{"id":18066,"date":"2022-07-17T12:08:38","date_gmt":"2022-07-17T15:08:38","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18066"},"modified":"2022-07-14T18:29:27","modified_gmt":"2022-07-14T21:29:27","slug":"entre-a-obsolescencia-programada-e-a-eternidade-transumanista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/07\/17\/entre-a-obsolescencia-programada-e-a-eternidade-transumanista\/","title":{"rendered":"Entre a obsolesc\u00eancia programada e a eternidade transumanista"},"content":{"rendered":"<p><strong>Marta Kanashiro<\/strong> &#8211; <em>Voc\u00eas que vivem seguros em suas c\u00e1lidas casas, voc\u00eas que, voltando \u00e0 noite, encontram comida quente e rostos amigos, pensem bem se isto \u00e9 um homem que trabalha no meio do barro, que n\u00e3o conhece paz, que luta por um peda\u00e7o de p\u00e3o, que morre por um sim ou por um n\u00e3o.\u00a0<\/em>(\u00c9 isto um homem?,\u00a0<em>Primo Levi<\/em>) (1)<\/p>\n<p>A\u00a0obsolesc\u00eancia programada, express\u00e3o que comp\u00f5e o t\u00edtulo deste artigo, est\u00e1 voltada para o universo da produ\u00e7\u00e3o de bens de consumo de curta vida \u00fatil, ocasionando um n\u00famero maior de compras desses produtos por parte dos consumidores. Como eixo central de um projeto para estimular consumo e produ\u00e7\u00e3o, essa perspectiva surgiu em 1932, com o artigo escrito pelo investidor imobili\u00e1rio Bernard London, sob o t\u00edtulo \u201cO fim da depress\u00e3o atrav\u00e9s da obsolesc\u00eancia programada\u201d (2).<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 30, London buscava uma estrat\u00e9gia para superar a crise econ\u00f4mica de 1929 e provavelmente n\u00e3o imaginava que quase um s\u00e9culo depois a ideia estaria n\u00e3o apenas vigente, mas em pleno funcionamento como modo corrente de produ\u00e7\u00e3o e consumo, causando graves problemas como a gera\u00e7\u00e3o de lixo, o desperd\u00edcio de recursos e impactos muito negativos sobre o meio ambiente e a sa\u00fade (3). Em parte, talvez j\u00e1 estiv\u00e9ssemos diante do que muito mais tarde Naomi Klein (4) chamou de doutrina do choque, referindo-se a solu\u00e7\u00f5es implementadas em meio \u00e0s crises ou desastres, que se tornam duradouras e comp\u00f5em a expans\u00e3o de modos de funcionamento do capitalismo.<\/p>\n<p>Vinte e quatro anos depois da proposta de Bernard London, o fil\u00f3sofo G\u00fcnther Anders (5) estava atento \u00e0 centralidade do consumo e \u00e0 velocidade de transforma\u00e7\u00e3o dos produtos que o humano fabricava. Esse processo visto por Anders resultava na incapacidade de estarmos atualizados com aquilo que produz\u00edamos ou naquilo que ele denominou como uma das diferen\u00e7as que comp\u00f5em o desn\u00edvel prometeico. \u201cAl\u00e9m da diferen\u00e7a considerada pelo marxismo\u201d, nos diz Anders, \u201ch\u00e1 o desn\u00edvel entre fazer e imaginar, entre agir e sentir, entre ci\u00eancia e consci\u00eancia e, enfim, e principalmente, entre o instrumento fabricado e o corpo humano, que n\u00e3o \u00e9 feito com a mesma medida do corpo do instrumento\u201d. A partir dessa assincroniza\u00e7\u00e3o, Anders conecta a velocidade de transforma\u00e7\u00e3o daquilo que produzimos com uma incapacidade de pensar consequ\u00eancias, afinal, quando imaginar vem depois de fazer, o ser humano \u00e9 capaz de fabricar uma bomba de hidrog\u00eanio sem antever os resultados. Guiado pela no\u00e7\u00e3o moderna de progresso, o desenvolvimento constr\u00f3i-se, para este autor, junto com a cegueira para o apocalipse. Assim, dentre as quest\u00f5es fundamentais exploradas pelo fil\u00f3sofo e que atravessam os temas da t\u00e9cnica, da velocidade e do consumo est\u00e1 o nazismo e a capacidade humana de aniquilar a humanidade.