{"id":18063,"date":"2022-07-16T12:51:20","date_gmt":"2022-07-16T15:51:20","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18063"},"modified":"2022-07-14T18:08:08","modified_gmt":"2022-07-14T21:08:08","slug":"o-metodo-jacarta-outra-historia-da-guerra-fria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/07\/16\/o-metodo-jacarta-outra-historia-da-guerra-fria\/","title":{"rendered":"O M\u00e9todo Jacarta: outra hist\u00f3ria da Guerra Fria"},"content":{"rendered":"<p><strong>Vincent Bevins<\/strong> &#8211; No momento em que EUA ati\u00e7am novo confronto global, livro recupera a imposi\u00e7\u00e3o de seu poder, nos anos 1960 e 70. Por tr\u00e1s de uma fachada de democracia e direitos humanos, massacres e ditaduras. Como paradigmas, a Indon\u00e9sia e o Brasil.<\/p>\n<p>Em maio de 1962, a jovem Ing Giok Tan entra em um barco velho e enferrujado em Jacarta, na Indon\u00e9sia. Seu pa\u00eds \u2013 um dos maiores do mundo \u2013 estava sendo arrastado para a batalha global entre capitalismo e comunismo, e seus pais decidiram fugir das terr\u00edveis consequ\u00eancias que isso vinha causando a fam\u00edlias como a dela. Eles embarcaram para o Brasil depois de ouvirem outros indon\u00e9sios que j\u00e1 haviam feito o mesmo percurso dizerem que o pa\u00eds oferecia liberdade, oportunidades e uma tr\u00e9gua do conflito. Mesmo assim, a verdade \u00e9 que eles n\u00e3o sabiam quase nada sobre o pa\u00eds. O Brasil era apenas uma ideia distante. Em um trajeto de 45 dias repleto de ansiedade e enjoo, eles passaram por Cingapura, cruzaram o Oceano \u00cdndico at\u00e9 as Ilhas Maur\u00edcio, passaram por Mo\u00e7ambique, contornaram a \u00c1frica do Sul e atravessaram todo o Oceano Atl\u00e2ntico at\u00e9 chegarem a S\u00e3o Paulo, a maior cidade da Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>Se a fam\u00edlia achou que podia escapar da viol\u00eancia da Guerra Fria, estava bastante enganada. Dois anos ap\u00f3s sua chegada, os militares derrubaram a jovem democracia brasileira e estabeleceram uma ditadura violenta. Depois disso, os novos imigrantes indon\u00e9sios no Brasil receberam mensagens de casa descrevendo as cenas mais chocantes que se possa imaginar, uma explos\u00e3o de viol\u00eancia t\u00e3o assustadora que, s\u00f3 de relatar a cena, muita gente j\u00e1 come\u00e7ava a surtar, duvidando da pr\u00f3pria sanidade. E, no entanto, era tudo verdade. Na esteira desse massacre apocal\u00edptico na Indon\u00e9sia, uma jovem na\u00e7\u00e3o repleta de corpos mutilados emergiu como um dos aliados mais confi\u00e1veis de Washington e, em seguida, praticamente desapareceu da hist\u00f3ria. O que aconteceu no Brasil em 1964 e na Indon\u00e9sia em 1965 pode representar as duas vit\u00f3rias mais importantes da Guerra Fria para o lado vencedor \u2013 ou seja, para os Estados Unidos e para o sistema econ\u00f4mico global vigente at\u00e9 hoje. Isso faz com que esses dois eventos estejam entre os mais importantes de um processo que fundamentalmente moldou a vida de quase todo mundo. Ambos os pa\u00edses eram independentes, se posicionavam em um lugar intermedi\u00e1rio entre as superpot\u00eancias capitalista e comunista do mundo, mas foram decisivamente lan\u00e7ados ao campo estadunidense em meados dos anos 1960. Funcion\u00e1rios governamentais em Washington e jornalistas em Nova York certamente compreenderam o qu\u00e3o significativos esses eventos foram naquele tempo. Sabiam que a Indon\u00e9sia \u2013 hoje o quarto pa\u00eds mais populoso do mundo \u2013 consistia em um pr\u00eamio bem mais importante do que o Vietn\u00e3 jamais poderia ter sido. Em apenas alguns meses, o <em>establishment<\/em>\u00a0da pol\u00edtica externa dos Estados Unidos conseguiu l\u00e1 aquilo que fracassou em dez sangrentos anos de guerra na Indochina.