{"id":18028,"date":"2022-07-15T12:53:09","date_gmt":"2022-07-15T15:53:09","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18028"},"modified":"2022-07-09T18:16:40","modified_gmt":"2022-07-09T21:16:40","slug":"a-paranoia-politica-no-passado-e-agora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/07\/15\/a-paranoia-politica-no-passado-e-agora\/","title":{"rendered":"A paranoia pol\u00edtica, no passado e agora"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jos\u00e9 Fern\u00e1ndez Vega<\/strong> &#8211; Exame das teorias de conspira\u00e7\u00e3o no III Reich ajuda a entend\u00ea-las hoje. Congregam ressentidos, proliferam sob a despolitiza\u00e7\u00e3o e fragmenta\u00e7\u00e3o das sociedades. Mais que decad\u00eancia cultural, s\u00e3o sintomas da dissolu\u00e7\u00e3o da vida coletiva.<\/p>\n<p>O historiador brit\u00e2nico Richard J. Evans publicou\u00a0<em>Hitler y las teor\u00edas de la conspiraci\u00f3n: el Tercer Reich y la imaginaci\u00f3n paranoide\u00a0<\/em>(Cr\u00edtica, 2021)<em>,\u00a0<\/em>trabalho singular que analisa v\u00e1rios epis\u00f3dios cercados de interpreta\u00e7\u00f5es conspirat\u00f3rias e de um clima denso de paran\u00f3ia pol\u00edtica. Eles marcaram de uma ou outra forma a hist\u00f3ria do Terceiro Reich. Mas que alcance podemos dar \u00e0 express\u00e3o \u201cparanoia pol\u00edtica\u201d?<\/p>\n<p>O <em>Dicion\u00e1rio de Psican\u00e1lise\u00a0<\/em>de \u00c9lisabeth Roudinesco e Michel Plon nos informa que a paranoia foi introduzida como termo psicol\u00f3gico no s\u00e9culo XIX por especialistas alem\u00e3es e constitu\u00eda, para eles, uma das tr\u00eas formas de psicose. Foi caracterizada como \u201cum del\u00edrio sistematizado, o predom\u00ednio da interpreta\u00e7\u00e3o e a aus\u00eancia de decad\u00eancia intelectual\u201d. Melanie Klein mais tarde a aproximou da esquizofrenia e, antes dela, em 1911, Sigmund Freud a considerou \u201cuma defesa contra a homossexualidade\u201d e a comparou a uma filosofia por sua consist\u00eancia argumentativa interna e sua proximidade com a racionalidade \u201cnormal\u201d.<\/p>\n<p>Essa natureza sistem\u00e1tica, esclarece o dicion\u00e1rio, foi o que mais tarde fascinou Jacques Lacan e o levou a erigir a paranoia como modelo de loucura e a consagrar sua tese na medicina. Fato significativo, o caso\u00a0<em>princeps\u00a0<\/em>freudiano sobre o assunto \u00e9 constitu\u00eddo pelo livro de um indiv\u00edduo que ele n\u00e3o tratou,\u00a0<em>Mem\u00f3rias de um paciente nervoso\u00a0<\/em><em>de<\/em><em>\u00a0<\/em>Daniel Paul Schreber (1842-1911), um jurista alem\u00e3o que tentou cometer suic\u00eddio ap\u00f3s sua candidatura fracassada para o Reichstag. A eclos\u00e3o de sua doen\u00e7a parecia ligada a um epis\u00f3dio pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Sem abandonar o plano pol\u00edtico, mas tentando uma abordagem da cr\u00edtica liter\u00e1ria, Ricardo Piglia explorou as liga\u00e7\u00f5es entre fic\u00e7\u00e3o e compl\u00f4, uma das elucubra\u00e7\u00f5es associadas \u00e0 paranoia. Em uma confer\u00eancia que deu em Buenos Aires em 2001, poucos meses depois da maior crise social que a Argentina atravessou e diante de um grupo de artistas \u201cjuramentos\u201d a resistir \u00e0 desola\u00e7\u00e3o vivida, explicou os motivos que levam certas pessoas a imaginar a conspira\u00e7\u00e3o de grandes poderes contra si. Piglia procurou revelar a presen\u00e7a do compl\u00f4 nas tramas do romance contempor\u00e2neo, nas inten\u00e7\u00f5es da vanguarda e nos procedimentos da economia. Mas\u00a0<a href=\"http:\/\/70.32.114.117\/gsdl\/collect\/revista\/index\/assoc\/HASHae5e\/6be0ea57.dir\/r23_04nota.pdf\" rel=\"noreferrer noopener\">suas reflex\u00f5es transbordaram essas raz\u00f5es<\/a>. \u201cFrequentemente\u201d, afirmou em sua palestra, \u201cpara compreender a l\u00f3gica destrutiva do social, o sujeito privado deve inferir a exist\u00eancia de um compl\u00f4\u201d.<\/p>\n<p>Quando o mecanismo social se torna obscuro para indiv\u00edduos cada vez mais isolados, eles adotam vis\u00f5es conspirat\u00f3rias para \u201cdecifrar um certo funcionamento da pol\u00edtica\u201d. Seu exemplo narrativo foi\u00a0<em>Os\u00a0<\/em><em>s<\/em><em>ete\u00a0<\/em><em>l<\/em><em>oucos<\/em>, romance que Roberto Arlt publicou em 1929, pouco antes do\u00a0<em>cra<\/em><em>ck<\/em>\u00a0financeiro mundial e do primeiro golpe de Estado que Argentina sofreu, mas quando Benito Mussolini j\u00e1 estava no poder. \u201cAntes de se tornar cl\u00ednica, a paranoia \u00e9 uma sa\u00edda para a crise de sentido\u201d, concluiu Piglia.