00f3s lutam para n\u00e3o se acomodar. Criamos espa\u00e7os virtuais de debates, fazemos circular abaixo-assinados de protesto, contribu\u00edmos com algum dinheiro para v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es de prote\u00e7\u00e3o aos vulner\u00e1veis. Mas nada substitui a vida nas ruas; nenhum abaixo-assinado substitui a participa\u00e7\u00e3o em manifesta\u00e7\u00f5es de cunho pol\u00edtico, que no momento se tornaram perigosas por concentrar milhares de pessoas. A participa\u00e7\u00e3o na esfera p\u00fablica, seguindo ainda mais um pouco o pensamento de Hanna Arendt, \u00e9 um componente fundamental da condi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>No caso do Brasil de 2019-2022, a maldade se banalizou at\u00e9 se tornar um evento entre outros: afinal, por que tanto<i>\u00a0mimimi<\/i>\u00a0ante o crescimento exponencial da viol\u00eancia e da criminalidade<a title=\"\" href=\"https:\/\/mail.google.com\/mail\/u\/0\/#m_-8191850978604187684__ftn4\" name=\"m_-8191850978604187684__ftnref4\"><sup>[3]<\/sup><\/a>, de 2019 para c\u00e1? Por que incomodar o mandat\u00e1rio da na\u00e7\u00e3o exigindo provid\u00eancias contra o alastramento da pandemia? Ou exigindo que o presidente, em vez de repetir seus discursos debochados, respeite \u00e0 dor das fam\u00edlias? \u201cQual o problema? Mais dia, menos dia, todo mundo vai morrer mesmo\u2026\u201d!<\/p>\n<p>A indiferen\u00e7a, o descaso, s\u00e3o formas abjetas da maldade, que se tornam mais graves quando se manifestam frente \u00e0s centenas de milhares de vidas perdidas em fun\u00e7\u00e3o da irresponsabilidade de quem deveria governar o pa\u00eds. J\u00e1 se observou que o presidente \u00e9 incapaz de empatia com a dor alheia (com a \u00f3bvia exce\u00e7\u00e3o da sua imensa dedica\u00e7\u00e3o aos filhotes). Pior do que isso: h\u00e1 crimes ante os quais a fam\u00edlia do presidente se empolga. \u00c9 o caso do assassinato da vereadora carioca Marielle Franco \u2013 negra, l\u00e9sbica, de esquerda. Ou, ainda, o caso da resposta padr\u00e3o do presidente da Rep\u00fablica ao ser interpelado sobre o mortic\u00ednio que poderia ter sido evitado: \u201cE da\u00ed?\u201d \u201c N\u00e3o sou coveiro, p\u00f4\u201d!<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o acredito em pessoas, acredito em dispositivos\u201d, teria dito Jacques Lacan a seus alunos. De fato, s\u00e3o os dispositivos \u2013 civilizat\u00f3rios, legais, morais, religiosos \u2013 que, entretecidos, formam\u00a0 alguma\u00a0<i>borda\u00a0<\/i>capaz de conter os excessos de ira ou de gozo que podem acometer indiv\u00edduos e grupos sociais. Se tais dispositivos presentes na cultura s\u00e3o\u00a0<i>esculachados \u2013\u00a0<\/i>escolho a palavra pesada que tem contaminado o debate p\u00fablico, mesmo que nunca a tenha utilizado at\u00e9 ent\u00e3o \u2013 o la\u00e7o social se fragiliza. E a maldade \u2013 essa \u201cfera que hiberna precariamente<a title=\"\" href=\"https:\/\/mail.google.com\/mail\/u\/0\/#m_-8191850978604187684__ftn5\" name=\"m_-8191850978604187684__ftnref5\"><sup>[4]<\/sup><\/a>\u201d em todos n\u00f3s \u2013 ganha terreno.<\/p>\n<p>\u00c9 espantoso constatar como \u00e9 f\u00e1cil degradar o tecido social, t\u00e3o recosturado e remendado ao longo de epis\u00f3dios luminosos e sombrios da hist\u00f3ria de qualquer pa\u00eds. Cada \u201cE da\u00ed\u2026?