{"id":18085,"date":"2022-07-24T12:25:07","date_gmt":"2022-07-24T15:25:07","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18085"},"modified":"2022-07-18T19:27:54","modified_gmt":"2022-07-18T22:27:54","slug":"vijay-prashad-ve-a-geopolitica-em-transe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/07\/24\/vijay-prashad-ve-a-geopolitica-em-transe\/","title":{"rendered":"Vijay Prashad v\u00ea a geopol\u00edtica em transe"},"content":{"rendered":"<p><strong>Vijay Prashad &#8211; <\/strong>Pensador indiano analisa as consequ\u00eancias do casamento fracassado entre fascistas e neoliberais. Mas alternativas s\u00f3 vir\u00e3o se esquerdas apostarem na rebeldia popular. Greve dos camponeses na \u00cdndia mostra pistas para isso<\/p>\n<p>A extrema direita percebeu que n\u00e3o precisa acabar com a democracia liberal por meio de um golpe militar para chegar ao poder. Assim analisa o historiador marxista indiano Vijay Prashad nesta entrevista exclusiva \u00e0\u00a0<em>Jacobin Brasil<\/em>.<\/p>\n<p>Prashad \u00e9 diretor-executivo do Tricontinental: Institute for Social Research, editor-chefe da <em>LeftWord Books<\/em>\u00a0e membro s\u00eanior n\u00e3o-residente do Chongyang Institute for Financial Studies, Renmin University of China. Seus \u00faltimos livros publicados no Brasil foram\u00a0<em><a href=\"https:\/\/expressaopopular.com.br\/livraria\/uma-historia-popular-do-terceiro-mundo\/\">Uma Hist\u00f3ria Popular Do Terceiro Mundo<\/a>\u00a0<\/em>e\u00a0<em><a href=\"https:\/\/expressaopopular.com.br\/livraria\/balas-de-washington-uma-historia-da-cia-golpes-e-assassinatos\/\">Balas De Washington \u2013 Uma Hist\u00f3ria Da CIA, Golpes e Assassinatos<\/a><\/em>, ambos pela Express\u00e3o Popular.<\/p>\n<p>Nesta entrevista \u00e0 Gercyane Oliveira, ele falou sobre as semelhan\u00e7as e diferen\u00e7as pol\u00edticas entre Brasil e \u00cdndia, o movimento dos camponeses que est\u00e1 desestabilizando o governo conservador de Narendra Modi, os motivos por tr\u00e1s guerra na Ucr\u00e2nia e as consequ\u00eancias para o Oriente M\u00e9dio e Am\u00e9rica Latina num mundo com horizonte cada dia mais conflagrado devido ao lento decl\u00ednio do imp\u00e9rio norte-americano.<\/p>\n<p><strong>O autor Raju Das escreveu um interessante trabalho sobre economia e pol\u00edtica na \u00cdndia, onde ele apresenta ideias gerais sobre as lutas de classe de uma maneira muito interessante. Como voc\u00ea analisa a pol\u00edtica capitalista na \u00cdndia, as tend\u00eancias fascistas de sua classe dominante e a esquerda indiana?<\/strong><\/p>\n<p>A \u00cdndia, como muitas partes do Sul Global, viu o desaparecimento de pactos anteriores das elites governantes para proporcionar benef\u00edcios sociais, uma nega\u00e7\u00e3o que veio junto com a onda neoliberal ao redor do mundo empurrada pelo FMI. Este fim do bem-estar social desgastou a base de poder das antigas elites governantes e sua orienta\u00e7\u00e3o mais desalinhada e desenvolvimentista. Como a esquerda foi enfraquecida pelo paradigma da globaliza\u00e7\u00e3o impulsionado pelos EUA, a porta se abriu para a direita emergir. A emerg\u00eancia da direita sugere tr\u00eas importantes \u2013 e novas \u2013 descobertas.<\/p>\n<p>Primeiro, que a extrema direita n\u00e3o acredita mais que precisa acabar com a democracia liberal e que exige for\u00e7a direta \u2013 um golpe militar \u2013 para chegar ao poder. Agora ela pode chegar ao poder usando os instrumentos da democracia liberal. Isto foi mostrado na \u00cdndia, mas tamb\u00e9m no Brasil. Os limites constitucionais \u00e0 lei e \u00e0 enxurrada de dinheiro na pol\u00edtica est\u00e3o l\u00e1. Portanto, esta \u00e9 a primeira descoberta.