<\/p>\n<p>O del\u00edrio paranoico seria ent\u00e3o uma esp\u00e9cie de\u00a0<em>Ersatz<\/em>. Ou seja, o substituto de um racioc\u00ednio substancial sobre a sociedade de que tem sido desprovida de comunidades, que nas \u00faltimas d\u00e9cadas v\u00eam sofrendo um crescente processo de atomiza\u00e7\u00e3o e despolitiza\u00e7\u00e3o. Diante da aus\u00eancia de quadros explicativos, os indiv\u00edduos estariam inclinados a adotar esquemas alucinados e, muitas vezes, tamb\u00e9m agressivos, mas coerentes pelo menos na apar\u00eancia. Esses quadros foram no passado fornecidos por culturas pol\u00edticas compartilhadas, que foram socializadas por meio de partidos, movimentos civis ou sindicatos. Ap\u00f3s o fim da Guerra Fria, o trabalho conjunto de uma cultura p\u00f3s-moderna emergente que questionava verdades robustas e de uma economia neoliberal com enormes repercuss\u00f5es na forma\u00e7\u00e3o subjetiva anulou as matrizes ideol\u00f3gicas que moldavam as explica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e dissolvia aqueles centros de encontro e forma\u00e7\u00e3o. Isso abriu um horizonte de grande desorienta\u00e7\u00e3o popular para compreender as dr\u00e1sticas transforma\u00e7\u00f5es vitais que ocorreram nas d\u00e9cadas seguintes.<\/p>\n<p>Em outra se\u00e7\u00e3o de seu ensaio, Piglia argumentou que uma \u201ccrise de experi\u00eancia\u201d marcou o in\u00edcio do s\u00e9culo 20 e a atribuiu ao colapso de uma civiliza\u00e7\u00e3o liberal que teria tido justamente como efeito o surgimento de vanguardas art\u00edsticas como uma resposta cultural. Se projetarmos essas reflex\u00f5es como modelo de an\u00e1lise, elas nos levariam a pensar que a crise do neoliberalismo, que eclodiu em atrav\u00e9s de etapas desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XXI e teve sua maior express\u00e3o econ\u00f4mica por volta de 2008, n\u00e3o gerou uma nova vanguarda, mas sim uma s\u00e9rie de forma\u00e7\u00f5es reacion\u00e1rias cujas ra\u00edzes se espalham por diferentes latitudes. Esses movimentos organizam vers\u00f5es paranoicas da realidade e a raz\u00e3o pela qual s\u00e3o cr\u00edveis para audi\u00eancias cada vez maiores est\u00e1 relacionada ao decl\u00ednio das chamadas \u201cgrandes narrativas\u201d que, at\u00e9 o final dos anos 1980, forneciam quadros de sentido para a experi\u00eancia social.<\/p>\n<p>Sem outros paradigmas para ordenar as mudan\u00e7as na vida da popula\u00e7\u00e3o, ela torna-se vulner\u00e1vel a narrativas mais ou menos alienadas e simples sobre a influ\u00eancia perturbadora de v\u00e1rios poderes sobre a vida: as\u00a0<em>amea\u00e7adoras<\/em>\u00a0ondas migrat\u00f3rias, o crime onipresente, algumas sinarquias sombrias, a corrup\u00e7\u00e3o end\u00eamica das lideran\u00e7as, o Estado opressor de certas liberdades naturais ou a sua intoler\u00e1vel press\u00e3o fiscal, entre muitos outros. Tudo isso configura o que\u00a0<a href=\"https:\/\/www.versobooks.com\/blogs\/5333-it-s-time-for-a-general-riposte-pierre-chaillan-interview-with-alain-badiou\">Alain Badiou\u00a0<\/a>chamou recentemente de \u201cuma desorienta\u00e7\u00e3o geral sobre o mundo\u201d e, como outros comentadores, a comparou ao final da\u00a0<em>belle \u00e9poque\u00a0<\/em><em>no Ocidente<\/em>, quando a primeira etapa da globaliza\u00e7\u00e3o se conclu\u00eda e uma Grande Guerra se aproximava.<\/p>\n<p>Foi justamente durante a Primeira Guerra Mundial que come\u00e7ou o primeiro dos cinco epis\u00f3dios de conspira\u00e7\u00e3o que se projetam at\u00e9 o final da Segunda Guerra, os quais Evans se concentra em\u00a0<em>Hitler e as teorias da conspira\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/em>O fio condutor de sua hist\u00f3ria \u00e9 a figura de Adolf Hitler, a \u201cfigura moral negativa\u201d do s\u00e9culo XX, o paranoico pol\u00edtico<em>\u00a0<\/em><em>par excellence<\/em>. A revis\u00e3o hist\u00f3rica que o livro de Evans prop\u00f5e, al\u00e9m do conte\u00fado de cada epis\u00f3dio, fornece chaves formais para compreender algumas mentalidades contempor\u00e2neas.<\/p>\n<p>A s\u00e9rie que Evans estuda come\u00e7a com a quest\u00e3o da influ\u00eancia do libelo intitulado\u00a0<em>Os Protocolos dos S\u00e1bios ao<\/em>\u00a0antissemitismo criminoso que, mais tarde, desencadearia o hitlerismo \u2013 e continuaria com a lenda de \u201capunhalada pelas costas\u201d, usado pelo alto-comando militar da Alemanha para justificar sua derrota em 1918. O autor continua com as disputas sobre a responsabilidade pelo inc\u00eandio do Reichstag, ocorrido na noite de 27 e 28 de fevereiro de 1933, e depois trata dos motivos da misteriosa viagem solit\u00e1ria \u00e0 Gr\u00e3-Bretanha de segundo nome mais importante do partido nazista, Rudolf Hess, em 10 de maio de 1941. Um cap\u00edtulo final explora os mitos que se formaram sobre o que aconteceu com Hitler em seu\u00a0<em>bunker<\/em>\u00a0quando tudo j\u00e1 estava perdido no campo militar: ele se suicidou ali em 30 de abril de 1945 ou fugiu?