{"id":18026,"date":"2022-07-06T12:50:47","date_gmt":"2022-07-06T15:50:47","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18026"},"modified":"2022-07-09T18:16:08","modified_gmt":"2022-07-09T21:16:08","slug":"prefacio-de-a-que-custo-de-nicholas-freudenberg","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/07\/06\/prefacio-de-a-que-custo-de-nicholas-freudenberg\/","title":{"rendered":"Pref\u00e1cio de A que custo?, de Nicholas Freudenberg"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ladislau Dowbor<\/strong>\u00a0 &#8211; O capitalismo se tornou em grande parte disfuncional. Est\u00e1 com o crescimento estagnado, centrado mais nas movimenta\u00e7\u00f5es financeiras do que na produ\u00e7\u00e3o, gerando uma desigualdade explosiva, drenando os recursos naturais de maneira destrutiva, impotente em se reorganizar diante do aquecimento global, incapaz at\u00e9 hoje de se reinventar, preso \u00e0 l\u00f3gica da maximiza\u00e7\u00e3o de lucros corporativos a qualquer custo.\u00a0<a style=\"font-size: 16px;\" href=\"https:\/\/elefanteeditora.com.br\/produto\/a-que-custo\/\"><strong><em>A que custo?<\/em><\/strong><\/a><span style=\"font-size: 16px;\">\u00a0\u00e9 precisamente a pergunta que nos traz\u00a0<\/span><a style=\"font-size: 16px;\" href=\"https:\/\/elefanteeditora.com.br\/nicholas-freudenberg\/\">Nicholas Freudenberg<\/a><span style=\"font-size: 16px;\">\u00a0neste que \u00e9 um dos livros mais l\u00facidos que j\u00e1 li sobre os nossos desafios e os nossos caminhos. As quest\u00f5es-chave que enfrentamos s\u00e3o sistematizadas de maneira clara, com linguagem descomplicada e exemplos pr\u00e1ticos. O autor foge das simplifica\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas que t\u00eam frequentemente nos dividido. \u00c9 o nosso futuro que \u00e9 aqui colocado na mesa.<\/span><\/p>\n<p>Ainda que os Estados Unidos estejam no centro da an\u00e1lise, como o capitalismo \u00e9 hoje global, no quadro das corpora\u00e7\u00f5es transnacionais que dominam o conjunto da din\u00e2mica, o estudo abre perspectivas para todos n\u00f3s. Depois de apresentar os principais eixos de transforma\u00e7\u00e3o sist\u00eamica do capitalismo, Freudenberg orienta a an\u00e1lise dos diferentes setores de atividade em fun\u00e7\u00e3o do que \u00e9 importante para a humanidade: assegurar o bem-estar de todos, de forma sustent\u00e1vel. O pano de fundo \u00e9 a busca de uma vida saud\u00e1vel, o que envolve o essencial do nosso cotidiano: a alimenta\u00e7\u00e3o, a educa\u00e7\u00e3o, o sistema de sa\u00fade, o trabalho, os transportes, as rela\u00e7\u00f5es sociais. De certa forma, \u00e9 o p\u00e3o nosso de cada dia. A terceira parte se concentra nas transforma\u00e7\u00f5es mais recentes e nas esperan\u00e7as que se nutrem a partir delas, com uma vis\u00e3o de como a converg\u00eancia de tens\u00f5es do capitalismo abre espa\u00e7o para os movimentos sociais, a educa\u00e7\u00e3o, a ci\u00eancia e a pr\u00f3pria pol\u00edtica.<\/p>\n<p>N\u00e3o resisto \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de apresentar neste pref\u00e1cio o sonho que anima o autor, e que provavelmente nos anima a todos:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><em>Imagine, se puder, um mundo no qual o bem-estar das pessoas e do planeta seja a prioridade.<\/em><\/p>\n<p><em>Imagine um sistema alimentar que torne os alimentos saud\u00e1veis, cultivados de maneira sustent\u00e1vel e produzidos por trabalhadores dignamente remunerados, dispon\u00edveis e acess\u00edveis a todos.