<\/p>\n<p>Para Anders, o humano segue a reboque da velocidade de transforma\u00e7\u00e3o daquilo que ele mesmo produz, num ritmo ao qual se deve adequar mas que excede a sua condi\u00e7\u00e3o humana, colocando em quest\u00e3o seus pr\u00f3prios limites ou, no caso da bomba, a sua pr\u00f3pria exist\u00eancia. Como aquele que se ad\u00e9qua ao que \u00e9 produzido, o humano se torna produto, parte ou engrenagem de um conjunto maior, mas integrando-o a partir da percep\u00e7\u00e3o de ser o humano o \u201chumilhad\u00edssimo retardat\u00e1rio\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 com essa sequ\u00eancia que vai da obsolesc\u00eancia programada de London ao humano antiquado e humilhado de Anders, portador de uma vergonha prometeica, que \u00e9 poss\u00edvel come\u00e7ar a vislumbrar elementos e contornos de um modo de pensar que cria condi\u00e7\u00f5es de possibilidade para a extrapola\u00e7\u00e3o ou melhoramento do humano, tal como pretende o transumanismo. Se com Anders vemos emergir a obsolesc\u00eancia do humano, com o transumanismo pode-se ver como essa \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de obsolesc\u00eancia programada.<\/p>\n<p>Ainda que essa trajet\u00f3ria pudesse ser tra\u00e7ada a partir de muitos outros autores, passar de Bernard London \u00e0 G\u00fcnther Anders permite destacar alguns elementos singulares. Em primeiro, a produ\u00e7\u00e3o como parte de um circuito simultaneamente marcado pela velocidade, pela descartabilidade e pela sensa\u00e7\u00e3o de insufici\u00eancia, seja dos produtos que nunca chegam a adquirir durabilidade, seja do humano que nunca est\u00e1 atualizado diante daquilo que produz. Insufici\u00eancia e descartabilidade s\u00e3o dois aspectos importantes que ser\u00e3o retomados logo adiante e que requerem destaque a esta altura do artigo pela sua conex\u00e3o na atualidade com o esgotamento dos recursos planet\u00e1rios, da sa\u00fade humana, animal e ambiental, em suma, com processos de destrui\u00e7\u00e3o da vida e das condi\u00e7\u00f5es de sua reprodu\u00e7\u00e3o em todas as suas dimens\u00f5es.<\/p>\n<p><span class=\"wpsdc-drop-cap\">O<\/span>utro ponto importante que pode ser pensado a partir de Anders \u00e9 que se por um lado podemos ver em seu trabalho uma esp\u00e9cie de incapacidade de ag\u00eancia ou de resist\u00eancia do humano diante da tecnologia por ele criada, tamb\u00e9m podemos ver o produto da cria\u00e7\u00e3o ou da ag\u00eancia humana entrar numa rela\u00e7\u00e3o circular ou de retroalimenta\u00e7\u00e3o que coloca em cheque o pr\u00f3prio humano e sua capacidade de imaginar, movimento este que se n\u00e3o \u00e9 impeditivo de futuras transforma\u00e7\u00f5es que escapem a esse\u00a0<em>loop,<\/em>\u00a0ao menos cria muitos entraves. Colocar a situa\u00e7\u00e3o nesses termos se relaciona\u00a0 com um recurso que Anders chamou de \u201cexagera\u00e7\u00e3o\u201d com vistas a, por um lado, estar de acordo com os exageros do pr\u00f3prio desenvolvimento tecnol\u00f3gico e, por outro, instigar a olhar a trajet\u00f3ria que est\u00e1 sendo trilhada, aonde h\u00e1 metamorfoses em andamento. Assim, talvez diga menos sobre incapacidade de ag\u00eancia e mais sobre o tamanho do problema e a quantidade de empenho necess\u00e1rio para a cria\u00e7\u00e3o de possibilidades novas que rompam com esse circuito.