<\/p>\n<p><strong>E<\/strong><strong>pis\u00f3dios nacionais<\/strong><\/p>\n<p>Hannah Arendt considerou\u00a0<em>Os Protocolos dos S\u00e1bios de Si\u00e3o\u00a0<\/em>um texto central para o nazismo. No entanto, a propaganda nazista fez pouco uso do livro, assegura Evans. Apenas uma refer\u00eancia passageira \u00e9 encontrada em\u00a0<em>Mein Kampf<\/em>, e o t\u00edtulo n\u00e3o foi encontrado entre os 16 mil volumes da biblioteca de Hitler (embora ele tivesse uma c\u00f3pia de\u00a0<em>The International Jew,\u00a0<\/em>de Henry Ford, traduzido para o alem\u00e3o em 1922, que cont\u00e9m um cap\u00edtulo dedicado aos\u00a0<em>Protocolos<\/em>). Ainda assim, h\u00e1 poucas d\u00favidas de que o libelo exerceu uma vasta influ\u00eancia na forma\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o antissemita n\u00e3o apenas na Alemanha.\u00a0<em>Os protocolos\u00a0<\/em>n\u00e3o fazem alus\u00e3o a temas nazistas como o anticomunismo ou o racismo biol\u00f3gico; em vez disso, eles concentram a aten\u00e7\u00e3o em uma suposta domina\u00e7\u00e3o judaica da imprensa, da universidade e das finan\u00e7as, visando minar os fundamentos da sociedade.<\/p>\n<p>Possivelmente escrito entre o final do s\u00e9culo XIX e o in\u00edcio do s\u00e9culo XX,\u00a0<em>Os\u00a0<\/em><em>p<\/em><em>rotocolos\u00a0<\/em>baseiam-se em uma literatura anterior que remonta \u00e0s rea\u00e7\u00f5es antijacobinas produzidas pela Revolu\u00e7\u00e3o Francesa; mais tarde, o monarquista Arthur de Gobineau colocou em circula\u00e7\u00e3o a ideia de uma ra\u00e7a ariana dominante amea\u00e7ada pelo compl\u00f4 judaico. Mas se suas fontes mais antigas s\u00e3o encontradas na Fran\u00e7a,\u00a0<em>Os\u00a0<\/em><em>p<\/em><em>rotocolos\u00a0<\/em>alcan\u00e7aram sua forma final na R\u00fassia czarista, onde foram publicados pela primeira vez em 1903. E sua trajet\u00f3ria alem\u00e3 foi pr\u00f3diga: em 1933, ano da ascens\u00e3o de Hitler ao poder, j\u00e1 contava com 33 edi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>No entanto, j\u00e1 em 1921, um correspondente do\u00a0<em>The Times\u00a0<\/em>em Istambul relatou que\u00a0<em>Os\u00a0<\/em><em>p<\/em><em>rotocolos\u00a0<\/em>eram um pl\u00e1gio de um livro publicado em Genebra em 1864, de acordo com o que um emigrante russo havia descoberto. A imprensa alem\u00e3 ecoou esta not\u00edcia e Hitler, num t\u00edpico movimento paranoico, n\u00e3o viu nela sen\u00e3o a prova da veracidade do conte\u00fado do texto. Joseph Goebbels, mais matizado, afirmou em seu di\u00e1rio que\u00a0<em>Os\u00a0<\/em><em>p<\/em><em>rotocolos\u00a0<\/em>eram uma falsifica\u00e7\u00e3o, mas apenas em um n\u00edvel factual, pois continham uma \u201cverdade interior\u201d indiscut\u00edvel. O livro n\u00e3o foi apenas um sucesso na Alemanha, mas tamb\u00e9m em outros lugares. Evans lembra que o pr\u00f3prio Winston Churchill reconheceu isso.<\/p>\n<p>O partido nazista at\u00e9 publicou uma vers\u00e3o popular do livro. Mas a divulga\u00e7\u00e3o dos\u00a0<em>Protocolos\u00a0<\/em>durante o Terceiro Reich encontrou um grande obst\u00e1culo quando, em 1937, a Suprema Corte Su\u00ed\u00e7a os considerou esp\u00farios, embora autorizasse sua publica\u00e7\u00e3o como propaganda pol\u00edtica. A repercuss\u00e3o desse fracasso moderou as refer\u00eancias nazistas ao livro, embora certamente n\u00e3o sobre a \u201cconspira\u00e7\u00e3o mundial dos judeus\u201d, que estava no centro de sua mensagem. Durante a Segunda Guerra n\u00e3o houve reedi\u00e7\u00f5es e Evans considera que, de qualquer forma, eles n\u00e3o teriam cumprido nenhuma fun\u00e7\u00e3o j\u00e1 que a campanha antissemita foi mais bem servida pelo cinema nazista.<\/p>\n<p><em>Os protocolos\u00a0<\/em>postulavam uma\u00a0<em>puls\u00e3o<\/em><em>\u00a0jud<\/em><em>ia<\/em>\u00a0\u00e0 conspira\u00e7\u00e3o antissocial baseada em atributo racial atribu\u00eddo e n\u00e3o em um planejamento intelectual. Mas eles o fizeram em um momento hist\u00f3rico peculiar, quando os judeus europeus estavam nitidamente divididos entre \u201cortodoxos e reformistas, praticantes e indiferentes, crentes e agn\u00f3sticos, assimilacionistas e sionistas, para n\u00e3o mencionar as diferen\u00e7as de classe ou a lealdade pol\u00edtica e nacional\u201d. \u00c9 verdade que essas considera\u00e7\u00f5es n\u00e3o afetaram o poder de propaga\u00e7\u00e3o dos\u00a0<em>Protocolos<\/em>, pois, segundo Evans, constitu\u00edam um texto \u201caberto\u201d que aceitava qualquer tipo de leitura e oferecia um quadro de sentido a-hist\u00f3rico, blindado \u00e0 cr\u00edtica e que evitava a reflex\u00e3o independente.