<\/em><\/p>\n<p><em>Imagine escolas e universidades que forne\u00e7am a todos os alunos os conhecimentos e as habilidades de que necessitam para atingir seu pleno potencial e contribuir para com suas comunidades e o mundo, e usar a educa\u00e7\u00e3o na busca por bem-estar e felicidade para si e para os outros.<\/em><\/p>\n<p><em>Imagine um sistema de sa\u00fade acess\u00edvel a todos, que fa\u00e7a da preven\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as e da melhoria da qualidade de vida seus maiores objetivos e ofere\u00e7a cuidados que permitam aos pacientes minimizar a carga das doen\u00e7as que eles enfrentam e a dor e o sofrimento por elas impostos.<\/em><\/p>\n<p><em>Imagine um emprego que pague aos trabalhadores o que eles precisam para uma vida decente; que garanta que o trabalho n\u00e3o adoe\u00e7a nem prejudique os envolvidos; que contribua para um mundo melhor e mais sustent\u00e1vel; que ofere\u00e7a caminhos para o progresso; e que permita que os trabalhadores se sindicalizem, cumpram suas fun\u00e7\u00f5es e desfrutem da vida pessoal e familiar.<\/em><\/p>\n<p><em>Imagine um sistema de transporte que facilite a circula\u00e7\u00e3o de todas as pessoas em seus bairros e cidades; e que torne as ruas acolhedoras, o ar, seguro para respirar, e o planeta, apto para a vida.<\/em><\/p>\n<p><em>Imagine, finalmente, uma maneira de se relacionar com as pessoas \u2014 fam\u00edlia, amigos, colegas, empresas, comunidades e o mundo\u00a0\u2014\u00a0que n\u00e3o exija o sacrif\u00edcio da sa\u00fade mental, da autoconfian\u00e7a, da privacidade, da dignidade, da paz c\u00edvica ou do acesso comercial aos detalhes mais \u00edntimos de nossa vida. (p. 454-5)<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Um sonho? Nem tanto. Para j\u00e1, temos amplamente os recursos financeiros necess\u00e1rios. Uma conta simples, mas perfeitamente realista, consiste em dividir o Produto Interno Bruto, valor da produ\u00e7\u00e3o anual de bens e servi\u00e7os, pela popula\u00e7\u00e3o. No mundo, o que hoje produzimos, noventa trilh\u00f5es de d\u00f3lares, dividido pela popula\u00e7\u00e3o, oito bilh\u00f5es, nos d\u00e1 o equivalente a vinte mil reais por m\u00eas a cada fam\u00edlia de quatro pessoas. No caso do Brasil, s\u00e3o onze mil reais. Ou seja, o que hoje produzimos, em termos econ\u00f4micos, permitiria assegurar a todos uma vida digna e confort\u00e1vel, bastando para isso uma muito moderada redu\u00e7\u00e3o da desigualdade. Poder\u00edamos utilizar a Renda Nacional L\u00edquida em vez do Produto Interno Bruto, ou incluir o estoque de infraestruturas existentes e fazer outros exerc\u00edcios cont\u00e1beis, mas o essencial \u00e9 que o que produzimos \u00e9 suficiente para todos. O nosso problema n\u00e3o \u00e9 econ\u00f4mico; \u00e9 de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social.<\/p>\n<p>Temos tamb\u00e9m as tecnologias necess\u00e1rias. No mundo conectado de hoje, e com o dinheiro virtual, fazer chegar o necess\u00e1rio a todas as fam\u00edlias n\u00e3o constitui obst\u00e1culo, como vimos inclusive com o\u00a0<span class=\"tooltipsall tooltipsincontent classtoolTips7\">Bolsa Fam\u00edlia<\/span>\u00a0no Brasil. N\u00e3o \u00e9 falta de tecnologia, e sim de defini\u00e7\u00e3o adequada de a que e a quem ela deve servir. E temos a informa\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria sobre os problemas cr\u00edticos: dispomos de estat\u00edsticas detalhadas sobre praticamente todo o planeta, inclusive dos