{"id":18074,"date":"2022-07-20T12:17:20","date_gmt":"2022-07-20T15:17:20","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18074"},"modified":"2022-07-14T18:29:47","modified_gmt":"2022-07-14T21:29:47","slug":"a-catastrofe-do-trabalho-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/07\/20\/a-catastrofe-do-trabalho-no-brasil\/","title":{"rendered":"A cat\u00e1strofe do trabalho no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><strong>Giovanni Alves <\/strong>&#8211; Giovanni Alves reflete sobre os \u00faltimos anos do neoliberalismo no Brasil e a cat\u00e1strofe no mundo do trabalho, agravada ainda mais profundamente em raz\u00e3o das consequ\u00eancias do novo coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>Tenho salientado\u00a0que o termo \u201ccat\u00e1strofe\u201d tem um significado preciso, expressando a radicalidade do nosso tempo hist\u00f3rico (a palavra cat\u00e1strofe significa em grego,\u00a0<em>katastrophe<\/em>, \u201cfim s\u00fabito, virada de expectativas\u201d, de\u00a0<em>kata-<\/em>, \u201cpara baixo\u201d, mais\u00a0<em>strophein<\/em>, \u201cvirar\u201d. Essa palavra teve a sua origem no teatro, no antigo drama grego<em>. Katastrophe<\/em>\u00a0era o momento em que os acontecimentos se voltavam contra o personagem principal, num movimento feito pelo coro inteiro no teatro). A d\u00e9cada de 2010 foi uma d\u00e9cada catastr\u00f3fica para o Brasil: literalmente ocorreu uma \u201cvirada para baixo\u201d. Nada nos permite dizer\u00a0que a d\u00e9cada de 2020 possa ser diferente, tendo em vista a perman\u00eancia do bloco no poder que sustenta o Estado neoliberal no Brasil (o mesmo que operou o golpe de 2016 e apoiou a elei\u00e7\u00e3o de Jair Bolsonaro em 2018). Irremediavelmente, o Brasil foi projetado para uma nova temporalidade hist\u00f3rica do capitalismo permeado de agudas contradi\u00e7\u00f5es sociais que vai exigir de n\u00f3s, discernimento e\u00a0capacidade cr\u00edtico-anal\u00edtica para decifrar as novas dimens\u00f5es da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho no Brasil. Recorrendo novamente aos antigos gregos, diremos: \u201cdecifra-me ou devoro-te\u201d.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Como determina\u00e7\u00e3o agravante das tend\u00eancias catastr\u00f3ficas de desenvolvimento do capitalismo brasileiro, tivemos em 2020 a pandemia do novo coronav\u00edrus que exp\u00f4s de forma fulminante as fragilidades (e a incapacidade) do Estado brasileiro (sociedade pol\u00edtica e sociedade civil neoliberal) em lidar com situa\u00e7\u00f5es disruptivas, como por exemplo uma pandemia. N\u00e3o se trata apenas de um problema de governo, mas de um Estado pol\u00edtico do capital. N\u00e3o foi apenas a estupidez pol\u00edtica de Bolsonaro que o novo coronav\u00edrus exp\u00f4s. Tamb\u00e9m ficou explicita a h\u00e1bil compet\u00eancia do Estado brasileiro em matar \u201cpobres\u201d. Mas a m\u00eddia e a centro-esquerda (e at\u00e9 certo ponto pr\u00f3pria esquerda) insistem em \u201cdemonizar\u201d Bolsonaro como se o que devesse realmente preocupar n\u00e3o fosse o que est\u00e1 por tr\u00e1s dele e deve continuar mandando no Brasil. Bolsonaro \u00e9 apenas o fiel encarregado da necropol\u00edtica constitutiva do Estado capitalista brasileiro e sua \u201celites\u201d (<em>o Leviathan<\/em>\u00a0invis\u00edvel que opera a \u201cmis\u00e9ria brasileira\u201d com muita compet\u00eancia).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">A partir do golpe de 2016 e, mais precisamente, a partir de 2018 com a elei\u00e7\u00e3o de Jair Bolsonaro fomos projetados para a temporalidade hist\u00f3rica do que podemos denominar \u201ccapitalismo catastr\u00f3fico\u201d com impactos diversos nas esferas da vida social e destaco aqui, o mundo do trabalho. A pandemia foi apenas um operador heur\u00edstico que exp\u00f4s com clareza tenebrosa, a mis\u00e9ria do trabalho no Brasil de Temer e Bolsonaro. As mudan\u00e7as ocorridas no mundo do trabalho nos \u00faltimos cinco anos \u2013 pelo menos \u2013 n\u00e3o s\u00e3o mudan\u00e7as contingentes que possam ser alteradas por uma mudan\u00e7a de governo, por exemplo. Elas vieram para ficar com o capitalismo brasileiro. Aboli-las representaria abolir o Estado neoliberal e destituir o bloco no poder olig\u00e1rquico-burgu\u00eas, o que \u00e9 quase imposs\u00edvel de ocorrer pois falta o sujeito hist\u00f3rico coletivo organizado para isso.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">N\u00e3o existem retornos quando se trata de mudan\u00e7as catastr\u00f3ficas. O que existe \u00e9 uma nova linha de eventos que ir\u00e3o condicionar as a\u00e7\u00f5es dos sujeitos sociais daqui para frente. A pergunta a ser feita \u00e9 o que pode fazer um governo de centro-esquerda com aquilo que a direita neoliberal fez com o Brasil a partir de Temer e Bolsonaro. Em 1852, em\u00a0<em><a href=\"https:\/\/www2.boitempoeditorial.com.br\/produto\/o-18-de-brumario-de-luis-bonaparte-232\" rel=\"noreferrer noopener\">O 18 de brum\u00e1rio de Lu\u00eds Bonaparte,<\/a><\/em>\u00a0Karl Marx tornou mais precisa essa ideia numa formula\u00e7\u00e3o famosa: \u201cOs homens fazem sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, mas n\u00e3o a fazem como querem; n\u00e3o a fazem sob circunst\u00e2ncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente,\u00a0<em>legadas e transmitidas pelo passado<\/em>. A tradi\u00e7\u00e3o de todas as gera\u00e7\u00f5es mortas oprime como um pesadelo o c\u00e9rebro dos vivos\u201d (Boitempo, p.25).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">No decorrer dos 5 anos do \u201cEstado de exce\u00e7\u00e3o\u201d (2016-2021) por conta da ilegitimidade do impeachment de Dilma e ilegitimidade da elei\u00e7\u00e3o de Jair Bolsonaro tendo em vista, naquela \u00e9poca, o impedimento injusto de Lula pela Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato, hoje reconhecida pelo pr\u00f3prio STF como ilegal e injusta, ocorreram numa velocidade insana, mudan\u00e7as disruptivas no mundo do trabalho no Brasil. Nunca antes no Brasil, em t\u00e3o pouco tempo, foram tomadas medidas de altera\u00e7\u00e3o constitucional que reestruturaram irremediavelmente o mundo social do trabalho. Talvez s\u00f3 ap\u00f3s o golpe militar de 1964 contra Goulart; e em 1988 com a constitui\u00e7\u00e3o da Nova Rep\u00fablica, ocorreu uma reestrutura\u00e7\u00e3o do capitalismo brasileiro desta envergadura com efeitos funestos no mundo do trabalho. Impotente, perplexa e sem dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social, a d\u00e9bil (e manipulada) sociedade civil, arrasada pela profunda recess\u00e3o de 2015 e 2016, assistiu a tudo, bestificada. Entretanto, foi com a pandemia do novo coronav\u00edrus a partir de 2020 que se tornou explicita a\u00a0<em>pornografia<\/em>\u00a0do trabalho capitalista no Brasil neoliberal.