<\/p>\n<p>O livro de Evans ent\u00e3o passa a considerar a \u201capunhalada nas costas\u201d (<em>Der Dolchstoss<\/em>) que a frente interna teria infligido \u00e0s tropas alem\u00e3s na Primeira Guerra Mundial, levando-as \u00e0 derrota. Existem tr\u00eas vers\u00f5es b\u00e1sicas dessa conspira\u00e7\u00e3o. O fardo da culpa no colapso econ\u00f4mico dom\u00e9stico que privou os combatentes de suprimentos. O segundo acusava a esquerda de subverter a ordem de tomada do poder, animada pelo slogan leninista de \u201cderrotismo revolucion\u00e1rio\u201d; os pacifistas tamb\u00e9m foram c\u00famplices nessa conspira\u00e7\u00e3o. A \u00faltima apontava diretamente para a \u201ctrai\u00e7\u00e3o\u201d dos judeus \u201cantipatriotas\u201d que supostamente evitavam ir para a linha de frente e conseguiram postos na retaguarda (na realidade, 80% dos soldados judeus estavam na linha de frente). Al\u00e9m disso, eles secretamente puxavam as cordas do pa\u00eds (sendo 1% da popula\u00e7\u00e3o alem\u00e3) e forneciam os principais l\u00edderes revolucion\u00e1rios (quando apenas alguns l\u00edderes eram de origem judaica). Ap\u00f3s a guerra, eles foram acusados de se dedicarem ao mercado paralelo e \u00e0 especula\u00e7\u00e3o, e at\u00e9 responsabilizados pela hiperinfla\u00e7\u00e3o subsequente.<\/p>\n<p>Embora Hitler tenha se refugiado posteriormente nesta \u00faltima vers\u00e3o para promover a expuls\u00e3o dos judeus da comunidade nacional, a verdade \u00e9 que a teoria da facada perdeu for\u00e7a durante o nazismo. Hitler preferiu interpretar que a verdadeira cat\u00e1strofe havia sido o per\u00edodo republicano que se seguiu \u00e0 derrota militar e aceitou termos de paz humilhantes. O Kaiser n\u00e3o caiu em novembro de 1918 por causa de uma conspira\u00e7\u00e3o judaica ou revolucion\u00e1ria, mas por causa de sua pr\u00f3pria falta de vontade de poder. O abandono da teoria da facada deveu-se ao cuidado com que os nazistas se dirigiam a um eleitorado que havia sofrido a guerra na frente ou na retaguarda e podia ficar ofendido por acusa\u00e7\u00f5es de trai\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas a aceita\u00e7\u00e3o inicial que essa teoria gozou deriva de uma s\u00e9rie de condi\u00e7\u00f5es especiais de recep\u00e7\u00e3o. Em particular, a derrota militar foi recebida com surpresa por uma popula\u00e7\u00e3o anestesiada pela censura e propaganda de guerra t\u00e3o bem-sucedida que n\u00e3o a preparou para o resultado e alimentou as divaga\u00e7\u00f5es paranoicas subsequentes. \u00c9 verdade que os alem\u00e3es ainda ocupavam vastos territ\u00f3rios estrangeiros no final da guerra; por outro lado, a Revolu\u00e7\u00e3o Russa e a assinatura dos tratados de Brest-Litovsk em mar\u00e7o de 1918 permitiram-lhes transferir para o oeste as tropas engajadas naquela frente e recuperar a iniciativa. Mas a ofensiva militar alem\u00e3 foi um fracasso. Embora a certa altura parecesse que Paris estava ao alcance de seu ex\u00e9rcito, entre mar\u00e7o e julho perdeu um milh\u00e3o de homens e seus melhores destacamentos. Os soldados come\u00e7aram a invadir trens de suprimentos e a desertar. No in\u00edcio de setembro, o comandante supremo Erich Ludendorff informou a Berlim que n\u00e3o era mais poss\u00edvel vencer: a chegada das tropas estadunidense e a incorpora\u00e7\u00e3o de tanques aliados tornaram as perspectivas mais sombrias. Em 11 de novembro, a Alemanha capitulou; dois dias antes, no dia 9, estourou uma revolu\u00e7\u00e3o que derrubou a monarquia. Essa sequ\u00eancia encorajou a ideia de que os esquerdistas estavam por tr\u00e1s do desastre, pois j\u00e1 vinham minando a capacidade de lutar com a agita\u00e7\u00e3o social que desencadearam. Essa explica\u00e7\u00e3o apenas destacou o grau de polariza\u00e7\u00e3o no cen\u00e1rio pol\u00edtico alem\u00e3o.