rinc\u00f5es mais isolados. Temos, enfim, os caminhos tra\u00e7ados. Os dezessete Objetivos do Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (ods) detalham em 169 metas o que deve ser feito, inclusive os indicadores para o monitoramento dos avan\u00e7os. Ou seja, temos os recursos financeiros, tecnol\u00f3gicos e de informa\u00e7\u00e3o necess\u00e1rios, sabemos o que deve ser feito, mas estagnamos. N\u00e3o \u00e9 falta nem de meios nem de conhecimento, mas uma impot\u00eancia institucional, o travamento do pr\u00f3prio processo decis\u00f3rio da sociedade.<\/p>\n<p>Uma coisa \u00e9 analisar as trag\u00e9dias humanas e ambientais que assolam o planeta e se agravam rapidamente na din\u00e2mica atual do capitalismo. Outra \u00e9 pensar por que as trag\u00e9dias se aprofundam e que processo decis\u00f3rio gera a impot\u00eancia. A for\u00e7a do texto de Freudenberg reside em grande parte na capacidade de tomar cada um dos \u201csonhos\u201d que comp\u00f5em o bem-estar que buscamos, identificar a estrutura de poder que trava a transforma\u00e7\u00e3o, a articula\u00e7\u00e3o de interesses cruzados que causa a impot\u00eancia, e propor a partir da\u00ed os eixos de a\u00e7\u00e3o corretiva, bem como exemplos de iniciativas que t\u00eam dado certo. Pode parecer simplista, mas o trunfo deste livro \u00e9 a riqueza das informa\u00e7\u00f5es \u2014 o que demonstra um trabalho de pesquisa de primeira ordem. N\u00e3o se trata de um receitu\u00e1rio, e sim de uma vis\u00e3o estrat\u00e9gica bem informada. Como os argumentos em torno dos seis eixos do bem-estar est\u00e3o muito bem sistematizados no texto de Freudenberg, comentaremos a seguir a sua dimens\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>A alimenta\u00e7\u00e3o se apresenta de maneira particularmente cr\u00edtica. Em 2021, dezenove milh\u00f5es de pessoas passaram fome no Brasil, e 116 milh\u00f5es estavam em inseguran\u00e7a alimentar \u2014 ou seja, ora t\u00eam, ora n\u00e3o t\u00eam o que comer. Cerca de um quarto dessa popula\u00e7\u00e3o \u00e9 composto de crian\u00e7as. O impacto da desnutri\u00e7\u00e3o pode ser para toda a vida. Mas o Brasil produz, s\u00f3 de gr\u00e3os, mais de tr\u00eas quilos por pessoa por dia. Grande parte \u00e9 soja, o que faz parte do problema, mas s\u00f3 o que se produz de arroz e de feij\u00e3o seria amplamente suficiente. O problema \u00e9 que a comercializa\u00e7\u00e3o de alimentos \u00e9 feita por grandes grupos financeiros, os\u00a0<em>traders<\/em>, como BlackRock, Bunge e semelhantes, que veem o alimento como commodity cujo rendimento comercial deve ser maximizado. H\u00e1 uma d\u00e9cada, o d\u00f3lar estava a 2,5 reais, ao passo que em 2022 chegou a 5,5 reais: ou seja, o equivalente de um d\u00f3lar exportado rende o dobro, e os\u00a0<em>traders<\/em>\u00a0desviam o produto para os mercados internacionais. As corpora\u00e7\u00f5es do agroneg\u00f3cio conseguiram, com a Lei Kandir, de 1995, que a produ\u00e7\u00e3o para exporta\u00e7\u00e3o seja isenta de impostos. O resultado \u00e9 que um dos maiores produtores de alimentos do mundo tenha mais da metade de sua popula\u00e7\u00e3o com fome ou em situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar.<\/p>\n<p>A carne e a soja dependem diretamente de grandes corpora\u00e7\u00f5es cotadas no mercado internacional, como a JBS. A maximiza\u00e7\u00e3o dos dividendos para os acionistas, nacionais e internacionais, privilegia a exporta\u00e7\u00e3o e leva \u00e0 expans\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o de gado e do plantio de soja, o que por sua vez gera impactos ambientais desastrosos, poucos empregos, pouco retorno para os cofres do Estado, e fome. Lembrando que, no Brasil, com 353 milh\u00f5es de hectares de estabelecimentos agr\u00edcolas, 225 milh\u00f5es de hectares de solo cultiv\u00e1vel e apenas 63 milh\u00f5es de hectares de uso para lavoura, temos cerca de 160 milh\u00f5es de hectares de solo agr\u00edcola parado ou subutilizado com pecu\u00e1ria extensiva. No conjunto, \u00e9 um sistema em que a prioridade das corpora\u00e7\u00f5es financeiras nacionais e internacionais levou ao div\u00f3rcio entre a produ\u00e7\u00e3o, o uso racional do solo, o meio ambiente e a alimenta\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o. Esse sistema fraturado ilustra perfeitamente o primeiro dos \u201cpilares\u201d a que se refere Freudenberg.<\/p>\n<p>No plano da educa\u00e7\u00e3o, as tend\u00eancias no Brasil acompanham muito de perto as tend\u00eancias que o autor apresenta no plano internacional e nos Estados Unidos: privatiza\u00e7\u00e3o, reorienta\u00e7\u00e3o de conte\u00fados, venda de pacotes de gest\u00e3o e de curr\u00edculos, o que reduz a autonomia das escolas, dos munic\u00edpios e dos professores. No plano financeiro, o endividamento dos alunos \u00e9 menos grave do que nos Estados Unidos, mas a compra de escolas, col\u00e9gios e universidades \u00e9 muito acelerada, gerando uma educa\u00e7\u00e3o centrada na maximiza\u00e7\u00e3o de lucros. A penetra\u00e7\u00e3o de novas tecnologias, que poderia assegurar a gest\u00e3o em rede, com a gera\u00e7\u00e3o de um ambiente colaborativo e interativo de constru\u00e7\u00e3o de conhecimento, tende, com a privatiza\u00e7\u00e3o e a internacionaliza\u00e7\u00e3o, a privilegiar a competi\u00e7\u00e3o e a oligopoliza\u00e7\u00e3o pela compra de concorrentes.<\/p>\n<p>Em termos sociais, o resultado \u00e9 o aprofundamento do fosso entre a educa\u00e7\u00e3o para pobres e a educa\u00e7\u00e3o para ricos, refletindo a desigualdade de renda e de riqueza que predomina no Brasil, s\u00e9timo pa\u00eds mais desigual do mundo. Essa cristaliza\u00e7\u00e3o da desigualdade por meio da educa\u00e7\u00e3o, atingindo assim a pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o, \u00e9 catastr\u00f3fica quando consideramos que o conjunto das atividades econ\u00f4micas no mundo evolui rapidamente para uma maior densidade em conhecimento. Como o pa\u00eds n\u00e3o tem investido, nos \u00faltimos anos, em ci\u00eancia e tecnologia, um efeito indireto \u00e9 a perda de soberania sobre um conjunto de atividades de ponta. Tamb\u00e9m aqui a prioridade \u00e9 o rendimento financeiro e a reprodu\u00e7\u00e3o de elites, e n\u00e3o o avan\u00e7o cient\u00edfico-tecnol\u00f3gico geral.<\/p>\n<p>No quadro da sa\u00fade, Freudenberg utiliza o c\u00e2ncer \u2014 segunda causa de mortes no pa\u00eds atualmente \u2014 como vetor de an\u00e1lise do funcionamento do sistema sanit\u00e1rio nos Estados Unidos, mostrando de forma geral como sua apropria\u00e7\u00e3o por corpora\u00e7\u00f5es financeiras criou pol\u00edticas tecnologicamente avan\u00e7adas, mas car\u00edssimas e de acesso limitado. O autor menciona o fato de que 80% dos casos de c\u00e2ncer s\u00e3o relacionados com causas externas, em particular a contamina\u00e7\u00e3o qu\u00edmica, o tabaco e outras, ligadas ao comportamento do agroneg\u00f3cio. Como ordem de grandeza, no Brasil a metade do financiamento da sa\u00fade vai para um quarto da popula\u00e7\u00e3o, os 47\u00a0milh\u00f5es que pagam planos privados.