<\/p>\n<p>A segunda, que a direita foi capaz de dizer que espremeria a economia pela garganta e a faria tossir empregos. Esta promessa era sem nenhuma teoria econ\u00f4mica s\u00e9ria, mas era apelativa. O refr\u00e3o de Donald Trump de \u201cmake America great again \/ fazer a Am\u00e9rica grande novamente\u201d ou o slogan de Modi \u201cMake in India\u201d \u00e9 a mesma coisa, uma promessa vazia de fazer a economia crescer. Mas n\u00e3o se trata de homens que s\u00e3o contra a globaliza\u00e7\u00e3o ou que querem se desenvolver. Na verdade, eles s\u00e3o a favor da globaliza\u00e7\u00e3o, mas fazem estes ru\u00eddos de uma forma ret\u00f3rica e n\u00e3o de uma forma pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>E em terceiro lugar, estes neofascistas da extrema direita asseguram maiorias eleitorais significativas mudando o terreno de discuss\u00e3o de ser sobre quest\u00f5es de classe para ser sobre quest\u00f5es sociais. O elogio aos militares e \u00e0 disciplina ou opini\u00f5es contra as mulheres e as minorias sociais agu\u00e7a a base da extrema direita, a quem \u00e9 dito que seus problemas econ\u00f4micos est\u00e3o l\u00e1 por causa da falta de disciplina na sociedade ou que eles est\u00e3o l\u00e1 porque as mulheres e as minorias sociais est\u00e3o assumindo os empregos. Estas s\u00e3o vis\u00f5es sedutoras que precisam apenas produzir blocos eleitorais suficientemente comprometidos para garantir a reelei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As vit\u00f3rias de Modi t\u00eam sido feitas nesse sentido. O Brasil \u00e9 ligeiramente diferente, porque em Lula voc\u00ea tem um quadro dirigente para uma pol\u00edtica de classe trabalhadora que retorna \u00e0s grandes greves industriais dos anos 80 e ao seu per\u00edodo de governan\u00e7a. N\u00e3o existe uma figura como Lula na \u00cdndia, e \u00e9 por isso que a social-democracia indiana est\u00e1 completamente quebrada e segue a extrema direita em muitos de seus movimentos pol\u00edticos.<\/p>\n<p><strong>A \u00cdndia tem um forte, mas extremamente fragmentado movimento comunista. Tanto seu partido \u2013 o PCI marxista \u2013 quanto outros fen\u00f4menos, como um movimento guerrilheiro mao\u00edsta de longa data, os naxalitas, se destacam neste cen\u00e1rio. Na sua opini\u00e3o, h\u00e1 alguma chance de iniciar um di\u00e1logo?<\/strong><\/p>\n<p>A esquerda indiana \u00e9 muito fragmentada, como voc\u00ea diz. A classe trabalhadora e a camponesa est\u00e3o em movimento em muitas arenas, mas tamb\u00e9m est\u00e3o fragmentadas. Um dos prop\u00f3sitos de um partido de esquerda \u00e9 reunir as muitas lutas diferentes da classe trabalhadora e do campesinato e fazer com que suas lutas tenham uma base pol\u00edtica, para enraiz\u00e1-la em uma teoria de transforma\u00e7\u00e3o social. Mas, como em todos os pa\u00edses, a pr\u00f3pria esquerda se fragmenta com base em s\u00e9rias discord\u00e2ncias de linha e t\u00e1ticas.<\/p>\n<p>A primeira grande divis\u00e3o do movimento comunista, que come\u00e7ou em 1920, ocorreu em 1964 entre o Partido Comunista da \u00cdndia (PCI) e o Partido Comunista da \u00cdndia (Marxista) ou PCI(M), ao qual eu perten\u00e7o. O PCI(M) argumentou que a burguesia indiana n\u00e3o era uma aliada, que \u00e9 o que a PCI sugeriu, e tamb\u00e9m que a URSS era um partido fraternal, mas n\u00e3o o centro da revolu\u00e7\u00e3o mundial. Ent\u00e3o, em 1967, uma se\u00e7\u00e3o se separou da PCI(M) para formar as correntes mao\u00edstas, que eles mesmos dividiram muitas vezes.