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">A nova configura\u00e7\u00e3o do trabalho no Brasil, a partir da ruptura catastr\u00f3fica em 2016, deve ser entendida em um primeiro momento como resultado da nova ofensiva neoliberal que representou efetivamente o governo de Michel Temer (2016-2018). Por um lado, Michel Temer afirmou a pol\u00edtica econ\u00f4mica neoliberal que depois da longa recess\u00e3o de 2015-2016, manteve a economia brasileira estagnada, situa\u00e7\u00e3o utilizada como ardil pelo governo para justificar imoralmente, a lei de teto do gasto p\u00fablico, a lei da terceiriza\u00e7\u00e3o e a reforma trabalhista (as reformas fariam o Brasil crescer e gerar empregos). Pura mentira. O \u00edndice de desemprego em\u00a0<a href=\"https:\/\/economia.uol.com.br\/empregos-e-carreiras\/noticias\/redacao\/2018\/04\/27\/desemprego-pnad-ibge.htm\">2018,<\/a>\u00a0\u00faltimo ano do governo Temer, continuava em n\u00edveis alt\u00edssimos (13,1%) atingindo mais de 12 milh\u00f5es no fim de 2018 (quase o triplo do desemprego em 2014 que registrou a menor taxa de desemprego j\u00e1 registrada: 4,8%, de acordo com o\u00a0<a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/jornal-da-globo\/noticia\/2015\/01\/brasil-encerra-2014-com-menor-taxa-de-desemprego-ja-registrada.html\">IBGE<\/a>). Apesar de ter sa\u00eddo da recess\u00e3o, a\u00a0<a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/economia\/noticia\/2019\/02\/28\/pib-do-brasil-cresce-11-em-2018.ghtml\">economia brasileira<\/a>\u00a0cresceu em 2018, 1,1%. O alto desemprego permanente contribuiu para a \u201ceconomia de bicos\u201d (<em>gig economy<\/em>) e a uberiza\u00e7\u00e3o do trabalho no Brasil. As medidas da Reforma Trabalhista \u2013 o aprofundamento da flexibiliza\u00e7\u00e3o do trabalho, as novas modalidades de contrata\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria (trabalho intermitente), a regulamenta\u00e7\u00e3o do teletrabalho, o desmonte do sindicalismo e o bloqueio de acesso \u00e0 Justi\u00e7a do Trabalho \u2013 sacramentaram o prec\u00e1rio mundo do trabalho no Brasil.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">\u00c9 claro que, pelo menos desde a d\u00e9cada de 1990, temos uma ofensiva do capital que criou de modo lento e progressivo o novo prec\u00e1rio mundo do trabalho no Brasil. O que o governo Michel Temer fez foi apenas dar prosseguimento (e aprofundar) a dita \u201cflexibiliza\u00e7\u00e3o do trabalho\u201d e o desmonte da CLT, iniciada com os governos neoliberais da d\u00e9cada de 1990. A profunda crise do capitalismo brasileiro em meados da d\u00e9cada de 2010, inserida no quadro da longa depress\u00e3o capitalista a partir do\u00a0<em>crash<\/em>\u00a0financeiro em 2008 nos EUA, obrigou as v\u00e1rias fra\u00e7\u00f5es da burguesia brasileira, operadora do Estado neoliberal, a \u201ccuspir\u201d o governo neodesenvolvimentista e aprovar as reformas estruturais adequadas para blindar o fundo p\u00fablico de acordo com seus interesses do capital financeiro; aumentar a explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho visando retomar a taxa de lucro (a Reforma Trabalhista); e espoliar as riquezas da Na\u00e7\u00e3o de acordo com o c\u00e2none neoliberal.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Michel Temer iniciou a opera\u00e7\u00e3o \u201cdesmonta Brasil\u201d e Jair Bolsonaro deu prosseguimento a ela com a Reforma da Previd\u00eancia e a aliena\u00e7\u00e3o dos direitos previdenci\u00e1rios do mundo do trabalho: a degrada\u00e7\u00e3o do mundo do trabalho, com o desemprego em massa e o aumento da desigualdade (e mis\u00e9ria) social, correu paralela \u00e0s iniciativas parlamentares para \u201crenovar\u201d o capitalismo brasileiro diante de sua crise estrutural. Al\u00e9m de estar condenada aos \u201cempregos de merda\u201d como dizia\u00a0<a href=\"https:\/\/www.insurgencia.org\/blog\/graeber-1961-2020-a-sociedade-dos-empregos-de-merda#:~:text=Basicamente%2C%20um%20emprego%20de%20merda,converter%2Dse%20num%20lugar%20melhor.\">David Graeber<\/a>, ao trabalho prec\u00e1rio (\u201cbicos\u201d) sob a alcunha de autoempreendedorismo, a multid\u00e3o da for\u00e7a de trabalho \u2013 inclusive os mais escolarizados \u2013 ficou condenada a trabalhar por toda a vida (\u201cvida reduzida\u201d a trabalho estranhado), aposentando-se apenas com a morte f\u00edsica. A l\u00f3gica do sobrevivencialismo domina hoje o mundo do trabalho no Brasil. A pandemia do novo coronav\u00edrus e a necropol\u00edtica do governo Bolsonaro apenas explicitaram, intensa e extensamente, a mis\u00e9ria do trabalho no Brasil neoliberal. Mas tudo estava contido no movimento da reestrutura\u00e7\u00e3o neoliberal do capitalismo brasileiro \u2013 inclusive sua performance necr\u00f3fila. Como observou o fil\u00f3sofo sul-coreano\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/02\/07\/cultura\/1517989873_086219.html\">Byung-Chul Han<\/a>, a sociedade neoliberal n\u00e3o \u00e9 apenas a sociedade do cansa\u00e7o e da autoexplora\u00e7\u00e3o (como vemos nas pr\u00e1ticas do teletrabalho, o dito\u00a0<em>home office)<\/em>\u00a0que reduzem a vida \u00e0 trabalho estranhado), mas ela \u00e9 tamb\u00e9m \u2013 e cada vez mais \u2013 a sociedade da luta pela sobreviv\u00eancia. Talvez ele n\u00e3o conhe\u00e7a o Brasil, mas aqui h\u00e1 tempos, a oligarquia liberal-financeira escravista que domina o Estado brasileiro transformou o Brasil no pa\u00eds do sobrevivencialismo. O filosofo sul-coreano apenas constatou o \u00f3bvio: esta \u00e9 a forma de ser do capital (o mundo da concorr\u00eancia n\u00e3o apenas entre os m\u00faltiplos capitais, mas entre a multid\u00e3o da for\u00e7a de trabalho) e a forma de ser do trabalho estranhado no capitalismo hist\u00f3rico na era de sua crise estrutural. A quest\u00e3o da autoexplora\u00e7\u00e3o \u00e9 elemento compositivo do capitalismo manipulat\u00f3rio e do esp\u00edrito do toyotismo discutido por n\u00f3s no livro\u00a0<em><a href=\"https:\/\/www2.boitempoeditorial.com.br\/produto\/trabalho-e-subjetividade-230\" rel=\"noreferrer noopener\">Trabalho e subjetividade<\/a><\/em>\u00a0(Boitempo, 2011).