<\/p>\n<p>O SUS \u00e9 de uma efici\u00eancia muito superior, em termos de custo\/benef\u00edcio, mas a sua a\u00e7\u00e3o \u00e9 travada pela lei do teto de gastos, a Emenda Constitucional 95, que congelou praticamente todos os recursos at\u00e9 2036, enquanto as pr\u00f3prias pol\u00edticas governamentais, que priorizam a remunera\u00e7\u00e3o de grupos financeiros, reduziram as transfer\u00eancias do governo. Para se ter uma ideia do que estamos falando, o or\u00e7amento p\u00fablico de sa\u00fade em 2022 \u00e9 de 160 bilh\u00f5es de reais, enquanto o aumento dos lucros de 42 bilion\u00e1rios brasileiros, entre 18 de mar\u00e7o e 12 de julho de 2020, j\u00e1 na pandemia, foi de 180 bilh\u00f5es \u2014 para deixar claro: em quatro meses, fonte de intermedia\u00e7\u00e3o financeira mais do que de produ\u00e7\u00e3o, sem pagar impostos (desde 1995, lucros e dividendos distribu\u00eddos s\u00e3o isentos). Aqui, como nas outras \u00e1reas, vemos como a desigualdade estrutural tende a se cristalizar na divis\u00e3o entre ricos e pobres, com forte e crescente participa\u00e7\u00e3o de acionistas que buscam a maximiza\u00e7\u00e3o dos dividendos.<\/p>\n<p>\u00c9 importante mencionar que a privatiza\u00e7\u00e3o transforma esses grupos em sociedades com a\u00e7\u00f5es cotadas na bolsa, o que permite que sejam controlados por grupos internacionais. O sistema passa assim a responder aos interesses financeiros dos gestores de ativos, como a BlackRock, em vez de ser organizado em fun\u00e7\u00e3o das necessidades de qualidade de vida da popula\u00e7\u00e3o. Em busca de dinheiro, os servi\u00e7os de sa\u00fade priorizam os interesses das elites. De certa forma, as elites se refor\u00e7am nas conex\u00f5es financeiras e tecnol\u00f3gicas no exterior e se desresponsabilizam dos interesses da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O trabalho, outra \u00e1rea analisada por Freudenberg, apresenta no Brasil condi\u00e7\u00f5es particularmente absurdas. A orienta\u00e7\u00e3o geral dos \u00faltimos governos \u00e9 de que se deve deixar \u201cos mercados\u201d resolverem os desequil\u00edbrios. Mas os dados s\u00e3o claros. Para uma popula\u00e7\u00e3o total de 213 milh\u00f5es, o Brasil tem cerca de 150 milh\u00f5es de pessoas em idade de trabalho (entre 16 e 64 anos, no crit\u00e9rio da ONU) e 106 milh\u00f5es na for\u00e7a de trabalho, pessoas que ou trabalham ou buscam emprego. Mas o pa\u00eds tem apenas 33 milh\u00f5es de empregos formais privados. Acrescentando onze milh\u00f5es de empregos p\u00fablicos, s\u00e3o 44 milh\u00f5es formalmente empregados. Por outro lado, quarenta milh\u00f5es est\u00e3o no setor informal, pessoas que simplesmente \u201cse viram\u201d, sem direitos ou prote\u00e7\u00e3o social, e com um rendimento m\u00e9dio que \u00e9 a metade do que se aufere no setor formal da economia. Aos quarenta milh\u00f5es devemos acrescentar quinze milh\u00f5es de desempregados e seis milh\u00f5es de desalentados, que querem trabalhar mas desistiram de procurar.