<\/p>\n<p>Enquanto G\u00fcnther Anders, em 1956, expunha de forma provocativa a obsolesc\u00eancia do humano em termos de uma revis\u00e3o da nossa incapacidade de imaginar e de questionar o aniquilamento da humanidade, o bi\u00f3logo Julian Huxley (em 1957) cunhava o termo transumanismo em seu ensaio \u201cNew bottles for new wine\u201d (6). Ainda que o termo apare\u00e7a pela primeira vez com Huxley, as ideias do transumanismo visando o aperfei\u00e7oamento do humano j\u00e1 transitavam desde a d\u00e9cada de 1920, sendo que alguns autores veem, nesse per\u00edodo, poss\u00edveis aproxima\u00e7\u00f5es do transumanismo com o pensamento eugenista.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, muitos diferentes grupos t\u00eam desenvolvido ci\u00eancia e tecnologia mirando o \u201chumano aumentado\u201d, \u201campliado\u201d, \u201cmelhorado\u201d (ou simplesmente h+) seja em seu desempenho f\u00edsico ou mental, ou na supera\u00e7\u00e3o de \u201cproblemas\u201d humanos como o envelhecimento e a morte. \u00c9 nesse sentido que alguns transumanistas compreendem que o humano (se ainda puder ser chamado assim) que resultar\u00e1 desse processo ser\u00e1 enfim o pr\u00f3ximo passo da nossa escala evolutiva. Na atualidade, a vertiginosa acelera\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica que pode levar ao h+ \u00e9 especialmente atravessada pela converg\u00eancia de, pelo menos, quatro \u00e1reas, conhecidas pela sigla em ingl\u00eas NBIC: nanotecnologia, biotecnologia, tecnologias da informa\u00e7\u00e3o e ci\u00eancias cognitivas, as quais provavelmente Elon Musk acrescentaria aquelas que podem possibilitar viagens espaciais.<\/p>\n<p><span class=\"wpsdc-drop-cap\">A<\/span>s grandes empresas de tecnologia, em sua maioria localizadas no Vale do Sil\u00edcio (Calif\u00f3rnia), abrigam muitos entusiastas do transumanismo, incluindo os singularistas que preveem que o crescimento exponencial dessas tecnologias alcan\u00e7ar\u00e1 de forma s\u00fabita um ponto de n\u00e3o retorno, mudando por completo o ser humano, provavelmente atingindo um formato que enfim tenha superado a morte e o envelhecimento. Eis a eternidade transumanista superando as condi\u00e7\u00f5es humanas.<\/p>\n<p>Como indiquei anteriormente, em um texto (7) de 2008, ainda que previs\u00f5es como essa n\u00e3o sejam certeiras, importa menos o acerto do que o projeto que se cria ao enunci\u00e1-las. Nesse sentido, \u00e9 para o que se produz na atualidade que se deve deslocar a observa\u00e7\u00e3o, a ponto de compreendermos que previs\u00f5es podem ser um guia para colonizar o futuro, em especial considerando que s\u00e3o realizados vultuosos investimentos para que o futuro tenha o sentido e a dire\u00e7\u00e3o que correspondam ao que se previu. Com o transumanismo \u201cvem \u00e0 tona uma s\u00e9rie de projetistas como Irving John Good, Marvin Minsky, Vernor Vinge, Hans Moravec, e at\u00e9 Craig Venter, todas as suas empresas, patentes, financiamentos, debates, disputas e apostas no futuro a ser colonizado\u201d. A obsolesc\u00eancia do humano aqui \u00e9 programada como parte de um projeto bastante espec\u00edfico de futuro.