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Mas a problem\u00e1tica do sobrevivencialismo n\u00e3o diz respeito apenas ao mundo de miser\u00e1veis que habitam h\u00e1 tempos o Brasil e que hoje, em sua maioria se preocupam cotidianamente em n\u00e3o morrer de fome. Com a cat\u00e1strofe do trabalho, mesmo nas camadas m\u00e9dias assalariadas, o \u201csobrevivencialismo\u201d \u00e9 um elemento de preocupa\u00e7\u00e3o. A pandemia exp\u00f4s (e aprofundou) a tr\u00e1gica realidade do sobrevivencialismo do trabalho capitalista catastr\u00f3fico no Brasil. Mas, o sobrevivencialismo das camadas m\u00e9dias \u00e9 de outra natureza: elas se preocupam em n\u00e3o se \u201cmiserabilizar\u201d, isto \u00e9, lutam para que o padr\u00e3o de vida delas n\u00e3o caia ao n\u00edvel dos \u201cpobres\u201d.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Diante da pandemia e com o \u201ccapitalismo vir\u00f3tico\u201d (como diria Ricardo Antunes), a dura luta pela sobreviv\u00eancia sofre \u201cradicaliza\u00e7\u00e3o viral\u201d (como diria Byung-Chul Han). A guerra contra o v\u00edrus intensifica a luta pela sobreviv\u00eancia. O v\u00edrus transforma o mundo em uma quarentena em que a vida fica completamente estagnada, transformada em pura sobreviv\u00eancia (o que Karl Marx nos\u00a0<em><a href=\"https:\/\/www2.boitempoeditorial.com.br\/produto\/manuscritos-economico-filosoficos-90\" rel=\"noreferrer noopener\">Manuscritos econ\u00f4mico-filos\u00f3ficos<\/a><\/em>\u00a0de 1844, denunciava: \u201cO que \u00e9 animal se torna humano, e o que \u00e9 humano se torna animal\u201d). Assim, o capitalismo em sua fase de crise estrutural, explicita a sua natureza de modo catastr\u00f3fico: o que mais nos preocupa hoje \u00e9 sobreviver, como se estiv\u00e9ssemos em um estado de guerra permanente.\u00a0<em>Na luta pela sobreviv\u00eancia, a quest\u00e3o da qualidade de vida n\u00e3o se coloca<\/em>. Todas as for\u00e7as vitais s\u00e3o aplicadas para prolongar a vida a qualquer custo. \u00c9 a l\u00f3gica voraz do mercado que adquire dimens\u00f5es colossais no Brasil neoliberal, incitando o individualismo e o afeto narc\u00edsico dos sujeitos acuados pelo vazio da concorr\u00eancia. Eis a\u00ed o elemento da barb\u00e1rie social: o rebaixamento civilizat\u00f3rio que, em nome da \u201csobreviv\u00eancia\u201d, nos obriga a renunciar aos direitos \u00e0 uma vida plena de sentido \u2013 inclusive o direito \u00e0 vida saud\u00e1vel e com tempo livre para preservar a dignidade f\u00edsica e espiritual. A ordem \u201cdesumana\u201d do capital do s\u00e9culo XXI \u00e9: sobreviva, se for capaz.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Identificamos na primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI, a d\u00e9cada de 2000, o desenvolvimento daquilo que denominamos \u201cnova precariedade salarial\u201d, caracterizada pelas (1) novas modalidades de contratos de trabalho prec\u00e1rio; (2) a ado\u00e7\u00e3o da gest\u00e3o toyotista nas organiza\u00e7\u00f5es privadas e p\u00fablicas; (3) e a nova base tecnol\u00f3gico informacional. As mudan\u00e7as da d\u00e9cada de 2010, identificadas como \u201cuberiza\u00e7\u00e3o\u201d do trabalho, estavam contidas na formula\u00e7\u00e3o original da nova precariedade salarial. O que ocorreu foi que, ap\u00f3s a grande crise capitalista de 2008, a nova precariedade salarial adquiriu impulso hist\u00f3rico com o surgimento do \u201ccapitalismo de plataforma\u201d. Assim, a nova precariedade salarial fez manifestar de modo contundente, a dita \u201cuberiza\u00e7\u00e3o\u201d do trabalho. No Brasil, a Reforma Trabalhista do governo de Michel Temer (2017) deu o acabamento jur\u00eddico-institucional \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o do trabalho no Brasil, formatando o novo modo de consumo da for\u00e7a de trabalho no Brasil (a superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho na sua forma extensa). Ao mesmo tempo, a grande recess\u00e3o de 2015-2016 e a estagna\u00e7\u00e3o da economia brasileira nos governos Temer e Bolsonaro, contribu\u00edram para a explos\u00e3o do desemprego em massa e a informaliza\u00e7\u00e3o do trabalho no Brasil, abrindo um imenso mercado de trabalho vivo para a \u201ceconomia de bicos\u201d no Pa\u00eds com o dito \u201ctrabalho por aplicativo\u201d. Com a pandemia em 2020, o teletrabalho tornou-se a \u201cnova normalidade\u201d do trabalho nas organiza\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e privadas.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Com o aprofundamento da nova precariedade salarial, a classe trabalhadora brasileira foi implodida nos seus referentes objetivos e subjetivos (contrato de trabalho, remunera\u00e7\u00e3o salarial e local de trabalho). Com a\u00a0<em>nova<\/em>\u00a0<em>informaliza\u00e7\u00e3o\u00a0<\/em>do trabalho, desapareceu aquilo que demarcava a possibilidade efetiva da constitui\u00e7\u00e3o do \u201cem-si\u201d da classe. Restou apenas a condi\u00e7\u00e3o de proletariedade exacerbada pela miserabiliza\u00e7\u00e3o de oper\u00e1rios, empregados do setor privado e setor p\u00fablico. A consci\u00eancia de classe foi abatida de modo fulminante, mesmo na incipi\u00eancia do \u201cem-si\u201d da classe (a destrui\u00e7\u00e3o do sindicalismo brasileiro e o travamento do acesso \u00e0 Justi\u00e7a do Trabalho pela Reforma Trabalhista de 2017 foram elementos flagrantes). A incipiente (e eleitoralmente insignificante) esquerda brasileira perdeu de vez sua base social, resistindo em trincheiras esparsas do sindicalismo de classe resistente no seu formato corporativo.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">A plataformiza\u00e7\u00e3o do trabalho cresceu de modo exuberante de 2014 \u00e0 2021 por conta do colapso do emprego e pela perform\u00e1tica ideol\u00f3gica do autoempreendedorismo como mera estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia diante do mercado de trabalho colapsado. O Brasil sofreu um terremoto social que foi agravado com a chegada da pandemia do novo coronav\u00edrus em 2020. Como diz o ditado popular, \u201cdesgra\u00e7a pouca \u00e9 bobagem\u201d: logo ap\u00f3s o nefasto governo de Michel Temer (2016-2018), tivemos a elei\u00e7\u00e3o do bizarro capit\u00e3o Jair Bolsonaro e a seguir, em 2020, a disrup\u00e7\u00e3o da pandemia do novo coronav\u00edrus. Assim, como se n\u00e3o bastasse o terremoto neoliberal com a lei do teto do gasto p\u00fablico, reforma trabalhista\/lei da terceiriza\u00e7\u00e3o e a reforma da previd\u00eancia, ocorreu o tsunami da pandemia do novo coronav\u00edrus que prossegue devastando a superpopula\u00e7\u00e3o relativa produzida pelo capital (a devasta\u00e7\u00e3o pand\u00eamica a servi\u00e7o do capital deve continuar exterminando trabalho vivo no decorrer da d\u00e9cada de 2020). Eis a compet\u00eancia necr\u00f3fila de Jair Bolsonaro, fiel escudeiro do Estado neoliberal apodrecido: o capital agradece a morte de quase meio milh\u00e3o de brasileiros \u201cin\u00fateis\u201d e \u201cimprodutivos\u201d. Para o capital, eles s\u00e3o apenas CPFs cancelados. Portanto, ironicamente, Bolsonaro faz a \u201cprova dos nove\u201d de 30 anos de neoliberalismo no Brasil (1990-2020), exacerbando a precariedade salarial \u2013 nova e a velha.