<\/p>\n<p>No conjunto, a subutiliza\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho \u00e9 da ordem de sessenta milh\u00f5es de pessoas, absurdo mal disfar\u00e7ado com iniciativas como o microempreendedor individual, MEI, e \u00adparticipando do universo qualificado de \u201cprecariado\u201d. \u00c9 interessante cruzar esse dado com a subutiliza\u00e7\u00e3o do solo agr\u00edcola: os 160 milh\u00f5es de hectares mencionados acima representam cinco vezes o territ\u00f3rio da It\u00e1lia. O pa\u00eds tem uma imensid\u00e3o de coisas a fazer, terra parada, capitais empatados em rendimentos financeiros, in\u00fameras atividades intensivas em m\u00e3o de obra, como saneamento b\u00e1sico, cintur\u00f5es verdes em torno das cidades, pessoas desesperadas por fazer algo de \u00fatil \u2014 mas est\u00e1 esperando \u201cos mercados\u201d. A exclus\u00e3o produtiva generalizada impacta por sua vez e de forma dram\u00e1tica a qualidade de vida das pessoas, tanto pela renda insuficiente como pelo sentimento permanente de inseguran\u00e7a das fam\u00edlias quanto ao futuro.<\/p>\n<p>O quinto eixo analisado por Freudenberg, o dos transportes, \u00e9 igualmente aplic\u00e1vel ao Brasil. O pa\u00eds, por press\u00e3o das corpora\u00e7\u00f5es, optou pela composi\u00e7\u00e3o intermodal mais cara e menos produtiva. Para o transporte de carga, a op\u00e7\u00e3o foi pela estrada e pelo caminh\u00e3o, o que \u00e9 incomparavelmente mais caro do que a ferrovia e a cabotagem, lembrando que os principais centros urbanos do pa\u00eds s\u00e3o portu\u00e1rios ou semiportu\u00e1rios, como no eixo S\u00e3o Paulo\/Santos. No caso da matriz de transporte de pessoas, a op\u00e7\u00e3o, por interesse das montadoras internacionais, foi privilegiar o transporte individual por autom\u00f3vel, lucrando com as elites e a classe m\u00e9dia que podiam comprar carros, fragilizando o transporte coletivo. No caso de S\u00e3o Paulo e outras cidades, inclusive, removeram-se os trilhos de bondes para refor\u00e7ar a op\u00e7\u00e3o do transporte individual. Os bondes, transporte el\u00e9trico e coletivo, s\u00e3o amplamente utilizados em cidades ricas. A Rede Nossa S\u00e3o Paulo mostrou que o paulistano m\u00e9dio perde no transporte 2h43 minutos por dia \u00fatil, tempo em que n\u00e3o trabalha, n\u00e3o estuda, n\u00e3o est\u00e1 com a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>O impacto na qualidade de vida \u00e9 violento. Uma pessoa que mora em Cidade Tiradentes, periferia de S\u00e3o Paulo, levanta \u00e0s 5h para estar \u00e0s 8h nos bairros onde h\u00e1 empregos, volta para casa \u00e0s 20h, adormece no sof\u00e1 vendo bobagens na tv. Daqui a pouco s\u00e3o 5h novamente. Que vida de fam\u00edlia pode haver nessas condi\u00e7\u00f5es, que capacidade de recupera\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, que espa\u00e7o para lazer e enriquecimento cultural? A quest\u00e3o dos transportes coloca assim tanto a op\u00e7\u00e3o pelo transporte individual como a organiza\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio urbano, a localiza\u00e7\u00e3o dos empregos e, evidentemente, o sistema de especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria que grava nos espa\u00e7os urbanos a desigualdade herdada. No conjunto, com as decis\u00f5es sobre as op\u00e7\u00f5es de transporte dependentes das corpora\u00e7\u00f5es interessadas, e no quadro da desigualdade, o resultado \u00e9 uma profunda irracionalidade, custos mais elevados e muito sofrimento na base da sociedade. Lembrando que o carro que entulha nossas ruas e nos paralisa \u00e9 usado apenas 5% do tempo, em m\u00e9dia; em 95% do tempo apenas ocupa espa\u00e7o.