<\/p>\n<p>E a ditadura no Brasil \u2013 hoje o quinto pa\u00eds mais populoso do mundo <em>[de acordo com a Wikip\u00e9dia, agora o sexto, ultrapassado pelo Pasquist\u00e3o]<\/em>\u00a0\u2013 cumpriu um papel crucial em empurrar o restante da Am\u00e9rica do Sul para o grupo de na\u00e7\u00f5es anticomunistas e apoiadoras de Washington. Em ambos os pa\u00edses, a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica quase n\u00e3o se envolveu.<\/p>\n<p>O mais chocante e mais importante neste livro \u00e9 que ambos os eventos levaram \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de uma monstruosa rede internacional de exterm\u00ednio \u2013 isto \u00e9, o assassinato em massa sistem\u00e1tico de civis \u2013 em muitos outros pa\u00edses, que desempenhou um papel fundamental na constru\u00e7\u00e3o do mundo em que n\u00f3s vivemos hoje.<\/p>\n<p>A menos que voc\u00ea seja indon\u00e9sio ou um especialista no assunto, a maioria das pessoas sabe muito pouco a respeito da Indon\u00e9sia e praticamente nada acerca do que aconteceu entre 1965 e 1966 naquele arquip\u00e9lago. A Indon\u00e9sia segue como uma grande lacuna em nosso conhecimento geral coletivo, mesmo entre pessoas que sabem razoavelmente sobre a Crise dos M\u00edsseis de Cuba ou a Guerra da Coreia, ou Pol Pot, ou podem facilmente recitar alguns fatos b\u00e1sicos sobre o pa\u00eds mais populoso do mundo (China), o segundo mais populoso (\u00cdndia), ou mesmo o sexto e o s\u00e9timo (Paquist\u00e3o e Nig\u00e9ria)\u00a0<em>[de acordo com a Wik\u00e9dia, o Paquist\u00e3o j\u00e1 \u00e9 o quinto]<\/em>. Mesmo entre os jornalistas internacionais, s\u00e3o poucas as pessoas que sabem que a Indon\u00e9sia \u00e9 o maior pa\u00eds de maioria mu\u00e7ulmana e, menos ainda, que abrigava em 1965 o maior Partido Comunista do mundo fora da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e da China.<\/p>\n<p>A verdade sobre a viol\u00eancia em 1965 e 1966 permaneceu oculta por d\u00e9cadas. A ditadura estabelecida em seu rastro mentiu ao mundo, e os sobreviventes foram presos ou permaneceram muito assustados para poder falar. \u00c9 somente gra\u00e7as aos esfor\u00e7os de heroicos ativistas indon\u00e9sios e pesquisadores dedicados mundo afora que podemos agora contar a hist\u00f3ria. Documentos divulgados recentemente em Washington t\u00eam contribu\u00eddo muito, ainda que parte do que ocorreu continue envolta em mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>A Indon\u00e9sia, provavelmente, sumiu do mapa porque os eventos de 1965 e 1966 foram um sucesso total para Washington. Nenhum soldado estadunidense morreu, e ningu\u00e9m nos Estados Unidos jamais esteve em perigo. Apesar de os l\u00edderes indon\u00e9sios nas d\u00e9cadas de 1950 e 1960 cumprirem um papel internacional significativo, depois de 1966 o pa\u00eds parou totalmente de causar problemas. Sei, depois de treze anos de trabalho como jornalista e correspondente estrangeiro, que pa\u00edses long\u00ednquos, est\u00e1veis e confiavelmente pr\u00f3-Estados Unidos n\u00e3o chegam \u00e0s manchetes. E pessoalmente, ap\u00f3s examinar a documenta\u00e7\u00e3o e passar tanto tempo com as pessoas que viveram esses eventos, vim a formar outra teoria profundamente perturbadora sobre por que tais epis\u00f3dios foram esquecidos. Temo que a verdade sobre o que aconteceu contradiga com muita for\u00e7a nossa ideia do que foi a Guerra Fria, do que significa ser americano ou de como a globaliza\u00e7\u00e3o aconteceu, que se tornou mais f\u00e1cil simplesmente ignor\u00e1-la.