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">A \u201cmis\u00e9ria brasileira\u201d, um conceito que temos desenvolvido alhures, tal como um f\u00f3ssil vivo, foi exposta pela conjuntura catastr\u00f3fica. N\u00e3o se trata mais de eufemismo: o Estado brasileiro apodreceu irremediavelmente. A Rep\u00fablica n\u00e3o cabe mais no seu farsesco recept\u00e1culo pol\u00edtico.\u00a0<em>O politicismo pariu a politicagem<\/em>\u00a0\u2013 inclusive nas hostes da esquerda social-liberal (o que Carlos Nelson Coutinho, a partir de Gramsci, denominou de \u201cpequena pol\u00edtica\u201d): a representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica degradou-se irremediavelmente de modo historicamente in\u00e9dito (Congresso Nacional, Assembleias Legislativas e C\u00e2maras de Vereadores, como diria Cazuza, \u201cest\u00e3o cheios de ratos\u201d), aprofundando a crise de representa\u00e7\u00e3o anunciada desde o come\u00e7o da d\u00e9cada de 2000 pelo saudoso Francisco de Oliveira (<a href=\"https:\/\/www2.boitempoeditorial.com.br\/busca\/francisco+de+oliveira\" rel=\"noreferrer noopener\">vide os livros publicados por ele na Boitempo<\/a>). Resultado da imbeciliza\u00e7\u00e3o e ignor\u00e2ncia popular como projeto de domina\u00e7\u00e3o de classe, a monstruosa representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica adquiriu vida pr\u00f3pria e se volta para matar de vez aqueles que a legitimam (\u201cEles n\u00e3o sabem o que fazem\u201d?). Ao mesmo tempo, o Supremo Tribunal Federal (STF), elemento do golpe de 2016, exp\u00f4s a crise de justi\u00e7a no pa\u00eds. Ao inv\u00e9s de guardi\u00e3es da Constitui\u00e7\u00e3o-Cidad\u00e3, tornaram-se operadores sutis dos interesses dos grupos de poder de classe \u2013 nunca o STF legislou tanto sobre mat\u00e9rias trabalhistas a servi\u00e7o do grande empres\u00e1rio e nunca o ativismo judicial foi t\u00e3o vociferante a servi\u00e7o do bloco no poder (o exemplo maior foi a Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato conduzida a contento pelo \u201cjuiz\u201d S\u00e9rgio Moro). Depois de feita a derrubada de Dilma e o aprisionamento de Lula (a nobre tarefa pol\u00edtica do bloco neoliberal no poder) e sendo eleito Jair Bolsonaro, quase como s\u00edntese concreta ou resultado bizarro do golpe de 2016, caiu em 2021 a m\u00e1scara da face da Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato. O STF, em um surto de suspeita lucidez jur\u00eddica, desconstruiu os julgamentos de S\u00e9rgio Moro\u2026E depois? Quem viver, ver\u00e1.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Mas ap\u00f3s a breve contextualiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do Brasil de Temer a Bolsonaro, resta-nos no calor do massacre da pandemia do novo coronav\u00edrus e da desfa\u00e7atez da pol\u00edtica necr\u00f3fila do Estado brasileiro \u2013 Estado menos suicid\u00e1rio, como diria Vladimir Safatle, e mais necr\u00f3filo e genocida (e dir\u00edamos mais, h\u00e1 tempos o Estado olig\u00e1rquico-burgu\u00eas \u00e9 genocida) \u2013 olharmos os n\u00fameros do mercado de trabalho em fins de 2020 (a partir de artigo, n\u00e3o publicado, do economista do Dieese Clemente Ganz Lucio):<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201cEm fins de 2020, apenas 47,1% das pessoas com idade para trabalhar possuem uma ocupa\u00e7\u00e3o no Brasil. Salientemos que isso corresponde \u00e0 menor taxa da s\u00e9rie hist\u00f3rica. Cerca de 14,6% da popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 buscando emprego (desempregados). Mais uma vez, est\u00e1 \u00e9 a menor taxa da s\u00e9rie hist\u00f3rica. Outros 5,9 milh\u00f5es de brasileiros desistiram de buscar empregos (est\u00e3o \u2018desalentados\u2019, como dizem os economistas do trabalho). E mais uma vez: \u00e9 a maior taxa da s\u00e9rie hist\u00f3rica. Apenas 29,4 milh\u00f5es de brasileiros possuem carteira assinada. S\u00f3 no trimestre julho-agosto-setembro de 2020, o pa\u00eds perdeu 788 mil postos de trabalho formal. Entre outubro de 2019 e setembro de 2020 o Brasil fechou 11,6 milh\u00f5es de vagas de trabalho. Enquanto isso, os alugueis subiram 25% em um ano (2020). E o \u00edndice Bovespa (apesar da fuga massiva do capital estrangeiro) vive dias de gl\u00f3ria, a maior express\u00e3o da insanidade capitalista festejada por aqueles que representam a nata da classe dominante no Brasil (investidores rentistas-parasit\u00e1rios, banqueiros e empres\u00e1rios da devasta\u00e7\u00e3o ambiental e da explora\u00e7\u00e3o das commodities)\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Como observou de modo veraz, o economista do Dieese, \u201c\u00e9 evidente que a uma mudan\u00e7a estrutural no perfil da economia brasileira\u201d. Entretanto, n\u00e3o se trata apenas disso. \u00c9 preciso observar de maneira ampla o processo hist\u00f3rico de desenvolvimento do capitalismo brasileiro. Como dissemos acima, trata-se de uma cat\u00e1strofe, quase uma cr\u00f4nica de morte anunciada (desde os governos neodesenvolvimentistas), que nos projeta historicamente para uma nova forma de ser do capitalismo brasileiro, o que temos caracterizado como sendo o \u201ccapitalismo catastr\u00f3fico\u201d no sentido do rebaixamento irremedi\u00e1vel do patamar civilizat\u00f3rio, n\u00e3o mais poss\u00edvel nos pa\u00edses capitalistas dependentes e subalternos do arco hegem\u00f4nico neoliberal dos Estados Unidos e da Uni\u00e3o Europeia. Nada ser\u00e1 como antes. Com a crise do capitalismo global, o golpe de 2016 fez o \u201cajuste do poder\u201d travando qualquer veleidade de pa\u00edses como o nosso, de posicionar-se de modo soberano e independente diante da grande conflagra\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XXI: a disputa pela hegemonia do capital global entre EUA-Uni\u00e3o Europeia e China (e R\u00fassia<em>). Alea jacta est<\/em>.