<\/p>\n<p>O mao\u00edsmo indiano acreditava que o Estado indiano era semi-feudal e semi-capitalista, o que significava que seu sistema parlamentar tinha que ser ignorado como um local de pol\u00edtica e que o caminho armado seria bem sucedido. Os mao\u00edstas est\u00e3o agora em grande desordem. Seu \u00faltimo congresso propriamente dito foi em 2007. Muitos de seus l\u00edderes est\u00e3o na pris\u00e3o e a atividade armada diminuiu. Uma se\u00e7\u00e3o dos mao\u00edstas \u2013 o PCI (Marxist-Liberation) \u2013 veio \u00e0 tona em 1992. Estes setores da esquerda comunista \u2013 a PCI, a PCI(M), Liberta\u00e7\u00e3o e uma s\u00e9rie de outros grupos \u2013 trabalham em conjunto, tanto em frentes eleitorais quanto em lutas de massa. Eles tamb\u00e9m trabalham em estreita colabora\u00e7\u00e3o com setores de esquerda menores que operam com base em quest\u00f5es sindicais contra uma f\u00e1brica ou contra o esquema de privatiza\u00e7\u00e3o da \u00e1gua.<\/p>\n<p>O principal objetivo n\u00e3o \u00e9 a unifica\u00e7\u00e3o em uma plataforma rasa de unidade, mas trabalhar em conjunto tanto quanto for poss\u00edvel e construir a unidade da classe trabalhadora e do campesinato. Nosso objetivo \u00e9 unificar a classe trabalhadora e o campesinato, n\u00e3o para unificar todos os grupos de esquerda; mas a fragmenta\u00e7\u00e3o entre os grupos de esquerda desorienta a classe trabalhadora e o campesinato se os grupos de esquerda passarem todo seu tempo lutando uns com os outros em p\u00fablico.<\/p>\n<p><strong>Seu partido \u00e9 muito ativo em Kerala, uma regi\u00e3o conhecida como o Estado vermelho da \u00cdndia. Kerala parece ser praticamente o \u00fanico lugar no pa\u00eds onde a divis\u00e3o de castas perdeu peso social, pol\u00edtico, cultural e ideol\u00f3gico. Que fatores podem representar um desafio para a expans\u00e3o desta democracia socialista a n\u00edvel nacional?<\/strong><\/p>\n<p>Kerala \u00e9 um Estado na \u00cdndia de 35 milh\u00f5es de pessoas. O partido ao qual perten\u00e7o \u2013 o PCI(M) \u2013 faz parte da Frente Esquerda que governa o Estado e transformou a vida social de Kerala ao longo do s\u00e9culo passado. H\u00e1 algumas quest\u00f5es espec\u00edficas sobre o desenvolvimento social de Kerala que fazem com que seu pr\u00f3prio projeto n\u00e3o seja export\u00e1vel. O movimento de reforma \u2013 antes e ao lado dos comunistas \u2013 desempenhou um papel importante na ruptura das hierarquias de casta e patriarcado. Isso moldou a sociedade, facilitando a defesa de valores igualit\u00e1rios.<\/p>\n<p>No norte da \u00cdndia, por exemplo, os movimentos de reforma eram fracos e, em alguns casos, os movimentos de reforma tinham uma orienta\u00e7\u00e3o de direita. L\u00e1 os comunistas t\u00eam que mover uma agenda contra a hierarquia social, bem como construir maiorias para lutar pelo socialismo. Esta \u00e9 uma agenda muito dif\u00edcil. O governo de Kerala \u00e9 um farol de esperan\u00e7a para todos n\u00f3s em todo o mundo. Ele tem \u2013 em uma parte pobre do mundo \u2013 avan\u00e7ado uma s\u00e9rie de pol\u00edticas sociais, incluindo o planejamento inovador das pessoas para construir todo o or\u00e7amento do Estado, um forte sistema de sa\u00fade p\u00fablica e educa\u00e7\u00e3o, uma