<\/p>\n<p>A imagem da facada nas costas se baseia em uma cena de\u00a0<em>Crep\u00fasculo dos Deuses\u00a0<\/em>de Richard Wagner (Hagen ataca Siegfried com uma lan\u00e7a) e seu uso pol\u00edtico come\u00e7a quando os social-democratas conseguiram aprovar uma resolu\u00e7\u00e3o no Reichstag pedindo a paz negociada em junho de 1917. Os comandantes militares come\u00e7aram ent\u00e3o a argumentar que a frente interna \u2014 tamb\u00e9m incentivada por outros traidores de esquerda e pacifistas \u2014 estava minando a capacidade de combate. Ap\u00f3s o colapso, o ent\u00e3o marechal Paul von Hindenburg defendeu no Parlamento a teoria da \u201cfacada\u201d em 1919. Mesmo uma personalidade como Max Weber aceitou essa teoria. No entanto, entre os conservadores havia vozes dissonantes que o repudiavam, como a do eminente historiador militar Hans Delbr\u00fcck, que carregava o peso do afundamento no chauvinismo e da incompet\u00eancia da lideran\u00e7a militar que, com a teoria da facada, pretendia apenas salvar sua reputa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Ascens\u00e3o e queda<\/strong><\/p>\n<p>Mais restrita no tempo e limitada no espa\u00e7o do que a vasta trajet\u00f3ria dos<em>\u00a0Protocolos<\/em>, a lenda da \u201capunhalada nas costas\u201d foi, no entanto, historicamente muito influente. Em contraste, a controv\u00e9rsia desencadeada ao interpretar um evento espec\u00edfico como o inc\u00eandio do Reichstag, no entanto, teve uma validade incrivelmente maior. Estendeu-se ao nosso tempo e, durante todo esse per\u00edodo, deu origem a uma imensa literatura de todos os tipos que Evans examina cuidadosamente.<\/p>\n<p>Na noite de 27 de fevereiro de 1933, o \u00faltimo deputado a deixar o pr\u00e9dio do Reichstag foi o l\u00edder da bancada comunista Ernst Togler; pouco depois, um funcion\u00e1rio da institui\u00e7\u00e3o deixou o local e s\u00f3 ficou o porteiro. Minutos depois das 21h, ouviu-se o som de vidro partindo-se e o fogo come\u00e7ou imediatamente. A pol\u00edcia que veio prendeu\u00a0<em>in situ<\/em>\u00a0o criminoso, um anarcossindicalista holand\u00eas chamando Marinus van der Lubbe, que j\u00e1 tinha um hist\u00f3rico de inc\u00eandio criminoso em sua luta contra o sistema. O tribunal que o julgou o considerou culpado e o sentenciou \u00e0 morte, j\u00e1 no dia seguinte ao inc\u00eandio. O novo chanceler Hitler recebeu a senten\u00e7a com indigna\u00e7\u00e3o; seu principal interesse era culpar o b\u00falgaro Georgi Dimitrov, l\u00edder da Internacional Comunista que mais tarde se refugiou na URSS e, depois da guerra, chefiou o novo governo de seu pa\u00eds. Os nazistas ainda n\u00e3o controlavam o aparato judici\u00e1rio. At\u00e9 agora esses s\u00e3o os fatos que Evans observa, mas eles, nesta hist\u00f3ria, como em todas as conspira\u00e7\u00f5es imagin\u00e1rias, pouco importam.<\/p>\n<p>Hitler assumiu o poder em uma posi\u00e7\u00e3o de debilidade e temia um golpe dos comunistas que ainda mantinham uma for\u00e7a consider\u00e1vel. Nas elei\u00e7\u00f5es de 1931, o Partido Comunista Alem\u00e3o (PC) conquistou seis milh\u00f5es de votos e cem cadeiras no Parlamento, enquanto os nazistas haviam perdido algumas posi\u00e7\u00f5es. A queima do Reichstag deu-lhes a desculpa perfeita para ordenar uma ofensiva contra seus inimigos. Hermann G\u00f6ring, ent\u00e3o presidente do Parlamento, lan\u00e7ou a pol\u00edcia contra o ativismo do PC e do resto da esquerda. Como n\u00e3o confiava na institui\u00e7\u00e3o, que considerava controlada pela social-democracia, contou com as tropas da SA para intensificar a ca\u00e7ada. O governo conservador liderado pela j\u00e1 idoso presidente Paul von Hindenburg \u2014 que havia nomeado Hitler como chanceler da Alemanha \u2014 decretou a supress\u00e3o das liberdades constitucionais e proibiu os partidos pol\u00edticos; o nazismo manteve a validade deste decreto at\u00e9 o seu colapso em 1945. Em 23 de mar\u00e7o, Hitler conseguiu investir-se de plenos poderes no Reichstag antes de dissolv\u00ea-lo na aus\u00eancia dos deputados comunistas. Como escreve Evans: \u201cO Terceiro Reich, portanto, foi constru\u00eddo com base em uma teoria da conspira\u00e7\u00e3o: a teoria de que os comunistas queimaram o Reichstag como o primeiro passo de um golpe que pretendia derrubar a Rep\u00fablica de Weimar\u201d.<\/p>\n<p>Por sua vez, a Internacional Comunista desenvolveu sua pr\u00f3pria teoria da conspira\u00e7\u00e3o com fundamentos mais convincentes, embora n\u00e3o menos falsos. Na pol\u00edtica, assim como nas narrativas policiais, geralmente prevalece a quest\u00e3o de quem se beneficia com esta ou aquela a\u00e7\u00e3o. A pergunta t\u00edpica do pesquisador se resume na express\u00e3o latina\u00a0<em>cui bono?