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">O novo cen\u00e1rio da economia brasileira, quase o avesso hist\u00f3rico daquilo que caracterizou a economia capitalista no Brasil ap\u00f3s o golpe de 1964 (outra grande fratura hist\u00f3rica operada pelas classes dominantes e sua puls\u00e3o golpista), \u00e9 o seguinte:<\/p>\n<ol>\n<li>Desindustrializa\u00e7\u00e3o galopante. A ind\u00fastria brasileira hoje responde pelo mesmo percentual do PIB que possu\u00eda em 1947.<\/li>\n<li>Incapacidade de desenvolver o setor de servi\u00e7os ligados \u00e0 ind\u00fastria.<\/li>\n<li>Queda constante de empregos formais.<\/li>\n<li>Aumento do desemprego e do n\u00famero de pessoas desalentadas (que deixaram de procurar empregos). E queda constante no percentual da popula\u00e7\u00e3o que ainda possui alguma ocupa\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<li>Aumento expressivo do ganho do rentismo.<\/li>\n<\/ol>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Clemente Ganz Lucio acerta quando diz: \u201cos efeitos dessa mudan\u00e7a ser\u00e3o sentidos por d\u00e9cadas\u201d. Mas diremos mais: o capitalismo catastr\u00f3fico no Brasil, o pa\u00eds da Casa Grande e Senzala, o pa\u00eds do fim do mundo outrora \u201cpa\u00eds do futuro\u201d (como disse Stephen Zweig, que exilou-se da Alemanha em 1940 para cometer suic\u00eddio no Brasil em 1942, deprimido com a expans\u00e3o da barb\u00e1rie nazista pela Europa durante a Segunda Guerra Mundial), tal capitalismo catastr\u00f3fico representa de modo expl\u00edcito \u2013 quase pornogr\u00e1fico \u2013 as muta\u00e7\u00f5es estruturais que ocorrerem no cen\u00e1rio da longa depress\u00e3o do capitalismo global. Dessa nova din\u00e2mica da economia capitalista no Brasil dever\u00e1 sair \u2013 e est\u00e1 saindo e saiu \u2013 um outro prec\u00e1rio mundo do trabalho. Estamos n\u00f3s preparados para ele? Ou trocamos a an\u00e1lise cr\u00edtica radical pelo lamento saudosista do passado glorioso do mundo do trabalho organizado no Brasil?<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Temos desenvolvido a ideia de que desde 2008, com a grande recess\u00e3o, o capitalismo global \u2013 com exce\u00e7\u00e3o da China e mesmo assim, com a redu\u00e7\u00e3o do seu crescimento em PIB a partir de 2014 \u2013 n\u00e3o conseguiu se recuperar a contento. As taxas de crescimento da economia ficaram abaixo daquelas de antes de 2008. Como toda depress\u00e3o da economia capitalista, desde 2008 tem ocorrido crescimento do PIB, entretanto, ele tem se demonstrado n\u00e3o-sustent\u00e1vel, n\u00e3o conseguindo operar, de modo virtuoso, o ciclo industrial cl\u00e1ssico. Na verdade, com o novo patamar da crise estrutural do capital, conceito candente do fil\u00f3sofo marxista\u00a0<a href=\"https:\/\/www2.boitempoeditorial.com.br\/autor\/istvan-meszaros-48\">Istv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros<\/a>, alterou-se a qualidade do ciclo capitalista, embora keynesianos e marxistas ainda avaliem o futuro com os \u00f3culos do passado \u2013 como se o capitalismo pudesse operar\u00a0<em>ad aeternum<\/em>\u00a0seus ciclos de crise e recupera\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o \u00e9 bem assim. O movimento do capital opera por cumulatividades que provocam saltos qualitativos, que alteram a margem de possibilidades do sistema do capital operar movimentos contratendenciais \u00e0 irremedi\u00e1vel queda da taxa de lucro e deslocamentos de suas contradi\u00e7\u00f5es metab\u00f3licas e fundamentais. O sistema do capital, incapaz de operar a \u201cdestrui\u00e7\u00e3o criativa\u201d, como diria Schumpeter, obriga-se no s\u00e9culo XXI a operar a \u201cprodu\u00e7\u00e3o destrutiva\u201d \u2013 e nesse caso, destrui\u00e7\u00e3o de trabalho vivo e da natureza como ecossistema \u2013 isso pelo menos desde a d\u00e9cada de 1970.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">A longa depress\u00e3o do capitalismo global, desde 2008, operou mudan\u00e7as radicais na din\u00e2mica do desenvolvimento das economias centrais e perif\u00e9ricas. O afundamento do Brasil ocorreu pela sua peculiaridade de ser ele, o elo mais forte do imperialismo na Am\u00e9rica do Sul, representando uma pe\u00e7a importante do xadrez geopol\u00edtico global para o Departamento de Estado norte-americano. Ocorrem deslocamentos importantes nas placas tect\u00f4nicas da geopol\u00edtica e economia global do s\u00e9culo XXI. A maioria dos cientistas sociais ainda quer apreender o futuro com os \u00f3culos do passado. Como diz o poeta, \u201co passado n\u00e3o nos serve mais\u201d. A globaliza\u00e7\u00e3o pariu\u2026o monstro.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">A lumpeniza\u00e7\u00e3o da burguesia brasileira \u00e9 resultado do processo hist\u00f3rico de crise estrutural do desenvolvimentismo que ocorre h\u00e1 d\u00e9cadas no Brasil \u2013 pelo menos desde a crise da d\u00edvida externa, em 1980. O pa\u00eds da grande burguesia senhorial, med\u00edocre e canalha, subalterna aos interesses do imperialismo desde sempre \u2013 nunca tivemos uma classe de burguesia nacional \u2013 diante da mundializa\u00e7\u00e3o do capital, renunciou qualquer projeto protag\u00f4nico de economia em desenvolvimento, operando na\u00a0<em>terra brasilis<\/em>\u00a0a integra\u00e7\u00e3o subalterna \u00e0 mundializa\u00e7\u00e3o financeira. Esse foi o projeto\u00a0<em>ag\u00f4nico<\/em>\u00a0do \u201cpr\u00edncipe dos soci\u00f3logos\u201d (Fernando Henrique Cardoso), que teve o nobre papel de operador do\u00a0<em>Brazil S.A<\/em>\u00a0nos idos da d\u00e9cada de 1990, \u201csuperando\u201d a depend\u00eancia pela integra\u00e7\u00e3o do Brasil \u00e0 ordem global, renunciando a qualquer projeto civilizat\u00f3rio do velho MDB de Ulisses Guimar\u00e3es e Severo Gomes e o PSDB raiz de Franco Montoro e Mario Covas. A burguesia paulista, exemplo-mor da longa degrada\u00e7\u00e3o burguesa no Brasil, lumpenizou-se, tendo hoje nos seus pr\u00f3ceres pol\u00edticos, a express\u00e3o singela da farsa pseudo-desenvolvimentista (quem diria, Franco Montoro \u201cacabou no Iraj\u00e1\u201d\u2026 com Jo\u00e3o D\u00f3ria). A integra\u00e7\u00e3o subalterna \u00e0 mundializa\u00e7\u00e3o neoliberal caracterizou os governos neoliberais desde Collor, FHC, Temer e Bolsonaro (o fim da picada, como dir\u00edamos).