rica tradi\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00e3o p\u00fablica assistida pelos sindicatos, as organiza\u00e7\u00f5es de mulheres e os grupos camponeses, cooperativas muito grandes \u2013 o que Karl Marx chamou de poss\u00edvel comunismo \u2013 que produzem uma gama de bens e servi\u00e7os, inclusive de tecnologia para a internet e no com\u00e9rcio da constru\u00e7\u00e3o civil. \u00c9 preciso aprender mais sobre Kerala para dar ideias e esperan\u00e7a \u00e0s pessoas em diferentes partes do mundo.<\/p>\n<p><strong>A esquerda brasileira tem acompanhado uma mobiliza\u00e7\u00e3o camponesa massiva e vitoriosa na \u00cdndia contra as pol\u00edticas reacion\u00e1rias do Modi, que promovem os interesses imperialistas. Voc\u00ea poderia nos falar um pouco mais sobre a contundente resist\u00eancia desses camponeses e os desafios que se apresentam diante dos movimentos sociais?<\/strong><\/p>\n<p>Durante a pandemia, o governo Modi aprovou tr\u00eas leis agr\u00edcolas que elevariam a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, fazendo com que os camponeses se tornassem como os motoristas do Uber. Os agricultores lutaram durante um ano e for\u00e7aram o governo indiano a derrubar as leis. Mas eles est\u00e3o indo mais fundo, exigindo pre\u00e7os m\u00ednimos de apoio, eletricidade subsidiada e uma s\u00e9rie de outras demandas que atra\u00edram o governo para um papel mais intervencionista e social no sistema agr\u00edcola. Os agricultores reconhecem que esta \u00e9 uma luta existencial, portanto, n\u00e3o v\u00e3o recuar. Esta \u00e9 a vit\u00f3ria trabalhista mais significativa em muitos anos.<\/p>\n<p>A cada ano, cerca de 200 a 250 milh\u00f5es de trabalhadores e camponeses entram em greve na \u00cdndia para pressionar o governo em uma s\u00e9rie de quest\u00f5es. Este ano, a greve de dois dias no final de mar\u00e7o foi um sucesso total.<\/p>\n<p><strong>Gostaria de saber sobre sua perspectiva do socialismo em nosso tempo. Ap\u00f3s o desmantelamento capitalista da Uni\u00e3o das Rep\u00fablicas Socialistas Sovi\u00e9ticas (URSS), o liberalismo triunfou como a ordem hegem\u00f4nica mundial, proclamando o \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d. Sob n\u00e3o apenas o dom\u00ednio global dos interesses imperialistas e capitalistas, mas tamb\u00e9m a crise organizacional e ideol\u00f3gica em que a classe trabalhadora se encontra, quais s\u00e3o as perspectivas do socialismo hoje? A classe trabalhadora ainda \u00e9 a classe que tem o futuro em suas m\u00e3os? O socialismo ainda \u00e9 uma alternativa real, uma alternativa capaz de vencer?<\/strong><\/p>\n<p>O rescaldo da queda da URSS foi catastr\u00f3fico. Primeiro foi um desastre para o povo sovi\u00e9tico, cuja vida desmoronou, a expectativa de vida caiu e a sensa\u00e7\u00e3o de estar sendo maltratado se generalizou. Este atrito social na ex-URSS foi passado com coment\u00e1rios superficiais, em sua maioria da esquerda. A classe trabalhadora da URSS estava fragilizada e desiludida, o acesso aos servi\u00e7os b\u00e1sicos foi cortado. A vida das mulheres deteriorou-se drasticamente, com altas taxas de desemprego e altas taxas de viol\u00eancia \u2013 caracter\u00edsticas que tinham se acelerado no in\u00edcio dos anos 90. Lembro-me de ler que em 1993, apenas dois anos ap\u00f3s o fim da URSS, quase tr\u00eas quartos daqueles que mantiveram seus empregos e ainda assim foram classificados como extremamente pobres eram mulheres. A perda de status e de poder das mulheres sovi\u00e9ticas nesta situa\u00e7\u00e3o mal foi comentada na \u00e9poca.