<\/p>\n<p>Para continuar deslocando a observa\u00e7\u00e3o para o que \u00e9 produzido no presente tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio desconectar a recorrente aproxima\u00e7\u00e3o dessa perspectiva de um universo ficcional. Quando dizemos que com o transumanismo o limite humano estar\u00e1 rompido, extrapolado, e que n\u00e3o ser\u00e1 mais tal qual o conhecemos, as imagens da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica parecem chegar mais r\u00e1pido \u00e0s mentes do que aquilo que talvez esteja muito mais pr\u00f3ximo de todos n\u00f3s. Ali\u00e1s, esse \u00e9 o motivo pelo qual busquei n\u00e3o mencionar neste texto nenhum dos feitos prometidos e relativos \u00e0 intelig\u00eancia artificial ou qualquer outro tema vinculado a essa acelera\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. Enquanto ocupamos a nossa capacidade de imaginar com a fascina\u00e7\u00e3o pela tecnologia ou com a atribui\u00e7\u00e3o de descr\u00e9dito ao transumanismo pelo seu car\u00e1ter fantasioso e ficcional, deixamos de avaliar a concretude dessas propostas hoje e a produtividade desse projeto que, em andamento, j\u00e1 imprime efeitos na realidade cotidiana.<\/p>\n<p>Esse deslocamento requer ainda que se note alguns pontos que recentemente indiquei no pref\u00e1cio da tradu\u00e7\u00e3o brasileira do livro\u00a0<a href=\"https:\/\/editoraperspectiva.com.br\/produtos\/pre-venda-os-robos-fazem-amor-o-transumanismo-em-doze-questoes-laurent-alexandre-e-jean-michel-besnier\/\" rel=\"noopener\"><em>Rob\u00f4s fazem amor?<\/em><\/a>\u00a0(8). Em primeiro lugar \u00e9 preciso constatar que as grandes empresas de tecnologia que sustentam e incentivam o projeto transumanista t\u00eam uma inigual\u00e1vel possibilidade de influ\u00eancia sobre governos e sobre o futuro por reunirem mais informa\u00e7\u00e3o do que muitos Estados Nacionais e por somarem juntas mais do que o Produto Interno Bruto da maior parte dos pa\u00edses do planeta. Em segundo \u00e9 necess\u00e1rio sublinhar fortemente que transumanistas como Alexandre Laurent e muitos outros reduzem algumas quest\u00f5es pol\u00edticas a um erro inerentemente humano, ligado \u00e0s emo\u00e7\u00f5es humanas, destacando que esse \u00e9 um defeito que as m\u00e1quinas n\u00e3o possuem (9). Essa perspectiva deixa entrever \u201cos desejos cibern\u00e9ticos de expuls\u00e3o do humano recaindo sobre a nega\u00e7\u00e3o das possibilidades da linguagem humana, da filosofia, das artes, da partilha do sens\u00edvel (10), assim como, das capacidades humanas de negociar, argumentar, deliberar e fazer pol\u00edtica\u201d. Ainda neste pref\u00e1cio, destaco que Laurent indica claramente que \u201cuma pol\u00edtica cibern\u00e9tica ou de intelig\u00eancia artificial, que atua puramente como gest\u00e3o e c\u00e1lculo, dentro de uma l\u00f3gica computacional bin\u00e1ria de erro e acerto, j\u00e1 est\u00e1 em elabora\u00e7\u00e3o, especialmente conduzida pelas empresas que comp\u00f5em a sigla GAFAM (Google, Apple, Facebook, Microsoft). \u00c9 dessa forma que o transumanismo flerta com uma perspectiva reduzida da no\u00e7\u00e3o de pol\u00edtica, e que traz como constituinte um alto potencial totalit\u00e1rio.