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Enfim, a\u00a0<em>lumpeniza\u00e7\u00e3o\u00a0<\/em>da burguesia no Brasil tem como contraface, a\u00a0<em>lumpeniza\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0do seu proletariado imerso na condi\u00e7\u00e3o de proletariedade. Capital e Trabalho, p\u00f3los ant\u00edpodas e reflexivos se bastam. Presenciamos hoje, a realiza\u00e7\u00e3o daquilo que o saudoso Francisco de Oliveira caracterizou como o desmonte do trabalho na mesma medida do desmonte do projeto de desenvolvimento capitalista (Maria da Concei\u00e7\u00e3o Tavares que o diga). Enfim, em 30 anos de capitalismo\u00a0 neoliberal no Brasil, alteraram-se os fundamentos de possibilidade efetiva da civiliza\u00e7\u00e3o brasileira. N\u00e3o se trata apenas de mercado de trabalho propriamente dito ou da economia brasileira como exposto acima. H\u00e1 d\u00e9cadas o Brasil tem se tornado outro Brazil (o que uma certa esquerda marxista saudosa do s\u00e9culo XX insiste em n\u00e3o querer refletir \u2013 o que n\u00e3o \u00e9 nenhuma novidade). Como tratamos acima, a nova precariedade salarial se disseminou e deu saltos qualitativamente novos, adquirindo formas exuberantes com outro nome: \u201cuberiza\u00e7\u00e3o do trabalho\u201d, um termo que\u00a0<em>n\u00e3o<\/em>\u00a0diz absolutamente nada, a n\u00e3o ser que o mundo do trabalho n\u00e3o \u00e9 mais o mesmo. A velha precariedade salarial foi substitu\u00edda pela nova precariedade\u00a0<em>informacionalizada\u00a0<\/em>e\u00a0<em>informalizada<\/em>, como diria Ricardo Antunes. A \u201cnova informaliza\u00e7\u00e3o\u201d do trabalho vivo sob o capital, oculta cada vez mais o car\u00e1ter de subalternidade estrutural \u00e0 l\u00f3gica do valor. Entretanto, a morfologia do trabalho vivo alterou o movimento da \u201cclasse\u201d do proletariado na raiz, isto \u00e9, nas condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o da vida social. Tem ocorrido densas (e profundas) mudan\u00e7as sociometab\u00f3licas na forma do trabalho vivo. \u00c9 isso que precisamos investigar para ir al\u00e9m da mesmice empirista da sociologia (e economia) do trabalho. Do precariado aos proletar\u00f3ides (o proletariado com cabe\u00e7a burguesa), afirma-se uma nova objetividade e subjetividade do novo e prec\u00e1rio mundo do trabalho para al\u00e9m de sua forma tecnol\u00f3gica (informacional, dita \u201cuberizada\u201d), que tem v\u00e1rias faces vivas que precisam ser decifradas a partir da estrutura da sua cotidianidade sobrevivencialista. \u00c9 preciso uma vis\u00e3o de conjunto que a sociologia do trabalho convencional \u00e9 incapaz de fazer devido ao seu DNA positivista. Ao inv\u00e9s de descrever a totalidade concreta, o empiriscista goza com o fragmento que capta no pobre (e deslumbrante) dado emp\u00edrico. A aus\u00eancia da l\u00f3gica dial\u00e9tica exp\u00f5e o nanismo critico-anal\u00edtico do positivismo crassante na sociologia (e economia) do trabalho (a psicologia do trabalho \u00e9 uma caso a parte: incapaz de articular estrutura e a\u00e7\u00e3o social, objetividade e subjetividade, suas percep\u00e7\u00f5es emp\u00edricas do ps\u00edquico laboral se esfumam no ar). As novas muta\u00e7\u00f5es do capital \u201cafetado de nega\u00e7\u00e3o\u201d devido ao \u201csalto mortal\u201d\u00a0 da produtividade do trabalho, exige no plano\u00a0 do conhecimento cr\u00edtico, o desvendamento da totalidade social da \u201cclasse\u201d a partir de seus fundamentos da economia pol\u00edtica. O movimento da \u201cclasse\u201d deve ser apreendido nos nexos efusivos das suas contradi\u00e7\u00f5es fundamentais (e n\u00e3o-fundamentais) operantes no plano mediativo da estrutura da vida cotidiana dos sujeitos. Al\u00e9m disso, o movimento da \u201cclasse\u201d deve ser apreendido n\u00e3o apenas a partir de si, mas a partir de seu ant\u00edpoda (a burguesia e suas fra\u00e7\u00f5es e seu Estado pol\u00edtico), com suas muta\u00e7\u00f5es sendo operadas pela lei da concorr\u00eancia entre os m\u00faltiplos capitais (a exposi\u00e7\u00e3o do Livro 1, 2 e 3 de\u00a0<em>O Capital<\/em>, de Karl Marx, nos ensina a perfilar onto-metodologicamente o movimento da cr\u00edtica da positividade do capital.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">A figura bizarra do \u201cproletaroide de classe m\u00e9dia\u201d merece um artigo \u00fanico capaz de decifr\u00e1-lo. Ele \u00e9 o microempreendedor individual ou apenas empres\u00e1rio de si que n\u00e3o \u00e9 nada mais do que um prolet\u00e1rio de si mesmo. Incapaz de consci\u00eancia de classe, torna-se delirante e adoece diante da contradi\u00e7\u00e3o \u201cnua e crua\u201d do capital. \u00a0O capitalismo farsesco no Brasil, de t\u00e3o exuberante, tornou-se nauseabundo. A consci\u00eancia de classe foi afetada na sua base matricial, embora se manifeste de forma fantasiosa ou farsesca nos r\u00f3tulos identit\u00e1rios (o que n\u00e3o tem nada a ver \u2013 de imediato \u2013 com a classe social). Na verdade, o identitarismo e seus recortes ideol\u00f3gicos s\u00e3o um sintoma do apodrecimento e lumpeniza\u00e7\u00e3o do proletariado brasileiro \u2013 na mesma medida do seu ant\u00edpoda, a classe dos capitalistas brasileiros que se encontra hoje representado na figura hoje grotesca de Paulo Guedes.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">A cr\u00edtica ao identitarismo e \u00e0 pol\u00edtica das diferen\u00e7as \u00e9 necess\u00e1ria mais do que nunca, e n\u00e3o deve confundir-se com o n\u00e3o-reconhecimento das diferen\u00e7as de g\u00eanero, cor\/ra\u00e7a, etnia, etc \u2013 que constituem a classe social. A categoria que opera a emancipa\u00e7\u00e3o social \u00e9 \u2013 sem mais, nem menos \u2013 a categoria de classe social. \u00c9 a partir dela que se deve organizar a luta de classes capaz de enfrentar o capital. Trata-se de verdade hist\u00f3rica indiscut\u00edvel. \u00c9 claro que se pode e deve-se fazer a luta de classes articulando a luta das mulheres e negros\u00a0<em>que trabalham<\/em>, mas refor\u00e7ando no plano da consci\u00eancia contingente, a necess\u00e1ria consci\u00eancia de classe. A dissemina\u00e7\u00e3o da ideologia identitarista, tal como observamos hoje no seio do movimento social do Brasil, \u00e9 tamb\u00e9m resultado da fraqueza estrutural da esquerda socialista brasileira. Nesse ponto, perdemos feio a luta ideol\u00f3gica para a burguesia\u00a0<em>lumpenizada<\/em>\u00a0que possui e muito, uma poderosa m\u00e1quina de formar (e deformar) a consci\u00eancia contingente da \u201cclasse\u201d. Tal ideologia liberal permeia inclusive, partidos de esquerda (PT e PSOL). Enfim, a fragilidade objetiva e subjetiva do proletariado brasileiro torna-o ref\u00e9m de fantasias ideol\u00f3gicas \u2013 e algumas delas, delirantes \u2013 tal como o empreendendorismo e o identitarismo de cunho liberal (quase sintom\u00e1tico da crise do sentido e ensimesmamento que corr\u00f3i a subjetividade do proletariado popular e de classe m\u00e9dia no Brasil).