<\/p>\n<p>A queda da URSS \u2013 quaisquer que tenham sido os problemas da pr\u00f3pria URSS \u2013 causou v\u00e1rios problemas na esquerda global. Primeiro, como os Estados Unidos e os pa\u00edses capitalistas avan\u00e7ados n\u00e3o tiveram nenhum desafio pol\u00edtico e ideol\u00f3gico de uma pot\u00eancia equivalente, os EUA foram capazes de conduzir uma agenda de globaliza\u00e7\u00e3o que integrou as economias mundiais ao sistema do Departamento do Tesouro do FMI \u2013 como uma corpora\u00e7\u00e3o multinacional dos EUA. Centenas de milh\u00f5es de trabalhadores na ex-URSS e na Europa Oriental, bem como da China, entraram na for\u00e7a de trabalho global para serem subordinados \u00e0s empresas capitalistas globais, enquanto o FMI for\u00e7ou os pa\u00edses do Terceiro Mundo \u2013 por meio de Programas de Ajuste Estrutural \u2013 a renunciar a suas leis trabalhistas e fragmentar os sindicatos. Grandes f\u00e1bricas foram desmanteladas para dar lugar a novas cadeias de produ\u00e7\u00e3o de commodities, protegidas por novas regras de propriedade intelectual.<\/p>\n<p>Estes desenvolvimentos \u2013 novos trabalhadores no mercado de trabalho capitalista e a desarticula\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o \u2013 enfraqueceram o sindicalismo, que tem sido o principal reservat\u00f3rio do poder de esquerda. Em segundo lugar, a nova liberaliza\u00e7\u00e3o do mercado agr\u00edcola, o decl\u00ednio do cr\u00e9dito agr\u00e1rio subsidiado pelo governo, o fim de um regime de subs\u00eddio-tarif\u00e1rio para proteger a agricultura interna e o desaparecimento das agendas de reforma agr\u00e1ria enfraqueceram as organiza\u00e7\u00f5es camponesas. Estes dois acontecimentos, juntamente com o crescimento das agendas intelectuais p\u00f3s-modernas, penalizam severamente a esquerda.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a crise financeira global de 2007, a esquerda come\u00e7ou a se recuperar um pouco. Em todo o mundo, nossas for\u00e7as t\u00eam crescido \u00e0 medida que come\u00e7amos a organizar a for\u00e7a de trabalho prec\u00e1ria e informal, onde desenvolvemos for\u00e7a ao lado do setor de trabalho de cuidado cada vez mais organizado, e constru\u00edmos uma nova confian\u00e7a na esfera intelectual atrav\u00e9s de nosso entendimento geral do fracasso do neoliberalismo em responder \u00e0s perguntas que o projeto socialista recentemente mais assertivo \u2013 como sob Xi Jinping a partir de 2013 na China \u2013 tem sido capaz de fazer.<\/p>\n<p>A China aboliu a pobreza extrema durante a pandemia, um feito inigual\u00e1vel em qualquer Estado capitalista. Isto abriu espa\u00e7o para discuss\u00f5es s\u00e9rias sobre a vitalidade dos projetos socialistas \u2013 por mais limitada que seja \u2013 nas na\u00e7\u00f5es mais pobres em oposi\u00e7\u00e3o aos projetos capitalistas nas na\u00e7\u00f5es mais ricas. Estes desenvolvimentos \u2013 juntamente com o crescimento de importantes movimentos que combatem o racismo, o patriarcado e o sufocamento social geral \u2013 for\u00e7aram-nos a repensar a natureza dos reservat\u00f3rios da esquerda. Nossas lutas crescentes hoje indicam que estamos diante de uma escolha: ou permitimos que o horror do capitalismo e sua desumanidade da direita continuem a moldar o mundo ou ent\u00e3o a esquerda tem que inaugurar uma era de dignidade humana e melhores rela\u00e7\u00f5es humanas com a natureza.