\u201d pronunciado ante a dor do outro, ante a destrui\u00e7\u00e3o das coisas belas, ante as ofensas \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o \u2013 degrada um pouco mais o la\u00e7o que nos une na forma de sociedade democr\u00e1tica (com todos os defeitos e contradi\u00e7\u00f5es que ela cont\u00e9m). O mal se banaliza quando, pela repeti\u00e7\u00e3o, nos dessensibilizamos. Banaliza-se quando nos acostumamos com ele. Quando, desesperan\u00e7ados, deixamos de lutar.<\/p>\n<p>Quando o mandato de Bolsonaro acabar, n\u00f3s, brasileiros, talvez consigamos colar os caquinhos de cada dispositivo democr\u00e1tico, dos impulsos de solidariedade desprezados, de nosso quinh\u00e3o de piedade e de empatia, desconstru\u00eddos ou destru\u00eddos desde 2019.<\/p>\n<p><b>Algumas maldades \u201cbanais<\/b>\u201d<\/p>\n<p>Segundo reportagem na\u00a0<em>Folha de S\u00e3o Paulo<\/em>, em 2022 o \u201ctrote\u201d aplicado aos calouros causou queimaduras graves entre alunos da Universidade Federal do Paran\u00e1: depois do tradicional \u201cmico\u201d de pedir esmolas nos far\u00f3is, os alunos foram encurralados pelos veteranos em um terreno baldio e, ajoelhados, receberam pelo corpo jatos de um l\u00edquido que produziu les\u00f5es graves. Por que os veteranos submeteram os calouros a um trote t\u00e3o atroz? Simples: porque podiam. O clima violento se instaurou no pa\u00eds.\u00a0<i>Se todos fazem\u2026 por que n\u00f3s n\u00e3o far\u00edamos?<\/i><\/p>\n<p>Mas tal viol\u00eancia gratuita ainda parece inocente diante da matan\u00e7a empreendida pela Pol\u00edcia Militar do Rio de Janeiro na favela do Jacarezinho, em que vinte e oito moradores foram assassinados a esmo sob alega\u00e7\u00e3o policial de \u201cleg\u00edtima defesa\u201d.<\/p>\n<p>Ainda sobre a viol\u00eancia sempre impune das PMs<a title=\"\" href=\"https:\/\/mail.google.com\/mail\/u\/0\/#m_-8191850978604187684__ftn7\" name=\"m_-8191850978604187684__ftnref7\"><sup>[5]<\/sup><\/a>: em 23 de novembro de 2021, reportagem da\u00a0<em>Folha de S\u00e3o Paulo<\/em>\u00a0revelou que a pol\u00edcia mata muito mais \u201cpor vingan\u00e7a\u201d do que, como protocolarmente alegado, em leg\u00edtima defesa. Nunca devemos esquecer \u2013 nem perdoar \u2013\u00a0\u00a0o linchamento de Mo\u00efse, o jovem negro assassinado na Barra da Tijuca, \u00e0 luz do dia diante da passividade dos banhistas\u2026 porque foi cobrar seu sal\u00e1rio ao dono do quiosque onde trabalhava.<\/p>\n<p>O ano de 2022 promete n\u00e3o ficar atr\u00e1s de 2021 no quesito da viol\u00eancia policial. Emblem\u00e1tica desse momento em que a maldade se banalizou foi o assassinato por asfixia, no cambur\u00e3o da pol\u00edcia, do jovem Genivaldo dos Santos, abordado\u00a0a pretexto de\u00a0que circulava em sua moto sem capacete \u2013 exatamente da forma como costuma se exibir o irrespons\u00e1vel mandat\u00e1rio da na\u00e7\u00e3o. Genivaldo foi atirado na ca\u00e7amba do cambur\u00e3o. Antes de trancar a porta os policiais atiraram ali dentro uma bomba de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo. As s\u00faplicas e os gritos de \u201cvou morrer\u201d n\u00e3o sensibilizaram os supostos defensores da lei e da ordem, e Genivaldo foi assassinado por asfixia. A maldade veio de parte de \u201cagentes da ordem\u201d que deveriam proteger sua vida (mesmo que, eventualmente, tivesse cometido um crime).