<\/p>\n<p>Este livro \u00e9 para aqueles que n\u00e3o t\u00eam qualquer conhecimento especial da Indon\u00e9sia, ou do Brasil, ou do Chile, ou da Guatemala, ou da Guerra Fria, embora eu espere que minhas entrevistas, pesquisas em arquivos e abordagem global possam ter trazido algumas descobertas possivelmente interessantes tamb\u00e9m aos especialistas. Acima de tudo, espero que esta hist\u00f3ria alcance as pessoas que almejam saber como a viol\u00eancia e a guerra contra o comunismo modificaram intimamente nossas vidas hoje \u2013 esteja voc\u00ea sentado no Rio de Janeiro, em Bali, em Nova York ou em Lagos.<\/p>\n<p>Dois acontecimentos na minha pr\u00f3pria vida me convenceram de que os eventos de meados dos anos 1960 ainda seguem entre n\u00f3s. Que seus fantasmas, de certa forma, ainda assombram o mundo.<\/p>\n<p>Em 2016, eu trabalhava em meu sexto e \u00faltimo ano como correspondente do\u00a0<em>Los Angeles Times\u00a0<\/em>no Brasil, e estava andando pelos corredores do Congresso, em Bras\u00edlia. Os deputados da quarta maior democracia do mundo se preparavam para votar a destitui\u00e7\u00e3o da presidente Dilma Rousseff, uma ex-guerrilheira de esquerda e a primeira mulher presidente do pa\u00eds. No final do corredor, reconheci um congressista de extrema-direita sem import\u00e2ncia, mas bastante franco, chamado Jair Bolsonaro. Ent\u00e3o, eu o abordei para uma r\u00e1pida entrevista. Era amplamente conhecido naquele momento que os advers\u00e1rios pol\u00edticos estavam tentando derrubar a presidente Dilma Rousseff por um tecnicismo, e que aqueles que organizaram sua derrubada eram bem mais culpados de corrup\u00e7\u00e3o do que ela. Como eu era um jornalista estrangeiro, perguntei a Bolsonaro se ele se preocupava que a comunidade internacional pudesse duvidar da legitimidade do governo mais conservador que foi criado para substitu\u00ed-la, tendo em vista os procedimentos question\u00e1veis daquele dia. As respostas que ele me deu pareciam t\u00e3o distantes da pol\u00edtica\u00a0<em>mainstream<\/em>, uma ressurrei\u00e7\u00e3o t\u00e3o completa dos fantasmas da Guerra Fria, que eu nem usei a entrevista. Ele disse: \u201cO mundo vai comemorar o que fazemos hoje porque estamos impedindo que o Brasil se transforme em outra Coreia do Norte\u201d.<\/p>\n<p>Isso era um absurdo. Dilma era uma lideran\u00e7a de centro-esquerda cujo governo havia sido, de alguma forma, bastante amig\u00e1vel com as grandes empresas.<\/p>\n<p>Poucos momentos depois, Bolsonaro se aproximou do microfone na C\u00e2mara dos Deputados e fez uma declara\u00e7\u00e3o que abalou o pa\u00eds. Ele dedicou seu voto a favor do\u00a0<em>impeachment<\/em>\u00a0a Carlos Alberto Brilhante Ustra, coronel que supervisionou a tortura da pr\u00f3pria Dilma durante a ditadura no Brasil. Tratava-se de uma provoca\u00e7\u00e3o ultrajante, uma tentativa de reabilitar o regime militar anticomunista do pa\u00eds e de se tornar o s\u00edmbolo nacional da oposi\u00e7\u00e3o de extrema-direita a tudo.