<\/p>\n<p><strong>Vemos agora um conflito militar se desenrolando na Europa Oriental, que se intensificou gra\u00e7as ao expansionismo agressivo da OTAN. H\u00e1 um intenso debate na esquerda internacional sobre como caracterizar a natureza deste conflito. Qual \u00e9 a sua avalia\u00e7\u00e3o? O que voc\u00ea acredita que est\u00e1 em jogo nesta guerra, quais s\u00e3o suas causas e quais s\u00e3o seus poss\u00edveis resultados?<\/strong><\/p>\n<p>Enquanto a R\u00fassia permaneceu subordinada \u00e0 agenda do Atl\u00e2ntico Norte ou Ocidental durante a \u00e9poca de Boris Yeltsin (1991-1999) e nos primeiros anos da presid\u00eancia de Vladimir Putin, tudo estava bem. De fato, a R\u00fassia aceitou a OTAN como \u201cParceiro para a Paz\u201d em 1994, e dez anos depois, em 2004, a R\u00fassia n\u00e3o se op\u00f4s quando sete pa\u00edses do leste europeu aderiram \u00e0 OTAN, incluindo dois que fazem fronteira com a R\u00fassia \u2013 Est\u00f4nia e Let\u00f4nia. As duas guerras brutais da R\u00fassia na Chech\u00eania, sob Yeltsin entre 1994 e 1996 e sob Putin de 1999 a 2000, foram bem-vindas pelo Ocidente. Quase n\u00e3o houve cr\u00edticas a nada que acontecesse na R\u00fassia, enquanto a lideran\u00e7a pol\u00edtica (Yeltsin, Putin e seus governos) permanecessem subordinados aos EUA e \u00e0 OTAN, que \u00e9 o Cavalo de Tr\u00f3ia dos EUA.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a crise financeira global em 2007, as elites russas que eram pr\u00f3ximas a Putin come\u00e7aram a reconsiderar sua orienta\u00e7\u00e3o pr\u00f3-Ocidente. Nos anos seguintes, a Europa permitiu que os EUA cortassem dois de seus tr\u00eas principais fornecimentos de energia \u2013 Ir\u00e3 e L\u00edbia. A R\u00fassia tornou-se cada vez mais importante para os mercados energ\u00e9ticos europeus, mas a R\u00fassia tamb\u00e9m come\u00e7ou a fornecer energia e a desenvolver la\u00e7os mais estreitos com a China. Os gasodutos do Ocidente tornaram-se interessantes para os chineses \u2013 onde aumentou o investimento \u2013 assim como para a Europa.<\/p>\n<p>Em 2015, a Pol\u00f4nia aderiu \u00e0 Iniciativa Rodovi\u00e1ria e de Cintur\u00e3o da China (BRI), depois a It\u00e1lia aderiu em 2019. Dezessete pa\u00edses da Europa Central e Oriental aderiram ao BRI, abrindo as portas para um maior investimento chin\u00eas na Europa e para uma maior integra\u00e7\u00e3o euro-asi\u00e1tica. Isto \u00e9 o que os EUA se opuseram. Os EUA usaram todos os meios poss\u00edveis \u2013 incluindo o Cavalo de Tr\u00f3ia da OTAN \u2013 para for\u00e7ar a Europa a romper os la\u00e7os com a R\u00fassia e a China e para reafirmar os la\u00e7os com o Atl\u00e2ntico Norte. A campanha de press\u00e3o sobre a Ucr\u00e2nia, que aqueceu em 2014, foi precisamente sobre isso e n\u00e3o sobre a democracia ou o controle russo ou algo parecido. Em 2002, os Estados Unidos j\u00e1 haviam se retirado do Tratado de M\u00edsseis Antibal\u00edsticos, e quando os EUA deixaram o Tratado de For\u00e7as Nucleares em 2019, isso enviou uma forte mensagem \u00e0 R\u00fassia de que os EUA poderiam colocar m\u00edsseis em sua fronteira e amea\u00e7\u00e1-la at\u00e9 a submiss\u00e3o. Estes s\u00e3o movimentos perigosos e desestabilizadores por parte dos EUA. Eles aceleraram o conflito na Ucr\u00e2nia. Agora que Joe Biden disse que Putin deve cair, ou seja, que anunciou que os EUA querem uma mudan\u00e7a de regime na R\u00fassia, a temperatura est\u00e1 muito alta.