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Finalmente, podemos concluir que as mudan\u00e7as estruturais da reprodu\u00e7\u00e3o social n\u00e3o tem sido tratadas de modo candente pelos analistas sociais na perspectiva de mudan\u00e7as sociometab\u00f3licas do trabalho vivo (a sociologia do trabalho tem privilegiado a descri\u00e7\u00e3o da morfologia do trabalho ao inv\u00e9s da apreens\u00e3o do metabolismo social do capital \u2013 a articula\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica entre objetividade e subjetividade do trabalho vivo). Vejamos algumas linhas de problematiza\u00e7\u00e3o do trabalho hoje: \u00e9 importante dar aten\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as demogr\u00e1ficas no Brasil dos \u00faltimos trinta anos, que envelheceu demograficamente e desperdi\u00e7ou na virada da d\u00e9cada de 2010 para 2020, o \u201cb\u00f4nus demogr\u00e1fico\u201d que, segundo alguns autores, poderia coloc\u00e1-lo numa posi\u00e7\u00e3o mais confort\u00e1vel no suposto desenvolvimento social imaginado pelos dem\u00f3grafos e reformistas de plant\u00e3o. Expressam-se no Brasil, tend\u00eancias de desenvolvimento globais. Envelhecemos de modo acelerado por conta da queda da taxa de fertilidade, que teve uma queda abrupta nas \u00faltimas d\u00e9cadas (o mesmo est\u00e1 ocorrendo desde a d\u00e9cada de 1970, pelo menos, com todos os pa\u00edses do capitalismo global, talvez com exce\u00e7\u00e3o ainda da \u00cdndia e da \u00c1frica subsaariana). Portanto, n\u00e3o \u00e9 apenas o Brasil que envelhece, mas o mundo global por conta da dita Segunda Transi\u00e7\u00e3o Demogr\u00e1fica. A partir da\u00ed, deve crescer no s\u00e9culo XXI aquilo que denominamos \u201c<a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2015\/01\/19\/prometeu-envelhecido-proletariedade-e-velhice-no-seculo-xxi\/\">gerontariado<\/a>\u201c. Portanto, tem-se alterado, a m\u00e9dio e longo prazo, o metabolismo social do trabalho vivo no Brasil. A for\u00e7a de trabalho mais envelhecida vai ser diferente no plano sociometab\u00f3lico daquela mais jovem que caracterizou o Brasil do desenvolvimentismo.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Outro elemento de mudan\u00e7a estrutural da sociabilidade do trabalho no Brasil s\u00e3o as novas formas de\u00a0<em>organiza\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia<\/em>\u00a0nas camadas populares e \u201cclasses m\u00e9dias\u201d proletarizadas. \u00c9 preciso incorporar \u00e0 percep\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as estruturais nesse grupo fundamental da sociedade brasileira, o entendimento das novas dimens\u00f5es da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho que \u00e9 tamb\u00e9m precariza\u00e7\u00e3o da vida com rebatimentos na vida familiar. \u00c0s muta\u00e7\u00f5es da organiza\u00e7\u00e3o familiar e da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho e da vida, confluem-se (e retroalimentam) a emerg\u00eancia disruptiva, no plano sociocultural, de novas subjetividades (identidades) sexuais que objetivamente entram em contradi\u00e7\u00e3o com a estrutura tradicionalista da vida brasileira.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">O desmoronamento da Tradi\u00e7\u00e3o, Fam\u00edlia e Propriedade no Brasil, por conta da decomposi\u00e7\u00e3o do projeto civilizat\u00f3rio desenvolvimentista e das for\u00e7as centr\u00edfugas do capitalismo global a partir da d\u00e9cada de 1990, instaurou no campo simb\u00f3lico-subjetivo uma profunda crise de sentido ou crise espiritual. Imerso nas afli\u00e7\u00f5es do capitalismo catastr\u00f3fico, as individualidades pessoais \u201cpobres de esp\u00edrito\u201d nas sociedades p\u00f3s-tradicionalistas foram conduzidas como rebanho \u00e0s hostes da Teologia da Prosperidade, a face cripto-religiosa do capitalismo manipulat\u00f3rio nas suas vers\u00f5es populares e de classe m\u00e9dia ressentida. O vazio espiritual deflagrado pela burocratiza\u00e7\u00e3o da esquerda social e pol\u00edtica que se afastou da organiza\u00e7\u00e3o de base (sindical e associativa) e da forma\u00e7\u00e3o da classe dando-lhes um sentido \u00e0 grande pol\u00edtica; a omiss\u00e3o reacion\u00e1ria do catolicismo neodireitista e carism\u00e1tico, impulsionado pela\u00a0<em>gest\u00e3o<\/em>\u00a0de Jo\u00e3o Paulo II no Vaticano, o Papa neoliberal que desmontou os focos da Teologia de Liberta\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina e afastou a Igreja da afli\u00e7\u00e3o dos pobres; e a prolifera\u00e7\u00e3o da \u201cvida reduzida\u201d impulsionada pelo capitalismo neoliberal indiferente \u00e0s mis\u00e9rias do cotidiano do proletariado na sua singularidade pessoal, contribu\u00edram para a irrup\u00e7\u00e3o das seitas evang\u00e9licas, \u201ccorreias de transmiss\u00e3o\u201d do jogo da politicagem metropolitana de direita e instrumento de lavagem de dinheiro (o que explica a intercess\u00e3o do crime organizado pelo narcotr\u00e1fico, mundo financeiro e pol\u00edtico e Igrejas neopentecostais no Brasil). Isto tudo \u00e9 tamb\u00e9m uma problem\u00e1tica do trabalho nas condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas do capitalismo catastr\u00f3fico.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Portanto, ocorrem significativos deslocamentos das placas tect\u00f4nicas na produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o social do trabalho vivo nas condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas de crise do capitalismo global. \u00c9 mediocridade critico-anal\u00edtica de cariz positivista fragmentar o real hist\u00f3rico e reduzir a problem\u00e1tica do trabalho \u00e0 dimens\u00e3o salarial. A \u201cclasse\u201d se faz classe como sujeito hist\u00f3rico no plano sociometab\u00f3lico \u2013 que inclui o politico-ideol\u00f3gico. Diante das muta\u00e7\u00f5es sociol\u00f3gicas e antropol\u00f3gicas da sociedade brasileira nos trinta anos de neoliberalismo, o capital recomp\u00f5e suas formas de domina\u00e7\u00e3o adequadas \u00e0 era da barb\u00e1rie social. Por isso se explica a crise terminal da esquerda social e pol\u00edtica, inclusive a de cariz social-liberal como o PT e PSOL, que sob press\u00e3o das mudan\u00e7as geol\u00f3gicas do social, reativo \u00e0s emerg\u00eancias indicadas acima, \u00e9 obrigado a adaptar-se \u00e0 contingencia alienada da \u201cclasse\u201d, tendo em vista que renunciou em form\u00e1-la como sujeito hist\u00f3rico.