\u00a0<\/em>O inc\u00eandio do Reichstag trouxe grandes vantagens para os nazistas. Que outro setor poderia ent\u00e3o t\u00ea-lo provocado? No julgamento de van der Lubbe, a aten\u00e7\u00e3o foi direcionada para um t\u00fanel que conectava a resid\u00eancia de G\u00f6ring ao Reichstag. Ficou comprovado que o tr\u00e2nsito estava dif\u00edcil e que ele n\u00e3o poderia ter sido usado para causar o evento. Mas o t\u00fanel forneceu um elemento inescap\u00e1vel em uma alega\u00e7\u00e3o de culpa nazista.<\/p>\n<p>As teorias da conspira\u00e7\u00e3o sobre o inc\u00eandio do Reichstag proliferaram na Alemanha do p\u00f3s-guerra. Eles tinham todos os elementos \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o para prosperar: testemunhas mortas, um criminoso maluco \u2013 segundo alguns, sob a influ\u00eancia da hipnose \u2013 e um partido que, sem d\u00favida, recebeu um impulso a partir desse evento. Por outro lado, as repres\u00e1lias nazistas haviam sido preparadas com anteced\u00eancia: a supress\u00e3o das liberdades, bem como a lista de ativistas a serem perseguidos. Isso n\u00e3o prova que foi um incidente deliberado?<\/p>\n<p>Evans diz que o que aconteceu foi mais que os nazistas estavam tramando uma ofensiva contra a esquerda e viram uma oportunidade adiant\u00e1-la devido ao inc\u00eandio; se aproveitaram do epis\u00f3dio para assumir o controle e eliminar a oposi\u00e7\u00e3o. O historiador alinha-se assim com a chamada interpreta\u00e7\u00e3o \u201cfuncionalista\u201d, proposta por Hans Mommsen, decano da historiografia alem\u00e3 sobre o Terceiro Reich, segundo a qual os nazistas agiram de forma oportunista. Em contraste, a vis\u00e3o \u201cintencionalista\u201d atribui todos os eventos \u00e0s maquina\u00e7\u00f5es de Hitler.<\/p>\n<p><strong>C<\/strong><strong>ontrov\u00e9rsias sem fim<\/strong><\/p>\n<p>As controv\u00e9rsias sobre os dois epis\u00f3dios seguintes analisados por Evans tamb\u00e9m continuam at\u00e9 hoje. A viagem de Hess para a Esc\u00f3cia de Augsburg em um ca\u00e7a pesado Messerschmitt adaptado com tanques de combust\u00edvel extras \u00e9 a primeira delas. Hess n\u00e3o conseguiu ver a pista de pouso programada e saltou de paraquedas; os avi\u00f5es da Royal Air Force que, alertados pelo radar, foram intercept\u00e1-lo n\u00e3o conseguiram localiz\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Hess tomou a decis\u00e3o de voar por conta pr\u00f3pria, diz Evans. Seu objetivo era formular uma proposta de paz aos brit\u00e2nicos. Ele se ofereceu para manter o imp\u00e9rio em troca de n\u00e3o interferir no controle nazista sobre a Europa. A oferta foi imediatamente rejeitada. N\u00e3o havia ala suscet\u00edvel a isso no governo brit\u00e2nico como Hess imaginava, e uma invas\u00e3o alem\u00e3 n\u00e3o era mais temida para justificar a reaproxima\u00e7\u00e3o a fim de evit\u00e1-la. De sua parte, Hitler n\u00e3o teve impacto na opera\u00e7\u00e3o e quando soube da not\u00edcia reagiu com uma t\u00edpica explos\u00e3o de raiva. Hess, por outro lado, nunca invocou ordens de Hitler, que estava focado no que seria a maior invas\u00e3o terrestre da hist\u00f3ria: o ataque \u00e0 URSS lan\u00e7ado em 22 de junho de 1941.<\/p>\n<p>A especula\u00e7\u00e3o paranoica sobre o voo de Hess se alastrou desde o in\u00edcio. De fato, a maior usina de propaga\u00e7\u00e3o de um suposto acordo entre Alemanha e Gr\u00e3-Bretanha foi o Kremlin. Sem d\u00favida, Hitler havia enviado Hess, ou talvez isso fosse uma encena\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os secretos brit\u00e2nicos para explorar uma resposta alem\u00e3, e Hess era apenas um bispo em um tabuleiro maior. Se um acordo fosse selado, a Gr\u00e3-Bretanha poderia ser considerada segura e Hitler concentraria seus esfor\u00e7os na destrui\u00e7\u00e3o do inimigo estrat\u00e9gico comum: a URSS. Se essa explica\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica tinha motiva\u00e7\u00f5es pol\u00edticas compreens\u00edveis e imediatas, outras vis\u00f5es conspirat\u00f3rias tiveram posteriormente \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o todos os ingredientes necess\u00e1rios para ascender ao del\u00edrio: documentos inacess\u00edveis, classificados como \u201cultrassecretos\u201d ou fontes suscet\u00edveis a todo tipo de superinterpreta\u00e7\u00e3o. Somado a isso, eles tinham um car\u00e1ter popular por ser um dos poucos l\u00edderes nazistas com fama de honesto, embora inclinado \u00e0 astrologia. Hess passou o resto de sua vida na pris\u00e3o de Spandau, onde cometeu suic\u00eddio em 1987, aos 93 anos. Hip\u00f3teses loucas tamb\u00e9m foram tecidas sobre isso: ele n\u00e3o teria realmente sido assassinado por ordem de Margaret Thatcher? O morto era o velho l\u00edder nazista ou s\u00f3sia? Normalmente, os analistas paranoicos alimentam seus argumentos com as \u201cevid\u00eancias\u201d apresentadas por outros.