<\/p>\n<p><strong>19 de mar\u00e7o marcou o anivers\u00e1rio da invas\u00e3o do Iraque pelos EUA e pela Gr\u00e3-Bretanha, enquanto outro grande conflito se desenrola hoje na Ucr\u00e2nia. As compara\u00e7\u00f5es entre tais guerras podem elucidar algumas quest\u00f5es. Que diferen\u00e7as e semelhan\u00e7as podem ser tiradas deste debate, e o que ele nos diz sobre poder e imperialismo no mundo? E a pergunta maior permanece: foram aprendidas algumas li\u00e7\u00f5es nestes \u00faltimos vinte anos?\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 evidente que a guerra dos EUA contra o Iraque resultou em mais de um milh\u00e3o de v\u00edtimas. N\u00e3o houve um verdadeiro ultraje sobre a destrui\u00e7\u00e3o de Bagd\u00e1 em 2003 ou sobre o \u00edndice de assassinatos pelos bombardeios e viol\u00eancia dos EUA. Ningu\u00e9m inundou a internet com bandeiras iraquianas e nenhuma hist\u00f3ria de iraquianos comuns capturou a imagina\u00e7\u00e3o. Quando o rep\u00f3rter da\u00a0<em>Al-Jazeera<\/em>\u00a0Tareq Ayyoub foi assassinado intencionalmente por um tanque dos EUA em abril de 2003, ningu\u00e9m se indignou. A situa\u00e7\u00e3o com a Ucr\u00e2nia n\u00e3o poderia ser diferente.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma suposi\u00e7\u00e3o subjacente de que uma guerra dentro da Europa, uma guerra em que as pot\u00eancias ocidentais n\u00e3o s\u00e3o os advers\u00e1rios (como na guerra contra a S\u00e9rvia em 1999), \u00e9 uma guerra terr\u00edvel; uma guerra contra o Iraque, a L\u00edbia, o I\u00eamen, o Afeganist\u00e3o ou a Som\u00e1lia \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o normal de vida. Isto se reflete na vis\u00e3o mais ampla da humanidade que temos. Sup\u00f5e-se que seja aceit\u00e1vel que os trabalhadores na \u00cdndia, na Mal\u00e1sia ou no Haiti trabalhem por sal\u00e1rios de fome porque se diz que eles n\u00e3o t\u00eam expectativas de vida semelhantes \u00e0s dos trabalhadores na Alemanha ou no Canad\u00e1. Para que seus sal\u00e1rios sejam suprimidos e seus super lucros sejam feitos pelas corpora\u00e7\u00f5es multinacionais. Esta supress\u00e3o salarial, tratada como normal, \u00e9 a mesma forma como as mortes de afeg\u00e3os por bombas norte-americanas s\u00e3o tratadas como normais, e a mesma forma como a nega\u00e7\u00e3o de um refugiado s\u00edrio ao direito de entrar na Europa como os refugiados ucranianos \u00e9 tratada como normal. Esta \u00e9 a \u201cdivis\u00e3o internacional da humanidade\u201d. Trata-se de um esc\u00e2ndalo evidente.<\/p>\n<p>A esquerda foi para as ruas contra a guerra no Iraque. N\u00f3s protestamos contra a guerra na L\u00edbia. Protestamos contra todas as guerras da OTAN e as guerras promovidas\u00a0 pelos EUA. Protestamos esta guerra tamb\u00e9m na Ucr\u00e2nia. Mas protestamos igualmente como os EUA e a OTAN aceleraram as condi\u00e7\u00f5es para a guerra ao coloc\u00e1-las em movimento com um golpe na Ucr\u00e2nia em 2014 e a permiss\u00e3o para que o ultranacionalismo e as pol\u00edticas antidemocr\u00e1ticas flores\u00e7am no pa\u00eds (incluindo a proibi\u00e7\u00e3o dos partidos de esquerda). Mas enquanto protestamos contra a OTAN, somos chamados de apoiadores de Putin como fomos chamados de apoiadores de Saddam e Assad e assim por diante.