\u201d (8)<\/p>\n<p>Al\u00e9m desses aspectos, observar o transumanismo em suas produ\u00e7\u00f5es mais atuais exige que se observe como esse modo de pensamento \u00e9 atravessado pela no\u00e7\u00e3o de insufici\u00eancia e descartabilidade anteriormente anunciadas neste artigo. Na l\u00f3gica da acelera\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica a insufici\u00eancia humana (ou aquilo que nos faz t\u00e3o humanos) transforma-se em falha e erro e a descartabilidade de produtos incide sobre o humano como produto, enfim sobre a pr\u00f3pria vida. Atingimos assim uma amplia\u00e7\u00e3o sem precedentes da vergonha prometeica apontada por G\u00fcnther Anders, que caminha\u00a0<em>pari passu<\/em>\u00a0com processos de destrui\u00e7\u00e3o da vida e das condi\u00e7\u00f5es de sua manuten\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><span class=\"wpsdc-drop-cap\">A<\/span>ssim, olhar para o presente produzido pelo transumanismo significa n\u00e3o aderir a uma cr\u00edtica comum a esse pensamento que indica os futuros processos de exclus\u00e3o de boa parte das pessoas que n\u00e3o ter\u00e3o acesso \u00e0s possibilidades de melhorias na sa\u00fade humana, na amplia\u00e7\u00e3o de capacidades f\u00edsicas e mentais, na extens\u00e3o da vida, ou do alcance da eternidade tecnoprometida por esse projeto. Ainda que esta cr\u00edtica seja v\u00e1lida, especialmente por questionar a quem se destina essa acelera\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, para o deslocamento para a produ\u00e7\u00e3o presente do transumanismo\u00a0<strong>importa menos que pessoas n\u00e3o poder\u00e3o usufruir das benesses do melhoramento do humano, e mais que insufici\u00eancia e a descartabilidade j\u00e1 est\u00e3o em andamento enquanto esse futuro \u00e9 produzido<\/strong>.<\/p>\n<p>A acelera\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica transumanista cada vez mais estimulada por esse modo de pensamento tem nas pontas desse processo a minera\u00e7\u00e3o, o esgotamento de recursos, o trabalho escravo, a polui\u00e7\u00e3o ambiental e \u00e9, portanto, olhando para o presente que encontramos as vidas prec\u00e1rias (11) e os aspectos necropol\u00edticos (12), ou as pol\u00edticas de morte e lutos invisibilizados, todos entranhados em seu funcionamento. Deleuze (13) ao apontar a crise das institui\u00e7\u00f5es, antevista por Michel Foucault, com sistemas abertos substituindo os fechados, nos permite no atual contexto ressituar os espa\u00e7os de exterm\u00ednio (de que nos fala Primo Levi) para os lugares a c\u00e9u aberto, \u00e0s vistas de todos. Imagens ali\u00e1s que t\u00eam povoado os jornais de forma aterradora, intensa e constante.<\/p>\n<p>Certamente as pol\u00edticas de exterm\u00ednio incidem de maneira mais constante, contundente e aberta onde vidas e popula\u00e7\u00f5es s\u00e3o consideradas descart\u00e1veis de forma estrutural e que coincidem muitas vezes com os lugares de intensa extra\u00e7\u00e3o de recursos (14). Isso exige que questionemos tamb\u00e9m em que lugar desse processo diferentes popula\u00e7\u00f5es e pa\u00edses est\u00e3o.<\/p>\n<p>Ailton Krenak (15) nos ajuda a deixar claro como isso se desdobra de forma incisiva e violenta sobre algumas popula\u00e7\u00f5es e como isso est\u00e1 conectado com uma cat\u00e1strofe que atinge a humanidade. \u201cEnquanto a humanidade est\u00e1 se distanciando do seu lugar, um monte de corpora\u00e7\u00f5es espertalhonas vai tomando conta da Terra. N\u00f3s, a humanidade, vamos viver em ambientes artificiais produzidos pelas mesmas corpora\u00e7\u00f5es que devoram florestas, montanhas e rios. Eles inventam\u00a0<em>kits<\/em>\u00a0superinteressantes para nos manter nesse local, alienados de tudo, e se poss\u00edvel tomando muito rem\u00e9dio. Porque, afinal, \u00e9 preciso fazer alguma coisa com o que sobra do lixo que produzem, e eles v\u00e3o fazer rem\u00e9dio e um monte de parafern\u00e1lias para nos entreter\u201d.