<\/p>\n<p>Quando entrevistei Dilma Rousseff algumas semanas depois, enquanto ela esperava pela vota\u00e7\u00e3o final que a tiraria do cargo, nossa conversa invariavelmente se voltou ao papel dos Estados Unidos nos assuntos brasileiros. Levando em conta as muitas vezes e formas pelas quais Washington interviera para derrubar governos na Am\u00e9rica do Sul, muitos de seus apoiadores se perguntaram se a CIA estava por tr\u00e1s disso tamb\u00e9m. Ela negou: era o resultado da din\u00e2mica interna do Brasil. Todavia, \u00e0 sua maneira, isso \u00e9 ainda pior: a ditadura do Brasil havia feito a transi\u00e7\u00e3o para o tipo de democracia que poderia remover com seguran\u00e7a qualquer um \u2013 como Dilma Rousseff ou Lula \u2013 que as elites pol\u00edticas ou econ\u00f4micas considerassem uma amea\u00e7a a seus interesses, e podiam evocar os dem\u00f4nios da Guerra Fria para lutar por eles quando quisessem.<\/p>\n<p>Sabemos agora at\u00e9 que ponto a jogada de Bolsonaro foi bem-sucedida. Quando ele foi eleito presidente, dois anos depois, eu estava no Rio. Imediatamente, eclodiram brigas nas ruas. Homens grandes e fortes come\u00e7aram a berrar com mulheres tatuadas que usavam adesivos de apoio ao candidato rival, gritando: \u201cComunistas! Fora! Comunistas! Fora!\u201d.<\/p>\n<p>Em 2017, fui na dire\u00e7\u00e3o exatamente oposta \u00e0quela que Ing Giok Tan e sua fam\u00edlia haviam ido tantos anos antes. Me mudei de S\u00e3o Paulo para Jacarta para cobrir o Sudeste Asi\u00e1tico para o\u00a0<em>Washington Post<\/em>. Poucos meses ap\u00f3s minha chegada, um grupo de acad\u00eamicos e ativistas planejou uma breve confer\u00eancia para discutir os eventos de 1965. Por\u00e9m, algumas pessoas estavam espalhando a acusa\u00e7\u00e3o nas redes sociais de que esta era, na verdade, uma reuni\u00e3o para ressuscitar o comunismo \u2013 ainda ilegal no pa\u00eds, mais de cinquenta anos depois \u2013, e uma turba se direcionou para o evento \u00e0quela noite, n\u00e3o muito depois de eu ter ido embora. Grupos compostos em sua maioria por homens isl\u00e2micos, agora participantes comuns em manifesta\u00e7\u00f5es agressivas nas ruas de Jacarta, cercaram o pr\u00e9dio e prenderam todo mundo dentro. Minha colega de quarto, Niken, uma jovem sindicalista de Java Central, foi mantida presa l\u00e1 durante a noite toda, enquanto a multid\u00e3o batia nas paredes, gritando: \u201cEsmaguem os comunistas!\u201d e \u201cQueimem-os vivos!\u201d. Ela me mandou mensagens, apavorada, pedindo para eu divulgar o que estava acontecendo. Ent\u00e3o, fiz isso pelo Twitter. N\u00e3o demorou muito para que isso gerasse amea\u00e7as e acusa\u00e7\u00f5es de que eu era comunista ou at\u00e9 mesmo membro do inexistente Partido Comunista da Indon\u00e9sia. Eu havia me acostumado a receber exatamente esse tipo de mensagem na Am\u00e9rica do Sul. As semelhan\u00e7as n\u00e3o eram coincid\u00eancia. A paranoia em ambos os lugares pode ser atribu\u00edda a uma ruptura traum\u00e1tica ocorrida em meados dos anos 1960.