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio final que Evans analisa, e de longe aquele que ainda provoca especula\u00e7\u00f5es de todos os tipos, \u00e9 o destino de Hitler. Em 30 de abril de 1945, o almirante Karl D\u00f6nitz, nomeado sucessor, anunciou pelo r\u00e1dio que Hitler havia morrido lutando contra o bolchevismo \u201cat\u00e9 o fim\u201d. Ignorando seus pr\u00f3prios relatos sovi\u00e9ticos de sua morte, Stalin disse a um enviado estadunidense que Hitler estava, sem d\u00favida, escondido em algum lugar. Sua inten\u00e7\u00e3o, diz Evans, era apresent\u00e1-lo como um covarde que havia fugido diante do colapso iminente e, ali\u00e1s, endurecer o tratamento aos alem\u00e3es diante da possibilidade de retorno do l\u00edder nazista. O medo de uma reedi\u00e7\u00e3o do mito do rei fugindo da morte (Arthur, Barbarossa) ou do chefe que retorna \u2014 o \u201cefeito Napole\u00e3o\u201d \u2014 deixou os Aliados no limite, muito preocupados em encontrar os restos mortais de Hitler. Al\u00e9m da incerteza inicial que Stalin semeou, as especula\u00e7\u00f5es sobre seu paradeiro se multiplicaram. Ele fugiu para a Col\u00f4mbia ou Indon\u00e9sia? Estaria em uma base subterr\u00e2nea na Ant\u00e1rtida? A ilus\u00e3o mais difundida era que Hitler chegou \u00e0 Argentina de submarino e terminou seus dias em um rancho secreto perto da cidade patag\u00f4nica de Bariloche.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, foi produzida ao longo dos anos uma bibliofotografia extensa e disparatada sobre o assunto. O tema tornou-se um neg\u00f3cio lucrativo para a ind\u00fastria do entretenimento que lhe dedicou epis\u00f3dios de s\u00e9ries e at\u00e9 filmes, v\u00e1rios deles produzidos em nosso s\u00e9culo, ainda mais pr\u00f3digo que o anterior em produ\u00e7\u00f5es sobre o tema. A web provou ser um meio ideal para a divulga\u00e7\u00e3o de absurdos e falsidades em maior escala, com alcance geogr\u00e1fico ilimitado e em tempo real. As evid\u00eancias exibidas, como \u00e9 costume neste g\u00eanero, s\u00e3o geralmente declara\u00e7\u00f5es de segunda m\u00e3o, repeti\u00e7\u00f5es fragment\u00e1rias de outros discursos paranoicos. Muitas vezes, os autores tamb\u00e9m s\u00e3o f\u00e3s das ci\u00eancias ocultas e da \u201cufologia\u201d ou propagandistas ativos da direita radical que tamb\u00e9m inventam conspira\u00e7\u00f5es in\u00e9ditas sobre o assassinato de Kennedy ou os ataques \u00e0s Torres G\u00eameas em 2001, criando um efeito de avalanche entre seu p\u00fablico.<\/p>\n<p>A documenta\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica s\u00f3 se tornou acess\u00edvel ap\u00f3s o colapso da URSS e continha depoimentos de testemunhas da crema\u00e7\u00e3o do cad\u00e1ver de Hitler, um fim que ele aparentemente escolheu para evitar uma profana\u00e7\u00e3o como a que Mussolini e sua amante sofreram em abril de 1945 nas m\u00e3os dos partisanos. Seu copeiro de campo garantiram aos investigadores sovi\u00e9ticos que ele havia se matado com um tiro depois de administrar cianeto a seu cachorro Blondi; sua nova esposa Eva Braun tamb\u00e9m morreu envenenada no mesmo quarto. Os aliados recuperaram peda\u00e7os dent\u00e1rios que confirmaram a identidade do cad\u00e1ver de Hitler cujos restos, como escreveu seu grande bi\u00f3grafo Ian Kershaw, cabem em uma caixa de cigarros.<\/p>\n<p><strong>F<\/strong><strong>uturos passados<\/strong><\/p>\n<p>As conspira\u00e7\u00f5es descartam o papel do acaso; para elas \u00e9 inaceit\u00e1vel que algo aconte\u00e7a por casualidade. Um acidente torna-se inconceb\u00edvel; seria antes uma desculpa para esconder algum ato volunt\u00e1rio. De acordo com esse racionalismo, ao mesmo tempo extremo e delirante, tudo o que acontece \u00e9 deliberado, n\u00e3o h\u00e1 erros humanos. A a\u00e7\u00e3o insana de um indiv\u00edduo s\u00f3 pode ser aceit\u00e1vel para uma mentalidade muito inocente ou sem reflex\u00e3o: sempre h\u00e1 um plano sombrio acontecendo nos bastidores. Interpreta\u00e7\u00f5es simples s\u00e3o suspeitas e as vers\u00f5es oficiais est\u00e3o apenas tentando semear a confus\u00e3o. O conspiracionismo busca refor\u00e7ar os preconceitos e a autoestima de quem neles acredita. Apenas alguns est\u00e3o com a verdade e esse c\u00edrculo seleto acrescenta o reconhecimento m\u00fatuo de sua identidade e um sentimento de pertencimento.