<\/p>\n<p><span class=\"wpsdc-drop-cap\">A<\/span>\u00a0tecnopromessa da futura eternidade transumanista tem como custo ineg\u00e1vel a vida humana e planet\u00e1ria, trata-se da forma presente de aniquilamento do humano que comp\u00f5e a proposta de seu melhoramento. Olhar para as capilaridades desse processo \u00e9 fundamental e urgente, quando se nota que entre a obsolesc\u00eancia programada e a eternidade transumanista habita e desenvolve-se o exterm\u00ednio. Ainda que imaginemos a morte de ambientalistas e de comunidades ind\u00edgenas inteiras como algo muito distante de qualquer abordagem sobre tecnologia ou transumanismo, a conex\u00e3o entre esses aspectos nos permite uma revis\u00e3o sobre o lugar em que nos posicionamos nesse debate e nessas lutas.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<\/p>\n<p><strong>(1)\u00a0<\/strong>LEVI, Primo. \u00c9 isto um homem. Rio de Janeiro: Rocco, 1988<\/p>\n<p><strong>(2)<\/strong>\u00a0LONDON, Bernard. Ending the depression through planned obsolescence, 1932. Documento digitalizado, Universidade do Wisconsin \u2013 Madison, 2009.<\/p>\n<p><strong>(3)\u00a0<\/strong>\u00c9 importante acrescentar que al\u00e9m dos impactos gerados pela extra\u00e7\u00e3o de min\u00e9rios e gera\u00e7\u00e3o de lixo, a l\u00f3gica da obsolesc\u00eancia programada tamb\u00e9m afeta a sa\u00fade. Um relat\u00f3rio (link\u00a0<a href=\"https:\/\/www.who.int\/publications\/i\/item\/9789240023901\">https:\/\/www.who.int\/publications\/i\/item\/9789240023901<\/a>\u00a0) de junho de 2021, da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) alerta que os volumes de lixo eletr\u00f4nico cresceram 21% nos cinco anos at\u00e9 2019, quando 53,6 milh\u00f5es de toneladas m\u00e9tricas de lixo eletr\u00f4nico foram geradas. Os trabalhadores do setor de reciclagem s\u00e3o continuamente expostos a subst\u00e2ncias t\u00f3xicas como chumbo, merc\u00fario e n\u00edquel presentes no lixo eletr\u00f4nico com consequ\u00eancias graves para a sa\u00fade humana, animal e ambiental. Para uma revis\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de obsolesc\u00eancia vinculada a ideia de destrui\u00e7\u00e3o e sua aproxima\u00e7\u00e3o da dura\u00e7\u00e3o de objetos sem uso no mundo ver: ROLLOT, Mathias. L\u2019obsolescence: ouvrir l\u2019impossible. M\u00e9tisPresses, 2016.<\/p>\n<p><strong>(4)\u00a0<\/strong>KLEIN, Naomi. A d<em>outrina do choque:\u00a0<\/em><em>a<\/em><em>\u00a0ascens\u00e3o do capitalismo de desastre<\/em>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008<\/p>\n<p><strong>(5)\u00a0<\/strong>ANDERS, G\u00fcnther. O homem est\u00e1 antiquado. In:\u00a0<em>Revista Tem\u00e1ticas<\/em>, n. 35\/36, ano 18, 2010.<\/p>\n<p><strong>(6)\u00a0<\/strong>HUXLEY, Julian. New Bottles for New Wine: Essays. Chatto &amp; Windus, 1957<\/p>\n<p>ver tamb\u00e9m artigo de t\u00edtulo similar HUXLEY, Julian. New Bottles for New Wine: Ideology and Scientific KnowledgeThe Journal of the Royal Anthropological Institute of Great Britain and Ireland, Vol. 80, No. 1\/2 (1950), pp. 7-23.<\/p>\n<p><strong>(7)\u00a0<\/strong>KANASHIRO, Marta. Prever o futuro como guia para coloniz\u00e1-lo. Revista Ci\u00eancia e Cultura, S\u00e3o Paulo, v. 60, n. 1, p. 45-46, 2008.\u00a0<a href=\"http:\/\/cienciaecultura.bvs.br\/pdf\/cic\/v60n1\/a18v60n1.pdf\">http:\/\/cienciaecultura.bvs.br\/pdf\/cic\/v60n1\/a18v60n1.pdf<\/a><\/p>\n<p><strong>(8)\u00a0<\/strong>KANASHIRO, Marta. Pref\u00e1cio In: Besnier, Jean Michel e Laurent, Alexandre.