<\/p>\n<p>Parece que vem se generalizando uma modalidade de gozo perverso: o gozo com o sofrimento \u2013 eventualmente, a morte \u2013 alheios. Como estes crimes ficam impunes, torna-se quase irresist\u00edvel repeti-los. Lacan entendeu que o funcionamento do chamado\u00a0<i>superego<\/i>,a inst\u00e2ncia moral que de certa forma regula nosso comportamento, opera em duas dire\u00e7\u00f5es antag\u00f4nicas: ao mesmo tempo que diz \u2013 \u201cN\u00e3o goze!\u201d (daquilo que est\u00e1 interditado, tanto pela lei quanto pelas normas sociais), o superego exige: \u201cGoze!\u201d. A mesma inst\u00e2ncia que reprime excessos e maldades tamb\u00e9m pede que nos autorizemos a praticar tais excessos e maldades. O superego zela por nossa imagem diante de n\u00f3s mesmos: se ficar \u00e0 sua merc\u00ea, o sujeito \u00e9 capturado por essa dupla injun\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso se abster de certos excessos para estar de acordo com os ideais que a sociedade prop\u00f5e, mas\u2026 justamente por se considerar t\u00e3o bom, o superego o autoriza a cometer os tais excessos e maldades. \u201cSe voc\u00ea pode, voc\u00ea deve\u201d \u2013 este \u00e9 o imperativo do gozo que nos faz flertar com a viol\u00eancia e com as transgress\u00f5es.<\/p>\n<p>Tal paradoxo intersubjetivo se agrava \u2013 e pende para o pior \u2013 quando os discursos que \u201cformatam\u201d a vida social deslizam para o lado do incentivo \u00e0 viol\u00eancia e ao desrespeito \u00e0 dignidade alheia. Esta \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o atual do Brasil \u2013 onde os que debocham da Lei<a title=\"\" href=\"https:\/\/mail.google.com\/mail\/u\/0\/#m_-8191850978604187684__ftn8\" name=\"m_-8191850978604187684__ftnref8\"><sup>[6]<\/sup><\/a>\u00a0t\u00e8m mais chance de sair impunes do que aqueles que agem de acordo com ela. Eis um resumo da banaliza\u00e7\u00e3o da maldade no Brasil sob Bolsonaro.<\/p>\n<p>Mas percebo que nessa fase bolsonarista a maldade, no Brasil, deixou de causar esc\u00e2ndalo. Talvez para suportar o mal-estar de tantas viol\u00eancias e injusti\u00e7as, aquela parcela da sociedade que raramente \u00e9 v\u00edtima delas banalizou as ocorr\u00eancias. O Brasil \u00e9\u00a0<i>assim mesmo.\u00a0<\/i>Bom mesmo seria viver em Paris\u2026<br \/>\nSorte nossa, a de termos nascido entre as classes mais poupadas; podemos sofrer viol\u00eancia de parte de um assaltante, mas nunca, nunca de parte da pol\u00edcia. Eis a vers\u00e3o brasileira da banalidade do mal.<\/p>\n<p>Entre as recomenda\u00e7\u00f5es do relat\u00f3rio final da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade se encontra uma que pede a exclus\u00e3o do \u201cexcludente de ilicitude\u201d para justificar assassinatos cometidos por policiais militares. A outra recomenda\u00e7\u00e3o nesse campo foi a da\u00a0<i>desmilitariza\u00e7\u00e3o das pol\u00edcias<\/i>\u00a0que encerraria, assim, uma das piores excresc\u00eancias herdadas da ditadura militar de 1964-85. O relat\u00f3rio foi arquivado pelo presidente Michel Temer depois que ele pr\u00f3prio contribuiu para a deposi\u00e7\u00e3o de Dilma Roussef, respons\u00e1vel por conseguir junto ao Congresso a aprova\u00e7\u00e3o da lei que criou a CNV.