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">No plano epist\u00eamico salientado acima, a perspectiva p\u00f3s-modernista \u00e9 incapaz de fazer a apreens\u00e3o totalizante, cr\u00edtica e dial\u00e9tica, hist\u00f3rica e materialista do mundo do trabalho. O p\u00f3s-modernismo corr\u00f3i efusivamente o pensamento critico, sendo um contributo inestim\u00e1vel \u00e0 mis\u00e9ria ideol\u00f3gica brasileira. \u00c9 ele que rebaixa o n\u00edvel cognitivo dos intelectuais acad\u00eamicos imersos nos seus particularismos de carreira e impressionismos festivos pseudo-cr\u00edticos. Ao inv\u00e9s de resgatar a vis\u00e3o da totalidade social, \u00fanica capaz de fazer a cr\u00edtica do capital, cai na vis\u00e3o particularista e fragment\u00e1ria do real.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Enfim, como\u00a0<em>n\u00e3o<\/em>\u00a0nos preparamos para o futuro \u2013 o futuro j\u00e1 chegou; e como temos uma lumpen-burguesia rentista-parasit\u00e1ria obcecada exclusivamente apenas em espoliar (e obter renda) da Natureza (trabalho vivo e ecossistema natural), tal como tem sido h\u00e1 s\u00e9culos (diria Caio Prado Jr., eis o sentido da coloniza\u00e7\u00e3o), tais problemas emergentes do s\u00e9culo XXI devem tornar-se uma trag\u00e9dia catastr\u00f3fica para o Brasil: mudan\u00e7as socioculturais de cariz p\u00f3s-tradicionalista (a implos\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o familiar, irrup\u00e7\u00e3o das novas identidades sexuais, o disrup\u00e7\u00e3o do protagonismo da mulher numa sociedade patriarcal-machista, a ascens\u00e3o do neopentecostalismo, etc); mudan\u00e7as ecol\u00f3gicas (o colapso ambiental decorrente da cr\u00f4nica devasta\u00e7\u00e3o promovida por uma burguesia de esp\u00edrito predador: polui\u00e7\u00e3o do ecossistema, devasta\u00e7\u00e3o de florestas e extin\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies, etc.); e mudan\u00e7as demogr\u00e1ficas (o envelhecimento populacional e altera\u00e7\u00f5es na estrutura et\u00e1ria do mundo do trabalho). Em linhas gerais, esses s\u00e3o os desafios e o fardo do tempo hist\u00f3rico da sociedade brasileira no s\u00e9culo XXI, isto \u00e9, a cat\u00e1strofe do trabalho no Brasil.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Na medida em que sistemas p\u00fablicos de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o est\u00e3o sucateados (que o diga a pandemia!) e,\u00a0 ao mesmo tempo, os sistemas de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o de massa ou ainda, os fornecedores do \u201c\u00f3pio do povo\u201d est\u00e3o \u2013 como n\u00e3o poderiam deixar de ser num Estado capitalista \u2013 a servi\u00e7o da lumpen-burguesia, o capitalismo catastr\u00f3fico brasileiro exp\u00f5e de forma fulgurante a incapacidade da sua classe dominante de enfrentar os desafios do futuro que nos batem \u00e0 porta. Essa \u00e9 uma das li\u00e7\u00f5es da pandemia que deve ser dita e amplificada.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Concluiremos o longo artigo com a esperan\u00e7a de que, diante da pandemia, a quest\u00e3o da sa\u00fade p\u00fablica possa ser politizada no sentido da forma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia de classe. Vacina \u00e9 importante, mas recursos or\u00e7ament\u00e1rios para ampliar e fortalecer o SUS s\u00e3o mais importantes ainda, pois se morre no Brasil de muitas doen\u00e7as infecciosas, al\u00e9m da pandemia de transtornos mentais \u2013 e isso deve aumentar nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas devido \u00e0s muta\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas globais. Entretanto, para que isso ocorra, \u00e9 preciso mudar o Estado brasileiro e n\u00e3o apenas o governo: derrubar a lei do teto do gasto p\u00fablico e a obsess\u00e3o com a responsabilidade fiscal em detrimento do bem-estar social, \u00e9 condi\u00e7\u00e3o\u00a0<em>sine qua non<\/em>\u00a0para fortalecer os servi\u00e7os p\u00fablicos de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o. Essa \u00e9 a maior quest\u00e3o do mundo do trabalho no Brasil nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. Apesar da esperan\u00e7a, n\u00e3o vejo sujeito pol\u00edtico, nem classe social efetiva capaz de operar a constru\u00e7\u00e3o do novo Estado brasileiro. Essa \u00e9 a nossa trag\u00e9dia.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Um pa\u00eds de pobres e miser\u00e1veis como o Brasil deve sofrer muito os impactos das \u201ccontradi\u00e7\u00f5es metab\u00f3licas\u201d do capital (como tenho discutido alhures), tanto quanto o movimento das \u201ccontradi\u00e7\u00f5es fundamentais\u201d do capitalismo brasileiro. No capitalismo da Quarta Revolu\u00e7\u00e3o Industrial ou Ind\u00fastria 4.0, o trabalho vivo (e a for\u00e7a de trabalho) tornou-se demasiadamente redundante. A superpopula\u00e7\u00e3o relativa\u00a0 do capital cresceu de forma exacerbada, alterando-se qualitativamente, tornando-se assim, um fardo pesado para o capital global. Existe hoje uma multid\u00e3o imensa de pessoas\u00a0<em>sem valor<\/em>. Na medida em que ocorre a dessubstancializa\u00e7\u00e3o do capital, imp\u00f5e-se a l\u00f3gica autom\u00e1tica do capital como valor \u201cafetado de nega\u00e7\u00e3o\u201d. Tendo em vista a sua recomposi\u00e7\u00e3o catastr\u00f3fica, o desenvolvimento do valor imp\u00f5e um movimento contundente de\u00a0<em>desvaloriza\u00e7\u00e3o<\/em>, n\u00e3o apenas do capital constante (Quarta Revolu\u00e7\u00e3o Industrial), mas do capital vari\u00e1vel (a for\u00e7a de trabalho). Portanto, a l\u00f3gica das coisas \u00e9 a l\u00f3gica da morte, isto \u00e9, necropol\u00edtica \u2013 consciente ou n\u00e3o. Fiquemos atentos: o Brasil tem uma larga tradi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica nisso. Por isso, estamos na linha de frente do rebaixamento civilizat\u00f3rio global e a nossa condi\u00e7\u00e3o colonial-escravista nos qualifica para isso. A pandemia foi uma gra\u00e7a divina do Deus Capital. No caso do Brasil, a barb\u00e1rie social faz parte da ordem das coisas h\u00e1 d\u00e9cadas e deve agravar-se mais. Como diria o velho Karl Marx,\u00a0<em>hic Rhodus, hic salta<\/em>!.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: A cat\u00e1strofe do trabalho no Brasil \u2013 Blog da Boitempo &#8211; https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2021\/04\/30\/a-catastrofe-do-trabalho-no-brasil\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Giovanni Alves &#8211; Giovanni Alves reflete sobre os \u00faltimos anos do neoliberalismo no Brasil e a cat\u00e1strofe no mundo do trabalho, agravada ainda mais profundamente em raz\u00e3o das consequ\u00eancias do novo coronav\u00edrus. 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