\u00a0<em>Rob\u00f4s fazem amor?<\/em>, tradu\u00e7\u00e3o Gita Guinsburg. S\u00e3o Paulo, Editora Perspectiva, 2022.<\/p>\n<p><strong>(9)\u00a0<\/strong>Falha humana: Vale notar que \u00e9 recorrente que o pensamento de desenvolvedores de tecnologia, em especial de sistemas de seguran\u00e7a, atribuam falhas e erros n\u00e3o aos sistemas computacionais, mas ao elemento humano que se liga (projeta e faz funcionar) esses sistemas.<\/p>\n<p><strong>(10)<\/strong>\u00a0RANCI\u00c8RE, Jacques. Partilha do sens\u00edvel: est\u00e9tica e pol\u00edtica. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2005 Jacques Ranci\u00e8re aproxima as no\u00e7\u00f5es de arte e pol\u00edtica como forma de ampliar a no\u00e7\u00e3o do fazer pol\u00edtico que para ser democr\u00e1tico deve ser constitu\u00eddo pela e incentivar a multiplicidade. \u00c9 pelo m\u00faltiplo e pelo sens\u00edvel que esta perspectiva pode ser observada em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 l\u00f3gica bin\u00e1ria computacional.<\/p>\n<p><strong>(11)\u00a0<\/strong><em>BUTLER<\/em>,\u00a0<em>Judith<\/em>.\u00a0<em>Vida prec\u00e1ria<\/em><em>: os poderes do luto e da viol\u00eancia.<\/em>\u00a0Trad. Andreas Lieber. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2019.<\/p>\n<p><strong>(12)\u00a0<\/strong><em>MBEMBE<\/em>,\u00a0<em>Achille<\/em>.\u00a0<em>Necropol\u00edtica<\/em>:\u00a0<em>biopoder, soberania, estado de exce\u00e7\u00e3o e pol\u00edtica da morte<\/em>. S\u00e3o Paulo: n-1 edi\u00e7\u00f5es, 2018<\/p>\n<p><strong>(13)\u00a0<\/strong>DELEUZE, Gilles. \u201cPost-scriptum das sociedades de controle\u201d In:\u00a0<em>Conversa\u00e7\u00f5es<\/em>, S\u00e3o Paulo: Editora 34, 1992.<\/p>\n<p><strong>(14)\u00a0<\/strong>Quando tratamos de tecnologias de ponta, em especial das tecnologias de informa\u00e7\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio incluir entre os recursos (trabalho humano, recursos naturais etc) \u00e0queles que dizem respeito ao esgotamento mental e de capacitada criativa tamb\u00e9m em fun\u00e7\u00e3o da nossa conex\u00e3o em tempo integral com os sistemas inform\u00e1ticos e que, no limite, corresponde \u00e0 escalada da sensa\u00e7\u00e3o de insufici\u00eancia humana buscando se adequar ao funcionamento da m\u00e1quina.<\/p>\n<p><strong>(15)\u00a0<\/strong>KRENAK, Ailton.\u00a0<em>Ideias para adiar o fim do mundo<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2019.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Entre a obsolesc\u00eancia programada e a eternidade transumanista &#8211; &#8211; https:\/\/www.comciencia.br\/entre-a-obsolescencia-programada-e-a-eternidade-transumanista\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marta Kanashiro &#8211; Voc\u00eas que vivem seguros em suas c\u00e1lidas casas, voc\u00eas que, voltando \u00e0 noite, encontram comida quente e rostos amigos, pensem bem se isto \u00e9 um homem que trabalha no meio do barro, que n\u00e3o conhece paz, que luta por um peda\u00e7o de p\u00e3o, que morre por um sim ou por um n\u00e3o.\u00a0(\u00c9 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":18067,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[8],"tags":[57,72],"class_list":["post-18066","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sociedade","tag-capitalismo","tag-historia"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - 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