<\/p>\n<p>Evans se concentra nos altos e baixos de cinco loucuras paranoicas de seriedade indubit\u00e1vel, mas n\u00e3o lida com essas conspira\u00e7\u00f5es que ocorreram e cuja realidade \u00e9 apoiada por abundantes evid\u00eancias que as colocam fora de discuss\u00e3o. Um delas, que faz parte do recorte temporal que o historiador examina, \u00e9 o ataque perpetrado no<em>\u00a0bunker<\/em>\u00a0de Hitler ao meio-dia de uma quinta-feira, em 20 de julho de 1944. A chamada Opera\u00e7\u00e3o Valqu\u00edria falhou. A bomba plantada pelo chefe do ex\u00e9rcito de reserva de Berlim Claus von Stauffenberg explodiu sem atingir o objetivo de eliminar Hitler para acabar com uma guerra que j\u00e1 era considerada perdida. Tanto ele quanto seus c\u00famplices foram executados.<\/p>\n<p>Em seu ensaio sobre a trama, Piglia chama a aten\u00e7\u00e3o para o fato \u00f3bvio de que as conspira\u00e7\u00f5es fazem parte tanto da vida pol\u00edtica geral do Estado quanto daqueles revolucion\u00e1rios que buscam desafiar esse poder organizando-se na clandestinidade. Por sua vez, o fil\u00f3sofo Norberto Bobbio refletiu em seu livro\u00a0<em>Democracia\u00a0<\/em><em>e<\/em><em>\u00a0se<\/em><em>gredo<\/em>\u00a0sobre o que chamou de\u00a0<em>sottogoverno<\/em>, a rede de conspira\u00e7\u00f5es de l\u00edderes e opera\u00e7\u00f5es dos servi\u00e7os secretos que buscam influenciar a orienta\u00e7\u00e3o do Estado. Um verdadeiro \u201csubgoverno\u201d que atua paralelamente ao oficial e gera climas sociais ou promove medidas, longe de qualquer visibilidade democr\u00e1tica, e que tentam definir o curso dos acontecimentos. Os\u00a0<em>arcana imperii\u00a0<\/em>\u2014 segredos de poder \u2014, reconhecidos desde os tempos antigos, n\u00e3o podem ser descartados; um diagn\u00f3stico seria incompleto sem integrar essa dimens\u00e3o. No entanto, ao lado desse lado enigm\u00e1tico da pol\u00edtica, opaco, mas real, s\u00e3o elucidadas narrativas delirantes que muitas vezes apontam para um objetivo espec\u00edfico, mas, sem d\u00favida, cumprem a fun\u00e7\u00e3o de encher de ru\u00eddos, confus\u00e3o e f\u00faria a conversa hist\u00f3rica e social. Esta \u00e9 a vari\u00e1vel que o livro de Evans tenta destacar, cuja vis\u00e3o retrospectiva \u00e9 altamente atual.<\/p>\n<p>Na era da \u201cp\u00f3s-verdade\u201d e dos \u201cfatos alternativos\u201d proliferam as an\u00e1lises pol\u00edticas que procuram rep\u00f4r uma explica\u00e7\u00e3o s\u00f3lida, mas s\u00e3o inabituais as considera\u00e7\u00f5es geneal\u00f3gicas. O primeiro ensaio sobre o tema da paranoia pol\u00edtica registrado em\u00a0<em>Hitler e nas teorias da conspira\u00e7\u00e3o\u00a0<\/em>\u00e9\u00a0<a href=\"http:\/\/users.clas.ufl.edu\/burt\/spaceshotsairheads\/HofstaderparanoidstyleHarpers.pdf\" rel=\"noreferrer noopener\">um artigo seminal de 1964 sobre o macarthismo<\/a>. \u00c9 impressionante, no entanto, que um conhecedor da cultura contempor\u00e2nea em l\u00edngua alem\u00e3 tenha esquecido as se\u00e7\u00f5es finais de\u00a0<em>Mass and Power<\/em>, a grande obra de El\u00edas Canetti, publicada em 1960. Tampouco faz refer\u00eancia \u00e0s obras de psicologia.<\/p>\n<p>Evans \u00e9 um not\u00e1vel historiador do Terceiro Reich (sua biografia de Eric Hobsbawm foi recentemente traduzida para o espanhol). Em seu livro, ele lida com uma quantidade avassaladora de fontes documentais de diferentes \u00e9pocas exibidas em uma narrativa simples e contundente. O interesse de seu estudo n\u00e3o se limita \u00e0 ilumina\u00e7\u00e3o de \u00e1reas obscuras do passado, mas tamb\u00e9m tenta esclarecer os mecanismos do racioc\u00ednio conspirat\u00f3rio. Hitler \u00e9 o grande protagonista da obra de Evans. Stalin faz apari\u00e7\u00f5es ocasionais em sua hist\u00f3ria, mas s\u00e7ao pouco cruciais; nada surpreendente em um l\u00edder que se acreditava cercado de traidores e conspira\u00e7\u00f5es no pr\u00f3prio Kremlin. A d\u00e9cada de 1930 foi rica em conspira\u00e7\u00f5es e lideran\u00e7as paranoicas; o s\u00e9culo 21 parece estar se movendo firmemente na mesma dire\u00e7\u00e3o confusa.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: A paranoia pol\u00edtica, no passado e agora &#8211; Outras Palavras &#8211; https:\/\/outraspalavras.net\/historia-e-memoria\/paranoia-politica-ontem-e-hoje\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Fern\u00e1ndez Vega &#8211; Exame das teorias de conspira\u00e7\u00e3o no III Reich ajuda a entend\u00ea-las hoje. Congregam ressentidos, proliferam sob a despolitiza\u00e7\u00e3o e fragmenta\u00e7\u00e3o das sociedades. Mais que decad\u00eancia cultural, s\u00e3o sintomas da dissolu\u00e7\u00e3o da vida coletiva. O historiador brit\u00e2nico Richard J. 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