<\/p>\n<p>O \u00faltimo eixo se refere \u00e0s conex\u00f5es sociais, \u00e1rea que se tornou crucial nos \u00faltimos tempos. Lembremos que nesta \u00e1rea estamos plenamente dependentes do gafam (Google, Amazon, Facebook, Apple e Microsoft), todas estadunidenses que apresentam lucros estratosf\u00e9ricos. O uso do Facebook, por exemplo, pode parecer gratuito, mas os seus gigantescos lucros s\u00e3o pagos por empresas de publicidade, cujos custos s\u00e3o repassados aos produtos que compramos. N\u00e3o h\u00e1 almo\u00e7o gr\u00e1tis, e quem paga esses gigantes somos n\u00f3s. A efici\u00eancia dos grupos vem da comercializa\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es privadas, uma nova ind\u00fastria t\u00e3o bem descrita por Shoshana Zuboff em\u00a0<em>A era do capitalismo de vigil\u00e2ncia<\/em>. O monop\u00f3lio planet\u00e1rio que se criou \u00e9 compreens\u00edvel: como se trata de comunica\u00e7\u00e3o, somos obrigados a utilizar o que os outros utilizam, gerando um monop\u00f3lio de demanda. E, como n\u00e3o podemos dar um passo no computador ou no celular sem autorizar os\u00a0<em>cookies\u00a0<\/em>a acessar tudo o que fazemos, a manipula\u00e7\u00e3o comercial, financeira e pol\u00edtica se generalizou.<\/p>\n<p>Os perfis individualizados permitem aos algoritmos refor\u00e7ar o consumismo; a informa\u00e7\u00e3o da nossa situa\u00e7\u00e3o financeira permite discrimina\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os; os perfis pol\u00edticos, sociais e emocionais permitem a degrada\u00e7\u00e3o da democracia. Gerou-se atomiza\u00e7\u00e3o social, fragmenta\u00e7\u00e3o do conv\u00edvio, sentimento de solid\u00e3o e de inseguran\u00e7a. A tend\u00eancia \u00e9 agravada pela eros\u00e3o do conv\u00edvio familiar. Onde antes havia o cl\u00e3 familiar e a presen\u00e7a vibrante de av\u00f4s, tios, netos, brigas e gargalhadas, hoje temos o domic\u00edlio m\u00e9dio com tr\u00eas pessoas no Brasil (duas pessoas na Europa), muitos solit\u00e1rios, grande parte com m\u00e3es s\u00f3s com os filhos. Essa desagrega\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia ampla, tend\u00eancia planet\u00e1ria, \u00e9 mal compensada pelo celular e pelas conex\u00f5es on-line. A eros\u00e3o da fam\u00edlia e das comunidades engendra outra realidade.<\/p>\n<p>Os seis eixos que Freudenberg analisa permitem entender os desafios, os mecanismos e as oportunidades. A parte final do livro desenha as linhas de a\u00e7\u00e3o poss\u00edveis, mostrando que h\u00e1 in\u00fameras iniciativas, que raramente aparecem na m\u00eddia comercial dependente da publicidade das corpora\u00e7\u00f5es, mas que apontam caminhos poss\u00edveis. Este \u00e9, essencialmente, um livro realista. Vivemos momentos cr\u00edticos, ou, melhor dizendo, uma converg\u00eancia de crises que se aprofundam e retroalimentam. A cat\u00e1strofe ambiental resulta do aquecimento global, da perda de biodiversidade, do esgotamento de solos agr\u00edcolas por manejo predat\u00f3rio, da perda de cobertura florestal, da acidifica\u00e7\u00e3o e eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel dos oceanos, da polui\u00e7\u00e3o da \u00e1gua doce e do esgotamento dos aqu\u00edferos, dos pl\u00e1sticos e de outros res\u00edduos que contaminam os mares e as diferentes formas de vida, dos antibi\u00f3ticos na carne que comemos, de res\u00edduos de produtos farmac\u00eauticos que hoje se encontram nas mais variadas fontes de \u00e1gua. Somos hoje oito bilh\u00f5es de habitantes, oitenta milh\u00f5es a mais a cada ano; os desastres ambientais aumentam, e nos sentimos impotentes.