<\/p>\n<div>\n<div id=\"m_-8191850978604187684ftn1\"><a title=\"\" href=\"https:\/\/mail.google.com\/mail\/u\/0\/#m_-8191850978604187684__ftnref1\" name=\"m_-8191850978604187684__ftn1\">[1]<\/a>\u00a0Hanna Arendt:\u00a0<i>Eichmann em Jerusal\u00e9m<\/i>. S\u00e3o Paulo, Companhia das Letras, 1999.<\/div>\n<div id=\"m_-8191850978604187684ftn2\"><a title=\"\" href=\"https:\/\/mail.google.com\/mail\/u\/0\/#m_-8191850978604187684__ftnref2\" name=\"m_-8191850978604187684__ftn2\">[2]<\/a>\u00a0Idem, p. 2 1.<\/div>\n<div id=\"m_-8191850978604187684ftn3\"><a title=\"\" href=\"https:\/\/mail.google.com\/mail\/u\/0\/#m_-8191850978604187684__ftnref4\" name=\"m_-8191850978604187684__ftn4\">[3]<\/a>\u00a0Por que diferencio viol\u00eancia de maldade? Penso que a viol\u00eancia pode se manifestar, muitas vezes, em atos impensados, como o do homem armado que atira em outro numa briga de tr\u00e2nsito. Seu gesto \u00e9 violento e deve ser criminalizado (da\u00ed que n\u00e3o se admite o suposto atenuante de ter agido \u201csob intensa emo\u00e7\u00e3o\u201d). Mas n\u00e3o h\u00e1 nesse crime, necessariamente, a\u00a0<i>marca da maldade.\u00a0<\/i>A maldade expressa-se por diferentes meios. Zombar da defici\u00eancia f\u00edsica de algu\u00e9m \u00e9 maldade. Humilhar um funcion\u00e1rio diante de seus colegas \u00e9 maldade. Dizer \u201ce da\u00ed\u201d? diante de milhares de mortes e da dor dos enlutados \u00e9 maldade.<\/div>\n<div id=\"m_-8191850978604187684ftn5\"><a title=\"\" href=\"https:\/\/mail.google.com\/mail\/u\/0\/#m_-8191850978604187684__ftnref5\" name=\"m_-8191850978604187684__ftn5\">[4]<\/a>\u00a0Refer\u00eancia ao verso da poeta carioca Ana Cristina Cesar (1951-1992).<\/div>\n<div id=\"m_-8191850978604187684ftn6\">\n<div id=\"m_-8191850978604187684ftn8\"><a title=\"\" href=\"https:\/\/mail.google.com\/mail\/u\/0\/#m_-8191850978604187684__ftnref5\" name=\"m_-8191850978604187684__ftn5\">[<\/a><a title=\"\" href=\"https:\/\/mail.google.com\/mail\/u\/0\/#m_-8191850978604187684__ftnref7\" name=\"m_-8191850978604187684__ftn7\">5]<\/a>\u00a0A desmilitariza\u00e7\u00e3o das pol\u00edcias foi uma das recomenda\u00e7\u00f5es entregues \u00e0 presidente Dilma, em dezembro de 2014, no relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade.<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"m_-8191850978604187684ftn8\"><a title=\"\" href=\"https:\/\/mail.google.com\/mail\/u\/0\/#m_-8191850978604187684__ftnref8\" name=\"m_-8191850978604187684__ftn8\">[6]<\/a>\u00a0Utilizo Lei, com L mai\u00fasculo, para diferenciar a inst\u00e2ncia inconsciente que regula nosso comportamento das leis inscritas no c\u00f3digo penal de todas as sociedades.<\/div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<div>Fonte da mat\u00e9ria: Maldade se banalizou no Brasil de Bolsonaro, afirma psicanalista Maria Rita Kehl &#8211; Holofote &#8211; https:\/\/www.holofotenoticias.com.br\/politica\/maldade-se-banalizou-no-brasil-de-bolsonaro-afirma-psicanalista-maria-rita-kehl<\/div>\n<div id=\"__reading__mode__content_end_mark_container_id\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Rita Kehl &#8211; No Brasil de Bolsonaro, o mal se banalizou. N\u00e3o emprego esse termo no sentido atribu\u00eddo por Hanna Arendt \u00e0 express\u00e3o\u00a0banalidade do mal. Esta foi criada pela autora para qualificar o argumento do nazista Eichmann[1], ao ser julgado pelos crimes que praticou contra os judeus: estaria apenas \u201ccumprindo ordens\u201d. 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