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o poder da ideologia imperialista, na medida em que durante todos estes anos tentou camuflar sua viol\u00eancia deslocando-a por outro lado, que de alguma forma Saddam \u00e9 pior que Ronald Reagan, cujas pol\u00edticas destru\u00edram centenas de milh\u00f5es de vidas na Am\u00e9rica Central e na \u00c1sia Central, ou que Putin \u00e9 de alguma forma pior que Bush e Biden, cujas pol\u00edticas mataram mais de um milh\u00e3o de pessoas somente no Iraque. Temos que ser fortes e dignos na defesa de nossos pontos de vista contra a ideologia imperialista. Eles v\u00e3o tentar nos difamar. Temos que ser fortes e nos agarrar \u00e0 clareza que nos foi dada pelos movimentos populares.<\/p>\n<p><strong>Como este conflito na Europa Oriental pode definir os novos caminhos da geopol\u00edtica? Em meio a tudo isso, que conex\u00f5es voc\u00ea v\u00ea entre o Oriente M\u00e9dio e a Am\u00e9rica Latina?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 muito cedo para ver exatamente o que vai sair da guerra na Ucr\u00e2nia. Certamente, a primeira quest\u00e3o \u00e9 que este terr\u00edvel conflito vai criar uma infla\u00e7\u00e3o enorme dos pre\u00e7os dos alimentos e dos combust\u00edveis, que ter\u00e1 um impacto negativo sobre a classe trabalhadora no mundo. \u00c9 preciso ver como as elites russas se comportar\u00e3o, se estar\u00e3o dispostas a resistir \u00e0 tempestade das san\u00e7\u00f5es ou se gostariam de voltar a uma pol\u00edtica maior de acomoda\u00e7\u00e3o com o Ocidente. Tudo isso deve ser analisado, quer Putin se mantenha firme ou decida voltar \u00e0 sua orienta\u00e7\u00e3o anterior ou dar lugar a uma pessoa mais Yeltsin (seu mandato termina em 2024).<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m deve ser visto como os chineses reagem, uma vez que a integra\u00e7\u00e3o da China com o Ocidente \u00e9 substancial e sua pr\u00f3pria lideran\u00e7a pode n\u00e3o estar disposta a ficar ao lado da R\u00fassia at\u00e9 o fim. Temos que ter cuidado para n\u00e3o saltar \u00e0 frente das evid\u00eancias e permitir que o pensamento desejoso conduza nossa an\u00e1lise. N\u00e3o estamos nem perto do in\u00edcio de uma era de multipolaridade. O que vemos \u00e9 a fragmenta\u00e7\u00e3o do poder dos EUA e o surgimento de um novo per\u00edodo. O que esse per\u00edodo se assemelhar\u00e1 \u00e9 dif\u00edcil de prever completamente.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que deve haver alerta na Am\u00e9rica Latina. Como a regi\u00e3o come\u00e7a a desenvolver la\u00e7os com a China, como a ades\u00e3o da Argentina \u00e0 iniciativa\u00a0<em>\u201cBelt and Road Initiative\u201d<\/em>\u00a0em 2021, haver\u00e1 uma press\u00e3o de Washington para cortar esses la\u00e7os. O apoio morno \u00e0 posi\u00e7\u00e3o dos EUA sobre a Ucr\u00e2nia define muitas das respostas dos estados latino-americanos, o que \u00e9 de se esperar. A corrida de Washington para Caracas para ver se ela pode mudar o equil\u00edbrio de for\u00e7as rompendo o elo entre a R\u00fassia e a Venezuela foi uma representa\u00e7\u00e3o interessante da fragilidade de Washington.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Vijay Prashad v\u00ea a geopol\u00edtica em transe &#8211; Outras Palavras &#8211; https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/vijay-prashad-ve-a-geopolitica-em-transe\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vijay Prashad &#8211; Pensador indiano analisa as consequ\u00eancias do casamento fracassado entre fascistas e neoliberais. Mas alternativas s\u00f3 vir\u00e3o se esquerdas apostarem na rebeldia popular. 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