<\/p>\n<p>Mas o mais importante \u00e9 entender o papel das corpora\u00e7\u00f5es e da organiza\u00e7\u00e3o social: como evitar o pl\u00e1stico se todo o sistema est\u00e1 baseado nele? Como reciclar o lixo se sabemos que a maior parte fica simplesmente misturada? Como evitar alimentos ultraprocessados se est\u00e3o em todas as prateleiras e op\u00e7\u00f5es de fast-food? As empresas que colocam antibi\u00f3ticos na ra\u00e7\u00e3o animal n\u00e3o conhecem os impactos? A Volkswagen n\u00e3o sabia dos impactos das emiss\u00f5es?<\/p>\n<p>Hoje temos as estat\u00edsticas, mas n\u00e3o o poder de mud\u00e1-las. A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) apresenta em detalhe os oito milh\u00f5es de mortes prematuras causadas pelo cigarro: sete milh\u00f5es de fumantes e 1,2 milh\u00e3o por exposi\u00e7\u00e3o passiva. Morrem cerca de 4,2 milh\u00f5es por polui\u00e7\u00e3o do ar, 3,6 milh\u00f5es por polui\u00e7\u00e3o da \u00e1gua: total de 15,8 milh\u00f5es por ano, com causas conhecidas e evit\u00e1veis. A obesidade, provocada em grande parte por alimentos industrializados, causa mais cinco milh\u00f5es de mortes prematuras. O c\u00e2ncer, em boa parte provocado por produtos qu\u00edmicos, gera dez milh\u00f5es de mortes anuais e hoje atinge at\u00e9 jovens e crian\u00e7as. As empresas que causam essas mortes conhecem perfeitamente os n\u00fameros. Mas a prioridade \u00e9 obter mais lucros e dividendos para os acionistas, grandes grupos financeiros. Todos eles assinam os princ\u00edpios de ESG (governan\u00e7a ambiental, social e corporativa, na sigla em ingl\u00eas).<\/p>\n<p>Freudenberg deixa clara a responsabilidade central das deforma\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>[\u2026] a globaliza\u00e7\u00e3o controlada pelas empresas, a financeiriza\u00e7\u00e3o, a desregulamenta\u00e7\u00e3o, a concentra\u00e7\u00e3o monopolista e a captura corporativa de novas tecnologias, caracter\u00edsticas que definem o capitalismo do \u00ads\u00e9culo xxi, s\u00e3o causas fundamentais de m\u00faltiplas e crescentes amea\u00e7as ao bem-estar. Essa uniformiza\u00e7\u00e3o justifica um forte enfoque sobre o sistema, que \u00e9 a causa subjacente. (p. 465)<\/p><\/blockquote>\n<p>E deixa igualmente claros os caminhos, que passam pela articula\u00ad\u00e7\u00e3o dos diversos movimentos sociais em torno dos nossos pro\u00adblemas cr\u00edticos:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Ao integrarem esfor\u00e7os para resolver os problemas que as pessoas enfrentam no dia a dia, com uma an\u00e1lise das realidades econ\u00f4micas, sociais e pol\u00edticas em transforma\u00e7\u00e3o, aqueles que buscam um mundo diferente podem alcan\u00e7ar melhorias a curto prazo enquanto preparam o cen\u00e1rio para mudan\u00e7as mais transformadoras no futuro. (p. 465-6)<\/p><\/blockquote>\n<p>O livro constitui uma excelente introdu\u00e7\u00e3o ao mundo real. O autor sonha, sem d\u00favida \u2014 ou, como escreve, \u201cimagina\u201d \u2014, mas \u00e9 um realista de m\u00e3o cheia, identifica os desafios, os mecanismos que geram os dramas, e aponta os caminhos. Trata-se do futuro de todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Pref\u00e1cio de A que custo?, de Nicholas Freudenberg, por Ladislau Dowbor &#8211; Editora Elefante &#8211; https:\/\/elefanteeditora.com.br\/prefacio-de-a-que-custo-de-nicholas-freudenberg-por-ladislau-dowbor\/?ct=t%28DAREDACAO_breno%2311_Tira%2323_Retratos_20201025_COPY_%29&amp;mc_cid=15478c699c&amp;mc_eid=0ac7cd7efd<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ladislau Dowbor\u00a0 &#8211; O capitalismo se tornou em grande parte disfuncional. 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