<\/p>\n<p>Entretanto, foi s\u00f3 depois que comecei a trabalhar neste livro, falando com especialistas, testemunhas e sobreviventes, que percebi que a import\u00e2ncia desses dois eventos hist\u00f3ricos era muito superior ao fato de que existe ainda um anticomunismo violento no Brasil, na Indon\u00e9sia e em v\u00e1rios outros pa\u00edses, e que a Guerra Fria criou um mundo de regimes que enxergam qualquer reforma social como amea\u00e7a. Cheguei \u00e0 conclus\u00e3o de que o mundo inteiro, especialmente os pa\u00edses da \u00c1sia, \u00c1frica e Am\u00e9rica Latina por onde Ing Giok navegou com sua fam\u00edlia, foi remodelado pelas ondas que emanaram do Brasil e da Indon\u00e9sia em 1964 e 1965.<\/p>\n<p>Senti uma enorme responsabilidade moral de pesquisar tal hist\u00f3ria e cont\u00e1-la direito. Em certo sentido, fazer isso \u00e9 o resultado de mais de uma d\u00e9cada de trabalho. Contudo, especificamente para este livro, visitei doze pa\u00edses e entrevistei mais de cem pessoas, em espanhol, portugu\u00eas, ingl\u00eas e indon\u00e9sio. Examinei arquivos no mesmo n\u00famero de l\u00ednguas, conversei com historiadores de todo o mundo e trabalhei com assistentes de pesquisa de cinco pa\u00edses. N\u00e3o contava com muitos recursos para escrever o livro, mas dei tudo o que tinha.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia ocorrida no Brasil, na Indon\u00e9sia e em 21 outros pa\u00edses ao redor do mundo n\u00e3o foi acidental nem incidental em rela\u00e7\u00e3o aos principais acontecimentos da hist\u00f3ria mundial. As mortes n\u00e3o foram \u201ca sangue frio e desprovidas de sentido\u201d ou apenas erros tr\u00e1gicos que n\u00e3o mudaram nada. Foi exatamente o oposto. A viol\u00eancia foi efetiva, parte fundamental de um processo maior. Sem uma vis\u00e3o completa da Guerra Fria e dos objetivos dos Estados Unidos em todo o mundo, os eventos s\u00e3o inacredit\u00e1veis, inintelig\u00edveis ou muito dif\u00edceis de processar. O memor\u00e1vel filme\u00a0<em>O ato de matar<\/em>, de Joshua Oppenheimer \u2013 e sua sequ\u00eancia,\u00a0<em>O peso do sil\u00eancio<\/em>\u2013 quebrou a caixa-preta em torno de 1965 na Indon\u00e9sia e for\u00e7ou as pessoas no pa\u00eds e em todo o mundo a olhar dentro dela. O trabalho magistral de Oppenheimer recorre a uma abordagem de\u00a0<em>close-up<\/em>\u00a0extremo. Eu tomei propositadamente a abordagem oposta, afastando-me para o palco global, na tentativa de ser complementar. Espero que os espectadores desses filmes leiam este livro para ajust\u00e1-lo em seu contexto, e que os leitores assistam a esses filmes ap\u00f3s terminarem o livro. Tamb\u00e9m tenho uma pequena d\u00edvida pessoal com Joshua por orientar minha pesquisa inicial, mas devo muito mais a indon\u00e9sios e a outros historiadores, em especial a Baskara Wardaya, Febriana Firdaus e Bradley Simpson.<\/p>\n<p>Para realmente contar a hist\u00f3ria desses eventos e suas repercuss\u00f5es \u2013 ou seja, a rede de exterm\u00ednio global engendrada por eles \u2013, decidi que era preciso tentar de alguma maneira contar a hist\u00f3ria mais ampla da Guerra Fria. Muitas vezes se esquece que o anticomunismo violento foi uma for\u00e7a global e que seus protagonistas trabalharam para al\u00e9m de fronteiras, aprendendo com sucessos e fracassos em outros lugares enquanto seu movimento ganhava for\u00e7a e acumulava vit\u00f3rias. Para entender o que ocorreu, devemos entender tais colabora\u00e7\u00f5es internacionais. Esta \u00e9 tamb\u00e9m a hist\u00f3ria de alguns indiv\u00edduos, alguns dos Estados Unidos, outros da Indon\u00e9sia e da Am\u00e9rica Latina, que viveram esses eventos e cujas vidas foram transformadas profundamente por eles. O foco que eu escolhi, e as conex\u00f5es que identifiquei, foram ditados, em certa medida, pelas pessoas que tive a sorte de conhecer e por minha pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o e habilidade com idiomas. Por\u00e9m, a meu ver, a hist\u00f3ria delas \u00e9 uma hist\u00f3ria da Guerra Fria t\u00e3o v\u00e1lida quanto qualquer outra \u2013 e certamente maior do que qualquer hist\u00f3ria da Guerra Fria que se concentra prioritariamente nos brancos estadunidenses e europeus. A hist\u00f3ria que conto aqui se baseia em informa\u00e7\u00f5es n\u00e3o oficiais, no consenso formado pelos historiadores mais experientes e em testemunhos avassaladores em primeira pessoa. Confio enormemente em minhas pr\u00f3prias entrevistas com sobreviventes e, \u00e9 claro, n\u00e3o pude verificar cada uma das afirma\u00e7\u00f5es sobre suas pr\u00f3prias vidas, como quais coisas sentiram, o que estavam vestindo ou a data em que foram presos. No entanto, nenhum dos detalhes que incluo contradiz os fatos estabelecidos ou a hist\u00f3ria mais ampla j\u00e1 revelada pelos historiadores. Para cont\u00e1-la com a maior precis\u00e3o poss\u00edvel, para ser fiel \u00e0s evid\u00eancias e respeitoso com quem a viveu, descobri que tinha que ser feito de um certo modo. Primeiro, a hist\u00f3ria \u00e9 verdadeiramente global; cada vida na Terra \u00e9 tratada como igualmente importante, e nenhuma na\u00e7\u00e3o ou ator \u00e9 visto, a priori, como mocinho ou bandido. Em segundo lugar, todos n\u00f3s j\u00e1 ouvimos a m\u00e1xima de que \u201ca hist\u00f3ria \u00e9 escrita pelos vencedores\u201d. Em geral, isso \u00e9, infelizmente, verdade. Contudo, essa hist\u00f3ria, por necessidade, vai confrontar essa tend\u00eancia \u2013 muitas das pessoas em seu centro est\u00e3o entre os maiores derrotados do s\u00e9culo XX \u2013 e n\u00e3o podemos ter medo de deixar os fatos de suas vidas contradizerem as compreens\u00f5es popularmente aceitas sobre a Guerra Fria no mundo angl\u00f3fono, ainda que tais contradi\u00e7\u00f5es possam ser bastante desconfort\u00e1veis para os vencedores. E, finalmente, evito especula\u00e7\u00f5es por completo, resistindo a qualquer impulso de tentar resolver os muitos mist\u00e9rios n\u00e3o resolvidos por mim mesmo. \u00c9 necess\u00e1rio aceitar que ainda h\u00e1 muito para sabermos. Portanto, este livro n\u00e3o depende de adivinha\u00e7\u00e3o. Nos momentos em que meus colegas e eu trope\u00e7amos naquilo que pareciam grandes coincid\u00eancias \u2013 aparentemente grandes demais, talvez \u2013 ou conex\u00f5es que n\u00e3o pod\u00edamos explicar, paramos por a\u00ed e as discutimos; n\u00e3o escolhemos unicamente nossa pr\u00f3pria teoria sobre o que as causou.<\/p>\n<p>E trope\u00e7amos certamente em algumas conex\u00f5es.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: O M\u00e9todo Jacarta: outra hist\u00f3ria da Guerra Fria &#8211; Outras Palavras &#8211; https:\/\/outraspalavras.net\/historia-e-memoria\/o-metodo-jacarta-outra-historia-da-guerra-fria\/<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vincent Bevins &#8211; No momento em que EUA ati\u00e7am novo confronto global, livro recupera a imposi\u00e7\u00e3o de seu poder, nos anos 1960 e 70. Por tr\u00e1s de uma fachada de democracia e direitos humanos, massacres e ditaduras. Como paradigmas, a Indon\u00e9sia e o Brasil. 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